Category Archives: Ateísmo

Uma vez desmistificada a genealogia da verdade, resta admitir que ela não perde seu peso. Se digo que tenho duas pernas, posso questionar o que o numeral representa, bem como a que o substantivo se refere e, ainda, no que consiste a ação. Mas, sanadas todas essas dúvidas, dificilmente poderia negar a afirmação.

Admitindo condições normais, você, leitor, também possui duas pernas. E, claro, pode, por sua vez, passar por todas as indagações possíveis até concluir o raciocínio. Poderia dizer, então, que somos iguais, eu e você? É um belo questionamento que o senso comum deixa escapar.

Ora, a conclusão só faria sentido se o que se propõe comparar tiver relevância para o caso. Poderia dizer que tenho olhos e que sou igual, portanto, a tudo o que tiver olhos, não importando o quão diferentes sejam em número, tamanho, composição e capacidade. Em outras palavras, precisamos esvaziar alguns dos detalhes para abranger um número maior de unidades.

Há algum problema nisso? Teoricamente, nenhum. A menos que seja uma manobra consciente com fins de manipular o interlocutor. Acontece em boa parte do discurso político e, principalmente, no discurso ecumênico.

Mesmo dentro do cristianismo, há uma miríade de seitas e subdivisões de credos e confissões. Dogmas de certa interpretação não coadunam com os de outras, na maioria dos casos. Como a maioria dos ensinamentos é autocontraditória, é impossível alegar que todos estejam certos. O máximo que podemos afirmar é que só um deles é fundamentado no que se possa chamar de verdade, mas é quase certo que nenhum passe no teste de realidade que empreendemos para outras coisas.

Resta-lhes, então, esvaziar os detalhes. Afinal, todos não louvam o mesmo deus? Se consideramos “deus” como a noção de um ser superior para o qual devemos obediência e/ou adoração, quase todas as religiões conhecidas seriam idênticas entre si. Não preciso apontar as discrepâncias dessa noção com o que pode ser observado: diferem desde vestes e rituais típicos até comportamentos sociais e sanções para apóstatas.

Esse esvaziamento parece ser a etapa final de um relacionamento emocional. Tal como nossos amados, cujos detalhes ignoramos quando estamos apaixonados, a ideia vaga só se sustenta enquanto não se pede por detalhes. Uma simples pergunta aberta seria capaz de dividir os fieis nas mais diversas vertentes interpretativas.

Tomemos por exemplo os dogmas católicos. Dificilmente encontraremos alguém que os cumpra todos – não só pela dificuldade atual, mas pela total ignorância quanto a eles. Encontraremos, isso sim, fieis que escolhem aqueles que desejam seguir, baseados, principalmente, na capacidade de conciliação com a vida quotidiana. Voltando às nossas definições, tais pessoas não poderiam ser consideradas católicas, strictu sensu. Se assim afirmam no censo demográfico, é porque foram batizadas durante a infância e tendem a visitar igrejas em datas culturais.

Por nosso condicionamento, dificilmente razão e emoção se encontram. Em geral, separamos bem as duas esferas e desligamos uma sempre que a outra está em ação. Assim, não importa o quanto demonstremos a tal ou qual pessoa o quanto sua crença – não necessariamente religiosa – precisa ignorar detalhes para se sustentar, pois haverá sempre uma zona de (des)conforto que dará legitimidade ao forte apelo emocional.

Ignorar detalhes é uma forma econômica de levar a vida – não há dúvidas quanto a isso. É uma maneira simples e eficiente de encarar modelos artificiais impostos de fora para dentro e, ao mesmo tempo, ter noção de identidade para um grupo que precisa partilhar determinadas ideias.

Por que, então, investir tempo em um texto assim? Porque a maturidade consiste em estar consciente das limitações do condicionamento a que fomos submetidos e racionalmente investir em atitudes que visem a mudar o que não mais nos serve, o que se mostrou prejudicial e inadequado para o nosso projeto de vida. E, acima de tudo, porque não há simplesmente a inocência de quem segue tal condicionamento: há, no polo ativo, sempre alguém disposto a se aproveitar da ingenuidade e da ignorância alheia.

Pesquisadores da Universidade de Waterloo, no Canadá, disponibilizaram recentemente resultados preliminares de um estudo no qual 2563 ateus, agnósticos, humanistas, livre-pensadores e céticos responderam a um questionário pela internet.

