Category Archives: Ceticismo

Quando dizemos que o mundo físico, externo a nós, existe, independentemente de nós, queremos dizer que ele existiu antes do advento do ser-humano e continuará a existir, se um dia viermos a perecer. Por mais que nós não possamos comprovar essa alegação pessoalmente, parece bem provável que ela seja verdadeira.

Nossa criatividade é impressionante e, para o bem ou para o mal, podemos aventar várias explicações para o que observamos ou simplesmente vivenciamos. Essas explicações podem ser úteis nas mais diversas formas, desde que supram a nossa necessidade de entender ou de sentir conforto e segurança.

No entanto, elas só serão úteis se acreditarmos em alguns pressupostos: 1) que a verdade objetiva, isto é, independente de nós, de alguma forma existe; 2) que podemos, senão alcançá-la, chegar perto dela; 3) que temos um método razoavelmente eficiente para isso.

Se o pressuposto 1) for falso, nossa busca pela verdade não é apenas infrutífera, mas também não teremos nenhum padrão para julgar sua veracidade; se 2) for falso, teremos um padrão para julgar, mas será apenas o de nossa infinita falha e esta crença não restará justificada; se 3) for falso, em princípio, só precisamos criar um método que supra nossa necessidade.

De toda forma, se a hipótese solipsista estiver certa, e se formos realmente somente o ser pensante em um mundo falso, aparente, ainda precisaremos de uma forma de conviver neste mundo, de interagir com ele; falso ou não, parece ser o único que temos, a menos que se alegue ser preciso morrer nele para atingir um mundo novo, real – uma espécie de paraíso.

Como se questionam até mesmo os dados empíricos, não há senão a Navalha de Occam para dirimir a discussão. Trata-se de um princípio valioso na averiguação de hipóteses concorrentes. Dessa forma, ao decidir sobre uma colisão delas, devemos seguir a mais simples, por uma questão de elegância e por exigir menos variáveis, quanto mais questionáveis forem.

Na impossibilidade de termos um referencial externo a nós mesmos, ficamos com a) nosso conhecimento sofre limitações biológicas, bem explicadas por conta de nosso processo evolutivo, mas temos certo acesso à verdade; ou b) não temos acesso nenhum à verdade e toda essa ilusão é criada por algo que não conhecemos sem sabermos com qual propósito.

Até que tenhamos boas razões para largar a hipótese mais parcimoniosa, é de bom tom que não o façamos; se só conseguimos enxergar os fenômenos, que entendamos que eles apontam para a coisa-em-si, por mais inacessível que se a julgue. E tenhamos em mente, principalmente, que o fato de existir algo para o qual se aponte coincide com a nossa versão de mundo objetivo.

Independentemente de buscarmos algum sentido específico de verdade, devemos ter em mente o que realmente buscamos. Falsidades podem ser reconfortantes, mas, se não queremos nos enganar, resta-nos passar por uma espécie de auto-adestramento para que os nossos métodos pessoais conduzam aos nossos objetivos pessoais. Fora de nós, o êxito logrado por outros métodos consiste exatamente em extirpar essas discrepâncias intersubjetivas, em busca de conhecimento que, na medida do possível, independa de nós.

O que importa, afinal, é entender que essa verdade objetiva é uma meta, e que os nossos mecanismos subjetivos de produção de verdade são meios de tentar alcançá-la. A verdade subjetiva – em suas mais diversas formas –, torna-se, ao invés de uma entidade metafísica inquestionável, a construção de ferramentas para encontrar as melhores formas de caminhar até ela.

Resta agora diferenciar essa realidade objetiva do mundo das ideias, conforme Platão o descreveu. Para ele, tal mundo também se contrapunha à deficiência dos sentidos – ao mundo sensorial –, mas a sua solução não era descartar o ser-humano, e sim encontrar, a partir dele, formas eternas e imutáveis, possíveis por ser o homem dotado de uma alma.

O mundo objetivo, por outro lado, existe independentemente do ser-humano, por mais que nós sejamos a única forma conhecida de contemplá-lo e de atestar-lhe a existência. Não é imutável e não possui formas eternas. Em nossa cabeça, o mundo objetivo é o esforço mental para representar a realidade sem a interferência de cérebros programados para executar funções específicas.

 

Leituras recomendadas:

HARRIS, Sam. We are lost in thought. Disponível em <http://www.edge.org/q2011/q11_12.html#harriss>. Acesso em 07 maio 2011.

PLATÃO. Timeu. Disponível em <http://en.wikisource.org/wiki/Timaeus>. Acesso em 07 maio 2011. [em inglês]

SAGAN, Carl. Admiração e ceticismo. Disponível em: <http://ateus.net/artigos/ceticismo/admiracao-e-ceticismo/>. Acesso em 07 maio 2011.

