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E se eu dissesse que, dentro de uma semana, uns primos seus do interior te visitarão em casa. Sete dias depois aparecem uns chimpanzés. Qual a sua reação? Vai recebê-los com comes e bebes ou vai mandá-los para um zoológico? Pense bem, pois os seus primos vieram diretamente do interior da África só para restabelecer laços familiares enfraquecidos há mais de 4 milhões de anos¹. Você e os seus primos, unidos por um casal de antropoides, que recordações vocês teriam dessa época de vacas magras? Um ramo da família ficou pelas florestas da África e o outro pretende conquistar o mundo.

Bom, se você é um teísta bitolado, deve ter odiado essa minha situação hipotética. Meu texto é endereçado a esse público, teístas e criacionistas reacionários que rolam de rir com a idéia de um suposto parentesco entre nós, humanos, e o resto dos primatas. Uma coisa que você, criacionista, não percebe é que a sua casa está cheia de primos. Até mesmo o seu intestino está cheio deles. No seu almoço você deve ter devorados alguns.

Não, não existem chimpanzés morando no seu intestino ou no seu prato (assim eu espero). Falo de primos ainda mais antigos. Se o seu almoço foi um bife, saiba que você divergiu da sua comida cerca de 85 milhões de anos atrás¹. Mas, se você é um vegan, então você e seu almoço estão separados por muito mais tempo. A data é imprecisa, mas é superior a um bilhão de anos. Tudo família.

Eu falei tudo isso para deixar clara uma coisa. A teoria da evolução não é sobre humanos evoluindo de macacos é algo muito mais amplo. Ela é ainda mais incorreta ser for interpretada como os humanos descendendo de macacos atuais (e não de primatas extintos, que seriam os ancestrais comuns a humanos e chimpanzés, por exemplo). Mas os macacos, os humanos, ou mesmo todos os primatas são meramente uma pequena parte do objeto de estudo que seria toda a biosfera, seus componentes vivos e seus ancestrais (compondo o que chamamos de “Árvore da Vida”).

Clássica caricatura de Darwin

É aí que entra a falácia do texto. Fazendo um retrospecto, no meu primeiro texto eu falei da falácia da abiogênese, um erro advindo da falta de clareza com que a biologia é ensinada nas escolas. Depois eu fui para a falácia da convergência de características, provinda de uma idéia errada na qual a evolução é essencialmente aleatória e de que essas características são praticamente iguais. A terceira falácia citada é a mais suja e polêmica de todas e diz que evolucionismo e nazismo andam de mãos dadas. Na quarta eu lidei com a evolução apresentada na mídia em massa e como isso reflete a visão das pessoas sobre a teoria. Nesta última, a falácia mais clássica de todas é a do homem surgindo do macaco. Traduzindo essa última falácia em apenas uma pergunta, muito difundida e freqüente: “Você acredita que viemos dos macacos?”.

Provavelmente você, criacionista ao qual me dirijo, já deve ter perguntado isso a muitas pessoas. Outra frase muito recorrente é: “Eu não acredito na evolução, pois não acho que o homem tenha se originado de macacos.” O que eu posso dizer é que essa afirmação está completamente equivocada em diversos graus.

O primeiro erro eu já deixei bem claro. Evolução não se trata apenas da origem do homem, portanto, não serei repetitivo. O segundo erro, como eu já disse no quarto parágrafo, depende do que você entende por “macaco”. Se a sua idéia é um macaco que você viu no zoológico ou na televisão, então devo dizer que está enganado. Os macacos atuais são tão ancestrais seus como você é ancestral do seu priminho de dois anos. Ou seja, vocês são parentes, unidos por um ancestral comum que, no caso do primo de dois anos são o vovô e a vovó; no caso dos macacos são vovôs e vovós de espécies extintas há milhões de anos, mas um não é o ancestral do outro.

É muito interessante notar o quão difundida é essa falácia. O motivo principal eu falei logo no meu primeiro texto deste sítio. Dizer que somos parentes de macacos ofende. Algumas pessoas ainda deliram sonhando que viemos de anjos ou de partes da anatomia de deuses poderosos. É meio frustrante para essa legião de iludidos admitir que seus avós não faziam parte de guerras celestiais ou participaram da criação do mundo. Frustrante porque ainda não foram capazes de contemplar a realidade em toda a sua grandiosidade, então preferem o devaneio místico a que estão habituados. Essa falácia é a mais importante, embora não seja a mais suja ou perigosa, porque traduz claramente a maior barreira para a compreensão da teoria evolutiva: o orgulho.


