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II

Existe um recurso muito comum utilizado pelos crentes que é a falácia da autoridade. Ela funciona da seguinte maneira: argumenta-se que a afirmação é correta, pois ela supostamente foi defendida por uma pessoa ilustre. Um exemplo: “Fulano disse que é assim, e como ele tem PhD em tal área (não interessa qual) então deve estar certo”.

Mas é aí que vem a parte engraçada. No último texto falei de como a “ciência” caiu no imaginário popular como inimiga da “fé” ou mesmo de “deus”. Muitas vezes a ciência e a tecnologia eram retratadas como algo contrário aos bons tempos em que as crianças jogavam peão e não video games, e se andava de carroça ao invés de carro. Ou então os cientistas eram os arrogantes sabichões contradizendo antigas culturas e tradições de pessoas humildes. Mas bastava um cientista defender a ideia de que a ciência corroborava a fé para que este se tornasse uma autoridade de confiança instantaneamente. E então vem a falácia de autoridade mais irônica que eu conheço. Muitos textos apologéticos são recheados de citações de bioquímicos, físicos, matemáticos e geólogos, como se as palavras destes possuíssem maior peso do que a de qualquer outra pessoa. Não é a eloquência de seus argumentos ou o quão suas ideias refletem o mundo natural mas meramente o fato de serem cientistas e dizerem que deus existe.

Se algum dia encontrarem um texto avulso, como os manuscritos do mar morto, revelando em alguns de seus versículos que as espécies derivadas evoluem de suas ancestrais, a teoria neodarwinista será alavancada de “inimiga da fé” para “evidência de que deus existe”. O número de criacionistas iria cair e, quem sabe, Darwin seria canonizado! Brincadeiras a parte, a verdade é que a ciência é menosprezada ou mitificada quando convém. Mas, afinal, a ciência apóia ou derruba deus? Para mim, a resposta é fácil. Nem um nem outro, a ciência não trabalha com deus. Mas para os que creem não só em deus como na ciência como sua aliada/inimiga, essa pergunta é muito pertinente.

Para resolver esse dilema, muitos apologistas apelaram para a ideia de “cientistas verdadeiros”. Conceito nebuloso esse, o de “cientista verdadeiro”. Nada menos do que outra falácia, apelidada de “Falácia do escocês de verdade”. Para exemplificar, suponhamos que eu diga o seguinte: escoceses não bebem vinho. Então ao entrar em um pub qualquer você encontra um escocês bebendo vinho, para o meu desagrado. Esse testemunho eu posso desmerecer afirmando que “Um escocês de verdade não bebe vinho”. E ficaria eu sem definir o que diabos seria um escocês de verdade. Vai ver que o sujeito que você encontrou no bar simplesmente nasceu na Escócia, mas não possuía todos os atributos de um “bom escocês”. Falácia; meu argumento foi derrubado no momento em que você avistou o escocês “no ato”.

Linus Pauling - O que falta para ele ser considerado um cientista de verdade?

Aqueles que não se encaixam no perfil carente de definições de um “cientista de verdade” decerto são pseudocientistas. Exemplos desses “pseudocientistas”? Bom, temos Francis Crick; Paul Dirac; Alan Turing; S. Weinberg; James Watson; Steven Pinker; Linus Pauling; Susan Greenfield; Ernst Mayr; John M. Smith; Sir Julian Huxley e, enfim, a lista é enorme. Vale lembrar duas coisas. Primeiro, a lista de cientistas que acreditam em deus também não é pequena. Segundo, muitos dos cientistas considerados como “não verdadeiros” ou “materialistas” se autodefinem como agnósticos e não como ateus, apesar de que F. Crick, por exemplo, se definir como “um agnóstico com forte inclinação para o ateísmo”. De onde a ideia de “cientistas verdadeiros” surgiu é assunto para o meu próximo texto. É um assunto grande, pois muitos dos maiores cientistas da história acreditavam em deus(es), o que é motivo para grande orgulho de muitos religiosos desinformados. Só que a crença desses grandes gênios é algo peculiar quanto à sua natureza, assim como a época na qual esses cientistas viveram deve ser analisada cuidadosamente.

Os nomes que eu citei anteriormente são de pessoas muito importantes para a humanidade, vale lembrar. Dizer que Watson e Crick, os descobridores da estrutura do DNA, não são “cientistas de verdade” é atestado de ignorância. Temos ainda Linus Pauling, ganhador do Nobel de química e também da Paz (deve ser muito chato para um fanático saber que um ateu ganhou o Nobel da paz). Fora outros, mais claramente ateístas, como Stephen Jay Gould, Richard Dawkins e Carl Sagan. Não sei o que falta para esses senhores e senhoras serem considerados cientistas de verdade. Mas os apologistas certamente sabem. Se ao menos eles demonstrassem qualquer sinal de crença, seriam eles considerados geniais.

