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Durante todo o dia, bilhões acordam, trabalham, almoçam, se entretêm e dormem. Desses bilhões, alguns milhões morrem e outros nascem. Mas sempre temos uma quantidade enorme de gente, muitas delas estão confinadas em áreas relativamente pequenas as quais denominamos “cidades”. Acontecem crimes, crueldades, mortes estúpidas, mas o grreosso da população sobrevive ilesa a mais um dia e continua vivendo normalmente. Tudo parece funcionar em sintonia. Poderia ser diferente. Durante o dia, esses bilhões poderiam acordar, matar seus semelhantes, roubar o que desejassem e ir dormir. O número de mortos seria muito maior, com certeza, e a qualidade de vida de todos decresceria abruptamente.

Existe uma harmonia tênue, que permite o bem estar e a sobrevivência da maioria. A hipótese mais aceita, pelo menos aqui no Brasil, é a de que existe um “coordenador”. Algo além das pessoas monitora suas atividades e faz com que elas não se destruam em uma massa caótica. Outros diriam que não existe um “coordenador”, mas sim um “criador” que já nos fez dessa maneira, com um senso de moral embutido capaz de minimizar a desordem e maximizar o bem estar. Para estas pessoas, algo externo a humanidade tem que existir caso contrário a moralidade, que seria algo maior e que transcenderia as aspirações egoístas de cada um, não existiria. Da mesma maneira que um rebanho não se conduz ordenadamente sem um devido pastor.

A ideia é: sem esse “coordenador/criador”, sem esse “pastor”, a ordem dá lugar ao caos. Todo o ateu que já conversou abertamente sobre sua descrença ouviu certas perguntas. Uma particularmente muito idiota é: “se não existe deus, o que te impede de sair matando por aí?”. Alguém que faz essa pergunta só pode estar em duas categorias possíveis. Ou é um psicótico, cujo único motivo para não iniciar uma chacina é o seu medo por uma entidade sobrenatural. Ou, como imagino eu ser o caso da grande maioria, a pessoa em questão simplesmente não parou para pensar no problema devidamente. Alguns religiosos perceberam a ingenuidade e, conhecendo o comportamento não-genocida de algum ateu, alegam que a descrença em deus não impede a ação deste sobre nosso senso de moral. Realmente, se existe um deus e ele é o responsável pela nossa moral, a crença ou descrença faria pouca ou nenhuma diferença.

A hipótese de um agente coordenador se baseia em certas premissas. Uma delas é a de que a natureza não construiria por si só um comportamento no qual alguns se sacrificariam pelo bem alheio. Outra premissa é a de que motivações egoístas não podem dar origem ao altruísmo. Partindo dessas premissas conclui-se que a moral vem de fora e não de raízes naturais, como através da evolução, por exemplo.

Vamos analisar primeiramente a segunda premissa. Segundo certos teístas, nada impede um ateu de dar início a uma matança. Bom, esse seria o exemplo extremo de desvio moral. Comecemos com a pergunta: O que eu ganho matando pessoas? Sim, porque deve existir alguma recompensa muito boa reservada para os assassinos em séries, visto que é preciso um castigo eterno para impedir que isso aconteça. Eu desconheço tal recompensa. Por outro lado, o que eu perco matando pessoas? Bom, comecemos pela prisão, que não deve ser nenhum resort, principalmente se você for um genocida. Mas ignoremos a ação da polícia, suponhamos que não há polícia alguma e que você more em um vilarejo isolado. Mais uma vez, você despertará a ira dos habitantes que irão se vingar de ti. Agora imaginemos que você tenha aniquilado todos do vilarejo, neste caso, que bela babaquice o senhor fez. Para que serve um vilarejo deserto, sem ninguém para trabalhar, sem ninguém para você conviver? Convenhamos, os casos em que a matança traria benefícios mesmo para o mais egoísta dos psicopatas são, no máximo, muito raros.

Em um caso menos extremo, pensemos em um aleijado que derrubou a sua muleta debaixo do banco de uma praça. O que você ganha ajudando-o? Em termos estritamente egoístas, nada. Só que, não sei quanto a vocês, mas eu não acho uma boa visão a de um aleijado se entortando todo para tentar pegar sua própria muleta. É por isso que a maioria aqui, caso visse alguém nesta situação, pegaria a muleta para o aleijado. Sob outro ponto de vista, o que você perde ajudando-o? Quase nada, um pouquinho de tempo e um pouquinho de energia, quantidades irrisórias. Isso explica porque a maioria de nós se sente mais compelido a ajudar um aleijado do que sair matando por aí.

