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A premissa não é tão inovadora: imaginemos um espelho. Olhamos diretamente para ele e vemos o nosso reflexo. Mexemos músculos de nossa face e a superfície repete exatamente os mesmos movimentos. Viramos de costas e voltamos rapidamente para ver se a imagem consegue suplantar nosso ceticismo e lá está novamente a figura idêntica a nós realizando tudo o que decidimos fazer em tempo real.

No entanto, ao terminarmos de nos arrumar, saímos do quarto e ficamos imaginando se o espelho ainda continua a refletir os objetos em seu ângulo de influência, mesmo quando não estamos lá. Voltamos ao quarto e checamos por nós mesmos, mas só sabemos quando olhamos diretamente e acabamos por ver nossa imagem também. Mas é aí que temos uma ideia:

Instalamos uma câmera de vigilância para testar a hipótese de que o espelho continua a funcionar quando não estamos lá, mas percebemos que a câmera funciona exatamente como nossos olhos: ela só consegue captar a imagem refletida quando ela mesma está apontada para o objeto e, assim, acaba por aparecer e frustrar nosso pequeno experimento.

Concluímos, então, que só podemos ter certeza de que o espelho reflete quando estamos observando o espelho refletir. Por mais estranho que pareça, é até onde podemos realmente comprovar. Se pedirmos para outra pessoa olhar, devemos confiar no testemunho dela, pois, se olharmos juntos para conferir, estaríamos outra vez burlando as regras de nossa imparcialidade.

O exemplo não para aí e pode ser estendido para árvores que caem na floresta e a dúvida sobre fazerem barulho ou não; como também para o nosso passado – como podemos provar que não implantaram memórias falsas? E, se podemos nos enganar com o nosso passado, por que não podemos estar enganados a respeito de todas as nossas sensações e de nossos pensamentos?

Esse tipo de raciocínio leva a algo chamado solipsismo. Trata-se da linha que culmina na constatação de que a única coisa que podemos comprovar por certo é que há um ser pensante, porque, certo ou errado em seus pensamentos, do simples fato de pensar segue-se que há um ser. Descartes [1] é talvez o mais famoso filósofo dessa conceituação, mas ela tem origens desde as religiões orientais e a filosofia grega, e a forma já fora explorada desde poetas, como Edgar Allan Poe [2] e Pedro Calderón de la Barca [3], até a ficção científica moderna, com sonhos indistinguíveis da vida real [4] ou com máquinas manipulando nossas mentes [5].

Mas qual o real apelo do solipsismo? Por que não parece haver contestação para ele? O solipsismo ataca diretamente uma de nossas falhas de percepção: a de que nosso cérebro interpreta apenas os dados obtidos através dos sentidos e que não é capaz de superar essa deficiência. Mesmo quando não medimos esforços empáticos para tentar pensar como outra pessoa, dificilmente conseguimos boa noção do que se trata até termos nós mesmos passado pela experiência.

É assim que se dá com o choque entre culturas: temos problemas para entender por que alguns comem carne de cachorro ou mesmo por que alguns rejeitam consumir carne de vaca. Mas a dificuldade também pode vir por fatores etários – o choque entre gerações – ou de gênero – o choque entre os sexos. É um rol meramente exemplificativo, mas dá conta do sentimento de incompreensão advindo da incapacidade natural para se imaginar no lugar do outro.

O solipsismo aponta para essa falha e, pelo fato de não sermos perfeitos, põe em xeque toda a nossa capacidade de conhecer. No entanto, tal apelo só teria efeito completo se nossa constituição fosse puramente racional, como a matemática. Dentro de suas regras, podemos pedir por respostas certas. Diante de nossos problemas diários, as operações matemáticas passam por ótimo porto seguro. Não é à toa que, em linguagem técnica, as ciências matemáticas sejam as únicas que ainda falam em prova.

Em outros ramos, falamos apenas em evidências, que são elementos que usamos para confirmar nossas hipóteses. De certa forma, nunca alcançaremos evidências suficientes para provarmos em definitivo que nossas hipóteses são verdadeiras – e, mesmo que conseguíssemos, poderíamos usar do solipsismo para duvidar da validade delas. Com isso, quanto mais certeza queremos ter sobre determinado assunto, mais evidências devemos coletar e conferir se elas confirmam ou refutam nossa impressão.

