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A nova revista Ateus.net teve o seu primeiro texto publicado hoje. O espaço servirá para publicarmos uma nova postura editorial, com vistas a maximizar as informações passadas. Serão textos autorais publicados periodicamente, com a possibilidade de participação externa, desde que devidamente adequada.

Os textos farão parte do acervo do Portal Ateus.net e ficarão disponíveis como novidades, conforme forem publicados. Grato a todos que fizeram o sucesso deste canal e espero que nos ajudem a fazer o sucesso do novo, que acaba de ser aberto.

O texto pode ser lido no seguinte link: Do dogma.

Atenciosamente,

Jairo Moura.

Quando surgiu a ideia de um periódico relativo ao mundo do ateísmo, os participantes do Fórum Ateus.net que organizaram o projeto discutiam o grau de independência que ele deveria ter no que diz respeito ao Portal. Não seria somente mais um braço, como os outros existentes, mas um espaço diferente, com características próprias. Em resumo, não seria algo do Ateus.net, mas algo que envolvia participantes do Ateus.net.

No entanto, de uma forma ou de outra, essa implicação era inevitável, pois toda a logística depende do Portal – desde o domínio de internet até o fórum de discussões editoriais. O que realmente diferenciava os dois era a independência intelectual, pois, aqui, não existia hierarquia, mas igualdade de voz entre os participantes. Depois de decidida a linha a ser seguida, foi ela que se transformou em norte para as decisões e ela permaneceu soberana por todo esse tempo, independentemente de quem estivesse no corpo de editoração.

Por motivos quaisquer, fui o último a permanecer ativo. E acredito que, por mais que exista, hoje em dia, maior número de publicações de cunho ateísta, não poderíamos deixar que este espaço fosse perdido. Não será difícil encontrar blogs sobre o assunto, mas não somos apenas mais um. Tivemos mais de duzentas publicações autorais que prezaram pela qualidade e pela relevância das informações. Todos os textos foram cuidadosamente selecionados e plenamente discutidos e melhorados, na medida do possível.

Portanto, não deixa de ser com tristeza que venho anunciar o encerramento por tempo indefinido das atividades da revista eletrônica Um Deus na Minha Garagem. É certamente o fim de um ciclo, mas não será a morte, e sim a reciclagem do que se mostrou satisfatório: a partir de junho, surgirá uma revista que passará a integrar o corpo editorial do Portal Ateus.net.

Em respeito à história e à imagem deste espaço, todas as publicações ficarão aqui disponíveis, tais como estão. Nenhum texto será modificado ou reaproveitado de qualquer forma na nova revista. A linha editorial será diferente e o corpo será composto por André Cancian e por mim, Jairo Moura, com a possibilidade de textos estrangeiros, meticulosamente selecionados.

Contatos:

André Cancian: cancian@ateus.net

Jairo Moura: jairo@ateus.net

O texto imediatamente anterior foi o ducentésimo deste espaço. Números redondos parecem nos causar espanto, mas nem por essa ilusão deixaremos de celebrar tal marco.

Grato a todos os leitores e àqueles que ajudaram a construir cada um desses duzentos relatos, dedicando seu tempo a algo que julgaram importante.

Jairo Moura.

Já foi dito aqui, muitas vezes, que um ateu não crê que deus não existe. Ou ao menos não que isso seja necessário para caracterizá-lo como ateu. Muitos não-ateus gostam de lembrar que os ateus também creem em alguma coisa, como se crer fosse uma atividade proibida ao grupo. Obviamente, nada impede um ateu de crer em algo que não seja um deus. Não falo aqui das crenças mais ordinárias, como acreditar que tem que estar no trabalho daqui a meia hora ou acreditar que o Brasil é banhado pelo oceano Atlântico. Darei um exemplo de uma crença muito comum entre nós, ateus, seguindo a definição mais restrita de “crença” com a qual denotamos a crença dos, vejam só, crentes.

A crença no livre-arbítrio. A crença no livre-arbítrio talvez não esteja no mesmo patamar da crença de que Jesus nasceu de uma virgem, mas está lado-a-lado com a crença na vida eterna. Não é uma crença tão ingênua quanto a virgindade de uma mãe; no entanto, com certeza é muito esperançosa. Eu acredito, ou tento acreditar, mas o meu lado cético – que está preocupado em acreditar no que é real – briga com o meu lado esperançoso – que procura acreditar no que agrada – e minha crença não fica muito definida. Óbvio que, quando me refiro a ateus, é apenas uma parcela que acredita em livre-arbítrio.

