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Em tempos de eleições, partidos políticos mobilizam as massas para a militância em favor de seus candidatos. Tentando vender a ideia de que seu partido tem a solução para todas as mazelas do dia-a-dia, seus vendedores saem em busca de clientes.

Para encher os corações dos fieis de certezas, políticos e pastores utilizam-se das mesmas técnicas. As promessas de um futuro melhor são suas preferidas e o que pedem em troca é muito pouco. Apenas sua fidelidade, seu voto e seu dinheiro.

Comícios, onde as massas se juntam para ouvir as promessas de um futuro melhor sob a bandeira do partido, são idênticos aos cultos, onde pastores desafiam a racionalidade prometendo os céus para os crentes. Assemelham-se até mesmo no modo de se expressar, com o qual tentam, com discursos fortes e forrados de certezas, cobrir as suas contradições.

De terroristas a testemunhas de Jeová, é fácil lembrar pessoas que morreram por conta de suas certezas; somos muito facilmente manipuláveis por elas. Líderes políticos e religiosos sabem como utilizá-las e, muitas vezes, eles mesmos não compartilham das certezas que vendem.

Costumamos aceitar muito mais facilmente argumentos que corroborem nossas crenças, os aceitamos como corretos a priori. O contrário também é verdadeiro e bem mais evidente, quando demonstramos certa resistência diante de evidências contrárias ao que acreditamos.

A convicção ocorre quando colocamos nossas crenças acima de qualquer dúvida. Para mantermo-nos minimamente razoáveis, nada deveria ser elevado a este patamar. Afinal, dada a nossa condição limitada, podemos estar errados com relação a qualquer coisa, especialmente aquelas nas quais não há evidências convincentes.

É interessante observar a reação dos crentes políticos quando confrontados com a evidência de que seu candidato ou partido preferido possui algumas das falhas criticadas em seus adversários. As desculpas vindas dos candidatos costumam ser das mais abusadas, desde o dinheiro para o panetone até o “eu não sabia”.

As respostas acima podem parecer um insulto à inteligência daqueles acostumados a questionar, porém, para um crente político, uma resposta como essa é muito mais do que suficiente.

Pensemos no caso dos direitos dos ateus. O que ateus podem exigir da sociedade? O direito de ser irrelevantes. Parece estranho, então exemplifiquemos. Um ateu pode apenas exigir que, digamos, ao ir a uma frutaria, tenha o direito de escolher o suco que bem entender, bebê-lo, pagá-lo, receber o troco, colocá-lo no bolso e partir sem ser questionado sobre os porquês de sua descrença na origem divina do universo. Sendo razoáveis, isso é tudo o que podemos esperar. Não queremos, enquanto ateus, receber descontos na compra de laranjadas, ou que se cobre mais de religiosos. Queremos simplesmente ser vistos como cidadãos comuns, que a sociedade tenha tolerância quanto ao ateísmo, de modo que o fato de sermos ateus seja tão irrelevante quanto o fato de outrem ser religioso.

No mais, se nossa descrença diz respeito à religião, só faz sentido que sejamos tratados diferentemente no que diz respeito à religiosidade. É perfeitamente lógico que não possamos, por exemplo, nos casar em igrejas ou participar de grupos de oração. Sendo ateus, aceitamos tais implicações com a maior boa vontade, pois simplesmente fazem sentido. Em tais questões não haveria sentido em exigir igualdade. Pelo contrário, seria absurdo esperar que ateus, no tocante à fé, fossem tratados como religiosos, assim como seria absurdo esperar que indivíduos feiosos fossem tratados como belos no tocante à beleza. Ateus devem ser tratados como ateus; religiosos como religiosos; feiosos como feiosos; belos como belos. Mas tudo em seu devido contexto. Nessa situação, o preconceito surgirá apenas se permitirmos que as coisas se misturem. Por exemplo, se acreditarmos que, pelo fato de um indivíduo ser ateu, também é feio. Apenas isso seria um preconceito, isto é, uma generalização indevida.

Não temos fé, e não damos a mínima se a Igreja considera o ateísmo errôneo para com os profetas. Porém, enquanto ateus, não queremos ser julgados pelo que não tem relação alguma com religiosidade. Não queremos ser forçados a mentir sobre nossas opiniões em entrevistas de emprego, durante conversas, e assim por diante. Esperamos que um indivíduo, ao declarar-se ateu, não cause espanto algum, que os demais não reajam com perplexidade, dizendo: pelos céus, ele é ateu! Ao dizer que somos ateus, esperamos que os demais recebam tal afirmação com naturalidade, sem espanto, assim como ninguém se espanta ao ouvir que certo indivíduo é católico, evangélico ou espírita. É apenas nesse sentido que entendemos a igualdade, e exigir mais que isso seria injusto para com os demais. Para percebê-lo, basta pensar do seguinte modo: para os ateus, a vida não tem sentido. Isso é problema de quem? Problema dos ateus. Se somos ateus, problema nosso, e não importa se tal fato nos entristece ou desmotiva. Isso não é culpa dos religiosos.

