Tag Archives: argumentação

Há uma crescente leva de publicações de cunho ateu nas mais diversas mídias. O que antes estava reduzido a filósofos esporádicos e era encarado como motivo de vergonha ou receio, agora parece estar na boca de qualquer um disposto a falar. Por mais que alguns reclamem falta de legitimidade para o ato, não deve ser o caso. A hipótese deus(es) diz respeito a todos nós, direta ou indiretamente.

Como tal, foi tratada pelos mais diversos campos do conhecimento. Como fundamento metafísico, sob a filosofia e a teologia; sob o fundamento social, temos a sociologia e a antropologia. De certa forma, não importa a abordagem, pois sempre partimos da análise da justificativa da crença do homem, caso a hipótese da existência seja verdadeira ou falsa; ou da análise de seu comportamento, caso creia ou não na hipótese.

Colocando a questão dessa forma, a factualidade de deus(es) fica em plano secundário e passamos a estudar tópicos que dizem ou podem dizer respeito às nossas vidas práticas. É assim que a interferência religiosa nas mais diversas áreas legitima qualquer um de nós, especialistas ou leigos, a manifestar suas opiniões. Nesse sentido, alegar insuficiência acadêmica ou intelectual para que se critique a hipótese divina é apenas uma forma de calar bocas.

Mas deveríamos mesmo nos calar? Talvez. Mas se – e somente se – houvesse tratamento mútuo por parte dos religiosos. Ora, se não temos o direito de falar contra algo para o qual não vemos evidências, também não deveria haver o direito de professá-lo. Hegemonia e números absolutos não servem como pretexto para calar as minorias e todo o nosso ordenamento jurídico caminha na proteção formal dos hipossuficientes substanciais.

Uma coisa é certa: se o problema é realmente a falta de escrutínio por parte das críticas ateias, que sejam mostrados exatamente os pontos falhos da argumentação. Era de se esperar que quem estivesse certo não se furtasse a oportunidade de mostrar conclusivamente o equívoco da tese contrária, mas o que vemos é simplesmente uma reação emocional, comparável a quem teve a honra ofendida – não a intelectualidade e a racionalidade.

Ainda mais interessante: a maior parte das críticas ateias diz respeito a duas características principais – a falta de evidências para a hipótese divina e a deturpação e a exploração da fé alheia em troca de benefícios político-financeiros para as instituições religiosas. São os dois pilares que sustentam, entre outras coisas, a dominação e o sequestro da moral e dos comportamentos individuais e sociais, o acobertamento a crimes cometidos por eclesiásticos e associados, o enriquecimento ilícito e a isenção de impostos que o propicia, a mutilação genital e a punição severa e desproporcional a delitos de menor importância, como o adultério e a apostasia.

Diante da exposição de tantos fatos, é possível reconhecer algumas reações arquetípicas, mas a principal delas é o ataque gratuito às fontes de críticas. É uma forma de autodefesa através do recrudescimento contra aqueles que simplesmente fizeram circular a informação. Fosse falsa ou difamatória, as vias judiciais seriam muito mais adequadas para resolver o litígio, mas raramente o fazem, em uma declaração tácita de veracidade do que é levantado.

Sem entrar no mérito da justiça ou da eficácia das normas, a verdade é que temos direitos inalienáveis dos quais não deveríamos abrir mão. Um deles é a liberdade de expressão, garantida constitucionalmente contra qualquer ato de uma maioria ensandecida e ditatorial, que busca calar opiniões em contrário. Dessarte, não será uma pessoa ou um grupo delas que farão com que escrevamos ou deixemos de escrever sobre o que nos agrada ou incomoda.

Em momento algum se questiona o direito de se crer no que quiser, mas sim a razoabilidade e a justificação das crenças. A discussão aberta deveria ser encorajada e não cerceada. Devíamos expor os diferentes lados e deixar que a escolha fosse feita por seus méritos e não por sua imposição. Devíamos entender, finalmente, que o direito de crer não é a obrigação de crer e que há, em contrapartida, o direito de não crer e de explicar-se por quê.

