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E se eu dissesse que, dentro de uma semana, uns primos seus do interior te visitarão em casa. Sete dias depois aparecem uns chimpanzés. Qual a sua reação? Vai recebê-los com comes e bebes ou vai mandá-los para um zoológico? Pense bem, pois os seus primos vieram diretamente do interior da África só para restabelecer laços familiares enfraquecidos há mais de 4 milhões de anos¹. Você e os seus primos, unidos por um casal de antropoides, que recordações vocês teriam dessa época de vacas magras? Um ramo da família ficou pelas florestas da África e o outro pretende conquistar o mundo.

Bom, se você é um teísta bitolado, deve ter odiado essa minha situação hipotética. Meu texto é endereçado a esse público, teístas e criacionistas reacionários que rolam de rir com a idéia de um suposto parentesco entre nós, humanos, e o resto dos primatas. Uma coisa que você, criacionista, não percebe é que a sua casa está cheia de primos. Até mesmo o seu intestino está cheio deles. No seu almoço você deve ter devorados alguns.

Não, não existem chimpanzés morando no seu intestino ou no seu prato (assim eu espero). Falo de primos ainda mais antigos. Se o seu almoço foi um bife, saiba que você divergiu da sua comida cerca de 85 milhões de anos atrás¹. Mas, se você é um vegan, então você e seu almoço estão separados por muito mais tempo. A data é imprecisa, mas é superior a um bilhão de anos. Tudo família.

Eu falei tudo isso para deixar clara uma coisa. A teoria da evolução não é sobre humanos evoluindo de macacos é algo muito mais amplo. Ela é ainda mais incorreta ser for interpretada como os humanos descendendo de macacos atuais (e não de primatas extintos, que seriam os ancestrais comuns a humanos e chimpanzés, por exemplo). Mas os macacos, os humanos, ou mesmo todos os primatas são meramente uma pequena parte do objeto de estudo que seria toda a biosfera, seus componentes vivos e seus ancestrais (compondo o que chamamos de “Árvore da Vida”).

Clássica caricatura de Darwin

É aí que entra a falácia do texto. Fazendo um retrospecto, no meu primeiro texto eu falei da falácia da abiogênese, um erro advindo da falta de clareza com que a biologia é ensinada nas escolas. Depois eu fui para a falácia da convergência de características, provinda de uma idéia errada na qual a evolução é essencialmente aleatória e de que essas características são praticamente iguais. A terceira falácia citada é a mais suja e polêmica de todas e diz que evolucionismo e nazismo andam de mãos dadas. Na quarta eu lidei com a evolução apresentada na mídia em massa e como isso reflete a visão das pessoas sobre a teoria. Nesta última, a falácia mais clássica de todas é a do homem surgindo do macaco. Traduzindo essa última falácia em apenas uma pergunta, muito difundida e freqüente: “Você acredita que viemos dos macacos?”.

Provavelmente você, criacionista ao qual me dirijo, já deve ter perguntado isso a muitas pessoas. Outra frase muito recorrente é: “Eu não acredito na evolução, pois não acho que o homem tenha se originado de macacos.” O que eu posso dizer é que essa afirmação está completamente equivocada em diversos graus.

O primeiro erro eu já deixei bem claro. Evolução não se trata apenas da origem do homem, portanto, não serei repetitivo. O segundo erro, como eu já disse no quarto parágrafo, depende do que você entende por “macaco”. Se a sua idéia é um macaco que você viu no zoológico ou na televisão, então devo dizer que está enganado. Os macacos atuais são tão ancestrais seus como você é ancestral do seu priminho de dois anos. Ou seja, vocês são parentes, unidos por um ancestral comum que, no caso do primo de dois anos são o vovô e a vovó; no caso dos macacos são vovôs e vovós de espécies extintas há milhões de anos, mas um não é o ancestral do outro.

