Category Archives: Física

Na acepção que nos interessa neste texto, o vocábulo grego lógos (λόγος) significa a faculdade do homem de raciocinar [1]. E é exatamente nessa acepção que encontraremos o termo latino ratio [2]. A ambiguidade aparente do termo “razão”, em português, vem de outra forma de interpretar a ratio: além da inteligência ou do intelecto, pode significar também o próprio princípio de inteligibilidade, o que nos diferencia, em tese, dos outros animais.

O mundo exterior não é racional no primeiro sentido, porque, até onde sabemos, não podemos projetar intencionalidade no universo. Não há uma mens que raciocina por si. De acordo com todo o conhecimento coletado até agora, somos as únicas formas de vida conhecidas na vastidão que enxergamos lá fora. E, aqui dentro, o pensamento é um fenômeno que não existe sem o substrato cerebral, presente apenas em alguns tipos de animais com sistema nervoso central e mais reservado àqueles com capacidade superior de abstração. Se, ainda assim, nos separamos dos outros, é por nossa capacidade de expor tais pensamentos através da linguagem.

No entanto, dadas as regularidades das constantes da natureza e a nossa capacidade de abstrair padrões – às vezes até mesmo onde não existem –, é possível racionalizar a existência em todos os seus traços. Foi com esta ideia de razão que criamos a filosofia, que se expandiu para as mais diversas áreas, e mais recentemente a ciência, em sua acepção atual, que abarca praticamente todos os fenômenos conhecidos. As alegações recentes de impossibilidade de racionalização saíram do mundo externo, pois a abrangência científica já demarcou os pontos mais diversos que podemos imaginar. Ficamos, então, restritos a certos comportamentos humanos ou a certas manifestações que julgamos serem únicas de nossa espécie.

Notadamente, as áreas que mais tentam livrar-se do cunho da racionalidade são as religiosas ou as artísticas. Note-se que o pretenso destaque do escopo da ciência só se realiza se tomarmos por base aquele grupo de ciências naturais que costumamos simplesmente designar “ciências”, como a física, a química e a biologia. Por mais que elas também estudem constituições do ser-humano, entende-se que a sua abordagem é meramente mecânica, como quando estudamos as funções e o funcionamento de nossos sistemas, desde o digestivo e o respiratório, até o nervoso e o reprodutivo.

Em termos filosóficos, sempre tivemos autores que tentaram racionalizar a arte e a religião. Aristóteles escreveu vários tomos sobre o primeiro termo e a própria palavra grega para “arte” significa simplesmente “técnica” (τέχνη). Os títulos latinos para suas obras são ainda mais interessantes, como Ars rhetorica (τέχνη ρητορική) ou Ars poetica (περὶ ποιητικῆς), e nos revelam um sentido para o vocábulo “arte” que usamos hoje em dia, de forma mais displicente: quando um indivíduo demonstra notável destreza em seu campo de atuação, dizemos que é um artista, dizendo, na verdade, que simplesmente possui técnica apurada e criatividade avantajada, como no caso de jogadores de futebol ou praticantes de xadrez, mas também de bons funcionários ou administradores.

Sobre a religião, vários autores se aventuraram a discorrer sobre seus fundamentos, bem como tentaram usar a racionalidade filosófica para justificar a (in)existência de deus(es). Desde os aforismos de Epicuro, até os teólogos medievais Agostinho e Tomás de Aquino, culminando nos extensos escritos de Hume sobre a religião. E, ainda depois disso, com Voltaire, Leibniz e Espinosa. Filosoficamente falando, religião e arte, conclui-se, não estão fora do escopo da razão, pois são objetos tratados por vários ramos, desde a teologia até a estética, não importando a provável naturalidade de tais traços.

A ciência também lida com os dois construtos humanos. E muitas vezes aplica o método científico strictu sensu para tal. Partindo de manifestações sociais, os sociólogos clássicos da escola francesa já estudavam os costumes religiosos, enquanto se expandiam para além das fronteiras europeias – surgiu assim a figura do bon sauvage, tão famosa na literatura da época [3]. Para mais perto de nosso tempo, tivemos a expansão para as civilizações dos arquipélagos do Oceano Pacífico, com mais estudos sobre os nativos e o acompanhamento de uma religião que nascia dali: o caixismo ou o culto à carga [4]. Em nosso país, até hoje antropólogos visitam tribos isoladas e que, não raro, nunca tiveram contato com o “homem branco”. De seus estudos, saem vários tratados interessantes, como a série de relatos sobre a tribo dos Pirahãs [5].

