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Há uma crescente leva de publicações de cunho ateu nas mais diversas mídias. O que antes estava reduzido a filósofos esporádicos e era encarado como motivo de vergonha ou receio, agora parece estar na boca de qualquer um disposto a falar. Por mais que alguns reclamem falta de legitimidade para o ato, não deve ser o caso. A hipótese deus(es) diz respeito a todos nós, direta ou indiretamente.

Como tal, foi tratada pelos mais diversos campos do conhecimento. Como fundamento metafísico, sob a filosofia e a teologia; sob o fundamento social, temos a sociologia e a antropologia. De certa forma, não importa a abordagem, pois sempre partimos da análise da justificativa da crença do homem, caso a hipótese da existência seja verdadeira ou falsa; ou da análise de seu comportamento, caso creia ou não na hipótese.

Colocando a questão dessa forma, a factualidade de deus(es) fica em plano secundário e passamos a estudar tópicos que dizem ou podem dizer respeito às nossas vidas práticas. É assim que a interferência religiosa nas mais diversas áreas legitima qualquer um de nós, especialistas ou leigos, a manifestar suas opiniões. Nesse sentido, alegar insuficiência acadêmica ou intelectual para que se critique a hipótese divina é apenas uma forma de calar bocas.

Mas deveríamos mesmo nos calar? Talvez. Mas se – e somente se – houvesse tratamento mútuo por parte dos religiosos. Ora, se não temos o direito de falar contra algo para o qual não vemos evidências, também não deveria haver o direito de professá-lo. Hegemonia e números absolutos não servem como pretexto para calar as minorias e todo o nosso ordenamento jurídico caminha na proteção formal dos hipossuficientes substanciais.

Uma coisa é certa: se o problema é realmente a falta de escrutínio por parte das críticas ateias, que sejam mostrados exatamente os pontos falhos da argumentação. Era de se esperar que quem estivesse certo não se furtasse a oportunidade de mostrar conclusivamente o equívoco da tese contrária, mas o que vemos é simplesmente uma reação emocional, comparável a quem teve a honra ofendida – não a intelectualidade e a racionalidade.

Ainda mais interessante: a maior parte das críticas ateias diz respeito a duas características principais – a falta de evidências para a hipótese divina e a deturpação e a exploração da fé alheia em troca de benefícios político-financeiros para as instituições religiosas. São os dois pilares que sustentam, entre outras coisas, a dominação e o sequestro da moral e dos comportamentos individuais e sociais, o acobertamento a crimes cometidos por eclesiásticos e associados, o enriquecimento ilícito e a isenção de impostos que o propicia, a mutilação genital e a punição severa e desproporcional a delitos de menor importância, como o adultério e a apostasia.

Diante da exposição de tantos fatos, é possível reconhecer algumas reações arquetípicas, mas a principal delas é o ataque gratuito às fontes de críticas. É uma forma de autodefesa através do recrudescimento contra aqueles que simplesmente fizeram circular a informação. Fosse falsa ou difamatória, as vias judiciais seriam muito mais adequadas para resolver o litígio, mas raramente o fazem, em uma declaração tácita de veracidade do que é levantado.

Sem entrar no mérito da justiça ou da eficácia das normas, a verdade é que temos direitos inalienáveis dos quais não deveríamos abrir mão. Um deles é a liberdade de expressão, garantida constitucionalmente contra qualquer ato de uma maioria ensandecida e ditatorial, que busca calar opiniões em contrário. Dessarte, não será uma pessoa ou um grupo delas que farão com que escrevamos ou deixemos de escrever sobre o que nos agrada ou incomoda.

Em momento algum se questiona o direito de se crer no que quiser, mas sim a razoabilidade e a justificação das crenças. A discussão aberta deveria ser encorajada e não cerceada. Devíamos expor os diferentes lados e deixar que a escolha fosse feita por seus méritos e não por sua imposição. Devíamos entender, finalmente, que o direito de crer não é a obrigação de crer e que há, em contrapartida, o direito de não crer e de explicar-se por quê.

Já foi dito aqui, muitas vezes, que um ateu não crê que deus não existe. Ou ao menos não que isso seja necessário para caracterizá-lo como ateu. Muitos não-ateus gostam de lembrar que os ateus também creem em alguma coisa, como se crer fosse uma atividade proibida ao grupo. Obviamente, nada impede um ateu de crer em algo que não seja um deus. Não falo aqui das crenças mais ordinárias, como acreditar que tem que estar no trabalho daqui a meia hora ou acreditar que o Brasil é banhado pelo oceano Atlântico. Darei um exemplo de uma crença muito comum entre nós, ateus, seguindo a definição mais restrita de “crença” com a qual denotamos a crença dos, vejam só, crentes.