Uma das primeiras informações interessantes é que apenas 25% dos não-crentes se autointitulam como ateus. Talvez essa tendência ocorra pelo fato de que a palavra “ateu” remeta a um sentimento de preconceito largamente arraigado na sociedade. Algo como: “tudo bem não acreditar em Deus, mas ser ateu é demais”.

Aproximadamente 30% dos respondentes teve consolidado o pensamento não-crente entre 16 e 20 anos.

O estudo também verificou que ateus são fortemente antiteístas e antirreligiosos, reportando, inclusive, atitudes hostis para com a religião e espiritualidade. Por exemplo, mais de 90% dos ateus entrevistados concordam que a religião se opõe ao progresso e às mudanças sociais. Agnósticos, por outro lado, tendem a ser menos hostis, possuindo uma tendência maior a serem indiferentes e, em alguns casos, até simpáticos com a religiosidade.

Os pesquisadores separaram as questões morais em dois tipos: Valores Individualizantes (igualdade, justiça, bondade e autonomia pessoal) e Valores de Ligação e Pureza (lealdade, pureza e respeito pela autoridade e tradição). Os ateus possuem forte tendência a respeitar os valores individualizantes, porém uma forte tendência a rejeitar os valores de ligação e pureza.

Obviamente, houve uma forte correlação negativa entre o ateísmo e a crença em vida após a morte. Entretanto, o que surpreende neste estudo é o fato de que 1,4% dos ateus afirmaram possuir alguma crença em vida após a morte e em espíritos; mas ainda mais surpreendente é o fato de esse número chegar a 29,2% para os outros não-crentes.

Este estudo demonstra uma forte diferença no modo de pensar entre ateus, agnósticos e outros descrentes. Fica bastante evidente que os ateus são mais confiantes e sentem ter tido algum benefício com sua descrença. Segundo os autores, essa confiança e sentimento de ganho foram especialmente fortes entre ateus e podem refletir a aceitação de uma visão coerente de mundo, possivelmente uma com base científica.

Ao final, o estudo separa aqueles que se autodenominaram ateus, agnósticos e ateus-agnósticos, para descobrir que as atitudes dos ateus-agnósticos são intermediárias aos outros dois. Quando falamos de Atitudes Antirreligiosas e espiritualidade, os ateus-agnósticos situam-se mais próximos dos ateus. No quesito confiança em seu sistema de crença, os ateus-agnósticos ficam exatamente entre os que se declaram somente ateus ou somente agnósticos.

O estudo completo está disponível aqui.

“Por que tantos tementes a deus?” Essa é uma pergunta muito boa. Nós, ateus, gostamos de debater sobre o assunto e expor nossas conclusões. Debatemos usando argumentos contra a existência de deus(es) e, principalmente, por que não é racionalmente aceitável acreditar em algum. Mas existe um fato que aparentemente derruba todas as nossas tentativas: existe uma boa quantidade de tementes a deus, deuses ou demais entidades sobrenaturais. Diante do fato de que a vasta maioria da humanidade acredita em deus ou deuses, nosso arsenal de argumentos parece quixotesco.

A resposta padrão de muitos ateus a essa questão é: os motivos racionais são poucos ou nenhum, mas os emocionais são muitos e são fortes. Eu me uso dessa resposta, pois realmente acho, depois de anos debatendo com teístas, que os motivos que levam à crença no sobrenatural são majoritariamente de caráter emocional. Uma boa porção deles insiste em dizer que não, possuem argumentos na ponta da língua, mas estão apenas querendo se enganar e, cedo ou tarde, acabam expressando que são, de fato, levados pela emoção.

Novamente, meu intuito não é rebater esses argumentos. Se algum teísta considerar que estou errado, sinta-se à vontade para postar seus argumentos nos comentários de nossos textos. Quero discutir o que seria essa tão falada motivação emocional. Ir além de simplesmente taxar a crença alheia como mera emoção e dar nome aos bois.

Bom, comecemos por um conceito muito desejado por nós: justiça. Queremos que os usurpadores paguem pelos seus atos e que os altruístas sejam recompensados. Tentamos fazer isso dentro de nossa sociedade com nossas próprias mãos, criando prisões e castigos para os primeiros, assim como honras e presentes para os últimos. Porém, reconhecemos nossas limitações e ansiamos por uma força promotora de justiça mais plena. Essa justiça tem que vir de algo maior que nós, mais poderoso e incorruptível. Esse “algo” normalmente é chamado de “Deus”.