Podemos concluir que existe sempre um motivo egoísta por trás do altruísmo. Uma mente simplória pode interpretar isso de uma forma bem mais asquerosa do que deveria ser. Quando falo em motivos egoístas por trás de atitudes nobres eu não falo de segundas intenções, chantagens ou exploração. Falo da própria satisfação pessoal. Nem que essa satisfação consista em não ver um aleijado apanhando para pegar a sua muleta debaixo do banco. Mas a questão continua em aberto: porque nos sentimos satisfeitos com isso, mesmo que minimamente? Resposta evolucionista padrão: porque é adaptativo.


Imagem de Messier 92, um aglomerado globular. - por Achut Reddy/Flynn Haase/NOAO/AURA/NSF


Sobre os benefícios adaptativos no altruísmo, existe uma discussão muito grande sobre o assunto. Eu mesmo falo um pouco sobre isso neste texto. Existe um padrão observável de organização na natureza. A tendência é que os corpos mais caóticos se aniquilem, e os menos se perpetuem. Isso vai muito além da sociedade humana. Um exemplo são os aglomerados estelares. Nestes aglomerados podem existir até um milhão de estrelas. Acontece que essas estrelas não são estáticas, elas possuem órbitas, muitas vezes fortemente elípticas, e nenhuma delas se choca com a outra. A situação é análoga, poderíamos sugerir algo externo ao aglomerado que projetou as órbitas com tanta precisão que o choque entre elas é raro ou inexistente. Deve-se salientar que o que enxergamos nem sempre foi assim. Esses aglomerados normalmente são muito antigos – principalmente os globulares – e muitas das estrelas que lá estavam originalmente foram destruídas através do choque, sobrando apenas aquelas cuja órbita não interrompia a órbita alheia. O que fica após alguns milhões de anos de choques e explosões é um sistema harmônico que dá a ilusão de ter sido projetado.

Mas porque prefiro a abordagem naturalista perante a sobrenatural? Existem alguns pontos incoerentes na crença de um coordenador/criador. A primeira está na imperfeição do mecanismo, que ainda assim permite sofrimento e exploração. Isso é um problema apenas se o coordenador/criador em questão é considerado perfeito. É o deus normalmente presente nas grandes religiões abraâmicas. Nem vale a pena se ater nesse ponto, pois Epicuro já fez isso muito antes e muito melhor do que eu poderia fazer. Mas o maior problema é o mesmíssimo problema que a hipótese teísta encontra em diversas áreas: “explica-se” um mistério apelando para um mistério maior ainda. Poderíamos explicar a moral através de um suposto criador, mas como explicaríamos o criador? A curiosidade teísta para quando deus entra. Novamente, o que temos não é uma “explicação”, mas sim uma lacuna na qual deus coube com conforto.

Don Pedro de Barberana y Aparregui, Cavaleiro de Calatrava, por Diego Velázquez.

Don Pedro de Barberana y Aparregui, Cavaleiro de Calatrava, por Diego Velázquez.

Fundada no reino de Castilha, região que hoje é território espanhol, a Ordem de Calatrava foi a segunda Ordem de Cavaleiros a receber apoio papal. O papa Alexandre III reconheceu sua legitimidade em 1164, com o objetivo principal de melhor organizar a ofensiva da Batalha da Reconquista, na qual portugueses e espanhóis pretendiam expulsar todos os muçulmanos da península Ibérica.

Os cavaleiros da Ordem lutaram e combateram os muçulmanos que ocupavam a região andaluz. Mas não foi até 1409 que a Ordem, que tinha por símbolo a cruz da Igreja Católica Ortodoxa Grega entrelaçado pela flor-de-lis, símbolos da cristandade, ganhou poder político, quando o papa Inocêncio VII, convencido do sucesso da campanha da Ordem do Dragão, patrocinou política e financeiramente a Ordem de Calatrava para investir contra o império Otomano.

Calatrava, Wallachia e Constantinopla são apenas alguns dos vários sítios históricos que testemunharam o derramamento de sangue por motivos religiosos. Não sejamos simplistas a ponto de achar que tais fatos ocorreram apenas pela fé. Nenhum rei, nem mesmo o Papa gastaria tanto dinheiro e patrocinaria tantas mortes se não houvesse real interesse econômico e político no domínio cristão na Europa.

As igrejas sempre foram grandes máquinas de coletar dinheiro (muitas vezes às custas das ilusões daqueles que não têm mais ao que se apegar), e perder a galinha dos ovos de ouro seria um preço muito caro. Foi preciso, nestes dois últimos séculos, fechar os olhos para o sexto mandamento de Moisés.

Mas os livros de história estão sempre empoeirados nas prateleiras daqueles que querem dedicar a vida à religião. Quinhentos anos parece algo tão distante e surreal que é fácil negar ou ignorar o cheiro de carcaça que ainda brota de um passado nem tão distante.

A verdade é que não precisamos ir tão longe. Para manter as chamas da ignorância acesas, atropelam-se deliberadamente os fatos que, se não fossem patrocinados por uma poderosa entidade religiosa, jamais passariam desapercebidos. Quem seria capaz de ignorar o legado de crueldade deixado pelo nazista? Qual empresa se safaria de tantas acusações de pedofilia por parte dos seus representantes?