A crença no livre-arbítrio. A crença no livre-arbítrio talvez não esteja no mesmo patamar da crença de que Jesus nasceu de uma virgem, mas está lado-a-lado com a crença na vida eterna. Não é uma crença tão ingênua quanto a virgindade de uma mãe; no entanto, com certeza é muito esperançosa. Eu acredito, ou tento acreditar, mas o meu lado cético – que está preocupado em acreditar no que é real – briga com o meu lado esperançoso – que procura acreditar no que agrada – e minha crença não fica muito definida. Óbvio que, quando me refiro a ateus, é apenas uma parcela que acredita em livre-arbítrio.

Fala-se de maneira muito leviana no livre-arbítrio, de maneira ainda mais leviana sobre “liberdade” (eu gostaria muito que os norte-americanos me explicassem que “liberdade” é aquela pela qual eles lutam; nunca entendi direito). Adianto que é um assunto “levemente pesado”, se me permitem a contradição. Já falei sobre morte, defendi que deuses não existem (ou que não é lógico acreditar neles, vale esclarecer), mas falar sobre liberdade é mais pesado. Esclarecendo, falo de “liberdade” nesse texto como sinônimo de livre-arbítrio, até porque, se o livre-arbítrio não existe, então não existe qualquer forma de liberdade. Pensar que não somos livres para escolher, para desejar, é mais incômodo do que pensar que deixaremos de existir ou que não há deus. Na verdade, perto do livre-arbítrio, questões como “deus” e “morte” parecem até brincadeira de criança.  Provavelmente não existe deus algum nos protegedo nem garantia de vida após a morte, mas  o que importa é que vivemos e que, acredita-se, ajudamos a construir um mundo melhor. Desacreditar no livre-arbítrio implica acreditar em uma existência pela qual somos meros espectadores, passivamente gostando ou odiando os eventos que se sucedem.

Pegarei um exemplo banal para ilustrar o problema. Imaginemos que você vai a uma loja e deve escolher uma entre duas camisetas. Uma delas é amarela e a outra é azul. Você escolhe a azul. Ponto. Então você sai pela rua com uma camiseta azul, satisfeito com ela, imaginando que sua escolha foi boa. Tudo muito tranquilo até agora. Então você se lembra que, dias atrás, alguém te disse que a cor azul estava na moda. Veja como isso desvaloriza a sua decisão! No fim, o que te levou a escolher a camiseta azul foi apenas uma sugestão fútil sobre tendências da moda. Você imediatamente se sente uma ovelha em seu rebanho, uma ovelha vestindo uma camiseta azul. Talvez quem te disse sobre a moda da cor azul estava se beneficiando com o estouro de vendas de camisetas azuis. Então, só para se rebelar, você decide que talvez seja melhor comprar uma camiseta amarela e dar um “não” às tendências da moda e um “sim” à livre-escolha. Mas daí você se lembra que existe algo chamado “psicologia reversa” e que talvez a intenção era justamente a de fazer você comprar uma camiseta amarela. Como um pato, você caiu e começa a pensar se um pato de camiseta amarela é tão melhor assim que uma ovelha de azul. De um modo ou de outro, a sua escolha foi determinada pela alegação de que a cor azul está na moda.

Podemos supor que ninguém nunca te sugeriu nada e você comprou uma camiseta azul por achá-la mais bonita. Mas e por que você a acha mais bonita? Por que o azul te lembra a paz? Vai ver ele te lembra a paz pois é a cor de um céu limpo, ou porque lembra o mar, praia, férias. Nesse caso, a sua escolha não foi determinada por um interesseiro; foi determinada pela lembrança do mar e do céu que algum dia lhe represetaram paz. Fato é que ela não foi determinada por você e sim pelo que aconteceu em seu passado. Nossas escolhas não nascem espontaneamente no momento em que a realizamos; elas são consequências da carga de experiências que tivemos desde que nascemos.

Tudo fica muito mais leve quando falamos de camisetas e cores. Mas é claro que a questão se estende bem além disso. Aprendemos a ter orgulho de nossas escolhas, como a escolha da faculdade certa ou da esposa certa (ou do marido certo). Fazemos escolhas que consideramos erradas e ficamos imaginando como seríamos mais felizes se tivéssemos seguido um caminho diferente. Sem o livre-arbítrio, esses orgulhos e divagações são infundados. Como folhas boiando em um rio, onde nós somos as folhas e o rio é o meio em que vivemos, podemos ir parar em um lago limpo ou em um esgoto, mas não faz sentido se orgulhar por um ou se lamentar pelo outro. Uma existência sem deus ou sem vida eterna ainda é recheada de méritos, de glórias. Sem livre-arbítrio essas coisas se perdem. Termino o meu segundo texto sobre “morte” falando sobre a importância de deixar um bom legado. Digo naquele parágrafo que o legado é a eternidade concretizada pelos atos. Mas que coisa vazia seria se os seus atos não fossem escolhas suas e sim meras consequências inevitáveis. Darwin termina sua obra-prima dizendo “Há grandeza nessa visão da vida”, se referindo à crença de que todas as formas de vida surgiram de apenas uma, muito mais simples. E ele estava certo: há muita grandeza mesmo nessa visão da vida. Há grandeza na visão de um ateu também, não tenham dúvida, de uma vida sem deuses, uma vida que é bonita por si só. Existe igual grandeza em uma vida que tem um início e um fim, que deve ser aproveitada. Mas não, não há grandeza alguma sem livre-arbítrio.

