Já foi dito aqui, muitas vezes, que um ateu não crê que deus não existe. Ou ao menos não que isso seja necessário para caracterizá-lo como ateu. Muitos não-ateus gostam de lembrar que os ateus também creem em alguma coisa, como se crer fosse uma atividade proibida ao grupo. Obviamente, nada impede um ateu de crer em algo que não seja um deus. Não falo aqui das crenças mais ordinárias, como acreditar que tem que estar no trabalho daqui a meia hora ou acreditar que o Brasil é banhado pelo oceano Atlântico. Darei um exemplo de uma crença muito comum entre nós, ateus, seguindo a definição mais restrita de “crença” com a qual denotamos a crença dos, vejam só, crentes.

A crença no livre-arbítrio. A crença no livre-arbítrio talvez não esteja no mesmo patamar da crença de que Jesus nasceu de uma virgem, mas está lado-a-lado com a crença na vida eterna. Não é uma crença tão ingênua quanto a virgindade de uma mãe; no entanto, com certeza é muito esperançosa. Eu acredito, ou tento acreditar, mas o meu lado cético – que está preocupado em acreditar no que é real – briga com o meu lado esperançoso – que procura acreditar no que agrada – e minha crença não fica muito definida. Óbvio que, quando me refiro a ateus, é apenas uma parcela que acredita em livre-arbítrio.

Fala-se de maneira muito leviana no livre-arbítrio, de maneira ainda mais leviana sobre “liberdade” (eu gostaria muito que os norte-americanos me explicassem que “liberdade” é aquela pela qual eles lutam; nunca entendi direito). Adianto que é um assunto “levemente pesado”, se me permitem a contradição. Já falei sobre morte, defendi que deuses não existem (ou que não é lógico acreditar neles, vale esclarecer), mas falar sobre liberdade é mais pesado. Esclarecendo, falo de “liberdade” nesse texto como sinônimo de livre-arbítrio, até porque, se o livre-arbítrio não existe, então não existe qualquer forma de liberdade. Pensar que não somos livres para escolher, para desejar, é mais incômodo do que pensar que deixaremos de existir ou que não há deus. Na verdade, perto do livre-arbítrio, questões como “deus” e “morte” parecem até brincadeira de criança.  Provavelmente não existe deus algum nos protegedo nem garantia de vida após a morte, mas  o que importa é que vivemos e que, acredita-se, ajudamos a construir um mundo melhor. Desacreditar no livre-arbítrio implica acreditar em uma existência pela qual somos meros espectadores, passivamente gostando ou odiando os eventos que se sucedem.

Pegarei um exemplo banal para ilustrar o problema. Imaginemos que você vai a uma loja e deve escolher uma entre duas camisetas. Uma delas é amarela e a outra é azul. Você escolhe a azul. Ponto. Então você sai pela rua com uma camiseta azul, satisfeito com ela, imaginando que sua escolha foi boa. Tudo muito tranquilo até agora. Então você se lembra que, dias atrás, alguém te disse que a cor azul estava na moda. Veja como isso desvaloriza a sua decisão! No fim, o que te levou a escolher a camiseta azul foi apenas uma sugestão fútil sobre tendências da moda. Você imediatamente se sente uma ovelha em seu rebanho, uma ovelha vestindo uma camiseta azul. Talvez quem te disse sobre a moda da cor azul estava se beneficiando com o estouro de vendas de camisetas azuis. Então, só para se rebelar, você decide que talvez seja melhor comprar uma camiseta amarela e dar um “não” às tendências da moda e um “sim” à livre-escolha. Mas daí você se lembra que existe algo chamado “psicologia reversa” e que talvez a intenção era justamente a de fazer você comprar uma camiseta amarela. Como um pato, você caiu e começa a pensar se um pato de camiseta amarela é tão melhor assim que uma ovelha de azul. De um modo ou de outro, a sua escolha foi determinada pela alegação de que a cor azul está na moda.