Enquanto existir o controle das massas por essas megaempresas multinacionais que,explorando a fraqueza emocional e a necessidade de consolo espiritual, enriquecem os salões do Vaticano e os bolsos dos pastores evangélicos, continuaremos jogando a sujeira para debaixo do tapete e fechando os olhos para as atrocidades cometidas sob a proteção da batina e do crucifixo.

Segismundo da Hungria, Sagrado Imperador Romano e fundador da   Ordem do Dragão.
Segismundo da Hungria, Sagrado Imperador Romano e fundador da Ordem do Dragão.

O ano é 1408. Preocupados com a expansão dos turcos, o papa reúne-se com nobres de toda a Europa para discutir estratégias de contenção do expansionismo islâmico. Dessa congregação e fruto do gênio do rei Segismundo da Hungria, é fundada a Societas Draconistrarum. Composta inicialmente por 21 nobres, a ordem tinha representantes das mais notórias famílias húngaras, com destaque para os Bathory, dos quais fazia parte Elizabeth Bathory, conhecida por banhar-se em sangue de mulheres jovens e belas, na tentativa de restaurar a sua própria beleza e juventude, e a família Bethlen, representada por Gabriel Bethlen, que provocou guerras calcadas em motivos religiosos.

A verdade é que a ordem lutou contra os turcos e caiu nas graças do Vaticano, sendo conferido ao rei Segismundo o título canônico de Sagrado Imperador Romano. Em 1410 Segismundo uniu forças com outra ordem beligerante católica, a Ordem Germânica dos Cavaleiros Teutônicos, ou Ordo domus Sanctæ Mariæ Theutonicorum Hierosolymitanorum, contra o rei Władysław II Jagiełło, que resultou na batalha de Grunwald, considerada por muitos historiadores como uma das maiores batalhas envolvendo Cavaleiros Católicos da Idade Média.

Para nós que crescemos aprendendo sobre a história das inquisições e das cruzadas, o banho de sangue proporcionado pelo expansionismo cristão, especificamente da Igreja Católica Romana, não mais impressiona. Os mesmos senhores que por vários anos estiveram à frente da única fonte de referência aos textos cristãos provocaram inúmeras guerras e matanças, tudo em nome de deus e em nome da fé na doutrina de Saulo de Tarso. Mas hoje pretende-se acreditar que a história do cristianismo nada tem a ver com as instituições modernas, e o passado parece tão distante e nebuloso que ignoramos conscientemente os massacres em nome de uma ignorância confortante.

Ademais, comete falta grave aos olhos dos cordeiros católicos abordar a história de sangue e mentiras que tornou possível a construção deste grandioso e secular instituto religioso, ignorando-se os séculos de matanças e perseguições, de doutrinações e punições, de pederastia e ignorância, de controle e resistência à ciência, provocados por esta grandiosa máquina de fazer dinheiro e gerar ilusões. Custo a acreditar que existam fieis que ainda levem a sério uma instituição predatorial como esta, que alimenta a segregação religiosa e incentiva a ignorância, através de atitudes homofóbicas, e anti-progressistas, com  o exemplos bizarro da proibição moral do uso da camisinha, com direito a palestras no continente africano, infestado pelo vírus da AIDS.

Emblema da Ordem do Dragão, baseado no mito do ouroboros.
Emblema da Ordem do Dragão, baseado no mito do ouroboros.

Aparentemente a Igreja ainda não se libertou de seus laços históricos, nem tampouco aprendeu com seus erros. Ainda há demonstrações explícitas do seu anti-semitismo latente, enquanto escondem crianças vítimas de abusos sexuais embaixo de suas batinas. Os fantasmas da Ordem do Dragão ainda circulam pelos corredores do vaticano, nos lembrando da sede de sangue que banhou os mármores das suas igrejas históricas.

Afirma-se que o ocidente é cristão por vontade de uma força divina, manifestada por revelações. A verdade é que foi a espada quem assegurou que os reis europeus mantivessem suas coroas e sua principal arma de controle das massas: o cristianismo. Não que estes líderes estivessem livres das garras alienantes desta religião oriunda do deserto. De fato a maioria deles era profundamente religiosa. Nos meus próximos dois textos tratarei de algumas dessas importantes figuras históricas, e tentarei abordar, ainda que de forma simplista, algumas das estratégias e métodos mais grotestos e menos divulgados dentre os utilizados pela cristandade durante a Idade das Trevas.