Imaginem que hoje à noite uma pessoa vai bater na sua casa e lhe trazer uma notícia. Essa pessoa veio do futuro e viu tudo. Veio lhe dizer que a sua vida será medíocre e que você não chegou nem perto de realizar algum sonho seu. Pois bem, como não existe livre-arbítrio, a sua vida realmente será medíocre; quando confrontado com a opção de seguir uma via mais laboriosa e arriscada, você inevitavelmente negará em prol de uma mais confortável. Mas, se o livre-arbítrio existe, a mensagem dessa pessoa (muito importuna, por sinal) será apenas um incentivo para você ser um grande homem ou uma grande mulher. Isso demonstra de maneira mais clara o quão a descrença no livre-arbítrio é pior do que a descrença em deus ou na vida eterna. Tão pior que, pela primeira vez, eu espero sinceramente que alguém refute o meu texto com muita categoria, para que eu possa dormir tranquilo acreditando mais convictamente na liberdade de escolher.

Bom, para terminar, sem livre-arbítrio a vida é comparável a uma montanha russa. Na montanha russa, estamos presos em carrinhos que percorrem subidas e decidas. Como na nossa vida sem liberdade, as subidas e decidas não dependem de nossas escolhas e nossas emoções são determinadas em uma interação passiva na qual você apenas sente as consequências. Bom, termina o percurso da montanha russa, cheia de subidas, descidas, loopings e parafusos – todos eles lhe causaram uma gama de emoções diferentes. Medo, felicidade, alívio ou até mesmo enjoo. Não faria mesmo sentido se te descem parabéns por ter estado no ponto mais alto da montanha russa ou te consolassem por ter passado pelo mais baixo. Ninguém te perguntaria como você fez para dar todos aqueles loopings e ninguém dedicaria uma página na Wikipédia sobre “o parafuso que você deu naquela montanha russa”. Fazemos coisas semelhantes na vida real, como parabenizar e consolar, considerando os sucessos assim como os fracassos, e a analogia com a montanha russa mostra que essas atitudes não fazem tanto sentido assim. Mas talvez uma, e apenas uma pergunta seria relevante, tanto na vida como na montanha russa:

“O passeio estava bom?”

É uma época do ano em que a religião está em mais alta evidência. Por consequência, é também a época do ano em que os fieis entram em maior questionamento sobre sua crença. Alguns saem com a fé abalada; outros, fortalecida; outros tantos, sequer pensam a fundo sobre o assunto.

Para o cristianismo, é a época de celebrar o nascimento de Cristo, figura emblemática que até hoje divide opiniões sobre sua historicidade. Sabemos, no entanto, que a data não é mencionada algures nem alhures e que foi incorporada na tradição cristã através dos ritos pagãos de celebração solar, no hemisfério norte.

De uma forma ou de outra, tudo isso é irrelevante. Os maiores questionamentos pouco têm a ver com os dogmas específicos de tal ou qual religião. Principalmente porque eles, com o avanço científico, se tornaram mais simbólicos e mitológicos do que a maior parte dos religiosos se permite admitir.

Os maiores questionamentos ainda dizem respeito às nossas origens e ao nosso destino, depois da nossa passagem de tempo neste mundo que conhecemos. O fato de persistirem já seria suficiente para derrubar qualquer alegação de que a religião nos dá respostas satisfatórias para nossas preocupações existenciais.

A verdade é que temos uma resposta muito bem evidenciada: chegamos até aqui por meio da seleção natural e partilhamos com os outros seres-vivos toda a nossa história biológico-evolutiva. Depois que morrermos, também teremos o mesmo fim que terão nossos soci malorum: a inevitável decomposição e a reincorporação no ciclo do carbono.

Por que, então, protelamos as questões? Em parte, porque as respostas científicas massageiam pouco ou quase nada nosso senso de importância cósmica. Ou seria simples coincidência que tenhamos um paraíso à espera e o resto dos seres não? Aos advogados de nosso mérito, resta-lhes escolher características como consciência, raciocínio ou reflexão para justificar nossa posição central em um plano superior.