Agora, para ilustrar tal situação perante a sociedade, suponhamos que a consciência da ausência de sentido nos cause depressão. Isso nos dará o direito de exigir que recebamos medicação gratuita para tratá-la? Teremos o direito de exigir que a sociedade custeie a manutenção de uma instituição voltada exclusivamente aos ateus com o nobre fim de amenizar os dissabores de uma existência sem sentido? Poderemos exigir que ateus devam cumprir jornadas de trabalho mais curtas por viverem angustiados? Será justo processar um padre que se recuse a casar, perante os olhos de Deus, um casal de ateus? Podemos ser ateus, mas é ridículo exigir compensações da sociedade pelo fato de a existência não ter sentido e isso nos entristecer, e o mesmo se aplica aos demais: não podem exigir compensação da sociedade por um problema que só diz respeito a eles próprios.

É fato inegável que há várias áreas de conhecimento. O que se considera ciência em sentido estrito são todas aquelas disciplinas que aplicam o método científico na sua empresa. Temos, portanto, a biologia estudando os seres vivos; a química estudando a constituição dos elementos na natureza; a física estudando a parte mecânica do universo. A lista é imensa e suas divisões podem ser citadas ad infinitum.

Mesmo fora do escopo da ciência em sentido estrito, há disciplinas que nos dão bons questionamentos que dificilmente seriam alvo de uma análise laboratorial: são as ciências humanas, dentre elas boa parte da psicologia e a filosofia, de modo geral; além das ciências sociais, como a própria sociologia ou o direito. São disciplinas especulativas, que, mesmo sem a relativa certeza do método científico, têm uma boa forma de controle sobre as variáveis que procuram analisar.

É de senso comum que, dentro de uma determinada área de conhecimento, os que trabalham nela são mais autorizados a falar dos elementos incluídos. Não chega a ser um apelo à autoridade, mas é o reconhecimento pelo fato de que não podemos abarcar toda a gama de novas pesquisas em todas as áreas que julgamos interessantes. Somos forçados a escolher uma área de trabalho e a acompanhar remotamente todas as outras nas quais não temos tempo para nos aprofundarmos.

No entanto, não devemos dar total confiança a alguém só porque está no escopo de sua área de conhecimento. Não são raros os casos em que um entusiasta apresenta maior destreza no que deveria ser de domínio do profissional. Uma ideia faz sentido por si só ou não faz de forma alguma. Quem a teve é irrelevante, desde que se consiga usar de métodos confiáveis de análise e reprodução.

Com essa separação didática entre as disciplinas, fica fácil identificar qual delas é mais apta a nos dar respostas para determinado fato. Tirando as obscuras áreas interdisciplinares (físico-química, bioquímica etc.), sabemos muito bem a quem nos reportar. E raramente precisamos mais do que daquela área para saciar nossa curiosidade.

É com esse tipo de discurso que alguns religiosos tentam justificar suas crenças. Para este tipo de pessoas, a ciência não entra em terreno da religião e a religião não procura ser científica. Mas é realmente uma alegação legítima?

Não. Em primeiro lugar, à parte das religiões “ateístas” orientais, toda e qualquer religião postula a existência de um ou mais deuses. A existência objetiva de algo é uma alegação completamente passível de estudos científicos. Em segundo lugar, todos os fieis que louvam suas divindades esperam algum tipo de resposta ou intervenção para os seus pedidos. Caso tivessem respostas objetivas, a interação seria facilmente identificada.

É fato que a maioria dos mitos de criação das religiões atuais só passaram a ser vistos como tal depois de um conhecimento razoavelmente bom sobre as origens de nosso universo. Até então, o que estava em livros sagrados era tido como a verdade revelada, seja sobre elefantes montados em tartarugas ou sobre escultores de argila.

Já que a religião não pode, em tese, fazer alegações científicas sobre o mundo, pois esta não é sua função – ou seu magistério, como diria Gould[1] –, o que resta para ela? Que área de conhecimento ou atuação lhe é exclusiva? Para aqueles que alegam a área de conforto contra os fatos negativos da vida (i.e. morte, dor, perda), será que não podemos ter isso por meios puramente seculares? Aos que alegam obras e instituições de caridade, não temos tantas outras de igual ou maior valor que são, no entanto, laicas?

A resposta parece ser óbvia: não há mais lugar para a religião em nosso mundo e o preço que temos que pagar por seus benefícios há muito já ultrapassaram a nossa quota de tolerância. O prejuízo é evidente e só não enxerga quem não quer sair do barco que naufraga lentamente.

