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Imaginemos um biólogo dedicando-se a um projeto de classificação de cisnes. Ao observar o primeiro cisne, a característica mais marcante é o fato de ser uma ave branca. Ele observa o segundo, também branco. Observa um milhão de cisnes, todos brancos. Quantos cisnes precisariam ser observados para que, enfim, possamos induzir que todos os cisnes são brancos?

Pela lógica, nunca poderemos fazer essa afirmação com absoluta certeza, pelo menos não enquanto todos os cisnes do universo ainda não tiverem sido observados; o que, obviamente, é impossível. Temos então um problema: as leis de Newton, por exemplo, tratam justamente de uma generalização para repetidas observações; assim, como poderíamos confiar nessas leis se não as testamos infinitas vezes com infinitas variáveis?

Cisnes Negros

Cisne Negro Australiano, a hipótese do nosso biólogo foi falseada.

Este problema, inicialmente observado por David Hume no século XVIII, foi uma pedra no sapato dos cientistas. Todos tinham plena confiança de que, não importando quantas vezes se repetissem os testes, os resultados seriam sempre previstos pelas leis de Newton. A prática contrariava a lógica e isso era inaceitável para os filósofos da ciência.

A solução para este problema foi desenvolvida pelo filósofo Karl Popper, que observou que todas as nossas generalizações, que podemos chamar agora de teorias, estão sempre sujeitas aos fatos. Por mais abrangente e precisa que seja, sempre haverá a possibilidade de um novo fato vir à tona e contrariar a teoria. A isso dá-se o nome de falseabilidade.

Uma vez que todo o conhecimento científico é composto por teorias variadas, para definirmos se uma hipótese é científica, basta observarmos se esta hipótese é falseável. Porém, antes de procurarmos exemplos práticos, vale notarmos a diferença entre hipóteses e teorias num enfoque científico.

Teorias e hipóteses são, popularmente, consideradas como palavras sinônimas. Porém, para os cientistas, uma hipótese é um conceito muito inferior a uma teoria na hierarquia das ideias. Quando estamos diante de um fato não explicado, podemos considerar inúmeras hipóteses para explicá-lo; as hipóteses servem-nos para direcionar os esforços à próxima etapa, a experimentação. Quando uma hipótese resiste à experimentação ela pode, então, ser considerada como uma teoria. Assim como os cisnes brancos, para uma teoria ser considerada absolutamente correta precisaríamos testá-la infinitamente, o que é impossível. Mas basta apenas uma falha, uma única falha, e a teoria se torna inválida. A experimentação, portanto, não busca provar que a teoria está correta, pelo contrário, busca comprová-la como falsa.

Podemos ver que o avanço da ciência depende muito pouco dos experimentos que confirmam as teorias. Poderíamos passar séculos confirmando as Leis de Newton que não traríamos nenhum avanço significativo para a ciência. Muito mais faria pela ciência aquele que demonstrasse uma falha nas leis de Newton. E isso, de fato, foi feito por um físico chamado Albert Einstein.

Albert Einstein

Observemos, então, a falseabilidade de algumas teorias científicas famosas.

Teoria da Evolução: É a teoria que explica a diversidade das espécies por meio de mutações e seleção natural. Para falseá-la, basta encontrarmos uma espécie que não tenha qualquer relação com nenhuma outra espécie. Por exemplo, se encontrarmos um cavalo com asas, um Pegasus, a Teoria da Evolução não tem como explicar tal criatura, afinal, uma asa não pode aparecer em um cavalo sem uma série de registros fósseis de espécies intermediárias. Caso encontremos algo parecido, a Teoria da Evolução será falsa.

Teoria do Big Bang: É a teoria que explica o surgimento do universo por meio da explosão de uma partícula infinitamente densa e quente. Caso observemos, com um telescópio bem potente, um ser barbudo criando o universo, a teoria do Big Bang seria derrubada.