“Por que tantos tementes a deus?” Essa é uma pergunta muito boa. Nós, ateus, gostamos de debater sobre o assunto e expor nossas conclusões. Debatemos usando argumentos contra a existência de deus(es) e, principalmente, por que não é racionalmente aceitável acreditar em algum. Mas existe um fato que aparentemente derruba todas as nossas tentativas: existe uma boa quantidade de tementes a deus, deuses ou demais entidades sobrenaturais. Diante do fato de que a vasta maioria da humanidade acredita em deus ou deuses, nosso arsenal de argumentos parece quixotesco.

A resposta padrão de muitos ateus a essa questão é: os motivos racionais são poucos ou nenhum, mas os emocionais são muitos e são fortes. Eu me uso dessa resposta, pois realmente acho, depois de anos debatendo com teístas, que os motivos que levam à crença no sobrenatural são majoritariamente de caráter emocional. Uma boa porção deles insiste em dizer que não, possuem argumentos na ponta da língua, mas estão apenas querendo se enganar e, cedo ou tarde, acabam expressando que são, de fato, levados pela emoção.

Novamente, meu intuito não é rebater esses argumentos. Se algum teísta considerar que estou errado, sinta-se à vontade para postar seus argumentos nos comentários de nossos textos. Quero discutir o que seria essa tão falada motivação emocional. Ir além de simplesmente taxar a crença alheia como mera emoção e dar nome aos bois.

Bom, comecemos por um conceito muito desejado por nós: justiça. Queremos que os usurpadores paguem pelos seus atos e que os altruístas sejam recompensados. Tentamos fazer isso dentro de nossa sociedade com nossas próprias mãos, criando prisões e castigos para os primeiros, assim como honras e presentes para os últimos. Porém, reconhecemos nossas limitações e ansiamos por uma força promotora de justiça mais plena. Essa justiça tem que vir de algo maior que nós, mais poderoso e incorruptível. Esse “algo” normalmente é chamado de “Deus”.

Depois temos a curiosidade. A ambição citada no parágrafo anterior reflete uma característica marcante de nossa espécie, que é a vida em sociedade. O desejo de adquirir conhecimento amplo e seguro advém de outro aspecto nosso, que é a vontade de aprender. Dentro de uma sociedade majoritariamente cristã, é comum ouvir de muitos cristãos que o conteúdo da bíblia é uma verdade absoluta e que é tudo o que precisamos conhecer, que a sabedoria ali ensinada é mais profunda do que a mais brilhante eureca de um simples humano. Comicamente ouvimos muito frases do tipo: “no fim todos nós saberemos quem está certo”. É a crença de que, depois da morte, além da justiça feita teremos todas as respostas. Já falei um pouco sobre essa crença aqui (Porque não Acreditar, 5º parágrafo).

O terceiro desejo é a vontade de nunca deixar de existir. Em bom português: “o medo da morte”. Não me adentrarei nele, pois já dediquei três textos ao assunto (este, este e este). Só adianto que considero esse o desejo mais íntimo e o maior responsável pela crença no sobrenatural. Os três grandes desejos aqui comentados não são exclusividade de teístas. Ateus também os possuem. O que muda é que um deles aceita suas limitações e o outro abafa o fato com crenças sobrenaturais.

Portanto, como já devem ter percebido, podemos resumir esses três motivos como um desejo muito íntimo presente em todos nós. Uma fome muito grande por coisas que não vêm na quantidade que gostaríamos. Essa fome imensa que é a mãe de todas as fés. A justiça é rara, o conhecimento é pouco e a vida é curta. Essa fome se sacia acreditando que a justiça será feita, que todos os mistérios do mundo (ou ao menos os poucos que realmente interessam) podem ser desvendados e que a nossa existência não se finda com nossa morte. Essa crença poderia vir da maneira padronizada, através da lógica e da observação. O problema é que “lógica” e “observação” definitivamente não nos levam a concluir o que gostaríamos, então a nossa crença tem que vir do nada, é preciso ter fé. Tornamos uma dada limitação, que é a incapacidade de possuir um entendimento pleno sobre todas as coisas a nosso favor e colocamos os nossos anseios neste mar de ignorância que reconhecemos possuir. Nós, ateus, chamamos esse deus, que mora no incompreendido, de “deus-das-lacunas”. O que escapa nossa razão agora é algo sobrenatural e sacia a nossa fome. Ou pelo menos vai saciar, um dia quem sabe, basta ter fé e paciência…

II

Existe um recurso muito comum utilizado pelos crentes que é a falácia da autoridade. Ela funciona da seguinte maneira: argumenta-se que a afirmação é correta, pois ela supostamente foi defendida por uma pessoa ilustre. Um exemplo: “Fulano disse que é assim, e como ele tem PhD em tal área (não interessa qual) então deve estar certo”.