Fala-se de maneira muito leviana no livre-arbítrio, de maneira ainda mais leviana sobre “liberdade” (eu gostaria muito que os norte-americanos me explicassem que “liberdade” é aquela pela qual eles lutam; nunca entendi direito). Adianto que é um assunto “levemente pesado”, se me permitem a contradição. Já falei sobre morte, defendi que deuses não existem (ou que não é lógico acreditar neles, vale esclarecer), mas falar sobre liberdade é mais pesado. Esclarecendo, falo de “liberdade” nesse texto como sinônimo de livre-arbítrio, até porque, se o livre-arbítrio não existe, então não existe qualquer forma de liberdade. Pensar que não somos livres para escolher, para desejar, é mais incômodo do que pensar que deixaremos de existir ou que não há deus. Na verdade, perto do livre-arbítrio, questões como “deus” e “morte” parecem até brincadeira de criança.  Provavelmente não existe deus algum nos protegedo nem garantia de vida após a morte, mas  o que importa é que vivemos e que, acredita-se, ajudamos a construir um mundo melhor. Desacreditar no livre-arbítrio implica acreditar em uma existência pela qual somos meros espectadores, passivamente gostando ou odiando os eventos que se sucedem.

Pegarei um exemplo banal para ilustrar o problema. Imaginemos que você vai a uma loja e deve escolher uma entre duas camisetas. Uma delas é amarela e a outra é azul. Você escolhe a azul. Ponto. Então você sai pela rua com uma camiseta azul, satisfeito com ela, imaginando que sua escolha foi boa. Tudo muito tranquilo até agora. Então você se lembra que, dias atrás, alguém te disse que a cor azul estava na moda. Veja como isso desvaloriza a sua decisão! No fim, o que te levou a escolher a camiseta azul foi apenas uma sugestão fútil sobre tendências da moda. Você imediatamente se sente uma ovelha em seu rebanho, uma ovelha vestindo uma camiseta azul. Talvez quem te disse sobre a moda da cor azul estava se beneficiando com o estouro de vendas de camisetas azuis. Então, só para se rebelar, você decide que talvez seja melhor comprar uma camiseta amarela e dar um “não” às tendências da moda e um “sim” à livre-escolha. Mas daí você se lembra que existe algo chamado “psicologia reversa” e que talvez a intenção era justamente a de fazer você comprar uma camiseta amarela. Como um pato, você caiu e começa a pensar se um pato de camiseta amarela é tão melhor assim que uma ovelha de azul. De um modo ou de outro, a sua escolha foi determinada pela alegação de que a cor azul está na moda.

Podemos supor que ninguém nunca te sugeriu nada e você comprou uma camiseta azul por achá-la mais bonita. Mas e por que você a acha mais bonita? Por que o azul te lembra a paz? Vai ver ele te lembra a paz pois é a cor de um céu limpo, ou porque lembra o mar, praia, férias. Nesse caso, a sua escolha não foi determinada por um interesseiro; foi determinada pela lembrança do mar e do céu que algum dia lhe represetaram paz. Fato é que ela não foi determinada por você e sim pelo que aconteceu em seu passado. Nossas escolhas não nascem espontaneamente no momento em que a realizamos; elas são consequências da carga de experiências que tivemos desde que nascemos.