      Não é de se admirar que conflitos são inevitáveis quando existe algum tipo de escassez, seja ela de recursos naturais, de recursos humanos ou a falta de pura e simples sensatez (o que evidencia um atributo preocupante da atualidade: tudo pode ser pretexto para se iniciar um achaque — incluindo-se, aqui, as desculpas mais simplórias —). É o caso dos conflitos atuais que, por todo o mundo, fazem com que inocentes sejam alvos de insurreições que não se permitem mitigar. São verdadeiras disputas religiosas (que se iniciam como batalhas intestinas — e intestinais —) como as insurgências islâmicas no Magrebe, na Nigéria, nas Filipinas, no Oriente Médio, como a violência declarada entre xiitas e sunitas no Paquistão, como as agitações muçulmanas no sul da Tailândia1; 2.

      A primeira impressão que nos surge é a de que, das três etapas de desenvolvimento de uma sociedade (selvageria, barbárie e civilização), a última dificilmente é alcançada; e quando a ela se chega, nela não se permanece. Não é de se espantar que “o homem está sempre em estado selvagem. O que são os perigos da floresta e da pradaria comparados aos choques e conflitos diários do mundo civilizado? Enlace sua vítima no bulevar ou trespasse sua presa em florestas desconhecidas, não é ele o mais perfeito predador?”3. E, para nosso caso, tal predação resume-se a uma desculpa tão anêmica quanto as ideias que a fundamentam: aos islâmicos, se o todo-poderoso Alá está em todos os lugares e é o alicerce de tudo, a nós, contudo, tal ubiquidade não é um de Seus atributos: é, sobretudo, uma característica da ignorância de seus seguidores. Mas muitos conflitos deflagrados por muçulmanos radicais não ocorrem por acaso; tenhamos, de antemão, o fato de que uma das mais importantes fontes de conflito é a religião4, sendo a violência uma de suas partes integrantes5; por conseguinte, corrobora-se a ideia de que “todas as religiões são, em seu mais profundo nível, sistemas de crueldades”6.

      Crueldades, atrocidades, truculências apontadas nos bastidores das guerras religiosas que, por sua persistência, trazem a impressão de que não são travadas para serem ganhas, mas para serem conservadas — como se o sangue inimigo, sempre a escorrer, fortificasse a idolatria e dela retirasse alento. Para sermos estatísticos notemos que, “segundo estimativas de um acadêmico, em todos os momentos do período de 1950–96, os conflitos religiosos constituíram 33–47% de todos os conflitos”7. Ainda que tais subversões preencham várias linhas dos anais da História, tais conflitos não estão tão distantes de nosso tempo e de nosso espaço; se tomarmos por base o século XXI, observaremos que “o conflito no Afeganistão, na Caxemira, no Sri Lanka e em um número de Estados do Oriente Médio, ligado com o aumento do extremismo religioso, reforçou a visão de que há uma estreita e forte ligação entre a religião e o conflito. O conflito religioso não é, naturalmente, exclusivo à atualidade, mas existiu em várias formas na maior parte da História conhecida”8.

      Não é por acaso que o Islamismo — e, ouse-se dizer, o Cristianismo, o Judaísmo e outras sandices similares — configura-se como obstáculo para o crescimento individual, social, científico e cultural dos povos, eternizando modelos enlatados de compreensão da realidade, perpetuando conveniências atrasadas, frases feitas, respostas prontas e idiotias doentias; isso tudo, saliente-se, a partir de uma distorção emocional conhecida como “fé”, sentimento de rebanhos alucinados que se submetem, com genuflexão mas sem reflexão, a um cão pastor que os controle — e dele imitando o rosnar. Tanto assim que não se pode deixar de confirmar que, merecedoramente, os seguidores das principais religiões monoteístas do mundo foram (e ainda são) ligados à violência radical9. O Islã, mais precisamente, “aceita o uso da violência para defender a fé em uma doutrina de guerras justas, a última etapa do jihad (que deve ser traduzida como esforço da fé, não como guerra sagrada)”10. Um esforço ameaçador, diga-se, que faz dos infiéis vítimas de homens-bomba, esta espécie de possíveis impassíveis que dificilmente bradarão, a plenos pulmões, Debelatum est! — não enquanto a religião islâmica entender a intolerância como um modo de suprir sua fraqueza teórica; nesse caso, o único grito que será ouvido será um estrondoso Allah Akbar! Mas talvez seja possível entender (sarcasticamente) essa problemática ao notar que, em linhas gerais, para um católico o Paraíso é um encontro de parentes em um clube de campo, mas para um islâmico é uma despedida de solteiro em um bordel repleto de virgens. E, como se nota pelos jornais, a tentação é grande.