Não sei quanto às outras pessoas, mas suspeito que sejamos nós a escolher quais características devem contar para a seleção divina de seres; e suspeito mais ainda que as características eleitas para o concurso sejam exatamente aquelas que apresentamos com maior proeminência. E não me digam que a escolha veio de uma força maior, a menos que me apresentem o que vos legitima a falar em nome de deus(es) mudos e incomunicáveis.

No fundo, somos produtos em ambas as visões de mundo – não importa se científica ou religiosa. Se preferimos ser uma criação divina, isso diz mais sobre nossa vontade de valorização do que sobre nossa vontade de entender.

Ao invés de enxergar a religião como uma adaptação selecionada pela evolução, a corrente que a define como um produto acidental se baseia em dois principais argumentos: em primeiro lugar, a própria definição de “religião” como um conjunto homogêneo é vaga e carece de linhas divisórias claras. É um indício muito forte contra a afirmação de que os componentes do que hoje se conhece como religião surgiram em um mesmo ponto da história evolutiva.

Em segundo lugar, mesmo conceitos como os de deuses ou os de vida eterna – claramente religiosos – não gozam de mecanismos cognitivos próprios. De fato, o mesmo mecanismo que permite inferir sobre a personalidade de deus(es) nos dá a oportunidade de projetar características em agentes corpóreos, como os indivíduos que convivem conosco.

Em outras palavras, nossa capacidade de empatia, de pensar no que os outros estão pensando, de nos colocarmos em seu lugar, é simplesmente estendida a agentes não-corpóreos, como, por exemplo, pessoas já mortas, personagens fictícios ou agentes sobrenaturais.

Isso dá conta do ponto de vista cognitivo, mas aqueles que atacam a visão da religião como produto acidental argumentam que, na verdade, a religião teria sido selecionada por sua contribuição para as relações sociais dentro de um grupo. No entanto, mais uma vez, não há nenhum mecanismo especializado que seja exclusivo do que se entende por comportamento religioso.

Dentre os principais mecanismos de cooperação, poderíamos citar o monitoramento da reputação, os sinais e os dispositivos de comprometimento, a psicologia de coalizão, a forte reciprocidade dentro do grupo, os sinais étnicos e os sentimentos morais. Por mais que vários deles estejam presentes na religião, é consenso que todos evoluíram independentemente de crenças sobrenaturais e que operam de forma idêntica em quem não partilha delas, como é o caso de crianças que ainda não receberam doutrinamento religioso.

A explicação mais plausível é a de que tais mecanismos foram selecionados primariamente para resolver problemas morais mais gerais a fim de facilitar a interação social e que somente depois foram aproveitados em atividades religiosas. A religião seria, então, uma forma eficiente e particularmente pouco dispendiosa de organizá-los ao redor de um culto comunal, gerando uma falsa conclusão de que a moralidade é impossível fora de seu círculo.

Quod erat demonstrandum, os mecanismos dos quais a religião se aproveita não são exclusivos a ela, nem foram selecionadas por causa dela. Os julgamentos morais são independentes da crença religiosa e não há nenhum indício de que tenha sido selecionada pelos meios evolutivos biológicos, senão culturais e, como tal, deve ser estudada pela memética e pela antropologia.

Referência:

PYYSIÄINEN, Ikka; HAUSER, Marc. The origins of religion: evolved adaptation or by-product? Disponível em <http://www.wjh.harvard.edu/~mnkylab/publications/recent/EvolReligion.pdf>. Acesso em 30 nov. 2010. [em inglês]

Das origens da religião I: adaptação da evolução

Da função atual da religião

Pesquisadores da Universidade de Waterloo, no Canadá, disponibilizaram recentemente resultados preliminares de um estudo no qual 2563 ateus, agnósticos, humanistas, livre-pensadores e céticos responderam a um questionário pela internet.

Uma das primeiras informações interessantes é que apenas 25% dos não-crentes se autointitulam como ateus. Talvez essa tendência ocorra pelo fato de que a palavra “ateu” remeta a um sentimento de preconceito largamente arraigado na sociedade. Algo como: “tudo bem não acreditar em Deus, mas ser ateu é demais”.

Aproximadamente 30% dos respondentes teve consolidado o pensamento não-crente entre 16 e 20 anos.

O estudo também verificou que ateus são fortemente antiteístas e antirreligiosos, reportando, inclusive, atitudes hostis para com a religião e espiritualidade. Por exemplo, mais de 90% dos ateus entrevistados concordam que a religião se opõe ao progresso e às mudanças sociais. Agnósticos, por outro lado, tendem a ser menos hostis, possuindo uma tendência maior a serem indiferentes e, em alguns casos, até simpáticos com a religiosidade.