1. DAWKINS, Richard. A Grande História da Evolução: Na trilha de nossos ancestrais. Tradução de Laura Teixeira Motta – São Paulo: Companhia Das Letras, 2009.

Umas semanas atrás eu estava conversando sobre evolução com um criacionista. Em um momento do debate, ele alegou que a única evolução que ele considerava verdadeira era a dos pokémons. Claro que ele estava tentando ser irônico, mas como o resto da argumentação dele não estava grandes coisas eu resolvi desistir. Daí então me ocorreu a seguinte pergunta: até que ponto a cultura pop reflete o conhecimento de evolução da população geral?

Xmen, Spore, e Pokémon são exemplos de como a evolução aparece na cultura pop. Obviamente, nenhum desses três exemplos tem a pretensão de ensinar preceitos básicos de biologia a quem quer que seja.

A "verdadeira evolução", segundo alguns criacionistas.

Seria de se esperar que as pessoas enxergassem a evolução de uma maneira muito diferente do que a apresentada pela televisão ou por jogos eletrônicos. O que acontece é que ela não é tão diferente assim. A “evolução” que presenciamos na cultura pop é um reflexo de como ela é vista pela grande massa de leigos não-curiosos. Isso é algo meio preocupante; percebo nas perguntas que me fazem a respeito da teoria neodarwinista e vejo algumas ideias obsoletas encravadas nelas, ideias que podemos encontrar nos Xmen e no Pokémon, por exemplo. Vou falar sobre esses dois mais tarde. Deixarei Spore de fora, pois é um jogo para computador relativamente recente que, ao que parece, aborda a evolução de maneira um pouco mais fiel do que os outros dois exemplos.

Pokémon. Para todos os que nasceram nos anos 90 ou segunda metade dos 80 esses monstrinhos nipônicos certamente são bem familiares. Aos que ainda não conhecem, Pokémon é uma série de jogos que se expandiu para a TV, mangás e virou filmes. Trata de bichos encontrados na natureza que podem ser confinados em pequenas bolas – as pokébolas – que cabem na palma da mão. Esses mesmos bichos estão condenados a serem usados em batalhas que envolvem outros seres de semelhante natureza e situação. Resumindo, a série é uma briga de galo ao melhor estilo otaku. Isso é apresentado para crianças e, posso confirmar, na minha época de pirralho eu achava tudo isso muito divertido. A parte interessante é que esses mesmos bichos evoluem. Depois de muito tempo lutando, um determinado pokémon pode se transformar noutro, maior e mais forte.

Evidentemente que a “evolução” desses monstrinhos serve tão somente para dar uma apimentada no gameplay. Uma “evolução” tão caricata e despretensiosa não tem – ou ao menos não teria – como ser interpretada de outra maneira. O que me espanta é o número de vezes em que eu encontro perguntas semelhantes a esta: “se a evolução existe, como é que eu nunca vi um peixe se transformando em um anfíbio?”. Devo dizer que já fiquei muito tempo imaginando de onde diabos o sujeito tirou que um peixe deveria se transformar em um anfíbio. A única resposta que me veio em mente foi Pokémon. Fora as variantes dessa pergunta, como sapos se transformando em passarinhos, macacos em humanos e demais metamorfoses impossíveis. Não existe absolutamente nada dentro da teoria evolucionista dizendo que um indivíduo de certa espécie deveria se transformar noutra. Outro conceito presente dentro dos pokémons é que uma evolução sempre é melhor que a sua antecessora. Ao passo que imaginar a evolução como uma metamorfose de uma espécie em outra é um erro tacanho cometido apenas por uma “elite” de alienados, supor que ela é uma força geradora de seres progressivamente mais complexos é um erro comum. Essa ideia de evolução e progresso é quase onipresente na cultura pop não sendo exclusiva dos pokémons.

