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Segismundo da Hungria, Sagrado Imperador Romano e fundador da   Ordem do Dragão.
Segismundo da Hungria, Sagrado Imperador Romano e fundador da Ordem do Dragão.

O ano é 1408. Preocupados com a expansão dos turcos, o papa reúne-se com nobres de toda a Europa para discutir estratégias de contenção do expansionismo islâmico. Dessa congregação e fruto do gênio do rei Segismundo da Hungria, é fundada a Societas Draconistrarum. Composta inicialmente por 21 nobres, a ordem tinha representantes das mais notórias famílias húngaras, com destaque para os Bathory, dos quais fazia parte Elizabeth Bathory, conhecida por banhar-se em sangue de mulheres jovens e belas, na tentativa de restaurar a sua própria beleza e juventude, e a família Bethlen, representada por Gabriel Bethlen, que provocou guerras calcadas em motivos religiosos.

A verdade é que a ordem lutou contra os turcos e caiu nas graças do Vaticano, sendo conferido ao rei Segismundo o título canônico de Sagrado Imperador Romano. Em 1410 Segismundo uniu forças com outra ordem beligerante católica, a Ordem Germânica dos Cavaleiros Teutônicos, ou Ordo domus Sanctæ Mariæ Theutonicorum Hierosolymitanorum, contra o rei Władysław II Jagiełło, que resultou na batalha de Grunwald, considerada por muitos historiadores como uma das maiores batalhas envolvendo Cavaleiros Católicos da Idade Média.

Para nós que crescemos aprendendo sobre a história das inquisições e das cruzadas, o banho de sangue proporcionado pelo expansionismo cristão, especificamente da Igreja Católica Romana, não mais impressiona. Os mesmos senhores que por vários anos estiveram à frente da única fonte de referência aos textos cristãos provocaram inúmeras guerras e matanças, tudo em nome de deus e em nome da fé na doutrina de Saulo de Tarso. Mas hoje pretende-se acreditar que a história do cristianismo nada tem a ver com as instituições modernas, e o passado parece tão distante e nebuloso que ignoramos conscientemente os massacres em nome de uma ignorância confortante.

Ademais, comete falta grave aos olhos dos cordeiros católicos abordar a história de sangue e mentiras que tornou possível a construção deste grandioso e secular instituto religioso, ignorando-se os séculos de matanças e perseguições, de doutrinações e punições, de pederastia e ignorância, de controle e resistência à ciência, provocados por esta grandiosa máquina de fazer dinheiro e gerar ilusões. Custo a acreditar que existam fieis que ainda levem a sério uma instituição predatorial como esta, que alimenta a segregação religiosa e incentiva a ignorância, através de atitudes homofóbicas, e anti-progressistas, com  o exemplos bizarro da proibição moral do uso da camisinha, com direito a palestras no continente africano, infestado pelo vírus da AIDS.

Emblema da Ordem do Dragão, baseado no mito do ouroboros.
Emblema da Ordem do Dragão, baseado no mito do ouroboros.

Aparentemente a Igreja ainda não se libertou de seus laços históricos, nem tampouco aprendeu com seus erros. Ainda há demonstrações explícitas do seu anti-semitismo latente, enquanto escondem crianças vítimas de abusos sexuais embaixo de suas batinas. Os fantasmas da Ordem do Dragão ainda circulam pelos corredores do vaticano, nos lembrando da sede de sangue que banhou os mármores das suas igrejas históricas.

Afirma-se que o ocidente é cristão por vontade de uma força divina, manifestada por revelações. A verdade é que foi a espada quem assegurou que os reis europeus mantivessem suas coroas e sua principal arma de controle das massas: o cristianismo. Não que estes líderes estivessem livres das garras alienantes desta religião oriunda do deserto. De fato a maioria deles era profundamente religiosa. Nos meus próximos dois textos tratarei de algumas dessas importantes figuras históricas, e tentarei abordar, ainda que de forma simplista, algumas das estratégias e métodos mais grotestos e menos divulgados dentre os utilizados pela cristandade durante a Idade das Trevas.

      Todos sabemos que o deus judaico-cristão carece de evidências físicas. Não fosse verdade, seria objeto de estudo de alguma área científica. É o sonho de qualquer apologista poder apontar com seus dedos sedentos de confirmação uma prova irrefutável da existência de seu tão querido criador e redentor. Não bastaria mais do que isso para converter todos aqueles ateus que simplesmente não veem motivos para viver suas vidas baseados em um suposto deus dentre tantos outros que já apareceram.

      Na falta das tão sonhadas evidências físicas e objetivas, cabe à retórica estabelecer argumentos plausíveis para a existência de deus(es). E é aqui o único patamar de discussão aceitável para tal hipótese. Também é aqui o poço mais fértil das falácias humanamente possíveis, desde apelos à autoridade (ad verecundiam) e à antiguidade (ad antiquitatem), até apelos à maioria (ad populum) e à violência (ad baculum). Dentre todos esses subterfúgios, existe um que é particularmente interessante: o do motor imóvel (κινούμενον κινεῖ [1072b] – ou Primum Movens, em latim)[1].

      Este conceito tem origem em Aristóteles e foi concebido como o deus judaico-cristão por São Tomás de Aquino, em sua obra Summa Theologica[2]. Em poucas palavras, para Aristóteles, o começo de todo o movimento era um motor imóvel, perfeito em si mesmo. Usando uma falácia hoje conhecida como Magister dixit (o mestre disse), variante do apelo à autoridade (ad verecundiam), Aquino não demora em estabelecer um paralelo entre o motor imóvel de Aristóteles e o deus criador e redentor cristão, assim como descrito na Bíblia, aproveitando todo o prestígio do famoso helênico para os seus propósitos bem menos nobres.

      Em uma tarefa intelectual muitas vezes impetrada tanto por ateus quanto por religiosos, a regressão infinita nos dá duas respostas intuitivas: ou tudo sempre existiu ou tudo teve um começo. Baseados em nossa percepção diária de começo e fim das coisas observáveis (conceito indutivo duvidoso, mas útil em nossa jornada), tendemos a seguir a linha de raciocínio que deduz um começo para o universo. Na busca de uma causa inteligente por trás dele, os religiosos postulam um ser superior, que fugiria à regra que tanto teimam em respeitar: a de que toda consequência tem uma causa. Para eles, deus seria a causa incausada, o motor imóvel. E não hesitam em clamar Aristóteles – através de Aquino – para corroborar sua visão, por mais que nunca tenham lido a obra em que o filósofo grego cunha seus termos ou aquela na qual o teólogo cristão os explora no seu sentido mais conhecido. É uma tática repetida desde a Idade Média e que funciona particularmente bem em nossa época: na dúvida, Aristóteles (filósofo pré-cristianismo) confirma o deus cristão.

