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Na acepção que nos interessa neste texto, o vocábulo grego lógos (λόγος) significa a faculdade do homem de raciocinar [1]. E é exatamente nessa acepção que encontraremos o termo latino ratio [2]. A ambiguidade aparente do termo “razão”, em português, vem de outra forma de interpretar a ratio: além da inteligência ou do intelecto, pode significar também o próprio princípio de inteligibilidade, o que nos diferencia, em tese, dos outros animais.

O mundo exterior não é racional no primeiro sentido, porque, até onde sabemos, não podemos projetar intencionalidade no universo. Não há uma mens que raciocina por si. De acordo com todo o conhecimento coletado até agora, somos as únicas formas de vida conhecidas na vastidão que enxergamos lá fora. E, aqui dentro, o pensamento é um fenômeno que não existe sem o substrato cerebral, presente apenas em alguns tipos de animais com sistema nervoso central e mais reservado àqueles com capacidade superior de abstração. Se, ainda assim, nos separamos dos outros, é por nossa capacidade de expor tais pensamentos através da linguagem.

No entanto, dadas as regularidades das constantes da natureza e a nossa capacidade de abstrair padrões – às vezes até mesmo onde não existem –, é possível racionalizar a existência em todos os seus traços. Foi com esta ideia de razão que criamos a filosofia, que se expandiu para as mais diversas áreas, e mais recentemente a ciência, em sua acepção atual, que abarca praticamente todos os fenômenos conhecidos. As alegações recentes de impossibilidade de racionalização saíram do mundo externo, pois a abrangência científica já demarcou os pontos mais diversos que podemos imaginar. Ficamos, então, restritos a certos comportamentos humanos ou a certas manifestações que julgamos serem únicas de nossa espécie.

Notadamente, as áreas que mais tentam livrar-se do cunho da racionalidade são as religiosas ou as artísticas. Note-se que o pretenso destaque do escopo da ciência só se realiza se tomarmos por base aquele grupo de ciências naturais que costumamos simplesmente designar “ciências”, como a física, a química e a biologia. Por mais que elas também estudem constituições do ser-humano, entende-se que a sua abordagem é meramente mecânica, como quando estudamos as funções e o funcionamento de nossos sistemas, desde o digestivo e o respiratório, até o nervoso e o reprodutivo.

Em termos filosóficos, sempre tivemos autores que tentaram racionalizar a arte e a religião. Aristóteles escreveu vários tomos sobre o primeiro termo e a própria palavra grega para “arte” significa simplesmente “técnica” (τέχνη). Os títulos latinos para suas obras são ainda mais interessantes, como Ars rhetorica (τέχνη ρητορική) ou Ars poetica (περὶ ποιητικῆς), e nos revelam um sentido para o vocábulo “arte” que usamos hoje em dia, de forma mais displicente: quando um indivíduo demonstra notável destreza em seu campo de atuação, dizemos que é um artista, dizendo, na verdade, que simplesmente possui técnica apurada e criatividade avantajada, como no caso de jogadores de futebol ou praticantes de xadrez, mas também de bons funcionários ou administradores.

Sobre a religião, vários autores se aventuraram a discorrer sobre seus fundamentos, bem como tentaram usar a racionalidade filosófica para justificar a (in)existência de deus(es). Desde os aforismos de Epicuro, até os teólogos medievais Agostinho e Tomás de Aquino, culminando nos extensos escritos de Hume sobre a religião. E, ainda depois disso, com Voltaire, Leibniz e Espinosa. Filosoficamente falando, religião e arte, conclui-se, não estão fora do escopo da razão, pois são objetos tratados por vários ramos, desde a teologia até a estética, não importando a provável naturalidade de tais traços.

A ciência também lida com os dois construtos humanos. E muitas vezes aplica o método científico strictu sensu para tal. Partindo de manifestações sociais, os sociólogos clássicos da escola francesa já estudavam os costumes religiosos, enquanto se expandiam para além das fronteiras europeias – surgiu assim a figura do bon sauvage, tão famosa na literatura da época [3]. Para mais perto de nosso tempo, tivemos a expansão para as civilizações dos arquipélagos do Oceano Pacífico, com mais estudos sobre os nativos e o acompanhamento de uma religião que nascia dali: o caixismo ou o culto à carga [4]. Em nosso país, até hoje antropólogos visitam tribos isoladas e que, não raro, nunca tiveram contato com o “homem branco”. De seus estudos, saem vários tratados interessantes, como a série de relatos sobre a tribo dos Pirahãs [5].

E vamos ainda mais longe, quando tratamos dos traços universais que temos codificados em nosso DNA. A psicologia evolutiva trabalha de forma complementar às disciplinas sócio-filosóficas, como no caso da estética evolutiva [6][7]. O objetivo de tal disciplina é tentar enxergar as vantagens evolutivas dos mecanismos que nos permitem explorar a arte e a religião como formas culturais. Os estudos mais aceitos em comunidades especializadas dão conta da arte como produto acidental, pois é um uso diferente e novo para características isoladas que desempenhavam funções nobres para a nossa sobrevivência, como o reconhecimento de padrões na natureza, e para a seleção sexual, como os conceitos de beleza e agradabilidade [8].