______. Podemos conhecer o universo? Reflexões sobre um grão de sal. In: O cérebro de broca. Lisboa: Gradiva, 1987.

A premissa não é tão inovadora: imaginemos um espelho. Olhamos diretamente para ele e vemos o nosso reflexo. Mexemos músculos de nossa face e a superfície repete exatamente os mesmos movimentos. Viramos de costas e voltamos rapidamente para ver se a imagem consegue suplantar nosso ceticismo e lá está novamente a figura idêntica a nós realizando tudo o que decidimos fazer em tempo real.

No entanto, ao terminarmos de nos arrumar, saímos do quarto e ficamos imaginando se o espelho ainda continua a refletir os objetos em seu ângulo de influência, mesmo quando não estamos lá. Voltamos ao quarto e checamos por nós mesmos, mas só sabemos quando olhamos diretamente e acabamos por ver nossa imagem também. Mas é aí que temos uma ideia:

Instalamos uma câmera de vigilância para testar a hipótese de que o espelho continua a funcionar quando não estamos lá, mas percebemos que a câmera funciona exatamente como nossos olhos: ela só consegue captar a imagem refletida quando ela mesma está apontada para o objeto e, assim, acaba por aparecer e frustrar nosso pequeno experimento.

Concluímos, então, que só podemos ter certeza de que o espelho reflete quando estamos observando o espelho refletir. Por mais estranho que pareça, é até onde podemos realmente comprovar. Se pedirmos para outra pessoa olhar, devemos confiar no testemunho dela, pois, se olharmos juntos para conferir, estaríamos outra vez burlando as regras de nossa imparcialidade.

O exemplo não para aí e pode ser estendido para árvores que caem na floresta e a dúvida sobre fazerem barulho ou não; como também para o nosso passado – como podemos provar que não implantaram memórias falsas? E, se podemos nos enganar com o nosso passado, por que não podemos estar enganados a respeito de todas as nossas sensações e de nossos pensamentos?

Esse tipo de raciocínio leva a algo chamado solipsismo. Trata-se da linha que culmina na constatação de que a única coisa que podemos comprovar por certo é que há um ser pensante, porque, certo ou errado em seus pensamentos, do simples fato de pensar segue-se que há um ser. Descartes [1] é talvez o mais famoso filósofo dessa conceituação, mas ela tem origens desde as religiões orientais e a filosofia grega, e a forma já fora explorada desde poetas, como Edgar Allan Poe [2] e Pedro Calderón de la Barca [3], até a ficção científica moderna, com sonhos indistinguíveis da vida real [4] ou com máquinas manipulando nossas mentes [5].

Mas qual o real apelo do solipsismo? Por que não parece haver contestação para ele? O solipsismo ataca diretamente uma de nossas falhas de percepção: a de que nosso cérebro interpreta apenas os dados obtidos através dos sentidos e que não é capaz de superar essa deficiência. Mesmo quando não medimos esforços empáticos para tentar pensar como outra pessoa, dificilmente conseguimos boa noção do que se trata até termos nós mesmos passado pela experiência.

É assim que se dá com o choque entre culturas: temos problemas para entender por que alguns comem carne de cachorro ou mesmo por que alguns rejeitam consumir carne de vaca. Mas a dificuldade também pode vir por fatores etários – o choque entre gerações – ou de gênero – o choque entre os sexos. É um rol meramente exemplificativo, mas dá conta do sentimento de incompreensão advindo da incapacidade natural para se imaginar no lugar do outro.

O solipsismo aponta para essa falha e, pelo fato de não sermos perfeitos, põe em xeque toda a nossa capacidade de conhecer. No entanto, tal apelo só teria efeito completo se nossa constituição fosse puramente racional, como a matemática. Dentro de suas regras, podemos pedir por respostas certas. Diante de nossos problemas diários, as operações matemáticas passam por ótimo porto seguro. Não é à toa que, em linguagem técnica, as ciências matemáticas sejam as únicas que ainda falam em prova.

Em outros ramos, falamos apenas em evidências, que são elementos que usamos para confirmar nossas hipóteses. De certa forma, nunca alcançaremos evidências suficientes para provarmos em definitivo que nossas hipóteses são verdadeiras – e, mesmo que conseguíssemos, poderíamos usar do solipsismo para duvidar da validade delas. Com isso, quanto mais certeza queremos ter sobre determinado assunto, mais evidências devemos coletar e conferir se elas confirmam ou refutam nossa impressão.

O solipsismo – ou a dúvida absoluta – dá espaço, então, para a dúvida guiada. Devemos duvidar de qualquer proposição que não venha acompanhada de evidências proporcionais à alegação e estarmos sempre dispostos a abandonar aquelas para as quais as evidências apontam em direção contrária [6]. Eis a força e a fraqueza de tudo: podemos coletar um número grande de evidências confirmativas, mas apenas uma negativa é o bastante para que sua validade seja questionada.

