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“Não há assuntos chatos, apenas escritores chatos.” (Henry Louis Mencken)

O que essa frase de Mencken ilustra é que todo o assunto, quando devidamente abordado, pode se tornar interessante. Eu vou um pouco mais longe e digo que todo o assunto se torna mais interessante na medida em que é contemplado o mais próximo de sua totalidade. Isso é algo que deveria ser dito aos atuais escritores de livros didáticos e professores de ensino fundamental e médio que abordam suas matérias de maneira demasiadamente superficial.

Para exemplificar o que eu estou falando, imagine duas aulas de física. Na primeira, os alunos de ensino médio estão tendo aula com um professor que não sabe muito da matéria. Física é um assunto aparentemente chato, os alunos estão preocupados com o vestibular, filmes, jogos, músicas e do sexo oposto, não com as forças físicas envolvidas no movimento de um carro sobre uma estrada. Mas estes alunos estão prestando atenção ao professor justamente porque ela sanaria uma de suas preocupações, o vestibular. É um sacrifício que devem fazer para serem recompensandos posteriormente. Para isso o professor improvisa musiquinhas com as fórmulas que eles devem decorar. E então a aula se segue com uma típica decoreba de ensino médio inundada de showzinhos e aborrecimento, na qual o maior momento de felicidade é quando toca o sinal que sinaliza término de aula.

Ainda temos a segunda aula. Uma turma que está aprendendo o mesmo assunto da anterior, porém, com um professor que domina o assunto como velejador domina o seu barco. Ao invés de obrigar os alunos a decorarem fórmulas ele insere em suas mentes a lógica e as aplicações de seus ensinamentos. Não os trata como meros recipientes vazios de conhecimento, prestes a serem preenchidos, mas sim como criaturas pensantes que precisam refletir sobre sua maneira de ver o mundo. Quando termina a aula, os alunos não pensam em musiquinhas de fórmulas, mas sim de como o mundo funciona e como é interessante entender isso.

Antes de eu seguir com a conclusão de minha parábola, saibamos reconhecer que uma aula não é mérito apenas do professor e que, dependendo do aluno, nem mesmo o mais sábio dos professores conseguiria incutir interesse ou mesmo o mais chato deles seria capaz de tirá-lo, caso o aluno já fosse um grande curioso.

Agora o leitor deve estar se perguntando o que tudo isso tem a ver com a ideia de “mundo cinzento do ateísmo”, tão difundida pela sociedade. Bom, para explicar o que isso tem a ver eu vou entrar um pouquinho mais na analogia dos alunos de física e ficará bem claro o que eu quero dizer.

Imaginem que, durante as aulas, seja anunciado que a matéria “física” não cairá mais no vestibular. Para os alunos da primeira aula, isso significa que eles perderam suas preciosas manhas e tardes estudando algo totalmente inútil, afinal, eles não precisam daquelas musiquinhas para o seu objetivo. Os alunos da segunda aula certamente perceberão a perda que houve da importância das aulas de física. Mas o seu interesse pelo assunto não cessará da maneira abrupta com que cessou no primeiro caso, pois agora eles vêem a física como um assunto interessante, têm uma noção maior da área e conseguem visualizar a imensidão que é o campo de estudo da física. A semente da curiosidade foi implantada em suas mentes e não é um vestibular ou qualquer fator externo que eliminará a vontade de aprender. O sentido de aprender física não é imposto, vem de dentro.

Assim é o mundo de muitos ateus, incluído esse que vos escreve. Eu não vejo sentido na vida por ela supostamente ter sido arquitetada por um ser sobrenatural. Não acho que devo agir bem para ser recompensado pela mesma entidade. A beleza das coisas não é reflexo da obra de um suposto criador. Para o ateu em questão, o universo é digno de interesse devido a sua própria natureza, da mesma maneira que os alunos da segunda aula vêem no estudo da física um recompensa, e não apenas um meio de atingir a recompensa que seria externa ao aprendizado, no caso, passar no vestibular. Os alunos da primeira aula devem imaginar que tudo ficou vago e indigno de dedicação para os seus amigos da segunda aula, mas isso acontece tão somente porque eles não aprenderam a enxergar a parte interessante do assunto.