Depois temos a curiosidade. A ambição citada no parágrafo anterior reflete uma característica marcante de nossa espécie, que é a vida em sociedade. O desejo de adquirir conhecimento amplo e seguro advém de outro aspecto nosso, que é a vontade de aprender. Dentro de uma sociedade majoritariamente cristã, é comum ouvir de muitos cristãos que o conteúdo da bíblia é uma verdade absoluta e que é tudo o que precisamos conhecer, que a sabedoria ali ensinada é mais profunda do que a mais brilhante eureca de um simples humano. Comicamente ouvimos muito frases do tipo: “no fim todos nós saberemos quem está certo”. É a crença de que, depois da morte, além da justiça feita teremos todas as respostas. Já falei um pouco sobre essa crença aqui (Porque não Acreditar, 5º parágrafo).

O terceiro desejo é a vontade de nunca deixar de existir. Em bom português: “o medo da morte”. Não me adentrarei nele, pois já dediquei três textos ao assunto (este, este e este). Só adianto que considero esse o desejo mais íntimo e o maior responsável pela crença no sobrenatural. Os três grandes desejos aqui comentados não são exclusividade de teístas. Ateus também os possuem. O que muda é que um deles aceita suas limitações e o outro abafa o fato com crenças sobrenaturais.

Portanto, como já devem ter percebido, podemos resumir esses três motivos como um desejo muito íntimo presente em todos nós. Uma fome muito grande por coisas que não vêm na quantidade que gostaríamos. Essa fome imensa que é a mãe de todas as fés. A justiça é rara, o conhecimento é pouco e a vida é curta. Essa fome se sacia acreditando que a justiça será feita, que todos os mistérios do mundo (ou ao menos os poucos que realmente interessam) podem ser desvendados e que a nossa existência não se finda com nossa morte. Essa crença poderia vir da maneira padronizada, através da lógica e da observação. O problema é que “lógica” e “observação” definitivamente não nos levam a concluir o que gostaríamos, então a nossa crença tem que vir do nada, é preciso ter fé. Tornamos uma dada limitação, que é a incapacidade de possuir um entendimento pleno sobre todas as coisas a nosso favor e colocamos os nossos anseios neste mar de ignorância que reconhecemos possuir. Nós, ateus, chamamos esse deus, que mora no incompreendido, de “deus-das-lacunas”. O que escapa nossa razão agora é algo sobrenatural e sacia a nossa fome. Ou pelo menos vai saciar, um dia quem sabe, basta ter fé e paciência…

Tenho uma caixa de ferramentas. Dentro dela: alicates, chaves-de-fenda, porcas, parafusos e um canivete. Sim, tenho mesmo poucas ferramentas, apesar de possuir diversos tipos da mesma ferramenta.

Na condição de ser-humano, posso dizer que criei essas ferramentas. Elas ampliam meu poder de corte, furo, pressão e precisão. É para isso que existem as ferramentas: para ampliar nossas capacidades.

Todas as minhas ferramentas exigem manuseio. Sem mim, elas não são nada; sem elas, eu sou incapaz de muitas coisas. Mas elas não possuem direito de escolha. Outro dia utilizei meu alicate como martelo, e ele não reclamou.

Posso não ter domínio total sobre o uso dos meus instrumentos de trabalho (na verdade, o uso é esporádico). Porém, eles nunca fugiram de controle. Ficam lá, inertes, até que eu decida usá-los.

Assim, sei de tudo o que se passa com as ferramentas: onde estão, com quem estão (às vezes empresto), de onde vêm e para onde vão. Onipresença, onisciência… onipotência? Não. Talvez, sem elas, eu seja apenas mais uma espécie de macaco.

Ouvi falar que somos ferramentas de Deus. Concordo. Acho que, no final das contas, Deus é homem, o homem é macaco, e o macaco é Deus.

Uma das doutrinas mais interessantes do budismo é a ideia do desapego material. Nesta, observa-se que tudo na vida é transitório e, por isso, apegarmo-nos às pessoas e bens causa-nos mais tristeza que felicidade.

De modo semelhante, esse raciocínio poderia ser aplicado às nossas ideias e opiniões.

Pelo fato de não termos acesso absoluto às verdades do universo, todos os nossos pontos de vista são limitados e, portanto, potencialmente errados. Não sendo perfeitas, nossas opiniões constantemente sofrem ataques do mundo real.

A reação natural de qualquer pessoa, quando seus pontos de vista são questionados, é a tentativa de protegê-lo. Deveríamos analisar os argumentos e evidências favoráveis e desfavoráveis às nossas opiniões e concluir, com imparcialidade, se elas são válidas ou não.