Quanto à porcentagem de ateus, tem esse estudo de Edward J. Larson e Larry Witham [1] feito dentro da NAS (National Academy of Sciences). A grande maioria é ateia, com um número menor de agnósticos e um número menor ainda de tementes a deus. Não sei como essa porcentagem se representa em outros lugares, mas certamente é um dado interessante.

O ponto é que isso é irrelevante. O estudo de Larson e Witham não prova que “verdadeiros cientistas” são ateus. Mas certamente é um soco no estômago para aqueles que acreditam em uma “ciência verdadeira” na qual deus é constantemente demonstrado. Qualquer posicionamento em um debate deve ser avaliado pelo peso de seus argumentos, nunca por falácias como a da autoridade, onde algo proferido por um doutor deveria valer mais do que por um leigo.

Notas:

[1]Nature, Vol. 394, No. 6691, p. 313 (1998) © Macmillan Publishers Ltd.

Deus e a Ciência:

1. A mitificação da ciência salvadora

2. No quê os cientistas acreditam

3. A crença dos grandes gênios

4. Sobre os magistérios não-interferentes

Nos Julgamentos de Nuremberg que se sucederam ao Holocausto, nos quais diversos oficiais nazistas foram julgados, quando inquiridos das motivações para a matança sistemática de inocentes a resposta era sempre a mesma: estávamos seguindo ordens.

Essa resposta, é claro, não convenceu nenhum dos juízes envolvidos nos processos; afinal, pessoas normais não aceitam esse tipo de ordem. Estes oficiais, para os juízes, eram psicopatas e mereciam ser castigados por isso. Porém, não foram apenas os altos oficiais os envolvidos nesta chacina, milhares de soldados também executaram inocentes; é possível que todos fossem psicopatas, ou, de fato, estavam apenas seguindo ordens?

Em 1961, o psicólogo Stanley Milgram iniciou um experimento que responderia essa pergunta.

Milgram selecionou voluntários para um experimento de memória e aprendizado. Neste experimento o voluntário assumia o papel de professor, sua função era a de fazer perguntas para outro participante (denominado aluno) utilizando um microfone. Para cada reposta incorreta, o professor deveria aplicar um choque elétrico que era aumentado em 15 volts de cada vez. Não havia contato visual, porém, os gritos e protestos do aluno podiam ser ouvidos. Ao lado do voluntário, ficava o experimentador que tentava, utilizando-se de sua autoridade científica, fazer com que o voluntário continuasse a aplicar os choques.

O que os voluntários não sabiam, é que o aluno era um ator e os barulhos que ouviam eram de uma gravação. O intuito do experimento era, na verdade, saber até onde os voluntários iriam, quantos deles aplicariam o choque fatal de 450 volts? Surpreendentemente, entre 61 e 65% dos voluntários “matava” o aluno. Era perfeitamente visível que os voluntários não se sentiam confortáveis com aquilo, também era visível que eles tinham plena consciência do que faziam. Ainda assim, continuavam.

Houve variações deste teste em que o voluntário recebia ordens do experimentador por telefone. Neste caso, a participação caiu para 21%, o que demonstrou a importância da presença da autoridade.

Incluo abaixo um documentário no qual o experimento foi refeito pela BBC.

httpv://www.youtube.com/watch?v=0PassGyF8X8

Parte 2

Parte 3

Muitos dos voluntários afirmaram que a principal motivação para terem ido até o final era a ideia de estarem fazendo aquilo em nome de um bem maior, no caso, para o avanço da ciência.

Não havia, para os voluntários de Milgram, nenhum tipo de ameaça; e, mesmo assim, a maioria foi até o fim. É provável que a colaboração atinja quase 100% se os voluntários fossem, de alguma maneira, ameaçados do mesmo modo que, provavelmente, os oficiais nazistas eram. Apenas para termos uma ideia, segundo o artigo 387 do código penal militar brasileiro, em tempos de guerra, a recusa ao cumprimento de uma ordem pode ser punida com a morte por fuzilamento.

Obviamente, não quero, com este texto, justificar as ações tomadas pelos oficiais nazistas. Vale a pena, porém, observarmos o quão facilmente podemos ser levados a atos contrários às nossas convicções morais e éticas, basta que peçam do modo certo.

Essa nossa predisposição à autoridade foi descoberta há pouco tempo pela ciência, mas certamente é conhecida há muito tempo por líderes de todo o tipo, de militares a religiosos.

No caso dos extremistas islâmicos, por exemplo, a autoridade observadora é substituída por uma autoridade divina onisciente, os alunos devem aprender sobre a verdade de Alah, caso contrário, serão punidos. Os resultados, como sabemos, são bombásticos.