      Vejamos algumas características do motor imóvel de Aristóteles: a única coisa que este ser faz é pensar eternamente; e só pode pensar na coisa mais perfeita que existe – o próprio pensamento; não poderia pensar sobre seres imperfeitos, como os seres-humanos (1072b); também não teria ação alguma na organização do cosmos: pelo contrário, tudo se organizaria ao seu redor, mas sem sua interferência, sendo apenas objeto de aspiração ou desejo. De longe, nenhuma semelhança com o deus intervencionista da maioria das religiões atuais. O ser aristotélico se aproximaria da visão deísta – e não teísta – de uma divindade: a de um ser que se manifestara no começo de tudo. Obviamente, é uma visão que tapa lacunas, mas não explica muita coisa, pois invoca uma variável ainda mais desconhecida (ignotus per ignotium).

      Outra faceta estrategicamente esquecida da interpretação cristã do argumento aristotélico é o das esferas geocêntricas[3]: segundo os teólogos medievais, os sete planetas vistos a olho nu (incluindo a Lua e o Sol) representariam as sete primeiras esferas, seguidas da oitava – ou firmamento – e da nona (uma esfera cristalina, para se adequar a Gênesis 1:7 – “E fez Deus a expansão, e fez separação entre as águas que estavam debaixo da expansão e as águas que estavam sobre a expansão; e assim foi”[4]). A décima esfera seria o Primum Mobile, primeira esfera movida. Além de todas as outras esferas, estaria o Coelum Empyreum Habitacvlvm Dei (Céu Empíreo Habitáculo de Deus), onde estaria o próprio Primum Movens. Inútil dizer que tal abordagem é completamente descartável e, como não?, bisonha demais para merecer qualquer crédito, desde a fatídica constatação de que não somos o centro do sistema solar, nem da galáxia, muito menos do universo. Para Aristóteles, no entanto, o número total de esferas seria de quarenta e nove ou cinquenta e cinco (1073a), pulando sem maiores explicações para a afirmação de que, mesmo com tantas esferas, haveria somente um deus (ὁ Θεός, 1074a). É dessa divisão que surgem todas as classes de anjos e arcanjos para governar as esferas restantes. Uma bela demonstração de como funcionava o universo aristotélico na visão medieval pode ser encontrada em La Divina Commedia, de Dante Alighieri [5].

      Concluindo, mesmo que aceitássemos todas as premissas do argumento cosmológico para a existência de deus(es), jamais poderíamos usar Aristóteles para justificar a existência daquelas divindades que se preocupam com a humanidade, como em João 3:16: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê näo pereça, mas tenha a vida eterna”. É um passo grande demais para ser classificado como qualquer outra coisa senão non sequitur. Mas isso tudo só diz respeito à abordagem filosófica do problema. A ciência teria algo a dizer?

      Usada como base para o argumento de causalidade, a regressão de causas perdeu força com as leis da termodinâmica (séc. XIX) e da física quântica (séc. XX). As modernas teorias físicas estão cheias de exemplos de coisas movidas sem causa. É um dos temas do livro Hyperspace[6], de Michio Kaku, que cita moléculas de gás que podem quicar eternamente nas paredes de um contêiner, desde que haja conservação de massa e energia, sem a necessidade de um primeiro motor. Outro exemplo forte contra o argumento cosmológico é a teoria do Big Bang, segundo a qual ambos tempo e espaço tiveram início com a singularidade, tirando toda a viabilidade da pergunta “o que veio antes?” – tão fundamental para a argumentação de Aristóteles –, tornando-a comparável a “o que tem na Terra ao sul do Polo Sul?”.

      A retórica há muito deixou de ser um instrumento de interpretação da realidade. Sabendo das limitações da linguagem e dos instrumentos de persuasão (Cf. propaganda e publicidade), poucos são aqueles que conseguem afirmar honestidade neles. O método científico consegue extirpar consideravelmente bem todas as mazelas inerentes a seres hipócritas e carentes de autoafirmação. E é com ele que buscamos as melhores respostas para os nossos questionamentos mais íntimos. A todos aqueles que desejam enfiar uma divindade no mundo através de discursos, só resta a árdua tarefa de ir contra todo o conhecimento que já adquirimos desde que começamos a estudar a natureza pelo que ela é, antes do que pelo que queremos que ela seja.

      Referências

      [1] ARISTÓTELES. Metafísica (Livro Λ). Original grego com tradução para francês disponível em <http://remacle.org/bloodwolf/philosophes/Aristote/tablemetaphysique.htm> Acesso em 14 mar. 2010.

      [2] AQUINO, Thomás de. Summa Theologica. Original em latim disponível em <http://www.corpusthomisticum.org/sth0000.html> Acesso em Acesso em 14 mar. 2010.

      [3] <http://en.wikipedia.org/wiki/Primum_Mobile> Acesso em 14 mar. 2010.

      [4] Bíblia. Tradução de João Ferreira de Almeida. Disponível em <http://ateus.net/artigos/escrituras/biblia/> Acesso em 14 mar. 2010.

      [5] ALIGHIERI, Dante. La Divina Commedia. Original italiano com tradução para inglês disponível em <http://etcweb.princeton.edu/dante/pdp/> Acesso em 14 de mar. 2010.

      [6] KAKU, Michio. Hyperspace: A Scientific Odyssey Through Parallel Universes, Time Warps, and the Tenth Dimension. New York: Oxford University Press, 1994.

      Der man hat einen gross Geist und ist so klein von Taten [1]

      Capa do livro de John Cornwell: O Papa de Hitler.

      Hoje quero escrever um texto um pouco diferente. No início desse mês relembrou-se os 65 anos da morte de Anne Frank. Este ano também foi o ano em que Miep Gies, a última sobrevivente que ajudou a jovem Frank a se esconder, morreu, aos 100 anos. Anne Frank, apesar da pouca idade, nos deixou um legado e um ensinamento de vida e através da maturidade adquirida através do sofrimento, hoje somos capazes de enxergar a intolerância e a barbárie humana através dos olhos de uma criança.