Mas é aí que vem a parte engraçada. No último texto falei de como a “ciência” caiu no imaginário popular como inimiga da “fé” ou mesmo de “deus”. Muitas vezes a ciência e a tecnologia eram retratadas como algo contrário aos bons tempos em que as crianças jogavam peão e não video games, e se andava de carroça ao invés de carro. Ou então os cientistas eram os arrogantes sabichões contradizendo antigas culturas e tradições de pessoas humildes. Mas bastava um cientista defender a ideia de que a ciência corroborava a fé para que este se tornasse uma autoridade de confiança instantaneamente. E então vem a falácia de autoridade mais irônica que eu conheço. Muitos textos apologéticos são recheados de citações de bioquímicos, físicos, matemáticos e geólogos, como se as palavras destes possuíssem maior peso do que a de qualquer outra pessoa. Não é a eloquência de seus argumentos ou o quão suas ideias refletem o mundo natural mas meramente o fato de serem cientistas e dizerem que deus existe.

Se algum dia encontrarem um texto avulso, como os manuscritos do mar morto, revelando em alguns de seus versículos que as espécies derivadas evoluem de suas ancestrais, a teoria neodarwinista será alavancada de “inimiga da fé” para “evidência de que deus existe”. O número de criacionistas iria cair e, quem sabe, Darwin seria canonizado! Brincadeiras a parte, a verdade é que a ciência é menosprezada ou mitificada quando convém. Mas, afinal, a ciência apóia ou derruba deus? Para mim, a resposta é fácil. Nem um nem outro, a ciência não trabalha com deus. Mas para os que creem não só em deus como na ciência como sua aliada/inimiga, essa pergunta é muito pertinente.

Para resolver esse dilema, muitos apologistas apelaram para a ideia de “cientistas verdadeiros”. Conceito nebuloso esse, o de “cientista verdadeiro”. Nada menos do que outra falácia, apelidada de “Falácia do escocês de verdade”. Para exemplificar, suponhamos que eu diga o seguinte: escoceses não bebem vinho. Então ao entrar em um pub qualquer você encontra um escocês bebendo vinho, para o meu desagrado. Esse testemunho eu posso desmerecer afirmando que “Um escocês de verdade não bebe vinho”. E ficaria eu sem definir o que diabos seria um escocês de verdade. Vai ver que o sujeito que você encontrou no bar simplesmente nasceu na Escócia, mas não possuía todos os atributos de um “bom escocês”. Falácia; meu argumento foi derrubado no momento em que você avistou o escocês “no ato”.

Linus Pauling - O que falta para ele ser considerado um cientista de verdade?

Aqueles que não se encaixam no perfil carente de definições de um “cientista de verdade” decerto são pseudocientistas. Exemplos desses “pseudocientistas”? Bom, temos Francis Crick; Paul Dirac; Alan Turing; S. Weinberg; James Watson; Steven Pinker; Linus Pauling; Susan Greenfield; Ernst Mayr; John M. Smith; Sir Julian Huxley e, enfim, a lista é enorme. Vale lembrar duas coisas. Primeiro, a lista de cientistas que acreditam em deus também não é pequena. Segundo, muitos dos cientistas considerados como “não verdadeiros” ou “materialistas” se autodefinem como agnósticos e não como ateus, apesar de que F. Crick, por exemplo, se definir como “um agnóstico com forte inclinação para o ateísmo”. De onde a ideia de “cientistas verdadeiros” surgiu é assunto para o meu próximo texto. É um assunto grande, pois muitos dos maiores cientistas da história acreditavam em deus(es), o que é motivo para grande orgulho de muitos religiosos desinformados. Só que a crença desses grandes gênios é algo peculiar quanto à sua natureza, assim como a época na qual esses cientistas viveram deve ser analisada cuidadosamente.