E vamos ainda mais longe, quando tratamos dos traços universais que temos codificados em nosso DNA. A psicologia evolutiva trabalha de forma complementar às disciplinas sócio-filosóficas, como no caso da estética evolutiva [6][7]. O objetivo de tal disciplina é tentar enxergar as vantagens evolutivas dos mecanismos que nos permitem explorar a arte e a religião como formas culturais. Os estudos mais aceitos em comunidades especializadas dão conta da arte como produto acidental, pois é um uso diferente e novo para características isoladas que desempenhavam funções nobres para a nossa sobrevivência, como o reconhecimento de padrões na natureza, e para a seleção sexual, como os conceitos de beleza e agradabilidade [8].

Mesmo que se alegue que isso tudo não é realmente fazer arte ou participar de uma religião, a racionalidade não fica de fora da práxis. Nas artes, é inegável que entendemos melhor a música e a harmonia musical de um ponto de vista físico – com relação aos comprimentos de ondas das notas musicais – e matemático – com a noção de proporção entre as notas que, desde os gregos, nos dão escalas belas e agradáveis. A escala pentatônica, por exemplo, em suas várias modalidades surge com os estudos de Pitágoras sobre as divisões melódicas [9].

Saindo da música, a ideia de harmonia também contaminou a poesia, e basta citar a estrutura poética mais conhecida – o soneto. É a junção de dois quartetos e dois tercetos, com sílabas poéticas bem definidas e uma estrutura de rima variável, a depender do autor. Sua fórmula nada mais é do que a racionalização de um compasso musical que soa bem aos nossos ouvidos, ou seja, a teorização de algo que temos em nossa programação inata. Em ainda outras palavras: a justificação racional para a beleza percebida por nossos sentidos [10].

O mesmo pode-se dizer para a arquitetura, para a escultura e para a pintura. Esta última, aliás, desenvolveu-se de forma surpreendente quando os artistas ocidentais – notadamente a partir do Renascimento – passaram a aplicar avançados cálculos matemáticos para as proporções humanas. O famoso estudo do homem vitruviano de Leonardo da Vinci é pura e simplesmente a aplicação da proporção que o arquiteto e engenheiro romano Marco Vitrúvio Polião prescrevera para o corpo humano, já no séc. I a.C., e seguia os princípios arquiteturais de utilidade (utilitas), beleza (venustas) e solidez (firmitas) [11].

Quod erat demonstrandum, não só temos ótimas bases empíricas para decidirmos sobre as opções disponíveis, como também dispomos de grande arsenal racionalista para que nenhuma de nossas escolhas fique à mercê de arbitrariedades. Conforme avançamos e nos aprofundamos nas questões que sempre nos levaram ao autoconhecimento, resta pouco ou nenhum espaço para obscuridades. No fundo, não deixa de ser irracional – não no sentido de não usar a razão, mas de ser contra o que ela demostrou ser mais verdadeiro – que se alegue lacuna onde já não existe mais.

No mais, parece permanecer, a favor da crença em deus(es), o adágio latino geralmente atribuído a Tertuliano [12], que dá conta da crença no sentido mais peculiar para “fé”: o depósito de confiança em algo que se demonstra injustificável por quaisquer outros meios; a crença em algo para o qual não se tem a menor das evidências. Ficamos, enfim, com o poético mas tragicômico credo quia absurdum.

 

Notas:

[1] GOBRY, Ivan. Vocabulário grego da filosofia. Tradução de Ivone C. Benedetti. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

[2] FONTANIER, Jean-Michel. Vocabulário latino da filosofia. Tradução de Álvaro Cabral. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

[3] Página da Wikipédia sobre a idealização: <http://fr.wikipedia.org/wiki/Bon_sauvage>. Acesso em 03 abr. 2011. [em francês]

[4] Sobre o assunto, há um bom texto neste mesmo espaço: TEIXEIRA, Bruno. O início das religiões: o culto à carga. Disponível em: <http://deusnagaragem.ateus.net/2010/05/21/culto-a-carga/>. Acesso em 03 abr. 2011.