Os pesquisadores separaram as questões morais em dois tipos: Valores Individualizantes (igualdade, justiça, bondade e autonomia pessoal) e Valores de Ligação e Pureza (lealdade, pureza e respeito pela autoridade e tradição). Os ateus possuem forte tendência a respeitar os valores individualizantes, porém uma forte tendência a rejeitar os valores de ligação e pureza.

Obviamente, houve uma forte correlação negativa entre o ateísmo e a crença em vida após a morte. Entretanto, o que surpreende neste estudo é o fato de que 1,4% dos ateus afirmaram possuir alguma crença em vida após a morte e em espíritos; mas ainda mais surpreendente é o fato de esse número chegar a 29,2% para os outros não-crentes.

Este estudo demonstra uma forte diferença no modo de pensar entre ateus, agnósticos e outros descrentes. Fica bastante evidente que os ateus são mais confiantes e sentem ter tido algum benefício com sua descrença. Segundo os autores, essa confiança e sentimento de ganho foram especialmente fortes entre ateus e podem refletir a aceitação de uma visão coerente de mundo, possivelmente uma com base científica.

Ao final, o estudo separa aqueles que se autodenominaram ateus, agnósticos e ateus-agnósticos, para descobrir que as atitudes dos ateus-agnósticos são intermediárias aos outros dois. Quando falamos de Atitudes Antirreligiosas e espiritualidade, os ateus-agnósticos situam-se mais próximos dos ateus. No quesito confiança em seu sistema de crença, os ateus-agnósticos ficam exatamente entre os que se declaram somente ateus ou somente agnósticos.

O estudo completo está disponível aqui.

“Por que tantos tementes a deus?” Essa é uma pergunta muito boa. Nós, ateus, gostamos de debater sobre o assunto e expor nossas conclusões. Debatemos usando argumentos contra a existência de deus(es) e, principalmente, por que não é racionalmente aceitável acreditar em algum. Mas existe um fato que aparentemente derruba todas as nossas tentativas: existe uma boa quantidade de tementes a deus, deuses ou demais entidades sobrenaturais. Diante do fato de que a vasta maioria da humanidade acredita em deus ou deuses, nosso arsenal de argumentos parece quixotesco.

A resposta padrão de muitos ateus a essa questão é: os motivos racionais são poucos ou nenhum, mas os emocionais são muitos e são fortes. Eu me uso dessa resposta, pois realmente acho, depois de anos debatendo com teístas, que os motivos que levam à crença no sobrenatural são majoritariamente de caráter emocional. Uma boa porção deles insiste em dizer que não, possuem argumentos na ponta da língua, mas estão apenas querendo se enganar e, cedo ou tarde, acabam expressando que são, de fato, levados pela emoção.

Novamente, meu intuito não é rebater esses argumentos. Se algum teísta considerar que estou errado, sinta-se à vontade para postar seus argumentos nos comentários de nossos textos. Quero discutir o que seria essa tão falada motivação emocional. Ir além de simplesmente taxar a crença alheia como mera emoção e dar nome aos bois.

Bom, comecemos por um conceito muito desejado por nós: justiça. Queremos que os usurpadores paguem pelos seus atos e que os altruístas sejam recompensados. Tentamos fazer isso dentro de nossa sociedade com nossas próprias mãos, criando prisões e castigos para os primeiros, assim como honras e presentes para os últimos. Porém, reconhecemos nossas limitações e ansiamos por uma força promotora de justiça mais plena. Essa justiça tem que vir de algo maior que nós, mais poderoso e incorruptível. Esse “algo” normalmente é chamado de “Deus”.

Depois temos a curiosidade. A ambição citada no parágrafo anterior reflete uma característica marcante de nossa espécie, que é a vida em sociedade. O desejo de adquirir conhecimento amplo e seguro advém de outro aspecto nosso, que é a vontade de aprender. Dentro de uma sociedade majoritariamente cristã, é comum ouvir de muitos cristãos que o conteúdo da bíblia é uma verdade absoluta e que é tudo o que precisamos conhecer, que a sabedoria ali ensinada é mais profunda do que a mais brilhante eureca de um simples humano. Comicamente ouvimos muito frases do tipo: “no fim todos nós saberemos quem está certo”. É a crença de que, depois da morte, além da justiça feita teremos todas as respostas. Já falei um pouco sobre essa crença aqui (Porque não Acreditar, 5º parágrafo).

O terceiro desejo é a vontade de nunca deixar de existir. Em bom português: “o medo da morte”. Não me adentrarei nele, pois já dediquei três textos ao assunto (este, este e este). Só adianto que considero esse o desejo mais íntimo e o maior responsável pela crença no sobrenatural. Os três grandes desejos aqui comentados não são exclusividade de teístas. Ateus também os possuem. O que muda é que um deles aceita suas limitações e o outro abafa o fato com crenças sobrenaturais.