E então temos os Xmen. Um número bem maior de gerações está familiarizado com esses senhores. Além da ideia, muito comum, de que evolução traz sempre alguma melhoria, os Xmen trabalham com o mito da evolução do homem (e da mulher também). A humanidade ficou muito tempo sendo apenas humana e, segundo os quadrinhos, chegou a hora de evoluir. E que evolução! Uns evoluem para seres com poderes psíquicos, outros controlam o ferro e temos ainda os que emitem raios pelos olhos. E todas essas mutações maravilhosas acontecem no mesmo bendito gene, o tal do “gene x”. Pois bem, isso são apenas detalhes. Da mesma maneira que os pokémons evoluem da maneira deles, os Xmen assim o fazem apenas para servir de entretenimento e não devem ser levados a sério. Bom, mas assim como o exemplo anterior, aqui reflete a maneira que o grande público vê a evolução. Nesse caso, mais especificamente, a evolução humana. “Quando vamos evoluir?”, já li perguntarem. Ou então: “Se nós somos seres-humanos, por que os macacos já não evoluíram para humanos também?”. Essas são perguntas que eu realmente leio na internet. Algumas vezes, os autores dessas perguntas acham que encontraram uma falha grotesca na teoria, quando deveriam supor falta de estudo (o que é o caso). Acontece que evolução não é uma obrigação mas sim uma consequência. São linhagens de indivíduos, populações, que se dividem em mais linhagens. Cada conjunto de indivíduos vai sofrer pressões seletivas diferentes se adaptando de acordo com elas, e então temos a evolução. Ela não vai bater na porta de sua casa e dizer: “Chegou a hora de evoluir”.

É muito estranho, mas parece que um europeu em pleno século XIX teria mais facilidade de compreender a teoria do que um leigo alienado de nossa época. Vimos como a evolução aparece na cultura pop. Vimos também como muitas perguntas a respeito da teoria evolutiva feitas pelo público leigo se assemelham muito mais à “evolução” encontrada em desenhos, filmes e jogos do que com a teoria propriamente dita. Hoje nós vivemos em uma época na qual a aquisição de informação é fácil (chega a ser conhecida como a “era da comunicação”). Mas então, como tantas pessoas estão tão desinformadas quanto a certas teorias? Bom, para começar, a informação está em todo o lugar, mas só quem quer encontrá-la usufruirá dela. A grande maioria das pessoas não possui tanto interesse assim no que a teoria evolutiva diz ou deixa de dizer, o que já é um problema, principalmente para a miríade de críticos que certamente não leram nenhuma obra cientifica relacionada ao tema.

Na época de Darwin, praticamente toda a população estava envolvida com algum tipo de criação, desde cereais até pombos (animais que Darwin utilizou para embasar a seleção natural, na Origem das Espécies). Todo mundo tinha muito mais contato com a natureza e não era difícil perceber como a seleção artificial afetava intensamente a constituição dos seres vivos trabalhados. Darwin expandiu a ideia bem fundamentada de seleção artificial para a natureza sem influência antrópica e por isso foi tão eloquente. Hoje muitas pessoas compram um frango no supermercado sem ter a menor ideia de todo o processo de criação que levou uma ave silvestre a se tornar um animal doméstico com o passar das gerações. Comemos milho sem conhecer a sua longa história como cereal que tem o seu início com os Maias e Astecas. Vivemos na ilusão de que somos melhor informados a respeito do mundo graças aos avanços da comunicação, mas o que vejo é uma multidão indo em direção contrária.

Se você é ou já foi uma pessoa religiosa, certamente lhe é familiar o sentimento de pertencer a um seleto grupo detentor da verdadeira palavra de deus. O grupo escolhido para transportar, multiplicar e perpetuar os ensinamentos da única verdadeira religião: a sua. Entretanto, basta olhar em volta e perceber que, ironicamente, esse é um sentimento genérico e pertence a todas as denominações religiosas. Poderiam todas estar certas? Se todos são escolhidos, não faz muito sentido se gabar a esse respeito.

