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A vida exibe seu desprezo em relação à existência – conceito gerado pelo grau relativamente elevado da consciência humana.

Nada parece mais prático e razoável do que a possibilidade de alcançar a almejada glória, tão longe da vista até mesmo das aparentes intocáveis criaturas humanas, sedentas de aventuras, riquezas e histórias para contar. Acontece, então, de muitos sentirem estar tão distantes da satisfação pessoal que buscam na morte seus sonhos, depositando nela suas expectativas de plenitude, isso a ponto de viver a morte. Fazem da morte sua história de vida. Realmente não há nada mais curioso do que a possibilidade da inexistência. Difícil imaginar a inconsciência mas, pensando melhor, ainda mais difícil é encarar uma existência eterna.

Uma das vantagens da morte é que nela surge a possibilidade de ser o que se pensa, ou fingir ser o que nunca se foi. É na iminência da morte que surge o herói.

O bem e o mal se fundem; a pessoa deixa de ser um subproduto do meio e volta ao estado de organismo, numa tentativa cruel e observável de luta pela sobrevivência. Nessa luta não há coragem ou covardia; é a busca pela permanência existencial de um corpo que insiste em continuar ativo, independente do motivo de sua deterioração.

Retirada a força para o último suspiro, despede-se da vida para a eterna escuridão; mais uma máquina de sobrevivência e, com ela, suas confidencialidades, histórias particulares, crenças e subjetividades.

Surge, então, o resultado da luta diária de todo herói, ilustrado a seguir, em toda sua beleza biológica e possível tenebrosidade psicológica:

httpv://www.youtube.com/watch?v=w7fe0FqLDVI

Ultimamente os pastores têm deixado de ser o foco da mídia – melhor para eles, assim podem continuar suas falcatruas sem serem incomodados – porém, há um revezamento característico entre as variadas facções cristãs. Saem de cena os pastores, com suas contas bancárias recheadas, e entram os padres, com suas crianças “recheadas” (se é que me entende).

Obviamente, não podemos generalizar. Nem todo padre é pedófilo, assim como nem todo pastor é ladrão, ou muçulmanos são homens-bomba. O fato é que há sempre um agravante para cada consequência dessas. Agora que estou devidamente justificado, deixemos os coadjuvantes de lado e foquemos em nossas estrelas.

Sabemos que o “voto de castidade” é uma tradição antiga e difícil de ser alterada, ainda mais por estar relacionada à igreja católica e, consequentemente, a um papa nazista. Isso não impede que rotas alternativas possam ser criadas. Os padres devem poder “descarregar” seu instinto animal (sexo!). Já que não podem ter mulheres, proibiram-lhes as crianças e relação homossexual é pecado mortal, supondo que tenham a necessidade do não-uso das mãos e uma boneca inflável não é algo que um padre possa ter em sua casa, pensei em algumas soluções alternativas e concluí que uma alternativa em específico solucionaria todos os problemas dessa classe tão sofrida, para aqueles que não suportam mais o voto de castidade. São apenas quatro passos básicos:

1) O papa já é um homem bastante velho, e pode não compreender, mas para evitar quebrar as regras, libere a masturbação! É aquela história: se não sair por bem, vai sair por mal mesmo; ou seja: sai de qualquer jeito.

2) Feito o voto, cada padre ganha uma muda de bananeira. Esta muda o acompanhará aonde ele for e será plantada em seu local de trabalho assim que possível. Sempre que se muda o local de trabalho, ganha-se uma nova muda.

3) É necessário esperar a bananeira crescer, mas, como é apenas uma bananeira, não há problema em se “divertir” com ela enquanto pequena, da mesma forma criativa que fazem com as crianças.

4) Quando a bananeira já estiver formada, o padre deve fazer um furo cilíndrico, na altura de seu falo e com a devida largura e profundidade para tal. Para isso necessitará de uma régua, um compasso e uma faca, mas sugiro como alternativa um martelo e um cano PVC, para furar (retirar ou não o cano fica a critério de quem faz).

