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Falei sobre um tipo específico de agnóstico em meu último texto. Agora falarei do agnosticismo como um todo, pois parece que eu fiquei devendo uma discussão mais ampla sobre o tema. Para início de conversa, já vou adiantando que existe um pouco de dificuldade em elaborar em grupo de agnósticos. Ao passo que o time dos “sem opinião”, que constitui agnósticos radicais e incômodos, formavam um plural bem definido, “agnóstico” é um termo que define muito pouco. Até mesmo “ateu”, um epíteto que pode ser concedido a praticamente qualquer tipo de pessoa, ao menos é objetiva quanto ao seu significado. “Ateu” é o descrente em deus, é claro. Mas e o “agnóstico”?

Não é à toa que, em meu último texto, eu defini “agnóstico” como aquele que admite não possuir conhecimento. “Admitir” é a palavra que faz toda a diferença nesse caso. Não se trata apenas de uma visão do mundo, mas do reconhecimento do óbvio. Somente alguém muito simplório acreditaria que possui conhecimento pleno sobre determinado assunto. Ou total conhecimento para defender racionalmente uma posição convicta e que dispensa qualquer debate acerca da existência de deus. Ou seja, a definição mais ampla de “agnóstico” inclui um número consideravelmente grande de pessoas. E poderíamos dividir as pessoas em agnósticas e fanáticas. Lembrando que essa divisão consideraria apenas se o indivíduo admitiria ou não a sua inerente falta de conhecimento, e não a falta de conhecimento em si.

Isso já é um problema. Se o agnóstico é apenas alguém não fanático, então é um termo um tanto quanto inútil. Eu seria um agnóstico. Seria um descrente em deus disposto a debater o assunto. Mas não vamos nos limitar à etimologia da palavra. É evidente que as palavras carregam o significado que os seus falantes dão a elas. Mesmo que “agnosticismo” seja a derivação do grego “a” (ausência) e “gnosis” (conhecimento) é um tanto óbvio que a palavra carrega um significado além destes. Existe outra definição, na qual “agnosticismo” consiste em crer que a razão jamais pode ou poderá ser usada para compreender assuntos de cunho sobrenatural. Muito sensato, na verdade. Algo muito parecido com a ideia de “magistérios não sobrepostos de Gould”, segundo a qual seria inviável se utilizar de métodos científicos e racionais para compreender questões de natureza teológica.

Essa definição também me incluiria como um agnóstico. Na verdade, muitas pessoas acham que eu deveria me autointitular “agnóstico”. Mas eu me pergunto se é porque o epíteto faz mais jus às minhas ideias, ou se é a ideia de “ateu” que as incomoda muito. O que me leva a pensar que o termo nasce da aversão que a sociedade tem ao ateu. Muito mais do que simplesmente admitir a dúvida ou acreditar que um debate racional sobre a existência deus é infrutífero, o termo “agnóstico” aparece para se diferenciar da idéia estigmatizada de “ateu” que muitos (infelizmente) têm até hoje. Pois não seria a dúvida uma forma de descrença? Não vou repetir aqui a analogia da porta e do leão que usei no meu texto anterior, pois lá ela aparece exaustivamente. Mas ela não é necessária. Fica apenas essa reflexão para os que acham que “dúvida” é algo a meio caminha da “crença” e da “descrença”.

No vocábulo popular, é claro, agnóstico é aquele que não defende nem a existência de deus, nem o contrário. Neste momento, eu deixo de ser agnóstico, pois acho que a questão está um pouco mais resolvida do que parece. O agnóstico acaba sendo visto como alguém que não ataca nenhuma das ideias, mas é morno demais. Não chove nem molha. Exceto é claro, o timinho dos “sem opinião”, que fazem questão de incomodar todo mundo com suas ideias irrelevantes. Eu sou daqueles que vê a maioria dos agnósticos como pessoas em estado de eminente ateísmo. “Agnosticismo”, visto de maneira prática, pode ser interpretado como estado de transição. Mas não da transição entre a crença e a descrença. Trata-se do desenvolvimento do ateísmo ou teísmo dentro de uma mente indecisa.

Em se tratando de plurais, os agnósticos formam um grupo bastante heterogêneo. No mínimo tão heterogêneo quanto nós, ateus. Antes que o meu texto seja mal interpretado, não chamo os agnósticos, todos eles, de “sem opinião”. O time dos “sem opinião” se refere a um grupo dentro do grupo. Um tipo particular de agnóstico muito comum e muito irritante.

Antes de falar deste grupo, vou falar dos agnósticos no geral. Agnóstico é aquele que admite não possuir conhecimento o suficiente para ter convicção de que deus existe, ou de que ele não existe. Agora, se você é um leitor esperto, deve ter percebido que “ateísmo” e “agnosticismo” não são posicionamentos excludentes dentro de uma mesma mente pensante. Não acreditar em algo não significa ter convicção de que este algo não exista. Eu mesmo sou um ateu, e posso ainda ser definido como agnóstico. Mas vá explicar isso para o pessoal “sem opinião”…

Mas quem são esses gajos, afinal? Bom, para começar, todos se definem como agnósticos. Eles o fazem de tal modo que fica fácil criar uma aversão (injusta) aos agnósticos em geral, mesmo que esse grupo possua pessoas muito mais lúcidas que a média da população. O diferencial do time dos “sem opinião” está, obviamente, no esforço destes em não tomar partido algum na questão da existência de deus(es).
Esses agnósticos se baseiam em certas premissas, todas equivocadas.

