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E se eu dissesse que, dentro de uma semana, uns primos seus do interior te visitarão em casa. Sete dias depois aparecem uns chimpanzés. Qual a sua reação? Vai recebê-los com comes e bebes ou vai mandá-los para um zoológico? Pense bem, pois os seus primos vieram diretamente do interior da África só para restabelecer laços familiares enfraquecidos há mais de 4 milhões de anos¹. Você e os seus primos, unidos por um casal de antropoides, que recordações vocês teriam dessa época de vacas magras? Um ramo da família ficou pelas florestas da África e o outro pretende conquistar o mundo.

Bom, se você é um teísta bitolado, deve ter odiado essa minha situação hipotética. Meu texto é endereçado a esse público, teístas e criacionistas reacionários que rolam de rir com a idéia de um suposto parentesco entre nós, humanos, e o resto dos primatas. Uma coisa que você, criacionista, não percebe é que a sua casa está cheia de primos. Até mesmo o seu intestino está cheio deles. No seu almoço você deve ter devorados alguns.

Não, não existem chimpanzés morando no seu intestino ou no seu prato (assim eu espero). Falo de primos ainda mais antigos. Se o seu almoço foi um bife, saiba que você divergiu da sua comida cerca de 85 milhões de anos atrás¹. Mas, se você é um vegan, então você e seu almoço estão separados por muito mais tempo. A data é imprecisa, mas é superior a um bilhão de anos. Tudo família.

Eu falei tudo isso para deixar clara uma coisa. A teoria da evolução não é sobre humanos evoluindo de macacos é algo muito mais amplo. Ela é ainda mais incorreta ser for interpretada como os humanos descendendo de macacos atuais (e não de primatas extintos, que seriam os ancestrais comuns a humanos e chimpanzés, por exemplo). Mas os macacos, os humanos, ou mesmo todos os primatas são meramente uma pequena parte do objeto de estudo que seria toda a biosfera, seus componentes vivos e seus ancestrais (compondo o que chamamos de “Árvore da Vida”).

Clássica caricatura de Darwin

É aí que entra a falácia do texto. Fazendo um retrospecto, no meu primeiro texto eu falei da falácia da abiogênese, um erro advindo da falta de clareza com que a biologia é ensinada nas escolas. Depois eu fui para a falácia da convergência de características, provinda de uma idéia errada na qual a evolução é essencialmente aleatória e de que essas características são praticamente iguais. A terceira falácia citada é a mais suja e polêmica de todas e diz que evolucionismo e nazismo andam de mãos dadas. Na quarta eu lidei com a evolução apresentada na mídia em massa e como isso reflete a visão das pessoas sobre a teoria. Nesta última, a falácia mais clássica de todas é a do homem surgindo do macaco. Traduzindo essa última falácia em apenas uma pergunta, muito difundida e freqüente: “Você acredita que viemos dos macacos?”.

Provavelmente você, criacionista ao qual me dirijo, já deve ter perguntado isso a muitas pessoas. Outra frase muito recorrente é: “Eu não acredito na evolução, pois não acho que o homem tenha se originado de macacos.” O que eu posso dizer é que essa afirmação está completamente equivocada em diversos graus.

O primeiro erro eu já deixei bem claro. Evolução não se trata apenas da origem do homem, portanto, não serei repetitivo. O segundo erro, como eu já disse no quarto parágrafo, depende do que você entende por “macaco”. Se a sua idéia é um macaco que você viu no zoológico ou na televisão, então devo dizer que está enganado. Os macacos atuais são tão ancestrais seus como você é ancestral do seu priminho de dois anos. Ou seja, vocês são parentes, unidos por um ancestral comum que, no caso do primo de dois anos são o vovô e a vovó; no caso dos macacos são vovôs e vovós de espécies extintas há milhões de anos, mas um não é o ancestral do outro.

É muito interessante notar o quão difundida é essa falácia. O motivo principal eu falei logo no meu primeiro texto deste sítio. Dizer que somos parentes de macacos ofende. Algumas pessoas ainda deliram sonhando que viemos de anjos ou de partes da anatomia de deuses poderosos. É meio frustrante para essa legião de iludidos admitir que seus avós não faziam parte de guerras celestiais ou participaram da criação do mundo. Frustrante porque ainda não foram capazes de contemplar a realidade em toda a sua grandiosidade, então preferem o devaneio místico a que estão habituados. Essa falácia é a mais importante, embora não seja a mais suja ou perigosa, porque traduz claramente a maior barreira para a compreensão da teoria evolutiva: o orgulho.