Pronto! Eis que surge a “mulher do padre”. Uma bananeira onde se pode “descarregar as energias” sem se preocupar com reclamações, processos, intervenções na carreira profissional, doenças etc. Além da seguinte vantagem: as bananeiras são versáteis. Pode-se usar na posição “ativo”, facilmente imaginável, ou na posição “passivo”, encaixando a banana formada por ela mesma no furo feito para o falo e utilizando-a de costas!
Acredito que sexo com bananeiras não caracteriza homossexualidade, pedofilia ou quebra do voto de castidade, devido a suas características vegetais.

O fato é que, independente da posição religiosa/filosófica de cada um, hemos de convir que é melhor alguns padres apinhados de bananas do que crianças inocentes nuas em suas camas.

Como de costume, a Sra. Kami não dormira aquela noite. Realmente sentia muita falta do marido, falecido há três anos, razão de se sua depressão.

Alguns andares abaixo, o Sr. Harbor tomava seu café, tranquilamente, pensando o quão verídica era a lei de Murphy. Resolveu testar. Dos cinco biscoitos, um caiu com o lado da geleia para cima, dois para baixo e outros dois bateram em seu pé antes de tocarem o chão, o que invalidou a experiência.

Kami tomava seu segundo diazepam matinal, empurrado por um copo de leite morno (ela preferia assim), mas ainda sem efeito.

Harbor lamentou ter desperdiçado os biscoitos. Não havia mais pacotes na despensa. Teria de sair para comprar mais; aproveitaria para fazer as compras.

Do 12º andar, para Kami, tudo parecia tão insignificante e pequeno quanto sua vida miserável. Tentou ler um livro.

“Pegar as chaves, os documentos e o dinheiro. Por que não deixo as chaves sempre no mesmo lugar?” – pensava Harbor. Focou-se em encontrar as chaves. Acendeu um Gudan, pra ajudar na memória – “Quanto mais relaxado, mais fácil de lembrar!”.

Kami tentava a quinta ligação do dia para sua psicóloga – “A maldita desligou o celular! Para que pago essa vaca?” – Ligou a TV, desligou a TV, foi pegar um ar fresco na varanda. Curtia sua visão de insignificância.

Já dentro do carro, na rua, o Sr. Harbor conferia os bolsos – “Droga! Esqueci o isqueiro…”. Estacionou o carro e resvalou no meio fio.

Kami contemplava a vista com olhar vago.

Aproximando-se do portão do prédio, o Sr. Harbor diminuiu os passos enquanto ria de seu pensamento – “É o vício que me mata! Hahaha!”

Agora, Kami vislumbrava a paisagem em alta velocidade…

Mulher belga salta para cometer suicídio e mata pedestre

Segundo a mídia local, a idosa de 67 anos sofria de depressão desde a morte do marido

Um trágico caso de suicídio ocorrido na última segunda-feira (22) ganhou repercussão nesta quarta-feira (24) em Bruxelas, na Bélgica.
Uma mulher que se jogou de seu apartamento no 12º andar de um prédio da capital acabou matando um pedestre que estava na rua abaixo, informou a polícia.
A mulher, de 67 anos, saltou da sacada e atingiu um homem de 72 anos que estava entrando no prédio. Ambos sofreram ferimentos graves e acabaram morrendo.
Segundo a mídia local, a suicida sofria de depressão há três anos, desde a morte de seu marido.

Fonte: http://noticias.r7.com/internacional/noticias/mulher-belga-salta-para-cometer-suicidio-e-mata-pedestre-20100324.html. Retirado em 25/03/2010.


Comentário do autor: Adoro o senso de humor dos deuses.

Notas:
– Apenas a reportagem é um fato verídico.
– Os nomes Kami (Kamikaze) e Harbor (Pearl Harbor) são uma referência ao ocorrido na base militar de Pearl Harbor, durante a Segunda Guerra Mundial.