Em verdade, tal sentimento existe em toda sociedade na qual prevalece a emoção em detrimento da razão. Como exemplo, podemos citar um grupo de torcedores de um dado time, que independentemente do balanço de vitórias e derrotas, vai sempre defender que seu time é melhor que todos os outros. Esse cabo-de-guerra emocional parece ser uma espécie de efeito colateral de um outro sentimento sempre presente nas sociedades de pessoas: a necessidade de pertencer a algo coletivo. O torcedor ama, vibra, delira e veste a camisa do seu time, o defende com unhas e dentes, independentemente da sua satisfação pessoal. Podem até existir críticas entre os torcedores daquela dada equipe, mas tais críticas são consideravelmente atenuadas em frente aos afiliados de outras agregações.

Os religiosos não são diferentes: amam, veneram e são fiéis a sua congregação, mesmo quando não concorda inteiramente com seus ensinamentos, ações e decisões. Defendem-na frente às críticas, e em seus ciclos limitados até se permite um certo grau de discordância, mas para por aí. Sua religião é a verdadeira, seja ela qual for e isso basta. Não adianta tentar explicar a paixão pelo futebol através da razão por se tratar de algo essencialmente emocional. Com as instituições religiosas não é diferente.

Na véspera da Copa do Mundo de Futebol, proponho uma reflexão desportiva comparativa, pois os elementos presentes no sentimento patriótico ou no amor pelo time de futebol local estão também presentes nas religiões. Talvez essa crescente divergência entre as diversas religiões e congregação, e o aumento da informação dos fiéis, seja o calcanhar-de-Aquiles da fé, que em muito colabora para a popularização das igrejas ecumênicas, grandes atrativos para aqueles que percebem a irracionalidade dessa disputa religiosa pela detenção de uma “verdade” imaginária, mas que não se sentem confortáveis para abandonar de vez a fé.


Existem várias maneiras desonestas de se atacar um argumento. Essas maneiras são conhecidas como falácias e os criacionistas abusaram delas para atacar a teoria da evolução durante uns bons séculos. Talvez, mais corretamente, eu deva dizer que existem maneiras desonestas de não se atacar um argumento, visto que uma falácia consiste em desviar do argumento principal para tratar de um assunto inválido e/ou irrelevante para o debate. Falarei de uma falácia em especial, perniciosa e muito eficiente quando apresentada a um público leigo. É a famigerada falácia do espantalho.

“Argumento” de um criacionista. Eles tentaram...

“Falácia” é o tipo de coisa que, depois que conhecemos, começamos a encontrá-las por todos os lugares. Pois bem, quanto à falácia do espantalho, ela tem um certo grau de imundície, visto que ela consiste em criar uma versão deturpada do argumento e atacar a versão falsa, não o argumento em si. O que eu vejo como “certa imundície” reside justamente na deturpação e posterior atribuição de ideia tão ridicularizada ao debatedor. Imagino que essa deturpação venha principalmente da própria ignorância e não de uma tentativa deliberada (e propriamente suja) de ridicularizar.

Como a “versão espantalho” criacionista da evolução é imensa, vou abordá-la ponto a ponto. Falarei aqui sobre a ideia de que a teoria da evolução é incompatível com a teoria da biogênese. Começarei por ela por se tratar de um equívoco comum, principalmente quando levamos em conta como a evolução e a origem da vida são explicadas na escola.

Em primeiro lugar, a alegada incompatibilidade é incorreta. A teoria evolutiva não busca explicar a origem da vida, mas sim como as populações variam conforme o passar do tempo. Contudo, é inegável que essa mesma teoria acaba levantando a questão da origem. Certo, derrubamos a crença de que as espécies foram criadas tais como são hoje de maneira sobrenatural. Mas, então, como surgiram?

Eu estava ajudando a minha irmã a estudar para a prova de biologia do colégio. Comecei a discutir sobre a teoria da abiogênese, que foi cabalmente derrubada por Pasteur, sendo imposta a teoria biogenética no lugar. Só que a teoria da biogênese carregava uma ideia um tanto quanto ilógica: “A vida surge apenas de vida”. Então a minha irmã veio com uma pergunta, muito pertinente por sinal: “Mas, afinal, se vida surge apenas de vida, como surgiu a primeira?”

