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De uma forma ou de outra, todos nós caímos no mito do absoluto. Na tentativa de facilitar o nosso aprendizado, desde pequenos somos influenciados a tomar aquilo que nos ensinam como verdade incontestável. De fato, muitas coisas são tão bem evidenciadas que podem ser consideradas, para todos os efeitos, incontestes.

Ninguém nos explica, entretanto, que tais coisas só fazem sentido dentro da caixa que usamos para delimitá-las. A matemática, por exemplo, funciona bem porque definimos claramente seus limites e suas funções. Assim também funcionam todas aquelas ciências que partem do método indutivo para formular suas teorias.

Condenar a linguagem por não abarcar toda a realidade é não enxergar o escopo de sua caia; em outras palavras, é como condenar um cachorro por ser menor que um elefante. Simplesmente não faz sentido. Nunca foi pretensão da linguagem explicar tudo. E o fato de nos sentirmos mal quando finalmente enfiamos na cabeça as suas limitações diz muito mais sobre o quão frustrados estamos por termos acreditado em coisa diferente.

Em uma boa analogia, peguemos o sentido da visão: o nosso globo ocular possui um sistema complexo de lentes e músculos. O conjunto permite que a luz seja captada e transformada em impulsos elétricos direcionados até o cérebro, onde serão interpretados e cumprirão sua função: nos relacionar com o mundo e nos dar a possibilidade de interagir com ele.

Sabemos que não enxergamos todo o espectro da radiação eletromagnética. Nem por isso invalida-se o fato de que enxergamos uma boa faixa dela. É engraçado como tentamos inverter a ordem dos acontecimentos: enxergamos antes de explicar o funcionamento da visão e isso faz toda a diferença. Se estamos descontentes com as nossas limitações, estudamos e ampliamos nossa capacidade de captação de luz, como bem fazemos com microscópios ou telescópios.

Acontece algo parecido com a linguagem: sua genealogia é de difícil compreensão e estudo porque, convenhamos, quando desenvolvemos algum tipo de raciocínio crítico, já a temos por certa. Mesmo estudando a aquisição da linguagem em crianças não conseguimos conhecer mais do que o modo como elas aprendem, basicamente através da repetição daquilo que observam ao seu redor.

Agimos antes de pensarmos porque o neocórtex é um achado recente em nossa história evolutiva e, se dependêssemos somente dele para situações extremas, já teríamos deixado de existir. Que se lembrem disso os esquizofrênicos que teimam em jogar ideias de “verdade” no mundo, caindo aos prantos quando a natureza não corresponde aos seus anseios filosóficos.

Mas sejamos francos: nenhuma lacuna de comunicação da linguagem nos impede de comprar o pão quente da manhã na padaria da esquina. Da mesma forma, nenhum conhecimento deixa de ter sua parcela de validade por se basear em um sistema incompleto. Focar as críticas na falta de funcionalidade de algo que nunca foi alegado como perfeito é, além de um erro grosseiro, um apelo à falácia do espantalho.

Se isso é tudo o que os arautos do relativismo têm para oferecer, é simplesmente deprimente. Partem de uma premissa falsa, jogam ideias no mundo e se revoltam por não encontrá-las. Em mais um caso, esbanjam ceticismo para teses rivais e abraçam desesperadamente o absoluto que criam a partir dos pedaços de sua estima magoada.

Dentro de cada sistema, há um conhecimento mais adequado e negar uma afirmação tão óbvia é ignorar toda a praticidade que tal conhecimento proporciona. Confundir o conforto de uma situação com sua validade epistemológica parece ser o último recurso de quem deseja, de qualquer maneira possível, justificar comportamentos inadequados para os objetivos traçados.

Eis a herança maldita de todos esses séculos de filosofia: a natureza não mais responde como desejamos e nos resta chorar o luto pela morte da mãe idealizada.

Para não confundirmos nosso interlocutor, geralmente usamos – ou tentamos usar – as palavras da forma mais clara possível. A menos que seja nossa intenção, evitamos quaisquer ambiguidades que possam prejudicar a nossa comunicação. É particularmente mais fácil quando a conversa é instantânea e há um mecanismo de correção para eventuais falhas. No entanto, a experiência de escrever um texto exemplifica bem a dificuldade em comunicar com total eficiência.