      Seja como for, tal esforço da fé significa, nas palavras de um islâmico, “opor-se à [sic] tudo quanto desagrada a Allah; e sob ponto [sic] de vista exógeno, ele (Jihad) significa combater o kurf – a incredubilidade[sic]/descrença com as palavras [com base no conhecimento da religião Islâmica] e acções”11. “Combater”, palavra da qual nem os próprios islâmicos estão protegidos, haja vista “o primeiro significado de jihad: a batalha não deve ser travada apenas contra os incrédulos, mas também contra os próprios muçulmanos, para anunciar ao mundo o selo da profecia e alcançar o Estado islâmico mundial”12. Visto isso, temos um cenário lamentável em que, quanto mais a humanidade progride, mais “a repressão cala fundo na alma dos que experimentam a secularização como agressiva e distorce sua visão religiosa, fazendo-a violenta e intolerante”13. Podemos, destarte, salientar o que se segue: “O que assistimos hoje? A um fundamentalismo sem fundamento. O que torna isso perigoso? Ninguém mostrar nada de fundamental”14.

      Do que vimos até aqui, em um apanhado de estudos e dados preocupantes, podemos compreender a gravidade da situação. Um panorama que — se mudar — não mudará tão cedo; um quadro social em que a religião islâmica torna-se a cada dia uma desculpa mais forte e menos coerente para o assassínio de cidadãos inocentes, porque “infiéis”. Nesse ínterim, o que podemos aceitar a princípio é que “uma religião que coage a consciência não tem direito a ser tolerada”15. (Mas não deve haver preocupação quanto a isso: mesmo contrários que somos e contrariados que estamos, não nos explodiremos em lugares públicos para reafirmarmos nossas ideias.)

      Por fim, e por esses — e outros — motivos, seria de bom-tom que os sectários de Alá pensassem duas vezes antes de iniciarem seus pronunciamentos com o célebre “Em Nome de Allah, Clemente e Misericordioso” (grifos nossos). Haveria algo de sarcasmo nessa epígrafe? Os fatos16 e as estatísticas dizem que sim.

      *   *   *

      Notas

      1. The decade in international conflict. Global security. Stockholm International Peace Research Institute, Ploughshar, US State department. 2009.
      2. JONGMAN, A. J. World conflict and human rights map. PIOOM – Interdisciplinary Research Programme on Causes of Human Rights Violations. 2001/2002.
      3. BAUDELAIRE, Charles. Fusées – Mon coeur mis à nu. Paris: Gallimard, 1986. Apud BENJAMIN, Walter. Charles Baudelaire – um lírico no auge do capitalismo. Trad. de Hemerson Alves Baptista e Jose Carlos Martins Barbosa. São Paulo: Brasiliense, 2004. p. 220.
      4. One of the most important sources of conflict has been identified as violence carried out on the basis of culture, ethnicity and religion […].” [NEIL J. “Islam, conflict and terrorism”. In: Sipri yearbook. 2006. Disponível na Internet via WWW. URL: <http://www.sipri.org/yearbook/2006/02/02C>. Acesso em 06 de fevereiro de 2010.
      5. “[…] violence is an integral part of religion”. JUERGENSMEYER, M. “Sacrifice and cosmic war”. Terrorism and political violence. Vol. 3. Número 3. 1991. Apud NEIL J. “Islam, conflict and terrorism”. In: Sipri yearbook. 2006. p. 124-125. Disponível na Internet via WWW. URL: <http://www.sipri.org/yearbook/2006/02/02C>. Acesso em 06 de fevereiro de 2010.
      6. “[…] alle Religionen sind auf dem untersten Grunde Systeme von Grausamkeiten […]”. NIETZSCHE, F. W. Zur Genealogie der Moral. In: ______. Sämtliche Werke – Kritische Studienausgabe. Vol. 5. Giorgio Colli e Mazzino Montinari (orgs.). Berlim: De Gruyter, 1988.
      7. According to one scholar’s estimates, throughout the 46-year period 1950–96 religious conflicts constituted 33–47 per cent of all conflicts”. NEIL J. “Islam, conflict and terrorism”. In: Sipri yearbook. 2006. Disponível na Internet via WWW. URL: <http://www.sipri.org/yearbook/2006/02/02C>. Acesso em 06 de fevereiro de 2010.
      8. Conflict in Afghanistan, Kashmir, Sri Lanka and a number of states in the Middle East, coupled with the rise of religious extremism, has reinforced the view that there is a close and strengthening linkage between religion and conflict. Religious conflict is not, of course, exclusive to the present day but has existed in various forms for much of known history”. NEIL J. “Islam, conflict and terrorism”. In: Sipri yearbook. 2006. Disponível na Internet via WWW. URL: <http://www.sipri.org/yearbook/2006/02/02C>. Acesso em 06 de fevereiro de 2010.
      9. “[…] adherents of all the world’s major religions — Buddhism, Christianity, Hinduism, Islam, Judaism and Sikhism — have been linked to extremist violence”. NEIL J. “Islam, conflict and terrorism”. In: Sipri yearbook. 2006. Disponível na Internet via WWW. URL: <http://www.sipri.org/yearbook/2006/02/02C>. Acesso em 06 de fevereiro de 2010.
      10. “[…] accepts use of violence to defend the faith in a doctrine of just wars, the ultimate stage of jihad (which should be translated as exertion for the faith, not as holy war)”. GALTUNG, Johan. Religions, hard and soft. Disponível na Internet via WWW. URL: <http://www.aril.org/galtung.htm>. Acesso em 06 de fevereiro de 2010.
      11. WAHHAB, Mohammad Ben Abdul. Os três princípios básicos do Islão e suas evidências. Trad. De Mohammad Mbiavanga Fernando. 2003. Disponível na Internet (para download) via WWW. URL: <http://www.islamismo.org/tresprincipiosbasicos.doc>. Acesso em 06 de fevereiro de 2010.
      12. “[…] el primer sentido del yihad: el combate no se debe librar simplemente contra los infieles sino también contra los propios musulmanes, para anunciar al mundo entero el sello de la profecía y realizar el Estado islámico mundial”. ÉTIENNE, Bruno. El islamismo radical. Madrid: Siglo veintiuno de España Editores, 1996, p. 173. Disponível (parcialmente) na Internet via WWW. URL: <http://books.google.com.br/books?hl=pt-BR&lr=&id=eUUSkG7gU08C&oi=fnd&pg=PA1&dq=islamismo&ots=Y2FAUdRVNh&sig=kbdicUK2ShM0jLZJ5uy21-HvDDc#v=onepage&q=&f=false>. Acesso em 06 de fevereiro de 2010.
      13. ARMSTRONG, Karen. Em nome de Deus – o fundamentalismo no Judaísmo, no Cristianismo e no Islamismo. Trad. de Hildegard Feist. São Paulo: Cia. das Letras, 2008, p. 406. Disponível (parcialmente) na Internet via WWW. URL: <http://books.google.com.br/books?hl=pt-BR&lr=&id=DwDosH8b0xwC&oi=fnd&pg=PA9&dq=islamismo&ots=N001fJdr_w&sig=ek8rJf4FsHtT8i-b5azkfSuiZZQ#v=onepage&q=islamismo&f=false>. Acesso em 06 de fevereiro de 2010.
      14. ABRAHÃO, T. H. Litterae Bellerophontis. São José do Rio Preto, 2008, p. 169.
      15. BAYLE, Pierre. Philosophical commentary on these words of Jesus Christ, Compel Them to Come in. Trad. de A. Godman Tannenbaum. Nova York: Peter Lang, 1987, p. 147. Apud FORST, Rainer. “Os limites da tolerância”. In: Novos Estudos – CEBRAP. Número 84, pp. 15–29. Julho de 2009. Trad. de Mauro Victoria Soares. Disponível na Internet via WWW. URL: <http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0101-33002009000200002&script=sci_arttext&tlng=in>. Acesso em 06 de fevereiro de 2010.
      16. Religious conflicts – A collection of news and information related to Religious Conflicts published by Tribune Company sources. Disponível na Internet via WWW. URL: <http://www.chicagotribune.com/topic/unrest-conflicts-war/civil-unrest/religious-conflicts/16003004.topic>.