É muito interessante notar o quão difundida é essa falácia. O motivo principal eu falei logo no meu primeiro texto deste sítio. Dizer que somos parentes de macacos ofende. Algumas pessoas ainda deliram sonhando que viemos de anjos ou de partes da anatomia de deuses poderosos. É meio frustrante para essa legião de iludidos admitir que seus avós não faziam parte de guerras celestiais ou participaram da criação do mundo. Frustrante porque ainda não foram capazes de contemplar a realidade em toda a sua grandiosidade, então preferem o devaneio místico a que estão habituados. Essa falácia é a mais importante, embora não seja a mais suja ou perigosa, porque traduz claramente a maior barreira para a compreensão da teoria evolutiva: o orgulho.


1. DAWKINS, Richard. A Grande História da Evolução: Na trilha de nossos ancestrais. Tradução de Laura Teixeira Motta – São Paulo: Companhia Das Letras, 2009.

Don Pedro de Barberana y Aparregui, Cavaleiro de Calatrava, por Diego Velázquez.

Don Pedro de Barberana y Aparregui, Cavaleiro de Calatrava, por Diego Velázquez.

Fundada no reino de Castilha, região que hoje é território espanhol, a Ordem de Calatrava foi a segunda Ordem de Cavaleiros a receber apoio papal. O papa Alexandre III reconheceu sua legitimidade em 1164, com o objetivo principal de melhor organizar a ofensiva da Batalha da Reconquista, na qual portugueses e espanhóis pretendiam expulsar todos os muçulmanos da península Ibérica.

Os cavaleiros da Ordem lutaram e combateram os muçulmanos que ocupavam a região andaluz. Mas não foi até 1409 que a Ordem, que tinha por símbolo a cruz da Igreja Católica Ortodoxa Grega entrelaçado pela flor-de-lis, símbolos da cristandade, ganhou poder político, quando o papa Inocêncio VII, convencido do sucesso da campanha da Ordem do Dragão, patrocinou política e financeiramente a Ordem de Calatrava para investir contra o império Otomano.

Calatrava, Wallachia e Constantinopla são apenas alguns dos vários sítios históricos que testemunharam o derramamento de sangue por motivos religiosos. Não sejamos simplistas a ponto de achar que tais fatos ocorreram apenas pela fé. Nenhum rei, nem mesmo o Papa gastaria tanto dinheiro e patrocinaria tantas mortes se não houvesse real interesse econômico e político no domínio cristão na Europa.

As igrejas sempre foram grandes máquinas de coletar dinheiro (muitas vezes às custas das ilusões daqueles que não têm mais ao que se apegar), e perder a galinha dos ovos de ouro seria um preço muito caro. Foi preciso, nestes dois últimos séculos, fechar os olhos para o sexto mandamento de Moisés.

Mas os livros de história estão sempre empoeirados nas prateleiras daqueles que querem dedicar a vida à religião. Quinhentos anos parece algo tão distante e surreal que é fácil negar ou ignorar o cheiro de carcaça que ainda brota de um passado nem tão distante.

A verdade é que não precisamos ir tão longe. Para manter as chamas da ignorância acesas, atropelam-se deliberadamente os fatos que, se não fossem patrocinados por uma poderosa entidade religiosa, jamais passariam desapercebidos. Quem seria capaz de ignorar o legado de crueldade deixado pelo nazista? Qual empresa se safaria de tantas acusações de pedofilia por parte dos seus representantes?

Enquanto existir o controle das massas por essas megaempresas multinacionais que,explorando a fraqueza emocional e a necessidade de consolo espiritual, enriquecem os salões do Vaticano e os bolsos dos pastores evangélicos, continuaremos jogando a sujeira para debaixo do tapete e fechando os olhos para as atrocidades cometidas sob a proteção da batina e do crucifixo.

Segismundo da Hungria, Sagrado Imperador Romano e fundador da   Ordem do Dragão.
Segismundo da Hungria, Sagrado Imperador Romano e fundador da Ordem do Dragão.