      Eu não preciso discorrer sobre Anne Frank, muito menos sobre a crueldade e a estupidez derivada do fanatismo político e da perseguição cultural, étnica e religiosa. É redundante relatar as atrocidades ocorridas nos campos de concentração, das quais a jovem Frank foi testemunha. Tudo isso é dispensável, pois você, leitor, as conhece muito bem. Mesmo os seres doentos que ainda insistem em negar o holocausto, por puro preconceito racial, hão de convir quanto à desumanidade de tal regime político.

      Muitos religiosos, hoje, gostam de atribuir a Hitler o status de ateu. Sabemos que não é bem verdade, basta ler o Mein Kampf para perceber que o Führer possuia, no mínimo, grande simpatia pela igreja católica. Chegava até mesmo a atribuir ao povo Judeu a culpa pelo suposto assassinato do filho de deus. Mas também é desnecessário abordar aqui a patológica mentalidade hitlerista, pois esta você também já conhece.

      Talvez você já tenha sido capaz de antecipar o tópico o qual estou prestes a abordar. Certamente deve possuir uma opinião formada sobre o tema. Não é difícil adivinhar, considerando o teor deste sítio. Por que Pio XII, o papa católico da época, foi tão complacente com o nazismo? Claro que ele auferiu vantagens políticas fechando os olhos para o que estava acontecendo, ademais o Vaticano se encontrava em território inóspito, mas qual é a postura que se espera de um grande líder religioso em uma situação como esta?

      Elite nazista nos corredores do Vaticano. O beijo de submissão ao anel papal.

      É preciso esclarecer que na época (e como é comum que haja alternâncias a tal respeito) o vaticano possuía uma postura direitista. E apesar da tentativa de mascarar a situação, é amplamente conhecido o apoio da igreja ao regime alemão, ao menos dentro dos território ocupados. Não é difícil fazer uma defesa de tais cardeais e bispos, mas o Papa, o representante de deus na Terra (segundo a mitologia católica) se abster de ajudar milhares de judeus que caminham para a morte? E se fossem cristãos, e mais especificamente católicos, como teria agido Pio XII?

      Em 1933 foi assinada a Reichskonkordat entre o Vaticano e a Alemanha, no qual se assegurou o direito de todos os católicos em território alemão. Isso mesmo: (apenas) todos os católicos. No mesmo ano, Hitler declarou:

      “O Governo Nacional deverá considerar como seu dever, em primeiro lugar para reviver no país o espírito de unidade e cooperação. Ela irá preservar e defender os princípios básicos sobre os quais nossa nação foi construída. Ele respeita o cristianismo como o fundamento da nossa moralidade nacional e da família como a base da vida.” [2]

      Não se trata apenas de um fato histórico digno de causar náuseas naqueles que possuem um pouco de sensibilidade e conhecimento básico da história do mundo, mas de algo que vem sendo deliberadamente mascarado e negado pelo vaticano e seus pupilos de todos os graus. Apesar de negar as acusações, o vaticano manteve todos os arquivos referentes a guerra trancafiados por todos esses anos.

      Até que o professor da Universidade de Cambridge, até então católico e conhecido pelo seu livro sobre João Paulo II, ganhou

      Pio XII assinando a Reichskonkordat

      Pio XII assinando a Reichskonkordat

      acesso à biblioteca do Vaticano. Motivo: patrocinar um livro que limparia de vez o nome de Pio XII e qualquer traço sobre seu envolvimento com o regime nazista, antes ou durante a guerra. O que a cúpula máxima da Igreja católica desconhecia era o que estaria por vir: John Cornwell acabou por publicar um livro rico em detalhes sobre a participação e colaboração direta do Papa junto ao nazismo. Em seu livro intitulado “O Papa de Hitler”, John apresenta evidências convincentes de que não só a Igreja fechou os olhos para o massacre massivo de judeus, como participou ativamente em decisões politicas e estratégias militares.

      É importante mencionar que Pio XII tornou-se papa durante o regime do Terceiro Reich, em 1939, e não sem propósito. Era preciso um Papa com visão política, capaz de reunificar a Igreja e restabelecer a força do catolicismo, sem contudo desagradar o governo que ameaçava toda a Europa da época. É com a reflexão de um pensamento egoístico, frio, calculista e excepcionalmente maquiavélico que deixo você , leitor, refletir. As imagens falarão por si só, em memória de um tempo em que a humanidade foi esquecida em detrimento de poder político, em que a intolerância religiosa virou regra e o cheiro da morte já não causava estranheza às elites burocráticas.

      1. “O homem tem grande espírito, mas são tão mesquinhas as suas ações”. Poema encontrado no livro de Anne Frank
      2. HITLER, Adolf. My New World Order, Proclamation to the German Nation at Berlin, February 1, 1933) Sem tradução para o português.

      Em dezembro de 2007, em sua edição 2040, a Revista Veja publicou uma pesquisa que expõe o medo que boa parte do eleitorado brasileiro tem dos ateus. Segundo tal pesquisa, apenas 13% dos eleitores votariam sem reservas em um candidato ateu para presidente do Brasil. Dos demais entrevistados, 25% declararam que votariam “dependendo da pessoa”, 3% declararam não saber ou não quiseram responder, e 59% declararam que simplesmente não votariam em um ateu para a presidência da República.

      Sem adentrar a questão da exatidão de tal pesquisa, é interessante notar que uma expressiva parte dos eleitores do Brasil não votaria em um candidato ateu. É mais da metade do eleitorado. É importante também levar em conta que um quarto dos eleitores, ao declarar que votariam em um ateu “dependendo da pessoa”, expressaram alguma reserva quanto ao ateísmo do candidato. Assim sendo, mais de 80% do eleitorado brasileiro vê o ateísmo como um atributo negativo em alguém que concorra a um cargo público eletivo.

      Obviamente, os candidatos e seus respectivos partidos sabem disso. Em qualquer eleição se gasta muito dinheiro e, como em qualquer grande investimento, investidores sérios procuram obter o máximo de informações possíveis para garantir um bom retorno do que foi investido. Tudo aquilo que o eleitor considera defeito é cuidadosamente escondido na elaboração da propaganda, e nenhum candidato a presidente que pretenda vencer a eleição seria tolo a ponto de declarar abertamente que não acredita em deus.