      Leituras recomendadas



      Materiais multimídia disponíveis na Web

      Por acaso imaginaste
      Que eu iria execrar esta vida,
      Fugir para o ermo
      Por alguns dos meus sonhos
      Se haverem frustrado?

      Aqui me tens, e homens farei
      Segundo minha imagem,
      Uma raça de, a mim, iguais
      A padecer, a chorar,
      A gozar, a sofrer
      E nunca a ti se render
      Como eu![1]


      Dentre deuses, heróis, erínias, gigantes e outros, Hesíodo, em sua Teogonia[2], relata o nascimento e a vida de Prometeu, um titã que roubara o fogo do Olimpo a fim de presentear os homens. Castigado por Zeus, foi acorrentado a um penedo para que um abutre bicasse continuamente o seu fígado. Esse mito poderia servir para alertar os beberrões sobre as consequências do álcool, mas sua motivação é outra: mostrar os efeitos advindos da subversão por não reverenciar os deuses. Fato é — ou melhor, mito — que Prometeu dispôs-se a fazer homens segundo sua própria imagem, de maneira que não precisassem, como ele, idolatrar os habitantes do Olimpo. A captura do fogo seria, pode-se dizer, algo como a busca do conhecimento.

      BABUREN, Dirck van. Prometeu sendo acorrentado por Vulcano. Óleo sobre tela, 202×184 cm. Amsterdam: Rijksmuseum, 1623.

      Não somos os primeiros, contudo, a resgatar a alegoria: como Goethe (que em 1774 escreveu um poema do qual os versos finais nos servem de epígrafe), outros autores escreveram a respeito da figura que representa, grosso modo, a ambição humana por conhecimento. Evidencia-se, pois, a problemática da rebeldia contra os deuses, tema que se interpõe até hoje no seio da humanidade — desde que civilizada. Vale dizer que Francis Bacon, já no fim do século XIV, afirmara que tudo o que podia ser feito pela elevação do espírito já tinha sido consumado pelos gregos e romanos; pouco (ou quase nada) restaria às gerações posteriores a não ser dedicar-se ao aprofundamento das obras já escritas. E aqui estamos nós, mito de Prometeu em mãos e alguma dose de atualidade.