É o máximo que conseguimos obter de nossos sistemas cognitivos limitados, mas tem se mostrado satisfatoriamente eficaz. O gosto pelo absoluto e o repúdio pelo incompleto parece ser uma lembrança de nossos cérebros primitivos que acabam por vacilar quando não há segurança que nos guie a determinado comportamento. O solipsismo é útil para que abandonemos certas crenças, mas fazer dele uma crença maior é votar pela inércia de dispensar avanços em prol de um conhecimento absoluto que muito provavelmente nunca teremos.

Notas:

[1] DESCARTES, René. Meditationes de prima philosophia, in qua Dei existentia et animæ immortalitas demonstratur. Original latim com traduções para o inglês e o francês disponível em: <http://www.wright.edu/cola/descartes/>. Acesso em 18 abr. 2011.

[2] POE, Edgar Allan. A dream within a dream. Poema disponível em <http://www.poemhunter.com/poem/a-dream-within-a-dream/>. Acesso em 18 abr. 2011. [em inglês]

[3] BARCA, Pedro Calderón de la. La vida es sueño. Peça completa disponível em <http://es.wikisource.org/wiki/La_vida_es_sue%C3%B1o>. Acesso em 18 abr. 2011. [em espanhol]

[4] Inception, dirigido por Christopher Nolan. Warner, 2010. IMDb: http://www.imdb.com/title/tt1375666/

[5] The Matrix, dirigido por Lana Wachowsky e Andy Wachowsky. Warner, 1999. IMDb: http://www.imdb.com/title/tt0133093/

[6] RUSSELL, Bertrand. O valor do ceticismo. In: RUSSELL, Bertrand. Ensaios céticos. Trad. por Maria Motta. Porto Alegre: L&PM Editores, 2008. Original inglês disponível em <http://www.positiveatheism.org/hist/russell4.htm>. Acesso em 21 abr. 2011.

Já foi dito aqui, muitas vezes, que um ateu não crê que deus não existe. Ou ao menos não que isso seja necessário para caracterizá-lo como ateu. Muitos não-ateus gostam de lembrar que os ateus também creem em alguma coisa, como se crer fosse uma atividade proibida ao grupo. Obviamente, nada impede um ateu de crer em algo que não seja um deus. Não falo aqui das crenças mais ordinárias, como acreditar que tem que estar no trabalho daqui a meia hora ou acreditar que o Brasil é banhado pelo oceano Atlântico. Darei um exemplo de uma crença muito comum entre nós, ateus, seguindo a definição mais restrita de “crença” com a qual denotamos a crença dos, vejam só, crentes.

A crença no livre-arbítrio. A crença no livre-arbítrio talvez não esteja no mesmo patamar da crença de que Jesus nasceu de uma virgem, mas está lado-a-lado com a crença na vida eterna. Não é uma crença tão ingênua quanto a virgindade de uma mãe; no entanto, com certeza é muito esperançosa. Eu acredito, ou tento acreditar, mas o meu lado cético – que está preocupado em acreditar no que é real – briga com o meu lado esperançoso – que procura acreditar no que agrada – e minha crença não fica muito definida. Óbvio que, quando me refiro a ateus, é apenas uma parcela que acredita em livre-arbítrio.

Fala-se de maneira muito leviana no livre-arbítrio, de maneira ainda mais leviana sobre “liberdade” (eu gostaria muito que os norte-americanos me explicassem que “liberdade” é aquela pela qual eles lutam; nunca entendi direito). Adianto que é um assunto “levemente pesado”, se me permitem a contradição. Já falei sobre morte, defendi que deuses não existem (ou que não é lógico acreditar neles, vale esclarecer), mas falar sobre liberdade é mais pesado. Esclarecendo, falo de “liberdade” nesse texto como sinônimo de livre-arbítrio, até porque, se o livre-arbítrio não existe, então não existe qualquer forma de liberdade. Pensar que não somos livres para escolher, para desejar, é mais incômodo do que pensar que deixaremos de existir ou que não há deus. Na verdade, perto do livre-arbítrio, questões como “deus” e “morte” parecem até brincadeira de criança.  Provavelmente não existe deus algum nos protegedo nem garantia de vida após a morte, mas  o que importa é que vivemos e que, acredita-se, ajudamos a construir um mundo melhor. Desacreditar no livre-arbítrio implica acreditar em uma existência pela qual somos meros espectadores, passivamente gostando ou odiando os eventos que se sucedem.