[1] GOULD, Stephen Jay. Nonoverlapping magisteria. Artigo disponível em <http://www.stephenja…gould_noma.html> Acesso em 26 fev. 2010.

Não é de se admirar que conflitos são inevitáveis quando existe algum tipo de escassez, seja ela de recursos naturais, de recursos humanos ou a falta de pura e simples sensatez (o que evidencia um atributo preocupante da atualidade: tudo pode ser pretexto para se iniciar um achaque — incluindo-se, aqui, as desculpas mais simplórias —). É o caso dos conflitos atuais que, por todo o mundo, fazem com que inocentes sejam alvos de insurreições que não se permitem mitigar. São verdadeiras disputas religiosas (que se iniciam como batalhas intestinas — e intestinais —) como as insurgências islâmicas no Magrebe, na Nigéria, nas Filipinas, no Oriente Médio, como a violência declarada entre xiitas e sunitas no Paquistão, como as agitações muçulmanas no sul da Tailândia1; 2.

A primeira impressão que nos surge é a de que, das três etapas de desenvolvimento de uma sociedade (selvageria, barbárie e civilização), a última dificilmente é alcançada; e quando a ela se chega, nela não se permanece. Não é de se espantar que “o homem está sempre em estado selvagem. O que são os perigos da floresta e da pradaria comparados aos choques e conflitos diários do mundo civilizado? Enlace sua vítima no bulevar ou trespasse sua presa em florestas desconhecidas, não é ele o mais perfeito predador?”3. E, para nosso caso, tal predação resume-se a uma desculpa tão anêmica quanto as ideias que a fundamentam: aos islâmicos, se o todo-poderoso Alá está em todos os lugares e é o alicerce de tudo, a nós, contudo, tal ubiquidade não é um de Seus atributos: é, sobretudo, uma característica da ignorância de seus seguidores. Mas muitos conflitos deflagrados por muçulmanos radicais não ocorrem por acaso; tenhamos, de antemão, o fato de que uma das mais importantes fontes de conflito é a religião4, sendo a violência uma de suas partes integrantes5; por conseguinte, corrobora-se a ideia de que “todas as religiões são, em seu mais profundo nível, sistemas de crueldades”6.

Crueldades, atrocidades, truculências apontadas nos bastidores das guerras religiosas que, por sua persistência, trazem a impressão de que não são travadas para serem ganhas, mas para serem conservadas — como se o sangue inimigo, sempre a escorrer, fortificasse a idolatria e dela retirasse alento. Para sermos estatísticos notemos que, “segundo estimativas de um acadêmico, em todos os momentos do período de 1950–96, os conflitos religiosos constituíram 33–47% de todos os conflitos”7. Ainda que tais subversões preencham várias linhas dos anais da História, tais conflitos não estão tão distantes de nosso tempo e de nosso espaço; se tomarmos por base o século XXI, observaremos que “o conflito no Afeganistão, na Caxemira, no Sri Lanka e em um número de Estados do Oriente Médio, ligado com o aumento do extremismo religioso, reforçou a visão de que há uma estreita e forte ligação entre a religião e o conflito. O conflito religioso não é, naturalmente, exclusivo à atualidade, mas existiu em várias formas na maior parte da História conhecida”8.

Não é por acaso que o Islamismo — e, ouse-se dizer, o Cristianismo, o Judaísmo e outras sandices similares — configura-se como obstáculo para o crescimento individual, social, científico e cultural dos povos, eternizando modelos enlatados de compreensão da realidade, perpetuando conveniências atrasadas, frases feitas, respostas prontas e idiotias doentias; isso tudo, saliente-se, a partir de uma distorção emocional conhecida como “fé”, sentimento de rebanhos alucinados que se submetem, com genuflexão mas sem reflexão, a um cão pastor que os controle — e dele imitando o rosnar. Tanto assim que não se pode deixar de confirmar que, merecedoramente, os seguidores das principais religiões monoteístas do mundo foram (e ainda são) ligados à violência radical9. O Islã, mais precisamente, “aceita o uso da violência para defender a fé em uma doutrina de guerras justas, a última etapa do jihad (que deve ser traduzida como esforço da fé, não como guerra sagrada)”10. Um esforço ameaçador, diga-se, que faz dos infiéis vítimas de homens-bomba, esta espécie de possíveis impassíveis que dificilmente bradarão, a plenos pulmões, Debelatum est! — não enquanto a religião islâmica entender a intolerância como um modo de suprir sua fraqueza teórica; nesse caso, o único grito que será ouvido será um estrondoso Allah Akbar! Mas talvez seja possível entender (sarcasticamente) essa problemática ao notar que, em linhas gerais, para um católico o Paraíso é um encontro de parentes em um clube de campo, mas para um islâmico é uma despedida de solteiro em um bordel repleto de virgens. E, como se nota pelos jornais, a tentação é grande.