Quantas vezes não ouvimos falar de pessoas que foram um dia ateias, mas que depois de terem uma revelação passaram a professar uma fé sem limites?

É curioso como uma simples composição como “ex-ateu” chama tanta atenção. A de crentes que se perguntam como um “pecador” saiu do vício do ateísmo – talvez interessados em tentar aplicar o mesmo método em comunidades ateias na internet. Chama também a atenção de ateus que se perguntam qual a circunstância infeliz que fez com que alguém que descobriu que Papai Noel não existe volte a crer no “bom velhinho”.

Quando alguém diz que é ex-ateu e propõe-se com isso em contrapor o ateísmo, fica evidente uma tentativa de se apoderar de uma espécie de autoridade de causa, ou seja, algo como: “eu posso criticar o ateísmo, porque já fui ateu”. É claro que pouco adianta dizer algo do tipo e não nos abençoar com alguma boa razão para crer em deus.

Citemos o exemplo de Antony Flew, um dos mais influentes ateus do passado, que lançou em 2007 o livro Existe um Deus, escrito em parceria com Roy Varghese. Não muito tempo depois, surge um artigo no The New York Times, no qual é revelado que o livro foi quase que totalmente escrito por Varghese e que Flew já apresentava sintomas evidentes de senilidade, não lembrando diversos argumentos-chave do livro. Argumentos, aliás, que ele próprio teria refutado com facilidade no passado.

No caso de Flew, a reconversão ao cristianismo se deu por pura falta de escrúpulos de um autor cristão interessado em explorar o nome e a senilidade de Flew. Porém, existe um caso em que o autor, aparentemente no controle de suas faculdades mentais, demonstra os argumentos que o trouxeram de volta ao cristianismo.

Estamos falando, é claro, de Augusto Cury, um psiquiatra escritor de vários livros de autoajuda de cunho cristão. Cury, que em uma entrevista afirmou que foi “um dos maiores ateus que já pisou nessa terra”, diz nesta mesma entrevista o que o fez mudar de ideia: primeiramente o medo da morte, que o faz procurar uma resposta na bíblia. Logo depois ele diz: “nunca na história uma pessoa traída tratou com tanta dignidade, inteligência e altruísmo o seu traidor. Então eu percebo – esse Homem não cabe no imaginário humano”. Era de se esperar uma evidência um pouco melhor para convencer um dos maiores ateus que já pisou nessa terra, mas parece que é só isso mesmo.

Imagino que Cury nunca tenha lido algum livro de Dostoiévsky, cujos personagens possuem uma personalidade tão complexa, que fariam Jesus parecer um personagem de histórias em quadrinhos.

Faltava ao ateísmo de Cury, tomando a liberdade de chamar isso de ateísmo, uma pitada de senso crítico e principalmente ceticismo.

O ceticismo é a postura crítica na qual a incorporação de uma crença está sujeita à apresentação de evidências. No caso, o ateu cético só se tornaria um ex-ateu quando obtivesse uma evidência indubitável de uma manifestação divina; se não há deus, essas evidências não existem. E se essas evidências não existem, o ateísmo cético é um caminho sem volta.

Nas linhas a seguir, proporemos (mais) um agravo contra o modo de pensar religioso. Para tanto, tematizaremos nosso discurso a partir do conceito de Deus ex machina (em tradução literal, “Deus surgido da máquina”). A expressão latina advém do grego clássico (ἀπὸ μηχανῆς θεός), tendo sua origem no teatro helênico. Referia-se a um artificial, improvável, imprevisto elemento cênico, evento ou personagem inserido repentinamente em uma peça a fim de resolver o emaranhado da trama teatral.