      Mas o que seria, nesse ínterim, a “vergonha prometeica”? Seria, em resumo, um sentimento que se apropria do ser humano quando este se defronta com a humilhante qualidade das coisas que ele mesmo concebeu — máquinas, instrumentos variados, computadores, novas tecnologias em geral. Tal comiseração, apontada por Günther Anders [3], surge de uma “[…] assincronia diariamente crescente do ser humano com o mundo de seus produtos”[4], de um desnível que resulta em uma perspectiva a partir da qual os homens se veem insignificantes diante de suas próprias criações. Obviamente Anders referia-se aos produtos tecnológicos concebidos pela civilização; mas não poderíamos nós, diante de tal conceito, apontar a ideia de deus como também um produto criado pelos homens e, do mesmo modo, capaz de nos fazer menores, bagatelas ontológicas, insignificâncias bípedes?

      Ao que parece a humanidade gosta, por natureza, de se humilhar. E para tal cria meios pelos quais permite-se constantemente se deparar com o abatimento; diante dos frutos de sua obstinação, sejam eles ábacos, catedrais, debulhadoras, foguetes espaciais, supercomputadores ou mesmo deuses, tudo é espelho para que os homens se reflitam desprezíveis. Afinal, nossos fracos braços não são tecnologia capaz de colher, em um dia, vastos hectares de soja; nossas pernas não são tecnologia adequada para alcançarmos grandes velocidades; nosso cérebro não é tecnologia de ponta capaz de realizar, como os supercomputadores, trilhões de operações de ponto flutuante por segundo — ou, como o deus cristão, capaz de nos fazer ubíquos, oniscientes e onipoderosos. Ademais, como declarou Michael Löwy, “Deus está inextricavelmente associado ao processo de culpabilização universal”[5].

      Dessa feita, infelizmente se descobre (muito tarde, vale dizer) que ideias metafisicamente excêntricas não nos podem curar os medos, as culpas e os males que a todo custo tencionamos ignorar — pelo contrário, os agravam. Um exemplo é o temor da morte (que nada mais é do que sequela do temor que se tem da própria vida), posto que “[…] os deuses não podem libertar os homens do medo, pois são as vozes petrificadas do medo que eles trazem como nome”[6]. Daí o embaraço em ser homem: suposto soberano em seu trono (no máximo, de porcelana), limitado à sua restrita realidade, atado a seus sonhos de grandeza e a tremer com os medos que o fustigam.

      Novas e velhas técnicas, tecnologias, paradigmas, ideias; limitação humana; vergonha prometeica. O que poderíamos disso concluir? Dentre outras coisas (que ficam a critério do leitor), o que se segue: ironias à parte, a ideia de deus nunca poderá operar com a mesma excelência de uma cafeteira elétrica.

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      Notas

      1. GOETHE, Johann Wolfgang von. “Prometheus”. Goethe’s Werke: Vollständige Ausgabe letzter Hand. II. J. G. Cotta’sche Buchhandlung: Stuttgart/Tübingen, 1827, p. 7778.
      2. HESÍODO. Teogonia. 700 a.e.c. (o texto, no original, pode ser encontrado no site do Perseus Digital Library.)
      3. ANDERS, Günther. Die Antiquiertheit des Menschen. Band I: Über die Seele im Zeitalter der zweiten industriellen Revolution. München: C. H. Beck, 1956.
      4. MARCONDES FILHO, Ciro. O espelho e a máscara. São Paulo: Discurso Editorial, 2002, p. 133.
      5. LÖWY, Michael. “O capitalismo como religião”. In: Folha de São Paulo, Caderno Mais!, domingo, 18 de setembro de 2005. Disponível na Internet via WWW. URL: <http://antivalor2.vilabol.uol.com.br/textos/frankfurt/lowy05.html>. Acesso em 04 de fevereiro de 2010.
      6. ADORNO, Theodor; HORKHEIMER, Max. Dialektik der Aufklärung: Filosophische Fragmente. Gesammelte Schriften Adorno 3. Frankfurt am main: Suhrkamp, 1997.

      Nosso tempo, esta atualidade, não se diferencia muito do que sempre foram as épocas em que a humanidade viveu. Seus traços divergentes, quando existiram, foram motivados pelas invenções tecnológicas e pelo conhecimento acumulado; mas em se tratando do homem, instintual como é, protagonista — e, ao mesmo tempo, antagonista — dos períodos históricos, arriscamo-nos a dizer que nada mudou: sua capacidade de perverter o mundo e a si mesmo tem, ainda, a potência para o impensável. No tocante ao conhecimento científico, se de fato suas descobertas não expulsaram completamente as alucinações humanas — pois apenas a recalcaram, como diria Sigmund Freud —, pode-se disso extrair o motivo de ainda observarmos toda sorte de crentes que, no passado e no presente, são também credores de nossa mais honesta comiseração.