As leis, de forma geral, são extremamente dependentes da linguagem usada. Uma vírgula fora do lugar muda o sentido de forma tal que o objetivo inicial se torna a exceção, de acordo com a redação. Os códigos penais – para citar o exemplo mais drástico – precisam de verbos diferentes para cada crime previsto. Assim, eles pretendem abarcar cada fato fundamental da realidade com uma denominação específica.

Tentemos, num exemplo hipotético, alargar essa ideia. Imaginemos que o universo esteja completamente parado, como em uma fotografia, e agora teremos a missão de dar um nome diferente a todo e qualquer fenômeno que conseguirmos distinguir, não importando a escala de tamanho nem as ordens aparentes de repetição.

Comecemos com algo simples: há aproximadamente seis bilhões de seres-humanos em nosso planeta e, a princípio, podemos nos referir a eles simplesmente como “seres-humanos”. Mas lembremos que nossa missão é similar àquela do legislador penal, então, precisamos dar uma denominação única e inconfundível a todos. Uma boa ideia seria usar números de série, que começariam do zero e iriam até o último indivíduo vivo, no momento de nossa foto.

O trabalho já parece hercúleo, mas ainda temos que ver as partes que constituem esses indivíduos. Para demonstrar a dificuldade que teríamos ao aumentar o nível de exigência classificatória, somente uma molécula de DNA possui aproximadamente três bilhões de pares de bases. E lembremos que toda essa análise diz respeito somente a um indivíduo, enquanto nossa missão se extende a todo o universo.

Esqueçamos as dificuldades iniciais e partamos para o fim de nossa jornada: conseguimos, finalmente, elaborar um número de série para tudo o que nos propusemos a fazer, desde a escala macroscópica dos buracos negros até além do comprimento de Planck. Teríamos orgulho de nossa empresa e ficaríamos felizes com o trabalho bem feito. Logo depois, a fotografia mover-se-ia por um intervalo de tempo não maior que um femtossegundo e teríamos de refazer tudo outra vez, pois nosso nível de exigência é tão alto que uma simples mudança na menor partícula possível acarreta uma diferenciação digna de ser contemplada.

Como uma conclusão bastante plausível, podemos simplesmente dizer que a linguagem não toca a realidade. É apenas uma maneira que encontramos de nos relacionar com o mundo ao qual pertencemos. É, talvez, a maior das ficções que guiam nossa existência e sem ela não teríamos alcançado o menor grau de nossa sociedade atual. Parece óbvio concluir, mas a linguagem não é o mundo.

No fundo, qualquer tipo de linguagem se baseia num valor axiológico arbitrário que só tem sentido a posteriori. É uma aproximação grosseira que só funciona quando dois ou mais indivíduos concordam sobre as regras de uso. Toda a nossa lógica é baseada na relação desses valores arbitrários. Se ela funciona, é porque desistimos dos estudos zetéticos que permeiam o porquê dessa valoração e partimos para a dogmática do que precisa ser feito de maneira prática.

Se uma coisa é prática não significa necessariamente que seja verdadeira. Teria muito trabalho com argumentações elegantes alguém que discordasse desse aforismo. Principalmente porque teria de recorrer a inúmeros silogismos para comprovar que mentiras não são práticas. Não precisamos ir muito longe para encontrar situações em que são a maneira mais conveniente de se comportar.

No entanto, vemos, a todo e qualquer momento, pessoas alegando veracidade em suas opiniões dada a praticidade que elas acarretam. Devemos nos lembrar que não temos em nós uma espécie de imperativo para a verdade, no sentido de sinceridade e honestidade. Pelo contrário, em todos os casos em que dizer algo que corresponde ao nosso pensamento é prejudicial, teremos sérias consequências físicas por estarmos traindo a nossa índole cretina naturalista.

Assim, não adianta dizer que algo é mais ou menos verdadeiro pelo conforto que nos dá. Até porque, em quase todos os casos, o que nos dá conforto é aquilo que aprendemos que nos dá conforto. Em suma, as nossas formas mais comuns de apaziguamento mental são exatamente aquelas que nos ensinaram desde sempre. Talvez por limitação de remédios, ou ainda por realmente funcionarem, estatisticamente.

Só que não queremos acreditar por acreditar. Sabemos, bem no fundo, que a fé cega é tão fraca quanto fazem parecer os mais céticos. Queremos justificar nossas ações; não parecer um bando de idiotas arrebanhados em uma brincadeira de fazer o que um mestre manda. Eis todo o arcabouço basilar do nosso autoengano: a vontade de que algo seja verdadeiro e a falsa noção de causalidade.