Perguntinha cabeluda. Não vou adentrar nas respostas por dois motivos. O primeiro é que não existe uma teoria sólida, apenas um conjunto de hipóteses. Segundo que, mesmo que eu abordasse apenas as hipóteses, acabaria tornando o texto demasiadamente extenso. O ponto é que a afirmação citada há pouco é falsa. A vida não pode surgir apenas de vida. Aliás, essa sequer é a conclusão do próprio Pasteur. O que ele atacou não foi toda a ideia de abiogênese, mas, especificamente, a da geração espontânea, como seres vivos complexos surgindo de matéria inorgânica.

Louis Pasteur derrubando a hipótese de geração espontânea.

O espantalho de toda essa história é o seguinte. A teoria evolutiva é falsa, pois supostamente estaria dependendo da teoria abiogenética, cabalmente derrubada por Pasteur. Devo dizer que este é o espantalho criacionista mais feliz de todos, visto que ele consegue pegar uma ideia simples ensinada na escola e colocá-la deturpadamente para falsear outra ideia, bem menos ensinada, que seria a evolutiva. Quando a questão é colocada desta maneira, com a evolução entrando em discórdia com a biogênese, realmente parece que o neodarwinismo é um devaneio patético.

Pois o que eu posso dizer sobre tudo isso? Conclui-se que Pasteur derrubou, entre outras coisas, que carne podre não era capaz de gerar moscas espontaneamente. Mas ele certamente não derrubou a teoria de que essas moscas surgiram a partir de insetos dípteros ancestrais e se diversificaram através de mutações e seleção natural. Uma coisa definitivamente não tem nada a ver com a outra.

Percebe-se uma tentativa desesperada de encontrar incongruências no neodarwinismo. Falarei sobre outro exemplo, no meu próximo texto, que falará sobre… asas!

“Talvez a maior tragédia da história humana tenha sido o sequestro da moralidade pela religião.”[1]

Se alguém se der ao trabalho de notar se as pessoas que frequentam o noticiário policial, ou mesmo as pessoas que não chegam a tanto, mas são conhecidas e mais aparecem por atitudes de mau caratismo; se alguém prestar atenção ao fato de essas pessoas terem ou não religião e quanto se dedicam a ela, talvez se surpreenda ao perceber que muitas têm religião e algumas se dedicam bastante. Políticos corruptos, ladrões de todas as estirpes, pequenos ou grandes sonegadores de impostos, a proporção de pessoas religiosas nesses grupos é algo parecida com a proporção na população em geral.

Em vários casos, os próprios líderes religiosos acabam sendo autores de notórios crimes às vezes até propiciados pelas atividades que exercem. Recentemente, pastores da Igreja Mundial, tentaram aproveitar o prestígio da sua imagem e livre acesso a um morro de Niterói para fazer tráfico de armas. O casal líder máximo da Igreja Renascer, famosa por ter vultuosa arrecadação, foi preso ao tentar entrar nos E.U.A. com uma quantia de dólares sem a declaração legalmente prevista, escondidos dentro de uma Bíblia. Ao redor de todo o mundo padres desviam sua sexualidade reprimida pelo celibato para alguns desafortunados coroinhas que neles confiam, e a igreja de que são membros vez por outra se preocupa mais em ocultar os casos para manter uma imagem santa do que em punir os padres criminosos e evitar mais vítimas.

Convém não generalizar. Assim como a proporção de religiosos entre os criminosos guarda similaridade com a proporção na população toda, felizmente a recíproca também é verdadeira. A infelicidade é que algumas religiões, notadamente as religiões cristãs, se auto-declarem os únicos guias confiáveis para a moralidade. É simplesmente escabrosa a imagem que essas religiões tentam passar a respeito dos ateus. Normalmente somos acusados de incapacidade de fazer qualquer distinção entre bem e mal e, a partir dessa premissa, sermos responsáveis por todo o tipo de comportamento reprovável que existe na sociedade. Esse tipo de afirmação é mais um que requer o exercício alienante da fé, pois não encontra qualquer apoio nos fatos. As atitudes reprováveis são esmagadoramente cometidas pela esmagadora maioria religiosa da população. E os ateus têm noção de moralidade tanto quanto qualquer pessoa religiosa.