Pegarei um exemplo banal para ilustrar o problema. Imaginemos que você vai a uma loja e deve escolher uma entre duas camisetas. Uma delas é amarela e a outra é azul. Você escolhe a azul. Ponto. Então você sai pela rua com uma camiseta azul, satisfeito com ela, imaginando que sua escolha foi boa. Tudo muito tranquilo até agora. Então você se lembra que, dias atrás, alguém te disse que a cor azul estava na moda. Veja como isso desvaloriza a sua decisão! No fim, o que te levou a escolher a camiseta azul foi apenas uma sugestão fútil sobre tendências da moda. Você imediatamente se sente uma ovelha em seu rebanho, uma ovelha vestindo uma camiseta azul. Talvez quem te disse sobre a moda da cor azul estava se beneficiando com o estouro de vendas de camisetas azuis. Então, só para se rebelar, você decide que talvez seja melhor comprar uma camiseta amarela e dar um “não” às tendências da moda e um “sim” à livre-escolha. Mas daí você se lembra que existe algo chamado “psicologia reversa” e que talvez a intenção era justamente a de fazer você comprar uma camiseta amarela. Como um pato, você caiu e começa a pensar se um pato de camiseta amarela é tão melhor assim que uma ovelha de azul. De um modo ou de outro, a sua escolha foi determinada pela alegação de que a cor azul está na moda.

Podemos supor que ninguém nunca te sugeriu nada e você comprou uma camiseta azul por achá-la mais bonita. Mas e por que você a acha mais bonita? Por que o azul te lembra a paz? Vai ver ele te lembra a paz pois é a cor de um céu limpo, ou porque lembra o mar, praia, férias. Nesse caso, a sua escolha não foi determinada por um interesseiro; foi determinada pela lembrança do mar e do céu que algum dia lhe represetaram paz. Fato é que ela não foi determinada por você e sim pelo que aconteceu em seu passado. Nossas escolhas não nascem espontaneamente no momento em que a realizamos; elas são consequências da carga de experiências que tivemos desde que nascemos.

Tudo fica muito mais leve quando falamos de camisetas e cores. Mas é claro que a questão se estende bem além disso. Aprendemos a ter orgulho de nossas escolhas, como a escolha da faculdade certa ou da esposa certa (ou do marido certo). Fazemos escolhas que consideramos erradas e ficamos imaginando como seríamos mais felizes se tivéssemos seguido um caminho diferente. Sem o livre-arbítrio, esses orgulhos e divagações são infundados. Como folhas boiando em um rio, onde nós somos as folhas e o rio é o meio em que vivemos, podemos ir parar em um lago limpo ou em um esgoto, mas não faz sentido se orgulhar por um ou se lamentar pelo outro. Uma existência sem deus ou sem vida eterna ainda é recheada de méritos, de glórias. Sem livre-arbítrio essas coisas se perdem. Termino o meu segundo texto sobre “morte” falando sobre a importância de deixar um bom legado. Digo naquele parágrafo que o legado é a eternidade concretizada pelos atos. Mas que coisa vazia seria se os seus atos não fossem escolhas suas e sim meras consequências inevitáveis. Darwin termina sua obra-prima dizendo “Há grandeza nessa visão da vida”, se referindo à crença de que todas as formas de vida surgiram de apenas uma, muito mais simples. E ele estava certo: há muita grandeza mesmo nessa visão da vida. Há grandeza na visão de um ateu também, não tenham dúvida, de uma vida sem deuses, uma vida que é bonita por si só. Existe igual grandeza em uma vida que tem um início e um fim, que deve ser aproveitada. Mas não, não há grandeza alguma sem livre-arbítrio.

Imaginem que hoje à noite uma pessoa vai bater na sua casa e lhe trazer uma notícia. Essa pessoa veio do futuro e viu tudo. Veio lhe dizer que a sua vida será medíocre e que você não chegou nem perto de realizar algum sonho seu. Pois bem, como não existe livre-arbítrio, a sua vida realmente será medíocre; quando confrontado com a opção de seguir uma via mais laboriosa e arriscada, você inevitavelmente negará em prol de uma mais confortável. Mas, se o livre-arbítrio existe, a mensagem dessa pessoa (muito importuna, por sinal) será apenas um incentivo para você ser um grande homem ou uma grande mulher. Isso demonstra de maneira mais clara o quão a descrença no livre-arbítrio é pior do que a descrença em deus ou na vida eterna. Tão pior que, pela primeira vez, eu espero sinceramente que alguém refute o meu texto com muita categoria, para que eu possa dormir tranquilo acreditando mais convictamente na liberdade de escolher.