Podemos supor que ninguém nunca te sugeriu nada e você comprou uma camiseta azul por achá-la mais bonita. Mas e por que você a acha mais bonita? Por que o azul te lembra a paz? Vai ver ele te lembra a paz pois é a cor de um céu limpo, ou porque lembra o mar, praia, férias. Nesse caso, a sua escolha não foi determinada por um interesseiro; foi determinada pela lembrança do mar e do céu que algum dia lhe represetaram paz. Fato é que ela não foi determinada por você e sim pelo que aconteceu em seu passado. Nossas escolhas não nascem espontaneamente no momento em que a realizamos; elas são consequências da carga de experiências que tivemos desde que nascemos.

Tudo fica muito mais leve quando falamos de camisetas e cores. Mas é claro que a questão se estende bem além disso. Aprendemos a ter orgulho de nossas escolhas, como a escolha da faculdade certa ou da esposa certa (ou do marido certo). Fazemos escolhas que consideramos erradas e ficamos imaginando como seríamos mais felizes se tivéssemos seguido um caminho diferente. Sem o livre-arbítrio, esses orgulhos e divagações são infundados. Como folhas boiando em um rio, onde nós somos as folhas e o rio é o meio em que vivemos, podemos ir parar em um lago limpo ou em um esgoto, mas não faz sentido se orgulhar por um ou se lamentar pelo outro. Uma existência sem deus ou sem vida eterna ainda é recheada de méritos, de glórias. Sem livre-arbítrio essas coisas se perdem. Termino o meu segundo texto sobre “morte” falando sobre a importância de deixar um bom legado. Digo naquele parágrafo que o legado é a eternidade concretizada pelos atos. Mas que coisa vazia seria se os seus atos não fossem escolhas suas e sim meras consequências inevitáveis. Darwin termina sua obra-prima dizendo “Há grandeza nessa visão da vida”, se referindo à crença de que todas as formas de vida surgiram de apenas uma, muito mais simples. E ele estava certo: há muita grandeza mesmo nessa visão da vida. Há grandeza na visão de um ateu também, não tenham dúvida, de uma vida sem deuses, uma vida que é bonita por si só. Existe igual grandeza em uma vida que tem um início e um fim, que deve ser aproveitada. Mas não, não há grandeza alguma sem livre-arbítrio.

Imaginem que hoje à noite uma pessoa vai bater na sua casa e lhe trazer uma notícia. Essa pessoa veio do futuro e viu tudo. Veio lhe dizer que a sua vida será medíocre e que você não chegou nem perto de realizar algum sonho seu. Pois bem, como não existe livre-arbítrio, a sua vida realmente será medíocre; quando confrontado com a opção de seguir uma via mais laboriosa e arriscada, você inevitavelmente negará em prol de uma mais confortável. Mas, se o livre-arbítrio existe, a mensagem dessa pessoa (muito importuna, por sinal) será apenas um incentivo para você ser um grande homem ou uma grande mulher. Isso demonstra de maneira mais clara o quão a descrença no livre-arbítrio é pior do que a descrença em deus ou na vida eterna. Tão pior que, pela primeira vez, eu espero sinceramente que alguém refute o meu texto com muita categoria, para que eu possa dormir tranquilo acreditando mais convictamente na liberdade de escolher.

Bom, para terminar, sem livre-arbítrio a vida é comparável a uma montanha russa. Na montanha russa, estamos presos em carrinhos que percorrem subidas e decidas. Como na nossa vida sem liberdade, as subidas e decidas não dependem de nossas escolhas e nossas emoções são determinadas em uma interação passiva na qual você apenas sente as consequências. Bom, termina o percurso da montanha russa, cheia de subidas, descidas, loopings e parafusos – todos eles lhe causaram uma gama de emoções diferentes. Medo, felicidade, alívio ou até mesmo enjoo. Não faria mesmo sentido se te descem parabéns por ter estado no ponto mais alto da montanha russa ou te consolassem por ter passado pelo mais baixo. Ninguém te perguntaria como você fez para dar todos aqueles loopings e ninguém dedicaria uma página na Wikipédia sobre “o parafuso que você deu naquela montanha russa”. Fazemos coisas semelhantes na vida real, como parabenizar e consolar, considerando os sucessos assim como os fracassos, e a analogia com a montanha russa mostra que essas atitudes não fazem tanto sentido assim. Mas talvez uma, e apenas uma pergunta seria relevante, tanto na vida como na montanha russa:

“O passeio estava bom?”


