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Na acepção que nos interessa neste texto, o vocábulo grego lógos (λόγος) significa a faculdade do homem de raciocinar [1]. E é exatamente nessa acepção que encontraremos o termo latino ratio [2]. A ambiguidade aparente do termo “razão”, em português, vem de outra forma de interpretar a ratio: além da inteligência ou do intelecto, pode significar também o próprio princípio de inteligibilidade, o que nos diferencia, em tese, dos outros animais.

O mundo exterior não é racional no primeiro sentido, porque, até onde sabemos, não podemos projetar intencionalidade no universo. Não há uma mens que raciocina por si. De acordo com todo o conhecimento coletado até agora, somos as únicas formas de vida conhecidas na vastidão que enxergamos lá fora. E, aqui dentro, o pensamento é um fenômeno que não existe sem o substrato cerebral, presente apenas em alguns tipos de animais com sistema nervoso central e mais reservado àqueles com capacidade superior de abstração. Se, ainda assim, nos separamos dos outros, é por nossa capacidade de expor tais pensamentos através da linguagem.

No entanto, dadas as regularidades das constantes da natureza e a nossa capacidade de abstrair padrões – às vezes até mesmo onde não existem –, é possível racionalizar a existência em todos os seus traços. Foi com esta ideia de razão que criamos a filosofia, que se expandiu para as mais diversas áreas, e mais recentemente a ciência, em sua acepção atual, que abarca praticamente todos os fenômenos conhecidos. As alegações recentes de impossibilidade de racionalização saíram do mundo externo, pois a abrangência científica já demarcou os pontos mais diversos que podemos imaginar. Ficamos, então, restritos a certos comportamentos humanos ou a certas manifestações que julgamos serem únicas de nossa espécie.

Notadamente, as áreas que mais tentam livrar-se do cunho da racionalidade são as religiosas ou as artísticas. Note-se que o pretenso destaque do escopo da ciência só se realiza se tomarmos por base aquele grupo de ciências naturais que costumamos simplesmente designar “ciências”, como a física, a química e a biologia. Por mais que elas também estudem constituições do ser-humano, entende-se que a sua abordagem é meramente mecânica, como quando estudamos as funções e o funcionamento de nossos sistemas, desde o digestivo e o respiratório, até o nervoso e o reprodutivo.

Em termos filosóficos, sempre tivemos autores que tentaram racionalizar a arte e a religião. Aristóteles escreveu vários tomos sobre o primeiro termo e a própria palavra grega para “arte” significa simplesmente “técnica” (τέχνη). Os títulos latinos para suas obras são ainda mais interessantes, como Ars rhetorica (τέχνη ρητορική) ou Ars poetica (περὶ ποιητικῆς), e nos revelam um sentido para o vocábulo “arte” que usamos hoje em dia, de forma mais displicente: quando um indivíduo demonstra notável destreza em seu campo de atuação, dizemos que é um artista, dizendo, na verdade, que simplesmente possui técnica apurada e criatividade avantajada, como no caso de jogadores de futebol ou praticantes de xadrez, mas também de bons funcionários ou administradores.

Sobre a religião, vários autores se aventuraram a discorrer sobre seus fundamentos, bem como tentaram usar a racionalidade filosófica para justificar a (in)existência de deus(es). Desde os aforismos de Epicuro, até os teólogos medievais Agostinho e Tomás de Aquino, culminando nos extensos escritos de Hume sobre a religião. E, ainda depois disso, com Voltaire, Leibniz e Espinosa. Filosoficamente falando, religião e arte, conclui-se, não estão fora do escopo da razão, pois são objetos tratados por vários ramos, desde a teologia até a estética, não importando a provável naturalidade de tais traços.

A ciência também lida com os dois construtos humanos. E muitas vezes aplica o método científico strictu sensu para tal. Partindo de manifestações sociais, os sociólogos clássicos da escola francesa já estudavam os costumes religiosos, enquanto se expandiam para além das fronteiras europeias – surgiu assim a figura do bon sauvage, tão famosa na literatura da época [3]. Para mais perto de nosso tempo, tivemos a expansão para as civilizações dos arquipélagos do Oceano Pacífico, com mais estudos sobre os nativos e o acompanhamento de uma religião que nascia dali: o caixismo ou o culto à carga [4]. Em nosso país, até hoje antropólogos visitam tribos isoladas e que, não raro, nunca tiveram contato com o “homem branco”. De seus estudos, saem vários tratados interessantes, como a série de relatos sobre a tribo dos Pirahãs [5].

E vamos ainda mais longe, quando tratamos dos traços universais que temos codificados em nosso DNA. A psicologia evolutiva trabalha de forma complementar às disciplinas sócio-filosóficas, como no caso da estética evolutiva [6][7]. O objetivo de tal disciplina é tentar enxergar as vantagens evolutivas dos mecanismos que nos permitem explorar a arte e a religião como formas culturais. Os estudos mais aceitos em comunidades especializadas dão conta da arte como produto acidental, pois é um uso diferente e novo para características isoladas que desempenhavam funções nobres para a nossa sobrevivência, como o reconhecimento de padrões na natureza, e para a seleção sexual, como os conceitos de beleza e agradabilidade [8].