Seja como for, tal esforço da fé significa, nas palavras de um islâmico, “opor-se à [sic] tudo quanto desagrada a Allah; e sob ponto [sic] de vista exógeno, ele (Jihad) significa combater o kurf – a incredubilidade[sic]/descrença com as palavras [com base no conhecimento da religião Islâmica] e acções”11. “Combater”, palavra da qual nem os próprios islâmicos estão protegidos, haja vista “o primeiro significado de jihad: a batalha não deve ser travada apenas contra os incrédulos, mas também contra os próprios muçulmanos, para anunciar ao mundo o selo da profecia e alcançar o Estado islâmico mundial”12. Visto isso, temos um cenário lamentável em que, quanto mais a humanidade progride, mais “a repressão cala fundo na alma dos que experimentam a secularização como agressiva e distorce sua visão religiosa, fazendo-a violenta e intolerante”13. Podemos, destarte, salientar o que se segue: “O que assistimos hoje? A um fundamentalismo sem fundamento. O que torna isso perigoso? Ninguém mostrar nada de fundamental”14.

Do que vimos até aqui, em um apanhado de estudos e dados preocupantes, podemos compreender a gravidade da situação. Um panorama que — se mudar — não mudará tão cedo; um quadro social em que a religião islâmica torna-se a cada dia uma desculpa mais forte e menos coerente para o assassínio de cidadãos inocentes, porque “infiéis”. Nesse ínterim, o que podemos aceitar a princípio é que “uma religião que coage a consciência não tem direito a ser tolerada”15. (Mas não deve haver preocupação quanto a isso: mesmo contrários que somos e contrariados que estamos, não nos explodiremos em lugares públicos para reafirmarmos nossas ideias.)

Por fim, e por esses — e outros — motivos, seria de bom-tom que os sectários de Alá pensassem duas vezes antes de iniciarem seus pronunciamentos com o célebre “Em Nome de Allah, Clemente e Misericordioso” (grifos nossos). Haveria algo de sarcasmo nessa epígrafe? Os fatos16 e as estatísticas dizem que sim.