O que acontece na realidade para a quase totalidade das pessoas é bem diferente disso: Não avaliamos de maneira livre de preconceitos os argumentos contrários àquilo que acreditamos. Estes argumentos são recebidos por nós como errados à priori e, mesmo que estejam corretos, não competem de maneira igual contra os nossos argumentos preferidos.

Devemos procurar estar conscientes da qualidade real dos nossos argumentos. Quanto de nossos argumentos só se sustenta por estarmos apaixonados pela conclusão que eles conduzem?

Assim como um rapaz com sua namorada, não vemos defeitos em nosso objeto de paixão. Isso ocorre porque deliberadamente desligamos nosso raciocínio crítico quando estamos apaixonados. Assim, as imperfeições passam totalmente despercebidas.

O desapego absoluto às ideias não é algo que possamos atingir, afinal somos humanos. O melhor que podemos fazer é nos perguntar toda vez que nos observarmos lutando contra as evidências: Quem está mais errado, eu ou as evidências?

Não acreditamos em deus pois não existe evidência alguma de que esse mesmo exista.

Essa posição parece ser muito radical para muitas pessoas que não perceberam o cerne da questão pois, como dita a velha frase: “a ausência de evidência não é evidência da ausência”. O tal “cerne” da questão eu discutirei no texto, assim como porque não acreditar em deuses é a coisa mais sensata a se fazer enquanto não existe uma evidência sequer mostrando o contrário. Lembrando que eu não abordarei as supostas “evidências” a respeito do assunto porque é assunto demais para um texto só, fora que estou familiarizado o suficiente com uma boa quantidade dessas “evidências” e precisaria ler/ouvir algo muito diferente para ficar realmente surpreso. Para entender essa questão, irei começar pela rota menos óbvia: supor que deus exista. Claro, vamos ter que pegar um deus em específico, pegarei o abraâmico por estar mais familiarizado com este.

Deus existe, ele realmente criou a terra como está descrito no Gênesis, veio a Terra como Jesus e fez um monte de coisas. Façamos esse exercício mental. O que impede que ele exista? Bom, se foi ele quem criou homens e mulheres (do barro e de uma costela, respectivamente), então pode muito facilmente ter determinado suas limitações. Limitações como não ter a capacidade lógica o suficiente para entender as Suas motivações. Da mesma maneira que uma formiga não tem capacidade lógica para entender sobre buracos-negros, por exemplo. Então, esses humanos poderiam ter evoluído tecnologicamente, ter avançado na filosofia e na cultura, mas mesmo assim ainda seriam limitados. Todas as evidências empíricas possíveis e a mais brilhante lógica do mundo não seria o suficiente para revelar a verdade, que seria a de que Deus existe e foi ele quem os criou. Deus veria todos ali, pessoas crendo nele, outras crendo noutros deuses, e ainda umas que seriam atéias. Somente aquelas pessoas seletas, cristãs, estariam corretas. Não pela lógica ou pela observação, mas puramente porque resolveram acreditar em algo. Resolveram acreditar em Cristo, que por acaso foi uma vez que Deus veio dar uma banda no seu planeta favorito para consertar as próprias mancadas.

Conseguiram ver o erro? Para muitos teístas, o que eu escrevi agora expressa direitinho a lógica por trás de suas crenças. Na verdade, boa parte deles, partindo da premissa de que a minha suposição é muito mais do que suposição, acaba vendo os ateus como “tolos”. Afinal, Deus existe e todos aqueles ateus, escarafunchados na “lógica” e no “empirismo”, são incapazes de acertar a verdadeira resposta. Existe um problema muito grande nessa questão.

O problema é, em um palavra: critério. Crença é uma questão de critério. Não se trata apenas de estar certo em um determinado assunto e ignorar qual foi o meio pelo qual se obteve a respectiva conclusão. Eu dei o exemplo do deus abraâmico e, para muitas pessoas, isso parece corresponder com a realidade. Mas reparem que, se eu substituir a palavra “Deus” por um outra qualquer, digamos, “Sauron”, a suposta “lógica” do parágrafo não decresce nenhum pouco. Alguns poderiam dizer que eles não sentem por Sauron o que sentem por Deus, mas e porque o próprio criador do universo deveria se importar com isso? Se a própria lógica foi abandonada pelo deus da bíblia, o que impede Sauron de abandonar as emoções? E se não fosse Sauron, se fosse uma mega corporação de gnomos invisíveis eu sigo dizendo que a “lógica” não diminuiria nem um pouquinho.