Bom, para terminar, sem livre-arbítrio a vida é comparável a uma montanha russa. Na montanha russa, estamos presos em carrinhos que percorrem subidas e decidas. Como na nossa vida sem liberdade, as subidas e decidas não dependem de nossas escolhas e nossas emoções são determinadas em uma interação passiva na qual você apenas sente as consequências. Bom, termina o percurso da montanha russa, cheia de subidas, descidas, loopings e parafusos – todos eles lhe causaram uma gama de emoções diferentes. Medo, felicidade, alívio ou até mesmo enjoo. Não faria mesmo sentido se te descem parabéns por ter estado no ponto mais alto da montanha russa ou te consolassem por ter passado pelo mais baixo. Ninguém te perguntaria como você fez para dar todos aqueles loopings e ninguém dedicaria uma página na Wikipédia sobre “o parafuso que você deu naquela montanha russa”. Fazemos coisas semelhantes na vida real, como parabenizar e consolar, considerando os sucessos assim como os fracassos, e a analogia com a montanha russa mostra que essas atitudes não fazem tanto sentido assim. Mas talvez uma, e apenas uma pergunta seria relevante, tanto na vida como na montanha russa:

“O passeio estava bom?”

Há basicamente três correntes do ceticismo – a saber, o religioso, o filosófico e o científico. Dentre as três, o ceticismo científico é o sinônimo mais comum para aqueles que autodefinem “céticos”. Diz-se da pessoa que questiona as suas crenças com base no entendimento científico. Assim, as alegações passam a ser analisadas e consideradas verdadeiras se puderem passar por testes empíricos.

Resumindo assim, é impossível ser completamente cético. Há uma série de alegações que não podemos testar empiricamente e que, mesmo assim, tomamos por verdadeiras. E não falo aqui de testarmos nós mesmos todas as alegações possíveis, pois seria inviável tornar-se sapiente o bastante para empreender testes em determinadas áreas que exigem um aprofundamento que leva um bom tempo de nossas vidas.

Para as alegações do grupo testável e que não podemos testar nós mesmos, confiamos nos profissionais em suas respectivas áreas e nos fiscais de seus trabalhos. É aqui que entra um novo significado de ceticismo mais condizente com uma sociedade baseada na informação: devemos ser cautelosos e prudentes na escolha das fontes que nos informam. Não há ideia extravagante que não encontre excêntricos dispostos a defendê-la.

Enquanto a ciência simplesmente ignora alegações sobrenaturais ou paranormais, o manto de arrogância lhe é inevitavelmente associado pelos defensores de tais práticas. Não entendem eles que suas alegações escapam ao escopo empírico e que provas anedóticas não satisfazem o desejo legítimo de conhecer. Nem percebem a faceta tendenciosa de suas publicações autoafirmativas.

São – na falta de melhores palavras – pessoas desinformadamente informadas, que buscam somente as fontes que corroboram suas crenças íntimas e que as acham por um preço módico, mas nem sempre. Esconder ou ignorar as teses contrárias é um claro sinal de como as nossas crenças podem nos tornar os canalhas que não somos em outras tantas ocasiões. Que não entendam com isso, todavia, uma equivalência entre fontes científicas e folhetins apologéticos.

Não se trata de um simples apelo à autoridade, mas da aplicação do que se entende por ceticismo em nossos tempos com uma abordagem prática às fontes nas quais buscamos conhecimento. Uma verdadeira fonte científica dá detalhes sobre a metodologia, apresenta as teses concorrentes, bem como descreve os procedimentos, e qualquer um pode repetir os passos e comprovar o resultado por si. Em contrapartida, as “alternativas” à ciência comumente se baseiam em reduzi-la à ignorância e a argumentação não passa de autovitimização.

Ao invés de comprovarem que suas práticas funcionam através de procedimentos, limitam-se a repetir lamentos sobre como são ignorados pela ciência, comumente taxada de “preconceituosa” e “limitada”. Fazem crer que há uma conspiração mundial entre os cientistas para que pesquisas não sejam realizadas e, quando feitas, que os resultados sejam abafados. No entanto, quando há as pesquisas e os resultados são divulgados, resta-lhes ainda explicar por que a conclusão não lhes é favorável, geralmente alegando um interesse escuso que não sabem dizer exatamente qual.

Muitos dos esforços que mais conseguiram progredir em determinadas áreas dizem respeito à organização de um método capaz de resolver os problemas com os menores gastos de tempo e energia possíveis. Uma vez encontrado, um trabalho dispendioso e errático pode ser executado de maneira rápida e reprodutível. É assim com o método que Henry Ford implementou na indústria automobilística, só para citar um caso que mudou drasticamente o modo de produção.

Nas ciências, podemos destacar Aristóteles e seu método analítico e classificatório como o grande propulsor da biologia, por exemplo, bem como é de seu mérito a organização de uma gramática como a conhecemos e estudamos até hoje nas escolas. Mas é Descartes – junto com outros nomes como Bacon – quem nos dá a maior contribuição nesse sentido, pois seu método é, para todos os efeitos, uma forma de aprender a aprender.

Longe de qualquer coincidência, os princípios cartesianos são uma forte base para o método científico da forma como é atualmente concebido. Os passos de Descartes podem ser descritos em quatro conceitos: evidência, análise, síntese e recordação. Em resumo, devemos partir do fato, desmembrando-o em partes e vendo o que apresenta em comum sem negligenciar ou omitir qualquer informação.

