Category Archives: Biologia

Indivíduos inteligentes e racionais nunca escolheram ser incapazes de se dopar com ilusões infantis, bem como religiosos nunca escolheram ter fé. Nenhum dos dois tem a liberdade de mudar voluntariamente o modo como seu cérebro desde sempre se habitou a funcionar. Porém, como precisamos de ilusões para viver, cada qual, de acordo com sua inteligência, se vê obrigado a empregar métodos diferentes para suportar a existência.

É inútil insistir: não conseguimos ter fé. Nossa única alternativa passa a ser buscar consolo no esclarecimento, mas como? Só causa miséria a lucidez diante de um mundo miserável. Então, se não conseguimos contornar esse problema nos envolvendo com ilusões absurdas, passamos então a nos envolver com ilusões sensatas, que satisfazem nossa inteligência. Mentiras simplesmente não nos cativam, nos enojam. Assim, como não conseguimos nos iludir com falsidades, iludimo-nos com o seu oposto: a verdade. Encontramos no conhecimento o que os tolos encontram na fé, buscamos na honestidade o mesmo que os demais no engano, entendemos de olhos abertos como se consolam os vendados. Aprendemos a suportar a vida à nossa maneira. Se hoje temos uma consciência tranquila diante do fato de não precisarmos ter fé, isso ocorre porque nos bastam farmácias e bibliotecas. Nossos milagres estão em blisters. Concluímos em vez de acreditar, refletimos em vez de suplicar.

O fato é que nunca teríamos aceitado tão tranquilamente a morte de Deus se não dispuséssemos de meios seguros de substituí-lo. No lugar do jardim do Éden, colocamos o jardim da filosofia, e tanto um como o outro servem apenas para nos distrair, para esconder o desfiladeiro niilista. Sabemos que, em nossas vidas, a filosofia, a reflexão abstrata, cumpre o mesmo papel que a religião, e ambas as coisas não passam de meios de fugir da realidade. Reconhecemos que nem a filosofia nem a religião nos levarão a lugar algum, apenas nos distrairão do tédio. Parece pouco, mas basta. Somos humanos, e uma existência decente é tudo o que esperamos. Como temos farmácias, o autoengano tornou-se dispensável. Como temos inteligência, encontramos consolo na reflexão, e sentimo-nos plenos por podermos levar adiante nossa natural inclinação à honestidade.

II

Certamente, todos nós concordamos que a teoria da evolução ainda encontra alguns problemas. É uma teoria forte, porém incompleta. Ainda não se sabe explicar a origem da reprodução sexuada ou da célula eucariótica. A explosão do cambriano e como a vida se originou são lacunas que perduram até hoje. O que alguns não sabem é que essa mesma teoria não está em conflito com a maioria das coisas que acreditam estar. Isso é algo engraçado. Vejo pessoas dizendo que a evolução contradiz a biogênese, a entropia, a estatística, o bom-senso, mas raramente vejo essas pessoas atacarem onde a teoria realmente ainda não explica. Um exemplo disso está em processos de convergência presentes na natureza que, segundo alguns, contradizem a aleatoriedade da evolução.

Pois bem, segundo essas pessoas, uma mesma característica não poderia surgir independentemente em duas populações diferentes pois seria improvável demais. Para um fenômeno que ocorre essencialmente ao acaso, não seria possível uma estrutura, como a asa, por exemplo, surgir mais de uma vez em táxons distintos. Essa alegação se baseia na estatística. Para os seus defensores, dizer que a asa surgiu em vários grupos diferentes equivale a defender que um mesmo apostador ganhou na mega sena mais de uma vez. O melhor adjetivo para descrever esse comportamento tipicamente criacionista é “afobado”. Nomeamos uma estrutura considerando uma ou mais características que supostamente a designam. No caso das asas, seriam estruturas que permitem um vôo ativo e independente. Isso significa que qualquer estrutura que obedeça a essas definições pode e deve ser chamada de “asa”, independente do modo pelo qual ela alcança essas propriedades. Só que isso não implica que essas estruturas devam ser idênticas.