O ano é 1408. Preocupados com a expansão dos turcos, o papa reúne-se com nobres de toda a Europa para discutir estratégias de contenção do expansionismo islâmico. Dessa congregação e fruto do gênio do rei Segismundo da Hungria, é fundada a Societas Draconistrarum. Composta inicialmente por 21 nobres, a ordem tinha representantes das mais notórias famílias húngaras, com destaque para os Bathory, dos quais fazia parte Elizabeth Bathory, conhecida por banhar-se em sangue de mulheres jovens e belas, na tentativa de restaurar a sua própria beleza e juventude, e a família Bethlen, representada por Gabriel Bethlen, que provocou guerras calcadas em motivos religiosos.

A verdade é que a ordem lutou contra os turcos e caiu nas graças do Vaticano, sendo conferido ao rei Segismundo o título canônico de Sagrado Imperador Romano. Em 1410 Segismundo uniu forças com outra ordem beligerante católica, a Ordem Germânica dos Cavaleiros Teutônicos, ou Ordo domus Sanctæ Mariæ Theutonicorum Hierosolymitanorum, contra o rei Władysław II Jagiełło, que resultou na batalha de Grunwald, considerada por muitos historiadores como uma das maiores batalhas envolvendo Cavaleiros Católicos da Idade Média.

Para nós que crescemos aprendendo sobre a história das inquisições e das cruzadas, o banho de sangue proporcionado pelo expansionismo cristão, especificamente da Igreja Católica Romana, não mais impressiona. Os mesmos senhores que por vários anos estiveram à frente da única fonte de referência aos textos cristãos provocaram inúmeras guerras e matanças, tudo em nome de deus e em nome da fé na doutrina de Saulo de Tarso. Mas hoje pretende-se acreditar que a história do cristianismo nada tem a ver com as instituições modernas, e o passado parece tão distante e nebuloso que ignoramos conscientemente os massacres em nome de uma ignorância confortante.

Ademais, comete falta grave aos olhos dos cordeiros católicos abordar a história de sangue e mentiras que tornou possível a construção deste grandioso e secular instituto religioso, ignorando-se os séculos de matanças e perseguições, de doutrinações e punições, de pederastia e ignorância, de controle e resistência à ciência, provocados por esta grandiosa máquina de fazer dinheiro e gerar ilusões. Custo a acreditar que existam fieis que ainda levem a sério uma instituição predatorial como esta, que alimenta a segregação religiosa e incentiva a ignorância, através de atitudes homofóbicas, e anti-progressistas, com  o exemplos bizarro da proibição moral do uso da camisinha, com direito a palestras no continente africano, infestado pelo vírus da AIDS.

Emblema da Ordem do Dragão, baseado no mito do ouroboros.
Emblema da Ordem do Dragão, baseado no mito do ouroboros.

Aparentemente a Igreja ainda não se libertou de seus laços históricos, nem tampouco aprendeu com seus erros. Ainda há demonstrações explícitas do seu anti-semitismo latente, enquanto escondem crianças vítimas de abusos sexuais embaixo de suas batinas. Os fantasmas da Ordem do Dragão ainda circulam pelos corredores do vaticano, nos lembrando da sede de sangue que banhou os mármores das suas igrejas históricas.

Afirma-se que o ocidente é cristão por vontade de uma força divina, manifestada por revelações. A verdade é que foi a espada quem assegurou que os reis europeus mantivessem suas coroas e sua principal arma de controle das massas: o cristianismo. Não que estes líderes estivessem livres das garras alienantes desta religião oriunda do deserto. De fato a maioria deles era profundamente religiosa. Nos meus próximos dois textos tratarei de algumas dessas importantes figuras históricas, e tentarei abordar, ainda que de forma simplista, algumas das estratégias e métodos mais grotestos e menos divulgados dentre os utilizados pela cristandade durante a Idade das Trevas.