Dentre os sistemas de crenças, o politeísmo tem um traço mais universal, mais humanizado, por assim dizer. Não há motivo aparente para que imaginemos primeiramente um só agente por trás de fenômenos tão diferentes, como a mudança das estações ou o controle patológico – ambos tão fundamentais em sociedades primitivas à mercê dos movimentos e das intempéries naturais.

Devemos levar em conta que não há saltos maiores do que a nossa imaginação pode nos dar. Mesmo as figuras mais estonteantes, como a Quimera ou o Pégaso, não passam da montagem de características de coisas ou de animais diferentes fusionadas em um só ser. Em nosso tempo, encontramos esse mesmo processo no mito do Chupa-cabras, por exemplo, ou na incrível semelhança entre os retratos falados de extraterrestres e o desenvolvimento fetal do ser-humano.

Quando examinamos as antigas mitologias que chegaram até nós, conseguimos relativamente bem destituir os mitos de todas as alegações extraordinárias para encontrarmos traços humanos relacionáveis. Mesmo sendo impossível que alguém seja tão miraculoso quanto Jesus – para citar um dos mais famosos em nossa sociedade –, podemos fazer o exercício mental de imaginarmos um agitador social endeusado pela tradição oral.

O monoteísmo, portanto, parece advir de um pensamento abstrato mais pormenorizado, que tira dos mitos a maior parte das características relacionáveis. Invariavelmente a figura central continua com traços antropomórficos – como o cuidado paternal ou a liderança tribal –, mas se torna impossível realizar o mesmo exercício mental que faríamos com os deuses gregos, como Zeus ou Apolo.

Isso não quer dizer, contudo, que o deus bíblico seja monoteísta desde suas origens. Há boas razões para acreditar que os relatos orais do antigo testamento deem conta de uma monolatria, isto é, o reconhecimento de outros deuses com o monopólio de adoração, como o segundo mandamento nos faz interpretar: “Não terás outros deuses diante de mim” (Êxodo, 20:3). Assim, muito mais do que refinamento teológico, o deus abraâmico surge como brilhante estratégia política para manter a coesão interna de um grupo nômade e para minar a influência externa sobre sua tribo.

É muito depois, com os teólogos medievais, que a ideia atual do monoteísmo cristão começa a se desenvolver, mas não sem seus ajustes. Grande parte da tradição católica foi incorporada dos mitos pagãos da Europa, gerando um panteão extraoficial no que deveria ser centrado em um só deus. Há toda uma variedade de santos, beatos e outras classes hierárquicas que podem interceder pelos fieis e a quem se atribuem milagres.

“Não são deuses”, afirmariam os apologéticos. No entanto, é óbvio que não faz diferença alguma como o grupo deseja nomeá-los. Fato é que têm todas as características dos mesmos deuses e semideuses que habitaram os panteões politeístas. Também não procederão as alegações das ramificações evangélicas ou protestantes de que isso é uma falha católica, pois a própria noção da trindade demonstra arquétipos politeístas.

Também não procederão porque pululam os exemplos – ambos no antigo e no novo testamento – de homens comuns com poderes miraculosos, desde Moisés e os antigos profetas, até os apóstolos evangelizadores e Paulo. São vistos como emissários divinos com a missão de espalhar as boas novas ou simplesmente reafirmar a fé no deus ausente em corpo, mas o eufemismo não consegue disfarçar os traços politeístas da tradição oral.

Chegamos, então, à visão abstrata do deus único, mas ele não é mais a expressão das crenças primitivas em agentes; é, ao contrário, o trabalho de teólogos e de filósofos que dedicaram seu tempo a fim de conciliá-lo com as descobertas subsequentes, tentando fiá-lo à lógica e à metafísica. Não é por acaso que essa versão racionalista não tem apelo massivo, pois de que adiantaria rezar pela intercessão de uma figura que não nos atenderá ou que, dependendo da base teórica, sequer é senciente?

Na história da teologia, portanto, passamos de deuses interventores a deuses que apenas impulsionaram o início de tudo. Obviamente, o fato de postularmos apenas um deus como o agente por trás do começo de tudo deve-se muito mais à herança cristã do que a conclusões filosófico-teológicas. Assim, resolvemos – em parte – a questão da reza, mas não a da reverência; e muito menos resolvemos a questão do politeísmo popular: se antes era cultuado em altares próprios a deus(es), hoje reside na cabeça de cada crente em sua abstração conceitual.