As asas são um exemplo didático, e até bonito, de como a crença na evolução como fundamentalmente aleatória é falsa. Na natureza existem leis bem estritas: qualquer coisa que não funcione muito bem estará apenas consumindo energia e a seleção natural ceifará tudo o que não for útil o suficiente. O que não significa que ela não premie, e muito bem, os improvisos. Dentre todas as estruturas possíveis de existir, pouquíssimas permitem o vôo, mas os caminhos para chegar a essas estruturas são bem mais diversos do que imaginamos à primeira vista.

Desenho das asas de aves e insetos. Notem que as diferenças são muitas.

Para começar, vamos analisar os grupos vivos que possuem asa, que seriam as aves, os morcegos e os insetos (Os pterossauros assim como algum possível grupo portador de asa desconhecido e extinto ficam de fora). Quanto às asas, todas são estruturas chatas e alongadas, quase ovais, que possuem flutuabilidade, força propulsora e arrasto. Sob o ponto de vista funcional, elas podem ser bem parecidas, mas anatomicamente as diferenças são muito maiores. As das aves podem ser entendida como um braço de um dedo só (na verdade, ainda tem o polegar, formando a álula) e com penas. Os morcegos possuem membranas interdigitais enormes, sendo as asas as suas mãos estendidas, por isso o nome “quiróptero” (asa nas mãos). E temos as asas dos insetos, que são bem diferentes das anteriores. São membranas finas e vascularizadas e, ao contrário dos vertebrados, nos insetos os músculos estão inseridos apenas no tórax.

Fóssil de Archaeopteryx

Mas como essas asas vieram a surgir é que é a parte interessante. São caminhos muito diferentes levando para o mesmo modo de locomoção. A origem das asas nas aves remonta à sua ancestralidade com os dinossauros, mais especificamente os terápodos (o grupo do velociraptor e do tiranossauro), chegando à espécie considerada como a ave mais antiga, que seria o Archaeopteryx. Seriam terápodos pequenos, leves, as penas seriam escamas modificadas. Essas penas estariam presentes não só no Archaeopteryx, como também em alguns de seus ancestrais terrestres. A função das penas em um dinossauro que não voava, ainda que pequeno, é uma incógnita. Mas devemos lembrar que nem tudo possui uma função em termos de sobrevivência, podendo as penas servir como display, seja para assustar predadores ou atrair fêmeas. O que muitos não sabem é que existiu uma porção de dinossauros com penas. Alguns deles possuíam muitas penas nas pernas traseiras e certamente muitas dessas linhagens de répteis penados foi extinta. Voltando aos Archaeopteryx, eles eram dinossauros muito pequenos, do tamanho aproximado de um pé humano, e não se sabe ainda se eles voavam ou apenas planavam. A hipótese atual para o comportamento desse bicho é que ele realizava vôos baixos e curtos, certamente para capturar animais voadores como libélulas. É a conhecida hipótese terrícola. Além de ser uma hipótese mais plausível, eu particularmente gosto muito dela, graças a um detalhe: ela lembra muito o começo do vôo dentro de nossa própria civilização. Como os primeiros aviões, o Archaeopteryx também não realizava vôos elaborados e extensos. O 14-bis voou apenas alguns metros, somente depois surgiriam aviões capazes de voar durante horas, percorrer continentes ou atingir velocidades supersônicas. Com as aves essa história é semelhante. Hoje existem aves que atravessam o planeta, pairam no ar e realizam rasantes em altíssimas velocidades. Um começo humilde, pouca coisa mais do que um mero salto, para enfim o vôo e todas as suas possibilidades.

Dumbo: inspirado pela história de sucesso dos insetos?