Para aqueles que ainda acreditam firmemente que a vida de um ateu é cinzenta pois não há sentido, eu digo simplesmente: sou ateu e minha vida não é cinzenta. Indo além, sou ateu, conheço muitos amigos que são, e suas vidas não são cinzentas. Muito pelo contrário, são pessoas bem dispostas, divertidas, abertas a diálogos e a ideias que divergem das suas. Não que eu ou essas pessoas sejam exemplos de como se deve aproveitar plenamente a vida (na verdade, algumas delas são) mas isso mostra que a nossa vida não é um mar cinzento de depressão e delírio. A grande maioria das pessoas aprendeu a ver a vida como uma extensão de algo maior, esse “algo” que muitos chamam de “deus” e, quando tiram esse “algo” sobra um resto que pode ser chamado de “nada” ou “quase nada”. Elas não sabem o quão estão enganadas. Reflitam profundamente sobre a existência de todas as coisas e perceberão que o mero fato de existirem já as tornam muito interessantes.

Que é ser ateu? Que é ser religioso, seja qual for a congregação? É simplesmente aquiescer a um juramento pré-determinado para saber se se encaixa nesta ou naquela rotulação. Na falta de crença, é afirmá-la, por quaisquer motivos. Na presença dela, é simplesmente aceitá-la. São estados de mente; serenas posturas filosóficas para responder quando se é perguntado. Não existe uma doutrina ateia, assim como não existe uma doutrina cristã, muçulmana, budista, judaica ou xintoísta. Dentro de suas paredes conceituais, são todos dissidentes irreconciliáveis. Qualquer adjetivo comum além do rótulo abnóxio cai na falácia do espantalho. Não passo a ser religioso por visitar templos, nem deixo de sê-lo por não visitá-los. No fim das contas, cada um fala por si e segue os exemplos que julgar interessantes. Se não concordamos com países teocráticos é porque sabemos como líderes carismáticos podem ser perigosos para a política; não porque suas visões de mundo são incompletas ou porque acreditam em coisas improváveis. Qualquer argumento que usemos contra a paixão religiosa pode ser usado para atacar qualquer outra ideia apaixonadamente defendida. Afinal, é isso: queremos nos outros o niilista imparcial que não podemos ser e passamos a atacar quem não se encaixa na nossa projeção ascética. Por coerência, respeitamos mais os religiosos que seguem suas confissões arcaicas ao pé da letra, por seguirem o ideal de entrega que a sociedade atual não consegue emular, do que o religioso ecumênico que cria para si um conjunto flexível de crenças para não ir de encontro ao mundo em que vive. No fundo, a causa antirreligiosa se resume a advogar pela perda de uma grande paixão em favor de várias outras menores, na esperança de que os absurdos que não toleramos passem a ser suportados em doses homeopáticas. Grupos sempre serão autoexcludentes e, sendo iguais em todos os aspectos que nos tornam demasiadamente humanos, resta-nos fazer diferença em nossas posturas filosóficas, fingindo ser motivo suficiente para toda essa discórdia. Se um mundo sem religião seria melhor? Exatamente na mesma medida em que todos os motivos que nos fazem querer o seu fim também nos façam pedir pelo fim das outras paixões. Combatamos os homens ruins que estão no poder e torçamos para sua periodicidade no comando ser a tônica de nossa representação, pois a perversidade individual ou inconsciente coletiva será a mesma, não importa que nomes tenha.

Se você é ou já foi uma pessoa religiosa, certamente lhe é familiar o sentimento de pertencer a um seleto grupo detentor da verdadeira palavra de deus. O grupo escolhido para transportar, multiplicar e perpetuar os ensinamentos da única verdadeira religião: a sua. Entretanto, basta olhar em volta e perceber que, ironicamente, esse é um sentimento genérico e pertence a todas as denominações religiosas. Poderiam todas estar certas? Se todos são escolhidos, não faz muito sentido se gabar a esse respeito.