*   *   *

Notas

  1. The decade in international conflict. Global security. Stockholm International Peace Research Institute, Ploughshar, US State department. 2009.
  2. JONGMAN, A. J. World conflict and human rights map. PIOOM – Interdisciplinary Research Programme on Causes of Human Rights Violations. 2001/2002.
  3. BAUDELAIRE, Charles. Fusées – Mon coeur mis à nu. Paris: Gallimard, 1986. Apud BENJAMIN, Walter. Charles Baudelaire – um lírico no auge do capitalismo. Trad. de Hemerson Alves Baptista e Jose Carlos Martins Barbosa. São Paulo: Brasiliense, 2004. p. 220.
  4. One of the most important sources of conflict has been identified as violence carried out on the basis of culture, ethnicity and religion […].” [NEIL J. “Islam, conflict and terrorism”. In: Sipri yearbook. 2006. Disponível na Internet via WWW. URL: <http://www.sipri.org/yearbook/2006/02/02C>. Acesso em 06 de fevereiro de 2010.
  5. “[…] violence is an integral part of religion”. JUERGENSMEYER, M. “Sacrifice and cosmic war”. Terrorism and political violence. Vol. 3. Número 3. 1991. Apud NEIL J. “Islam, conflict and terrorism”. In: Sipri yearbook. 2006. p. 124-125. Disponível na Internet via WWW. URL: <http://www.sipri.org/yearbook/2006/02/02C>. Acesso em 06 de fevereiro de 2010.
  6. “[…] alle Religionen sind auf dem untersten Grunde Systeme von Grausamkeiten […]”. NIETZSCHE, F. W. Zur Genealogie der Moral. In: ______. Sämtliche Werke – Kritische Studienausgabe. Vol. 5. Giorgio Colli e Mazzino Montinari (orgs.). Berlim: De Gruyter, 1988.
  7. According to one scholar’s estimates, throughout the 46-year period 1950–96 religious conflicts constituted 33–47 per cent of all conflicts”. NEIL J. “Islam, conflict and terrorism”. In: Sipri yearbook. 2006. Disponível na Internet via WWW. URL: <http://www.sipri.org/yearbook/2006/02/02C>. Acesso em 06 de fevereiro de 2010.
  8. Conflict in Afghanistan, Kashmir, Sri Lanka and a number of states in the Middle East, coupled with the rise of religious extremism, has reinforced the view that there is a close and strengthening linkage between religion and conflict. Religious conflict is not, of course, exclusive to the present day but has existed in various forms for much of known history”. NEIL J. “Islam, conflict and terrorism”. In: Sipri yearbook. 2006. Disponível na Internet via WWW. URL: <http://www.sipri.org/yearbook/2006/02/02C>. Acesso em 06 de fevereiro de 2010.
  9. “[…] adherents of all the world’s major religions — Buddhism, Christianity, Hinduism, Islam, Judaism and Sikhism — have been linked to extremist violence”. NEIL J. “Islam, conflict and terrorism”. In: Sipri yearbook. 2006. Disponível na Internet via WWW. URL: <http://www.sipri.org/yearbook/2006/02/02C>. Acesso em 06 de fevereiro de 2010.
  10. “[…] accepts use of violence to defend the faith in a doctrine of just wars, the ultimate stage of jihad (which should be translated as exertion for the faith, not as holy war)”. GALTUNG, Johan. Religions, hard and soft. Disponível na Internet via WWW. URL: <http://www.aril.org/galtung.htm>. Acesso em 06 de fevereiro de 2010.
  11. WAHHAB, Mohammad Ben Abdul. Os três princípios básicos do Islão e suas evidências. Trad. De Mohammad Mbiavanga Fernando. 2003. Disponível na Internet (para download) via WWW. URL: <http://www.islamismo.org/tresprincipiosbasicos.doc>. Acesso em 06 de fevereiro de 2010.
  12. “[…] el primer sentido del yihad: el combate no se debe librar simplemente contra los infieles sino también contra los propios musulmanes, para anunciar al mundo entero el sello de la profecía y realizar el Estado islámico mundial”. ÉTIENNE, Bruno. El islamismo radical. Madrid: Siglo veintiuno de España Editores, 1996, p. 173. Disponível (parcialmente) na Internet via WWW. URL: <http://books.google.com.br/books?hl=pt-BR&lr=&id=eUUSkG7gU08C&oi=fnd&pg=PA1&dq=islamismo&ots=Y2FAUdRVNh&sig=kbdicUK2ShM0jLZJ5uy21-HvDDc#v=onepage&q=&f=false>. Acesso em 06 de fevereiro de 2010.
  13. ARMSTRONG, Karen. Em nome de Deus – o fundamentalismo no Judaísmo, no Cristianismo e no Islamismo. Trad. de Hildegard Feist. São Paulo: Cia. das Letras, 2008, p. 406. Disponível (parcialmente) na Internet via WWW. URL: <http://books.google.com.br/books?hl=pt-BR&lr=&id=DwDosH8b0xwC&oi=fnd&pg=PA9&dq=islamismo&ots=N001fJdr_w&sig=ek8rJf4FsHtT8i-b5azkfSuiZZQ#v=onepage&q=islamismo&f=false>. Acesso em 06 de fevereiro de 2010.
  14. ABRAHÃO, T. H. Litterae Bellerophontis. São José do Rio Preto, 2008, p. 169.
  15. BAYLE, Pierre. Philosophical commentary on these words of Jesus Christ, Compel Them to Come in. Trad. de A. Godman Tannenbaum. Nova York: Peter Lang, 1987, p. 147. Apud FORST, Rainer. “Os limites da tolerância”. In: Novos Estudos – CEBRAP. Número 84, pp. 15–29. Julho de 2009. Trad. de Mauro Victoria Soares. Disponível na Internet via WWW. URL: <http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0101-33002009000200002&script=sci_arttext&tlng=in>. Acesso em 06 de fevereiro de 2010.
  16. Religious conflicts – A collection of news and information related to Religious Conflicts published by Tribune Company sources. Disponível na Internet via WWW. URL: <http://www.chicagotribune.com/topic/unrest-conflicts-war/civil-unrest/religious-conflicts/16003004.topic>.



Leituras recomendadas



Materiais multimídia disponíveis na Web

Recentemente o mundo tomou ciência, através de uma matéria apresentada pelo jornal Inglês The Guardian, de um brutal Cerimonial de apedrejamento no Irã.assassinato ocorrido na Turquia. O resumo da ópera: uma jovem de dezesseis anos foi enterrada viva pela própria família, por ter sido flagrada constantemente conversando com garotos. É isso mesmo, você leu corretamente. Ela foi enterrada viva por manter diálogos cotidianas com garotos.

A patologia desse caso não seria digna de análise se não fosse o preocupante fato de que, apenas na Turquia, homicídios com motivações similares ocorrem uma vez a cada dois dias, em média. Os chamados “assassinatos por honra”, em que se derrama sangue inocente para preencher lacunas de discernimento moral, são mais comuns no mundo islâmico do que se imagina. Segundo a CIA, 99,8% dos turcos se consideram muçulmanos. O país é também membro-fundador da Organisation of the Islamic Conference (OIC), bem como é palco principal para uma série de outras organizações muçulmanas, localizadas principalmente em Istambul [1].