Tudo fica muito mais leve quando falamos de camisetas e cores. Mas é claro que a questão se estende bem além disso. Aprendemos a ter orgulho de nossas escolhas, como a escolha da faculdade certa ou da esposa certa (ou do marido certo). Fazemos escolhas que consideramos erradas e ficamos imaginando como seríamos mais felizes se tivéssemos seguido um caminho diferente. Sem o livre-arbítrio, esses orgulhos e divagações são infundados. Como folhas boiando em um rio, onde nós somos as folhas e o rio é o meio em que vivemos, podemos ir parar em um lago limpo ou em um esgoto, mas não faz sentido se orgulhar por um ou se lamentar pelo outro. Uma existência sem deus ou sem vida eterna ainda é recheada de méritos, de glórias. Sem livre-arbítrio essas coisas se perdem. Termino o meu segundo texto sobre “morte” falando sobre a importância de deixar um bom legado. Digo naquele parágrafo que o legado é a eternidade concretizada pelos atos. Mas que coisa vazia seria se os seus atos não fossem escolhas suas e sim meras consequências inevitáveis. Darwin termina sua obra-prima dizendo “Há grandeza nessa visão da vida”, se referindo à crença de que todas as formas de vida surgiram de apenas uma, muito mais simples. E ele estava certo: há muita grandeza mesmo nessa visão da vida. Há grandeza na visão de um ateu também, não tenham dúvida, de uma vida sem deuses, uma vida que é bonita por si só. Existe igual grandeza em uma vida que tem um início e um fim, que deve ser aproveitada. Mas não, não há grandeza alguma sem livre-arbítrio.

Imaginem que hoje à noite uma pessoa vai bater na sua casa e lhe trazer uma notícia. Essa pessoa veio do futuro e viu tudo. Veio lhe dizer que a sua vida será medíocre e que você não chegou nem perto de realizar algum sonho seu. Pois bem, como não existe livre-arbítrio, a sua vida realmente será medíocre; quando confrontado com a opção de seguir uma via mais laboriosa e arriscada, você inevitavelmente negará em prol de uma mais confortável. Mas, se o livre-arbítrio existe, a mensagem dessa pessoa (muito importuna, por sinal) será apenas um incentivo para você ser um grande homem ou uma grande mulher. Isso demonstra de maneira mais clara o quão a descrença no livre-arbítrio é pior do que a descrença em deus ou na vida eterna. Tão pior que, pela primeira vez, eu espero sinceramente que alguém refute o meu texto com muita categoria, para que eu possa dormir tranquilo acreditando mais convictamente na liberdade de escolher.

Bom, para terminar, sem livre-arbítrio a vida é comparável a uma montanha russa. Na montanha russa, estamos presos em carrinhos que percorrem subidas e decidas. Como na nossa vida sem liberdade, as subidas e decidas não dependem de nossas escolhas e nossas emoções são determinadas em uma interação passiva na qual você apenas sente as consequências. Bom, termina o percurso da montanha russa, cheia de subidas, descidas, loopings e parafusos – todos eles lhe causaram uma gama de emoções diferentes. Medo, felicidade, alívio ou até mesmo enjoo. Não faria mesmo sentido se te descem parabéns por ter estado no ponto mais alto da montanha russa ou te consolassem por ter passado pelo mais baixo. Ninguém te perguntaria como você fez para dar todos aqueles loopings e ninguém dedicaria uma página na Wikipédia sobre “o parafuso que você deu naquela montanha russa”. Fazemos coisas semelhantes na vida real, como parabenizar e consolar, considerando os sucessos assim como os fracassos, e a analogia com a montanha russa mostra que essas atitudes não fazem tanto sentido assim. Mas talvez uma, e apenas uma pergunta seria relevante, tanto na vida como na montanha russa:

“O passeio estava bom?”

Repórter: Então, você alega ser clarividente, que pode prever o futuro?

Entrevistado: Exatamente, eu prevejo o futuro.

[Repórter estapeia o entrevistado]

Repórter: E isso aqui? Conseguiu prever? Como podem ver, não precisa de muito para desmistificar um charlatão.

Diálogo transcrito de um teste cético em uma versão humorística. Talvez não tão cômicas quanto as possíveis desculpas, caso fosse um teste verdadeiro. É assim com a maioria das alegações pseudocientíficas.

Kentaro Mori, editor do portal ceticismo aberto, é o coordenador nacional de uma demonstração que tentará fazer algo parecido contra as alegações da homeopatia. A campanha 10:23 teve início no Reino Unido e já tem a participação de mais de 10 países.

Os participantes do protesto tomarão caixas inteiras de remédios homeopáticos a fim de demonstrar sua ineficácia. Funcionassem realmente, as doses ingeridas seriam suficientes para matá-los por overdose.

Tudo acontecerá na manhã do dia 05 de fevereiro de 2011. O endereço oficial da campanha no Brasil é http://1023.haaan.com/. Aos interessados, busquem os meios hábeis de participar e, caso participem, mandem fotos para udmg@ateus.net para que as publiquemos.