      Isto nos remete ao episódio nacionalmente conhecido das eleições para a prefeitura de São Paulo em 1985. Durante um debate, o então candidato a prefeito Fernando Henrique Cardoso titubeou ao ser perguntado se acreditava ou não em deus. FHC perdeu as eleições, e muito se discute se o resultado teria sido diferente caso ele tivesse respondido com firmeza que acreditava em deus. Mas é certo que o vacilo em responder uma pergunta tão direta certamente foi visto por muitos eleitores como uma confissão de descrença. Posteriormente, em suas propagandas eleitorais na televisão, FHC negou ser ateu e maconheiro, mas isto não evitou sua derrota naquele pleito (o programa pode ser visto em http://www.youtube.c…h?v=uyvWXZDlhNY ). É interessante notar que FHC, no mesmo discurso, falou de duas coisas que o eleitorado reputa igualmente ruins: o uso de entorpecentes e o ateísmo, como se ser ateu fosse algo socialmente tão reprovável quanto ser usuário de entorpecentes. Isso para não mencionar a comparação entre ateísmo e desrespeito ao sentimento religioso, que é um lamentável preconceito.

      Se FHC é ou não ateu, só ele pode dizer. Para nós ateus é difícil pensar que alguém possa ser “ex-ateu”, mas na fauna humana encontra-se de tudo. Se FHC se atrapalhou para responder uma pergunta tão direta, pode-se pelo menos dizer que sua fé em alguma divindade não era a mesma da maioria do eleitorado paulista na época. De qualquer forma, alguns anos depois ele foi eleito presidente do Brasil e ninguém parecia mais se importar com o que FHC pensava acerca de deus. O assunto simplesmente não vinha à tona

      Mas se, para um político, declarar-se ateu, de forma aberta, ostensiva, é uma espécie de suicídio eleitoral, a atitude contrária, ou seja, declarar-se fiel a alguma religião, rende votos. A ironia é notar que boa parte dos muitos políticos brasileiros envolvidos em escândalos de corrupção, e mesmo em diversos outros crimes, faz parte do grupo que usa o discurso religioso como alavanca para obtenção de votos. Em 1993, deus estava na boca do deputado envolvido no escândalo dos anões do orçamento, que atribui seus mais de cinquenta prêmios na loteria em menos de um ano à ajuda divina. Também estava na boca dos envolvidos nos recentes escândalos envolvendo o governo do Distrito Federal.

      De tudo isto, só se pode concluir que a crença ou a descrença em deus não diz nada quanto à honestidade do candidato. Honestidade e desonestidade podem acompanhar igualmente a fé ou a incredulidade, e não há motivos para se temer um candidato ateu por causa do seu ateísmo, assim como não há motivos para se confiar em um candidato religioso em razão de sua religiosidade. Mesmo assim, enquanto a imagem do ateu como ímpio e como sujeito sem valores éticos e morais estiver presente no imaginário popular, o eleitor ainda terá medo de votar em ateus, e os candidatos ateus ainda terão medo de declarar publicamente seu ateísmo.

      A igreja, de um modo geral, sempre prosperou quanto mais poder social exerceu. Foi controlando a vida das pessoas, suas ações e pensamentos, que foram capazes de moldar a sociedade a seu gosto (duvidoso). Nas pequenas aldeias e vilas, era um trabalho razoavelmente fácil e foi uma das funções mais proeminentes da confissão individual. Até hoje, em cidades do interior de nosso país, não é difícil ver como tudo gira em torno daquela igreja e daquela pracinha.

      No entanto, é muito mais difícil controlar a vida de pessoas em uma grande cidade, principalmente com a rotatividade de fieis: não dá simplesmente para decorar todos os nomes de pessoas que frequentam sua igreja, nem lembrar de seus pecados. É aqui que entram as pequenas dissidências eclesiásticas: as igrejas evangélicas e pentecostais acabam por assumir o papel outrora dominante da Igreja Católica. Elas dispõem, geralmente, de uma congregação menor, mais intimista, onde todos se conhecem e sabem da vida de todos.

      É por conta desse atual cenário que, por vezes, parece haver uma discriminação maior nas igrejas protestantes. É por isso que vemos discursos mais inflamados de pastores contra homossexuais e é por isso que tantos prometem curas milagrosas para este comportamento. Não importa se a Organização Mundial de Saúde retirou a homossexualidade do seu rol de doenças[1]; para os crentes, é um desvio da obra de Deus e deve ser “curada”.

      Diante de toda a opressão que o cristianismo ainda exerce sobre os homossexuais, há duas saídas principais: eles podem abandonar a igreja ou combater a própria sexualidade. Há, obviamente, diversos outros caminhos não tão radicais: desde buscar igrejas mais lenientes até fundar igrejas somente para homossexuais [2].

      Aqueles que buscam respaldo na Bíblia para criticar os homossexuais encontrarão três principais passagens [3]:

      “Com homem não te deitarás, como se fosse mulher; abominação é” (Levítico 18:22);

      “Quando também um homem se deitar com outro homem, como com mulher, ambos fizeram abominação; certamente morrerão; o seu sangue será sobre eles” (Levítico 20:13);

      “Por isso Deus os abandonou às paixões infames. Porque até as suas mulheres mudaram o uso natural, no contrário à natureza. E, semelhantemente, também os homens, deixando o uso natural da mulher, se inflamaram em sua sensualidade uns para com os outros, homens com homens, cometendo torpeza e recebendo em si mesmos a recompensa que convinha ao seu erro” (Romanos 1:26-27).

      Apesar da ilusão de que católicos têm uma posição mais branda sobre a homossexualidade, o atual papa Bento XVI já deu diversas declarações que mostram exatamente o contrário: “Salvar gays é tão importante quanto salvar florestas” [4]; ou ainda “Papa critica projeto de lei britânico contra a discriminação de homossexuais” [5].

      É difícil traçar um paralelo entre ateísmo e homossexualidade, mas, indubitavelmente, boa parte dos indivíduos que não busca igrejas que os aceitem como são acaba por se tornar ateia ou professar algum tipo de crença que não seja baseada no deus judaico-cristão. De qualquer forma, não é difícil perceber como o rígido controle social, em uma sociedade na qual a apostasia não é punível com morte ou segregação, pode prejudicar o número de fieis de determinada congregação.

      Por mais que a religião cristã paute seus ensinamentos no sofrimento, muitos já perceberam que ele não é realmente necessário e simplesmente vivem suas vidas sem a preocupação masoquista de agradar a deus(es) preocupado(s) demais com o que se faz na vida privada.

      Notas:
      [1] World Health Organization. ICD-10. Disponível inglês em <http://www.who.int/c…en/bluebook.pdf> Acesso em 28. fev 2010.

      [2] Igreja da Comunidade Metropolitana

      [3] Bíblia. Tradução de João Ferreira de Almeida. Disponível em <http://ateus.net/art…rituras/biblia/> Acesso em 28 fev. 2010.