Para os insetos, a origem das asas é completamente diferente. As membranas que hoje são usadas para o vôo, antes eram usadas como termorreguladoras. Esse mecanismo não é novo. Para resfriar a linfa, o inseto a espalhava por uma membrana fina e a sacudia velozmente aumentando a troca de calor entra a linfa e o meio. Elefantes fazem algo análogo, irrigando as orelhas com sangue e abanando-as. O que os elefantes não conseguem é utilizar essas orelhas para voar (ao menos os elefantes reais, desconsiderando, neste caso, o Dumbo). É uma pena que não possamos conhecer a compreensão de mundo de um inseto, pois seria engraçado imaginar o quão perplexo ficou o primeiro inseto encalorado em seu primeiro vôo. E algo tão versátil, útil e poderoso quanto as asas, nascendo de um mecanismo prosaico de termorregulação. É como se os helicópteros tivessem sido inventados por um fabricante de ventiladores. Você pode imaginar a cena.

O que há de mais moderno em termos de "asas".

O ponto é: muitas pessoas veem na funcionalidade e na beleza da natureza um projetista infinitamente sábio e onisciente por trás. Tanta convergência, tanta eficiência só pode ser interpretada como obra de um designer inteligente. Bobagem. Não interessa o quão perplexos fiquemos com a complexidade de nosso mundo, sempre existe uma ótima explicação. Uma explicação mais completa, plausível e elegante, que só pode ser obtida através de muito estudo e muita perspicácia (sempre com uma pitada de  criatividade). Poderíamos encerrar a questão das asas como prova cabal de que existe um deus por trás das espécies e que ele sabe o que está fazendo, mas morreríamos sem conhecer as suas histórias evolutivas, interessantes e belas por si mesmas, como as próprias asas que deram origem.

A vida exibe seu desprezo em relação à existência – conceito gerado pelo grau relativamente elevado da consciência humana.

Nada parece mais prático e razoável do que a possibilidade de alcançar a almejada glória, tão longe da vista até mesmo das aparentes intocáveis criaturas humanas, sedentas de aventuras, riquezas e histórias para contar. Acontece, então, de muitos sentirem estar tão distantes da satisfação pessoal que buscam na morte seus sonhos, depositando nela suas expectativas de plenitude, isso a ponto de viver a morte. Fazem da morte sua história de vida. Realmente não há nada mais curioso do que a possibilidade da inexistência. Difícil imaginar a inconsciência mas, pensando melhor, ainda mais difícil é encarar uma existência eterna.

Uma das vantagens da morte é que nela surge a possibilidade de ser o que se pensa, ou fingir ser o que nunca se foi. É na iminência da morte que surge o herói.

O bem e o mal se fundem; a pessoa deixa de ser um subproduto do meio e volta ao estado de organismo, numa tentativa cruel e observável de luta pela sobrevivência. Nessa luta não há coragem ou covardia; é a busca pela permanência existencial de um corpo que insiste em continuar ativo, independente do motivo de sua deterioração.

Retirada a força para o último suspiro, despede-se da vida para a eterna escuridão; mais uma máquina de sobrevivência e, com ela, suas confidencialidades, histórias particulares, crenças e subjetividades.

Surge, então, o resultado da luta diária de todo herói, ilustrado a seguir, em toda sua beleza biológica e possível tenebrosidade psicológica:

httpv://www.youtube.com/watch?v=w7fe0FqLDVI

A vida é um fenômeno interessantíssimo que, embora nossa intuição diga o contrário, teve um início e nunca mais parou. O que entendemos como vida em sentido estrito é aquele tempo de duração medido entre o nascimento e a morte de um indivíduo. No entanto, para que este indivíduo tenha nascido, tomando a nós mesmos como exemplo, foi necessário que um espermatozoide e um óvulo, ambos vivos, fossem unidos.