Por conta de um aplicativo que nos retorna todos os saites que colocam ligações até aqui, recebi a notícia de que o Portal Diante do Trono usara uma das imagens de nossos arquivos – a saber, Darwin com um dedo na boca em sinal de silêncio – para ilustrar uma série de textos sobre a temática evolução vs. criação.

Visitei o portal e fiquei surpreso por não haver indicação da fonte. Usei, então, os comentários da postagem para pedir os devidos créditos e me dispus a colocar ligações para a série neste espaço. Ofereci também a oportunidade para que usassem quaisquer dos nossos vários textos que abordam o assunto.

À espera de uma resposta, qual não foi minha surpresa ao notar que, não só não fui devidamente respondido, mas também meu comentário fora apagado sem violar quaisquer das regras expressas.

Dessa forma, ao invés de dar aos leitores a chance de ler textos não apologéticos sobre o assunto, percebo que a intenção não era que eles pudessem “consultar, opinar e formar suas próprias conclusões sobre um tema muito polêmico, mas ao mesmo tempo importante”, mas tão-somente selecionar fontes que corroborem a conclusão inicial.

Para ilustrar, vejamos o primeiro comentário, que foi editado para retirar a formatação em caixa alta:

“É muito bom defendermos a palavra de Deus. Sou formada em história e nunca deixei que essas falsas teorias me afastassem do amor de Jesus. Quando dou aula para meus alunos, procuro fazer com que eles parem e pensem sobre suas próprias origens, e, assim a maioria acabam aceitando que fomos criados à imagem e semelhança de Deus. Deus seja louvado!!!
Kelly Linhares”.

Em tempo: nossa imagem continua exposta no portal sem os devidos créditos.

Hoje, 13 de dezembro de 2010, a revista eletrônica Um Deus na Minha Garagem completa um ano de existência. Gostaria de agradecer pessoalmente aos diversos visitantes diários que nos brindam com um pouco de seu tempo para reflexão e análise; bem como a André Cancian, pelo suporte técnico e o apoio editorial; e a todos os outros autores que passaram por aqui, quer efetivos ou pontuais.

Sobre números, temos uma média de visitas de mais ou menos duzentos internautas por dia. O número pode parecer modesto, mas é significativo se considerarmos o tipo de produto que oferecemos: textos reflexivos sobre uma temática que muitos não desejam abordar, sob um ponto de vista ainda mais malquisto pela sociedade.

Comparando os nossos gráficos com os nossos objetivos, podemos dizer que esse primeiro ano de vida foi bastante produtivo e bem sucedido. Mantemos a qualidade das publicações, ampliamos o nosso escopo acadêmico e abrimos espaço para que autores fora de nosso círculo fixo publicassem suas ideias também.

No entanto, por diversas razões, os autores originários e os que os substituíram acabaram se desligando da publicação.

Assim, para não deixar ruir o projeto, estamos recrutando novos usuários do portal Ateus.net para fazer parte do quadro editorial.

Os interessados devem enviar um texto-piloto para udmg@ateus.net em documento de texto editável (preferencialmente Microsoft Word) nos mesmos moldes de nossa regulamentação para os autores ad hoc.

Junto com o texto, enviem também uma breve descrição do autor, que deverá incluir dados pessoais, acadêmicos e profissionais relevantes, bem como um link para a conta de usuário do Portal. Podem abrir uma gratuitamente, caso não a tenham.

Os interessados deverão dar conta da periodicidade exigida na grade mensal de publicações – que atualmente é de dois textos por mês, aproximadamente – e serão completamente responsáveis pelo conteúdo de seus textos, desde que obedeçam às premissas editoriais básicas.

Serão escolhidos os que melhor se adequarem à política interna da revista, até o limite disponível de vagas, sem qualquer obrigação de preenchimento, caso o número seja menor.

Atenciosamente,

Jairo Moura.
Equipe editorial UDMG.