      Em 1977, como parte do programa de exploração interplanetária batizada de Voyager,foi lançada na direção de Saturno a sonda Voyager I. Após completar a sua missão, em 1990, uma última foto foi tirada em direção ao planeta Terra, a uma distância de 6.4 bilhões de quilômetros. Esta fotografia ganhou fama e foi batizada de Pale Blue Dot (ou pálido ponto azul), que mais tarde inspirou a confecção de um livro homônimo do brilhante astrônomo norte-americano Carl Sagan, que na época fazia parte do projeto e havia solicitado que a imagem fosse capturada pela sonda.

      Na imagem acima, destacada pelo círculo azul, o planeta Terra se apresenta como um insignificante ponto no universo. Olhos desavisados nem ao menos perceberiam sua presença. Não há nada de especial neste ponto luminoso, exceto para nós, que o habitamos. Este é o planeta no qual residimos e que serviu de testemunha para todos os feitos da humanidade. Não conhecemos (ainda) outra forma de vida, senão aquela que aflorou em solo terrestre.

      Para nós, seres humanos, é fácil imaginar que todo o universo gira em torno de nossa jovem existência, de nosso planeta tão rico em vida, e tão facilmente desprezamos o fato que nada temos de especial neste colossal universo, senão o fato de que fomos afortunados o suficiente para proporcionar, em dado momento, que a célula primordial viesse a existir.

      Dentre tantos planetas, só a Terra possui vida; logo deve ter sido obra de uma inteligência superior, diriam os crentes. Entretanto, sabemos que não é bem assim. Dentre bilhões de planetas que flutuam no nosso universo, não é nada impressionante o fato de a vida ter aflorado em ao menos um deles. Imagine que mesmo se a chance fosse de um em um milhão, ainda assim haveria uma alta porcentagem de favorecimento a alguns desses planetas.

      É muito provável, ainda, que existam outros sistemas onde tal fato também se deu. Não é descartada a possibilidade de outros planetas que carregam em seu solo alguma espécie de vida extraterrena, que pode ser, ou não,similar ao que conhecemos por vida. Seja qual for a situação, nossa possibilidade de comunicação com tais seres se vê separada por anos-luz.

      Me parece extremamente pretensioso que se atribua à uma força inteligente e infinitamente superior a criação de tudo o que existe, que deliberadamente o fizera com a única finalidade de servir de nicho para um grupo de humanoides, com a intenção de que estes últimos louvassem e erguessem templos em homenagem a este criador vaidoso e ciumento.

      Entretanto, como nos lembra bem Carl Sagan, apesar de insignificante, este é o nosso planeta. É tudo o que temos. Não conhecemos ainda meios de migração para outros planetas, e não há qualquer previsão que torne tal acontecimento possível. É preciso cuidar do que temos, pois é o único que temos, e deixar de lado todas as futilidades e puerilidades metafísicas criadas por desocupados religiosos, inconformados com uma existência simples na Terra, e que sob a pretensão de serem vistos como humildes servos de um ser maior, criam a ilusão de uma vida póstuma, elevada e superior.

      E assim começa a maior de todas as fábulas: um deus entediado criou tudo o que existe em apenas 6 dias, fez à sua imagem e semelhança (e a partir do barro) o homem, e da costela deste fez surgir a mulher. Baniu ambos do jardim do Éden após, persuadidos por uma cobra falante, terem comido uma maçã proibida.

      Então estas duas insignificantes criaturas se reproduziram, e seus filhos multiplicaram-se numa incessante prática incestuosa. Deus, então, personificado na figura do seu próprio filho, se condenou a uma terrível morte de torturas e crucificação apenas para que ele mesmo pudesse perdoá-los pelo pecado original, advindo daquele fruto que Adão e Eva comeram.

      Este é só o começo de toda a estória, mas sejamos realistas: tais ideias absurdas já não têm mais lugar em tempos como este, senão nas mentes anacrônicas de quem se deixou levar pelo fascínio de um mito secular. Desde tempos imemoráveis observa-se uma subserviente e obrigatória homenagem dos povos religiosos para com os deuses (e esta não é uma exclusividade do deus abraâmico). Constroem-se templos, se faz arte, surgem profetas e se dedica boa parte das suas vidas em seu louvor.