Em verdade, tal sentimento existe em toda sociedade na qual prevalece a emoção em detrimento da razão. Como exemplo, podemos citar um grupo de torcedores de um dado time, que independentemente do balanço de vitórias e derrotas, vai sempre defender que seu time é melhor que todos os outros. Esse cabo-de-guerra emocional parece ser uma espécie de efeito colateral de um outro sentimento sempre presente nas sociedades de pessoas: a necessidade de pertencer a algo coletivo. O torcedor ama, vibra, delira e veste a camisa do seu time, o defende com unhas e dentes, independentemente da sua satisfação pessoal. Podem até existir críticas entre os torcedores daquela dada equipe, mas tais críticas são consideravelmente atenuadas em frente aos afiliados de outras agregações.

Os religiosos não são diferentes: amam, veneram e são fiéis a sua congregação, mesmo quando não concorda inteiramente com seus ensinamentos, ações e decisões. Defendem-na frente às críticas, e em seus ciclos limitados até se permite um certo grau de discordância, mas para por aí. Sua religião é a verdadeira, seja ela qual for e isso basta. Não adianta tentar explicar a paixão pelo futebol através da razão por se tratar de algo essencialmente emocional. Com as instituições religiosas não é diferente.

Na véspera da Copa do Mundo de Futebol, proponho uma reflexão desportiva comparativa, pois os elementos presentes no sentimento patriótico ou no amor pelo time de futebol local estão também presentes nas religiões. Talvez essa crescente divergência entre as diversas religiões e congregação, e o aumento da informação dos fiéis, seja o calcanhar-de-Aquiles da fé, que em muito colabora para a popularização das igrejas ecumênicas, grandes atrativos para aqueles que percebem a irracionalidade dessa disputa religiosa pela detenção de uma “verdade” imaginária, mas que não se sentem confortáveis para abandonar de vez a fé.


Existem várias maneiras desonestas de se atacar um argumento. Essas maneiras são conhecidas como falácias e os criacionistas abusaram delas para atacar a teoria da evolução durante uns bons séculos. Talvez, mais corretamente, eu deva dizer que existem maneiras desonestas de não se atacar um argumento, visto que uma falácia consiste em desviar do argumento principal para tratar de um assunto inválido e/ou irrelevante para o debate. Falarei de uma falácia em especial, perniciosa e muito eficiente quando apresentada a um público leigo. É a famigerada falácia do espantalho.

“Argumento” de um criacionista. Eles tentaram...

“Falácia” é o tipo de coisa que, depois que conhecemos, começamos a encontrá-las por todos os lugares. Pois bem, quanto à falácia do espantalho, ela tem um certo grau de imundície, visto que ela consiste em criar uma versão deturpada do argumento e atacar a versão falsa, não o argumento em si. O que eu vejo como “certa imundície” reside justamente na deturpação e posterior atribuição de ideia tão ridicularizada ao debatedor. Imagino que essa deturpação venha principalmente da própria ignorância e não de uma tentativa deliberada (e propriamente suja) de ridicularizar.

Como a “versão espantalho” criacionista da evolução é imensa, vou abordá-la ponto a ponto. Falarei aqui sobre a ideia de que a teoria da evolução é incompatível com a teoria da biogênese. Começarei por ela por se tratar de um equívoco comum, principalmente quando levamos em conta como a evolução e a origem da vida são explicadas na escola.

Em primeiro lugar, a alegada incompatibilidade é incorreta. A teoria evolutiva não busca explicar a origem da vida, mas sim como as populações variam conforme o passar do tempo. Contudo, é inegável que essa mesma teoria acaba levantando a questão da origem. Certo, derrubamos a crença de que as espécies foram criadas tais como são hoje de maneira sobrenatural. Mas, então, como surgiram?

Eu estava ajudando a minha irmã a estudar para a prova de biologia do colégio. Comecei a discutir sobre a teoria da abiogênese, que foi cabalmente derrubada por Pasteur, sendo imposta a teoria biogenética no lugar. Só que a teoria da biogênese carregava uma ideia um tanto quanto ilógica: “A vida surge apenas de vida”. Então a minha irmã veio com uma pergunta, muito pertinente por sinal: “Mas, afinal, se vida surge apenas de vida, como surgiu a primeira?”

Perguntinha cabeluda. Não vou adentrar nas respostas por dois motivos. O primeiro é que não existe uma teoria sólida, apenas um conjunto de hipóteses. Segundo que, mesmo que eu abordasse apenas as hipóteses, acabaria tornando o texto demasiadamente extenso. O ponto é que a afirmação citada há pouco é falsa. A vida não pode surgir apenas de vida. Aliás, essa sequer é a conclusão do próprio Pasteur. O que ele atacou não foi toda a ideia de abiogênese, mas, especificamente, a da geração espontânea, como seres vivos complexos surgindo de matéria inorgânica.