Para a panspermia [1], a vida na Terra é o resultado das sementes pré-bióticas que se encontram por todo o universo. Essas sementes teriam chegado ao nosso planeta através de metereoritos, enxergados como cegonhas cósmicas que levam os aminoácidos fundamentais a todos os cantos do vasto espaço sideral. É relativamente fácil encontrar metereoritos carbonáceos que possuam uma diversidade de compostos orgânicos maior do que a encontrada na Terra [2].

É uma hipótese intrigante, por mais que haja poucas evidências diretas para comprová-la ou refutá-la. A sua principal concorrente e paradigma mais aceito nas teorias de gênesis da vida é aquela que explica o seu surgimento a partir de reações químicas de elementos que existiam em abundância na Terra primitiva. Harold Urey e Stanley Miller [3], ainda nos anos de 1950, conseguiram sintetizar aminoácidos e outros compostos essenciais para a nossa existência a partir de compostos simples. É a face moderna da teoria da abiogênese, quebrando aquela sequência em direção ao passado na busca do ponto em que o não-vivo tornou-se vivo [4].

O ponto crucial que nos trouxe até este exato momento foi o aparecimento da primeira molécula autorreplicante. Essa capacidade comum a todos os seres-vivos é a base de toda a biodiversidade observável na natureza. Muito provavelmente, o RNA [5] primitivo é o ancestral de todas as formas atuais de codificação/decodificação de proteínas. Não só ele continua presente no DNA [6], molécula muito mais elaborada, como exerce funções fundamentais e específicas, dependendo do seu tipo, no processamento e na síntese de proteínas.

Iniciada a vida, há cerca de 3,5 bilhões de anos atrás [7], restaria agora explicar como ela se desenvolveu. O mecanismo de seleção artificial sempre foi um dos meios mais eficientes que o homem encontrou de manipular o meio-ambiente. Foi assim que conseguimos domesticar os cães, variantes dos lobos selvagens, criando a imensa variedade de raças, desde os graciosos poodle até os ferozes pitbull. Com base no mesmo princípio, cultivamos vegetais de acordo com nossas necessidades, escolhendo as sementes mais férteis de árvores que dão os melhores frutos.

Darwin [8] e Wallace [9], independentemente, chegaram à conclusão de que a natureza poderia agir de forma semelhante, selecionando os indivíduos mais aptos para uma determinada situação ambiental. Mesmo sem a função de um agente consciente, seria possível que indivíduos se adaptassem ao seu meio e, mais impressionante do que isso, que diferentes indivíduos, separados geograficamente, pudessem, ao longo de várias gerações, diferir de forma tão radical a ponto de se transformarem em espécies distintas.

É interessante notar que ambas as seleções – natural ou artificial – não têm um objetivo teleológico a longo prazo. A seleção artificial nos serve para a geração imediata e continuará nos servindo para as gerações futuras, mas isso não quer dizer que a geração atual só existe como meio para elas. De forma análoga, podemos fazer um exercício mental: uma mutação que seria benéfica para um futuro distante dificilmente passará no crivo imediatista da seleção natural, pois não apresenta vantagens para o momento em que a sobrevivência as exige.

Com base em análises tanto morfológicas quanto químicas e genéticas, é possível vasculhar o presente e o passado, relacionando todas as espécies das quais temos notícia com seus parentes e antepassados. A síntese desses dados pode ser expressa de forma gráfica em árvores filogenéticas [10], ou em sua forma mais ampla, conhecida popularmente como árvore da vida.

Referências:

[1] http://pt.wikipedia.org/wiki/Panspermia

[2] http://en.wikipedia.org/wiki/Murchison_meteorite

[3] http://pt.wikipedia.org/wiki/Experiência_de_Urey-Miller

[4] http://pt.wikipedia.org/wiki/Abiogênese

[5] http://pt.wikipedia.org/wiki/ARN

[6] http://pt.wikipedia.org/wiki/ácido_desoxirribonucleico

[7] http://pt.wikipedia.org/wiki/Evolução_da_vida_e_formação_da_Terra

[8] http://pt.wikipedia.org/wiki/Charles_Darwin

[9] http://pt.wikipedia.org/wiki/Alfred_Russel_Wallace

[10] http://pt.wikipedia.org/wiki/árvore_filogenética

Da insatisfação I: Como surgiu o universo?