Mesmo que se alegue que isso tudo não é realmente fazer arte ou participar de uma religião, a racionalidade não fica de fora da práxis. Nas artes, é inegável que entendemos melhor a música e a harmonia musical de um ponto de vista físico – com relação aos comprimentos de ondas das notas musicais – e matemático – com a noção de proporção entre as notas que, desde os gregos, nos dão escalas belas e agradáveis. A escala pentatônica, por exemplo, em suas várias modalidades surge com os estudos de Pitágoras sobre as divisões melódicas [9].

Saindo da música, a ideia de harmonia também contaminou a poesia, e basta citar a estrutura poética mais conhecida – o soneto. É a junção de dois quartetos e dois tercetos, com sílabas poéticas bem definidas e uma estrutura de rima variável, a depender do autor. Sua fórmula nada mais é do que a racionalização de um compasso musical que soa bem aos nossos ouvidos, ou seja, a teorização de algo que temos em nossa programação inata. Em ainda outras palavras: a justificação racional para a beleza percebida por nossos sentidos [10].

O mesmo pode-se dizer para a arquitetura, para a escultura e para a pintura. Esta última, aliás, desenvolveu-se de forma surpreendente quando os artistas ocidentais – notadamente a partir do Renascimento – passaram a aplicar avançados cálculos matemáticos para as proporções humanas. O famoso estudo do homem vitruviano de Leonardo da Vinci é pura e simplesmente a aplicação da proporção que o arquiteto e engenheiro romano Marco Vitrúvio Polião prescrevera para o corpo humano, já no séc. I a.C., e seguia os princípios arquiteturais de utilidade (utilitas), beleza (venustas) e solidez (firmitas) [11].

Quod erat demonstrandum, não só temos ótimas bases empíricas para decidirmos sobre as opções disponíveis, como também dispomos de grande arsenal racionalista para que nenhuma de nossas escolhas fique à mercê de arbitrariedades. Conforme avançamos e nos aprofundamos nas questões que sempre nos levaram ao autoconhecimento, resta pouco ou nenhum espaço para obscuridades. No fundo, não deixa de ser irracional – não no sentido de não usar a razão, mas de ser contra o que ela demostrou ser mais verdadeiro – que se alegue lacuna onde já não existe mais.

No mais, parece permanecer, a favor da crença em deus(es), o adágio latino geralmente atribuído a Tertuliano [12], que dá conta da crença no sentido mais peculiar para “fé”: o depósito de confiança em algo que se demonstra injustificável por quaisquer outros meios; a crença em algo para o qual não se tem a menor das evidências. Ficamos, enfim, com o poético mas tragicômico credo quia absurdum.

 

Notas:

[1] GOBRY, Ivan. Vocabulário grego da filosofia. Tradução de Ivone C. Benedetti. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

[2] FONTANIER, Jean-Michel. Vocabulário latino da filosofia. Tradução de Álvaro Cabral. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

[3] Página da Wikipédia sobre a idealização: <http://fr.wikipedia.org/wiki/Bon_sauvage>. Acesso em 03 abr. 2011. [em francês]

[4] Sobre o assunto, há um bom texto neste mesmo espaço: TEIXEIRA, Bruno. O início das religiões: o culto à carga. Disponível em: <http://deusnagaragem.ateus.net/2010/05/21/culto-a-carga/>. Acesso em 03 abr. 2011.

[5] Página da Wikipédia sobre o povo Pirahã: <http://en.wikipedia.org/wiki/Pirah%C3%A3_people>. Acesso em 03 abr. 2011. [em inglês]

[6] DE SMEDT, Johan. Toward an Integrative Approach of Cognitive Neuroscientific and Evolutionary Psychological Studies of Art. Disponível em <http://www.epjournal.net/filestore/EP08695719.pdf>. Acesso em 03 abr. 2011. [em inglês]

[7] DUTTON, Denis. Aesthetics and Evolutionary Psychology. Disponível em <http://www.denisdutton.com/aesthetics_&_evolutionary_psychology.htm>. Acesso em 03 abr. 2011. [em inglês]

[8] Sobre a religião como produto acidental, há outro texto neste mesmo espaço: MOURA, Jairo. Das origens da religião II: produto acidental. Disponível em <http://deusnagaragem.ateus.net/2010/12/15/1808/>. Acesso em 03 abr. 2011.

[9] Bobby McFerrin demonstrando que todos temos a escala pentatônica em nossa programação cerebral: <http://www.youtube.com/watch?v=ne6tB2KiZuk>. Acesso em 03 abr. 2011. [em inglês]

[10] Em português, Augusto dos Anjos tem, sem dúvidas, alguns dos mais belos sonetos. Para referência, “Versos Íntimos” é um ótimo exemplo. Há uma versão disponível em <http://www.releituras.com/aanjos_versos.asp>. Acesso em 03 abr. 2011.

[11] Página da Wikipédia sobre Marco Vitrúvio Polião: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Vitr%C3%BAvio>. Acesso em 03 abr. 2011.

[12] Página da Wikipédia sobre a discussão referente ao adágio: <http://en.wikipedia.org/wiki/Credo_quia_absurdum>. Acesso em 03 abr. 2011. [em inglês]

Dentre os sistemas de crenças, o politeísmo tem um traço mais universal, mais humanizado, por assim dizer. Não há motivo aparente para que imaginemos primeiramente um só agente por trás de fenômenos tão diferentes, como a mudança das estações ou o controle patológico – ambos tão fundamentais em sociedades primitivas à mercê dos movimentos e das intempéries naturais.