OK, imagino que o leitor não tenha ficado satisfeito com o último exemplo. Pode ser um exemplo idiota, mas derrubaria a Teoria do Big Bang caso fosse observado, nisso creio que todos podemos concordar. Uma teoria é falseável mesmo que possa ser falseável por um exemplo imaginário, idiota e impraticável; mesmo assim, uma teoria é falseável.

Voltemos agora à coluna da semana passada, na qual afirmei que o conceito da falseabilidade pode dar o golpe de misericórdia em qualquer hipótese não científica.

Não há nenhuma maneira de comprovarmos que o criacionismo não existe. Mesmo que, com uma máquina do tempo, observemos as pequenas mutações e variações da primeira bactéria até o homem, não é possível excluir que uma “inteligência superior” tenha determinado tais mutações.

Mesmo que tentemos praticar o suicídio com uma fórmula homeopática do veneno mais potente e não tivermos sucesso, não conseguiremos derrubar a possibilidade de que a homeopatia funciona, mas não para matar. Esse teste, aliás, foi feito na Bélgica.

Como comprovar então que o espiritismo é falso? Nem mesmo desmascarando todos os médiuns. Nem mesmo morrendo e voltando à vida sem ter visto nenhum espírito. Nada disso seria capaz de abalar a crença de qualquer kardecista.

Fica aqui o desafio aos leitores: um teste, por mais bizarro que seja, que consiga provar definitivamente e sem sombra de dúvida que espíritos não se comunicam conosco. Mandem seus testes pelos comentários. Aquele que, em um mês, chegar mais perto ganhará um exemplar do livro O mundo assombrado pelos demônios, de Carl Sagan.

Aparição

Chico Xavier com a materialização da Irmã Josefa. Uberaba 1965

Causa arrepios toda vez que ouço frases como: “Criacionismo Científico”, “O espiritismo não é religião, é ciência” ou até mesmo “Isto é comprovado cientificamente”. A ciência é largamente utilizada por todo o tipo de charlatão para vender seus produtos. Em um país como o Brasil, entre os piores no ensino de ciências, charlatões desse tipo encontram alvos fáceis em nossa população.

Tudo o que é científico está subordinado aos fatos. Por este motivo, uma das maneiras de avaliar o grau científico de uma afirmação é questionar quais fatos a sustentam. Quais fatos sustentam a astrologia, por exemplo? Haverá, possivelmente, casos em que a astrologia parece prever a personalidade de uma pessoa em particular; porém, o que observamos é que as previsões acertadas se encaixam para a quase totalidade das pessoas; quanto mais específica é uma previsão, maior a possibilidade de erro. Neste vídeo, James Randi faz uma excelente demonstração de como a astrologia é capaz de fazer acertos.

Experimentos científicos precisam sempre utilizar controles para avaliar os fatos. Um exemplo desta necessidade são os testes com homeopatia. Analisando a homeopatia isoladamente, esta é capaz de promover curas; porém, quando comparada com um placebo, o número de pacientes curados não se diferencia estatisticamente. Assim como fizemos com a astrologia, quando avaliamos os fatos, precisamos observar a influência de outros fatores como a idoneidade dos avaliadores, utilização de controles, relevância estatística etc.

Outras afirmações são, pelo menos aparentemente, sustentadas pelos fatos. O exemplo disso é o criacionismo, no qual seus proponentes sustentam que o fato de o corpo humano ser perfeito prova que deus existe e nos criou. Conforme já expus neste artigo, esta afirmação parte de uma série de pressupostos não comprovados (o fato de o nosso corpo ser perfeito, só para começar), e quanto mais dependemos destes pressupostos para sustentar uma determinada afirmação, menores são as chances de esta ser a explicação correta, conforme a Navalha de Occam.

Observar os fatos que sustentam dada afirmação e aplicar a Navalha de Occam já torna possível rechaçar quase todas as afirmações tomadas como científicas por charlatões. Existe, porém, uma terceira ferramenta que pode dar o golpe de misericórdia em qualquer uma delas, trata-se do conceito de falseabilidade. Este conceito, porém, é tão abrangente e interessante que merece o próximo artigo inteiro só para ele.