Existem várias maneiras desonestas de se atacar um argumento. Essas maneiras são conhecidas como falácias e os criacionistas abusaram delas para atacar a teoria da evolução durante uns bons séculos. Talvez, mais corretamente, eu deva dizer que existem maneiras desonestas de não se atacar um argumento, visto que uma falácia consiste em desviar do argumento principal para tratar de um assunto inválido e/ou irrelevante para o debate. Falarei de uma falácia em especial, perniciosa e muito eficiente quando apresentada a um público leigo. É a famigerada falácia do espantalho.

“Argumento” de um criacionista. Eles tentaram...

“Falácia” é o tipo de coisa que, depois que conhecemos, começamos a encontrá-las por todos os lugares. Pois bem, quanto à falácia do espantalho, ela tem um certo grau de imundície, visto que ela consiste em criar uma versão deturpada do argumento e atacar a versão falsa, não o argumento em si. O que eu vejo como “certa imundície” reside justamente na deturpação e posterior atribuição de ideia tão ridicularizada ao debatedor. Imagino que essa deturpação venha principalmente da própria ignorância e não de uma tentativa deliberada (e propriamente suja) de ridicularizar.

Como a “versão espantalho” criacionista da evolução é imensa, vou abordá-la ponto a ponto. Falarei aqui sobre a ideia de que a teoria da evolução é incompatível com a teoria da biogênese. Começarei por ela por se tratar de um equívoco comum, principalmente quando levamos em conta como a evolução e a origem da vida são explicadas na escola.

Em primeiro lugar, a alegada incompatibilidade é incorreta. A teoria evolutiva não busca explicar a origem da vida, mas sim como as populações variam conforme o passar do tempo. Contudo, é inegável que essa mesma teoria acaba levantando a questão da origem. Certo, derrubamos a crença de que as espécies foram criadas tais como são hoje de maneira sobrenatural. Mas, então, como surgiram?

Eu estava ajudando a minha irmã a estudar para a prova de biologia do colégio. Comecei a discutir sobre a teoria da abiogênese, que foi cabalmente derrubada por Pasteur, sendo imposta a teoria biogenética no lugar. Só que a teoria da biogênese carregava uma ideia um tanto quanto ilógica: “A vida surge apenas de vida”. Então a minha irmã veio com uma pergunta, muito pertinente por sinal: “Mas, afinal, se vida surge apenas de vida, como surgiu a primeira?”

Perguntinha cabeluda. Não vou adentrar nas respostas por dois motivos. O primeiro é que não existe uma teoria sólida, apenas um conjunto de hipóteses. Segundo que, mesmo que eu abordasse apenas as hipóteses, acabaria tornando o texto demasiadamente extenso. O ponto é que a afirmação citada há pouco é falsa. A vida não pode surgir apenas de vida. Aliás, essa sequer é a conclusão do próprio Pasteur. O que ele atacou não foi toda a ideia de abiogênese, mas, especificamente, a da geração espontânea, como seres vivos complexos surgindo de matéria inorgânica.

Louis Pasteur derrubando a hipótese de geração espontânea.

O espantalho de toda essa história é o seguinte. A teoria evolutiva é falsa, pois supostamente estaria dependendo da teoria abiogenética, cabalmente derrubada por Pasteur. Devo dizer que este é o espantalho criacionista mais feliz de todos, visto que ele consegue pegar uma ideia simples ensinada na escola e colocá-la deturpadamente para falsear outra ideia, bem menos ensinada, que seria a evolutiva. Quando a questão é colocada desta maneira, com a evolução entrando em discórdia com a biogênese, realmente parece que o neodarwinismo é um devaneio patético.