Devemos levar em conta que não há saltos maiores do que a nossa imaginação pode nos dar. Mesmo as figuras mais estonteantes, como a Quimera ou o Pégaso, não passam da montagem de características de coisas ou de animais diferentes fusionadas em um só ser. Em nosso tempo, encontramos esse mesmo processo no mito do Chupa-cabras, por exemplo, ou na incrível semelhança entre os retratos falados de extraterrestres e o desenvolvimento fetal do ser-humano.

Quando examinamos as antigas mitologias que chegaram até nós, conseguimos relativamente bem destituir os mitos de todas as alegações extraordinárias para encontrarmos traços humanos relacionáveis. Mesmo sendo impossível que alguém seja tão miraculoso quanto Jesus – para citar um dos mais famosos em nossa sociedade –, podemos fazer o exercício mental de imaginarmos um agitador social endeusado pela tradição oral.

O monoteísmo, portanto, parece advir de um pensamento abstrato mais pormenorizado, que tira dos mitos a maior parte das características relacionáveis. Invariavelmente a figura central continua com traços antropomórficos – como o cuidado paternal ou a liderança tribal –, mas se torna impossível realizar o mesmo exercício mental que faríamos com os deuses gregos, como Zeus ou Apolo.

Isso não quer dizer, contudo, que o deus bíblico seja monoteísta desde suas origens. Há boas razões para acreditar que os relatos orais do antigo testamento deem conta de uma monolatria, isto é, o reconhecimento de outros deuses com o monopólio de adoração, como o segundo mandamento nos faz interpretar: “Não terás outros deuses diante de mim” (Êxodo, 20:3). Assim, muito mais do que refinamento teológico, o deus abraâmico surge como brilhante estratégia política para manter a coesão interna de um grupo nômade e para minar a influência externa sobre sua tribo.

É muito depois, com os teólogos medievais, que a ideia atual do monoteísmo cristão começa a se desenvolver, mas não sem seus ajustes. Grande parte da tradição católica foi incorporada dos mitos pagãos da Europa, gerando um panteão extraoficial no que deveria ser centrado em um só deus. Há toda uma variedade de santos, beatos e outras classes hierárquicas que podem interceder pelos fieis e a quem se atribuem milagres.

“Não são deuses”, afirmariam os apologéticos. No entanto, é óbvio que não faz diferença alguma como o grupo deseja nomeá-los. Fato é que têm todas as características dos mesmos deuses e semideuses que habitaram os panteões politeístas. Também não procederão as alegações das ramificações evangélicas ou protestantes de que isso é uma falha católica, pois a própria noção da trindade demonstra arquétipos politeístas.

Também não procederão porque pululam os exemplos – ambos no antigo e no novo testamento – de homens comuns com poderes miraculosos, desde Moisés e os antigos profetas, até os apóstolos evangelizadores e Paulo. São vistos como emissários divinos com a missão de espalhar as boas novas ou simplesmente reafirmar a fé no deus ausente em corpo, mas o eufemismo não consegue disfarçar os traços politeístas da tradição oral.

Chegamos, então, à visão abstrata do deus único, mas ele não é mais a expressão das crenças primitivas em agentes; é, ao contrário, o trabalho de teólogos e de filósofos que dedicaram seu tempo a fim de conciliá-lo com as descobertas subsequentes, tentando fiá-lo à lógica e à metafísica. Não é por acaso que essa versão racionalista não tem apelo massivo, pois de que adiantaria rezar pela intercessão de uma figura que não nos atenderá ou que, dependendo da base teórica, sequer é senciente?

Na história da teologia, portanto, passamos de deuses interventores a deuses que apenas impulsionaram o início de tudo. Obviamente, o fato de postularmos apenas um deus como o agente por trás do começo de tudo deve-se muito mais à herança cristã do que a conclusões filosófico-teológicas. Assim, resolvemos – em parte – a questão da reza, mas não a da reverência; e muito menos resolvemos a questão do politeísmo popular: se antes era cultuado em altares próprios a deus(es), hoje reside na cabeça de cada crente em sua abstração conceitual.

Privados de uma definição concreta e sem aderir ao escrutínio teológico, cada fiel cria o seu próprio deus, selecionando características convenientes sem abrir mão da palavra plurissignificativa, pois ela mantém o grupo coeso sob a crença em deus(es), não importando o quão diferentes sejam. Evidentemente, continuam fora – e vistos com os piores olhos possíveis – aqueles que simplesmente não criam ou não creem em figuras transcendentais.

***

Para saber mais, sugiro a análise de James Fieser sobre os textos de Hume – além dos próprios textos, é claro – que tratam do assunto. O artigo está disponível em inglês no endereço http://www.iep.utm.edu/humereli/#H2. Último acesso em 15 fev. 2011.

Há poucos dias, criacionistas tiveram mais uma importante derrota nos tribunais dos Estados Unidos. Um juiz federal negou ao ICR (Instituto para Pesquisas Criacionistas) a possibilidade de oferecerem o grau de Mestrado em Ciências com “uma perspectiva do criacionismo bíblico-científico”. Atribuindo a jovens crentes o grau de Mestre em Ciências, o ICR poderia diminuir a escassez de Criacionistas “Cientistas” que promovam a Teoria da Terra Jovem.