1. DAWKINS, Richard. A Grande História da Evolução: Na trilha de nossos ancestrais. Tradução de Laura Teixeira Motta – São Paulo: Companhia Das Letras, 2009.

II

Certamente, todos nós concordamos que a teoria da evolução ainda encontra alguns problemas. É uma teoria forte, porém incompleta. Ainda não se sabe explicar a origem da reprodução sexuada ou da célula eucariótica. A explosão do cambriano e como a vida se originou são lacunas que perduram até hoje. O que alguns não sabem é que essa mesma teoria não está em conflito com a maioria das coisas que acreditam estar. Isso é algo engraçado. Vejo pessoas dizendo que a evolução contradiz a biogênese, a entropia, a estatística, o bom-senso, mas raramente vejo essas pessoas atacarem onde a teoria realmente ainda não explica. Um exemplo disso está em processos de convergência presentes na natureza que, segundo alguns, contradizem a aleatoriedade da evolução.

Pois bem, segundo essas pessoas, uma mesma característica não poderia surgir independentemente em duas populações diferentes pois seria improvável demais. Para um fenômeno que ocorre essencialmente ao acaso, não seria possível uma estrutura, como a asa, por exemplo, surgir mais de uma vez em táxons distintos. Essa alegação se baseia na estatística. Para os seus defensores, dizer que a asa surgiu em vários grupos diferentes equivale a defender que um mesmo apostador ganhou na mega sena mais de uma vez. O melhor adjetivo para descrever esse comportamento tipicamente criacionista é “afobado”. Nomeamos uma estrutura considerando uma ou mais características que supostamente a designam. No caso das asas, seriam estruturas que permitem um vôo ativo e independente. Isso significa que qualquer estrutura que obedeça a essas definições pode e deve ser chamada de “asa”, independente do modo pelo qual ela alcança essas propriedades. Só que isso não implica que essas estruturas devam ser idênticas.

As asas são um exemplo didático, e até bonito, de como a crença na evolução como fundamentalmente aleatória é falsa. Na natureza existem leis bem estritas: qualquer coisa que não funcione muito bem estará apenas consumindo energia e a seleção natural ceifará tudo o que não for útil o suficiente. O que não significa que ela não premie, e muito bem, os improvisos. Dentre todas as estruturas possíveis de existir, pouquíssimas permitem o vôo, mas os caminhos para chegar a essas estruturas são bem mais diversos do que imaginamos à primeira vista.

Desenho das asas de aves e insetos. Notem que as diferenças são muitas.

Para começar, vamos analisar os grupos vivos que possuem asa, que seriam as aves, os morcegos e os insetos (Os pterossauros assim como algum possível grupo portador de asa desconhecido e extinto ficam de fora). Quanto às asas, todas são estruturas chatas e alongadas, quase ovais, que possuem flutuabilidade, força propulsora e arrasto. Sob o ponto de vista funcional, elas podem ser bem parecidas, mas anatomicamente as diferenças são muito maiores. As das aves podem ser entendida como um braço de um dedo só (na verdade, ainda tem o polegar, formando a álula) e com penas. Os morcegos possuem membranas interdigitais enormes, sendo as asas as suas mãos estendidas, por isso o nome “quiróptero” (asa nas mãos). E temos as asas dos insetos, que são bem diferentes das anteriores. São membranas finas e vascularizadas e, ao contrário dos vertebrados, nos insetos os músculos estão inseridos apenas no tórax.