Pois o que eu posso dizer sobre tudo isso? Conclui-se que Pasteur derrubou, entre outras coisas, que carne podre não era capaz de gerar moscas espontaneamente. Mas ele certamente não derrubou a teoria de que essas moscas surgiram a partir de insetos dípteros ancestrais e se diversificaram através de mutações e seleção natural. Uma coisa definitivamente não tem nada a ver com a outra.

Percebe-se uma tentativa desesperada de encontrar incongruências no neodarwinismo. Falarei sobre outro exemplo, no meu próximo texto, que falará sobre… asas!

Em minha última coluna, falamos sobre a inexistência dos tais “elos perdidos”. Comentamos também que as espécies diferenciam-se através de pequenas etapas, fato este que pode ser observado atualmente com as espécies em anel, que além das gaivotas que comentei, também são representadas pelas salamandras da Califórnia (discutidas no último texto de Eduardo).

No caso dos humanos, as etapas de diferenciação que nos separam dos chimpanzés ocorreram na dimensão tempo e não somente na dimensão espacial como nas espécies em anel. Desta forma, a única maneira de termos contato com estas espécies seria por meio dos fósseis, que neste caso são apelidados de fósseis de transição.

É claro que os criacionistas, em seu ceticismo parcial, não aceitariam tais fósseis como evidência; afinal, para eles, o registro está incompleto, existem vários buracos na continuidade de um fóssil para outro.

Nem todos os mortos se tornam fósseis, já que o processo de fossilização requer uma série de condições muito especiais para ocorrer. Porém, quando ocorre, deixa um registro para a posteridade, algo como uma fotografia daquela espécie naquele período.

Observemos as duas fotos abaixo:

 

Sabemos que a foto da direita representa o Rei Pelé. Porém, de que maneira poderíamos ter certeza de que o simpático garoto da esquerda também é o Rei? Quem sabe poderíamos juntar as tais fotos de transição.

 

Ainda não é o suficiente; mesmo que juntássemos todas as numerosas fotos que foram tiradas ao longo da vida do Pelé, não cobriríamos todas as falhas desta transição. Mesmo que tirássemos uma foto a cada minuto da vida do Rei, não seria suficiente para aqueles que acreditam (como eu) que o Rei Pelé foi criado por uma inteligência superior, os buracos de um minuto na sequência de transição seriam inaceitáveis.

Aliás, para quem duvida da origem superior do Rei, curvem-se diante destes fatos:

httpv://www.youtube.com/watch?v=AFSbUPgjRio

O que acontece aos 2m54s não pode ser explicado pelas leis naturais.

Observando os seres vivos em nosso planeta, pode-se concluir muita coisa. Uma das mais óbvias é a de que eles demonstram uma variedade absurda de formas. Isso é um fato escancarado. Sabemos que existem cachorros, baratas, lambaris, caramujos, macieiras e repolhos. Conseguimos identificar cada um desses sem a menor dificuldade. Na verdade, a nossa capacidade de identificação vai ainda mais longe. Não apenas podemos diferenciar uma cobra de um tatu, como sabemos existir diferentes tipos de cobras, agrupamos cobras e tatus em classes distintas e chegamos a agrupar diferentes famílias e gêneros de cobras.