Vejo com bons olhos a intenção das religiões de guiarem moralmente seus fiéis. Isso propicia dedicação ao assunto e, consequentemente, seu desenvolvimento. Vejo também certa incoerência ao usarem para isso um livro recheado de violência e atitudes pueris na maior parte das vezes perpetradas pelo personagem principal, mas isso é assunto para outro artigo. O maléfico é a desonestidade de atacar gratuitamente quem não segue uma religião e o preconceito que surge disso. Preconceito leva a atitudes erradas em qualquer direção, seja a de um ateu que possa ser desmerecidamente punido quanto a de um religioso ganhar mais confiança do que merece, muitas vezes dos seus pares ou seguidores. Uma pessoa deve ser julgada por suas atitudes reais e não pelas que somos levados a crer com base na religiosidade ou falta dela.

Notas:

[1] CLARKE, Arthur C. Greetings, Carbon-Based Bipeds!: Collected Works 1934-1988. New York: St. Martin’s Press, 1999.

Apesar das evidências que dão suporte às ideias de Darwin, uma porção considerável dos cristãos insiste em defender com unhas e dentes as fábulas do gênesis bíblico. Isso não é nenhuma novidade, e essa resistência aos fatos ― notória principalmente entre os protestantes, no universo cristãos ― tornou-se tabu. “Ensine a controvérsia”, eles dizem. É como defender o ensino oficial de que o holocausto pode mesmo não ter existido, ou que o mundo é plano e encontra suporte no casco de tartarugas gigantes ou ainda que as pirâmides do Egito foram construídas por seres alienígenas.

Design de camisetas que satirizam o movimento Teach The controversy.

Design de camisetas que satirizam o movimento Teach The controversy.

Mas não é exatamente sobre criacionismo que quero tratar hoje, mas sim sobre a implicância de determinada ignorância no mundo prático. Que mal pode ter? Deixe que os cristãos tenham suas fantasias sobre homens vindo do barro. O que não se percebe é a carga de dano potencial de que tais ideologias estão carregadas. Nos Estados Unidos ― um dos países mais poluidores do mundo ― há várias correntes religiosas que negam a existência do Aquecimento Global, e professa que mesmo que o planeta esteja se degradando, pouco importa pois Jesus voltará a tempo para julgar a humanidade e restabelecer a ordem. Mas nem todas as denominações protestantes americanas negam a existência do Aquecimento Global, algumas acreditam que Deus é o responsável pela mudança climática como forma de nos alertar e alterar o nosso comportamento.

Trata-se de uma tentativa de denegrir o conhecimento científico em detrimento da incapacidade dogmática religiosa. Como afirma Lawrence Krauss, físico e diretor da Origins Initiative, da Universidade Estadual do Arizona:

“Onde houver uma batalha sobre a evolução hoje, há uma batalha secundária para suavizar outros assuntos quentes, como o Big Bang, e, cada vez mais, a mudança climática. Trata-se de lançar dúvidas sobre a veracidade da ciência – dizer que essa é apenas mais uma visão do mundo, mais uma história, nem melhor nem mais válida que o fundamentalismo.”

Por ser um país religioso em sua essência, inúmeros projetos de leis ― alguns chegam mesmo a ser aprovados ― combatem o ensino das teorias científicas em escolas públicas. A assembleia legislativa de Kentucky não é exceção, e um exemplo disso é o projeto apresentado pelo deputado estadual Tim Moore, que pretende negar o efeito estufa e a ação do homem como capaz de alterar o ecossistema. “Nossos filhos estão sendo apresentados a teorias como se elas fossem fatos”, afirma o deputado, “especialmente no caso do aquecimento global, tem havido um ponto de vista politicamente correto na elite educacional que é muito diferente da ciência sólida”.

Nenhum ritual religioso foi capaz de salvar o povo Azteca do seu destino.
Nenhum ritual religioso foi capaz de salvar o povo Azteca do seu ocaso.

A ignorância e a relutância para aceitar fatos solidamente comprovados nem sempre podem ser encarados com inocência e complacência. Ao revés, há uma necessidade latente para que se combata esse tipo de ideologia danosa, muitas vezes hipócrita, que ainda hoje tenta impedir o avanço científico. Não precisamos mais da vigilância religiosa para nos dizer que a terra é o centro do universo, que a terra é plana ou que através de indulgências era possível comprar um terreno nos céus. Tais absurdos pertencem aos museus e livros de história, já não há mais espaço para essas puerilidades em nosso mundo hodierno. Justificar o aquecimento global como a vontade de deus, e acreditar ser possível reverter a situação através de oração e obediência religiosa é equivalente a sacrificar homens em pirâmides e esperar saciar a sede de sangue dos deuses. Todos nós sabemos como essa história termina.