Sabemos de nossas limitações e não é – como muitos fazem parecer – fraqueza admiti-las. Pelo contrário: é quando as abraçamos que podemos superá-las. Eis a função do método: retirar ao máximo as falhas de nossas avaliações pessoais e dar às nossas observações um caráter impessoal e despido, na medida do possível, de todos os mecanismos evolutivos que possuímos que são, muitas vezes, obstáculos para o conhecimento.

Ainda assim, é difícil dissociar ciência de cientista. No entanto, apontar erros do segundo grupo de modo algum invalida os méritos da instituição científica. Em primeiro lugar, porque é a mesma instituição que tem a função de desmascarar os erros provocados por seus membros – e não é com menor orgulho que o faz. Mesmo publicações periódicas indexadas podem ser ludibriadas por pessoas inescrupulosas, mas é usando o método que encontrarão as fraudes.

Ergo, a construção do método é uma tarefa empírico-filosófica de maior importância. É empírica porque precisa descrever e ser capaz de manipular os fenômenos observáveis da melhor forma possível – é sua raison d’être. E é filosófica porque, até onde lhe é permitida, é puramente especulativa – um produto de nosso pensamento abstrato. É, sem a menor das dúvidas, a criação da maior das ferramentas para satisfazermos a nossa propensão natural à curiosidade com o devido cuidado de selecionar as respostas mais satisfatórias e fiáveis.

E não é com menor admiração que estudos neurológicos começam a nos mostrar que o próprio cérebro trabalha de forma semelhante: nossa massa cinzenta não é somente responsável por processar informações de forma passiva, mas elabora hipóteses que serão testadas com os estímulos captados pelos sentidos. E a razão disso parece ser óbvia: realizar a tarefa com o menor dispêndio.

Observou-se menor atividade neural quando o estímulo visual pertence a um contexto previsível. Em outras palavras: o cérebro tenta antecipar o estímulo sensorial para operar com maior economia. Para entendermos com um exemplo: o cérebro cria a hipótese de encontrarmos a nossa televisão onde sempre esteve na sala-de-estar e terá menor atividade pela sua confirmação se comparado ao resultado inesperado de vermos um objeto diferente – ou mesmo a falta de um objeto – em seu lugar.

De modo algum existe a alegação de que a ciência é perfeita ou imune a críticas. Seu método pode ser melhorado? Por princípio, tudo pode. Os limites parecem ser aqueles que emergem das propriedades definidas no objetivo – e os da ciência dizem respeito ao que é passível de observação e reprodução controlada. Parece pouco, mas dificilmente encontraremos fenômenos realmente importante que estejam fora de seu escopo.


Referências:

ALINK, Arjen. SCHWIEDRZIK, Caspar M. et al. Stimulus Predicability Reduces Responses in Primary Visual Cortex. The Journal of Neuroscience, Washington, 2960, pp. 2960-2966, fevereiro de 2010. Disponível em: <http://www.jneurosci.org/cgi/reprint/30/8/2960.pdf>. Acesso em 10 jan. 2011. [em inglês]

ARISTÓTELES. Metafísica. Disponível em: <http://remacle.org/bloodwolf/philosophes/Aristote/tablemetaphysique.htm>. Acesso em 10 jan. 2010. [original grego com tradução para francês]

BACON, Francis. Novum organum. Disponível em: <http://temqueler.files.wordpress.com/2009/12/francis-bacon-novum-organum.pdf&gt;. Acesso em 10 jan. 2011. Do original latim Novum organum scientiarum (1620), disponível em <http://ia700402.us.archive.org/5/items/1762novumorganum00baco/1762novumorganum00baco.pdf>. Acesso em 10 jan. 2010.

DESCARTES, René. Discurso do método. São Paulo: Martins Fontes, 2009. 4. ed. Também disponível em: <http://ateus.net/artigos/filosofia/discurso-do-metodo/>. Acesso em 10 jan. 2011. Do original francês Discours de la méthode (1637), disponível em <http://s3.amazonaws.com/manybooks_pdfLRG/descarte1384613846-8pdfLRG.pdf>. Acesso em 10 jan. 2010.

LAKATOS, Imre. Ciência e pseudociência. Disponível em: <http://ateus.net/artigos/ceticismo/ciencia-e-pseudociencia/>. Acesso em 10 jan. 2011.

POPPER, Karl. Como a ciência evolui. Disponível em: <http://ateus.net/artigos/filosofia/como-a-ciencia-evolui/>. Acesso em 10 jan. 2011.

É uma época do ano em que a religião está em mais alta evidência. Por consequência, é também a época do ano em que os fieis entram em maior questionamento sobre sua crença. Alguns saem com a fé abalada; outros, fortalecida; outros tantos, sequer pensam a fundo sobre o assunto.