Os nomes que eu citei anteriormente são de pessoas muito importantes para a humanidade, vale lembrar. Dizer que Watson e Crick, os descobridores da estrutura do DNA, não são “cientistas de verdade” é atestado de ignorância. Temos ainda Linus Pauling, ganhador do Nobel de química e também da Paz (deve ser muito chato para um fanático saber que um ateu ganhou o Nobel da paz). Fora outros, mais claramente ateístas, como Stephen Jay Gould, Richard Dawkins e Carl Sagan. Não sei o que falta para esses senhores e senhoras serem considerados cientistas de verdade. Mas os apologistas certamente sabem. Se ao menos eles demonstrassem qualquer sinal de crença, seriam eles considerados geniais.

Quanto à porcentagem de ateus, tem esse estudo de Edward J. Larson e Larry Witham [1] feito dentro da NAS (National Academy of Sciences). A grande maioria é ateia, com um número menor de agnósticos e um número menor ainda de tementes a deus. Não sei como essa porcentagem se representa em outros lugares, mas certamente é um dado interessante.

O ponto é que isso é irrelevante. O estudo de Larson e Witham não prova que “verdadeiros cientistas” são ateus. Mas certamente é um soco no estômago para aqueles que acreditam em uma “ciência verdadeira” na qual deus é constantemente demonstrado. Qualquer posicionamento em um debate deve ser avaliado pelo peso de seus argumentos, nunca por falácias como a da autoridade, onde algo proferido por um doutor deveria valer mais do que por um leigo.

Notas:

[1]Nature, Vol. 394, No. 6691, p. 313 (1998) © Macmillan Publishers Ltd.

Deus e a Ciência:

1. A mitificação da ciência salvadora

2. No quê os cientistas acreditam

3. A crença dos grandes gênios

4. Sobre os magistérios não-interferentes

Nesta semana desejo abordar um assunto repetido e já bastante discutido, o qual tem me tirado substancialmente a paciência para debater ou conversar com crentes: a ineficácia dos argumentos racionais perante as cansativas e repetitivas falácias. Navegando na rede por sites céticos e científicos, e em especial pelo Ateus.net, nos deparamos constantemente com crentes, registrados nos fóruns de debates, árduos em exporem seus pensamentos crédulos e tentando a todo custo nos explicar a “lógica” de suas crenças e demonstrar que não há falácia alguma em suas descabidas retóricas. Quanto a presença de crentes em fóruns céticos, vejo até mesmo com “bons olhos”, uma vez que isto incita inúmeras discussões sobre diversos assuntos (insanos) religiosos abrindo naturalmente tantas portas para nós, céticos, argumentarmos com o máximo de racionalidade possível e, quem sabe, trazer alguma inocente “alma” para as raias da razão. Mas o esgotado problema a que me refiro reina em torno da total inutilidade justamente sobre o uso da razão e também do desprezo em relação à exposição da lógica. Para todo e qualquer assunto religioso devidamente refutado pelo cético, o crente sempre (desonestamente) ignora a lógica e responde com uma besteira qualquer tentando vergonhosamente validar sua fantasiosa crença.

Uma das maiores distorções da realidade nos debates entre crédulos e incrédulos, e que está no meu “topo de lista” sobre as coisas mais covardes e desonestas que os crentes costumam se pautar, é a insistência na não compreensão relativa ao “ônus da prova” e seu inadequado uso. Abandonei diversos debates, tanto em fóruns virtuais como em calorosas conversas pessoais com colegas ou com gente estranha, no momento em que a desonestidade de meus interlocutores chegou a este nível. É absolutamente inadmissível que a questão primária do “ônus da prova” não seja assimilada pelo crente debatedor, tamanha a facilidade de compreensão sobre o seu real sentido. Mesmo uma inocente criança, ao contar estorinhas para os pequenos amigos no recreio escolar, é capaz de compreender isso. Mas as insanidades dos crentes superam a lógica e a razão, portanto é de se esperar que eles não vejam absurdo algum na inversão do ônus. Porém, este fato nos tira a boa e agradável sensação de um debate produtivo. Isso nos faz parecer que estamos conversando com loucos:

“Prove para mim que você realmente recebe a visita de duendes no seu quarto todas as noites conforme está alegando”

“ Prove você que eu estou mentindo e que eles não existem. Afinal, é você que não está acreditando em mim!!”