Fóssil de Archaeopteryx

Mas como essas asas vieram a surgir é que é a parte interessante. São caminhos muito diferentes levando para o mesmo modo de locomoção. A origem das asas nas aves remonta à sua ancestralidade com os dinossauros, mais especificamente os terápodos (o grupo do velociraptor e do tiranossauro), chegando à espécie considerada como a ave mais antiga, que seria o Archaeopteryx. Seriam terápodos pequenos, leves, as penas seriam escamas modificadas. Essas penas estariam presentes não só no Archaeopteryx, como também em alguns de seus ancestrais terrestres. A função das penas em um dinossauro que não voava, ainda que pequeno, é uma incógnita. Mas devemos lembrar que nem tudo possui uma função em termos de sobrevivência, podendo as penas servir como display, seja para assustar predadores ou atrair fêmeas. O que muitos não sabem é que existiu uma porção de dinossauros com penas. Alguns deles possuíam muitas penas nas pernas traseiras e certamente muitas dessas linhagens de répteis penados foi extinta. Voltando aos Archaeopteryx, eles eram dinossauros muito pequenos, do tamanho aproximado de um pé humano, e não se sabe ainda se eles voavam ou apenas planavam. A hipótese atual para o comportamento desse bicho é que ele realizava vôos baixos e curtos, certamente para capturar animais voadores como libélulas. É a conhecida hipótese terrícola. Além de ser uma hipótese mais plausível, eu particularmente gosto muito dela, graças a um detalhe: ela lembra muito o começo do vôo dentro de nossa própria civilização. Como os primeiros aviões, o Archaeopteryx também não realizava vôos elaborados e extensos. O 14-bis voou apenas alguns metros, somente depois surgiriam aviões capazes de voar durante horas, percorrer continentes ou atingir velocidades supersônicas. Com as aves essa história é semelhante. Hoje existem aves que atravessam o planeta, pairam no ar e realizam rasantes em altíssimas velocidades. Um começo humilde, pouca coisa mais do que um mero salto, para enfim o vôo e todas as suas possibilidades.

Dumbo: inspirado pela história de sucesso dos insetos?

Para os insetos, a origem das asas é completamente diferente. As membranas que hoje são usadas para o vôo, antes eram usadas como termorreguladoras. Esse mecanismo não é novo. Para resfriar a linfa, o inseto a espalhava por uma membrana fina e a sacudia velozmente aumentando a troca de calor entra a linfa e o meio. Elefantes fazem algo análogo, irrigando as orelhas com sangue e abanando-as. O que os elefantes não conseguem é utilizar essas orelhas para voar (ao menos os elefantes reais, desconsiderando, neste caso, o Dumbo). É uma pena que não possamos conhecer a compreensão de mundo de um inseto, pois seria engraçado imaginar o quão perplexo ficou o primeiro inseto encalorado em seu primeiro vôo. E algo tão versátil, útil e poderoso quanto as asas, nascendo de um mecanismo prosaico de termorregulação. É como se os helicópteros tivessem sido inventados por um fabricante de ventiladores. Você pode imaginar a cena.

O que há de mais moderno em termos de "asas".

O ponto é: muitas pessoas veem na funcionalidade e na beleza da natureza um projetista infinitamente sábio e onisciente por trás. Tanta convergência, tanta eficiência só pode ser interpretada como obra de um designer inteligente. Bobagem. Não interessa o quão perplexos fiquemos com a complexidade de nosso mundo, sempre existe uma ótima explicação. Uma explicação mais completa, plausível e elegante, que só pode ser obtida através de muito estudo e muita perspicácia (sempre com uma pitada de  criatividade). Poderíamos encerrar a questão das asas como prova cabal de que existe um deus por trás das espécies e que ele sabe o que está fazendo, mas morreríamos sem conhecer as suas histórias evolutivas, interessantes e belas por si mesmas, como as próprias asas que deram origem.

Existem várias maneiras desonestas de se atacar um argumento. Essas maneiras são conhecidas como falácias e os criacionistas abusaram delas para atacar a teoria da evolução durante uns bons séculos. Talvez, mais corretamente, eu deva dizer que existem maneiras desonestas de não se atacar um argumento, visto que uma falácia consiste em desviar do argumento principal para tratar de um assunto inválido e/ou irrelevante para o debate. Falarei de uma falácia em especial, perniciosa e muito eficiente quando apresentada a um público leigo. É a famigerada falácia do espantalho.

“Argumento” de um criacionista. Eles tentaram...

“Falácia” é o tipo de coisa que, depois que conhecemos, começamos a encontrá-las por todos os lugares. Pois bem, quanto à falácia do espantalho, ela tem um certo grau de imundície, visto que ela consiste em criar uma versão deturpada do argumento e atacar a versão falsa, não o argumento em si. O que eu vejo como “certa imundície” reside justamente na deturpação e posterior atribuição de ideia tão ridicularizada ao debatedor. Imagino que essa deturpação venha principalmente da própria ignorância e não de uma tentativa deliberada (e propriamente suja) de ridicularizar.

Como a “versão espantalho” criacionista da evolução é imensa, vou abordá-la ponto a ponto. Falarei aqui sobre a ideia de que a teoria da evolução é incompatível com a teoria da biogênese. Começarei por ela por se tratar de um equívoco comum, principalmente quando levamos em conta como a evolução e a origem da vida são explicadas na escola.