O solipsismo – ou a dúvida absoluta – dá espaço, então, para a dúvida guiada. Devemos duvidar de qualquer proposição que não venha acompanhada de evidências proporcionais à alegação e estarmos sempre dispostos a abandonar aquelas para as quais as evidências apontam em direção contrária [6]. Eis a força e a fraqueza de tudo: podemos coletar um número grande de evidências confirmativas, mas apenas uma negativa é o bastante para que sua validade seja questionada.

É o máximo que conseguimos obter de nossos sistemas cognitivos limitados, mas tem se mostrado satisfatoriamente eficaz. O gosto pelo absoluto e o repúdio pelo incompleto parece ser uma lembrança de nossos cérebros primitivos que acabam por vacilar quando não há segurança que nos guie a determinado comportamento. O solipsismo é útil para que abandonemos certas crenças, mas fazer dele uma crença maior é votar pela inércia de dispensar avanços em prol de um conhecimento absoluto que muito provavelmente nunca teremos.

Notas:

[1] DESCARTES, René. Meditationes de prima philosophia, in qua Dei existentia et animæ immortalitas demonstratur. Original latim com traduções para o inglês e o francês disponível em: <http://www.wright.edu/cola/descartes/>. Acesso em 18 abr. 2011.

[2] POE, Edgar Allan. A dream within a dream. Poema disponível em <http://www.poemhunter.com/poem/a-dream-within-a-dream/>. Acesso em 18 abr. 2011. [em inglês]

[3] BARCA, Pedro Calderón de la. La vida es sueño. Peça completa disponível em <http://es.wikisource.org/wiki/La_vida_es_sue%C3%B1o>. Acesso em 18 abr. 2011. [em espanhol]

[4] Inception, dirigido por Christopher Nolan. Warner, 2010. IMDb: http://www.imdb.com/title/tt1375666/

[5] The Matrix, dirigido por Lana Wachowsky e Andy Wachowsky. Warner, 1999. IMDb: http://www.imdb.com/title/tt0133093/

[6] RUSSELL, Bertrand. O valor do ceticismo. In: RUSSELL, Bertrand. Ensaios céticos. Trad. por Maria Motta. Porto Alegre: L&PM Editores, 2008. Original inglês disponível em <http://www.positiveatheism.org/hist/russell4.htm>. Acesso em 21 abr. 2011.

Na acepção que nos interessa neste texto, o vocábulo grego lógos (λόγος) significa a faculdade do homem de raciocinar [1]. E é exatamente nessa acepção que encontraremos o termo latino ratio [2]. A ambiguidade aparente do termo “razão”, em português, vem de outra forma de interpretar a ratio: além da inteligência ou do intelecto, pode significar também o próprio princípio de inteligibilidade, o que nos diferencia, em tese, dos outros animais.

O mundo exterior não é racional no primeiro sentido, porque, até onde sabemos, não podemos projetar intencionalidade no universo. Não há uma mens que raciocina por si. De acordo com todo o conhecimento coletado até agora, somos as únicas formas de vida conhecidas na vastidão que enxergamos lá fora. E, aqui dentro, o pensamento é um fenômeno que não existe sem o substrato cerebral, presente apenas em alguns tipos de animais com sistema nervoso central e mais reservado àqueles com capacidade superior de abstração. Se, ainda assim, nos separamos dos outros, é por nossa capacidade de expor tais pensamentos através da linguagem.

No entanto, dadas as regularidades das constantes da natureza e a nossa capacidade de abstrair padrões – às vezes até mesmo onde não existem –, é possível racionalizar a existência em todos os seus traços. Foi com esta ideia de razão que criamos a filosofia, que se expandiu para as mais diversas áreas, e mais recentemente a ciência, em sua acepção atual, que abarca praticamente todos os fenômenos conhecidos. As alegações recentes de impossibilidade de racionalização saíram do mundo externo, pois a abrangência científica já demarcou os pontos mais diversos que podemos imaginar. Ficamos, então, restritos a certos comportamentos humanos ou a certas manifestações que julgamos serem únicas de nossa espécie.