É curioso como o esdrúxulo exemplo acima faz parte da rotina dos absurdos “argumentos” usados pelos crentes, e mais curioso ainda é o fato de que, mesmo ao lerem este exemplo no qual eu substituo a palavra alvo de sua cega crença (“deus” por “duendes”), ainda assim não entendem a simples e infantil lógica a quem de fato pertence o “ônus da prova”. Quando se trata do deus deles, insistem descaradamente na inversão do ônus, tornando qualquer debate inútil e sem propósito.

As falácias são velhas conhecidas no “universo” dos crédulos, e não existe ilusão alguma por parte dos céticos/ateus que num debate entre crentes e descrentes elas fiquem de fora, mesmo porque, sem o uso das famigeradas falácias, como eles defenderiam as contradições, ironias, fantasias, insanidades e aberrações contidas nas tantas raligiões e seitas que povoam o planeta? Mas seguindo com rigor o velho ditado que diz “há limite para tudo”, estamos caminhando para o esgotamento máximo no que tange discutir ou debater com crentes. Enquanto o tempo passa cadenciosamente e a ciência progride deixando cada vez um espaço menor para a existência de seres celestiais ou similares, “usurpando” dos crentes a possibilidade de reação plausível, a desonestidade que habita o conteúdo das explicações e/ou refutações promovidas por eles, os crentes, estão se tornando cada vez mais falaciosas e possivelmente, num prazo não tão longo, elas estarão superando o próprio significado da palavra “falácia”. Ultrapassarão tal categoria e adentrarão no território da mais pura desonestidade intelectual, tanto para si como para seus interlocutores. Uma falácia já é isso, mas eles estão indo além!

Ateus, céticos, cientistas, sábios…não são detentores da verdade absoluta e nem é disso que se trata a questão. Isso é irrelevante. O problema reside na distorção da lógica, no descaso para com a razão e na tentativa de explicar insanamente, desesperadamente e cegamente, o que ainda não se sabe, tornando uma conversa, um debate ou uma discussão, num circo de loucos e malucos que sequer compreendem um conceito tão banal e primário como o contido na expressão “ônus da prova”. E se entendem, a desonestidade por parte deles é ainda maior.

Iniciei o texto comentando sobre perder a paciência para debater ou conversar com crentes, e não há, de forma alguma, a pretensão de postular nenhuma razão absoluta a meu favor, tanto em assuntos religiosos quanto em quaisquer outros. Apenas expor uma situação que está tornando os debates entre crentes e descrentes absolutamente desleal e injusto por parte do primeiro grupo. Os crentes estão encurralados e desesperados; procuram sítios céticos para “checarem” sua própria fé e promovem um “show de horrores” com tópicos, respostas e refutações extremamente desonestas, transformando qualquer debate num covarde apelo à insensatez.

É notório e indiscutível (embora qualquer crente irá afirmar o contrário) que os humanos possuem suas crenças e religiões basicamente por medo da morte e pela busca de um sentido “maior”. E também, nos casos dos crédulos pensadores, para tapar as instigantes lacunas, por mais contraditório que isso possa parecer. O pensador crente usa em última análise a figura de um deus para cessar em sua cabeça as perturbadoras questões sem resposta, e curiosamente parece não perceber que abre uma lacuna muito maior. Na verdade ele abre uma fantasia absurda e simplesmente se contenta com ela. Neste último caso fica claramente demonstrada a relevância do fator emocional. Mas não é esse o cerne da questão que desejo abordar. Por ora, neste texto, deixaremos o medo da morte (que de uma maneira ou de outra, é natural sentirmos) e as lacunas de lado. O alvo da nossa reflexão profunda é o tal sentido “maior”. O que significa isso afinal?