      A oração, por exemplo, é um fenômeno extremamente interessante. Faço referência à conversa que se tem com aquele homem invisível que hipoteticamente nos observa lá de cima, e não a repetição incessante e impensada de palavras, típica dos católicos. Quase sempre fruto de motivos egoísticos, tem seu nascedouro na ingenuidade de indivíduos que insistem em acreditar que, dentre 6.7 bilhões de pessoas que populam este planeta, este deus irá alterar todo o curso da história tão somente para atender suas queixas e pedidos, apenas para fazer com que o Flamengo seja campeão do Brasil, que determinada pessoa se cure de um câncer ou que seu primo consiga um emprego melhor.

      Existem também as orações de louvor, que visam tão somente exaltar este deus vaidoso, que precisa ser lembrado constantemente de que “ele é o cara”. Para tanto, constroem-se inúmeras capelas, onde as pessoas diariamente rezam e entoam hinos em sua homenagem, livros são escritos, quadros são pintados, orações e poesias são feitas. Que espécie de narcisismo doentio é este, que o moveu a criar tudo o que existe apenas para que alguns bilhões de seres insignificantes dedicassem sua vida à insípida missão de reafirmar a sua grandiosidade?

      Todos nós já ouvimos muito falar do poder da fé. A sublime e virtuosa fé, movendo montanhas e promovendo a justiça. Não apenas isso, mas também ouvimos histórias ou, mais provavelmente, estórias (também conhecidas como “causos”) sobre incontestes milagres decorrentes de quantidades colossais de fé. Coisas como sobreviventes de uma tragédia, fervorosos em momento de dificuldade e devidamente salvos pela mão divina. São histórias bonitas, com desfechos legais e dramáticos. Mas importante, elas alimentam a nossa ilusão de que não somos impotentes para muitos casos.

      Um cético pensaria: “Bem que eu gostaria de ver um vídeo sobre isso”.

      Existe um vídeo, sobre uma nobre demonstração de fé. Aconteceu em um zoológico em Taipei, capital de Taiwan, no dia 3 de novembro de 2004 [1,2].

      Um sujeito taiwanês, conhecido apenas pelo seu sobrenome Chen, que na época tinha 46 anos, estava inconformado com um fato meio irritante. O cristianismo era uma dádiva boa demais para estar restrita aos seres humanos. Deus criou todas as criaturas que caminham, nadam, voam e rastejam, então nada mais justo do que espalhar o amor desta entidade para todos os seres.

      A escolha de Chen talvez não tenha sido a mais sábia, pois a jornada de conversões ao cristianismo por todo o reino animal começaria com leões. Mas isso tudo era apenas mais uma evidência cabal de que Chen tinha fé de que daria certo.

      Então, em uma atitude verdadeiramente cristã, o taiwanês pulou no fosso onde se encontravam os animais e gritou “Jesus vos salvará!”. Convicto do sucesso, ele se aproximou ainda mais dos leões e, bom, vejam o vídeo (não há sangue nem mortes):

      httpv://www.youtube.com/watch?v=3XtJ-GSn0rg

      O que aconteceu neste vídeo?

      Bom, para um cristão, esse vídeo pode significar muita coisa. Muitos cristãos dirão que não é assim que funciona ou que o taiwanês não era um verdadeiro cristão (coisa que eu discordo veementemente). Poderão dizer que um Deus havia reservado esse destino para Chen, ou que o cristianismo não significa sair por aí, pulando em jaulas e convertendo animais selvagens. Mas é inegável que esse vídeo o quão impotente é a fé. Sim, talvez o pobre Chen não fosse um verdadeiro cristão, ou Deus estava a fim de ver um taiwanês apanhar de um leão e assim selou o destino dos envolvidos. Mas Chen tinha fé. Seria muita desonestidade dizer que ele estava fingindo. Ele pulou em um fosso cheio de leões, temos que reconhecer a coragem e convicção do rapaz.