      [4] Salvar gays é tão importante quanto salvar florestas, diz Bento 16

      [5] Papa critica projeto de lei britânico contra a discriminação de homossexuais

      Se um professor de história, em uma aula sobre a Grécia de antes do século VIII a.C., começar a falar sobre Aquiles, Odisseu ou Heracles como quem fala de Alexandre, de Carlos Martel ou do Marechal Deodoro, ou seja, como quem fala de pessoas de carne e osso, será visto, no mínimo, com estranheza. Muitos de seus colegas historiadores pensarão que este professor está ficando doido, como se estivesse tratando Asterix e Obelix como homens tão reais quanto Júlio César. Após as famosas descobertas arqueológicas de Heinrich Schliemann no século XIX, sabe-se que existiu uma cidade grandiosa onde hoje é a Turquia que, provavelmente, identifica-se com a Troia dos poemas homéricos. Mas dizer que tais descobertas confirmam a historicidade de heróis como Aquiles ou Odisseu equivale a dizer que os personagens gauleses de Uderzo e Goscinny existiram porque os romanos realmente conquistaram a Gália.

      Contudo, se este mesmo professor de história, seguindo rigorosamente o texto de alguns livros didáticos de ensino fundamental e médio publicados no Brasil, disser que há três mil e duzentos anos um homem chamado Moisés libertou o povo hebreu escravizado no Egito e conduziu este povo durante vários anos por regiões desérticas como a Península do Sinai, e se disser que este povo, após tal andança, sob o comando de um chefe militar chamado Josué, conquistou a região hoje chamada de Palestina, poucas pessoas, inclusive seus colegas historiadores, acharão tal aula absurda. Por quê?

      No Ocidente, sob o peso de séculos de hegemonia cultural cristã, as pessoas acham normal pensar que os relatos da Bíblia são históricos e não míticos. Mesmo entre pessoas não religiosas, é comum pensar que a narrativa bíblica, despojada de seus elementos miraculosos, como a passagem pelo Mar Vermelho ou a interrupção do movimento aparente do Sol através do céu, reflete acontecimentos históricos, e que os personagens mencionados em tais narrativas existiram, ao contrário do que se pensa sobre os semideuses gregos. Afinal, por muitos séculos a cristandade acostumou-se a pensar em Moisés, Josué ou Sansão como figuras históricas, e em seus feitos milagrosos e fantásticos como eventos reais que expressavam a intervenção divina na história.

      Entre os séculos IV e III a.C., um grego chamado Euêmeros tornou-se célebre por sua interpretação racional dos antigos mitos de seu povo. Em sua obra Hierà Anagraphé, que chegou à nossa época apenas em alguns fragmentos, Euêmeros propõe explicar a origem dos mitos à luz da razão, lançando a hipótese de que deuses e heróis nada mais eram do homens que se destacaram por seus feitos no passado. Com o passar do tempo, a admiração das pessoas pelas obras destas figuras ilustres, e o culto à memória deles, fez com que fossem gradativamente divinizados.

      A proposta de Euêmeros é um notável passo em direção a uma visão racional e dessacralizada do mundo, dos mitos e da História. Esta forma de encarar figuras míticas tornou-se inclusive conhecida como “evemerismo”. Assim, uma análise “evemerística” de uma personagem mitológica, a “evemerização” dela, é o ato de propor uma visão racional da figura em estudo, deixando de lado os elementos sobrenaturais que acompanham o herói, semideus ou deus em questão. Contudo, tal atitude pode se revelar um obstáculo a uma análise objetiva da origem do mito, pois a propositura de uma explicação evemerística para a personagem mitológica ou religiosa pode ser apenas um desejo de se preservar algo de uma tradição religiosa cujas origens possuem poucas fontes históricas disponíveis. Basta pensarmos na seguinte situação: nós não vemos hoje a menor necessidade de postular ou de investigar um “Odisseu histórico”, ou um “Perseu histórico”. Mas, para os antigos gregos, cuja civilização passou por um processo de racionalização desde os tempos de Homero (outra figura possivelmente lendária) aos tempos de Euêmeros, optar por dizer que seus heróis um dia existiram, mesmo que como homens comuns, seria melhor do que admitir que tais figuras não possuíam qualquer historicidade.

      Voltemos à figura de Moisés. A Bíblia, no livro de Êxodo, pelo menos nas traduções mais populares na nossa língua, afirma claramente que Deus concedeu poderes a Moisés. Poderes. Algo que o diferencia dos demais mortais e o aproxima de figuras como os semideuses gregos. Com tais poderes, segundo a Bíblia, Moisés derrotou uma das maiores potências militares e políticas do século XIII a.C., o Egito. É um relato cujos elementos miraculosos equivalem a qualquer mito que narra intervenções divinas na História, como os deuses tomando partido por um ou outro lado na guerra de Troia. No entanto, como seria possível “evemerizar” tal narração? Retirando-se os elementos miraculosos do Êxodo, resta a difícil tarefa de explicar como um povo desarmado e escravizado, sem recorrer à sublevação violenta, de repente deu as costas aos seus antigos senhores e fugiu do Egito. Sigmund Freud, em sua obra Moisés e o Monoteísmo, tenta dar uma explicação “evemerística” para o Êxodo. Para Freud, resumindo superficialmente, Moisés era um egípcio importante, provavelmente de origem nobre, partidário do faraó Amenófis IV, que mudou seu nome para Akenaton e estabeleceu a mais radical reforma religiosa da história do Egito antigo, instituindo o monoteísmo, em clara afronta ao poder dos sacerdotes de Amon. A reforma de Akenaton não sobreviveu ao faraó. Freud propõe então que Moisés tenha sido um dos seguidores do monoteísmo de Akenaton que, aproveitando-se do breve período de caos político surgido logo após a morte do faraó, liderou um povo de escravos semitas que vivia no Egito e impôs a ele sua religião.

      Sem querer criticar as hipóteses psicanalíticas que Freud expõe na referida obra, na qual ele tenta mostrar como certas ideias aplicáveis a indivíduos se adequam a grupos humanos, o livro Moisés e o Monoteísmo é um bom exemplo de evemerização. Freud parece querer salvar a hipótese da existência histórica de uma figura muito importante para o judaísmo e o cristianismo. Entretanto, muitos dos argumentos utilizados por Freud para sustentar a existência histórica de Moisés estão francamente ultrapassados e, naturalmente, pelos avanços da arqueologia e da história, hoje sabemos muito mais sobre as origens do judaísmo do que em 1938, data da publicação do livro. Sabe-se hoje que, nos períodos e lugares usualmente propostos para a permanência dos hebreus no deserto, não há qualquer sinal da estada de um povo. Nada foi encontrado na Península do Sinai que pudesse indicar uma jornada de quarenta anos de milhares de pessoas rumo à Palestina. Não há também qualquer indício da presença de um povo culturalmente homogêneo, como os hebreus, como escravos no Egito, apesar das evidências de intenso tráfego de pessoas de diversas origens, principalmente semitas, que habitavam sazonalmente o Egito em tempos de escassez em suas terras.