Portanto, como já devem ter percebido, podemos resumir esses três motivos como um desejo muito íntimo presente em todos nós. Uma fome muito grande por coisas que não vêm na quantidade que gostaríamos. Essa fome imensa que é a mãe de todas as fés. A justiça é rara, o conhecimento é pouco e a vida é curta. Essa fome se sacia acreditando que a justiça será feita, que todos os mistérios do mundo (ou ao menos os poucos que realmente interessam) podem ser desvendados e que a nossa existência não se finda com nossa morte. Essa crença poderia vir da maneira padronizada, através da lógica e da observação. O problema é que “lógica” e “observação” definitivamente não nos levam a concluir o que gostaríamos, então a nossa crença tem que vir do nada, é preciso ter fé. Tornamos uma dada limitação, que é a incapacidade de possuir um entendimento pleno sobre todas as coisas a nosso favor e colocamos os nossos anseios neste mar de ignorância que reconhecemos possuir. Nós, ateus, chamamos esse deus, que mora no incompreendido, de “deus-das-lacunas”. O que escapa nossa razão agora é algo sobrenatural e sacia a nossa fome. Ou pelo menos vai saciar, um dia quem sabe, basta ter fé e paciência…

Durante todo o dia, bilhões acordam, trabalham, almoçam, se entretêm e dormem. Desses bilhões, alguns milhões morrem e outros nascem. Mas sempre temos uma quantidade enorme de gente, muitas delas estão confinadas em áreas relativamente pequenas as quais denominamos “cidades”. Acontecem crimes, crueldades, mortes estúpidas, mas o grreosso da população sobrevive ilesa a mais um dia e continua vivendo normalmente. Tudo parece funcionar em sintonia. Poderia ser diferente. Durante o dia, esses bilhões poderiam acordar, matar seus semelhantes, roubar o que desejassem e ir dormir. O número de mortos seria muito maior, com certeza, e a qualidade de vida de todos decresceria abruptamente.

Existe uma harmonia tênue, que permite o bem estar e a sobrevivência da maioria. A hipótese mais aceita, pelo menos aqui no Brasil, é a de que existe um “coordenador”. Algo além das pessoas monitora suas atividades e faz com que elas não se destruam em uma massa caótica. Outros diriam que não existe um “coordenador”, mas sim um “criador” que já nos fez dessa maneira, com um senso de moral embutido capaz de minimizar a desordem e maximizar o bem estar. Para estas pessoas, algo externo a humanidade tem que existir caso contrário a moralidade, que seria algo maior e que transcenderia as aspirações egoístas de cada um, não existiria. Da mesma maneira que um rebanho não se conduz ordenadamente sem um devido pastor.

A ideia é: sem esse “coordenador/criador”, sem esse “pastor”, a ordem dá lugar ao caos. Todo o ateu que já conversou abertamente sobre sua descrença ouviu certas perguntas. Uma particularmente muito idiota é: “se não existe deus, o que te impede de sair matando por aí?”. Alguém que faz essa pergunta só pode estar em duas categorias possíveis. Ou é um psicótico, cujo único motivo para não iniciar uma chacina é o seu medo por uma entidade sobrenatural. Ou, como imagino eu ser o caso da grande maioria, a pessoa em questão simplesmente não parou para pensar no problema devidamente. Alguns religiosos perceberam a ingenuidade e, conhecendo o comportamento não-genocida de algum ateu, alegam que a descrença em deus não impede a ação deste sobre nosso senso de moral. Realmente, se existe um deus e ele é o responsável pela nossa moral, a crença ou descrença faria pouca ou nenhuma diferença.

A hipótese de um agente coordenador se baseia em certas premissas. Uma delas é a de que a natureza não construiria por si só um comportamento no qual alguns se sacrificariam pelo bem alheio. Outra premissa é a de que motivações egoístas não podem dar origem ao altruísmo. Partindo dessas premissas conclui-se que a moral vem de fora e não de raízes naturais, como através da evolução, por exemplo.

Vamos analisar primeiramente a segunda premissa. Segundo certos teístas, nada impede um ateu de dar início a uma matança. Bom, esse seria o exemplo extremo de desvio moral. Comecemos com a pergunta: O que eu ganho matando pessoas? Sim, porque deve existir alguma recompensa muito boa reservada para os assassinos em séries, visto que é preciso um castigo eterno para impedir que isso aconteça. Eu desconheço tal recompensa. Por outro lado, o que eu perco matando pessoas? Bom, comecemos pela prisão, que não deve ser nenhum resort, principalmente se você for um genocida. Mas ignoremos a ação da polícia, suponhamos que não há polícia alguma e que você more em um vilarejo isolado. Mais uma vez, você despertará a ira dos habitantes que irão se vingar de ti. Agora imaginemos que você tenha aniquilado todos do vilarejo, neste caso, que bela babaquice o senhor fez. Para que serve um vilarejo deserto, sem ninguém para trabalhar, sem ninguém para você conviver? Convenhamos, os casos em que a matança traria benefícios mesmo para o mais egoísta dos psicopatas são, no máximo, muito raros.