Notadamente, as áreas que mais tentam livrar-se do cunho da racionalidade são as religiosas ou as artísticas. Note-se que o pretenso destaque do escopo da ciência só se realiza se tomarmos por base aquele grupo de ciências naturais que costumamos simplesmente designar “ciências”, como a física, a química e a biologia. Por mais que elas também estudem constituições do ser-humano, entende-se que a sua abordagem é meramente mecânica, como quando estudamos as funções e o funcionamento de nossos sistemas, desde o digestivo e o respiratório, até o nervoso e o reprodutivo.

Em termos filosóficos, sempre tivemos autores que tentaram racionalizar a arte e a religião. Aristóteles escreveu vários tomos sobre o primeiro termo e a própria palavra grega para “arte” significa simplesmente “técnica” (τέχνη). Os títulos latinos para suas obras são ainda mais interessantes, como Ars rhetorica (τέχνη ρητορική) ou Ars poetica (περὶ ποιητικῆς), e nos revelam um sentido para o vocábulo “arte” que usamos hoje em dia, de forma mais displicente: quando um indivíduo demonstra notável destreza em seu campo de atuação, dizemos que é um artista, dizendo, na verdade, que simplesmente possui técnica apurada e criatividade avantajada, como no caso de jogadores de futebol ou praticantes de xadrez, mas também de bons funcionários ou administradores.

Sobre a religião, vários autores se aventuraram a discorrer sobre seus fundamentos, bem como tentaram usar a racionalidade filosófica para justificar a (in)existência de deus(es). Desde os aforismos de Epicuro, até os teólogos medievais Agostinho e Tomás de Aquino, culminando nos extensos escritos de Hume sobre a religião. E, ainda depois disso, com Voltaire, Leibniz e Espinosa. Filosoficamente falando, religião e arte, conclui-se, não estão fora do escopo da razão, pois são objetos tratados por vários ramos, desde a teologia até a estética, não importando a provável naturalidade de tais traços.

A ciência também lida com os dois construtos humanos. E muitas vezes aplica o método científico strictu sensu para tal. Partindo de manifestações sociais, os sociólogos clássicos da escola francesa já estudavam os costumes religiosos, enquanto se expandiam para além das fronteiras europeias – surgiu assim a figura do bon sauvage, tão famosa na literatura da época [3]. Para mais perto de nosso tempo, tivemos a expansão para as civilizações dos arquipélagos do Oceano Pacífico, com mais estudos sobre os nativos e o acompanhamento de uma religião que nascia dali: o caixismo ou o culto à carga [4]. Em nosso país, até hoje antropólogos visitam tribos isoladas e que, não raro, nunca tiveram contato com o “homem branco”. De seus estudos, saem vários tratados interessantes, como a série de relatos sobre a tribo dos Pirahãs [5].

E vamos ainda mais longe, quando tratamos dos traços universais que temos codificados em nosso DNA. A psicologia evolutiva trabalha de forma complementar às disciplinas sócio-filosóficas, como no caso da estética evolutiva [6][7]. O objetivo de tal disciplina é tentar enxergar as vantagens evolutivas dos mecanismos que nos permitem explorar a arte e a religião como formas culturais. Os estudos mais aceitos em comunidades especializadas dão conta da arte como produto acidental, pois é um uso diferente e novo para características isoladas que desempenhavam funções nobres para a nossa sobrevivência, como o reconhecimento de padrões na natureza, e para a seleção sexual, como os conceitos de beleza e agradabilidade [8].

Mesmo que se alegue que isso tudo não é realmente fazer arte ou participar de uma religião, a racionalidade não fica de fora da práxis. Nas artes, é inegável que entendemos melhor a música e a harmonia musical de um ponto de vista físico – com relação aos comprimentos de ondas das notas musicais – e matemático – com a noção de proporção entre as notas que, desde os gregos, nos dão escalas belas e agradáveis. A escala pentatônica, por exemplo, em suas várias modalidades surge com os estudos de Pitágoras sobre as divisões melódicas [9].