É interessante perceber que não se trata de um problema geográfico, mas cultural e religioso. Essas atitudes não estão somente enraizadas nos países islâmicos, mas chegam de navio e avião, trazidas nas bagagens dos imigrantes muçulmanos. Em 2005, o jornal alemão Spiegel noticiou a morte de seis mulheres de descendência muçulmana, por tentarem se enquadrar nos padrões de vida do seu país hospedeiro. Segundo a organizações de proteção das mulheres mulçumanas na Alemanhã e Austria, Papatya, outros 40 episódios similares ocorreram entre 1996 e 2005.

Cerimonial de apedrejamento no Irã

De acordo com o diretor executivo da UNICEF, mais de dois terços dos homicídios ocorridos na Palestina entre 1999 e 2003 se enquadram na nomenclatura “assassinatos por honra”. O que me parece mais preocupante é que, além dos agentes responsáveis pela matança serem membros diretos da família da vítima, estes acabam por serem vistos como heróis em suas comunidades, como aqueles responsáveis por manter a honra e os costumes das famílias tradicionais.

Estas jovens moças me chamam a atenção pela sua coragem. Desafiam a morte em nome de uma resistência libertária, por não se submeterem às ridículas e anacrônicas exigências familiares. As filhas da intolerância não irão ganhar esta guerra sozinhas, mas, através da sua resistência no melhor estilo Gandhi, estas moças clamam silenciosamente pela nossa atenção. Enquanto a intolerância e a ignorância persistirem nos países seguidores da doutrina de Maomé e o mundo insistir em fechar os olhos em detrimento de uma suposta liberdade religiosa, mais jovens turcas terão seus pulmões preenchidos com terra enquanto tentam respirar em ambiente tão hostil.

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  1. The Islamic Conference Youth Forum for Dialogue and Cooperation (ICYF-DC) em Istanbul

Dentre as inúmeras características que possui a deidade cristã, três se destacam: a onipresença, a onisciência e a onipotência. Em todos os casos, o radical “oni” deriva do latim omni, que significa literalmente “todos”, tornando-se dispensável explicar o seu significado. O que chama atenção é o poder que este prefixo romano atribui às palavras, dando-lhes propriedades que vão muito além da nossa imaginação.

Mas, então, de onde surgiram tais ideias? E para que servem?

Por volta de 1780, o jurista e filósofo inglês Jeremy Bentham elaborou uma teoria que, a priori, seria aplicada no sistema prisional, a qual deu a alcunha de panóptico (neologismo que deriva das palavras gregas pan, significando “todos” ou “por todos os lados”, e opticon, que significa “vigiado”, “observado”). Para o pensador, a sensação de estar sendo constantemente observado geraria um controle inigualável sobre o comportamento dos apenados. É importante frisar que os presos não necessariamente estariam sendo observados constantemente, mas era preciso suplantar em seus corações tal receio.

Panóptico

Esta mesma ideia foi, mais tarde, explorada por dois notórios escritores: Aldous Huxley, em seu romance Admirável mundo novo, e George Orwell em 1984. Em ambos os livros, de formas diferentes, o controle excessivo provocado pela vigilância estatal provoca a submissão desmedida e acaba por tornar-se mecanismo de padronização, anulando as individualidades. Para ser justo, é preciso dizer que ambos os livros vão além, como a exploração do controle através da sexualidade, o proposital empobrecimento vernacular e controle mediocrático, como forma de alienação em massa. Todos esses elementos combinados criaria uma sociedade de marionetes biológicas.

Em todos esses exemplos observamos uma similaridade sem precedentes com a ideia civilizatória cristã, apregoada pelo constante medo de estar sendo observado pelo big brother celestial, que nos julgará por cada pequena ação. Através da constante tensão ocasionada pela vigília desta deidade, as autoridades religiosas acabam por assumir uma papel paternalista, de guia espiritual capaz de redimir os pecados espiados por deus.

Há de se convir que tal forma de controle é extremamente eficiente, e o medo da observância é suficiente para que os fiéis se deixem controlar pela ideia panóptica de Bentham. Huxley e Orwell apenas reproduziram em suas obras modelos que já vem sendo explorados há milênios, e com grande sucesso. O Estado (aqui representado pela igreja) controla cada pensamento, dita as verdades e planta medo na população.

E assim como no livro 1984 o personagem O’Brien, representante do Partido, tenta fazer com que Winston afirme, através de torturas, ver quatro dedos onde na verdade existem cinco, os fieis são constantemente atormentados com o medo do inferno, e com o julgamento de suas ações pelo Rex Tremendae [1], tornando-se incapaz de discernir ficção de realidade.