As batalhas nos tribunais americanos não são nada novas. Começaram com o Julgamento de Scopes em 1925, no qual um professor do ensino médio, John Scopes, foi acusado do ensino ilegal da Teoria da Evolução no Estado do Tennessee. Esse julgamento ganhou grande notoriedade nos EUA, juntando grandes juristas tanto do lado da defesa quanto da acusação e até virou o filme O Vento Será Tua Herança, em 1960. Ao final do julgamento, Scopes foi considerado culpado, o que lhe garantiu uma multa de U$ 100, o equivalente nos dias de hoje a aproximadamente R$ 2.200. O julgamento elevou as proibições em diversos outros estados que só seriam derrubadas em 1968 no julgamento Epperson vs Arkansas.

Susan Epperson era uma professora secundária que se viu em um dilema. Deveria seguir a recomendação de adotar um novo livro que discutia a evolução, ou seguir a lei que proibia o ensino da Evolução no Estado? Susan Epperson decidiu levar o caso à justiça e o estendeu até a Suprema Corte Americana, órgão máximo da justiça. Nesse julgamento, a corte deu ganho de causa aos professores, alegando que a proibição feria a primeira emenda da constituição americana, que prevê a separação do Estado das Religiões.

A saída adotada pelos criacionistas foi tentar ensinar o criacionismo e a Evolução juntos, como se tivessem a mesma importância dentro da ciência. Nascia aí o termo “Criacionismo Científico”. O caso foi novamente à justiça, em 1982, no Estado de Arkansas e, em 1987, na Suprema Corte dos Estados Unidos. Nesse segundo julgamento, uma carta, assinada por 71 ganhadores do Prêmio Nobel, 17 academias estaduais de ciências e outras 7 associações científicas, foi entregue aos juízes afirmando que o criacionismo não possuía nenhuma qualidade científica e era composta de diversos elementos religiosos. Assim, o criacionismo foi banido do currículo de ciências nos Estados Unidos.

O resultado desse julgamento obrigou uma mudança de estratégia por parte dos criacionistas: já que não podiam ensinar o criacionismo, eles passaram a atacar o evolucionismo e rebatizaram o Criacionismo para Design Inteligente, diferenciando-os apenas pelo detalhe de não nomear deuses como a inteligência responsável pelo design.

No distrito de Dover, na Pensilvânia, dois membros do conselho de educação, que por acaso também eram criacionistas da Terra Jovem, conseguiram convencer a maior parte do conselho que era inadmissível que um livro dissesse que o homem descende dos macacos, não havendo nada para contrabalancear essa hipótese. Desta forma decidiu-se que o Design Inteligente deveria ser ensinado para os estudantes.

Tammy Kitzmiller, mãe de um aluno, decidiu levar o caso à justiça, e argumentou o óbvio, que o Design Inteligente era apenas mais uma roupagem para o velho criacionismo. Os defensores convocaram, como testemunha, diversos especialistas. O primeiro deles foi Michael Behe, bioquímico e autor do famoso livro A Caixa Preta de Darwin, um dos marcos do Design Inteligente.

Em seu depoimento, Behe, sob juramento, assumiu não haver qualquer artigo revisado por pares que suporte o design inteligente. Além disso, assumiu que pelo conceito de teoria científica que o Design Inteligente se encaixava, a astrologia também poderia ser considerada como cientificamente válida. O juiz concluiu, desta forma, que o ensino do Design Inteligente era inconstitucional e assim, não mais poderia ser ensinado nas escolas.

Os criacionistas, para não caírem no ostracismo, reuniram esforços na difícil tarefa de embasar cientificamente suas afirmações e, para isso, procuram aumentar o número de crentes cientistas pagando altos prêmios, investindo em “pesquisas” e criando universidades. Felizmente, desde 1925, a justiça têm sido coerente colocando o criacionismo em seu lugar de direito: junto das doutrinas religiosas.

Algo comum que os três grandes monoteísmos modernos possuem é o fato de terem suas origens nas terras do Oriente Médio. Para o povo dos Estados Unidos do século XIX, em sua recente independência e nacionalismo, faltava uma história religiosa própria com seus próprios heróis.

Em 1823, Joseph Smith recebeu uma visita que resolveria esse problema: era Moroni, um mensageiro celestial que lhe trazia placas de ouro com a história de uma antiga civilização de imigrantes judeus na América.


Joseph Smith recebendo as placas de ouro de Moroni


As placas, segundo Smith, foram escritas em uma linguagem desconhecida, com letras parecidas com os hieróglifos egípcios. Para conseguir ler tais placas, Smith utilizava-se se óculos mágicos que transformava as letras desconhecidas em inglês.

No processo de tradução, Smith, que não sabia escrever, foi ajudado por Martin Harris, que, através de um cobertor, transcrevia o que ouvia de Smith ao ler as placas de ouro com seus óculos mágicos. O cobertor era necessário uma vez que Harris não podia ver as placas; caso isso ocorresse, Deus o puniria com a morte.

Harris, em sua crença, chegou a hipotecar suas propriedades com o objetivo de cobrir as despesas da tradução e publicação das escrituras. Lucy Harris, certa de que o marido estava sendo enganado, solicitou que ele a trouxesse algumas das páginas para se convencer de que Smith era realmente um profeta. Após receber as primeiras 116 páginas da tradução, Lucy as escondeu e desafiou Smith a reescrevê-las, o que seria uma tarefa simples caso Smith estivesse com o original em ouro.

Diante desse desafio, Smith disse que perdera a habilidade de traduzir, uma vez que Moroni, sob o pretexto de que Satanás estaria no poder da tradução roubada, tomara as placas já traduzidas. Dessa forma, Deus deu a Smith novas placas com a história de Néfi, uma história bastante semelhante. Assim que o trabalho de tradução foi finalizado, as placas e os óculos despareceram, impedindo que a humanidade tivesse acesso a uma das mais esplêndidas provas da existência divina.