A vontade faz com que partamos da conclusão para a sua justificação e a falsa noção de causalidade nos dá certezas superficiais, mas fortes o bastante para satisfazer o nosso intento: sentirmos conforto em continuar fazendo o que fazemos.

Aos pirrônicos, cabe a máxima de que, em última análise, nenhuma relação causal pode, em campo aberto, ser conclusivamente provada ou refutada. Esquecem-se de adicionar que uma relação observada diversas vezes consecutivas e independentes goza de uma presunção maior do que aquela que só aconteceu uma vez, mais passível de explicação por coincidência ou relação de temporalidade.

Esquecem-se principalmente quando adotam “verdades” do segundo tipo e detonam as do primeiro. Mas não atirai pedras pois fazeis o mesmo. Qual, então, a saída para uma espécie cujo conforto depende, necessariamente, de algumas – ou várias – mentiras, ficções ou ilusões? Aparentemente, nenhuma.

Não há nenhuma sanção externa a comportamentos hipócritas. Se a sociedade decide puni-los é para que a hipocrisia se mantenha em um nível controlado. Se, por outro lado, a sanção for moral, cabe ao dono da consciência pesada buscar meios para que seu senso de verdade e justiça corresponda a suas ações e sua busca por conhecimento. Em outras palavras, que a relação entre praticidade e correspondência real seja a maior possível.

Sensacionalismo pouco é bobagem. Desde o dia 27 de julho, ateus de todo o Brasil tem demonstrado sua indignação em relação aos comentários maldosos do apresentador José Luiz Datena, no programa Brasil Urgente.

Já faz uma semana que ocorreu a difamação, e muitos sites ateístas (e ateus avulsos)  já expuseram suas opiniões a respeito do sujeito em questão. Foram tantas as reclamações no twitter, youtube, blogs e afins, que nem consegui ler ou ouvir a todos. Uma verdadeira sanguia desatada de ateus!

Na verdade, ler ou assistir a tantas reclamações faz-me sentir como se, a todo tempo, eu esteja passando pela experiência de déjà vu.

Há cerca de duas semanas, fui convidado a participar da LiHS (Liga Humanista Secular). A princípio achei a idéia de participar de uma “liga” algo equivalente a associar-me a um partido, ou seguir uma religião (mais tarde percebi até que fui grosseiro demais em minha recusa). Porém, após as asneiras vomitadas pelo Datena, percebi que aflorou em minha uma vontade ainda mais forte de me unir a algum grupo ateísta, assim como tantos outros ateus também tiveram essa vontade. Cheguei a cogitar a possibilidade de afiliar-me realmente à LiHS.

Refletindo a respeito disso, percebi que sempre que algo nos ameaça, ou a nossas ideologias, tendemos a procurar um grupo, talvez pelo velho instinto de preservação (óbvio que em grupo nos sentimos mais protegidos). É nessas horas, quando muitos se mobilizam em prol de um único objetivo (no caso, repudiar as calúnias sofridas), que descobrimos a força que há em qualquer grupo, seja ele grande ou pequeno.

É hora de aproveitarmos o calor do momento e sairmos de vez do armário. Fazer valer os direitos e deveres constantes na Constituição Brasileira. Pseudo-heróis como o Datena distorcem as leis a seu favor, argumentando que também tem o direito de expressar suas opiniões; porém arrotar preconceitos e calúnias não é direito constitucional; é apenas uma forma de se fazer admirar às custas da ignorância do outro.

A mente do povão já virou sopa, e imbecis como o Datena preferem engrossar o caldo de preconceito, alienação e religião do que fazer com que percebam que o paladar pode sentir mais do que o gosto dessa lavagem que lhe empurram.

PS.: CALA A BOCA, DATENA!


Nota: – Texto redigido a pedido de alguns dos nossos leitores, via e-mail e MSN. Grato a todos pela participação.