      Para um não cristão, isso não significa tanta coisa assim. Fora o fato de Chen ter agido como um maluco, tudo ocorreu como o esperado. A atitude do leão foi uma ótima demonstração de seu comportamento em casos de ameaça a sua família e, enquanto o leão ficou muito atrás do taiwanês em termos de estupidez, a nobreza do ato de ambos é equiparável.

      Ponha-se no lugar do animal. Imagine-se em casa, com sua família. De repente surge um leão no seu quintal. Você, com um rifle carregado em mãos, o que faria?

      Vamos lá, talvez as intenções do leão não sejam as piores. Vai ver que o felino está tentando te converter para a religião dele. Mas o mais provável é que ele invadiu o seu quintal porque estava com fome. Em todo caso, o melhor é não arriscar.

      Nem precisa matar o leão. Basta uns tiros para cima, para afugentá-lo. O leão do vídeo poderia ter matado o intrépido taiwanês com relativa facilidade, mas duvido que suas intenções fossem essas. Tudo o que o leão queria é ver a ameaça longe de sua família. Reparem como o macho se coloca entre a fêmea e o cristão. Uma manobra típica de um cavalheiro.

      Em momentos como este, podemos ver onde Deus realmente está. Está na cabeça de Chen, um senhor de 46 anos. O leão estava pouco se importando para as crenças e convicções de qualquer um por ali. Nem mesmo a equipe do zoológico pensou em apelar para Deus em um momento como esse. Se prontificaram jogando água e disparando tranquilizantes. Esse episódio mostra que, quando queremos colocar em prática as nossas crenças infundadas, elas simplesmente não funcionam.

      Referências

      BreakingNews.ie – Lion attacks man in Taiwan cage

      Orlando News – Man Survives Jump Into Lion’s Den

      Você pode ser uma pessoa religiosa ou simplesmente ter a sua fé particular, mas se for honesto e justo consigo mesmo certamente deve ter milhões de questionamentos na cabeça. Se for honesto mesmo, de verdade, deve admitir sem necessidade de autodefesa (pelo menos deveria), que reside em seu interior uma boa dose de preguiça intelectual, ou simplesmente muito medo. Um medo aterrorizante. A sua aceitação incondicional em relação as absurdas contradições, que são visíveis nas crenças destituídas de razão, demonstram claramente isso. Por que não questionar? Qual o problema em duvidar? Como pode acreditar em algo (insano, lunático e descabido) por pura osmose, sendo que esse algo foge a tudo que se conhece na natureza demonstrada? Você crê em lobisomem? Em fadas? Você, que se diz crente e cristão, crê também nas virgens paradisíacas (muçulmanas) que aguardam os homens-bombas no céu? Você crê no Inri Cristo? Perguntas idiotas para situações mais idiotas ainda. Não há nada mais irônico e contraditório do que tratar assuntos lunáticos com discursos sérios e racionais. No entanto é isso que geralmente nós, incrédulos, tentamos fazer. Portanto, os céticos possuem uma parte de culpa no fomento dessa idiotice toda, pois há séculos vocês, crentes, deveriam ser devidamente desprezados pelos que se dão ao trabalho de pensar. Pensar e encarar a realidade é difícil, mas é necessário. Vocês não pensam.

      Continuemos. Quando você está numa roda de amigos e aquele colega repleto de estórias e contos lhe propõe uma fantasia absurda e sem sentido natural, totalmente irracional e amplamente desprovida de bom senso, apesar de você se deleitar temporariamente com ela (o lazer fantasioso, um ótimo entretenimento, seja em forma de conto verbal, literário, cinematográfico, teatral etc.), não encontra dificuldade alguma para descartá-la assim que a conversa termina. Convenhamos: você não vai para sua residência achando ou pelo menos ventilando a hipótese de que as insanas palavras do seu amigo devaneador são “sagradas” ou “divinas”. Este exemplo, que a princípio é tosco aos olhos dos que creem em deuses celestiais e sequer param para pensar na equivalencia entre as tosquices (o meu deus é o verdadeiro, a bíblia é a prova disso!!), na verdade revela que a crença em algo destituído de razão é absolutamente prepotente e sem lógica racional. Uma simples análise imparcial comparativa e profundamente honesta comprova isso. Honesta a ponto de vencer a covardia interna e os próprios medos.