Segundo o livro de Mórmon, no ano 600 a.C. um grupo de judeus foi guiado por Deus até as Américas, onde prosperaram até a separação deles em dois grupos rivais, denominados Nefitas e Lamanitas.

Jesus Cristo, segundo a narrativa, apareceu para os Nefitas logo após sua crucificação e ressurreição em Jerusalém, curando enfermos e selecionando 12 apóstolos. Ou seja, uma rotina muito semelhante à que encontramos na bíblia.

Os Lamanitas, o povo mau da estória, iniciam uma guerra que destruiria a todos os Nefitas. Deus, que assistira a tudo sem nada fazer, ficou irado com os Lamanitas, castigando-os com uma pele escura. Essa é a origem dos índios americanos.


Jesus visita os índios; naquele tempo, eles ainda eram brancos.


O momento histórico em que os Estados Unidos se encontravam contribuiu fortemente com a ampliação dessa nova doutrina. Os americanos estavam em plena “marcha para o oeste”, o nome bonito para a brutal e sistemática ampliação do território, que incluía eventualmente guerras e chacinas contra comunidades indígenas inteiras. Sob a ótica mórmon, essa expansão podia ser considerada como uma retomada das terras pertencentes aos Nefitas cristãos, que foram roubadas pelos Lamanitas pecadores.

Em dezembro de 1843, Joseph Smith queria aproveitar seu poder religioso e político e anunciou suas intenções de transformar seu país em uma medonha “teodemocracia global”. Para tanto, anunciou sua intenção de se candidatar para a Presidência dos Estados Unidos.

Os planos ambiciosos de Smith foram interrompidos pela dissidência de alguns de seus colaboradores mais próximos. Entre o principal dissidente estava William Law, um membro bastante respeitado na comunidade Mórmon. Law não apoiava a poligamia, como as leis estavam, ainda, do lado de Law (o trocadilho não é intencional), Smith acabou sendo preso e assassinado logo em seguida.

Hoje os Mórmons são divididos em diversas facções e, apesar da origem controversa e do final trágico de seu messias, seguem como uma das mais poderosas e influentes igrejas dos Estados Unidos. No Brasil, a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias possui 1036 capelas e conta com mais de um milhão de fiéis.

O início das religiões:

  1. O Culto à Carga
  2. A Cientologia
  3. Os Mórmons

L. Ron Hubbard foi um influente escritor de Ficção Científica na década de 40. Sua especialidade eram as chamadas Space Operas, estórias que contam sobre grandes impérios galácticos, guerras no espaço etc. Sua obra máxima conta a estória de Xenu, um maligno imperador galáctico que, num momento de crise populacional, decidiu trazer trilhões de alienígenas ao planeta Terra para matá-los com Bombas de Hidrogênio. As almas destes alienígenas, chamados Thetans, vagaram pela Terra pelos últimos 75 milhões de anos até poderem encarnar nos primeiros seres-humanos.

A história de Xenu daria um ótimo filme de ficção, não fosse por um detalhe: é a base da Cientologia.

Os cientologistas acreditam que somos seres imortais e que, para nos reaproximarmos de nossa natureza esquecida, precisamos passar por diversas terapias espirituais guiadas por membros mais antigos da Igreja. Essas sessões são bastante caras, estima-se que, para atingir os níveis mais altos, seja necessário gastar mais de U$ 500 mil dólares. O custo não é alto se considerarmos que nestes níveis ganharíamos, segundo eles, poderes telepáticos e telecinéticos.

A carreira de guru espiritual de Hubbard começou em 1948 quando, em um encontro de escritores de Ficção Científica, afirmou, segundo relatos, que a maneira mais fácil de ficar milionário era fundar uma religião. Em 1950 publicou Dianética, um livro de auto-ajuda no qual é apresentada a ideia de que podemos resolver problemas mentais com terapias que misturam psicoterapia e hipnose chamadas Audições. O livro foi um sucesso de vendas, preparando o terreno para o próximo passo, a abertura da, Igreja da Ciência Americana (sic), que, mais tarde, foi renomeada para Igreja da Cientologia.

Disfarçada de ciência, a Cientologia cresceu rapidamente, especialmente entre as celebridades. Hubbard, em sua perspicácia, percebeu que elas poderiam trazer credibilidade e muitos novos adeptos e, por isso, incentivava fortemente a doutrinação de pessoas famosas. Hoje, entre os cientologistas mais conhecidos estão John Travolta e Tom Cruise.

Além de suas crenças excêntricas, a Cientologia é bastante conhecida pela truculência com que trata aqueles que ousam revelar seus caríssimos segredos. Um dos casos mais conhecidos foi o de Paulette Cooper que, após publicar O Escândalo da Cientologia, sofreu 19 processos em diversas partes do mundo, também foi alvo da Operação Freakout (apavorar), que, com o objetivo de mandar Paulette para um hospício ou prisão, planejava culpá-la por atentados terroristas, ameaças a autoridades, entre outras atividades criminosas. O plano foi descoberto pelo FBI em 1977, garantindo alguns anos de prisão a diversos líderes cientológicos.

Outro detalhe que chama a atenção na cientologia é o fato de ser uma religião que prega a inexistência de deuses. Apesar disso, ainda está longe de ser uma crença razoável, já que os trocam por uma crença muitas vezes mais irracional, o que, para a nossa felicidade, é um terreno fértil para humoristas.