A primeira delas. “Descrer na existência de deus é crer convictamente que este não existe”.  Falso. Existe a crença e a descrença. Assim como existe a convicção. Crer em alguma coisa é agir sob o pressuposto de que esta coisa exista. Descrer é o oposto. Crer convictamente é ignorar qualquer evidência que derrube a sua crença.

Para ilustrar esse exemplo, imagine uma porta. Agora eu lhe digo que, atrás desta porta, existe um leão faminto que não vai pensar duas vezes antes de devorá-lo. A questão é que você quer abrir essa porta. Existem duas escolhas. Você crê no que eu digo, ou descrê. Logicamente.
A crença de que o leão existe vai se refletir nos seus atos. É muito improvável que você vá incauto em direção à porta, sendo que você acredita na existência do leão espreitador. Certamente você sequer se aproximará da porta, ou caso vá em direção a ela, o fará com muita cautela. Isso é a crença, no seu modelo de mundo, o leão está lá, e é sensato tomar bastante cuidado.

Você pode descrer. Neste caso você abrirá a porta sem o menor receio. Ou talvez com um pouco de receio, é verdade, mas ainda assim abrirá. Você pode discutir comigo, tentar ser razoável. Um leão atrás da porta emitiria algum barulho, ou mesmo calor. Ou poderia me perguntar, e seria uma pergunta muito pertinente: “o que um leão estaria fazendo atrás daquela porta, afinal?”. Eu poderia inventar qualquer coisa. Poderia até mesmo dizer que um simples humano como você não seria capaz de compreender as minúcias da fome do leão.

Uma crença convicta no leão seria se, mesmo sem qualquer evidência a favor do bicho, você ainda ficasse com medo. Impediria qualquer um de se aproximar da porta e gritaria aos quatro cantos que “ali tem um leão!” e que “todos deveriam se manter afastados da porta o máximo possível!”. Poderia também crer convictamente que o leão não está ali, o que é diferente de simplesmente descrer. Porque você ignoraria a priori qualquer evidência corroborando o leão faminto.

Esse equívoco manifesta-se de maneira mais óbvia na seguinte afirmação, muito comumente pronunciada por este subgrupo peculiar de agnósticos:
“Eu não acredito, mas eu também não desacredito.”
Uma pérola, em minha opinião. Assemelha-se a dizer “Eu não conheço, mas eu também não desconheço.” ou “Eu não confio, mas também não desconfio.”! No entanto, é muito normal ler ou ouvir essa frase em discussões por aí afora. De maneira geral, eu tomo essa frase como um diagnóstico de que o sujeito em questão faz parte mesmo do timinho dos “sem opinião”.

A outra premissa é a de que crer e descrer em deus(es) são posições de mesmo mérito intelectual. Discordo totalmente.
Peguemos o exemplo do leão atrás da porta. Qual a chance de ter um leão atrás da porta, sendo que você está em um recinto fechado, dentro de uma zona altamente urbanizada, com um oceano atlântico te separando da savana africana? Cinqüenta por cento? Certamente que não. Fica óbvio que a crença e a descrença, neste caso, não fazem parte de extremos opostos de igual plausibilidade. Pois bem, o mesmo acontece com deus. Quais são as evidências de que existe algum deus? Eu desconheço. E isso que eu já li muita coisa, das mais absurdas às mais sofisticadas defesas da existência do “papaizão”.

O religioso fanático tem uma visão romantizada das coisas. Visão essa na qual o mundo é um palco e o seu teste de fé é negar a realidade, sonhar com o além-vida e converter os infieis para a sua crença. O ateu fanático também vê as coisas de maneira exagerada. Sendo ele o paladino defensor da razão, a única virtude que um ser humano pode ter. Assim como esses dois, o agnóstico também pode ser fanático. Evidentemente, é esse o caso dos “sem opinião”. Eles também têm uma visão romântica do mundo, em que este está em uma guerra ideológica entre teístas e ateus e eles, os agnósticos, são os únicos seres sábios e iluminados que se distanciaram desse conflito para pensar livremente a respeito do mundo. Todos os três exemplos de fanáticos se mostram como pessoas simplórias. Estão sempre na constante tentativa de se destacar dos demais, colocando todos no mesmo saco e eles, como seres acima de qualquer debate.

Mas tem algo pior no time dos “sem opinião”. Uma desvantagem adicional. Ao passo que ateus e teístas, mesmo os fanáticos, têm ao menos sobre o que se posicionar, os “sem opinião” sequer têm isso. Como eu disse anteriormente, é um esforço constante em não tomar partido. São pessoas inteligentes o suficiente para admitir que religiosidade e racionalidade não conseguem conviver juntas. Percebem que deus é algo que foge à lógica e à razão. Mas têm medo de admitir que não acreditam em deus. Claro, pois, se algum deus existir, eles estarão seriamente lascados.

Não ter opinião é algo perdoável somente sob o estado da ignorância. Mas à medida que nos informamos mais sobre um assunto, é recomendável nos posicionarmos. Ter opinião não é sinal de fanatismo, mas sim de sinceridade frente aos seus conhecimentos. De que adianta termos conhecimento, se não colaboramos para melhorá-lo?