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  1. Referência ao trecho do Requiem católico, no qual constantemente deus é posto como um rei absoluto, que julgará todas as coisas:

Quantus tremor est futurus/Quando judex est venturus/Cuncta stricte discussurus. – Quanto temor haverá então/quando o juiz vier/E julgar rigorosamente todas as coisas.

Lacrimosa dies illa/Qua resurget ex favilla/Judicandus homo reus. – Dia de lágima será aquele/No qual surgidos das cinzas/Os homens serão julgados como réus.

Não é novidade que a indústria da religião movimenta uma soma incomensurável todos os dias. Todos conhecem também alguém que lucra indiretamente com a religiosidade alheia, seja por meio da comercialização de produtos cristãos, de souvenir como a venda de produtos milagrosos e indulgências modernas. Mas há novas oportunidades de mercado surgindo, com seus métodos para lá de heterodoxos na conquista de novos adeptos e melhor arrecadação financeira.

Um exemplo incomum desta empreitada é a empresa Inspired Media Entertainment[1], antigamente conhecida por Left Behind Games: Bible and Christian Games. Baseado no best-seller apocalíptico “Deixado para Trás”, que conta com títulos como Eternal Forces. Neste bizarro enredo, o jogador se encontra no meio de uma Nova York pós-apocalíptica, que muito nos faz lembrar do atentado de 11 de setembro. No jogo, uma ordem de cristãos fundamentalistas recebe a missão de converter ateus, mulçumanos, judeus e basicamente todos os demais residentes a uma espécie de cristianismo fundamentalista.

Aqueles que resistirem devem ser mortos.

O jogo conta também com uma expansão: Tribulation Forces. A descrição do jogo compreende mensagens como: “combata ferozmente as forças do àanticristo, nesta guerra física e espiritual. Utilize o poder da oração para resistir à influência espiritual e defenda-se de tais ataques.” Ao navegar pelo site da empresa, você é obrigado a ouvir uma descrição em áudio de cada jogo, que afirma ser “um exemplo de ensinamento moral e de valores cristãos para as crianças e jovens, de uma forma divertida e realista”.

Vale dizer que a empresa conta com o patrocínio do governo americano, que em 2007 encomendou centenas desses jogos para serem enviados ao Iraque, onde os soldados americanos poderiam aproveitar o seu tempo livre aniquilando infiéis virtualmente[2]. Não é à toa que o jogo, apesar de relativamente desconhecido, contou com a participação de grandes nomes, como o compositor Chance Thomas (King Kong, X-men e Senhor dos Anéis).

Esta tentativa de atrair o público adolescente para a igreja, por meio de jogos surreais e violentos é apenas um exemplo do que está chegando ao mercado nesta última década. É obvio que o grande público não é atingido por esse tipo de jogo patético, que expressa orgulho em ser “o primeiro jogo em que orações e devoções são mais poderosas do que armas”.

A criatividade comercial não enfrenta limitações. Eras pós-apocalípticas, cristãos fundamentalistas armados, super-heróis que têm poderes provenientes da sua fé (blibleman)[3], etc.; são exemplos absurdos, mas cada vez mais comuns e lucrativos[4] no mercado da fé. Resultado de uma profunda alienação, atua como mantenedora de tal estado, utilizando-se de perigosas técnicas de incentivo à intolerância contra aqueles que não compartilham da mesma fé. Jogar vídeo-game nunca foi tão perigoso.

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Notas

  1. LeftBehind Games
  2. Kill or Convert
  3. Bibleman
  4. Apenas em 2006 o jogo Eternal Forces gerou um lucro de dois milhões de dollares


Algumas opiniões (em inglês) sobre os produtos da empresa IME

  • Dallas Anderson of the Billy Graham Center says, “one of the geniuses of these games is that they give gamers a chance to see the consequences of poor decisions …we’re pretty excited to see that these games were designed to provide positive moral input to a youthful generation which would otherwise not hear it.”
  • Focus on the Family (Breakaway Magazine) says, “Overall, this is a positive faith building game worth your time and money.”
  • LEFT BEHIND author Tim LaHaye says, ” … for those who are into video games, Left Behind games are the #1 most powerful vehicle for their hearts and minds that’s been invented in our lifetime.”
  • Founder of Concerned Women for America, Beverly LaHaye says, “Here is a game we heartily recommend.”
  • More than 1,000 people have recommitted their lives or come to faith as a result of our games and evangelistic website.

Todos nós que cursamos o ensino médio (ou segundo grau, no caso dos mais velhos, como eu) provavelmente vamos nos lembrar de já ter ouvido falar em genes ou alelos recessivos e dominantes nas aulas de biologia. Definindo grosseiramente a noção de recessividade e dominância, o gene dominante, quando presente, sempre se manifestará, mesmo que haja maior número de genes recessivos. Mas passemos da biologia para a história.