      Tudo isto indica que tentativas de se buscar o “Moisés histórico” parecem ser tão promissoras quanto uma busca por um “Aquiles histórico”, ou um “Heracles histórico”. Moisés parece ser uma figura de historicidade tão plausível quanto os mencionados semideuses helenos. Mesmo assim, folheando vários livros didáticos brasileiros, de ensino fundamental e médio, encontraremos lá Abraão, Jacó, Moisés ou Josué, todos devidamente “evemerizados”. Tão inverossímeis quanto seus correspondentes gregos.

      Referências:

      Sobre Euêmeros e evemerismo:

      ELIADE, Mircea. Mito e realidade. 6ª ed. São Paulo: Perspectiva, 2007.

      KURY, Mário da Gama. Dicionário de mitologia grega e romana. 6ª ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.

      A obra de Freud mencionada:

      FREUD, Sigmund. Moisés e o monoteísmo. Rio de Janeiro: Imago, 1975.

      Sobre as pesquisas arqueológicas e históricas mais recentes:

      FINKELSTEIN, Israel e SILBERMAN, Neil Asher. A Bíblia não tinha razão. São Paulo: A Girafa, 2003

      Não é de se admirar que conflitos são inevitáveis quando existe algum tipo de escassez, seja ela de recursos naturais, de recursos humanos ou a falta de pura e simples sensatez (o que evidencia um atributo preocupante da atualidade: tudo pode ser pretexto para se iniciar um achaque — incluindo-se, aqui, as desculpas mais simplórias —). É o caso dos conflitos atuais que, por todo o mundo, fazem com que inocentes sejam alvos de insurreições que não se permitem mitigar. São verdadeiras disputas religiosas (que se iniciam como batalhas intestinas — e intestinais —) como as insurgências islâmicas no Magrebe, na Nigéria, nas Filipinas, no Oriente Médio, como a violência declarada entre xiitas e sunitas no Paquistão, como as agitações muçulmanas no sul da Tailândia1; 2.

      A primeira impressão que nos surge é a de que, das três etapas de desenvolvimento de uma sociedade (selvageria, barbárie e civilização), a última dificilmente é alcançada; e quando a ela se chega, nela não se permanece. Não é de se espantar que “o homem está sempre em estado selvagem. O que são os perigos da floresta e da pradaria comparados aos choques e conflitos diários do mundo civilizado? Enlace sua vítima no bulevar ou trespasse sua presa em florestas desconhecidas, não é ele o mais perfeito predador?”3. E, para nosso caso, tal predação resume-se a uma desculpa tão anêmica quanto as ideias que a fundamentam: aos islâmicos, se o todo-poderoso Alá está em todos os lugares e é o alicerce de tudo, a nós, contudo, tal ubiquidade não é um de Seus atributos: é, sobretudo, uma característica da ignorância de seus seguidores. Mas muitos conflitos deflagrados por muçulmanos radicais não ocorrem por acaso; tenhamos, de antemão, o fato de que uma das mais importantes fontes de conflito é a religião4, sendo a violência uma de suas partes integrantes5; por conseguinte, corrobora-se a ideia de que “todas as religiões são, em seu mais profundo nível, sistemas de crueldades”6.

      Crueldades, atrocidades, truculências apontadas nos bastidores das guerras religiosas que, por sua persistência, trazem a impressão de que não são travadas para serem ganhas, mas para serem conservadas — como se o sangue inimigo, sempre a escorrer, fortificasse a idolatria e dela retirasse alento. Para sermos estatísticos notemos que, “segundo estimativas de um acadêmico, em todos os momentos do período de 1950–96, os conflitos religiosos constituíram 33–47% de todos os conflitos”7. Ainda que tais subversões preencham várias linhas dos anais da História, tais conflitos não estão tão distantes de nosso tempo e de nosso espaço; se tomarmos por base o século XXI, observaremos que “o conflito no Afeganistão, na Caxemira, no Sri Lanka e em um número de Estados do Oriente Médio, ligado com o aumento do extremismo religioso, reforçou a visão de que há uma estreita e forte ligação entre a religião e o conflito. O conflito religioso não é, naturalmente, exclusivo à atualidade, mas existiu em várias formas na maior parte da História conhecida”8.

      Não é por acaso que o Islamismo — e, ouse-se dizer, o Cristianismo, o Judaísmo e outras sandices similares — configura-se como obstáculo para o crescimento individual, social, científico e cultural dos povos, eternizando modelos enlatados de compreensão da realidade, perpetuando conveniências atrasadas, frases feitas, respostas prontas e idiotias doentias; isso tudo, saliente-se, a partir de uma distorção emocional conhecida como “fé”, sentimento de rebanhos alucinados que se submetem, com genuflexão mas sem reflexão, a um cão pastor que os controle — e dele imitando o rosnar. Tanto assim que não se pode deixar de confirmar que, merecedoramente, os seguidores das principais religiões monoteístas do mundo foram (e ainda são) ligados à violência radical9. O Islã, mais precisamente, “aceita o uso da violência para defender a fé em uma doutrina de guerras justas, a última etapa do jihad (que deve ser traduzida como esforço da fé, não como guerra sagrada)”10. Um esforço ameaçador, diga-se, que faz dos infiéis vítimas de homens-bomba, esta espécie de possíveis impassíveis que dificilmente bradarão, a plenos pulmões, Debelatum est! — não enquanto a religião islâmica entender a intolerância como um modo de suprir sua fraqueza teórica; nesse caso, o único grito que será ouvido será um estrondoso Allah Akbar! Mas talvez seja possível entender (sarcasticamente) essa problemática ao notar que, em linhas gerais, para um católico o Paraíso é um encontro de parentes em um clube de campo, mas para um islâmico é uma despedida de solteiro em um bordel repleto de virgens. E, como se nota pelos jornais, a tentação é grande.