Nesta semana desejo abordar um assunto repetido e já bastante discutido, o qual tem me tirado substancialmente a paciência para debater ou conversar com crentes: a ineficácia dos argumentos racionais perante as cansativas e repetitivas falácias. Navegando na rede por sites céticos e científicos, e em especial pelo Ateus.net, nos deparamos constantemente com crentes, registrados nos fóruns de debates, árduos em exporem seus pensamentos crédulos e tentando a todo custo nos explicar a “lógica” de suas crenças e demonstrar que não há falácia alguma em suas descabidas retóricas. Quanto a presença de crentes em fóruns céticos, vejo até mesmo com “bons olhos”, uma vez que isto incita inúmeras discussões sobre diversos assuntos (insanos) religiosos abrindo naturalmente tantas portas para nós, céticos, argumentarmos com o máximo de racionalidade possível e, quem sabe, trazer alguma inocente “alma” para as raias da razão. Mas o esgotado problema a que me refiro reina em torno da total inutilidade justamente sobre o uso da razão e também do desprezo em relação à exposição da lógica. Para todo e qualquer assunto religioso devidamente refutado pelo cético, o crente sempre (desonestamente) ignora a lógica e responde com uma besteira qualquer tentando vergonhosamente validar sua fantasiosa crença.

Uma das maiores distorções da realidade nos debates entre crédulos e incrédulos, e que está no meu “topo de lista” sobre as coisas mais covardes e desonestas que os crentes costumam se pautar, é a insistência na não compreensão relativa ao “ônus da prova” e seu inadequado uso. Abandonei diversos debates, tanto em fóruns virtuais como em calorosas conversas pessoais com colegas ou com gente estranha, no momento em que a desonestidade de meus interlocutores chegou a este nível. É absolutamente inadmissível que a questão primária do “ônus da prova” não seja assimilada pelo crente debatedor, tamanha a facilidade de compreensão sobre o seu real sentido. Mesmo uma inocente criança, ao contar estorinhas para os pequenos amigos no recreio escolar, é capaz de compreender isso. Mas as insanidades dos crentes superam a lógica e a razão, portanto é de se esperar que eles não vejam absurdo algum na inversão do ônus. Porém, este fato nos tira a boa e agradável sensação de um debate produtivo. Isso nos faz parecer que estamos conversando com loucos:

“Prove para mim que você realmente recebe a visita de duendes no seu quarto todas as noites conforme está alegando”

“ Prove você que eu estou mentindo e que eles não existem. Afinal, é você que não está acreditando em mim!!”

É curioso como o esdrúxulo exemplo acima faz parte da rotina dos absurdos “argumentos” usados pelos crentes, e mais curioso ainda é o fato de que, mesmo ao lerem este exemplo no qual eu substituo a palavra alvo de sua cega crença (“deus” por “duendes”), ainda assim não entendem a simples e infantil lógica a quem de fato pertence o “ônus da prova”. Quando se trata do deus deles, insistem descaradamente na inversão do ônus, tornando qualquer debate inútil e sem propósito.

As falácias são velhas conhecidas no “universo” dos crédulos, e não existe ilusão alguma por parte dos céticos/ateus que num debate entre crentes e descrentes elas fiquem de fora, mesmo porque, sem o uso das famigeradas falácias, como eles defenderiam as contradições, ironias, fantasias, insanidades e aberrações contidas nas tantas raligiões e seitas que povoam o planeta? Mas seguindo com rigor o velho ditado que diz “há limite para tudo”, estamos caminhando para o esgotamento máximo no que tange discutir ou debater com crentes. Enquanto o tempo passa cadenciosamente e a ciência progride deixando cada vez um espaço menor para a existência de seres celestiais ou similares, “usurpando” dos crentes a possibilidade de reação plausível, a desonestidade que habita o conteúdo das explicações e/ou refutações promovidas por eles, os crentes, estão se tornando cada vez mais falaciosas e possivelmente, num prazo não tão longo, elas estarão superando o próprio significado da palavra “falácia”. Ultrapassarão tal categoria e adentrarão no território da mais pura desonestidade intelectual, tanto para si como para seus interlocutores. Uma falácia já é isso, mas eles estão indo além!