[5] Página da Wikipédia sobre o povo Pirahã: <http://en.wikipedia.org/wiki/Pirah%C3%A3_people>. Acesso em 03 abr. 2011. [em inglês]

[6] DE SMEDT, Johan. Toward an Integrative Approach of Cognitive Neuroscientific and Evolutionary Psychological Studies of Art. Disponível em <http://www.epjournal.net/filestore/EP08695719.pdf>. Acesso em 03 abr. 2011. [em inglês]

[7] DUTTON, Denis. Aesthetics and Evolutionary Psychology. Disponível em <http://www.denisdutton.com/aesthetics_&_evolutionary_psychology.htm>. Acesso em 03 abr. 2011. [em inglês]

[8] Sobre a religião como produto acidental, há outro texto neste mesmo espaço: MOURA, Jairo. Das origens da religião II: produto acidental. Disponível em <http://deusnagaragem.ateus.net/2010/12/15/1808/>. Acesso em 03 abr. 2011.

[9] Bobby McFerrin demonstrando que todos temos a escala pentatônica em nossa programação cerebral: <http://www.youtube.com/watch?v=ne6tB2KiZuk>. Acesso em 03 abr. 2011. [em inglês]

[10] Em português, Augusto dos Anjos tem, sem dúvidas, alguns dos mais belos sonetos. Para referência, “Versos Íntimos” é um ótimo exemplo. Há uma versão disponível em <http://www.releituras.com/aanjos_versos.asp>. Acesso em 03 abr. 2011.

[11] Página da Wikipédia sobre Marco Vitrúvio Polião: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Vitr%C3%BAvio>. Acesso em 03 abr. 2011.

[12] Página da Wikipédia sobre a discussão referente ao adágio: <http://en.wikipedia.org/wiki/Credo_quia_absurdum>. Acesso em 03 abr. 2011. [em inglês]

No século XIX, décadas antes de Einstein ter proposto suas contra intuitivas teorias da relatividade, pairava no meio científico a dúvida sobre a existência do éter luminífero. Não só a intuição, mas também o conhecimento sobre a natureza das ondas sonoras (que constituem a vibração de um meio material tal como o ar, ou qualquer porção de líquido ou corpo sólido) levavam cientistas a postular a existência desse elemento. Tendo a luz, tal como o som, a natureza de onda, o éter luminífero seria o meio através do qual ela se propagaria. Em outras palavras, a propagação da luz consistiria na vibração desse meio. Era estranha a ideia de que a luz se propagasse no vácuo, onde não há o que vibrar.

Dispostos a esclarecer a dúvida, em 1887 os físicos Albert Michelson e Edward Morley propuseram e realizaram um experimento[1] capaz de constatar a existência do éter, como acreditavam, e que poria fim à questão. O engenhoso experimento era baseado na grande velocidade com que a Terra se desloca na órbita em torno do Sol (cerca de 107.000 km/h) e, portanto, em relação ao éter, e tentava constatar uma diferença de tempo entre dois feixes de luz que percorreriam uma dada distância, mas em direções perpendiculares. Na sua fundamentação, um dos feixes de luz seria desfavorecido pela corrente contrária de éter causada pelo deslocamento da Terra sobre o éter no espaço, levando mais tempo para percorrer a mesma distância[2].

O dado curioso a respeito desse famoso experimento é que, embora ele tenha sido possível de realizar fosse bem fundamentado teoricamente, o resultado foi exatamente o contrário do que esperavam seus autores. Não se constatou nenhuma diferença no tempo de percorrimento dos feixes perpendiculares e, em vez de provar a existência do éter, como pretendido a princípio, acabou por afastar a hipótese da existência. Outras versões mais refinadas do experimento foram realizadas desde então, obtendo o mesmo resultado negativo.

Como se sabe, em ciência o conhecimento é produzido empiricamente. É possível descobrir não só se algo faz parte da realidade, como também se não faz; desde que esse algo esteja bem definido, tendo características detectáveis ou, melhor ainda, mensuráveis. Quando descreve o dragão na garagem, Carl Sagan[3] usa o artifício de jamais defini-lo objetivamente, conseguindo com isso sempre manter a hipótese da existência como possível. Tal como outros seres míticos em outras literaturas.