      Seja como for, tal esforço da fé significa, nas palavras de um islâmico, “opor-se à [sic] tudo quanto desagrada a Allah; e sob ponto [sic] de vista exógeno, ele (Jihad) significa combater o kurf – a incredubilidade[sic]/descrença com as palavras [com base no conhecimento da religião Islâmica] e acções”11. “Combater”, palavra da qual nem os próprios islâmicos estão protegidos, haja vista “o primeiro significado de jihad: a batalha não deve ser travada apenas contra os incrédulos, mas também contra os próprios muçulmanos, para anunciar ao mundo o selo da profecia e alcançar o Estado islâmico mundial”12. Visto isso, temos um cenário lamentável em que, quanto mais a humanidade progride, mais “a repressão cala fundo na alma dos que experimentam a secularização como agressiva e distorce sua visão religiosa, fazendo-a violenta e intolerante”13. Podemos, destarte, salientar o que se segue: “O que assistimos hoje? A um fundamentalismo sem fundamento. O que torna isso perigoso? Ninguém mostrar nada de fundamental”14.

      Do que vimos até aqui, em um apanhado de estudos e dados preocupantes, podemos compreender a gravidade da situação. Um panorama que — se mudar — não mudará tão cedo; um quadro social em que a religião islâmica torna-se a cada dia uma desculpa mais forte e menos coerente para o assassínio de cidadãos inocentes, porque “infiéis”. Nesse ínterim, o que podemos aceitar a princípio é que “uma religião que coage a consciência não tem direito a ser tolerada”15. (Mas não deve haver preocupação quanto a isso: mesmo contrários que somos e contrariados que estamos, não nos explodiremos em lugares públicos para reafirmarmos nossas ideias.)

      Por fim, e por esses — e outros — motivos, seria de bom-tom que os sectários de Alá pensassem duas vezes antes de iniciarem seus pronunciamentos com o célebre “Em Nome de Allah, Clemente e Misericordioso” (grifos nossos). Haveria algo de sarcasmo nessa epígrafe? Os fatos16 e as estatísticas dizem que sim.

      *   *   *

      Notas

      1. The decade in international conflict. Global security. Stockholm International Peace Research Institute, Ploughshar, US State department. 2009.
      2. JONGMAN, A. J. World conflict and human rights map. PIOOM – Interdisciplinary Research Programme on Causes of Human Rights Violations. 2001/2002.
      3. BAUDELAIRE, Charles. Fusées – Mon coeur mis à nu. Paris: Gallimard, 1986. Apud BENJAMIN, Walter. Charles Baudelaire – um lírico no auge do capitalismo. Trad. de Hemerson Alves Baptista e Jose Carlos Martins Barbosa. São Paulo: Brasiliense, 2004. p. 220.
      4. One of the most important sources of conflict has been identified as violence carried out on the basis of culture, ethnicity and religion […].” [NEIL J. “Islam, conflict and terrorism”. In: Sipri yearbook. 2006. Disponível na Internet via WWW. URL: <http://www.sipri.org/yearbook/2006/02/02C>. Acesso em 06 de fevereiro de 2010.
      5. “[…] violence is an integral part of religion”. JUERGENSMEYER, M. “Sacrifice and cosmic war”. Terrorism and political violence. Vol. 3. Número 3. 1991. Apud NEIL J. “Islam, conflict and terrorism”. In: Sipri yearbook. 2006. p. 124-125. Disponível na Internet via WWW. URL: <http://www.sipri.org/yearbook/2006/02/02C>. Acesso em 06 de fevereiro de 2010.
      6. “[…] alle Religionen sind auf dem untersten Grunde Systeme von Grausamkeiten […]”. NIETZSCHE, F. W. Zur Genealogie der Moral. In: ______. Sämtliche Werke – Kritische Studienausgabe. Vol. 5. Giorgio Colli e Mazzino Montinari (orgs.). Berlim: De Gruyter, 1988.
      7. According to one scholar’s estimates, throughout the 46-year period 1950–96 religious conflicts constituted 33–47 per cent of all conflicts”. NEIL J. “Islam, conflict and terrorism”. In: Sipri yearbook. 2006. Disponível na Internet via WWW. URL: <http://www.sipri.org/yearbook/2006/02/02C>. Acesso em 06 de fevereiro de 2010.
      8. Conflict in Afghanistan, Kashmir, Sri Lanka and a number of states in the Middle East, coupled with the rise of religious extremism, has reinforced the view that there is a close and strengthening linkage between religion and conflict. Religious conflict is not, of course, exclusive to the present day but has existed in various forms for much of known history”. NEIL J. “Islam, conflict and terrorism”. In: Sipri yearbook. 2006. Disponível na Internet via WWW. URL: <http://www.sipri.org/yearbook/2006/02/02C>. Acesso em 06 de fevereiro de 2010.
      9. “[…] adherents of all the world’s major religions — Buddhism, Christianity, Hinduism, Islam, Judaism and Sikhism — have been linked to extremist violence”. NEIL J. “Islam, conflict and terrorism”. In: Sipri yearbook. 2006. Disponível na Internet via WWW. URL: <http://www.sipri.org/yearbook/2006/02/02C>. Acesso em 06 de fevereiro de 2010.
      10. “[…] accepts use of violence to defend the faith in a doctrine of just wars, the ultimate stage of jihad (which should be translated as exertion for the faith, not as holy war)”. GALTUNG, Johan. Religions, hard and soft. Disponível na Internet via WWW. URL: <http://www.aril.org/galtung.htm>. Acesso em 06 de fevereiro de 2010.
      11. WAHHAB, Mohammad Ben Abdul. Os três princípios básicos do Islão e suas evidências. Trad. De Mohammad Mbiavanga Fernando. 2003. Disponível na Internet (para download) via WWW. URL: <http://www.islamismo.org/tresprincipiosbasicos.doc>. Acesso em 06 de fevereiro de 2010.
      12. “[…] el primer sentido del yihad: el combate no se debe librar simplemente contra los infieles sino también contra los propios musulmanes, para anunciar al mundo entero el sello de la profecía y realizar el Estado islámico mundial”. ÉTIENNE, Bruno. El islamismo radical. Madrid: Siglo veintiuno de España Editores, 1996, p. 173. Disponível (parcialmente) na Internet via WWW. URL: <http://books.google.com.br/books?hl=pt-BR&lr=&id=eUUSkG7gU08C&oi=fnd&pg=PA1&dq=islamismo&ots=Y2FAUdRVNh&sig=kbdicUK2ShM0jLZJ5uy21-HvDDc#v=onepage&q=&f=false>. Acesso em 06 de fevereiro de 2010.
      13. ARMSTRONG, Karen. Em nome de Deus – o fundamentalismo no Judaísmo, no Cristianismo e no Islamismo. Trad. de Hildegard Feist. São Paulo: Cia. das Letras, 2008, p. 406. Disponível (parcialmente) na Internet via WWW. URL: <http://books.google.com.br/books?hl=pt-BR&lr=&id=DwDosH8b0xwC&oi=fnd&pg=PA9&dq=islamismo&ots=N001fJdr_w&sig=ek8rJf4FsHtT8i-b5azkfSuiZZQ#v=onepage&q=islamismo&f=false>. Acesso em 06 de fevereiro de 2010.
      14. ABRAHÃO, T. H. Litterae Bellerophontis. São José do Rio Preto, 2008, p. 169.
      15. BAYLE, Pierre. Philosophical commentary on these words of Jesus Christ, Compel Them to Come in. Trad. de A. Godman Tannenbaum. Nova York: Peter Lang, 1987, p. 147. Apud FORST, Rainer. “Os limites da tolerância”. In: Novos Estudos – CEBRAP. Número 84, pp. 15–29. Julho de 2009. Trad. de Mauro Victoria Soares. Disponível na Internet via WWW. URL: <http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0101-33002009000200002&script=sci_arttext&tlng=in>. Acesso em 06 de fevereiro de 2010.
      16. Religious conflicts – A collection of news and information related to Religious Conflicts published by Tribune Company sources. Disponível na Internet via WWW. URL: <http://www.chicagotribune.com/topic/unrest-conflicts-war/civil-unrest/religious-conflicts/16003004.topic>.