Em um caso menos extremo, pensemos em um aleijado que derrubou a sua muleta debaixo do banco de uma praça. O que você ganha ajudando-o? Em termos estritamente egoístas, nada. Só que, não sei quanto a vocês, mas eu não acho uma boa visão a de um aleijado se entortando todo para tentar pegar sua própria muleta. É por isso que a maioria aqui, caso visse alguém nesta situação, pegaria a muleta para o aleijado. Sob outro ponto de vista, o que você perde ajudando-o? Quase nada, um pouquinho de tempo e um pouquinho de energia, quantidades irrisórias. Isso explica porque a maioria de nós se sente mais compelido a ajudar um aleijado do que sair matando por aí.

Podemos concluir que existe sempre um motivo egoísta por trás do altruísmo. Uma mente simplória pode interpretar isso de uma forma bem mais asquerosa do que deveria ser. Quando falo em motivos egoístas por trás de atitudes nobres eu não falo de segundas intenções, chantagens ou exploração. Falo da própria satisfação pessoal. Nem que essa satisfação consista em não ver um aleijado apanhando para pegar a sua muleta debaixo do banco. Mas a questão continua em aberto: porque nos sentimos satisfeitos com isso, mesmo que minimamente? Resposta evolucionista padrão: porque é adaptativo.


Imagem de Messier 92, um aglomerado globular. - por Achut Reddy/Flynn Haase/NOAO/AURA/NSF


Sobre os benefícios adaptativos no altruísmo, existe uma discussão muito grande sobre o assunto. Eu mesmo falo um pouco sobre isso neste texto. Existe um padrão observável de organização na natureza. A tendência é que os corpos mais caóticos se aniquilem, e os menos se perpetuem. Isso vai muito além da sociedade humana. Um exemplo são os aglomerados estelares. Nestes aglomerados podem existir até um milhão de estrelas. Acontece que essas estrelas não são estáticas, elas possuem órbitas, muitas vezes fortemente elípticas, e nenhuma delas se choca com a outra. A situação é análoga, poderíamos sugerir algo externo ao aglomerado que projetou as órbitas com tanta precisão que o choque entre elas é raro ou inexistente. Deve-se salientar que o que enxergamos nem sempre foi assim. Esses aglomerados normalmente são muito antigos – principalmente os globulares – e muitas das estrelas que lá estavam originalmente foram destruídas através do choque, sobrando apenas aquelas cuja órbita não interrompia a órbita alheia. O que fica após alguns milhões de anos de choques e explosões é um sistema harmônico que dá a ilusão de ter sido projetado.

Mas porque prefiro a abordagem naturalista perante a sobrenatural? Existem alguns pontos incoerentes na crença de um coordenador/criador. A primeira está na imperfeição do mecanismo, que ainda assim permite sofrimento e exploração. Isso é um problema apenas se o coordenador/criador em questão é considerado perfeito. É o deus normalmente presente nas grandes religiões abraâmicas. Nem vale a pena se ater nesse ponto, pois Epicuro já fez isso muito antes e muito melhor do que eu poderia fazer. Mas o maior problema é o mesmíssimo problema que a hipótese teísta encontra em diversas áreas: “explica-se” um mistério apelando para um mistério maior ainda. Poderíamos explicar a moral através de um suposto criador, mas como explicaríamos o criador? A curiosidade teísta para quando deus entra. Novamente, o que temos não é uma “explicação”, mas sim uma lacuna na qual deus coube com conforto.

Não acreditamos em deus pois não existe evidência alguma de que esse mesmo exista.

Essa posição parece ser muito radical para muitas pessoas que não perceberam o cerne da questão pois, como dita a velha frase: “a ausência de evidência não é evidência da ausência”. O tal “cerne” da questão eu discutirei no texto, assim como porque não acreditar em deuses é a coisa mais sensata a se fazer enquanto não existe uma evidência sequer mostrando o contrário. Lembrando que eu não abordarei as supostas “evidências” a respeito do assunto porque é assunto demais para um texto só, fora que estou familiarizado o suficiente com uma boa quantidade dessas “evidências” e precisaria ler/ouvir algo muito diferente para ficar realmente surpreso. Para entender essa questão, irei começar pela rota menos óbvia: supor que deus exista. Claro, vamos ter que pegar um deus em específico, pegarei o abraâmico por estar mais familiarizado com este.