Que é ser ateu? Que é ser religioso, seja qual for a congregação? É simplesmente aquiescer a um juramento pré-determinado para saber se se encaixa nesta ou naquela rotulação. Na falta de crença, é afirmá-la, por quaisquer motivos. Na presença dela, é simplesmente aceitá-la. São estados de mente; serenas posturas filosóficas para responder quando se é perguntado. Não existe uma doutrina ateia, assim como não existe uma doutrina cristã, muçulmana, budista, judaica ou xintoísta. Dentro de suas paredes conceituais, são todos dissidentes irreconciliáveis. Qualquer adjetivo comum além do rótulo abnóxio cai na falácia do espantalho. Não passo a ser religioso por visitar templos, nem deixo de sê-lo por não visitá-los. No fim das contas, cada um fala por si e segue os exemplos que julgar interessantes. Se não concordamos com países teocráticos é porque sabemos como líderes carismáticos podem ser perigosos para a política; não porque suas visões de mundo são incompletas ou porque acreditam em coisas improváveis. Qualquer argumento que usemos contra a paixão religiosa pode ser usado para atacar qualquer outra ideia apaixonadamente defendida. Afinal, é isso: queremos nos outros o niilista imparcial que não podemos ser e passamos a atacar quem não se encaixa na nossa projeção ascética. Por coerência, respeitamos mais os religiosos que seguem suas confissões arcaicas ao pé da letra, por seguirem o ideal de entrega que a sociedade atual não consegue emular, do que o religioso ecumênico que cria para si um conjunto flexível de crenças para não ir de encontro ao mundo em que vive. No fundo, a causa antirreligiosa se resume a advogar pela perda de uma grande paixão em favor de várias outras menores, na esperança de que os absurdos que não toleramos passem a ser suportados em doses homeopáticas. Grupos sempre serão autoexcludentes e, sendo iguais em todos os aspectos que nos tornam demasiadamente humanos, resta-nos fazer diferença em nossas posturas filosóficas, fingindo ser motivo suficiente para toda essa discórdia. Se um mundo sem religião seria melhor? Exatamente na mesma medida em que todos os motivos que nos fazem querer o seu fim também nos façam pedir pelo fim das outras paixões. Combatamos os homens ruins que estão no poder e torçamos para sua periodicidade no comando ser a tônica de nossa representação, pois a perversidade individual ou inconsciente coletiva será a mesma, não importa que nomes tenha.

Em 1964, foi apresentado ao mundo um documentário que chocou o público. Mondo Cane mostrou, pela primeira vez, uma nova religião nascendo diante das câmeras, e o mais interessante: os ocidentais eram os diretos responsáveis por ela.

Nas batalhas do pacífico, durante a Segunda Guerra Mundial, era bastante comum o fato de soldados americanos montarem postos avançados de combate nas ilhas de lá. Eles tentavam manter um relacionamento amistoso com os nativos destas ilhas, e, para facilitar, costumavam dar alguns presentes como bugigangas e alimentos.

Os nativos observavam a origem de todos esses presentes: eram lançados de aviões com para-quedas ou chegavam de navio utilizando píeres especialmente construídos para este fim.

Quando a guerra acabou e os presentes se foram, os nativos, lembrando-se de como os presentes vinham daqueles pássaros metálicos, decidiram construir réplicas de madeira, imaginando que talvez desta forma os presentes pudessem ser magicamente atraídos.

Sob a réplica, os nativos aguardam a chegada da carga.

Além das réplicas, os nativos também abriram clareiras na mata para criar pistas de pouso para atrair os aviões, acendendo fogueiras que imitavam as luzes que guiam os aviões.

Pista de pouso para atrair aviões

 Na Ilha de Tanna, os cultos assumiram formas mais complexas. Os mais velhos imaginaram que, se comportando como os antigos visitantes, os presentes seriam atraídos. Para isso, no dia 15 de fevereiro de cada ano, uma bandeira dos Estados Unidos é hasteada, os mais velhos vestem os poucos uniformes que lhes foram deixados pelos soldados. Outros desfilam e dançam com pedaços de madeira imitando fuzis.

Com a bandeira hasteada e seus fuzis de bambu.

Eles também possuem um messias: os nativos esperam por John Frum, o filho de deus que, vindo acompanhado de um exército de mortos, fará com que os nativos retornem às antigas tradições em um evento apocalíptico. John Frum assume vários rostos: o de um nativo, um homem branco ou até mesmo um soldado americano negro. As origens dessa lenda remontam ao tempo em que ocorreram os primeiros contatos com exploradores ingleses.