Privados de uma definição concreta e sem aderir ao escrutínio teológico, cada fiel cria o seu próprio deus, selecionando características convenientes sem abrir mão da palavra plurissignificativa, pois ela mantém o grupo coeso sob a crença em deus(es), não importando o quão diferentes sejam. Evidentemente, continuam fora – e vistos com os piores olhos possíveis – aqueles que simplesmente não criam ou não creem em figuras transcendentais.

***

Para saber mais, sugiro a análise de James Fieser sobre os textos de Hume – além dos próprios textos, é claro – que tratam do assunto. O artigo está disponível em inglês no endereço http://www.iep.utm.edu/humereli/#H2. Último acesso em 15 fev. 2011.


por Isaias Puccinelli

Bacharel em letras e em ciência, doutor em medicina, poliglota (falava o alemão, o inglês, o italiano, o espanhol e o holandês), filósofo e autor de inúmeros trabalhos acadêmicos.Nada disso impediu que o senhor Dennizard Hippolyte Léon Rivail ficasse maravilhado pela comunicação com os espíritos.

Para quem não reconheceu, esse era o nome real de Allan Kardek, cidadão francês que estudou os fenômenos ditos sobrenaturais nos idos de 1854. Com formação científica isenta de questionamento e vivência no meio acadêmico, é de surpreender que esse homem tenha se apaixonado – sim, paixão – pelo objeto de seus estudos, a ponto de considerar como autêntico o “fenômeno das mesas e cadeiras girantes, que pulavam e corriam, e isso em tais condições que não era possível nenhuma dúvida” (SAUSSE, p.5).

Lendo sua biografia, fica muito difícil imaginar uma pessoa com o seu currículo caindo no misticismo da comunicação com espíritos, chegando até mesmo a escrever falácias em suas obras, como a encontrada no Livro dos Médiuns (comentários e grifos meus):

Façamos abstração, por um momento, de fatos que, para nós, tornam a coisa incontestável… Pedimos que os incrédulos nos provem, não por uma simples negação, porque sua opinião pessoal não pode instituir-se em lei, mas com razões peremptórias, que isto [a comunicação com espíritos] não seja possível” (KARDEK, p.30).

Não satisfeito em solicitar o abandono de fatos que vão contra sua nova ciência, ele prossegue (grifos meus):

“Colocamo-nos em seu terreno e, já que eles [os incrédulos] querem apreciar os fatos espíritas com o auxílio das leis da matéria… Provem por a mais b, sempre partindo do princípio da existência e da sobrevivência da alma…” (KARDEK, p. 30).

Isso demonstra a imparcialidade esperada pelo uso do método científico? Ou seria mais próximo de uma defesa apaixonada em prol da aceitação de uma “ciência” que apenas os místicos lutam para que seja aceita como verdade?

Não obstante a falta de provas da existência de espíritos, ele, na figura do responsável pelos estudos e pelas experiências a respeito do sobrenatural, ainda justifica que os incrédulos em sua teoria é que deveriam provar que a comunicação entre espíritos e humanos não ocorria e propôs nove questões para os céticos:

1º. Que o ser que pensa durante a vida não deve mais pensar durante a morte;

2º. Que, se ele pensa, não deve mais pensar naqueles que amou;

3º. Que, se pensa naqueles que amou, não deve mais querer se comunicar com eles;

4º. Que, se pode estar em toda a parte, não pode estar ao nosso lado;

5º. Que, se pode estar ao nosso lado, não pode comunicar-se conosco;

6º. Que, por seu invólucro fluídico, ele não pode agir sobre a matéria inerte;

7º. Que, se ele pode agir sobre a matéria inerte, não pode agir sobre um ser animado;

8º. Que, se pode agir sobre um ser animado, não pode dirigir sua mão para fazê-lo escrever;

9º. Que, podendo fazê-lo escrever, não pode responder as suas perguntas e transmitir-lhe o seu pensamento.

Notem que não quero entrar na discussão da doutrina espírita, muito menos provar que espíritos não existem – (isso me parece inviável, de qualquer forma) –. O que quero demonstrar é o abandono da crítica racional em troca de um pensamento místico desesperado, que parte de suposições nunca provadas e pede cinicamente uma prova contrária.