Louis Pasteur derrubando a hipótese de geração espontânea.

O espantalho de toda essa história é o seguinte. A teoria evolutiva é falsa, pois supostamente estaria dependendo da teoria abiogenética, cabalmente derrubada por Pasteur. Devo dizer que este é o espantalho criacionista mais feliz de todos, visto que ele consegue pegar uma ideia simples ensinada na escola e colocá-la deturpadamente para falsear outra ideia, bem menos ensinada, que seria a evolutiva. Quando a questão é colocada desta maneira, com a evolução entrando em discórdia com a biogênese, realmente parece que o neodarwinismo é um devaneio patético.

Pois o que eu posso dizer sobre tudo isso? Conclui-se que Pasteur derrubou, entre outras coisas, que carne podre não era capaz de gerar moscas espontaneamente. Mas ele certamente não derrubou a teoria de que essas moscas surgiram a partir de insetos dípteros ancestrais e se diversificaram através de mutações e seleção natural. Uma coisa definitivamente não tem nada a ver com a outra.

Percebe-se uma tentativa desesperada de encontrar incongruências no neodarwinismo. Falarei sobre outro exemplo, no meu próximo texto, que falará sobre… asas!

Observando os seres vivos em nosso planeta, pode-se concluir muita coisa. Uma das mais óbvias é a de que eles demonstram uma variedade absurda de formas. Isso é um fato escancarado. Sabemos que existem cachorros, baratas, lambaris, caramujos, macieiras e repolhos. Conseguimos identificar cada um desses sem a menor dificuldade. Na verdade, a nossa capacidade de identificação vai ainda mais longe. Não apenas podemos diferenciar uma cobra de um tatu, como sabemos existir diferentes tipos de cobras, agrupamos cobras e tatus em classes distintas e chegamos a agrupar diferentes famílias e gêneros de cobras.

Outra coisa que podemos concluir ao observar os seres vivos envolve o seu material genético e, ao passo que para observar a biodiversidade precisamos apenas de um par de olhos, para se observar o material genético é necessária uma enorme carga de conhecimento em diversas áreas. Povos indígenas possuem um vocabulário extenso referente às várias espécies de animais de sua região, mas certamente não sabem nada sobre o material genético deles. Falo sobre as moléculas responsáveis por armazenamento de informação presentes em nossas células. A mais importante delas seria o ácido desoxirribonucléico, mais conhecido por sua sigla em inglês: DNA. Pois um fato muito intrigante relacionado a essa mesma molécula é a de que ela está presente em praticamente todos os seres vivos. E quando eu falo “praticamente todos” eu estou excluindo certos vírus, apenas (lembrando que sequer há consenso quanto à inclusão dos vírus entre os seres vivos). Ou seja, todo o resto possui DNA. Nós (seres humanos), leões, lampreias, formigas, lesmas, vermes, esponjas do mar, pés de alface, musgos, jacarandás, cogumelos, bolores, amebas, algas e bactérias, só para citar alguns. E esse DNA possui uma estrutura bem definida, a diferença entre o DNA de um jacarandá, de um verme e de uma bactéria se resume ao arranjo das bases nucleotídicas e de como essa molécula está disposta na célula. Em nós, por exemplo, o DNA está arranjado em grupos menores, repletos de proteínas, principalmente histona, conhecidos como cromossomos. Mas em certas bactérias, como a Escherichia coli, esta molécula encontra-se arranjada em um formato circular.