Saindo da música, a ideia de harmonia também contaminou a poesia, e basta citar a estrutura poética mais conhecida – o soneto. É a junção de dois quartetos e dois tercetos, com sílabas poéticas bem definidas e uma estrutura de rima variável, a depender do autor. Sua fórmula nada mais é do que a racionalização de um compasso musical que soa bem aos nossos ouvidos, ou seja, a teorização de algo que temos em nossa programação inata. Em ainda outras palavras: a justificação racional para a beleza percebida por nossos sentidos [10].

O mesmo pode-se dizer para a arquitetura, para a escultura e para a pintura. Esta última, aliás, desenvolveu-se de forma surpreendente quando os artistas ocidentais – notadamente a partir do Renascimento – passaram a aplicar avançados cálculos matemáticos para as proporções humanas. O famoso estudo do homem vitruviano de Leonardo da Vinci é pura e simplesmente a aplicação da proporção que o arquiteto e engenheiro romano Marco Vitrúvio Polião prescrevera para o corpo humano, já no séc. I a.C., e seguia os princípios arquiteturais de utilidade (utilitas), beleza (venustas) e solidez (firmitas) [11].

Quod erat demonstrandum, não só temos ótimas bases empíricas para decidirmos sobre as opções disponíveis, como também dispomos de grande arsenal racionalista para que nenhuma de nossas escolhas fique à mercê de arbitrariedades. Conforme avançamos e nos aprofundamos nas questões que sempre nos levaram ao autoconhecimento, resta pouco ou nenhum espaço para obscuridades. No fundo, não deixa de ser irracional – não no sentido de não usar a razão, mas de ser contra o que ela demostrou ser mais verdadeiro – que se alegue lacuna onde já não existe mais.

No mais, parece permanecer, a favor da crença em deus(es), o adágio latino geralmente atribuído a Tertuliano [12], que dá conta da crença no sentido mais peculiar para “fé”: o depósito de confiança em algo que se demonstra injustificável por quaisquer outros meios; a crença em algo para o qual não se tem a menor das evidências. Ficamos, enfim, com o poético mas tragicômico credo quia absurdum.

 

Notas:

[1] GOBRY, Ivan. Vocabulário grego da filosofia. Tradução de Ivone C. Benedetti. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

[2] FONTANIER, Jean-Michel. Vocabulário latino da filosofia. Tradução de Álvaro Cabral. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

[3] Página da Wikipédia sobre a idealização: <http://fr.wikipedia.org/wiki/Bon_sauvage>. Acesso em 03 abr. 2011. [em francês]

[4] Sobre o assunto, há um bom texto neste mesmo espaço: TEIXEIRA, Bruno. O início das religiões: o culto à carga. Disponível em: <http://deusnagaragem.ateus.net/2010/05/21/culto-a-carga/>. Acesso em 03 abr. 2011.

[5] Página da Wikipédia sobre o povo Pirahã: <http://en.wikipedia.org/wiki/Pirah%C3%A3_people>. Acesso em 03 abr. 2011. [em inglês]

[6] DE SMEDT, Johan. Toward an Integrative Approach of Cognitive Neuroscientific and Evolutionary Psychological Studies of Art. Disponível em <http://www.epjournal.net/filestore/EP08695719.pdf>. Acesso em 03 abr. 2011. [em inglês]

[7] DUTTON, Denis. Aesthetics and Evolutionary Psychology. Disponível em <http://www.denisdutton.com/aesthetics_&_evolutionary_psychology.htm>. Acesso em 03 abr. 2011. [em inglês]

[8] Sobre a religião como produto acidental, há outro texto neste mesmo espaço: MOURA, Jairo. Das origens da religião II: produto acidental. Disponível em <http://deusnagaragem.ateus.net/2010/12/15/1808/>. Acesso em 03 abr. 2011.

[9] Bobby McFerrin demonstrando que todos temos a escala pentatônica em nossa programação cerebral: <http://www.youtube.com/watch?v=ne6tB2KiZuk>. Acesso em 03 abr. 2011. [em inglês]

[10] Em português, Augusto dos Anjos tem, sem dúvidas, alguns dos mais belos sonetos. Para referência, “Versos Íntimos” é um ótimo exemplo. Há uma versão disponível em <http://www.releituras.com/aanjos_versos.asp>. Acesso em 03 abr. 2011.