Em primeiro lugar, a alegada incompatibilidade é incorreta. A teoria evolutiva não busca explicar a origem da vida, mas sim como as populações variam conforme o passar do tempo. Contudo, é inegável que essa mesma teoria acaba levantando a questão da origem. Certo, derrubamos a crença de que as espécies foram criadas tais como são hoje de maneira sobrenatural. Mas, então, como surgiram?

Eu estava ajudando a minha irmã a estudar para a prova de biologia do colégio. Comecei a discutir sobre a teoria da abiogênese, que foi cabalmente derrubada por Pasteur, sendo imposta a teoria biogenética no lugar. Só que a teoria da biogênese carregava uma ideia um tanto quanto ilógica: “A vida surge apenas de vida”. Então a minha irmã veio com uma pergunta, muito pertinente por sinal: “Mas, afinal, se vida surge apenas de vida, como surgiu a primeira?”

Perguntinha cabeluda. Não vou adentrar nas respostas por dois motivos. O primeiro é que não existe uma teoria sólida, apenas um conjunto de hipóteses. Segundo que, mesmo que eu abordasse apenas as hipóteses, acabaria tornando o texto demasiadamente extenso. O ponto é que a afirmação citada há pouco é falsa. A vida não pode surgir apenas de vida. Aliás, essa sequer é a conclusão do próprio Pasteur. O que ele atacou não foi toda a ideia de abiogênese, mas, especificamente, a da geração espontânea, como seres vivos complexos surgindo de matéria inorgânica.

Louis Pasteur derrubando a hipótese de geração espontânea.

O espantalho de toda essa história é o seguinte. A teoria evolutiva é falsa, pois supostamente estaria dependendo da teoria abiogenética, cabalmente derrubada por Pasteur. Devo dizer que este é o espantalho criacionista mais feliz de todos, visto que ele consegue pegar uma ideia simples ensinada na escola e colocá-la deturpadamente para falsear outra ideia, bem menos ensinada, que seria a evolutiva. Quando a questão é colocada desta maneira, com a evolução entrando em discórdia com a biogênese, realmente parece que o neodarwinismo é um devaneio patético.

Pois o que eu posso dizer sobre tudo isso? Conclui-se que Pasteur derrubou, entre outras coisas, que carne podre não era capaz de gerar moscas espontaneamente. Mas ele certamente não derrubou a teoria de que essas moscas surgiram a partir de insetos dípteros ancestrais e se diversificaram através de mutações e seleção natural. Uma coisa definitivamente não tem nada a ver com a outra.

Percebe-se uma tentativa desesperada de encontrar incongruências no neodarwinismo. Falarei sobre outro exemplo, no meu próximo texto, que falará sobre… asas!

Observando os seres vivos em nosso planeta, pode-se concluir muita coisa. Uma das mais óbvias é a de que eles demonstram uma variedade absurda de formas. Isso é um fato escancarado. Sabemos que existem cachorros, baratas, lambaris, caramujos, macieiras e repolhos. Conseguimos identificar cada um desses sem a menor dificuldade. Na verdade, a nossa capacidade de identificação vai ainda mais longe. Não apenas podemos diferenciar uma cobra de um tatu, como sabemos existir diferentes tipos de cobras, agrupamos cobras e tatus em classes distintas e chegamos a agrupar diferentes famílias e gêneros de cobras.

Outra coisa que podemos concluir ao observar os seres vivos envolve o seu material genético e, ao passo que para observar a biodiversidade precisamos apenas de um par de olhos, para se observar o material genético é necessária uma enorme carga de conhecimento em diversas áreas. Povos indígenas possuem um vocabulário extenso referente às várias espécies de animais de sua região, mas certamente não sabem nada sobre o material genético deles. Falo sobre as moléculas responsáveis por armazenamento de informação presentes em nossas células. A mais importante delas seria o ácido desoxirribonucléico, mais conhecido por sua sigla em inglês: DNA. Pois um fato muito intrigante relacionado a essa mesma molécula é a de que ela está presente em praticamente todos os seres vivos. E quando eu falo “praticamente todos” eu estou excluindo certos vírus, apenas (lembrando que sequer há consenso quanto à inclusão dos vírus entre os seres vivos). Ou seja, todo o resto possui DNA. Nós (seres humanos), leões, lampreias, formigas, lesmas, vermes, esponjas do mar, pés de alface, musgos, jacarandás, cogumelos, bolores, amebas, algas e bactérias, só para citar alguns. E esse DNA possui uma estrutura bem definida, a diferença entre o DNA de um jacarandá, de um verme e de uma bactéria se resume ao arranjo das bases nucleotídicas e de como essa molécula está disposta na célula. Em nós, por exemplo, o DNA está arranjado em grupos menores, repletos de proteínas, principalmente histona, conhecidos como cromossomos. Mas em certas bactérias, como a Escherichia coli, esta molécula encontra-se arranjada em um formato circular.