Mesmo que se alegue que isso tudo não é realmente fazer arte ou participar de uma religião, a racionalidade não fica de fora da práxis. Nas artes, é inegável que entendemos melhor a música e a harmonia musical de um ponto de vista físico – com relação aos comprimentos de ondas das notas musicais – e matemático – com a noção de proporção entre as notas que, desde os gregos, nos dão escalas belas e agradáveis. A escala pentatônica, por exemplo, em suas várias modalidades surge com os estudos de Pitágoras sobre as divisões melódicas [9].

Saindo da música, a ideia de harmonia também contaminou a poesia, e basta citar a estrutura poética mais conhecida – o soneto. É a junção de dois quartetos e dois tercetos, com sílabas poéticas bem definidas e uma estrutura de rima variável, a depender do autor. Sua fórmula nada mais é do que a racionalização de um compasso musical que soa bem aos nossos ouvidos, ou seja, a teorização de algo que temos em nossa programação inata. Em ainda outras palavras: a justificação racional para a beleza percebida por nossos sentidos [10].

O mesmo pode-se dizer para a arquitetura, para a escultura e para a pintura. Esta última, aliás, desenvolveu-se de forma surpreendente quando os artistas ocidentais – notadamente a partir do Renascimento – passaram a aplicar avançados cálculos matemáticos para as proporções humanas. O famoso estudo do homem vitruviano de Leonardo da Vinci é pura e simplesmente a aplicação da proporção que o arquiteto e engenheiro romano Marco Vitrúvio Polião prescrevera para o corpo humano, já no séc. I a.C., e seguia os princípios arquiteturais de utilidade (utilitas), beleza (venustas) e solidez (firmitas) [11].

Quod erat demonstrandum, não só temos ótimas bases empíricas para decidirmos sobre as opções disponíveis, como também dispomos de grande arsenal racionalista para que nenhuma de nossas escolhas fique à mercê de arbitrariedades. Conforme avançamos e nos aprofundamos nas questões que sempre nos levaram ao autoconhecimento, resta pouco ou nenhum espaço para obscuridades. No fundo, não deixa de ser irracional – não no sentido de não usar a razão, mas de ser contra o que ela demostrou ser mais verdadeiro – que se alegue lacuna onde já não existe mais.

No mais, parece permanecer, a favor da crença em deus(es), o adágio latino geralmente atribuído a Tertuliano [12], que dá conta da crença no sentido mais peculiar para “fé”: o depósito de confiança em algo que se demonstra injustificável por quaisquer outros meios; a crença em algo para o qual não se tem a menor das evidências. Ficamos, enfim, com o poético mas tragicômico credo quia absurdum.

 

Notas:

[1] GOBRY, Ivan. Vocabulário grego da filosofia. Tradução de Ivone C. Benedetti. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

[2] FONTANIER, Jean-Michel. Vocabulário latino da filosofia. Tradução de Álvaro Cabral. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

[3] Página da Wikipédia sobre a idealização: <http://fr.wikipedia.org/wiki/Bon_sauvage>. Acesso em 03 abr. 2011. [em francês]

[4] Sobre o assunto, há um bom texto neste mesmo espaço: TEIXEIRA, Bruno. O início das religiões: o culto à carga. Disponível em: <http://deusnagaragem.ateus.net/2010/05/21/culto-a-carga/>. Acesso em 03 abr. 2011.

[5] Página da Wikipédia sobre o povo Pirahã: <http://en.wikipedia.org/wiki/Pirah%C3%A3_people>. Acesso em 03 abr. 2011. [em inglês]

[6] DE SMEDT, Johan. Toward an Integrative Approach of Cognitive Neuroscientific and Evolutionary Psychological Studies of Art. Disponível em <http://www.epjournal.net/filestore/EP08695719.pdf>. Acesso em 03 abr. 2011. [em inglês]

[7] DUTTON, Denis. Aesthetics and Evolutionary Psychology. Disponível em <http://www.denisdutton.com/aesthetics_&_evolutionary_psychology.htm>. Acesso em 03 abr. 2011. [em inglês]

[8] Sobre a religião como produto acidental, há outro texto neste mesmo espaço: MOURA, Jairo. Das origens da religião II: produto acidental. Disponível em <http://deusnagaragem.ateus.net/2010/12/15/1808/>. Acesso em 03 abr. 2011.

[9] Bobby McFerrin demonstrando que todos temos a escala pentatônica em nossa programação cerebral: <http://www.youtube.com/watch?v=ne6tB2KiZuk>. Acesso em 03 abr. 2011. [em inglês]

[10] Em português, Augusto dos Anjos tem, sem dúvidas, alguns dos mais belos sonetos. Para referência, “Versos Íntimos” é um ótimo exemplo. Há uma versão disponível em <http://www.releituras.com/aanjos_versos.asp>. Acesso em 03 abr. 2011.