 

Referências

[1] Experimento de Michelson e Morley <http://pt.wikilingue.com/es/Experimento_de_Michelson_e_Morley>. Acesso em 6 de maio de 2010.

[2] Simulador para a hipótese do experimento <http://galileoandeinstein.physics.virginia.edu/more_stuff/flashlets/mmexpt6.htm>. Acesso em 6 de maio de 2010.

[3] SAGAN, Carl. “Um dragão em minha garagem”. In: O mundo assombrado pelos demônios.

A crescente expansão do universo evidenciada pelo afastamento das galáxias entre si fez aventar a possibilidade de um momento muito anterior no qual toda a massa estaria unida em um único ponto supercondensado que, por alguma razão, explodiu e gerou o que conhecemos hoje como leis da física.

Esse afastamento pôde ser observado por um processo chamado de “desvio para o vermelho” (redshift, no original inglês) [1]. Para um emissor e um receptor de luz estáticos, a frequência da onda eletromagnética é sempre a mesma e, por isso, conseguimos identificar uma cor que lhe é característica. Para emissores e receptores dinâmicos entre si, no entanto, há um desvio de frequência que dá a impressão de mudança de cores. Se o emissor se move em direção ao receptor, este desvio vai para as faixas eletromagnéticas de maior frequência, fenômeno conhecido como desvio para o azul. Quando o emissor se afasta do receptor, o desvio se dá para o vermelho.

É com base nesse exame espectrográfico que podemos medir a velocidade de expansão do universo. Para tal, usamos como medida padrão o desvio para o vermelho de quasares [2], por serem os mais elevados e, portanto, os mais distantes da Terra. Alguns quasares se afastam da Terra com velocidade aproximada de 90% da velocidade da luz. Os mais distantes se encontram a aproximadamente 10 bilhões de anos-luz de nosso planeta.

Voltando à nossa gênese: depois da rápida expansão inicial, sugiram os elementos mais leves da tabela periódica, fato observável até hoje pela sua proporção: hidrogênio e hélio, os dois mais leves, constituem cerca de 95% de toda a massa bariônica do cosmos [3]. Já os elementos mais pesados surgem da fusão dos mais leves, geralmente no interior de estrelas. O nosso Sol [4], por exemplo, fusiona dois prótons (reação próton-próton) de hidrogênio em um núcleo de hélio, liberando dois pósitrons, dois neutrinos e uma quantidade massiva de energia, tão essencial para a vida na Terra.

No entanto, é no interior de estrelas mais massivas que o hélio é formado a partir de um ciclo de reações conhecido como carbono-nitrogênio-oxigênio [5]. A reação se inicia com a fusão de dois prótons de isótopos de carbono, nitrogênio e oxigênio, que atuam como catalisadores da reação principal, liberando dois neutrinos carregados de energia que escapam da estrela, e dois pósitrons, que se anulam imediatamente com elétrons, liberando energia na forma de raios gama.

Quando estrelas gastam todo o seu material de fusão, seu estágio final dependerá de sua massa crítica. Prevê-se que nosso Sol tornar-se-á uma anã branca, condensando sua massa num volume muito menor do que o seu original. São nessas condições de densidade que podem se formar os diamantes estelares, com suas gigantescas pedras de carbono [6]. É da explosão dessas estrelas mais massivas que surge o carbono que, ao ligar-se a outros elementos na Terra, dá origem à química orgânica, sem a qual não teríamos vida como a conhecemos.

Uma outra forma de evidenciar o Big Bang é através de suas consequências. A explosão causada pela singularidade deveria deixar rastros perceptíveis até hoje, aproximadamente 13,5 bilhões de anos depois. Esse “eco” é o que conhecemos atualmente como radiação cósmica de fundo [7], que pode ser captada por aparelhos extremamente simples. Com esse olhar “arqueológico”, podemos chegar até o limite máximo posterior à singularidade, quando as quatro forças fundamentais da física – a saber, gravitacional, eletromagnética e nucleares forte e fraca – tiveram sua alvorada. Experimentos para saber o que há além disso estão sendo conduzidos no Conselho Europeu para a Pesquisa Nuclear (CERN, na sigla em francês) [8], através do Grande Colisor de Hádrons (LHC, na sigla em inglês) [9], num túnel a 100 m de profundidade, na fronteira entre Suíça e França.