Pois é a união desses dois fatos, um mais evidente, o outro bem mais escondido, que são o assunto de meu texto. A interpretação desses dois fatos representa o choque da intuição com a descoberta. Em seu último texto, o Bruno falou sobre o mito do elo perdido. Pois esse mito é fruto de uma idéia errada, rígida demais que tínhamos de “espécies”. Para exemplificar, pense no que certos criacionistas dizem:

“Porque lagarto é lagarto, gaivota é gaivota e humano é humano. Você não vê um lagarto evoluindo para uma gaivota.” (frase minha, ilustrando o que eu realmente leio e escuto de muitos criacionistas)

Essa frase demonstra claramente a ignorância dessas pessoas no que se refere ao ambiente natural. Na verdade, ela demonstra a ignorância em dois pontos. No primeiro dele, a idéia que uma espécie não tem nada a ver com a outra. A primeira vista, parece ser uma constatação óbvia, mas não é sequer verdadeira. Sabemos diferenciar um lambari de um atum, mas somente um sistemata experiente diferencia certos lambaris um do outro. Imaginamos que as espécies possuem um lugar fixo, separadas uma das outras, só que essa idéia desmorona quando paramos para analisar cada espécie dentro de um mesmo grupo. Esse equívoco, essa falta de conhecimento sobre o que estão falando, também permite que os mesmos criacionistas soltem frases semelhantes como: “Eu reconheço a microevolução, mas acho a macroevolução um absurdo”. A crença é a de que existe uma diferença qualitativa entre as duas, sendo a “microevolução” a variação genética dentro de uma espécie e a “macroevolução” a especiação propriamente dita. No texto do Bruno ele mostra um caso de “espécies em anel”, que seria o das gaivotas do ártico. Tem ainda outro, tão didático quanto, que seria o das salamandras californianas Ensatina (imagem). Esses exemplos demonstram cabalmente que essa distinção entre “micro” e “macroevolução” só existe na cabeça de alguns desinformados.

O outro equívoco criacionista não é menos grosseiro. “Você não vê um lagarto evoluindo para uma gaivota”. E não vê mesmo. Até porque, isso supostamente não deveria ocorrer. Peguemos uma única espécie de lagarto e uma de gaivota, digamos, uma iguana verde (Iguana iguana) e a gaivota prateada que já estamos familiarizados (Larus argentatus). Pois bem, a primeira vista podemos dizer que elas são muito diferentes. Mas essas diferenças não se comparam às semelhanças, ainda mais patente aos olhos entre essas duas espécies. Ambos possuem pulmões, um par de olhos, fêmur, crânio diápsido, fígados e cérebro, por exemplo. Na realidade, eu poderia usar páginas e mais páginas para ilustrar as semelhanças entre os dois, seja ela de natureza morfológica, metabólica ou mesmo comportamental. Não precisaria de tantas páginas assim para falar das diferenças, que seriam relativamente escassas. Acontece que essas duas espécies são exemplares atuais de uma história muito mais antiga. A gaivota prateada e a iguana verde representam, cada uma, populações de indivíduos muito assemelhados entre si, localizados em clados separados. Esses clados, também conhecidos como ramos, lembram o gráfico de um pedigree, só que em escala muito maior. Um clado pode representar um agrupamento a nível de gênero, como Larus, por exemplo, no qual estariam inseridas a maioria das gaivotas. Mas também pode representar uma classe, como a das aves. Assim como existe um clado que agrupa a gaivota e todas as suas parentes aves com os lagartos e cobras, conhecido como Sauropsida, hoje dividido entre os Lepidosauria (lagartos, cobras e tuataras) e os Archosauria (crocodilos, aves e os extintos dinossauros).

Acontece que o conceito de espécie é nebuloso. Seria um arranjo de indivíduos semelhantes e nada mais do que isso. Caso nenhuma espécie tivesse se extinguido, seria inviável agrupar os seres vivos em “espécies”. Durante milênios tratamos esses indivíduos como representantes de grupos fixos e bem caracterizados, sem relação histórica um com o outro. Hoje temos o DNA, presente em quase tudo o que entendemos por vida, todos com uma estrutura bem definida. Sabemos que as espécies não são muito mais do que nuances entre o genoma de uma população e de outra. O quadro inverte, o que antes era a obviedade da diferença, hoje é a obviedade da origem comum.