      É certo que com toda a reunião de informações de que dispomos, com toda nossa — da humanidade — bagagem cultural, não chegamos ao ápice do conhecimento, mas ao menos já estamos em elevada altura. E (não é preciso ter escalado o Everest para saber), em grandes altitudes o ar é rarefeito. Nosso hoje, pois, se entrega ao sabor das consequências do pensamento humano que, se por um lado trouxe tantas realizações e possibilidades, por outro preparou nossa própria dificuldade em respirar. Palavras como “desespero”, “náusea”, “angústia”, “abismo”, entraram para o vocabulário dos homens quando se notaram diante do espelho de sua própria razão. Mas esse é o preço a se pagar por pensar demais; e antes de criticarmos nosso reflexo e nossas reflexões saibamos que, com eles, também podemos sair desse estado de “aflição”. Isso tudo pode servir para corroborarmos Freud, mas, sobretudo, serve-nos ainda mais para que nos preocupemos com o sempre possível retorno dessa espécie de zumbi que se denomina Ilusão.

      puzzlepieceIlusão que, talvez por ser um hiato mal ocultado — ou mesmo impossível de ser negado —, ainda nos incomoda porque, por mais que pensemos, não conseguimos extinguir a chaga. (Mesmo Nêmesis, personificação que punia os deuses gregos — e, por que não?, um poético sinônimo para “razão” —, não se daria ao trabalho de entrar em combate tão desleal contra um exército numeroso de tolos movidos a ressentimento: as armas da razão não os atingem.) Como salientou Jacques Lacan, “o sujeito humano está especialmente exposto […] a este tipo de vertigem que aparece e experimenta a necessidade de afastá-lo, a necessidade de fazer algo que o transcenda”[1].

      Junte-se a isso o fato de que “[…] o conhecimento moderno não proporciona uma acumulação de certezas, e, sim, a proliferação de incertezas”[2] e teremos, cedo ou tarde, queira-se ou não, pese muito ou pese pouco, a necessidade gritante de nos render à gravidade das evidências: somos nautas em um cosmos que não existe para satisfazer nosso ego e nossas interrogações mais insuportáveis. O vazio que fica carece de medula; e somos, nesse e em muitos outros casos, muito semelhantes à natureza: temos, também, horror vacui[3]. Isso não significa, no entanto, que devemos nos render à possibilidade sorridente e gratuita de enchermos as lacunas de nossas investigações com lama e lodo. Se a violência extremamente agressiva com a qual somos açoitados é a arma imponente de uma realidade caracterizada por, queiramos ou não, ter exatamente nisso sua raison d’être, se a natureza não existe para nos acariciar, não é por isso que devemos recorrer à facilidade das respostas enlatadas — que podem, sem dúvida, ser um paliativo para a inquietação, mas que de modo algum podem ser consideradas respostas.

      Preocupa, nesse ínterim, saber que diante de pessoas fracas o bastante para abraçar tais resoluções há a necessidade freudiana de preencher nosso vazio com algo que, sobretudo, nos coloque sobre o pedestal. O delírio coletivo está ali, grátis; basta aceitá-lo. Para isso, basta um pretexto. Para tal, basta um trauma. E, por fim, para isso basta simplesmente existir. As afirmações grandiloquentes e irresponsáveis são o combustível dos insensatos, e delas precisamos fugir para que não tenhamos, como a grande maioria, nossa individualidade, nosso caráter e nossa razão moldados com o barro da ignorância.

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      Notas

      1. LACAN, Jacques. In: Discurso de Julho de 1953, em virtude da fundação da Societé Française de Psychanalyse. Trad. Maria Sara Mangaravite. 1953.
      2. OLIVEIRA, Francisca Bezerra de. “Concepção de sujeito em saúde mental”. In: Psychiatry On-Line Brazil, Vol. 10, Número 9, Setembro de 2005. Disponível na Internet via WWW. URL: <http://www.polbr.med.br/ano05/artigo0905.php>. Acesso em 8 de dezembro de 2009.
      3. Expressão popularizada pelo latim, ainda que tenha origem grega (φρίκη του κενού), horror vacui diz respeito à tese aristotélica de que a natureza tem “horror ao vazio”; isto é, em um espaço hipoteticamente carente de matéria, naturalmente ocorreria a sucção de líquido ou gás para preencher o espaço. Para nossos propósitos, a expressão tem conotação metafórica: nossa mente não consegue viver sem respostas; logo, é abarrotada com sentidos — sejam eles coerentes ou toscos.