[11] Página da Wikipédia sobre Marco Vitrúvio Polião: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Vitr%C3%BAvio>. Acesso em 03 abr. 2011.

[12] Página da Wikipédia sobre a discussão referente ao adágio: <http://en.wikipedia.org/wiki/Credo_quia_absurdum>. Acesso em 03 abr. 2011. [em inglês]

Dentre os sistemas de crenças, o politeísmo tem um traço mais universal, mais humanizado, por assim dizer. Não há motivo aparente para que imaginemos primeiramente um só agente por trás de fenômenos tão diferentes, como a mudança das estações ou o controle patológico – ambos tão fundamentais em sociedades primitivas à mercê dos movimentos e das intempéries naturais.

Devemos levar em conta que não há saltos maiores do que a nossa imaginação pode nos dar. Mesmo as figuras mais estonteantes, como a Quimera ou o Pégaso, não passam da montagem de características de coisas ou de animais diferentes fusionadas em um só ser. Em nosso tempo, encontramos esse mesmo processo no mito do Chupa-cabras, por exemplo, ou na incrível semelhança entre os retratos falados de extraterrestres e o desenvolvimento fetal do ser-humano.

Quando examinamos as antigas mitologias que chegaram até nós, conseguimos relativamente bem destituir os mitos de todas as alegações extraordinárias para encontrarmos traços humanos relacionáveis. Mesmo sendo impossível que alguém seja tão miraculoso quanto Jesus – para citar um dos mais famosos em nossa sociedade –, podemos fazer o exercício mental de imaginarmos um agitador social endeusado pela tradição oral.

O monoteísmo, portanto, parece advir de um pensamento abstrato mais pormenorizado, que tira dos mitos a maior parte das características relacionáveis. Invariavelmente a figura central continua com traços antropomórficos – como o cuidado paternal ou a liderança tribal –, mas se torna impossível realizar o mesmo exercício mental que faríamos com os deuses gregos, como Zeus ou Apolo.

Isso não quer dizer, contudo, que o deus bíblico seja monoteísta desde suas origens. Há boas razões para acreditar que os relatos orais do antigo testamento deem conta de uma monolatria, isto é, o reconhecimento de outros deuses com o monopólio de adoração, como o segundo mandamento nos faz interpretar: “Não terás outros deuses diante de mim” (Êxodo, 20:3). Assim, muito mais do que refinamento teológico, o deus abraâmico surge como brilhante estratégia política para manter a coesão interna de um grupo nômade e para minar a influência externa sobre sua tribo.

É muito depois, com os teólogos medievais, que a ideia atual do monoteísmo cristão começa a se desenvolver, mas não sem seus ajustes. Grande parte da tradição católica foi incorporada dos mitos pagãos da Europa, gerando um panteão extraoficial no que deveria ser centrado em um só deus. Há toda uma variedade de santos, beatos e outras classes hierárquicas que podem interceder pelos fieis e a quem se atribuem milagres.

“Não são deuses”, afirmariam os apologéticos. No entanto, é óbvio que não faz diferença alguma como o grupo deseja nomeá-los. Fato é que têm todas as características dos mesmos deuses e semideuses que habitaram os panteões politeístas. Também não procederão as alegações das ramificações evangélicas ou protestantes de que isso é uma falha católica, pois a própria noção da trindade demonstra arquétipos politeístas.

Também não procederão porque pululam os exemplos – ambos no antigo e no novo testamento – de homens comuns com poderes miraculosos, desde Moisés e os antigos profetas, até os apóstolos evangelizadores e Paulo. São vistos como emissários divinos com a missão de espalhar as boas novas ou simplesmente reafirmar a fé no deus ausente em corpo, mas o eufemismo não consegue disfarçar os traços politeístas da tradição oral.

Chegamos, então, à visão abstrata do deus único, mas ele não é mais a expressão das crenças primitivas em agentes; é, ao contrário, o trabalho de teólogos e de filósofos que dedicaram seu tempo a fim de conciliá-lo com as descobertas subsequentes, tentando fiá-lo à lógica e à metafísica. Não é por acaso que essa versão racionalista não tem apelo massivo, pois de que adiantaria rezar pela intercessão de uma figura que não nos atenderá ou que, dependendo da base teórica, sequer é senciente?