Todos nós já ouvimos muito falar do poder da fé. A sublime e virtuosa fé, movendo montanhas e promovendo a justiça. Não apenas isso, mas também ouvimos histórias ou, mais provavelmente, estórias (também conhecidas como “causos”) sobre incontestes milagres decorrentes de quantidades colossais de fé. Coisas como sobreviventes de uma tragédia, fervorosos em momento de dificuldade e devidamente salvos pela mão divina. São histórias bonitas, com desfechos legais e dramáticos. Mas importante, elas alimentam a nossa ilusão de que não somos impotentes para muitos casos.

Um cético pensaria: “Bem que eu gostaria de ver um vídeo sobre isso”.

Existe um vídeo, sobre uma nobre demonstração de fé. Aconteceu em um zoológico em Taipei, capital de Taiwan, no dia 3 de novembro de 2004 [1,2].

Um sujeito taiwanês, conhecido apenas pelo seu sobrenome Chen, que na época tinha 46 anos, estava inconformado com um fato meio irritante. O cristianismo era uma dádiva boa demais para estar restrita aos seres humanos. Deus criou todas as criaturas que caminham, nadam, voam e rastejam, então nada mais justo do que espalhar o amor desta entidade para todos os seres.

A escolha de Chen talvez não tenha sido a mais sábia, pois a jornada de conversões ao cristianismo por todo o reino animal começaria com leões. Mas isso tudo era apenas mais uma evidência cabal de que Chen tinha fé de que daria certo.

Então, em uma atitude verdadeiramente cristã, o taiwanês pulou no fosso onde se encontravam os animais e gritou “Jesus vos salvará!”. Convicto do sucesso, ele se aproximou ainda mais dos leões e, bom, vejam o vídeo (não há sangue nem mortes):

httpv://www.youtube.com/watch?v=3XtJ-GSn0rg

O que aconteceu neste vídeo?

Bom, para um cristão, esse vídeo pode significar muita coisa. Muitos cristãos dirão que não é assim que funciona ou que o taiwanês não era um verdadeiro cristão (coisa que eu discordo veementemente). Poderão dizer que um Deus havia reservado esse destino para Chen, ou que o cristianismo não significa sair por aí, pulando em jaulas e convertendo animais selvagens. Mas é inegável que esse vídeo o quão impotente é a fé. Sim, talvez o pobre Chen não fosse um verdadeiro cristão, ou Deus estava a fim de ver um taiwanês apanhar de um leão e assim selou o destino dos envolvidos. Mas Chen tinha fé. Seria muita desonestidade dizer que ele estava fingindo. Ele pulou em um fosso cheio de leões, temos que reconhecer a coragem e convicção do rapaz.

Para um não cristão, isso não significa tanta coisa assim. Fora o fato de Chen ter agido como um maluco, tudo ocorreu como o esperado. A atitude do leão foi uma ótima demonstração de seu comportamento em casos de ameaça a sua família e, enquanto o leão ficou muito atrás do taiwanês em termos de estupidez, a nobreza do ato de ambos é equiparável.

Ponha-se no lugar do animal. Imagine-se em casa, com sua família. De repente surge um leão no seu quintal. Você, com um rifle carregado em mãos, o que faria?

Vamos lá, talvez as intenções do leão não sejam as piores. Vai ver que o felino está tentando te converter para a religião dele. Mas o mais provável é que ele invadiu o seu quintal porque estava com fome. Em todo caso, o melhor é não arriscar.

Nem precisa matar o leão. Basta uns tiros para cima, para afugentá-lo. O leão do vídeo poderia ter matado o intrépido taiwanês com relativa facilidade, mas duvido que suas intenções fossem essas. Tudo o que o leão queria é ver a ameaça longe de sua família. Reparem como o macho se coloca entre a fêmea e o cristão. Uma manobra típica de um cavalheiro.

Em momentos como este, podemos ver onde Deus realmente está. Está na cabeça de Chen, um senhor de 46 anos. O leão estava pouco se importando para as crenças e convicções de qualquer um por ali. Nem mesmo a equipe do zoológico pensou em apelar para Deus em um momento como esse. Se prontificaram jogando água e disparando tranquilizantes. Esse episódio mostra que, quando queremos colocar em prática as nossas crenças infundadas, elas simplesmente não funcionam.