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      Todos nós que cursamos o ensino médio (ou segundo grau, no caso dos mais velhos, como eu) provavelmente vamos nos lembrar de já ter ouvido falar em genes ou alelos recessivos e dominantes nas aulas de biologia. Definindo grosseiramente a noção de recessividade e dominância, o gene dominante, quando presente, sempre se manifestará, mesmo que haja maior número de genes recessivos. Mas passemos da biologia para a história.

      Eric J. Hobsbawn, historiador britânico, escreveu um interessante livro intitulado A era das revoluções. A obra trata do período entre os anos de 1789 e 1848, sob uma perspectiva “primordialmente europeia” e “mais precisamente franco-britânica”, nas palavras do próprio autor (p. 13). Hobsbawn aborda o período referido enfatizando o que ele chama de “dupla revolução”, ou seja, a Revolução francesa de 1789 e seus desdobramentos até 1848, e a revolução industrial, cujo epicentro é a Inglaterra. O impacto desta dupla revolução nas mentalidades é inquestionável. O progresso tecnológico e científico é acelerado pela própria dinâmica da revolução industrial, e as novas ideias e valores políticos que ajudaram a deflagar a Revolução na França espalham-se pela Europa e, posteriormente, pelo mundo todo.

      Mas não é minha intenção fazer aqui uma resenha desta obra. Quero apenas expor algumas reflexões sobre um trecho do livro. No capítulo 12 d’A era das revoluções, cujo título é A ideologia religiosa”, o autor menciona que as classes sociais mais baixas e a maioria das pessoas pertencentes à burguesia ainda eram religiosas naquele período. Entretanto, havia no seio da burguesia uma minoria crescente de livres pensadores, que se opunham à religião, e esta minoria irreligiosa era, como descreve o eminente historiador, “imensuravelmente mais dinâmica e efetiva”. Chamou-me a atenção a forma como Hobsbawn expôs este fato, e acho que vale a pena transcrever parte do texto:

      “Embora, em termos puramente quantitativos a religião continuasse muito forte e, como veremos, ficaria ainda mais forte, ela não era mais dominante (para usarmos uma analogia biológica) mas recessiva, e assim permaneceria até os dias atuais dentro do mundo transformado pela revolução dupla” (p. 306).

      Vale ressaltar que Hobsbawn publicou o livro no início da década de 1960 e, portanto, devemos levar em conta que o que ele chama de “dias atuais” já se passou faz quase meio século.

      A “analogia biológica” de Hobsbawn é interessante, mas, comparando a época por ele retratada e a nossa própria época, me vem à cabeça a questão: será que o livre pensamento ainda é dominante em nossos dias? Será que a religião, que nunca deixou de ser quantitativamente superior, ainda é recessiva em nossos dias, ou será que ela se tornou dominante?

      Entre o final do século XVIII e meados do século XIX, as instituições religiosas no Ocidente, e em especial a Igreja de Roma, ainda possuíam considerável influência, mas nada que pudesse ser comparado ao poder que possuíam antes do século XVIII. É, porém, difícil comparar nossa época com o período estudado na obra citada de Hobsbawn, ou mesmo com épocas anteriores. Em primeiro lugar, a influência de qualquer instituição na cultura é hoje exercida por meios que não existiam na primeira metade do século XIX. Não havia naquela época, por exemplo, igrejas-empresa donas de emissoras de televisão e rádio. A popularidade de religiosos carismáticos da época não tinha o alcance e a dimensão da popularidade dos padres cantores galãs ou dos “televangelistas”. E o alcance destas pessoas hoje não se limita às classes sociais mais baixas, mas exerce influência sobre boa parte da classe média e alta. Politicamente, o discurso religioso chega a influenciar fortemente até o destino de países poderosos, como pudemos ver recentemente com os recentes oito anos de governo Bush na América do Norte, ou a ascensão do poder político de fundamentalistas islâmicos em diversos países do mundo. O discurso religioso está hoje visivelmente mais presente e influente na vida política de boa parte do mundo do que no período da “dupla revolução”, e seu alcance parece aumentar também na esfera privada, por causa dos meios de comunicação hoje disponíveis.

      Obviamente, Hobsbawn tem o privilégio de escrever sobre um período cujo distanciamento no tempo permite uma análise histórica mais objetiva. É sempre difícil para qualquer historiador falar sobre seu próprio tempo, e talvez, daqui a um século, nossa visão sobre a influência da religião nas primeiras décadas do século XXI seja diferente. Talvez historiadores do futuro constatem que, apesar de tudo, o pensamento secular se manteve dominante, e o religioso se manteve recessivo. Vivemos em uma época que talvez seja considerada tão revolucionária, do ponto de vista tecnológico, quanto o período da revolução industrial. Talvez até mais. Mesmo assim, é inquietante pensar que nós hoje nos preocupamos muito mais com a influencia do extremismo religioso nas nossas vidas do que os livre pensadores que viveram duzentos anos antes de nós.

      Referências

      1. HOBSBAWN, Eric J. A Era das Revoluções. 21ª Ed. São Paulo: Paz e Terra, 2007.