É bastante comum ouvirmos de pessoas crédulas que os ateus carecem de um sentido para suas vidas e para o além-morte. Que não possuem um sentido “maior”, que vivem por viver. É evidente que há um equívoco nisso o qual não pretendo alimentar, que é a presunção do crente (uma certeza) em afirmar naturalmente que há vida após a morte. Mas para seguir adiante com a proposta do raciocínio requerido por mim, necessito hipotetizar que o crente esteja correto. Vou descer do meu arrogante pedestal de cético teimoso e dar asas à fantasia, imaginando assim todos os seres humanos morrendo e, sabe-se lá de qual forma, continuando suas vidas em outro “local” para todo o sempre. Na eternidade. Seja em um inferno, num céu, num paraíso, numa colina linda e exuberante, ou nos braços de sedutoras virgens ninfetas. Não me importam esses detalhes. O que está em voga é: o que isto traria de sentido “maior” para alguém? Tudo indica que os crédulos nunca pararam para analisar profundamente esta questão. Sequer devem ter ideia do siginificado da palavra eternidade, quando a usam. Dentro de um “universo” de fantasias e possibilidades de pseudo-situações pós-morte, ainda assim seriamos obrigados a nos perguntar: qual o sentido “maior” disso ou daquilo? Recentemente, li em um adesivo fixado no terminal de passageiros do aeroporto de congonhas-SP a seguinte inscrição que questionava os transeuntes: “Onde pretende passar a eternidade?”. Ora, não sei quanto ao leitor, mas por falar em sentido, aí está uma pergunta um tanto quanto sem sentido. Mas, dando sequência a essa hipotetização, a princípio, num surto de sinceridade e pensando em minha plena satisfação, eu responderia que desejaria passar a eternidade num lindo campo verde cercado das pessoas que amei durante minha vida; ou que desejaria passar a eternidade assistindo ao sitcom “Seinfeld”; ou que desejaria passar a eternidade ouvindo minhas bandas preferidas… Bem, são tantas as possibilidades que tornam a escolha difícil. Mas muito mais difícil de se compreender é que, seja lá qual for a escolha do crente em resposta ao adesivo religioso que indaga “onde” ele gostaria de passar a eternidade, qual seria o sentido “maior” dessa escolha principalmente se tratarmos com rigor o significado da palavra eterno?

Voltando ao mundo dos verdadeiros mortais, como podem perceber o sentido real de nossas vidas é absolutamente subjetivo e somos nós mesmos que o fazemos. Qualquer sentido “maior” que o crente reclame ou exija é um engodo idiota, infantil, fantasioso e, ironicamente ao contrário do que prega, verdadeiramente sem sentido. Se você for crente, pense nisso, porque como diz aquela antiga propaganda de cartão de crédito: “A vida é agora”

Você pode ser uma pessoa religiosa ou simplesmente ter a sua fé particular, mas se for honesto e justo consigo mesmo certamente deve ter milhões de questionamentos na cabeça. Se for honesto mesmo, de verdade, deve admitir sem necessidade de autodefesa (pelo menos deveria), que reside em seu interior uma boa dose de preguiça intelectual, ou simplesmente muito medo. Um medo aterrorizante. A sua aceitação incondicional em relação as absurdas contradições, que são visíveis nas crenças destituídas de razão, demonstram claramente isso. Por que não questionar? Qual o problema em duvidar? Como pode acreditar em algo (insano, lunático e descabido) por pura osmose, sendo que esse algo foge a tudo que se conhece na natureza demonstrada? Você crê em lobisomem? Em fadas? Você, que se diz crente e cristão, crê também nas virgens paradisíacas (muçulmanas) que aguardam os homens-bombas no céu? Você crê no Inri Cristo? Perguntas idiotas para situações mais idiotas ainda. Não há nada mais irônico e contraditório do que tratar assuntos lunáticos com discursos sérios e racionais. No entanto é isso que geralmente nós, incrédulos, tentamos fazer. Portanto, os céticos possuem uma parte de culpa no fomento dessa idiotice toda, pois há séculos vocês, crentes, deveriam ser devidamente desprezados pelos que se dão ao trabalho de pensar. Pensar e encarar a realidade é difícil, mas é necessário. Vocês não pensam.