      Se você é um crente, mas pelo menos com um pouco de esforço consegue entender essas palavras acima, lembre-se da próxima vez quando for censurar, debochar ou insinuar que a crença de outrem é esquisita, irreal ou maluca, que a sua própria crença não tem valor algum para a realidade. Não se esconda atrás da palavra para justificar as contradições da sua religião ou do seu credo em detrimento de outras, por mais que você as considere insanas. De fato elas são, não iria discordar de você em relação a isso, mas não são mais nem menos do que a sua. Na hipótese de você não aceitar essas palavras devido à cega paixão pela sua própria crença, pense consigo mesmo porque as outras seitas, religiões, lendas, estórias e folclores são irreais e a sua não. O que, além do que você chama de fé, torna sua crença especial e lógica em relação as outras? Faça a simples inversão da “fé”. Ponha-se no lugar de um muçulmano, por exemplo, que tem na mesma proporção as “certezas” na crença dele que você tem na sua. Se você compreender o que a palavra certeza de fato significa, e isso não fizer você pelo menos pensar e entender que existe algo estranho e bizarro nisso tudo, seu poder de discernimento e, consequentemente, sua lucidez sobre a realidade não existem mais. Ou seja, você é um crente.

      Ainda que sejamos apenas mais um em um mar de bilhões de pessoas, todos nós gostamos de nos sentir especiais. Sentimo-nos especiais quando estamos apaixonados, quando lembram do nosso aniversário, quando pensamos ser mais inteligentes e críticos do que os crentes etc. Mas nada disso é comparável, em termos de egocentrismo, do que o ato de orar pedindo algo.

      Crentes creem que deus é um ser onisciente; logo, os planos para todas as coisas já deveriam estar devidamente traçados. Um crente quando ora, porém, pede a deus que mude os planos supremos do universo a seu favor, sentindo-se, talvez, o ser mais especial de toda a criação.

      Vejo a religião, de modo geral, como um reflexo desta necessidade que as pessoas têm em se sentirem especiais. Isso fica evidenciado, por exemplo, na lenda da criação dos judeus e cristãos, na qual Deus cria a humanidade à sua imagem e semelhança, para que domine todas as outras espécies no ar, na terra e no mar.

      O primeiro tapa no antropocentrismo foi dado por Nicolau Copérnico que, em 1543, publicou o seu livro Commentariolus, com o qual demonstrou que a Terra gira em torno do Sol. Ora, segundo a “Genesis”, Deus criou o Sol apenas no terceiro dia, ao redor de que a Terra teria girado antes disso? Pela primeira vez, uma descoberta científica contrariava um importante dogma bíblico, rebaixando o planeta Terra a uma posição subalterna ao Sol; por este motivo, o livro Commentariolus foi banido pela Igreja até 1835.

      O segundo e definitivo tapa no antropocentrismo foi dado por Charles Darwin, que, com a Teoria da Evolução, demonstrou que a humanidade possui uma linha de ancestralidade ligada aos outros primatas e animais não tidos como tão gloriosos pela Igreja da época. Desta vez, descobrimos que a humanidade era apenas mais uma espécie da fauna da Terra, e não mais podíamos nos considerar a imagem do criador supremo do universo, apenas macacos pelados que, por um acidente de percurso, se tornou o que somos.

      Por fim, não poderíamos deixar de lembrar a fantástica foto idealizada por Carl Sagan e fotografada pela Voyager em 1990, nos limites do sistema solar. Um símbolo da insignificância da humanidade.

      PaleBlueDot

      Este pequeno ponto no meio da foto é o Planeta Terra, que antes fora considerado o centro do universo. Hoje não é mais do que um pálido ponto azul.