Além dos esforços de observação, temos modelos matemáticos que buscam explicar os momentos para os quais ainda não temos evidências diretas. Tais modelos tentam calcular, através de equações, as variáveis envolvidas nos processos que buscam analisar. É a partir desses modelos que podemos especular a posição de nosso universo [10] e o que existia antes do Big Bang [11].

Referências:

[1] <http://en.wikipedia.org/wiki/Redshift>. Acesso em 21 abr. 2010.

[2] <http://en.wikipedia.org/wiki/Quasar>. Acesso em 21 abr. 2010.

[3] <http://en.wikipedia.org/wiki/Abundance_of_the_chemical_elements#Abundance_of_elements_in_the_Universe>. Acesso em 2 maio 2010.

[4] <http://pt.wikipedia.org/wiki/Fus%C3%A3o_nuclear>. Acesso em 21 abr. 2010.

[5] <http://pt.wikipedia.org/wiki/Ciclo_CNO>. Acesso em 21 abr. 2010.

[6] <http://www1.folha.uol.com.br/folha/bbc/ult272u28888.shtml>. Acesso em 21 abr. 2010.

[7] <http://pt.wikipedia.org/wiki/Radia%C3%A7%C3%A3o_c%C3%B3smica_de_fundo>. Acesso em 21 abr. 2010.

[8] <http://public.web.cern.ch/public/>. Acesso em 21 abr. 2010.

[9] <http://public.web.cern.ch/public/en/LHC/LHC-en.html>. Acesso em 21 abr. 2010.

[10] <http://www.inovacaotecnologica.com.br/noticias/noticia.php?artigo=universo-dentro-buraco-minhoca&id=010130100413>. Acesso em 21 abr. 2010.

[11] <http://www.inovacaotecnologica.com.br/noticias/noticia.php?artigo=o-que-existia-antes-do-big-bang&id=010130090105>. Acesso em 21 abr. 2010.

Todos sabemos que o deus judaico-cristão carece de evidências físicas. Não fosse verdade, seria objeto de estudo de alguma área científica. É o sonho de qualquer apologista poder apontar com seus dedos sedentos de confirmação uma prova irrefutável da existência de seu tão querido criador e redentor. Não bastaria mais do que isso para converter todos aqueles ateus que simplesmente não veem motivos para viver suas vidas baseados em um suposto deus dentre tantos outros que já apareceram.

Na falta das tão sonhadas evidências físicas e objetivas, cabe à retórica estabelecer argumentos plausíveis para a existência de deus(es). E é aqui o único patamar de discussão aceitável para tal hipótese. Também é aqui o poço mais fértil das falácias humanamente possíveis, desde apelos à autoridade (ad verecundiam) e à antiguidade (ad antiquitatem), até apelos à maioria (ad populum) e à violência (ad baculum). Dentre todos esses subterfúgios, existe um que é particularmente interessante: o do motor imóvel (κινούμενον κινεῖ [1072b] – ou Primum Movens, em latim)[1].

Este conceito tem origem em Aristóteles e foi concebido como o deus judaico-cristão por São Tomás de Aquino, em sua obra Summa Theologica[2]. Em poucas palavras, para Aristóteles, o começo de todo o movimento era um motor imóvel, perfeito em si mesmo. Usando uma falácia hoje conhecida como Magister dixit (o mestre disse), variante do apelo à autoridade (ad verecundiam), Aquino não demora em estabelecer um paralelo entre o motor imóvel de Aristóteles e o deus criador e redentor cristão, assim como descrito na Bíblia, aproveitando todo o prestígio do famoso helênico para os seus propósitos bem menos nobres.