Outra coisa que podemos concluir ao observar os seres vivos envolve o seu material genético e, ao passo que para observar a biodiversidade precisamos apenas de um par de olhos, para se observar o material genético é necessária uma enorme carga de conhecimento em diversas áreas. Povos indígenas possuem um vocabulário extenso referente às várias espécies de animais de sua região, mas certamente não sabem nada sobre o material genético deles. Falo sobre as moléculas responsáveis por armazenamento de informação presentes em nossas células. A mais importante delas seria o ácido desoxirribonucléico, mais conhecido por sua sigla em inglês: DNA. Pois um fato muito intrigante relacionado a essa mesma molécula é a de que ela está presente em praticamente todos os seres vivos. E quando eu falo “praticamente todos” eu estou excluindo certos vírus, apenas (lembrando que sequer há consenso quanto à inclusão dos vírus entre os seres vivos). Ou seja, todo o resto possui DNA. Nós (seres humanos), leões, lampreias, formigas, lesmas, vermes, esponjas do mar, pés de alface, musgos, jacarandás, cogumelos, bolores, amebas, algas e bactérias, só para citar alguns. E esse DNA possui uma estrutura bem definida, a diferença entre o DNA de um jacarandá, de um verme e de uma bactéria se resume ao arranjo das bases nucleotídicas e de como essa molécula está disposta na célula. Em nós, por exemplo, o DNA está arranjado em grupos menores, repletos de proteínas, principalmente histona, conhecidos como cromossomos. Mas em certas bactérias, como a Escherichia coli, esta molécula encontra-se arranjada em um formato circular.

Pois é a união desses dois fatos, um mais evidente, o outro bem mais escondido, que são o assunto de meu texto. A interpretação desses dois fatos representa o choque da intuição com a descoberta. Em seu último texto, o Bruno falou sobre o mito do elo perdido. Pois esse mito é fruto de uma idéia errada, rígida demais que tínhamos de “espécies”. Para exemplificar, pense no que certos criacionistas dizem:

“Porque lagarto é lagarto, gaivota é gaivota e humano é humano. Você não vê um lagarto evoluindo para uma gaivota.” (frase minha, ilustrando o que eu realmente leio e escuto de muitos criacionistas)

Essa frase demonstra claramente a ignorância dessas pessoas no que se refere ao ambiente natural. Na verdade, ela demonstra a ignorância em dois pontos. No primeiro dele, a idéia que uma espécie não tem nada a ver com a outra. A primeira vista, parece ser uma constatação óbvia, mas não é sequer verdadeira. Sabemos diferenciar um lambari de um atum, mas somente um sistemata experiente diferencia certos lambaris um do outro. Imaginamos que as espécies possuem um lugar fixo, separadas uma das outras, só que essa idéia desmorona quando paramos para analisar cada espécie dentro de um mesmo grupo. Esse equívoco, essa falta de conhecimento sobre o que estão falando, também permite que os mesmos criacionistas soltem frases semelhantes como: “Eu reconheço a microevolução, mas acho a macroevolução um absurdo”. A crença é a de que existe uma diferença qualitativa entre as duas, sendo a “microevolução” a variação genética dentro de uma espécie e a “macroevolução” a especiação propriamente dita. No texto do Bruno ele mostra um caso de “espécies em anel”, que seria o das gaivotas do ártico. Tem ainda outro, tão didático quanto, que seria o das salamandras californianas Ensatina (imagem). Esses exemplos demonstram cabalmente que essa distinção entre “micro” e “macroevolução” só existe na cabeça de alguns desinformados.

O outro equívoco criacionista não é menos grosseiro. “Você não vê um lagarto evoluindo para uma gaivota”. E não vê mesmo. Até porque, isso supostamente não deveria ocorrer. Peguemos uma única espécie de lagarto e uma de gaivota, digamos, uma iguana verde (Iguana iguana) e a gaivota prateada que já estamos familiarizados (Larus argentatus). Pois bem, a primeira vista podemos dizer que elas são muito diferentes. Mas essas diferenças não se comparam às semelhanças, ainda mais patente aos olhos entre essas duas espécies. Ambos possuem pulmões, um par de olhos, fêmur, crânio diápsido, fígados e cérebro, por exemplo. Na realidade, eu poderia usar páginas e mais páginas para ilustrar as semelhanças entre os dois, seja ela de natureza morfológica, metabólica ou mesmo comportamental. Não precisaria de tantas páginas assim para falar das diferenças, que seriam relativamente escassas. Acontece que essas duas espécies são exemplares atuais de uma história muito mais antiga. A gaivota prateada e a iguana verde representam, cada uma, populações de indivíduos muito assemelhados entre si, localizados em clados separados. Esses clados, também conhecidos como ramos, lembram o gráfico de um pedigree, só que em escala muito maior. Um clado pode representar um agrupamento a nível de gênero, como Larus, por exemplo, no qual estariam inseridas a maioria das gaivotas. Mas também pode representar uma classe, como a das aves. Assim como existe um clado que agrupa a gaivota e todas as suas parentes aves com os lagartos e cobras, conhecido como Sauropsida, hoje dividido entre os Lepidosauria (lagartos, cobras e tuataras) e os Archosauria (crocodilos, aves e os extintos dinossauros).