Essa mudança de 90º do modo de pensar do Sr. Rivail o transformou em Allan Kardek e levou muitas pessoas a falarem aos quatro cantos do mundo que o espiritismo era uma ciência. E ainda por cima uma ciência provada, testada e nunca derrubada (deve ser muito difícil mesmo derrubá-la, pois, segundo Allan Kardek, os espíritos não respondem quando são propostos testes…).

Parece que o Sr. Rivail foi ludibriado por pessoas de má-fé, que, vendo na figura deste homem da ciência uma oportunidade de ganhar prestígio, o enganaram. Tendo abandonado seus trabalhos verdadeiramente científicos em prol de um estudo sério sobre a existência de espíritos, abandonou por completo sua crítica imparcial, abraçando até à morte sua paixão mística (sem nunca ter provado nada).


Bibliografia

KARDEK, Allan. O livro dos espíritos. In: KARDEK, Allan. O caminho da verdade. São Paulo: Opus, [19–].

KARDEK, Allan. O livro dos médiuns. In: KARDEK, Allan. O caminho da verdade. São Paulo: Opus, [19–].

SAUSSE, Henri. Bibliografia de Allan Kardek. In: KARDEK, Allan. O caminho da verdade. São Paulo: Opus, [19–].


(artigo recebido em 26 de janeiro de 2011)

Nota: para participar como autor ad hoc, envie seu texto para udmg@ateus.net. O material ficará disponível a todos os membros titulares para peer review e estará sujeito a críticas e sugestões antes de ser publicado (em data que seguirá a ordem de recebimento dos materiais). Para maiores informações a respeito, faça aqui o download do ‘Guia de padronização’, em formato PDF.


Às 10:23 da manhã do dia 05 de fevereiro, vários céticos, em várias cidades de diferentes países do mundo, se reuniram para ingerir medicamentos homeopáticos no que seria, caso seus princípios fossem verdadeiros, uma overdose. Juntei-me ao protesto na cidade de Natal, acompanhado de Igor Santos, do Science Blogs.

Igor Santos e Jairo Moura, antes da "overdose"

Dividimos um frasco de 360 bolinhas adocicadas de Arsenicum Album com diluição de 30CH. É a diluição recomendada por Hahnemann, criador das leis da homeopatia, e significa que existe 1 molécula do princípio ativo para cada 1060 moléculas de solvente. Não fosse isso, teríamos realmente morrido, pois é uma substância altamente tóxica.

Tomei pouco menos da metade dos comprimidos e, mais de um dia depois, asseguro que não fui acometido por nenhum sintoma ou quaisquer efeitos colaterais. É claro que é exatamente o resultado esperado e não buscávamos com isso comprovar experimentalmente que a homeopatia não funciona, pois os trabalhos científicos e as meta-análises já deram cabo do assunto.

O propósito da manifestação era mais pedagógico, pois a maior parte da população sequer sabe como funcionam os princípios homeopáticos e como são preparados os medicamentos. E, para a minha surpresa, também descobri que havia facetas que desconhecia na indústria homeopática.

O Laboratório Homeopático Almeida Prado é, certamente, o mais conhecido dessa indústria e trabalha com diluições bem abaixo daquela indicada por Hahnemman, nomeando seus produtos com números, como em uma franquia de sanduíches. Ao ler a bula do medicamento 46 – indicado como laxante –, vemos na composição que cada comprimido contém: Cássia senna 1DH 0,020 g; Polygonum punctatum 1CH 0,015 g; Collinsonia canadensis 1CH 0,015 g; e Picossulfato de sódio 0,005 g.

Reparem que todos os compostos estão diluídos em escalas Hahnemanniana decimais (DH) ou centesimais (CH), exceto pelo Picossulfato de sódio – e é exatamente o que faz a diferença. É o mesmo princípio ativo encontrado no remédio “alopático” para problemas de prisão de ventre. Um exemplo deles é o Guttalax, que contém 7,5 mg/ml da substância (o equivalente a 15 gotas).