Referências

BreakingNews.ie – Lion attacks man in Taiwan cage

Orlando News – Man Survives Jump Into Lion’s Den

Qual foi a última vez que a Teoria Gravitacional foi taxada de “mera teoria”? Quando que a teoria da tectônica de placas ou a teoria atômica foram consideradas blasfêmias, entrando em conflito com várias facções religiosas?
Com certeza, essas teorias não foram muito bem aceitas logo quando foram propostas. Inclusive, muitas delas foram severamente criticadas. Newton teve que ver a sua teoria gravitacional constantemente ridicularizada em diversas caricaturas e Wegener morreu sem testemunhar o prestígio que a sua teoria sobre placas tectônicas alcançaria anos mais tarde.
Mas, em 2009, suas teorias são amplamente aceitas, não apenas no meio acadêmico, como em qualquer setor da sociedade. O mesmo não se pode dizer sobre a Teoria da Evolução, cuja autoria é conferida a Charles Robert Darwin e Alfred Russel Wallace.

Por quê?

Existem duas possibilidades. Ou a teoria é falha, ou existe outro motivo, não racional, pelo qual muitos relutam em aceitá-la como verdadeira.
Quanto à primeira possibilidade, devo dizer, é uma possibilidade muito pequena. A teoria neodarwiniana afirma que a variação genética de uma população em relação ao tempo é definida por uma etapa de aumento aleatório de informação, que incluiria mutação, deriva genética e recombinação, sucedida por uma diminuição nada aleatória, representada pela seleção natural. Não irei me ater, dentro deste texto, sobre todas as evidências que corroboram cada etapa desta afirmação. Mas posso garantir que não existe a menor dúvida de que estas etapas ocorram, estão amplamente documentadas, e o resultado destes processos resulta no que chamamos de evolução.

Antes de entrar na outra possibilidade, deve-se salientar que não é apenas a Teoria Evolutiva que encontra problemas. O maior absurdo é que muitos, hoje em dia, negam o fato da evolução. Eu entenderia que muitos discordassem da explicação que Darwin, Wallace e todos os neodarwinistas que os sucederam deram para o fenômeno da variação genética de uma população em função do tempo, mas duvidar do fenômeno em si é ainda mais grave.
Sobre a evolução como fato e teoria, não posso deixar de citar esse brilhante trecho escrito por Stephen Jay Gould (trecho original, seguido da tradução em português):

“Evolution is a theory. It is also a fact. And facts and theories are different things, not rungs in a hierarchy of increasing certainty. Facts are the world’s data. Theories are structures of ideas that explain and interpret facts. Facts do not go away when scientists debate rival theories to explain them. Einstein’s theory of gravitation replaced Newton’s, but apples did not suspend themselves in mid-air, pending the outcome. And humans evolved from ape-like ancestors whether they did so by Darwin’s proposed mechanism or by some other yet to be discovered.”

(tradução)“A evolução é uma teoria. Mas também é um fato. E fatos e teorias são coisas diferentes, e não estágios de hierarquia de certeza crescente. Fatos são dados do mundo. E teorias são as estruturas de idéias que explicam e interpretam os fatos. Os fatos não desaparecem enquanto os cientistas debatem teorias rivais que tentam explicá-los. A teoria gravitacional de Einstein substituiu a de Newton, mas as maçãs não ficaram pairando no ar, à espera da definição. E os seres humanos evoluíram a partir de ancestrais parecidos com símios, quer através do mecanismo proposto por Darwin, quer através de qualquer outro ainda por descobrir.”

Charge, por Kyle Baker

Charge, por Kyle Baker

Quanto aos que duvidam da atual teoria neodarwinista sobre a evolução…   Continuem duvidando. A dúvida produz conhecimento, duvidar é pensar. Não temos por que aceitarmos a Teoria Sintética da Evolução como explicação absoluta para qualquer fenômeno evolutivo encontrado. Existem teorias alternativas, que inclusive complementam perfeitamente a teoria neodarwinista, como a teoria endossimbiótica, de Lynn Margulis. Essa teoria diz que organelas como mitocôndrias e cloroplastos se originaram a partir de procariotos engolfados por procariotos maiores. Teoria hoje amplamente aceita.

Meu foco vai para os que rejeitam a evolução como fato. Peço a vocês que parem e pensem. Tudo o que é necessário para ocorrer tal fenômeno é uma variação genética ao longo do tempo. Isso é um fato cabalmente comprovado. É bem possível que os detalhes desta teoria, como a afirmação de que os anelídeos são mais aparentados com os artrópodes do que com os moluscos seja motivo de discussão. Mas quanto à variação genética em si, realmente, não tem o que debater.