Para o cristianismo, é a época de celebrar o nascimento de Cristo, figura emblemática que até hoje divide opiniões sobre sua historicidade. Sabemos, no entanto, que a data não é mencionada algures nem alhures e que foi incorporada na tradição cristã através dos ritos pagãos de celebração solar, no hemisfério norte.

De uma forma ou de outra, tudo isso é irrelevante. Os maiores questionamentos pouco têm a ver com os dogmas específicos de tal ou qual religião. Principalmente porque eles, com o avanço científico, se tornaram mais simbólicos e mitológicos do que a maior parte dos religiosos se permite admitir.

Os maiores questionamentos ainda dizem respeito às nossas origens e ao nosso destino, depois da nossa passagem de tempo neste mundo que conhecemos. O fato de persistirem já seria suficiente para derrubar qualquer alegação de que a religião nos dá respostas satisfatórias para nossas preocupações existenciais.

A verdade é que temos uma resposta muito bem evidenciada: chegamos até aqui por meio da seleção natural e partilhamos com os outros seres-vivos toda a nossa história biológico-evolutiva. Depois que morrermos, também teremos o mesmo fim que terão nossos soci malorum: a inevitável decomposição e a reincorporação no ciclo do carbono.

Por que, então, protelamos as questões? Em parte, porque as respostas científicas massageiam pouco ou quase nada nosso senso de importância cósmica. Ou seria simples coincidência que tenhamos um paraíso à espera e o resto dos seres não? Aos advogados de nosso mérito, resta-lhes escolher características como consciência, raciocínio ou reflexão para justificar nossa posição central em um plano superior.

Não sei quanto às outras pessoas, mas suspeito que sejamos nós a escolher quais características devem contar para a seleção divina de seres; e suspeito mais ainda que as características eleitas para o concurso sejam exatamente aquelas que apresentamos com maior proeminência. E não me digam que a escolha veio de uma força maior, a menos que me apresentem o que vos legitima a falar em nome de deus(es) mudos e incomunicáveis.

No fundo, somos produtos em ambas as visões de mundo – não importa se científica ou religiosa. Se preferimos ser uma criação divina, isso diz mais sobre nossa vontade de valorização do que sobre nossa vontade de entender.

Pense no seu emprego. Pense em sua escola ou universidade. Pense em todas as tarefas que precisa realizar nessas instituições. Pense em quantas delas realiza com vontade e quantas outras realiza somente por obrigação. Pense no cansaço – físico e mental – que resulta de todo esse esforço. Agora pense que foi tudo em vão. Não é senão com desespero e com frustração que encaramos esse pensamento.

Nosso sofrimento precisa restar justificado ou então não teríamos motivos para aceitá-lo. Os casos que divergem desse padrão são geralmente considerados patologias. Essa justificação pode ser de ordem econômica ou de sanção de caráter punitivo, como a perda do emprego ou a reprovação escolar. Mesmo assim, não é certo dizer que realizamos essas tarefas sem determinado prazer, até porque escolhemos – até certo ponto – as que gostaríamos de realizar.

Pois bem: é mais ou menos assim que encaramos nossas vidas – como se tudo fizesse parte de um plano que nos faz cada vez melhores. Vivemos em um continuum de ações e atitudes que nos tornam quem somos, afinal. Nesse ínterim, construímos e destruímos identidades que nos descrevem e nos agarramos a ideias e a ideais que representam nossos anseios.

Refletindo sobre nossas posições, dificilmente encontraremos alguma que seja absolutamente inconteste – mas isso não significa que não as defenderemos com menor paixão. É muito mais fácil partir da conclusão e encontrar fatos que a corrobore do que permanecer neutro até ter informação suficiente para uma decisão equilibrada. Se não gosto de tal ou qual autor, dificilmente aceitarei seus argumentos e vice-versa.

Mas por que isso acontece? Basicamente, porque, por mais que tenhamos um ideal de perfeição que nunca será alcançado, valorizamos o esforço aplicado e nossa situação presente. Não é que estejamos errados… estamos, no máximo, “incompletos”. Partindo desse pensamento, a ideia de mudar de opinião sempre é desastrosa, pois tira o peso do momento atual e relativiza as ações. Afinal, se não posso me provar mais certo ou errado do que outrem, de que adianta toda a energia desperdiçada em ser quem sou?

Reconhecer a incompletude é, na verdade, uma virtude poderosa. Tomando por exemplo a ciência contemporânea, a ideia de falseabilidade intrínseca ao método é a sua maior força. O “sistema” científico pede a todo momento que lhe provem errado. E é a partir desse controle corretivo extremamente rígido que as falhas pontuais podem ser eliminadas. Para quem não entende o poder de tal atitude, a admissão não passa de fraqueza. Nessa visão vesga, se tudo pode ser provado errado é porque nada está certo.