Em nossa próxima coluna discutiremos outra religião que, com lendas ainda mais criativas que as cientológicas, conquistou milhões de adeptos se aproveitando do egocentrismo do povo dos Estados Unidos.

O início das religiões:

  1. O Culto à Carga
  2. A Cientologia
  3. Os Mórmons

Don Pedro de Barberana y Aparregui, Cavaleiro de Calatrava, por Diego Velázquez.

Don Pedro de Barberana y Aparregui, Cavaleiro de Calatrava, por Diego Velázquez.

Fundada no reino de Castilha, região que hoje é território espanhol, a Ordem de Calatrava foi a segunda Ordem de Cavaleiros a receber apoio papal. O papa Alexandre III reconheceu sua legitimidade em 1164, com o objetivo principal de melhor organizar a ofensiva da Batalha da Reconquista, na qual portugueses e espanhóis pretendiam expulsar todos os muçulmanos da península Ibérica.

Os cavaleiros da Ordem lutaram e combateram os muçulmanos que ocupavam a região andaluz. Mas não foi até 1409 que a Ordem, que tinha por símbolo a cruz da Igreja Católica Ortodoxa Grega entrelaçado pela flor-de-lis, símbolos da cristandade, ganhou poder político, quando o papa Inocêncio VII, convencido do sucesso da campanha da Ordem do Dragão, patrocinou política e financeiramente a Ordem de Calatrava para investir contra o império Otomano.

Calatrava, Wallachia e Constantinopla são apenas alguns dos vários sítios históricos que testemunharam o derramamento de sangue por motivos religiosos. Não sejamos simplistas a ponto de achar que tais fatos ocorreram apenas pela fé. Nenhum rei, nem mesmo o Papa gastaria tanto dinheiro e patrocinaria tantas mortes se não houvesse real interesse econômico e político no domínio cristão na Europa.

As igrejas sempre foram grandes máquinas de coletar dinheiro (muitas vezes às custas das ilusões daqueles que não têm mais ao que se apegar), e perder a galinha dos ovos de ouro seria um preço muito caro. Foi preciso, nestes dois últimos séculos, fechar os olhos para o sexto mandamento de Moisés.

Mas os livros de história estão sempre empoeirados nas prateleiras daqueles que querem dedicar a vida à religião. Quinhentos anos parece algo tão distante e surreal que é fácil negar ou ignorar o cheiro de carcaça que ainda brota de um passado nem tão distante.

A verdade é que não precisamos ir tão longe. Para manter as chamas da ignorância acesas, atropelam-se deliberadamente os fatos que, se não fossem patrocinados por uma poderosa entidade religiosa, jamais passariam desapercebidos. Quem seria capaz de ignorar o legado de crueldade deixado pelo nazista? Qual empresa se safaria de tantas acusações de pedofilia por parte dos seus representantes?

Enquanto existir o controle das massas por essas megaempresas multinacionais que,explorando a fraqueza emocional e a necessidade de consolo espiritual, enriquecem os salões do Vaticano e os bolsos dos pastores evangélicos, continuaremos jogando a sujeira para debaixo do tapete e fechando os olhos para as atrocidades cometidas sob a proteção da batina e do crucifixo.

Localizada entre o rio Danúbio e as geladas montanhas de Cárpatos, ergue-se a fria e solitária região de Wallachia. Aparentemente esquecida pelo tempo, a região localizada ao sul da Romênia foi testemunha de determinantes conflitos históricos que livraram o leste europeu de um possível domínio Turco.

Entretanto, não é por estes conflitos que a região é principalmente conhecida, mas pela fama nebulosa que circunda um de seus mais notórios governantes, Vlad III, imortalizado pelo folclore romeno e posteriormente difundido globalmente pelo aclamado romance de Bram Stoker e as suas várias adaptações para o cinema.

Vlad III nasceu na Transilvânia e aos cinco anos de idade foi levado a Nuremberg, onde foi iniciado na Ordem do Dragão. O Voivoda exibia orgulhosamente o título de Draculea, significando“o filho do Dragão”; uma clara referência ao seu pai, Vlad II Dracul, conhecido como O Dragão, membro honorário da Ordem.

Com sua lealdade posta em dúvida entre os membros do Conselho Húngaro, Vlad II Dracul firmou um acordo com sultões turcos, prometendo pagar-lhes tributo e não oferecer resistência à sua expansão. Como garantia, O Dragão enviou seus dois filhos a Edirne, então capital do império Otomano, na condição de reféns.

Vlad III em seu famoso desjejum entre as vítimas de empalamento. Ilustração do século XV: “O bosque dos empalados”. Autor desconhecido.

Vlad III em seu famoso desjejum entre as vítimas de empalamento. Ilustração do século XV: “O bosque dos empalados”. Autor desconhecido.

O que os jovens da Transilvânia não sabiam era que seu genitor tinha planos de sacrificá-los como parte de uma manobra protelatória política, obtendo assim os favores dos demais nobres húngaros. Vlad III e seu irmão Radu, o Belo, ficaram sob a custódia de Mehmed II, que, ao invés ordenar a morte dos dois jovens, como esperado, tinha planos de doutriná-los de acordo com os costumes islâmicos e mais tarde reinseri-los no poder, constituindo então um reino muçulmano no coração de Wallachia.