No teatro grego, sobretudo nas tragédias de Eurípedes, havia muitas peças que, ao invés de serem concluídas com eventos humanamente possíveis, reais, concluíam-se com o surgimento de um deus que descia ao local da encenação por meio de um dispositivo rústico, parecido com uma grua. Esse deus, então, conectava todas as pontas soltas da história, explicando um ou outro acontecimento, de maneira que tal intromissão inesperada tinha o intuito de garantir o nexo da peça. Atualmente, aplica-se a expressão para apontar o desenvolvimento de uma história na qual não se leva em consideração sua coerência interna, sendo, pois, inverossímil o suficiente para que o autor termine-a com uma circunstância improvável — ainda que, na ficção, mais tolerável.

Tendo-se em mente os traços histórico-culturais acima, voltemos agora ao nosso século. Se nos for permitida uma comparação, podemos dizer que, no universo religioso, há uma atmosfera teatral que não fica atrás das mais notáveis tragicomédias gregas: há um roteiro (a Bíblia), personagens (os anhos), enredo (a vida), riso (a adoração), pranto (o desencanto), atores (os seres humanos), palco (o mundo) e encenação (o meio social). Paralelamente a esse fato, não é de se admirar que ainda hoje temos a conservação do artifício Deus ex machina a resolver dificuldades lógicas aparentemente insolúveis: quando diante de uma lacuna abismal, o que espera o crente a não ser a manifestação de seu deus, emaranhado no cordame que o desce até a ribalta para que conecte os pontos e traga nexo à estória de sua existência?

Nas querelas entre irreligiosos e religiosos, de modo mais — ou menos — previsível, muito do que se debate não passa de discussão inócua, ação de zigue-zagues retóricos em que, pela via do discurso, os advogados de Deus espalham suas caganitas argumentativas. Curiosamente, conclusões são alcançadas; conclusões que não têm o desejo de serem logicamente válidas, mas sim a pretensão de durar, para o bem — como acredita — ou para o mal — como ocorre. Os crentes e seus ataques especulativos são, pois, uma espécie de páreo de caramujos às voltas com o defeito da alienação; são portadores de uma doença crônica que espalha suas chagas pelo ar, disseminando raciocínios que, conquanto incoerentes, sempre seduzem os anêmicos; são, para resumir, arautos da fé que inevitavelmente empregam, nas discussões, a má-fé (uma expressão que poderíamos considerar como redundante).

DIAZ, Daniel Martin. Deus ex machina. Óleo sobre madeira. s/d.

Se atualmente resgata-se a artificialidade dessa espécie de desfecho explicativo absurdo — útil às artes cênicas, mas leviano nas artes reais —; se dificilmente podemos evitar que empreguem tal intervenção; se, diante da realidade, não nos é possível refutar a tese freudiana de que é impraticável ao homem viver apartado de sua crença, pois “a ilusão é estrutural e ineliminável”1, ao menos façamos o que nos é possível e rebatizemos o conceito com a denominação de Deus ex illusione (“Deus surgido da ilusão”), a fim de evidenciarmos com maior precisão a índole de seu uso por aqueles que não sabem ser outra coisa senão marionetes.

Esperamos, no entanto, que não contem com nossos aplausos.

*   *   *

Notas

  1. FREUD, Sigmund. “Conferência XXXV: A questão de uma Weltanschauung”. In: Obras Completas. V. XXII. Rio de Janeiro: Imago, 1977.

Quem é ateu já deve ter ouvido essa pergunta mais de uma vez quando em uma discussão com um crente. Essa frase é derivada do romance Os irmãos Karamazov, uma das obras mais famosas de Fiódor Dostoiévski, e reflete bem o que crentes pensam sobre ateus.

Ateus não creem em Deus, e, se todas as proibições são provenientes deste, não há motivos para não fazermos o que quisermos, incluindo-se aí matar pessoas e, como é citado no livro de Dostoiévski, o canibalismo. Isso poderia até ser verdade em teoria, mas não é na prática.