Continuemos. Quando você está numa roda de amigos e aquele colega repleto de estórias e contos lhe propõe uma fantasia absurda e sem sentido natural, totalmente irracional e amplamente desprovida de bom senso, apesar de você se deleitar temporariamente com ela (o lazer fantasioso, um ótimo entretenimento, seja em forma de conto verbal, literário, cinematográfico, teatral etc.), não encontra dificuldade alguma para descartá-la assim que a conversa termina. Convenhamos: você não vai para sua residência achando ou pelo menos ventilando a hipótese de que as insanas palavras do seu amigo devaneador são “sagradas” ou “divinas”. Este exemplo, que a princípio é tosco aos olhos dos que creem em deuses celestiais e sequer param para pensar na equivalencia entre as tosquices (o meu deus é o verdadeiro, a bíblia é a prova disso!!), na verdade revela que a crença em algo destituído de razão é absolutamente prepotente e sem lógica racional. Uma simples análise imparcial comparativa e profundamente honesta comprova isso. Honesta a ponto de vencer a covardia interna e os próprios medos.

Se você é um crente, mas pelo menos com um pouco de esforço consegue entender essas palavras acima, lembre-se da próxima vez quando for censurar, debochar ou insinuar que a crença de outrem é esquisita, irreal ou maluca, que a sua própria crença não tem valor algum para a realidade. Não se esconda atrás da palavra para justificar as contradições da sua religião ou do seu credo em detrimento de outras, por mais que você as considere insanas. De fato elas são, não iria discordar de você em relação a isso, mas não são mais nem menos do que a sua. Na hipótese de você não aceitar essas palavras devido à cega paixão pela sua própria crença, pense consigo mesmo porque as outras seitas, religiões, lendas, estórias e folclores são irreais e a sua não. O que, além do que você chama de fé, torna sua crença especial e lógica em relação as outras? Faça a simples inversão da “fé”. Ponha-se no lugar de um muçulmano, por exemplo, que tem na mesma proporção as “certezas” na crença dele que você tem na sua. Se você compreender o que a palavra certeza de fato significa, e isso não fizer você pelo menos pensar e entender que existe algo estranho e bizarro nisso tudo, seu poder de discernimento e, consequentemente, sua lucidez sobre a realidade não existem mais. Ou seja, você é um crente.

Discursos emocionados, rituais repletos de simbolismo, exorcismos, curas milagrosas, incitação ao combate armado, utilização de argumentos pseudocientíficos. A oratória religiosa varia muito de secção para secção, mas seja qual for o método adotado é espantosa a sua efetividade. Como se consegue encantar tantos ouvintes com discursos subjetivos, que fogem da realidade?

A arte de alcançar os ouvintes com discursos fantásticos recebeu a alcunha de retórica. Aristóteles[1] dividiu a retórica em três principais segmentos: a retórica política (ou deliberativa), a retórica forense (ou legal) e o epidíctico (ou oratória de louvor); esta última é a que nos interessa. Para o filósofo macedônico: “os homens são convencidos por considerações de seus interesses”, e a efetividade do discurso religioso repousa nas inverossímeis respostas que traz aos medos e receios humanos. Seu segredo repousa na exploração das lacunas, na oferta de respostas ao que ainda não pode ser respondido.

A comoção é a principal arma da retórica, e tal elemento é bem familiar aos religiosos. Seja através do sofrimento de um mártir (como a figura de Jesus), da criação de ídolos (Chico Xavier, Alan Kardec, Mahatma Gandhi) através de discursos energéticos, seja do despertar de um sentimento de familiaridade. Já perceberam, por exemplo, como a igreja católica é organizada? O seu líder maior recebe o título de Papa (pai), assim como os padres (pais) e as freiras (irmãs). Os evangélicos se tratam por irmãos; a provocação deste sentimento de fraternidade (estar entre irmãos) é deliberada e serve a um propósito: a vontade natural de proteger a nossa família a todo custo.

Quando se trata de retórica, cada detalhe é importante. Os gestos, a articulação das palavras, a aproximação da plateia, a percepção de suas reações e a sensação que percorre os ouvintes de estarem sendo observados pelo orador, que aparenta oferecer um discurso preparado especialmente para quem o escuta. Ainda em Aristóteles, podemos apontar os três pilares que sustentam tal ardil: A aparência de discurso munido de razão (logos), o direcionamento do discurso para o lado emocional (pathos) e a autoridade da qual é investida o orador (ethos).