Frasco vazio de Arsenicum Album 30CH

Convertendo a concentração do similar homeopático, encontramos 5 mg em cada comprimido e a recomendação da bula é que se tomem dois por noite, gerando um total de 10 mg por dose. O Guttalax recomenda o uso para adultos de 10 a 20 gotas, com um total entre 5 a 10 mg de princípio ativo ingerido. Trocando em miúdos, os dois possuem aproximadamente a mesma concentração para o que se recomenda tomar por vez.

Então isso quer dizer que a homeopatia funciona? Pelo contrário! Quer dizer que engana-se quem toma o remédio 46 (e outros da Almeida Prado) com a ideia de tratar-se com remédio homeopático. Se ele funciona, é porque não segue os princípios homeopáticos de diluição ao extremo para o que realmente importa e gera efeitos no organismo.

Obviamente, o remédio não foi ingerido em doses além das recomendadas e nem foi sugerido que qualquer participante da manifestação o fizesse. Os medicamentos usados no protesto foram aqueles altamente diluídos, pois seriam, de acordo com a hipótese homeopática, os mais eficientes.

 

Para saber mais:

Bule Voador – ótima cobertura sobre o evento e textos sobre a homeopatia.

Desafio 1023 – página oficial do desafio 10:23 no Brasil.

Overdose homeopática – vídeo-diário de Igor Santos.


Há basicamente três correntes do ceticismo – a saber, o religioso, o filosófico e o científico. Dentre as três, o ceticismo científico é o sinônimo mais comum para aqueles que autodefinem “céticos”. Diz-se da pessoa que questiona as suas crenças com base no entendimento científico. Assim, as alegações passam a ser analisadas e consideradas verdadeiras se puderem passar por testes empíricos.

Resumindo assim, é impossível ser completamente cético. Há uma série de alegações que não podemos testar empiricamente e que, mesmo assim, tomamos por verdadeiras. E não falo aqui de testarmos nós mesmos todas as alegações possíveis, pois seria inviável tornar-se sapiente o bastante para empreender testes em determinadas áreas que exigem um aprofundamento que leva um bom tempo de nossas vidas.

Para as alegações do grupo testável e que não podemos testar nós mesmos, confiamos nos profissionais em suas respectivas áreas e nos fiscais de seus trabalhos. É aqui que entra um novo significado de ceticismo mais condizente com uma sociedade baseada na informação: devemos ser cautelosos e prudentes na escolha das fontes que nos informam. Não há ideia extravagante que não encontre excêntricos dispostos a defendê-la.

Enquanto a ciência simplesmente ignora alegações sobrenaturais ou paranormais, o manto de arrogância lhe é inevitavelmente associado pelos defensores de tais práticas. Não entendem eles que suas alegações escapam ao escopo empírico e que provas anedóticas não satisfazem o desejo legítimo de conhecer. Nem percebem a faceta tendenciosa de suas publicações autoafirmativas.

São – na falta de melhores palavras – pessoas desinformadamente informadas, que buscam somente as fontes que corroboram suas crenças íntimas e que as acham por um preço módico, mas nem sempre. Esconder ou ignorar as teses contrárias é um claro sinal de como as nossas crenças podem nos tornar os canalhas que não somos em outras tantas ocasiões. Que não entendam com isso, todavia, uma equivalência entre fontes científicas e folhetins apologéticos.

Não se trata de um simples apelo à autoridade, mas da aplicação do que se entende por ceticismo em nossos tempos com uma abordagem prática às fontes nas quais buscamos conhecimento. Uma verdadeira fonte científica dá detalhes sobre a metodologia, apresenta as teses concorrentes, bem como descreve os procedimentos, e qualquer um pode repetir os passos e comprovar o resultado por si. Em contrapartida, as “alternativas” à ciência comumente se baseiam em reduzi-la à ignorância e a argumentação não passa de autovitimização.

Ao invés de comprovarem que suas práticas funcionam através de procedimentos, limitam-se a repetir lamentos sobre como são ignorados pela ciência, comumente taxada de “preconceituosa” e “limitada”. Fazem crer que há uma conspiração mundial entre os cientistas para que pesquisas não sejam realizadas e, quando feitas, que os resultados sejam abafados. No entanto, quando há as pesquisas e os resultados são divulgados, resta-lhes ainda explicar por que a conclusão não lhes é favorável, geralmente alegando um interesse escuso que não sabem dizer exatamente qual.


Repórter: Então, você alega ser clarividente, que pode prever o futuro?