Então, vamos para a outra possibilidade. A de que a evolução é rejeitada por qualquer outro motivo. Ou seja, ela não é rejeitada após uma análise cuidadosa de suas proposições. É rejeitada precocemente por questões menos racionais.
Para exemplificar bem o que eu quero dizer como “menos racionais” irei direto a um dos pontos que mais incomodam muitos dos opositores do evolucionismo, com a seguinte pergunta:

Qual a dificuldade em reconhecer que somos parentes próximos dos macacos?

Essa pergunta é uma verdadeira pisada no pé da maioria dos criacionistas. A caricatura feita de Darwin era justamente a do velho Charles no corpo de um macaco. É comum encontrar panfletos criacionistas começando com a pergunta “Você acredita que veio de um macaco?”. O último artigo realmente barulhento sobre evolução comparava o material genético do chimpanzé com o nosso. O próprio Wallace, um dos pais da Teoria, voltou atrás na hora de incluir os seres humanos na baila, alegando que sua inteligência não poderia ser explicada como mero mecanismo de sobrevivência. (um dos assuntos mais legais dentro da biologia, chamado de psicologia darwinista, procura explicar evolutivamente a nossa capacidade cognitiva).

Pessoas não têm problemas em ver que os organismos variam geneticamente ao decorrer do tempo. Elas têm problema, sim, em se situar no meio dessa história. Em enxergar as outras formas de vida não apenas como recurso, enfeite ou obstáculo, mas como parentes.
Muitas até toleram o fato de não estarem morando em um planeta que fica no centro do universo. Nem mesmo o Sol está no centro. A própria Via Láctea não está no centro. Mas nada ataca tanto o orgulho antropocêntrico quanto a evolução. Afinal, não somos mais pródigos descendentes de anjos, servos leais do próprio criador do universo. Agora nós somos parentes de macacos. Taxonomicamente, considerando que não temos nada que nos separe tão categoricamente destes animais, posso dizer que somos, de fato, macacos. No mínimo, primatas.

Pela última vez, parem de me seguir! Eu sou criacionista.

"Pela última vez, parem de me seguir! Eu sou criacionista.", por Dan Piraro

Mas existe ainda outro motivo e devo dizer que este é mais significativo, embora menos escancarado.
O evolucionismo dispensa um agente inteligente para explicar o fenômeno da biodiversidade.

Considerando que a teoria evolutiva é uma teoria verdadeiramente científica, naturalista, é de se esperar que ela possua essa característica. Nenhuma teoria pode ser chamada de naturalista se ela admite um agente sobrenatural nas suas proposições. Isso é evidente. E não difere de qualquer outra teoria científica. Nenhuma delas fala ou deixa implícita a necessidade de existir um ser externo e sobrenatural agindo sobre os agentes naturais.
Só que isso fica mais claro na teoria evolutiva, pois a vida era justamente um dos fatos que gozavam de uma explicação estritamente mística e religiosa. O nosso planeta, os rios, as estrelas, as montanhas, tudo isso poderia ter uma explicação meramente natural. Mas a vida era complexa demais. Temos dor, prazer, felicidade, sofrimento, por quê? Quem botou os animais e as plantas onde estão? Como viemos a ser o que somos? Nascemos e morremos, com qual objetivo? O porquê dessas coisas cabia à religião explicar. Tudo isso tinha um propósito e um autor, que era, na maioria das culturas, um deus ou deuses. Com o evolucionismo, tudo isso, que antes era sagrado, passa a ser visto sob a óptica naturalista.

Antes não havia muita dúvida. No caso ocidental, onde predomina a fé cristã, tínhamos a bíblia. E lá era explícito. Deus colocou as plantas, e depois a vida nas águas, as aves, o gado, os répteis e, por fim, o homem. (sim, a taxonomia da bíblia é meio estranha)
Certamente, o evolucionismo foi um baque. Este é o motivo pelo qual evolucionismo e ateísmo são comumente relacionados. Ou pelo qual se vê crentes alienados dizendo que a Origem das Espécies é a bíblia dos ateus. O evolucionismo tirou a história da vida de seu lugar como evidência favorita para a existência de deus, e a tornou em objeto de estudo científico. Dá para se dizer que deus é um conceito que se acomoda em lacunas, como muitos ateus defendem. E o que a nossa compreensão a respeito da evolução biológica fez foi justamente preencher uma lacuna enorme de nosso conhecimento.