A igreja católica, com seus métodos arcaicos de atração e manutenção de fiéis, cada vez mais perde espaço para as seitas protestantes. Somente na década de 90, segundo o IBGE, o número de evangélico duplicou (de 9% para 18%), enquanto os católicos passaram de 83,8% para 73,8% (dados referentes ao Brasil, entre 1991 e 2000). Qual é o segredo do sucesso? Os constantes apelos emocionais, os discursos exagerados e demagógicos, exorcismos, curas e promessas de soluções para quase todo tipo de problema são determinantes no marketing sagrado.

Não podemos nos esquecer da fonte que alimenta a igreja evangélica, a chamada Teologia da Prosperidade, desenvolvida na década de 70 pelo americano Kenneth Hagin, que em síntese defende que os fiéis devem ser abençoados (presenteados) em vida com bens materiais. Nas palavras do pastor batista Ariovaldo Ramos, da Associação evangélica brasileira, “para os neopentecostais, existe uma obrigação de Deus para com os seus fiéis” [2]. Outro pastor, Anderson Angelotti Moraes, da Comunidade Evangélica Sara Nossa Terra complementa: “Jesus foi um homem rico. A igreja sempre pregou que ele foi pobre, mas isso não é verdade. Ele não recebeu somente três presentinhos dos reis magos. Ganhou muito mais e ficou rico. Tinha até tesoureiro. Como ele cuidaria de seus discípulos sem dinheiro? Vivendo de vento? Eles precisavam comer e trocar de roupa, mas isso a igreja tradicional não diz”[3].

Ora, quem não quer se aliar a um ser poderoso, capaz de nos tornar ricos, saudáveis (independentemente da moléstia que nos aflige), exorcizar nossos demônios e nos dar a vida eterna? Combinados com a figura de um pastor (ethos) e com missas em voz alta, onde constantemente grita-se e repetem-se frases de efeito (pathos), o discurso religioso torna-se uma bomba nuclear, que mata a razão e dissemina ilusões.

O Sociólogo Ricardo Mariano, em seu livro análise sociológica do crescimento pentecostal no Brasil, corrobora a ideia de que a retórica evangélica pauta-se nas promessas de soluções mágicas, ao afirmar: “uma grande parcela da população não tem acesso ao serviço de saúde – e, quando tem, recebe atendimento precário e mal entende os médicos. É muito mais fácil, e faz mais sentido, acreditar que os problemas são causados pelo demônio e se tratar na igreja.”[4]

A retórica manifesta-se não somente nos discursos, mas em outra importante ferramenta de persuasão: os hinos religiosos. Através da música sacra, exaustivamente repetida a cada culto e cerimônia, imbui-se na mente do fiel todas as ideias previamente encucadas pelo discurso retórico. A retórica e a música caminham de mãos dadas, e esta exerce papel sedimentador das ideias daquela.

É preciso se educar e compartilhar conhecimento. Há um défice zetético em nossa cultura – talvez proposital – que contribui significativamente para a instalação da ignorância manipuladora. Apenas a mente bem treinada e munida de senso crítico é capaz de resistir aos encantos irracionais das religiões. Daí a importância urgente em incentivar o estudo científico e o ceticismo moderado das gerações futuras e contemporâneas.

——————

  1. Cf. Aristóteles. Ars Retorica.

  2. Cf. Revista Galileu, Julho de 2002, Ano 11, nº 132. De onde vem a fé, pág. 21 – 27.

  3. Idem.

  4. MARIANO, Ricardo. Análise sociológica do crescimento pentecostal no Brasil. apud Superinteressante, Fevereiro de 2004. Edição 197. Evangélicos, pág. 51-60

Leitura complementar:

  • FONSECA, Alexandre. Evangélicos e mídia no Brasil. Edusf/Ifan/Faculdade São Boaventura, 2003.

  • ROMEIRO, Paulo. Supercrentes.  Mundo Cristão. 1993.

  • PIERUCCI, Antônio Fávio; PRANDI, Reginaldo. A realidade social das religiões no Brasil. Hucitec. 1996.

  • MAFRA, Clara; ZAHAR, Jorge. Os evangélicos. 2001.