[11] Página da Wikipédia sobre Marco Vitrúvio Polião: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Vitr%C3%BAvio>. Acesso em 03 abr. 2011.

[12] Página da Wikipédia sobre a discussão referente ao adágio: <http://en.wikipedia.org/wiki/Credo_quia_absurdum>. Acesso em 03 abr. 2011. [em inglês]

A vida é um fenômeno interessantíssimo que, embora nossa intuição diga o contrário, teve um início e nunca mais parou. O que entendemos como vida em sentido estrito é aquele tempo de duração medido entre o nascimento e a morte de um indivíduo. No entanto, para que este indivíduo tenha nascido, tomando a nós mesmos como exemplo, foi necessário que um espermatozoide e um óvulo, ambos vivos, fossem unidos.

Para a panspermia [1], a vida na Terra é o resultado das sementes pré-bióticas que se encontram por todo o universo. Essas sementes teriam chegado ao nosso planeta através de metereoritos, enxergados como cegonhas cósmicas que levam os aminoácidos fundamentais a todos os cantos do vasto espaço sideral. É relativamente fácil encontrar metereoritos carbonáceos que possuam uma diversidade de compostos orgânicos maior do que a encontrada na Terra [2].

É uma hipótese intrigante, por mais que haja poucas evidências diretas para comprová-la ou refutá-la. A sua principal concorrente e paradigma mais aceito nas teorias de gênesis da vida é aquela que explica o seu surgimento a partir de reações químicas de elementos que existiam em abundância na Terra primitiva. Harold Urey e Stanley Miller [3], ainda nos anos de 1950, conseguiram sintetizar aminoácidos e outros compostos essenciais para a nossa existência a partir de compostos simples. É a face moderna da teoria da abiogênese, quebrando aquela sequência em direção ao passado na busca do ponto em que o não-vivo tornou-se vivo [4].

O ponto crucial que nos trouxe até este exato momento foi o aparecimento da primeira molécula autorreplicante. Essa capacidade comum a todos os seres-vivos é a base de toda a biodiversidade observável na natureza. Muito provavelmente, o RNA [5] primitivo é o ancestral de todas as formas atuais de codificação/decodificação de proteínas. Não só ele continua presente no DNA [6], molécula muito mais elaborada, como exerce funções fundamentais e específicas, dependendo do seu tipo, no processamento e na síntese de proteínas.

Iniciada a vida, há cerca de 3,5 bilhões de anos atrás [7], restaria agora explicar como ela se desenvolveu. O mecanismo de seleção artificial sempre foi um dos meios mais eficientes que o homem encontrou de manipular o meio-ambiente. Foi assim que conseguimos domesticar os cães, variantes dos lobos selvagens, criando a imensa variedade de raças, desde os graciosos poodle até os ferozes pitbull. Com base no mesmo princípio, cultivamos vegetais de acordo com nossas necessidades, escolhendo as sementes mais férteis de árvores que dão os melhores frutos.

Darwin [8] e Wallace [9], independentemente, chegaram à conclusão de que a natureza poderia agir de forma semelhante, selecionando os indivíduos mais aptos para uma determinada situação ambiental. Mesmo sem a função de um agente consciente, seria possível que indivíduos se adaptassem ao seu meio e, mais impressionante do que isso, que diferentes indivíduos, separados geograficamente, pudessem, ao longo de várias gerações, diferir de forma tão radical a ponto de se transformarem em espécies distintas.

É interessante notar que ambas as seleções – natural ou artificial – não têm um objetivo teleológico a longo prazo. A seleção artificial nos serve para a geração imediata e continuará nos servindo para as gerações futuras, mas isso não quer dizer que a geração atual só existe como meio para elas. De forma análoga, podemos fazer um exercício mental: uma mutação que seria benéfica para um futuro distante dificilmente passará no crivo imediatista da seleção natural, pois não apresenta vantagens para o momento em que a sobrevivência as exige.

Com base em análises tanto morfológicas quanto químicas e genéticas, é possível vasculhar o presente e o passado, relacionando todas as espécies das quais temos notícia com seus parentes e antepassados. A síntese desses dados pode ser expressa de forma gráfica em árvores filogenéticas [10], ou em sua forma mais ampla, conhecida popularmente como árvore da vida.

Referências:

[1] http://pt.wikipedia.org/wiki/Panspermia

[2] http://en.wikipedia.org/wiki/Murchison_meteorite

[3] http://pt.wikipedia.org/wiki/Experiência_de_Urey-Miller

[4] http://pt.wikipedia.org/wiki/Abiogênese

[5] http://pt.wikipedia.org/wiki/ARN

[6] http://pt.wikipedia.org/wiki/ácido_desoxirribonucleico

[7] http://pt.wikipedia.org/wiki/Evolução_da_vida_e_formação_da_Terra

[8] http://pt.wikipedia.org/wiki/Charles_Darwin

[9] http://pt.wikipedia.org/wiki/Alfred_Russel_Wallace

[10] http://pt.wikipedia.org/wiki/árvore_filogenética

Da insatisfação I: Como surgiu o universo?