A primeira evidência deste fato é a proporção de ateus em prisões comparada à população em geral. Em um estudo não oficial, ateus, que nos EUA são entre 8 e 16% da população, nas prisões são apenas 0,21%. Este estudo é controverso pelo fato de a única fonte destes dados ser esta página. Já nesta pesquisa feita em prisões da Inglaterra, a proporção de ateus e agnósticos era de 1% enquanto os ateus são entre 35 e 50% da população. Ainda que a fonte da primeira pesquisa não seja tão confiável, os dados são aparentemente condizentes com o que ocorre na Inglaterra.

Existem várias possibilidades para explicar os números acima, mas, em minha opinião, a mais realista é a de que ateus cometem menos crimes que os religiosos. A pergunta que nos vem é: se tudo é permitido, por que o ateísmo parece inibir a criminalidade?

Primeiro vale observar: tudo é, de fato, permitido? Penso que não. A liberdade de matar pessoas acaba no direito que estas têm em continuar vivas. Numa perspectiva egoísta isso pode parecer não fazer sentido, mas basta pensarmos em uma perspectiva mais ampla: se todos matassem à vontade, as chances de sermos mortos aumentariam. Em última instância, não matar é a melhor maneira de não sermos mortos.

Além disso, e isso pode soar como novidade para alguns crentes, ateus também têm sentimentos. Não somos máquinas de racionalização ambulantes, possuímos família, amores, desilusões, nada diferente de qualquer outra pessoa. A única diferença é que não creditamos nossas felicidades e decepções para o papaizão celestial.

As nossas limitações morais são reflexos da sociedade em que vivemos; para os religiosos, a única fonte de moralidade vem de suas religiões, mas ignoram que, mesmo antes de suas religiões, certos dogmas morais já faziam parte das sociedades antigas e, talvez, essa moralidade seja apenas um reflexo dos nossos instintos de animais sociais.

Já vimos que, mesmo sem deus, nem tudo é permitido. Falta-nos agora entender por que o ateísmo parece inibir a criminalidade.

Parece-me, neste caso, que há uma confusão de causa com consequência. O ateísmo não é causa da queda da criminalidade, afinal, a falta de deus seria um motivo a menos a ser considerado diante da possibilidade em se cometer um crime. É mais plausível que haja uma causa comum para o aumento do ateísmo e a queda na criminalidade.

Mais uma vez, a educação se mostra como a melhor explicação para ambos os casos.

A educação permite que tenhamos contato com melhores explicações para diversas questões que a religião não responde satisfatoriamente. Ao mesmo tempo que nos permite encontrar maneiras menos violentas de resolver conflitos que poderiam terminar criminosamente.

Termino o artigo com uma frase bastante famosa atribuída a Einstein:

“Se as pessoas são boas só por temerem o castigo e almejarem uma recompensa, então realmente somos um grupo muito desprezível.”

Sugestão de leitura: Os irmãos Karamazov – Capítulo: O Grande Inquisidor

Ridendo castigat mores. A máxima latina, que significa “rindo castigam-se os costumes”, foi adotada por, dentre outros, Jean-Baptiste Poquelin (vulgo Molière) e Gil Vicente, dramaturgos que faziam de suas peças ocasiões para evidenciar à plateia traços caricatos e criticáveis da sociedade. Seguindo com esse adágio — mas com uma pequena mudança para Ridendo castigat fidem, ou “rindo castiga-se a fé” —, esbocemos alguns comentários um tanto quanto (im)pertinentes. Afinal, se o que as religiões nos divulgam é geralmente um conjunto de ideias estapafúrdias e risíveis, é justo que também tenhamos a chance de fazer o mesmo. Não que tenhamos a mesma fértil imaginação daqueles que pregam palavras supostamente sacras, imbuídas de ideias genuinamente caricatas; não, não temos imaginação suficiente. Mas ao menos temos a sinceridade a nosso lado, e uma boa dose de sarcasmo.