Precisamos de critério pois existe um fato muito indignante: Nunca seremos capazes de contemplar a realidade em toda a sua plenitude. Tudo o que sentimos é um interpretação da realidade e, como tal, sujeita a defeitos. Como o nosso acesso à realidade é apenas parcial, resta sermos criteriosos. Engraçado como muitos crentes costumam dizer “no final, veremos quem está certo”, na crença de que algum dia a “Verdade” será revelada. Essa crença decerto lhes dá mais tranqüilidade para fazerem suas apostas de fé. Mas é claro, não existe absolutamente nada que garanta ou mesmo indique que qualquer verdade será revelada só para saciar a nossa curiosidade.

Em uma última analogia, imaginem europeus em pleno século XIII. Suponhamos que, um cidadão português tenha concluído, acertadamente que existe todo um continente para o oeste e que devem ser realizadas expedições para lá. A nobreza portuguesa, interessada na conclusão do informante, resolve perguntar como ele chegou a ela. Perguntam se ele realizou expedições para aqueles mares, se ele viu embarcações surgirem de lá. Eis que ele diz ter descoberto o suposto continente por ter fé em sua existência. Apresentado desta maneira, alguém pode achar que seria sábio por parte da nobreza seguir o palpite louco do cidadão e ter gasto fortunas com expedições. Acontece que eu estou usando um exemplo muito específico. Aqueles mares eram desconhecidos e fora do alcance lógico dos portugueses. Seria, no fim das contas, insensato mandar naus para lá mesmo que esse caso em particular alavancasse o progresso de Portugal. Isso porque, da mesma maneira que seguiram um palpite certeiro, poderiam seguir uma miríade de palpites muito mais desastrosos e, portanto, colapsariam.

E é por isso que a questão não gira em torno do “porque deus não existe” mas sim “porque não deve se acreditar nele”. E não se deve acreditar por simples honestidade intelectual. É você sendo verdadeiro com os seus conhecimentos, sem dar chutes afobados na pretensão de estar certo.

Sensacionalismo pouco é bobagem. Desde o dia 27 de julho, ateus de todo o Brasil tem demonstrado sua indignação em relação aos comentários maldosos do apresentador José Luiz Datena, no programa Brasil Urgente.

Já faz uma semana que ocorreu a difamação, e muitos sites ateístas (e ateus avulsos)  já expuseram suas opiniões a respeito do sujeito em questão. Foram tantas as reclamações no twitter, youtube, blogs e afins, que nem consegui ler ou ouvir a todos. Uma verdadeira sanguia desatada de ateus!

Na verdade, ler ou assistir a tantas reclamações faz-me sentir como se, a todo tempo, eu esteja passando pela experiência de déjà vu.

Há cerca de duas semanas, fui convidado a participar da LiHS (Liga Humanista Secular). A princípio achei a idéia de participar de uma “liga” algo equivalente a associar-me a um partido, ou seguir uma religião (mais tarde percebi até que fui grosseiro demais em minha recusa). Porém, após as asneiras vomitadas pelo Datena, percebi que aflorou em minha uma vontade ainda mais forte de me unir a algum grupo ateísta, assim como tantos outros ateus também tiveram essa vontade. Cheguei a cogitar a possibilidade de afiliar-me realmente à LiHS.

Refletindo a respeito disso, percebi que sempre que algo nos ameaça, ou a nossas ideologias, tendemos a procurar um grupo, talvez pelo velho instinto de preservação (óbvio que em grupo nos sentimos mais protegidos). É nessas horas, quando muitos se mobilizam em prol de um único objetivo (no caso, repudiar as calúnias sofridas), que descobrimos a força que há em qualquer grupo, seja ele grande ou pequeno.

É hora de aproveitarmos o calor do momento e sairmos de vez do armário. Fazer valer os direitos e deveres constantes na Constituição Brasileira. Pseudo-heróis como o Datena distorcem as leis a seu favor, argumentando que também tem o direito de expressar suas opiniões; porém arrotar preconceitos e calúnias não é direito constitucional; é apenas uma forma de se fazer admirar às custas da ignorância do outro.

A mente do povão já virou sopa, e imbecis como o Datena preferem engrossar o caldo de preconceito, alienação e religião do que fazer com que percebam que o paladar pode sentir mais do que o gosto dessa lavagem que lhe empurram.

PS.: CALA A BOCA, DATENA!


Nota: – Texto redigido a pedido de alguns dos nossos leitores, via e-mail e MSN. Grato a todos pela participação.