Os irmãos testemunharam a rigidez com que o sultão controlava seu povo. Relatos históricos nos mostram que Radu não demorou a converter-se ao islamismo, porém Vlad era constantemente punido pela sua insolência e recusa a abandonar o cristianismo. Ambos receberam treinamento em táticas de guerra, aprenderam a língua turca e estudaram profundamente o corão. O empalamento era algo praticado em larga escala na Turquia.

Descontentes com a posição que Vlad II Dracul assumira com relação aos Otomanos, Hunyadi liderou ataque ao principado de Wallachia, assassinando o então governante da região juntamente com seus filhos mais velhos. Esta ação fez com que os otomanos atacassem o sul da Romênia, com o objetivo principal de tornar líder Vlad III. Este governo, entretanto, não durou muito e logo João Hunyadi investiu novamente contra a região, depondo Vlad Ţepeş e substituindo-o por Vladislav II.

Acreditando ter dado o trono para um simpatizante do islamismo, os turcos prepararam-se para uma nova investida, marchando contra Constantinopla, hoje Istambul, com a intenção de eliminar a última resistência cristã no mediterrâneo.

Referência cristã no emblema da Ordem do Dragão. Inscrição: O Draconistarum ordeurs, Justus et Paciens. Representa a vitória de São Jorge sobre o Dragão, da cristandade sobre Satanás.

Referência cristã no emblema da Ordem. Traz a inscrição "O Quam Misericors est Deus, Justus et Paciens". (Ó quão misericordioso é Deus, justo e paciente).

Vlad fugiu para Moldavia, onde tinha a proteção do seu tio Bogdan II. Ali, Vlad Ţepeş teve a oportunidade de se encontrar com Hunyadi, um homem extremamente religioso e preocupado com a situação do país, e conseguiu convencê-lo de que não apenas conhecia profundamente os costumes e hábitos turcos, mas que sobretudo não havia se convertido ao islamismo, a exemplo do seu irmão. Hunyadi nomeou Vlad III seu conselheiro de guerra.

Em 1451, Constantinopla caiu nas mãos do império Otomano, que marcharam novamente, desta vez para Belgrado, com fins de dominar toda a região da Romênia. Com o apoio de Hunyadi, Vlad III liderou um pequeno exército contra Wallachia, assassinando Vladislav II e retomando o poder. Enquanto isso, Hunyadi liderava os seus homens para a Sérvia com a intenção de montar uma resistência.

Vlad III governou Wallachia com punhos de ferro. As punições eram exemplares; para todo tipo de delito havia penas severas, e a mais comum delas era o empalamento. Foi por causa desse modus operandi que ganhou o apelido de Vlad Ţepeş, ou Vlad, o Empalador.

Até os seus últimos dias de vida, Vlad lutou para manter Wallachia um reino cristão, e para isso matou não apenas os seus inimigos, mas também os seus conterrâneos subordinados. O medo presente na população da região era tamanho que diz-se ter existido um cálice de ouro no centro de sua capital sem que ninguém ousasse subtraí-lo. Era uma demonstração clara do seu poder de controle. Vlad provocou os otomanos, não pagando seus tributos e empalando qualquer muçulmano que se aproximasse do seu país. Mehmed então invandiu a Wallachia com aproximadamente 80 mil homens de armas.

Vlad não possuia mais do que 40 mil homens, mas organizou uma resistência psicológica. Atacava constantemente os otomanos enquanto dormiam, tornando-se famoso o episódio “Ataque Noturno“, onde pelo menos 15 mil otomanos foram mortos. Tudo o que os turcos encontraram ao invadir a Romênia foi uma floresta de corpos empalados e um trono vazio. Sem dinheiro para continuar a sua resistência, Vlad III foi unir-se ao seu aliado Matthias Corvinus, na esperança de conseguir convencê-lo a defender o seu principado. Matthias, entretanto, ordenou a prisão de Vlad.

Após ter se tornado cativo na Húngria, foi libertado a pedido do próprio Papa, para que voltasse à Wallachia, onde asseguraria que o cristianismo predominasse sobre o islamismo. Temendo a volta ao poder pelo seu carrasco líder, populares atacaram e mataram Vlad Ţepeş, expondo sua cabeça em uma alta estaca.

Pio II. O Papa que ajudou a criar e patrocinou a Ordem do Dragão.

Pio II. O Papa que ajudou a criar e patrocinou a Ordem do Dragão.

Os casos bárbaros e as lendas que circundam a figura do Empalador são muitas; seria preciso escrever um livro completo para detalhar suas façanhas cruéis. Não vou me ocupar desta tarefa. Na verdade, tenho a impressão que este texto está se tornando longo e enfadonho. Por isso termino este capítulo da Ordem do Dragão, que narra a história de um de seus mais emblemáticos líderes, com uma simples reflexão.

O papa Pio II, então governante na época, não apenas acobertou as crueldades ocorridas no Cárpatos, mas deu efetivo apoio, chegando a patrocinar financeira e ideologicamente a criação e o combate armado por parte da grande Ordem. Não apenas aprovou, mas viu estes esforços como um exemplo a ser seguido, o que mais tarde influenciaria a criação de uma nova ordem na Espanha. Mas este é assunto para o nosso próximo texto.

É assim que se expressava o amor cristão durante a Idade Média: Através de inquisições e empalamentos. É este o papel do Vaticano, e de seu Praetorium Excelsior, enquanto portadores do legado histórico conferido pela religião abraâmica? Talvez ainda exista um pouco da Idade das Trevas, em forma tênue, vagando entre os palácios do Vaticano.