O dogma da imutabilidade é o maior erro que podemos conceber na tão chamada “natureza humana”. Nossa incapacidade de perceber pequenas mudanças só é desafiada quando o intervalo de tempo entre as comparações é maior do que nossa memória consegue armazenar. Assim, ficamos surpresos com amigos que já não víamos há tempos, com o crescimento de uma zona urbana que não visitávamos desde há muito ou com a evolução histórica entre o surgimento e a versão atual de certa religião.

Tentamos, com todas as armas, sustentar que continuam a mesma coisa; afinal, as pessoas, as cidades e os credos não continuam sob o mesmo epíteto, sob a mesma alcunha?

Uma vez desmistificada a genealogia da verdade, resta admitir que ela não perde seu peso. Se digo que tenho duas pernas, posso questionar o que o numeral representa, bem como a que o substantivo se refere e, ainda, no que consiste a ação. Mas, sanadas todas essas dúvidas, dificilmente poderia negar a afirmação.

Admitindo condições normais, você, leitor, também possui duas pernas. E, claro, pode, por sua vez, passar por todas as indagações possíveis até concluir o raciocínio. Poderia dizer, então, que somos iguais, eu e você? É um belo questionamento que o senso comum deixa escapar.

Ora, a conclusão só faria sentido se o que se propõe comparar tiver relevância para o caso. Poderia dizer que tenho olhos e que sou igual, portanto, a tudo o que tiver olhos, não importando o quão diferentes sejam em número, tamanho, composição e capacidade. Em outras palavras, precisamos esvaziar alguns dos detalhes para abranger um número maior de unidades.

Há algum problema nisso? Teoricamente, nenhum. A menos que seja uma manobra consciente com fins de manipular o interlocutor. Acontece em boa parte do discurso político e, principalmente, no discurso ecumênico.

Mesmo dentro do cristianismo, há uma miríade de seitas e subdivisões de credos e confissões. Dogmas de certa interpretação não coadunam com os de outras, na maioria dos casos. Como a maioria dos ensinamentos é autocontraditória, é impossível alegar que todos estejam certos. O máximo que podemos afirmar é que só um deles é fundamentado no que se possa chamar de verdade, mas é quase certo que nenhum passe no teste de realidade que empreendemos para outras coisas.

Resta-lhes, então, esvaziar os detalhes. Afinal, todos não louvam o mesmo deus? Se consideramos “deus” como a noção de um ser superior para o qual devemos obediência e/ou adoração, quase todas as religiões conhecidas seriam idênticas entre si. Não preciso apontar as discrepâncias dessa noção com o que pode ser observado: diferem desde vestes e rituais típicos até comportamentos sociais e sanções para apóstatas.

Esse esvaziamento parece ser a etapa final de um relacionamento emocional. Tal como nossos amados, cujos detalhes ignoramos quando estamos apaixonados, a ideia vaga só se sustenta enquanto não se pede por detalhes. Uma simples pergunta aberta seria capaz de dividir os fieis nas mais diversas vertentes interpretativas.

Tomemos por exemplo os dogmas católicos. Dificilmente encontraremos alguém que os cumpra todos – não só pela dificuldade atual, mas pela total ignorância quanto a eles. Encontraremos, isso sim, fieis que escolhem aqueles que desejam seguir, baseados, principalmente, na capacidade de conciliação com a vida quotidiana. Voltando às nossas definições, tais pessoas não poderiam ser consideradas católicas, strictu sensu. Se assim afirmam no censo demográfico, é porque foram batizadas durante a infância e tendem a visitar igrejas em datas culturais.

Por nosso condicionamento, dificilmente razão e emoção se encontram. Em geral, separamos bem as duas esferas e desligamos uma sempre que a outra está em ação. Assim, não importa o quanto demonstremos a tal ou qual pessoa o quanto sua crença – não necessariamente religiosa – precisa ignorar detalhes para se sustentar, pois haverá sempre uma zona de (des)conforto que dará legitimidade ao forte apelo emocional.

Ignorar detalhes é uma forma econômica de levar a vida – não há dúvidas quanto a isso. É uma maneira simples e eficiente de encarar modelos artificiais impostos de fora para dentro e, ao mesmo tempo, ter noção de identidade para um grupo que precisa partilhar determinadas ideias.

Por que, então, investir tempo em um texto assim? Porque a maturidade consiste em estar consciente das limitações do condicionamento a que fomos submetidos e racionalmente investir em atitudes que visem a mudar o que não mais nos serve, o que se mostrou prejudicial e inadequado para o nosso projeto de vida. E, acima de tudo, porque não há simplesmente a inocência de quem segue tal condicionamento: há, no polo ativo, sempre alguém disposto a se aproveitar da ingenuidade e da ignorância alheia.