Pois é a união desses dois fatos, um mais evidente, o outro bem mais escondido, que são o assunto de meu texto. A interpretação desses dois fatos representa o choque da intuição com a descoberta. Em seu último texto, o Bruno falou sobre o mito do elo perdido. Pois esse mito é fruto de uma idéia errada, rígida demais que tínhamos de “espécies”. Para exemplificar, pense no que certos criacionistas dizem:

“Porque lagarto é lagarto, gaivota é gaivota e humano é humano. Você não vê um lagarto evoluindo para uma gaivota.” (frase minha, ilustrando o que eu realmente leio e escuto de muitos criacionistas)

Essa frase demonstra claramente a ignorância dessas pessoas no que se refere ao ambiente natural. Na verdade, ela demonstra a ignorância em dois pontos. No primeiro dele, a idéia que uma espécie não tem nada a ver com a outra. A primeira vista, parece ser uma constatação óbvia, mas não é sequer verdadeira. Sabemos diferenciar um lambari de um atum, mas somente um sistemata experiente diferencia certos lambaris um do outro. Imaginamos que as espécies possuem um lugar fixo, separadas uma das outras, só que essa idéia desmorona quando paramos para analisar cada espécie dentro de um mesmo grupo. Esse equívoco, essa falta de conhecimento sobre o que estão falando, também permite que os mesmos criacionistas soltem frases semelhantes como: “Eu reconheço a microevolução, mas acho a macroevolução um absurdo”. A crença é a de que existe uma diferença qualitativa entre as duas, sendo a “microevolução” a variação genética dentro de uma espécie e a “macroevolução” a especiação propriamente dita. No texto do Bruno ele mostra um caso de “espécies em anel”, que seria o das gaivotas do ártico. Tem ainda outro, tão didático quanto, que seria o das salamandras californianas Ensatina (imagem). Esses exemplos demonstram cabalmente que essa distinção entre “micro” e “macroevolução” só existe na cabeça de alguns desinformados.

O outro equívoco criacionista não é menos grosseiro. “Você não vê um lagarto evoluindo para uma gaivota”. E não vê mesmo. Até porque, isso supostamente não deveria ocorrer. Peguemos uma única espécie de lagarto e uma de gaivota, digamos, uma iguana verde (Iguana iguana) e a gaivota prateada que já estamos familiarizados (Larus argentatus). Pois bem, a primeira vista podemos dizer que elas são muito diferentes. Mas essas diferenças não se comparam às semelhanças, ainda mais patente aos olhos entre essas duas espécies. Ambos possuem pulmões, um par de olhos, fêmur, crânio diápsido, fígados e cérebro, por exemplo. Na realidade, eu poderia usar páginas e mais páginas para ilustrar as semelhanças entre os dois, seja ela de natureza morfológica, metabólica ou mesmo comportamental. Não precisaria de tantas páginas assim para falar das diferenças, que seriam relativamente escassas. Acontece que essas duas espécies são exemplares atuais de uma história muito mais antiga. A gaivota prateada e a iguana verde representam, cada uma, populações de indivíduos muito assemelhados entre si, localizados em clados separados. Esses clados, também conhecidos como ramos, lembram o gráfico de um pedigree, só que em escala muito maior. Um clado pode representar um agrupamento a nível de gênero, como Larus, por exemplo, no qual estariam inseridas a maioria das gaivotas. Mas também pode representar uma classe, como a das aves. Assim como existe um clado que agrupa a gaivota e todas as suas parentes aves com os lagartos e cobras, conhecido como Sauropsida, hoje dividido entre os Lepidosauria (lagartos, cobras e tuataras) e os Archosauria (crocodilos, aves e os extintos dinossauros).

Acontece que o conceito de espécie é nebuloso. Seria um arranjo de indivíduos semelhantes e nada mais do que isso. Caso nenhuma espécie tivesse se extinguido, seria inviável agrupar os seres vivos em “espécies”. Durante milênios tratamos esses indivíduos como representantes de grupos fixos e bem caracterizados, sem relação histórica um com o outro. Hoje temos o DNA, presente em quase tudo o que entendemos por vida, todos com uma estrutura bem definida. Sabemos que as espécies não são muito mais do que nuances entre o genoma de uma população e de outra. O quadro inverte, o que antes era a obviedade da diferença, hoje é a obviedade da origem comum.

II

O filme A Vida de Brian narra a estória de um homem comum, que teria vivido cerca de 2.000 anos atrás em algum lugar no oriente médio, e vez por outra era tido por um messias e seguido por centenas e centenas de pessoas, ávidas por ouvir palavras de sabedoria. Em uma das cenas, ele tenta usar o próprio prestígio, conseguido por puro acidente, para tentar desfazer a confusão: “vocês devem pensar por si mesmos, não sigam ninguém”, aconselha à multidão de seguidores, que vibra com o conselho mas não o assimila. O filme é uma comédia, cheia de personagens caricatos e escrachados, a multidão é um deles.