Deus existe, ele realmente criou a terra como está descrito no Gênesis, veio a Terra como Jesus e fez um monte de coisas. Façamos esse exercício mental. O que impede que ele exista? Bom, se foi ele quem criou homens e mulheres (do barro e de uma costela, respectivamente), então pode muito facilmente ter determinado suas limitações. Limitações como não ter a capacidade lógica o suficiente para entender as Suas motivações. Da mesma maneira que uma formiga não tem capacidade lógica para entender sobre buracos-negros, por exemplo. Então, esses humanos poderiam ter evoluído tecnologicamente, ter avançado na filosofia e na cultura, mas mesmo assim ainda seriam limitados. Todas as evidências empíricas possíveis e a mais brilhante lógica do mundo não seria o suficiente para revelar a verdade, que seria a de que Deus existe e foi ele quem os criou. Deus veria todos ali, pessoas crendo nele, outras crendo noutros deuses, e ainda umas que seriam atéias. Somente aquelas pessoas seletas, cristãs, estariam corretas. Não pela lógica ou pela observação, mas puramente porque resolveram acreditar em algo. Resolveram acreditar em Cristo, que por acaso foi uma vez que Deus veio dar uma banda no seu planeta favorito para consertar as próprias mancadas.

Conseguiram ver o erro? Para muitos teístas, o que eu escrevi agora expressa direitinho a lógica por trás de suas crenças. Na verdade, boa parte deles, partindo da premissa de que a minha suposição é muito mais do que suposição, acaba vendo os ateus como “tolos”. Afinal, Deus existe e todos aqueles ateus, escarafunchados na “lógica” e no “empirismo”, são incapazes de acertar a verdadeira resposta. Existe um problema muito grande nessa questão.

O problema é, em um palavra: critério. Crença é uma questão de critério. Não se trata apenas de estar certo em um determinado assunto e ignorar qual foi o meio pelo qual se obteve a respectiva conclusão. Eu dei o exemplo do deus abraâmico e, para muitas pessoas, isso parece corresponder com a realidade. Mas reparem que, se eu substituir a palavra “Deus” por um outra qualquer, digamos, “Sauron”, a suposta “lógica” do parágrafo não decresce nenhum pouco. Alguns poderiam dizer que eles não sentem por Sauron o que sentem por Deus, mas e porque o próprio criador do universo deveria se importar com isso? Se a própria lógica foi abandonada pelo deus da bíblia, o que impede Sauron de abandonar as emoções? E se não fosse Sauron, se fosse uma mega corporação de gnomos invisíveis eu sigo dizendo que a “lógica” não diminuiria nem um pouquinho.

Precisamos de critério pois existe um fato muito indignante: Nunca seremos capazes de contemplar a realidade em toda a sua plenitude. Tudo o que sentimos é um interpretação da realidade e, como tal, sujeita a defeitos. Como o nosso acesso à realidade é apenas parcial, resta sermos criteriosos. Engraçado como muitos crentes costumam dizer “no final, veremos quem está certo”, na crença de que algum dia a “Verdade” será revelada. Essa crença decerto lhes dá mais tranqüilidade para fazerem suas apostas de fé. Mas é claro, não existe absolutamente nada que garanta ou mesmo indique que qualquer verdade será revelada só para saciar a nossa curiosidade.

Em uma última analogia, imaginem europeus em pleno século XIII. Suponhamos que, um cidadão português tenha concluído, acertadamente que existe todo um continente para o oeste e que devem ser realizadas expedições para lá. A nobreza portuguesa, interessada na conclusão do informante, resolve perguntar como ele chegou a ela. Perguntam se ele realizou expedições para aqueles mares, se ele viu embarcações surgirem de lá. Eis que ele diz ter descoberto o suposto continente por ter fé em sua existência. Apresentado desta maneira, alguém pode achar que seria sábio por parte da nobreza seguir o palpite louco do cidadão e ter gasto fortunas com expedições. Acontece que eu estou usando um exemplo muito específico. Aqueles mares eram desconhecidos e fora do alcance lógico dos portugueses. Seria, no fim das contas, insensato mandar naus para lá mesmo que esse caso em particular alavancasse o progresso de Portugal. Isso porque, da mesma maneira que seguiram um palpite certeiro, poderiam seguir uma miríade de palpites muito mais desastrosos e, portanto, colapsariam.

E é por isso que a questão não gira em torno do “porque deus não existe” mas sim “porque não deve se acreditar nele”. E não se deve acreditar por simples honestidade intelectual. É você sendo verdadeiro com os seus conhecimentos, sem dar chutes afobados na pretensão de estar certo.