Na história da teologia, portanto, passamos de deuses interventores a deuses que apenas impulsionaram o início de tudo. Obviamente, o fato de postularmos apenas um deus como o agente por trás do começo de tudo deve-se muito mais à herança cristã do que a conclusões filosófico-teológicas. Assim, resolvemos – em parte – a questão da reza, mas não a da reverência; e muito menos resolvemos a questão do politeísmo popular: se antes era cultuado em altares próprios a deus(es), hoje reside na cabeça de cada crente em sua abstração conceitual.

Privados de uma definição concreta e sem aderir ao escrutínio teológico, cada fiel cria o seu próprio deus, selecionando características convenientes sem abrir mão da palavra plurissignificativa, pois ela mantém o grupo coeso sob a crença em deus(es), não importando o quão diferentes sejam. Evidentemente, continuam fora – e vistos com os piores olhos possíveis – aqueles que simplesmente não criam ou não creem em figuras transcendentais.

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Para saber mais, sugiro a análise de James Fieser sobre os textos de Hume – além dos próprios textos, é claro – que tratam do assunto. O artigo está disponível em inglês no endereço http://www.iep.utm.edu/humereli/#H2. Último acesso em 15 fev. 2011.

Tenho uma caixa de ferramentas. Dentro dela: alicates, chaves-de-fenda, porcas, parafusos e um canivete. Sim, tenho mesmo poucas ferramentas, apesar de possuir diversos tipos da mesma ferramenta.

Na condição de ser-humano, posso dizer que criei essas ferramentas. Elas ampliam meu poder de corte, furo, pressão e precisão. É para isso que existem as ferramentas: para ampliar nossas capacidades.

Todas as minhas ferramentas exigem manuseio. Sem mim, elas não são nada; sem elas, eu sou incapaz de muitas coisas. Mas elas não possuem direito de escolha. Outro dia utilizei meu alicate como martelo, e ele não reclamou.

Posso não ter domínio total sobre o uso dos meus instrumentos de trabalho (na verdade, o uso é esporádico). Porém, eles nunca fugiram de controle. Ficam lá, inertes, até que eu decida usá-los.

Assim, sei de tudo o que se passa com as ferramentas: onde estão, com quem estão (às vezes empresto), de onde vêm e para onde vão. Onipresença, onisciência… onipotência? Não. Talvez, sem elas, eu seja apenas mais uma espécie de macaco.

Ouvi falar que somos ferramentas de Deus. Concordo. Acho que, no final das contas, Deus é homem, o homem é macaco, e o macaco é Deus.

Observe com atenção a figura abaixo:

Imagem

Estão representados nessa gravura alguns gestos manuais do nosso cotidiano. Você provavelmente conseguiu identificar o significado de muitos deles, talvez de todos.

Esses são sinais conhecidos em todo o mundo. Aonde quer que você vá, é possível entender e se fazer entender utilizando qualquer um desses exemplos, apesar de alguns sofrem variações em seu significado.

Apontar para algo ou alguém não gera dúvidas quanto ao que se quer dizer; porém, pode ser que, numa excursão por uma tribo apache, você peça, com um gesto, para o índio parar, mas este, entendendo como apenas um cumprimento, responda: “Haw!” e continue seu caminho; ou que, num passeio pela Austrália, entre num bar e, percebendo algum clima não muito amistoso, cumprimente alguém utilizando-se do gesto que representa “paz e amor”. Fazendo-o, num descuido, com as costas da mão voltadas para o sujeito em questão, que não aceitará o insulto envolvendo sua progenitora. Pode-se perceber então que, apesar de determinados gestos serem universais, estão sujeitos a diferentes significados, gerando desentendimentos ignoráveis ou não.

Gestos também têm o poder de motivar ou enfurecer. Quando você faz um trabalho cuja qualidade se considera particularmente boa, a aprovação, mesmo que dita apenas com as mãos, traz certa satisfação pessoal, reforçando a continuidade de tal padrão de trabalho. No trânsito, um gesto obsceno pode ser o gatilho para uma briga séria. Ninguém precisa te explicar o significado, pois você já sabe, assim como ninguém te pergunta por que você sabe, pois parece claro que isso foi aprendido pelo contato com o meio, que tradicionalmente já utilizava esses gestos.