      Para saber mais:

      • FLORESCU, Radu. Drácula: Uma biografia de Vlad, o Empalador, 1431-1476. Nova York: Hawthorn Books, 1973.
      • _________. Drácula: As várias facetas do Príncipe; Sua vida e sua Época. Boston: Brown and Company, 1989.
      • STOICESCU, Nicolae. Vlad, O Empalador. Bucareste: Universidade da Romênia, 1978.
      • TREPTOW, Kurt W., ed. Dracula: Artigo sobre a vida nos tempos de Vlad Tepes In Monografias do Leste Europeu. no. 323, Nova York: Editora da Universidade de Columbia, 1991.

      Um dos argumentos a favor da inexistência de um Jesus histórico[1], mesmo sem os poderes sobrenaturais, é a falta de escritos do filho de Deus. Em análises linguísticas, podemos perceber que, sempre que há uma referência com discurso direto do “cordeiro de Deus” (João 1:29), ele invariavelmente fala sobre a vida na terra com frases humanistas do calibre de “Que vos ameis uns aos outros; como eu vos amei a vós, que também vós uns aos outros vos ameis” (João 13:34) ou “Eu, porém, vos digo que não resistais ao mal; mas, se qualquer te bater na face direita, oferece-lhe também a outra” (Mateus 5-39). Todas elas podem ser traçadas a outras personagens mais antigas, como Buda ou Confúcio. Para os que buscam essa visão do Novo Testamento como a narrativa de um homem comum, é de costume atribuir à fantasia dos escritores os milagres mais absurdos, como a ressurreição dos mortos; os outros, com muita boa vontade, são atribuídos a bloqueios psicológicos dos enfermos.

      A falta de textos do próprio Jesus torna difícil a sua definição, tendo em vista todas as contradições entre os Evangelhos[2], sendo o seu caso mais famoso o da genealogia do Redentor (Lucas 3:23-28 e Mateus 1:1-16). Sob essa análise, a pluralidade de fontes autoexcludentes e assaz imaginárias colocam Jesus em pé de igualdade com Héracles e outros semideuses gregos, os quais não sabemos dizer se realmente existiram em forma humana ou se foram simplesmente mitos criados e repassados culturalmente.

      Há uma alegação comum entre cristãos de que Sócrates também não escreveu nada e que, por isso, não se poderia provar a sua existência. A princípio, a analogia faz sentido, caso seja tomada somente neste quesito. Contudo, outros aspectos comparáveis das duas personagens devem ser considerados: Sócrates aparece principalmente em uma fonte, a saber, Platão, além de umas poucas referências de autores posteriores; sua principal frase de efeito fora “Só sei que nada sei” (ἓν οἶδα ὅτι οὐδὲν οἶδα)[3], proferida durante o seu suposto julgamento.

      Sem afirmar a veracidade histórica de Sócrates, podemos seguir um outro caminho mais interessante, quer seja, o de analisar mais profundamente a analogia e sua validade. Entendamos o seguinte:

      1) Mesmo que Sócrates tenha sido uma figura inventada por Platão, seus ensinamentos e suas ações eram de pessoa comum, bem encaixada na camada da sociedade que supostamente habitara; Jesus era muito sábio e chamaria a atenção dos pescadores analfabetos e dos pobres que lhe escutavam os sermões;

      2) Todo o legado de Sócrates se restringe ao campo das ideias, na forma de conceitualização a partir da literatura vigente; tudo o que se espera de Jesus são milagres para esta vida e passe garantido para a próxima;

      3) Salvas as devidas correções sociais e tecnológicas, hoje em dia é possível reproduzir e levar adiante todas as ideias de Sócrates; por conseguinte, mesmo que não tenha existido, suas ideias foram concebidas por outro ser-humano com as mesmas limitações; Jesus, pelo contrário, faz de seus feitos algo intransponível para qualquer um de seus “irmãos” de carne e osso (por mais que pastores neopentecostais afirmem o contrário). E, convenhamos, com todas as explicações convergindo para o fato de que ele era a vontade de Deus na Terra, torna-se bastante plausível a ideia de que ele não existiu nem seus feitos realmente foram consumados em época alguma;

      Como bem sabemos, sem as devidas evidências, quase nada pode ser provado empiricamente. Assim, a discussão central deixa o âmbito da indagação “realmente existiram?” e dá muitos passos adiante com o questionamento “poderiam realmente existir?”. A analogia inicial só diz respeito à primeira pergunta e, dentro desse limite, é válida na comparação. A segunda pergunta, no entanto, destrói qualquer tipo de semelhança acidental (συμβεβεκός) entre os dois, encerrando mais uma tentativa sofrível de apologética cristã.

      Notas:

      [1] LA SAGESSE. Jesus Cristo Nunca Existiu. Disponível em <http://ateus.net/artigos/historia/jesus_cristo_nunca_existiu.php>. Acesso em 27 mar. 2010.

      [2] Bíblia. Tradução de João Ferreira de Almeida. Disponível em <http://ateus.net/artigos/escrituras/biblia/>. Acesso em 28 fev. 2010.

      [3] PLATÃO (ΠΛΆΤΩΝ). Apologia de Sócrates (Απολογία Σωκράτους). Texto original em grego disponível em <http://el.wikisource.org/wiki/Απολογία_Σωκράτους>. Acesso em 28 fev. 2010.

      De um erro clássico I