Em uma tarefa intelectual muitas vezes impetrada tanto por ateus quanto por religiosos, a regressão infinita nos dá duas respostas intuitivas: ou tudo sempre existiu ou tudo teve um começo. Baseados em nossa percepção diária de começo e fim das coisas observáveis (conceito indutivo duvidoso, mas útil em nossa jornada), tendemos a seguir a linha de raciocínio que deduz um começo para o universo. Na busca de uma causa inteligente por trás dele, os religiosos postulam um ser superior, que fugiria à regra que tanto teimam em respeitar: a de que toda consequência tem uma causa. Para eles, deus seria a causa incausada, o motor imóvel. E não hesitam em clamar Aristóteles – através de Aquino – para corroborar sua visão, por mais que nunca tenham lido a obra em que o filósofo grego cunha seus termos ou aquela na qual o teólogo cristão os explora no seu sentido mais conhecido. É uma tática repetida desde a Idade Média e que funciona particularmente bem em nossa época: na dúvida, Aristóteles (filósofo pré-cristianismo) confirma o deus cristão.

Vejamos algumas características do motor imóvel de Aristóteles: a única coisa que este ser faz é pensar eternamente; e só pode pensar na coisa mais perfeita que existe – o próprio pensamento; não poderia pensar sobre seres imperfeitos, como os seres-humanos (1072b); também não teria ação alguma na organização do cosmos: pelo contrário, tudo se organizaria ao seu redor, mas sem sua interferência, sendo apenas objeto de aspiração ou desejo. De longe, nenhuma semelhança com o deus intervencionista da maioria das religiões atuais. O ser aristotélico se aproximaria da visão deísta – e não teísta – de uma divindade: a de um ser que se manifestara no começo de tudo. Obviamente, é uma visão que tapa lacunas, mas não explica muita coisa, pois invoca uma variável ainda mais desconhecida (ignotus per ignotium).

Outra faceta estrategicamente esquecida da interpretação cristã do argumento aristotélico é o das esferas geocêntricas[3]: segundo os teólogos medievais, os sete planetas vistos a olho nu (incluindo a Lua e o Sol) representariam as sete primeiras esferas, seguidas da oitava – ou firmamento – e da nona (uma esfera cristalina, para se adequar a Gênesis 1:7 – “E fez Deus a expansão, e fez separação entre as águas que estavam debaixo da expansão e as águas que estavam sobre a expansão; e assim foi”[4]). A décima esfera seria o Primum Mobile, primeira esfera movida. Além de todas as outras esferas, estaria o Coelum Empyreum Habitacvlvm Dei (Céu Empíreo Habitáculo de Deus), onde estaria o próprio Primum Movens. Inútil dizer que tal abordagem é completamente descartável e, como não?, bisonha demais para merecer qualquer crédito, desde a fatídica constatação de que não somos o centro do sistema solar, nem da galáxia, muito menos do universo. Para Aristóteles, no entanto, o número total de esferas seria de quarenta e nove ou cinquenta e cinco (1073a), pulando sem maiores explicações para a afirmação de que, mesmo com tantas esferas, haveria somente um deus (ὁ Θεός, 1074a). É dessa divisão que surgem todas as classes de anjos e arcanjos para governar as esferas restantes. Uma bela demonstração de como funcionava o universo aristotélico na visão medieval pode ser encontrada em La Divina Commedia, de Dante Alighieri [5].

Concluindo, mesmo que aceitássemos todas as premissas do argumento cosmológico para a existência de deus(es), jamais poderíamos usar Aristóteles para justificar a existência daquelas divindades que se preocupam com a humanidade, como em João 3:16: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê näo pereça, mas tenha a vida eterna”. É um passo grande demais para ser classificado como qualquer outra coisa senão non sequitur. Mas isso tudo só diz respeito à abordagem filosófica do problema. A ciência teria algo a dizer?

Usada como base para o argumento de causalidade, a regressão de causas perdeu força com as leis da termodinâmica (séc. XIX) e da física quântica (séc. XX). As modernas teorias físicas estão cheias de exemplos de coisas movidas sem causa. É um dos temas do livro Hyperspace[6], de Michio Kaku, que cita moléculas de gás que podem quicar eternamente nas paredes de um contêiner, desde que haja conservação de massa e energia, sem a necessidade de um primeiro motor. Outro exemplo forte contra o argumento cosmológico é a teoria do Big Bang, segundo a qual ambos tempo e espaço tiveram início com a singularidade, tirando toda a viabilidade da pergunta “o que veio antes?” – tão fundamental para a argumentação de Aristóteles –, tornando-a comparável a “o que tem na Terra ao sul do Polo Sul?”.