Entrevistado: Exatamente, eu prevejo o futuro.

[Repórter estapeia o entrevistado]

Repórter: E isso aqui? Conseguiu prever? Como podem ver, não precisa de muito para desmistificar um charlatão.

Diálogo transcrito de um teste cético em uma versão humorística. Talvez não tão cômicas quanto as possíveis desculpas, caso fosse um teste verdadeiro. É assim com a maioria das alegações pseudocientíficas.

Kentaro Mori, editor do portal ceticismo aberto, é o coordenador nacional de uma demonstração que tentará fazer algo parecido contra as alegações da homeopatia. A campanha 10:23 teve início no Reino Unido e já tem a participação de mais de 10 países.

Os participantes do protesto tomarão caixas inteiras de remédios homeopáticos a fim de demonstrar sua ineficácia. Funcionassem realmente, as doses ingeridas seriam suficientes para matá-los por overdose.

Tudo acontecerá na manhã do dia 05 de fevereiro de 2011. O endereço oficial da campanha no Brasil é http://1023.haaan.com/. Aos interessados, busquem os meios hábeis de participar e, caso participem, mandem fotos para udmg@ateus.net para que as publiquemos.



Muitos dos esforços que mais conseguiram progredir em determinadas áreas dizem respeito à organização de um método capaz de resolver os problemas com os menores gastos de tempo e energia possíveis. Uma vez encontrado, um trabalho dispendioso e errático pode ser executado de maneira rápida e reprodutível. É assim com o método que Henry Ford implementou na indústria automobilística, só para citar um caso que mudou drasticamente o modo de produção.

Nas ciências, podemos destacar Aristóteles e seu método analítico e classificatório como o grande propulsor da biologia, por exemplo, bem como é de seu mérito a organização de uma gramática como a conhecemos e estudamos até hoje nas escolas. Mas é Descartes – junto com outros nomes como Bacon – quem nos dá a maior contribuição nesse sentido, pois seu método é, para todos os efeitos, uma forma de aprender a aprender.

Longe de qualquer coincidência, os princípios cartesianos são uma forte base para o método científico da forma como é atualmente concebido. Os passos de Descartes podem ser descritos em quatro conceitos: evidência, análise, síntese e recordação. Em resumo, devemos partir do fato, desmembrando-o em partes e vendo o que apresenta em comum sem negligenciar ou omitir qualquer informação.

Sabemos de nossas limitações e não é – como muitos fazem parecer – fraqueza admiti-las. Pelo contrário: é quando as abraçamos que podemos superá-las. Eis a função do método: retirar ao máximo as falhas de nossas avaliações pessoais e dar às nossas observações um caráter impessoal e despido, na medida do possível, de todos os mecanismos evolutivos que possuímos que são, muitas vezes, obstáculos para o conhecimento.

Ainda assim, é difícil dissociar ciência de cientista. No entanto, apontar erros do segundo grupo de modo algum invalida os méritos da instituição científica. Em primeiro lugar, porque é a mesma instituição que tem a função de desmascarar os erros provocados por seus membros – e não é com menor orgulho que o faz. Mesmo publicações periódicas indexadas podem ser ludibriadas por pessoas inescrupulosas, mas é usando o método que encontrarão as fraudes.

Ergo, a construção do método é uma tarefa empírico-filosófica de maior importância. É empírica porque precisa descrever e ser capaz de manipular os fenômenos observáveis da melhor forma possível – é sua raison d’être. E é filosófica porque, até onde lhe é permitida, é puramente especulativa – um produto de nosso pensamento abstrato. É, sem a menor das dúvidas, a criação da maior das ferramentas para satisfazermos a nossa propensão natural à curiosidade com o devido cuidado de selecionar as respostas mais satisfatórias e fiáveis.

E não é com menor admiração que estudos neurológicos começam a nos mostrar que o próprio cérebro trabalha de forma semelhante: nossa massa cinzenta não é somente responsável por processar informações de forma passiva, mas elabora hipóteses que serão testadas com os estímulos captados pelos sentidos. E a razão disso parece ser óbvia: realizar a tarefa com o menor dispêndio.

