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Observe com atenção a figura abaixo:

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Estão representados nessa gravura alguns gestos manuais do nosso cotidiano. Você provavelmente conseguiu identificar o significado de muitos deles, talvez de todos.

Esses são sinais conhecidos em todo o mundo. Aonde quer que você vá, é possível entender e se fazer entender utilizando qualquer um desses exemplos, apesar de alguns sofrem variações em seu significado.

Apontar para algo ou alguém não gera dúvidas quanto ao que se quer dizer; porém, pode ser que, numa excursão por uma tribo apache, você peça, com um gesto, para o índio parar, mas este, entendendo como apenas um cumprimento, responda: “Haw!” e continue seu caminho; ou que, num passeio pela Austrália, entre num bar e, percebendo algum clima não muito amistoso, cumprimente alguém utilizando-se do gesto que representa “paz e amor”. Fazendo-o, num descuido, com as costas da mão voltadas para o sujeito em questão, que não aceitará o insulto envolvendo sua progenitora. Pode-se perceber então que, apesar de determinados gestos serem universais, estão sujeitos a diferentes significados, gerando desentendimentos ignoráveis ou não.

Gestos também têm o poder de motivar ou enfurecer. Quando você faz um trabalho cuja qualidade se considera particularmente boa, a aprovação, mesmo que dita apenas com as mãos, traz certa satisfação pessoal, reforçando a continuidade de tal padrão de trabalho. No trânsito, um gesto obsceno pode ser o gatilho para uma briga séria. Ninguém precisa te explicar o significado, pois você já sabe, assim como ninguém te pergunta por que você sabe, pois parece claro que isso foi aprendido pelo contato com o meio, que tradicionalmente já utilizava esses gestos.

Algo intrigante em relação aos gestos representados na gravura é que, pelo menos em sua maioria, não se sabe dizer quando e onde eles foram criados, se são manifestações intrínsecas do ser-humano ou mero aprendizado e, se assim o são, por que são utilizados, mesmo que de diferentes formas, em povos isolados?

Com certeza não fazem parte de um plano maior, nem nada de sobrenatural. Na verdade não aparenta ser algo que necessite atenção. Não mudaria em nada o modo como os gestos são utilizados, ou o poder que exercem sobre o movimento e a psique humana. Seria uma grande perda de tempo, cujos anos de pesquisa estariam propícios a resultarem em contradições, devido à variedade de abordagens, muitas delas divergentes entre si, porém com os mesmos princípios lógicos e/ou filosóficos.

E se os gestos se chamassem Deus?

Um dos argumentos a favor da inexistência de um Jesus histórico[1], mesmo sem os poderes sobrenaturais, é a falta de escritos do filho de Deus. Em análises linguísticas, podemos perceber que, sempre que há uma referência com discurso direto do “cordeiro de Deus” (João 1:29), ele invariavelmente fala sobre a vida na terra com frases humanistas do calibre de “Que vos ameis uns aos outros; como eu vos amei a vós, que também vós uns aos outros vos ameis” (João 13:34) ou “Eu, porém, vos digo que não resistais ao mal; mas, se qualquer te bater na face direita, oferece-lhe também a outra” (Mateus 5-39). Todas elas podem ser traçadas a outras personagens mais antigas, como Buda ou Confúcio. Para os que buscam essa visão do Novo Testamento como a narrativa de um homem comum, é de costume atribuir à fantasia dos escritores os milagres mais absurdos, como a ressurreição dos mortos; os outros, com muita boa vontade, são atribuídos a bloqueios psicológicos dos enfermos.

A falta de textos do próprio Jesus torna difícil a sua definição, tendo em vista todas as contradições entre os Evangelhos[2], sendo o seu caso mais famoso o da genealogia do Redentor (Lucas 3:23-28 e Mateus 1:1-16). Sob essa análise, a pluralidade de fontes autoexcludentes e assaz imaginárias colocam Jesus em pé de igualdade com Héracles e outros semideuses gregos, os quais não sabemos dizer se realmente existiram em forma humana ou se foram simplesmente mitos criados e repassados culturalmente.

Há uma alegação comum entre cristãos de que Sócrates também não escreveu nada e que, por isso, não se poderia provar a sua existência. A princípio, a analogia faz sentido, caso seja tomada somente neste quesito. Contudo, outros aspectos comparáveis das duas personagens devem ser considerados: Sócrates aparece principalmente em uma fonte, a saber, Platão, além de umas poucas referências de autores posteriores; sua principal frase de efeito fora “Só sei que nada sei” (ἓν οἶδα ὅτι οὐδὲν οἶδα)[3], proferida durante o seu suposto julgamento.

Sem afirmar a veracidade histórica de Sócrates, podemos seguir um outro caminho mais interessante, quer seja, o de analisar mais profundamente a analogia e sua validade. Entendamos o seguinte:

1) Mesmo que Sócrates tenha sido uma figura inventada por Platão, seus ensinamentos e suas ações eram de pessoa comum, bem encaixada na camada da sociedade que supostamente habitara; Jesus era muito sábio e chamaria a atenção dos pescadores analfabetos e dos pobres que lhe escutavam os sermões;

2) Todo o legado de Sócrates se restringe ao campo das ideias, na forma de conceitualização a partir da literatura vigente; tudo o que se espera de Jesus são milagres para esta vida e passe garantido para a próxima;

3) Salvas as devidas correções sociais e tecnológicas, hoje em dia é possível reproduzir e levar adiante todas as ideias de Sócrates; por conseguinte, mesmo que não tenha existido, suas ideias foram concebidas por outro ser-humano com as mesmas limitações; Jesus, pelo contrário, faz de seus feitos algo intransponível para qualquer um de seus “irmãos” de carne e osso (por mais que pastores neopentecostais afirmem o contrário). E, convenhamos, com todas as explicações convergindo para o fato de que ele era a vontade de Deus na Terra, torna-se bastante plausível a ideia de que ele não existiu nem seus feitos realmente foram consumados em época alguma;

Como bem sabemos, sem as devidas evidências, quase nada pode ser provado empiricamente. Assim, a discussão central deixa o âmbito da indagação “realmente existiram?” e dá muitos passos adiante com o questionamento “poderiam realmente existir?”. A analogia inicial só diz respeito à primeira pergunta e, dentro desse limite, é válida na comparação. A segunda pergunta, no entanto, destrói qualquer tipo de semelhança acidental (συμβεβεκός) entre os dois, encerrando mais uma tentativa sofrível de apologética cristã.

Notas:

[1] LA SAGESSE. Jesus Cristo Nunca Existiu. Disponível em <http://ateus.net/artigos/historia/jesus_cristo_nunca_existiu.php>. Acesso em 27 mar. 2010.

[2] Bíblia. Tradução de João Ferreira de Almeida. Disponível em <http://ateus.net/artigos/escrituras/biblia/>. Acesso em 28 fev. 2010.

[3] PLATÃO (ΠΛΆΤΩΝ). Apologia de Sócrates (Απολογία Σωκράτους). Texto original em grego disponível em <http://el.wikisource.org/wiki/Απολογία_Σωκράτους>. Acesso em 28 fev. 2010.

De um erro clássico I