Algo intrigante em relação aos gestos representados na gravura é que, pelo menos em sua maioria, não se sabe dizer quando e onde eles foram criados, se são manifestações intrínsecas do ser-humano ou mero aprendizado e, se assim o são, por que são utilizados, mesmo que de diferentes formas, em povos isolados?

Com certeza não fazem parte de um plano maior, nem nada de sobrenatural. Na verdade não aparenta ser algo que necessite atenção. Não mudaria em nada o modo como os gestos são utilizados, ou o poder que exercem sobre o movimento e a psique humana. Seria uma grande perda de tempo, cujos anos de pesquisa estariam propícios a resultarem em contradições, devido à variedade de abordagens, muitas delas divergentes entre si, porém com os mesmos princípios lógicos e/ou filosóficos.

E se os gestos se chamassem Deus?

Engana-se quem pensa que a ilusão restringe-se ao amor e à religião. Somos tão hipócritas que, ao dizer “somos livres por romper os laços da fé!”, acabamos por nos esquecer de que a fé é regida por dogmas, hierarquias e, consequentemente, submissão. Não estamos livres disso em nosso dia-a-dia, nem em nossas mentes.

Todo o conceito que temos de certo e errado, educado e grosseiro, engraçado e triste, agradável e repugnante, tudo isso não passa de imposições estúpidas do cotidiano.

Um cristão se baseia em sua fé (entre outras coisas) para definir o certo e o errado. Neste caso a fé gera convicção. Não é errado dizer que um ateu tenha convicção, apesar de ser uma baita provocação dizer que tenha fé. Às vezes somos tão convictos de nossas posturas filosóficas que nos sentimos no direito de julgar o que é fútil e vulgar e o que é proveitoso e belo.

A velha frase “gosto não se discute” só é aplicada ao que não nos incomoda, ao que não perturba nossa linha de raciocínio e intelectualidade.

É triste quando percebemos que aquilo que julgávamos medíocre pode ser, para o outro, a mais bela arte; quando acordamos para o fato de que apesar de declararmos não sermos os donos da verdade, ainda assim tentamos impor uma verdade, de forma sutil ou não, consciente ou inconsciente.
A supervalorização de si, do outro ou de algo só nos faz perder tempo e oportunidades. Nossos olhos, rigorosamente treinados para a detecção do que é falso, servem apenas para o que está além da ponta do nosso nariz.

Ainda que apenas mais uma pirita entre tantas outras, chego a uma (particular) importante conclusão: mas que ridículo eu sou ao tentar descrever quão ridículos somos…

A todo cadáver cabe enfrentar a decomposição do corpo. Em tempo, a luta continua para os que, ainda vivos, enfrentam a degeneração mental – no plano das idéias, claro. Não que isso seja ruim. Para tudo o que se destrói, nova coisa se constrói.

O herói ainda vivo vê seus planos ruírem junto à inesperada partida do antigo companheiro. As memórias tranformam-se em instrumentos de tortura. A agonia e o desespero, ainda que ocultos, às vezes utilizando a máscara da indiferença, compõem a fórmula de sentimentos tão tediosos e monótonos quanto as palavras lidas até aqui.

Para a superação sentimental e intelectual há duas soluções possíveis: uma é encarar a situação, vivendo-a com todo o lodo que ela traz à tona; a outra é retirar a região do cérebro via cirurgia, tornando-se o vegetal que muitos são (mesmo sem necessitar de abrir mão).

É este o ponto chave da fé. O não aceitamento da situação, substituindo o real pela necessidade da impossível.

Por mais difícil que seja aceitar, nada é mais saudável para a vida do que a morte, esta inimaginável situação que mexe tanto com a cabeça das pessoas, que transforma a dor da despedida em ponto de partida para o sensacionalismo e a exploração da situação da própria mente por gênios da extorsão, de plantão em cada esquina.

A fé é uma brincadeira de mau gosto. Somente quando explicitada podemos compreender o vilão que é:

httpv://www.youtube.com/watch?v=eahHZOfQfEA