Ateus, céticos, cientistas, sábios…não são detentores da verdade absoluta e nem é disso que se trata a questão. Isso é irrelevante. O problema reside na distorção da lógica, no descaso para com a razão e na tentativa de explicar insanamente, desesperadamente e cegamente, o que ainda não se sabe, tornando uma conversa, um debate ou uma discussão, num circo de loucos e malucos que sequer compreendem um conceito tão banal e primário como o contido na expressão “ônus da prova”. E se entendem, a desonestidade por parte deles é ainda maior.

Iniciei o texto comentando sobre perder a paciência para debater ou conversar com crentes, e não há, de forma alguma, a pretensão de postular nenhuma razão absoluta a meu favor, tanto em assuntos religiosos quanto em quaisquer outros. Apenas expor uma situação que está tornando os debates entre crentes e descrentes absolutamente desleal e injusto por parte do primeiro grupo. Os crentes estão encurralados e desesperados; procuram sítios céticos para “checarem” sua própria fé e promovem um “show de horrores” com tópicos, respostas e refutações extremamente desonestas, transformando qualquer debate num covarde apelo à insensatez.

Recentemente o mundo tomou ciência, através de uma matéria apresentada pelo jornal Inglês The Guardian, de um brutal Cerimonial de apedrejamento no Irã.assassinato ocorrido na Turquia. O resumo da ópera: uma jovem de dezesseis anos foi enterrada viva pela própria família, por ter sido flagrada constantemente conversando com garotos. É isso mesmo, você leu corretamente. Ela foi enterrada viva por manter diálogos cotidianas com garotos.

A patologia desse caso não seria digna de análise se não fosse o preocupante fato de que, apenas na Turquia, homicídios com motivações similares ocorrem uma vez a cada dois dias, em média. Os chamados “assassinatos por honra”, em que se derrama sangue inocente para preencher lacunas de discernimento moral, são mais comuns no mundo islâmico do que se imagina. Segundo a CIA, 99,8% dos turcos se consideram muçulmanos. O país é também membro-fundador da Organisation of the Islamic Conference (OIC), bem como é palco principal para uma série de outras organizações muçulmanas, localizadas principalmente em Istambul [1].

É interessante perceber que não se trata de um problema geográfico, mas cultural e religioso. Essas atitudes não estão somente enraizadas nos países islâmicos, mas chegam de navio e avião, trazidas nas bagagens dos imigrantes muçulmanos. Em 2005, o jornal alemão Spiegel noticiou a morte de seis mulheres de descendência muçulmana, por tentarem se enquadrar nos padrões de vida do seu país hospedeiro. Segundo a organizações de proteção das mulheres mulçumanas na Alemanhã e Austria, Papatya, outros 40 episódios similares ocorreram entre 1996 e 2005.

Cerimonial de apedrejamento no Irã

De acordo com o diretor executivo da UNICEF, mais de dois terços dos homicídios ocorridos na Palestina entre 1999 e 2003 se enquadram na nomenclatura “assassinatos por honra”. O que me parece mais preocupante é que, além dos agentes responsáveis pela matança serem membros diretos da família da vítima, estes acabam por serem vistos como heróis em suas comunidades, como aqueles responsáveis por manter a honra e os costumes das famílias tradicionais.

Estas jovens moças me chamam a atenção pela sua coragem. Desafiam a morte em nome de uma resistência libertária, por não se submeterem às ridículas e anacrônicas exigências familiares. As filhas da intolerância não irão ganhar esta guerra sozinhas, mas, através da sua resistência no melhor estilo Gandhi, estas moças clamam silenciosamente pela nossa atenção. Enquanto a intolerância e a ignorância persistirem nos países seguidores da doutrina de Maomé e o mundo insistir em fechar os olhos em detrimento de uma suposta liberdade religiosa, mais jovens turcas terão seus pulmões preenchidos com terra enquanto tentam respirar em ambiente tão hostil.

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  1. The Islamic Conference Youth Forum for Dialogue and Cooperation (ICYF-DC) em Istanbul