Tentando evitar que seus marinheiros enganassem os nativos com truques tecnológicos, os líderes das embarcações os afastaram para outras ilhas. Dessa forma, muitos mártires foram criados. Nunca houve, até onde se sabe, um marinheiro chamado John Frum na marinha britânica. É possível, porém, que o nome derive de algum marinheiro se apresentando como “John from England”.

A maioria das religiões que vemos hoje em nossa sociedade nasceu em povos com tecnologias tão avançadas quanto a dos nativos de Tanna. As explicações mágicas para as cargas que caiam dos céus eram tão absurdas quanto as explicações que os hebreus deram para raios e trovões.

Por incrível que pareça, existem outras religiões nascendo no mundo moderno. Muitas delas envolvem alienígenas, abduções e revelações. Em minha próxima coluna, discutiremos uma destas religiões.

Trecho do documentário Mondo Cane (Youtube)

O início das religiões:

  1. O Culto à Carga
  2. A Cientologia
  3. Os Mórmons

A igreja, de um modo geral, sempre prosperou quanto mais poder social exerceu. Foi controlando a vida das pessoas, suas ações e pensamentos, que foram capazes de moldar a sociedade a seu gosto (duvidoso). Nas pequenas aldeias e vilas, era um trabalho razoavelmente fácil e foi uma das funções mais proeminentes da confissão individual. Até hoje, em cidades do interior de nosso país, não é difícil ver como tudo gira em torno daquela igreja e daquela pracinha.

No entanto, é muito mais difícil controlar a vida de pessoas em uma grande cidade, principalmente com a rotatividade de fieis: não dá simplesmente para decorar todos os nomes de pessoas que frequentam sua igreja, nem lembrar de seus pecados. É aqui que entram as pequenas dissidências eclesiásticas: as igrejas evangélicas e pentecostais acabam por assumir o papel outrora dominante da Igreja Católica. Elas dispõem, geralmente, de uma congregação menor, mais intimista, onde todos se conhecem e sabem da vida de todos.

É por conta desse atual cenário que, por vezes, parece haver uma discriminação maior nas igrejas protestantes. É por isso que vemos discursos mais inflamados de pastores contra homossexuais e é por isso que tantos prometem curas milagrosas para este comportamento. Não importa se a Organização Mundial de Saúde retirou a homossexualidade do seu rol de doenças[1]; para os crentes, é um desvio da obra de Deus e deve ser “curada”.

Diante de toda a opressão que o cristianismo ainda exerce sobre os homossexuais, há duas saídas principais: eles podem abandonar a igreja ou combater a própria sexualidade. Há, obviamente, diversos outros caminhos não tão radicais: desde buscar igrejas mais lenientes até fundar igrejas somente para homossexuais [2].

Aqueles que buscam respaldo na Bíblia para criticar os homossexuais encontrarão três principais passagens [3]:

“Com homem não te deitarás, como se fosse mulher; abominação é” (Levítico 18:22);

“Quando também um homem se deitar com outro homem, como com mulher, ambos fizeram abominação; certamente morrerão; o seu sangue será sobre eles” (Levítico 20:13);

“Por isso Deus os abandonou às paixões infames. Porque até as suas mulheres mudaram o uso natural, no contrário à natureza. E, semelhantemente, também os homens, deixando o uso natural da mulher, se inflamaram em sua sensualidade uns para com os outros, homens com homens, cometendo torpeza e recebendo em si mesmos a recompensa que convinha ao seu erro” (Romanos 1:26-27).

Apesar da ilusão de que católicos têm uma posição mais branda sobre a homossexualidade, o atual papa Bento XVI já deu diversas declarações que mostram exatamente o contrário: “Salvar gays é tão importante quanto salvar florestas” [4]; ou ainda “Papa critica projeto de lei britânico contra a discriminação de homossexuais” [5].

É difícil traçar um paralelo entre ateísmo e homossexualidade, mas, indubitavelmente, boa parte dos indivíduos que não busca igrejas que os aceitem como são acaba por se tornar ateia ou professar algum tipo de crença que não seja baseada no deus judaico-cristão. De qualquer forma, não é difícil perceber como o rígido controle social, em uma sociedade na qual a apostasia não é punível com morte ou segregação, pode prejudicar o número de fieis de determinada congregação.

Por mais que a religião cristã paute seus ensinamentos no sofrimento, muitos já perceberam que ele não é realmente necessário e simplesmente vivem suas vidas sem a preocupação masoquista de agradar a deus(es) preocupado(s) demais com o que se faz na vida privada.