Seja como for, reza a lenda que somos uma espécie sapiens, excessivamente sapiens. Aparentemente. Uma espécie que cobiça desvendar a verdade, seja lá o que a palavra signifique de fato; uma espécie que se diz especial porque talvez ainda não tenha descoberto a importância soberana dos micróbios — tão ou mais relevantes ao mundo do que nós — como a bactéria Propionibacter shermani, douta na arte da produção do queijo suíço (que, aqui, é uma bela metáfora para qualquer dogma religioso: saboroso, mas cheio de furos). Talvez o pior veneno ao homem seja a sua própria ideia de que seja o auge da cadeia evolutiva; embora tenha alguma razão, o pedantismo que disso advém o degenera.

E em sua busca incessante por verdades, por respostas, por serenidade, diante de um espelho deformado esgota-se em desculpas e pretextos os mais aberrantes. Os olhos da razão, se enxergassem, certamente notariam algo próximo dO Grito de Edvard Munch. Enoja, nesse sentido, as tentativas (ou tentações?) de decifrar o homem, o mundo, o cosmos a partir de nossas próprias fantasias; fazendo coro a Henry Miller, podemos dizer que “talvez não se descubra o segredo do universo num cu, mas seria muito mais interessante que o estudo de seu próprio umbigo”[1]. É a razão, pois, a grande culpada por eventualmente ir ao toalete; em sua ausência, quão humanos podemos ser… Ah!, a razão, esta que Martin Luther (o teólogo, não o King) chamava carinhosamente de Fraw Klüglin die kluge Rur — ou, em bom português, “dona sabida, a sábia puta”[2].

Fato é que enquanto trouxermos, dentro do crânio, o circo (de horrores?) que é nosso cérebro, nada haverá para fazer que não seja assistir ao espetáculo. O que é urgente, no caso, não é sabermos se há vida inteligente em outros cantos do universo; necessário é descobrir, primeiramente, se há vida inteligente aqui, nesta caricatura de astro. Depois, ora pois, partamos para outras questões também relevantes. Por exemplo, a de saber se há ou não há deus, ou deuses, ou deusas; a propósito, visto que existem n divindades no mundo, sejam elas “vivas”, extintas ou em vias de, é de se presumir que os crentes praticam em demasia o método da tentativa e erro. Um dia, quem sabe, acertam. Um dia… Pois agora o que se observa são mentes paradas que, por raramente terem ideias plausíveis, se fossem computadores estariam com o cérebro no screen-saver; se fossem televisores, no stand-by.

O interessante, nisso, é ainda hoje encontrarmos homens já formados, mulheres já maduras, pessoas que, já crescidas, ainda acreditam na salvação; e ainda troçam das crianças que esperam, em dezembro, a visita do bom velhinho. O que se torna difícil de compreender é que tais pessoas, quando crescem, abrem mão de Noel, mas não de Deus. Poderíamos imaginar que o espírito natalino seria como o sarampo ou a catapora: se já se teve quando criança, não se volta a contrair; e, no melhor dos casos, poderíamos idealizar que o mesmo ocorresse com a ideia de Deus. Mas, como se nota, esta não é uma simples catapora; é, antes, um vírus semelhante ao da gripe, que sofre mutações para se adaptar às circunstâncias.

Mas deus — ou Deus, como preferir —, sentimos muito por informar, não existe. E há uma boa prova para isso: se Ele existisse, se existisse e se fosse realmente bom e piedoso, haveria arquitetado um mundo com ar condicionado. E nós, assim como Nietzsche, só acreditaríamos em um deus que soubesse dançar — de preferência um tango argentino. É-nos impraticável, considerados esses critérios, acreditar na existência de deus; em qualquer um dos milhares que já passaram pela mente humana. Ainda que a Teologia — essa espécie de coitus interruptus pela qual (ou com o qual) nunca se chega verdadeiramente a uma verdade — venha tentando há séculos explicar a validade de sua hipótese (que só existe enquanto mentira), não podemos digerir o eixo-badeixo que é tal conceito. Não vivemos em Cucolândia das Nuvens; de lá, na verdade, emigramos. Talvez seja por isso que nossos critérios para chegar à verdade — ou a algo próximo disso — sejam bastante diferentes do critério empregado pela religião (algo como “par ou ímpar” ou congênere). Afinal, não é porque somos pessoas normais, naturais, humanas, comuns, que devemos ser lugares-comuns.