Eric J. Hobsbawn, historiador britânico, escreveu um interessante livro intitulado A era das revoluções. A obra trata do período entre os anos de 1789 e 1848, sob uma perspectiva “primordialmente europeia” e “mais precisamente franco-britânica”, nas palavras do próprio autor (p. 13). Hobsbawn aborda o período referido enfatizando o que ele chama de “dupla revolução”, ou seja, a Revolução francesa de 1789 e seus desdobramentos até 1848, e a revolução industrial, cujo epicentro é a Inglaterra. O impacto desta dupla revolução nas mentalidades é inquestionável. O progresso tecnológico e científico é acelerado pela própria dinâmica da revolução industrial, e as novas ideias e valores políticos que ajudaram a deflagar a Revolução na França espalham-se pela Europa e, posteriormente, pelo mundo todo.

Mas não é minha intenção fazer aqui uma resenha desta obra. Quero apenas expor algumas reflexões sobre um trecho do livro. No capítulo 12 d’A era das revoluções, cujo título é A ideologia religiosa”, o autor menciona que as classes sociais mais baixas e a maioria das pessoas pertencentes à burguesia ainda eram religiosas naquele período. Entretanto, havia no seio da burguesia uma minoria crescente de livres pensadores, que se opunham à religião, e esta minoria irreligiosa era, como descreve o eminente historiador, “imensuravelmente mais dinâmica e efetiva”. Chamou-me a atenção a forma como Hobsbawn expôs este fato, e acho que vale a pena transcrever parte do texto:

“Embora, em termos puramente quantitativos a religião continuasse muito forte e, como veremos, ficaria ainda mais forte, ela não era mais dominante (para usarmos uma analogia biológica) mas recessiva, e assim permaneceria até os dias atuais dentro do mundo transformado pela revolução dupla” (p. 306).

Vale ressaltar que Hobsbawn publicou o livro no início da década de 1960 e, portanto, devemos levar em conta que o que ele chama de “dias atuais” já se passou faz quase meio século.

A “analogia biológica” de Hobsbawn é interessante, mas, comparando a época por ele retratada e a nossa própria época, me vem à cabeça a questão: será que o livre pensamento ainda é dominante em nossos dias? Será que a religião, que nunca deixou de ser quantitativamente superior, ainda é recessiva em nossos dias, ou será que ela se tornou dominante?

Entre o final do século XVIII e meados do século XIX, as instituições religiosas no Ocidente, e em especial a Igreja de Roma, ainda possuíam considerável influência, mas nada que pudesse ser comparado ao poder que possuíam antes do século XVIII. É, porém, difícil comparar nossa época com o período estudado na obra citada de Hobsbawn, ou mesmo com épocas anteriores. Em primeiro lugar, a influência de qualquer instituição na cultura é hoje exercida por meios que não existiam na primeira metade do século XIX. Não havia naquela época, por exemplo, igrejas-empresa donas de emissoras de televisão e rádio. A popularidade de religiosos carismáticos da época não tinha o alcance e a dimensão da popularidade dos padres cantores galãs ou dos “televangelistas”. E o alcance destas pessoas hoje não se limita às classes sociais mais baixas, mas exerce influência sobre boa parte da classe média e alta. Politicamente, o discurso religioso chega a influenciar fortemente até o destino de países poderosos, como pudemos ver recentemente com os recentes oito anos de governo Bush na América do Norte, ou a ascensão do poder político de fundamentalistas islâmicos em diversos países do mundo. O discurso religioso está hoje visivelmente mais presente e influente na vida política de boa parte do mundo do que no período da “dupla revolução”, e seu alcance parece aumentar também na esfera privada, por causa dos meios de comunicação hoje disponíveis.

Obviamente, Hobsbawn tem o privilégio de escrever sobre um período cujo distanciamento no tempo permite uma análise histórica mais objetiva. É sempre difícil para qualquer historiador falar sobre seu próprio tempo, e talvez, daqui a um século, nossa visão sobre a influência da religião nas primeiras décadas do século XXI seja diferente. Talvez historiadores do futuro constatem que, apesar de tudo, o pensamento secular se manteve dominante, e o religioso se manteve recessivo. Vivemos em uma época que talvez seja considerada tão revolucionária, do ponto de vista tecnológico, quanto o período da revolução industrial. Talvez até mais. Mesmo assim, é inquietante pensar que nós hoje nos preocupamos muito mais com a influencia do extremismo religioso nas nossas vidas do que os livre pensadores que viveram duzentos anos antes de nós.

Referências

1. HOBSBAWN, Eric J. A Era das Revoluções. 21ª Ed. São Paulo: Paz e Terra, 2007.