Observou-se menor atividade neural quando o estímulo visual pertence a um contexto previsível. Em outras palavras: o cérebro tenta antecipar o estímulo sensorial para operar com maior economia. Para entendermos com um exemplo: o cérebro cria a hipótese de encontrarmos a nossa televisão onde sempre esteve na sala-de-estar e terá menor atividade pela sua confirmação se comparado ao resultado inesperado de vermos um objeto diferente – ou mesmo a falta de um objeto – em seu lugar.

De modo algum existe a alegação de que a ciência é perfeita ou imune a críticas. Seu método pode ser melhorado? Por princípio, tudo pode. Os limites parecem ser aqueles que emergem das propriedades definidas no objetivo – e os da ciência dizem respeito ao que é passível de observação e reprodução controlada. Parece pouco, mas dificilmente encontraremos fenômenos realmente importante que estejam fora de seu escopo.


Referências:

ALINK, Arjen. SCHWIEDRZIK, Caspar M. et al. Stimulus Predicability Reduces Responses in Primary Visual Cortex. The Journal of Neuroscience, Washington, 2960, pp. 2960-2966, fevereiro de 2010. Disponível em: <http://www.jneurosci.org/cgi/reprint/30/8/2960.pdf>. Acesso em 10 jan. 2011. [em inglês]

ARISTÓTELES. Metafísica. Disponível em: <http://remacle.org/bloodwolf/philosophes/Aristote/tablemetaphysique.htm>. Acesso em 10 jan. 2010. [original grego com tradução para francês]

BACON, Francis. Novum organum. Disponível em: <http://temqueler.files.wordpress.com/2009/12/francis-bacon-novum-organum.pdf&gt;. Acesso em 10 jan. 2011. Do original latim Novum organum scientiarum (1620), disponível em <http://ia700402.us.archive.org/5/items/1762novumorganum00baco/1762novumorganum00baco.pdf>. Acesso em 10 jan. 2010.

DESCARTES, René. Discurso do método. São Paulo: Martins Fontes, 2009. 4. ed. Também disponível em: <http://ateus.net/artigos/filosofia/discurso-do-metodo/>. Acesso em 10 jan. 2011. Do original francês Discours de la méthode (1637), disponível em <http://s3.amazonaws.com/manybooks_pdfLRG/descarte1384613846-8pdfLRG.pdf>. Acesso em 10 jan. 2010.

LAKATOS, Imre. Ciência e pseudociência. Disponível em: <http://ateus.net/artigos/ceticismo/ciencia-e-pseudociencia/>. Acesso em 10 jan. 2011.

POPPER, Karl. Como a ciência evolui. Disponível em: <http://ateus.net/artigos/filosofia/como-a-ciencia-evolui/>. Acesso em 10 jan. 2011.


Por conta de um aplicativo que nos retorna todos os saites que colocam ligações até aqui, recebi a notícia de que o Portal Diante do Trono usara uma das imagens de nossos arquivos – a saber, Darwin com um dedo na boca em sinal de silêncio – para ilustrar uma série de textos sobre a temática evolução vs. criação.

Visitei o portal e fiquei surpreso por não haver indicação da fonte. Usei, então, os comentários da postagem para pedir os devidos créditos e me dispus a colocar ligações para a série neste espaço. Ofereci também a oportunidade para que usassem quaisquer dos nossos vários textos que abordam o assunto.

À espera de uma resposta, qual não foi minha surpresa ao notar que, não só não fui devidamente respondido, mas também meu comentário fora apagado sem violar quaisquer das regras expressas.

Dessa forma, ao invés de dar aos leitores a chance de ler textos não apologéticos sobre o assunto, percebo que a intenção não era que eles pudessem “consultar, opinar e formar suas próprias conclusões sobre um tema muito polêmico, mas ao mesmo tempo importante”, mas tão-somente selecionar fontes que corroborem a conclusão inicial.

Para ilustrar, vejamos o primeiro comentário, que foi editado para retirar a formatação em caixa alta:

“É muito bom defendermos a palavra de Deus. Sou formada em história e nunca deixei que essas falsas teorias me afastassem do amor de Jesus. Quando dou aula para meus alunos, procuro fazer com que eles parem e pensem sobre suas próprias origens, e, assim a maioria acabam aceitando que fomos criados à imagem e semelhança de Deus. Deus seja louvado!!!
Kelly Linhares”.

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