Desse modo, a nós as ingênuas fantasias semianalfabetas perdem seu efeito quando notamos que possuímos miolo — que de fato é mole, mas não o é conotativamente. Nossa postura é outra, não aquela seguida por muitos — que consiste no ato de segurar, com uma mão, um grosso e pesado livro que não entendem (ainda que tenham passado a vida inteira a estudá-lo), e com a outra a segurar outro livro, um de páginas em branco que é, afinal, sua cabeça. Não, definitivamente não somos de tal espécie — ainda que sejamos, como eles supostamente o são, sapiens. Não somos daqueles que dão graças quando recebem uma bênção, mas ignoram seu deus quando não carecem de auxílio. É por esse motivo em particular, e por outros mais, que a ideia de deus acaba por se assemelhar ao papel higiênico: só nos lembramos de sua existência quando dele, em desespero, precisamos.

Mas paremos por aqui, pois muito já se escreveu a troco de nada. E se as carolas e os beatos nos condenarem por termos, nestas linhas, trazido alguns sorridentes gracejos, seria interessante que pensassem melhor (perdoe-se a contradição) — pois, ora, caros religiosos, foram vocês que começaram…

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Notas

  1. MILLER, Henry. Opus pistorum. New York: Grove Press, 1941.
  2. LUTHER, Martin. Apud NIETZSCHE, Friedrich. Zur Genealogie der Moral; eine Streitschrift. Frankfurt: Inseln Verlag, 1984.

Um mentiroso criou um belo vestido, um vestido que seria invisível aos olhos dos tolos, e a este deu o nome de fé. Anunciara, por (pre)caução: “O tolo diz em seu coração: o vestido não existe” [2]. O clericato desfilou por séculos, orgulhosamente trajando suas roupas ocultas, e aqueles insensatos que ousavam ver além das vestes eram severamente punidos, sob os rigores da chibata canônica. Herdamos orgulhosamente eras inquisitoriais, cruzadas, guerras santas, IRAs, jihads etc… tudo isso por que cada um queria descrever os trajes ao seu gosto. E não faltaram novos alfaiates, cada qual dando uma roupagem nova ao que já existia.

Que lindas vestes!“, exclamavam. E o orgulho era visível em seus semblantes. As técnicas da costura invisível foram sendo aperfeiçoadas ao longo dos anos, partes desnecessárias eram descartadas, outras implementadas, de forma que hoje temos modelos bem diferentes daqueles primitivos. Os designers destes inúmeros vestuários passaram a competir entre si, cada um proclamava possuir o vestido mais belo, e guerras de todos os tipos foram instauradas. As pessoas, carentes de coisas (extra)ordinárias e cheias de dúvidas, fizeram da apreciação destes vestidos o seu objetivo de vida. Regras foram impostas, não se podia fazer isto ou aquilo, pois ia contra as regras daquele mágico coser. Esqueceu-se do principal: a roupa não existe.

O imaginário religioso, que cria deuses, santos, pecados e existências além-mundo não seriam danosas, se não fossem alienantes. Como a roupa invisível do imperador, a ilusão da religião nos torna cegos para a realidade, deixamo-nos enganar e substituímos a razão por uma esquizofrênica negligência intelectual. Surge o tempo em que esta imposição se enfraquece, os estudos e a facilidade de informações tornam tais vestimenta descartáveis. É chegada a época em que se faz mister que sejamos todos crianças a sentenciar: Deus está nu!

Referências

  1. Referência ao conto de Hans-Christian Andersen: A nova roupa do imperador.
  2. Salmos 14:1.