A retórica há muito deixou de ser um instrumento de interpretação da realidade. Sabendo das limitações da linguagem e dos instrumentos de persuasão (Cf. propaganda e publicidade), poucos são aqueles que conseguem afirmar honestidade neles. O método científico consegue extirpar consideravelmente bem todas as mazelas inerentes a seres hipócritas e carentes de autoafirmação. E é com ele que buscamos as melhores respostas para os nossos questionamentos mais íntimos. A todos aqueles que desejam enfiar uma divindade no mundo através de discursos, só resta a árdua tarefa de ir contra todo o conhecimento que já adquirimos desde que começamos a estudar a natureza pelo que ela é, antes do que pelo que queremos que ela seja.

Referências

[1] ARISTÓTELES. Metafísica (Livro Λ). Original grego com tradução para francês disponível em <http://remacle.org/bloodwolf/philosophes/Aristote/tablemetaphysique.htm> Acesso em 14 mar. 2010.

[2] AQUINO, Thomás de. Summa Theologica. Original em latim disponível em <http://www.corpusthomisticum.org/sth0000.html> Acesso em Acesso em 14 mar. 2010.

[3] <http://en.wikipedia.org/wiki/Primum_Mobile> Acesso em 14 mar. 2010.

[4] Bíblia. Tradução de João Ferreira de Almeida. Disponível em <http://ateus.net/artigos/escrituras/biblia/> Acesso em 14 mar. 2010.

[5] ALIGHIERI, Dante. La Divina Commedia. Original italiano com tradução para inglês disponível em <http://etcweb.princeton.edu/dante/pdp/> Acesso em 14 de mar. 2010.

[6] KAKU, Michio. Hyperspace: A Scientific Odyssey Through Parallel Universes, Time Warps, and the Tenth Dimension. New York: Oxford University Press, 1994.

Em meu penúltimo artigo, comentei que diante das maravilhas deste mundo, em uma visão superficial, Deus parece ser a melhor explicação. Porém, se nos aprofundarmos no assunto, a hipótese divina se sustenta?

A navalha de Occam afirma que diante de duas explicações para um mesmo fenômeno, a mais simples tende a ser a mais correta. Se a pergunta for, por exemplo, como surgiu o universo, e houver duas explicações:

1- Deus criou o universo

2- O universo surgiu de uma explosão originada por uma flutuação no vazio quântico.

A explicação 2 parece ser de longe a mais complicada, pelo menos para quem não tem um doutorado em física. Mas então por que os céticos não aceitam a explicação 1 como a verdadeira se ela é mais simples?

Primeiramente porque simplicidade, neste contexto, não significa aquilo que é mais fácil de entender; ora, não poderíamos esperar que nossos cérebros, que se desenvolveram para caçar e contar fofocas, tenha facilidade em compreender um dos maiores mistérios do universo. Portanto, dentro de um contexto científico, a explicação mais simples é aquela que contém o menor número de afirmações não comprovadas.

Quando um crente lê a explicação 1, não vê aí nenhuma complicação, afinal já é tomado por ele, como uma premissa verdadeira, o fato de deus existir. Porém, se tentarmos ser minimamente imparciais nesse assunto, veremos que dizer “deus existe” é uma afirmação carente de evidências. Poderíamos afirmar, por exemplo, que quem criou o universo foi o Pelé, e essa seria uma afirmação menos absurda; afinal, o Pelé existe, e há várias provas e evidências disso. Só restaria comprovar que o Pelé de fato tenha criado o universo, mas essa prova também falta a deus.

Já a explicação 2, apesar de bastante complicada tecnicamente, parte apenas de premissas comprovadas, isto é, condiz com o que observamos em aceleradores de partículas, telescópios, cálculos matemáticos etc.

Abaixo, deixo o link para um fantástico documentário do History Channel que conta sobre o Big Bang, como viemos a saber tanto sobre a origem do universo. Além de tratar sobre o Big Bang, podemos, por meio deste documentário, entender como se dá o processo científico de construção de conhecimento. Vale a pena ver até o final.

History Channel – Além do Big bang