Acontece que o conceito de espécie é nebuloso. Seria um arranjo de indivíduos semelhantes e nada mais do que isso. Caso nenhuma espécie tivesse se extinguido, seria inviável agrupar os seres vivos em “espécies”. Durante milênios tratamos esses indivíduos como representantes de grupos fixos e bem caracterizados, sem relação histórica um com o outro. Hoje temos o DNA, presente em quase tudo o que entendemos por vida, todos com uma estrutura bem definida. Sabemos que as espécies não são muito mais do que nuances entre o genoma de uma população e de outra. O quadro inverte, o que antes era a obviedade da diferença, hoje é a obviedade da origem comum.

 O principal ponto fraco da Teoria da Evolução, segundo os criacionistas, é o fato de nunca ter sido encontrado o Elo Perdido. Evidentemente os criacionistas estão corretos: nenhum elo perdido foi encontrado. O que falta então para toda comunidade cética se curvar aos argumentos criacionistas?

 Para começar, faltaria definirmos o que exatamente um criacionista espera por um elo perdido. Uma mistura exata de homem e chimpanzé? Uma mãe chimpanzé segurando seu filho humano? Talvez um criacionista mais bem preparado diria: um fóssil que represente exatamente o momento em que houve a separação da espécie humana e dos chimpanzés.

 Até pouco tempo atrás se definia espécie como um grupo de indivíduos capazes de reproduzir entre si gerando descendentes férteis. Ou seja, duas espécies diferentes não poderiam ser capazes de cruzar entre si. O que levaria o criacionista a concluir que, no momento em que surgiu o primeiro homem, ele não poderia encontrar nenhuma parceira, afinal, só haveria “chimpanzeias”, fato que o levaria a extinção.

 O primeiro ponto importante a ser considerado é que a especiação não ocorre em apenas uma geração e com um único indivíduo. A especiação é um evento que envolve grandes populações, em espaços geográficos extensos e em milhares de gerações. Uma descoberta relativamente recente que nos ajuda a compreender a complexidade deste evento são as espécies em anel.

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As duas simpáticas gaivotas acima apresentam diferenças bastante claras. Além disso, elas não cruzam entre si, o que seria suficiente para as classificarmos como duas espécies distintas. Mais curioso, porém, é o fato de que a gaivota prateada (frente) pode cruzar com gaivotas do continente americano, que por sua vez são capazes de cruzar com outras gaivotas, que num ciclo de cruzamentos que dá a volta no pólo norte chega novamente ao norte da Europa com uma espécie capaz de cruzar com a gaivota de asa escura (atrás). Ou seja, as duas espécies distintas de gaivotas apresentam algo como um gradiente interespécies.

 Entre humanos e chimpanzés ocorre algo bastante parecido, porém com uma pequena diferença: as espécies intermediárias estão mortas. Não é necessário apelar para o vasto registro fóssil para evidenciar essa transição; basta observarmos as inúmeras evidências genéticas que já a comprovaria sem a necessidade de qualquer fóssil.

 Uma segunda corrente de argumentos criacionistas é a que afirma que o registro fóssil é incompleto e, portanto, não pode ser considerado como prova da transição.

 Para discutirmos esse argumento, contaremos com a ajuda do Rei Pelé em nosso próximo artigo.