“Por que tantos tementes a deus?” Essa é uma pergunta muito boa. Nós, ateus, gostamos de debater sobre o assunto e expor nossas conclusões. Debatemos usando argumentos contra a existência de deus(es) e, principalmente, por que não é racionalmente aceitável acreditar em algum. Mas existe um fato que aparentemente derruba todas as nossas tentativas: existe uma boa quantidade de tementes a deus, deuses ou demais entidades sobrenaturais. Diante do fato de que a vasta maioria da humanidade acredita em deus ou deuses, nosso arsenal de argumentos parece quixotesco.

A resposta padrão de muitos ateus a essa questão é: os motivos racionais são poucos ou nenhum, mas os emocionais são muitos e são fortes. Eu me uso dessa resposta, pois realmente acho, depois de anos debatendo com teístas, que os motivos que levam à crença no sobrenatural são majoritariamente de caráter emocional. Uma boa porção deles insiste em dizer que não, possuem argumentos na ponta da língua, mas estão apenas querendo se enganar e, cedo ou tarde, acabam expressando que são, de fato, levados pela emoção.

Novamente, meu intuito não é rebater esses argumentos. Se algum teísta considerar que estou errado, sinta-se à vontade para postar seus argumentos nos comentários de nossos textos. Quero discutir o que seria essa tão falada motivação emocional. Ir além de simplesmente taxar a crença alheia como mera emoção e dar nome aos bois.

Bom, comecemos por um conceito muito desejado por nós: justiça. Queremos que os usurpadores paguem pelos seus atos e que os altruístas sejam recompensados. Tentamos fazer isso dentro de nossa sociedade com nossas próprias mãos, criando prisões e castigos para os primeiros, assim como honras e presentes para os últimos. Porém, reconhecemos nossas limitações e ansiamos por uma força promotora de justiça mais plena. Essa justiça tem que vir de algo maior que nós, mais poderoso e incorruptível. Esse “algo” normalmente é chamado de “Deus”.

Depois temos a curiosidade. A ambição citada no parágrafo anterior reflete uma característica marcante de nossa espécie, que é a vida em sociedade. O desejo de adquirir conhecimento amplo e seguro advém de outro aspecto nosso, que é a vontade de aprender. Dentro de uma sociedade majoritariamente cristã, é comum ouvir de muitos cristãos que o conteúdo da bíblia é uma verdade absoluta e que é tudo o que precisamos conhecer, que a sabedoria ali ensinada é mais profunda do que a mais brilhante eureca de um simples humano. Comicamente ouvimos muito frases do tipo: “no fim todos nós saberemos quem está certo”. É a crença de que, depois da morte, além da justiça feita teremos todas as respostas. Já falei um pouco sobre essa crença aqui (Porque não Acreditar, 5º parágrafo).

O terceiro desejo é a vontade de nunca deixar de existir. Em bom português: “o medo da morte”. Não me adentrarei nele, pois já dediquei três textos ao assunto (este, este e este). Só adianto que considero esse o desejo mais íntimo e o maior responsável pela crença no sobrenatural. Os três grandes desejos aqui comentados não são exclusividade de teístas. Ateus também os possuem. O que muda é que um deles aceita suas limitações e o outro abafa o fato com crenças sobrenaturais.

Portanto, como já devem ter percebido, podemos resumir esses três motivos como um desejo muito íntimo presente em todos nós. Uma fome muito grande por coisas que não vêm na quantidade que gostaríamos. Essa fome imensa que é a mãe de todas as fés. A justiça é rara, o conhecimento é pouco e a vida é curta. Essa fome se sacia acreditando que a justiça será feita, que todos os mistérios do mundo (ou ao menos os poucos que realmente interessam) podem ser desvendados e que a nossa existência não se finda com nossa morte. Essa crença poderia vir da maneira padronizada, através da lógica e da observação. O problema é que “lógica” e “observação” definitivamente não nos levam a concluir o que gostaríamos, então a nossa crença tem que vir do nada, é preciso ter fé. Tornamos uma dada limitação, que é a incapacidade de possuir um entendimento pleno sobre todas as coisas a nosso favor e colocamos os nossos anseios neste mar de ignorância que reconhecemos possuir. Nós, ateus, chamamos esse deus, que mora no incompreendido, de “deus-das-lacunas”. O que escapa nossa razão agora é algo sobrenatural e sacia a nossa fome. Ou pelo menos vai saciar, um dia quem sabe, basta ter fé e paciência…