Notas:
[1] World Health Organization. ICD-10. Disponível inglês em <http://www.who.int/c…en/bluebook.pdf> Acesso em 28. fev 2010.

[2] Igreja da Comunidade Metropolitana

[3] Bíblia. Tradução de João Ferreira de Almeida. Disponível em <http://ateus.net/art…rituras/biblia/> Acesso em 28 fev. 2010.

[4] Salvar gays é tão importante quanto salvar florestas, diz Bento 16

[5] Papa critica projeto de lei britânico contra a discriminação de homossexuais

Pensemos no caso dos direitos dos ateus. O que ateus podem exigir da sociedade? O direito de ser irrelevantes. Parece estranho, então exemplifiquemos. Um ateu pode apenas exigir que, digamos, ao ir a uma frutaria, tenha o direito de escolher o suco que bem entender, bebê-lo, pagá-lo, receber o troco, colocá-lo no bolso e partir sem ser questionado sobre os porquês de sua descrença na origem divina do universo. Sendo razoáveis, isso é tudo o que podemos esperar. Não queremos, enquanto ateus, receber descontos na compra de laranjadas, ou que se cobre mais de religiosos. Queremos simplesmente ser vistos como cidadãos comuns, que a sociedade tenha tolerância quanto ao ateísmo, de modo que o fato de sermos ateus seja tão irrelevante quanto o fato de outrem ser religioso.

No mais, se nossa descrença diz respeito à religião, só faz sentido que sejamos tratados diferentemente no que diz respeito à religiosidade. É perfeitamente lógico que não possamos, por exemplo, nos casar em igrejas ou participar de grupos de oração. Sendo ateus, aceitamos tais implicações com a maior boa vontade, pois simplesmente fazem sentido. Em tais questões não haveria sentido em exigir igualdade. Pelo contrário, seria absurdo esperar que ateus, no tocante à fé, fossem tratados como religiosos, assim como seria absurdo esperar que indivíduos feiosos fossem tratados como belos no tocante à beleza. Ateus devem ser tratados como ateus; religiosos como religiosos; feiosos como feiosos; belos como belos. Mas tudo em seu devido contexto. Nessa situação, o preconceito surgirá apenas se permitirmos que as coisas se misturem. Por exemplo, se acreditarmos que, pelo fato de um indivíduo ser ateu, também é feio. Apenas isso seria um preconceito, isto é, uma generalização indevida.

Não temos fé, e não damos a mínima se a Igreja considera o ateísmo errôneo para com os profetas. Porém, enquanto ateus, não queremos ser julgados pelo que não tem relação alguma com religiosidade. Não queremos ser forçados a mentir sobre nossas opiniões em entrevistas de emprego, durante conversas, e assim por diante. Esperamos que um indivíduo, ao declarar-se ateu, não cause espanto algum, que os demais não reajam com perplexidade, dizendo: pelos céus, ele é ateu! Ao dizer que somos ateus, esperamos que os demais recebam tal afirmação com naturalidade, sem espanto, assim como ninguém se espanta ao ouvir que certo indivíduo é católico, evangélico ou espírita. É apenas nesse sentido que entendemos a igualdade, e exigir mais que isso seria injusto para com os demais. Para percebê-lo, basta pensar do seguinte modo: para os ateus, a vida não tem sentido. Isso é problema de quem? Problema dos ateus. Se somos ateus, problema nosso, e não importa se tal fato nos entristece ou desmotiva. Isso não é culpa dos religiosos.

Agora, para ilustrar tal situação perante a sociedade, suponhamos que a consciência da ausência de sentido nos cause depressão. Isso nos dará o direito de exigir que recebamos medicação gratuita para tratá-la? Teremos o direito de exigir que a sociedade custeie a manutenção de uma instituição voltada exclusivamente aos ateus com o nobre fim de amenizar os dissabores de uma existência sem sentido? Poderemos exigir que ateus devam cumprir jornadas de trabalho mais curtas por viverem angustiados? Será justo processar um padre que se recuse a casar, perante os olhos de Deus, um casal de ateus? Podemos ser ateus, mas é ridículo exigir compensações da sociedade pelo fato de a existência não ter sentido e isso nos entristecer, e o mesmo se aplica aos demais: não podem exigir compensação da sociedade por um problema que só diz respeito a eles próprios.