Século XXI, em algum lugar da América do Sul. Desta vez uma cena real: uma dona de casa vê uma mancha no vidro da janela e tenta removê-la com álcool. A mancha não sai. Mas, com ajuda da cunhada, por pareidolia, reconhece a imagem popularmente atribuída à “Nossa Senhora” católica. O fenômeno logo é conhecido também pelo marido, vizinhos, e se espalha até virar notícia em todo o Brasil. Nos dias seguintes, uma multidão se aglomera em frente à janela manchada, ávida pela graça de ver também a santa e com esperança de que aquilo terá algum efeito positivo em suas vidas.

Não farei considerações a respeito de a mancha ser apenas uma mancha ou a manifestação de uma semi-divindade, ou sobre a possibilidade de ter algum efeito prático na vida de quem pôde presenciar o fenômeno. Tendo em vista que eu sou ateu, elas são facilmente dedutíveis. O que pretendo evidenciar nesse episódio é a facilidade com que o conhecimento do fenômeno se propagou e provocou comoção em centenas de pessoas.

A esmagadora maioria da população brasileira tem uma vida nada tranquila. A educação e o sistema de saúde são ainda um tanto precários, altos níveis de violência assustam boa parte das grandes cidades, e o salário médio é bastante baixo. Apesar de ser um povo tido por alegre, não se nega que enfrenta muitas dificuldades e que a alegria vem de uma boa louvável capacidade de adaptação e improviso, e um dos apoios em que as pessoas costumam usar para alívio de uma realidade dura, aqui como em vários lugares do mundo, é a religião. Numa famosa citação, Karl Marx afirmava: “A miséria religiosa é ao mesmo tempo expressão de miséria real e protesto contra ela. A religião é o suspiro da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração, o alento de uma situação desalentada. É o ópio do povo.”[1]

De fato o brasileiro é, também, um povo bastante religioso. O catolicismo veio na bagagem da dominação portuguesa e predominou na mente da quase totalidade da população até o século passado, quando só passou a perder terreno significativo para outras vertentes do cristianismo que se mostraram igualmente ou mais eficientes em tocar a disposição à fé que sempre fez parte e sempre foi valorizada na nossa cultura. De fato, no imaginário popular, ter fé está associado a ser uma pessoa com boas atitudes ou, no mínimo, boas intenções, enquanto a falta de fé não raro é vista como uma desilusão com a vida, tristeza, sinal de más intenções ou uma deficiência, como a ausência de algo essencial para a vida.

No nosso país, o misticismo é tido como normal e, culturalmente, não costuma ser questionado. Por isso, o fenômeno da aparição de uma mancha assemelhada a uma santa na janela foi relatado pela imprensa ora com entusiasmo – perseguindo a audiência de uma população religiosa – ou ora como um fenômeno pitoresco mas absolutamente normal. Na reportagem referenciada no segundo parágrafo, o questionamento sobre o fenômeno chegou apenas a se seria uma das aparições milagrosas da santa – tomando por premissa que, senão essa, outras ocorreram ou ocorrem. É por isso que a pergunta costuma ser feita na forma invertida: “por que você não acredita em Deus?” em vez de “por que você acredita?”.

Referências

[1] MARX, Karl. Crítica da Filosofia do Direito de Hegel (1843).

Em geral, pensamos na religião como a verdadeira guardiã da moralidade humana, sem a qual a sociedade se desintegraria. Acredita-se que, sem Deus, tudo é permitido. Por que pensamos dessa forma? Porque é mais fácil decorar chavões que pensar no assunto. Assim, tentemos entender por que a religião, em termos morais, é algo virtualmente inútil, possuindo, na prática, apenas um valor marginal. De início, percebamos que os valores morais defendidos por esta ou aquela religião fazem sentido. O fato, entretanto, é que, ao levá-los adiante, nunca conseguimos alcançar os resultados que prometem. Por quê? Porque partem de pressupostos falsos. Por idealizar o homem, os princípios morais que a religião elabora são algo impossível de ser posto em prática, pois dizem respeito a algo que não existe. Não há como esperar que valores feitos para espíritos funcionem para primatas. O que sinceramente poderíamos esperar da moralidade um macaco que se acredita dotado de uma alma eterna a ser julgada por um superchimpanzé imortal que mora na estratosfera?

Ademais, na elaboração de tais princípios de sublime irrelevância, ela não apenas erra o alvo sistematicamente, como também nunca demonstra uma abordagem positiva. A religião não busca solucionar os problemas, mas evitar que surjam por meio da negação de nossa natureza. Busca nos acovardar perante o mundo e perante nós mesmos, desviando nossos olhares do presente e encorajando uma miopia passiva que nos será recompensada no além. Para ilustrar, vejamos a questão do seguinte modo: a função da moral é administrar os problemas sociais decorrentes do fato de sermos humanos. Qual é a solução religiosa? Desumanizar o ser humano, isto é, negá-lo, castrá-lo, torná-lo doente, i.e. espiritualizá-lo. Seu valor, portanto, é meramente negativo. Seus princípios não são respeitados por seres úteis ou racionais, mas por terem respaldo do criador dos céus e da terra, proporcionando algum sentimento de segurança àqueles que os seguem. Essa é a única utilidade da religião no âmbito moral. Trata-se de uma contribuição indireta, de um pretexto para agirmos moralmente, ainda assim, não como homens, mas como serviçais de fantasmas.

Analisemos um pouco mais a questão. Sabemos que uma parcela considerável da população mundial é religiosa e acredita em divindades moralistas. Não parece estranho, entretanto, que vejamos como extremistas os que efetivamente seguem os princípios de sua religião? Na prática, os que governam suas vidas em função de tais princípios são considerados fanáticos alienados, doentes mentais. Porém, se a religião fosse algo realmente verdadeiro, não é exatamente isso o que deveríamos fazer? Mas não fazemos. Religiosos ou não, somos humanos, e nossa intuição prática nos diz que há algo de muito errado nos valores morais religiosos. Muito poucos, na vida real, levam tais princípios a sério. Como isso se explica? Vejamos: por que julgamos inadmissível que se coloque Deus acima da lei? Exatamente porque não tratamos Deus como algo real — não ao pé da letra —, e sim como algo que se escolhe, semelhante a um time de futebol ou a um partido político, ou seja, como um assunto pessoal e privado. Então, no fim das contas, tratamos Deus como aquilo que é: uma crença. Pois bem, isso significa que, em regra, não se acredita literalmente em Deus, acredita-se na crença em Deus. Afirmam acreditar em Deus, mas agem como se ele não existisse. Usemos o mito da criação para exemplificá-lo. Alguém realmente acredita que o mundo foi criado em seis dias? Sabemos que se trata de uma mentira óbvia; não apenas algo improvável, mas absolutamente ridículo, tanto que nem mesmo os fiéis da inerrância bíblica conseguem acreditar nisso literalmente, vendo-se forçados a elaborar sofisticadas interpretações simbólicas para justificar essa paspalhice que algum lunático tirou da cartola. Então por que respeitamos tais crenças? Por questão de boas maneiras. Pelo mesmo motivo que não dizemos às pessoas obesas que são obesas, aos paraplégicos que são paraplégicos, e assim por diante. Sabemos da verdade, mas não a dizemos simplesmente para não magoá-las, para não ferir seus sentimentos, pois viver já é duro o bastante, e não precisamos jogar à cara dos indivíduos suas limitações, defeitos e inépcias simplesmente porque isso é verdade. Não julgamos que estar certo é uma justificativa boa o suficiente para ser rude e grosseiro.

Como qualquer dependente, aquele que precisa de crenças religiosas estapafúrdias para conseguir ser moral provavelmente tem problemas em lidar com a realidade. Não zombamos de suas crenças não porque elas nos inspirem qualquer respeito, mas simplesmente para poupá-los, para não tornar sua vida ainda mais difícil. Basta que imaginemos como seria nossa vida se dependêssemos de mentiras para viver em paz, se tivéssemos de defendê-las como se fossem verdades, mesmo sabendo perfeitamente bem que são mentiras, e isso nos dará uma ideia de como acreditar em besteiras deve ser difícil. Por exemplo, caso precisássemos acreditar que no céu vive um holograma suicida três-em-um; caso precisássemos acreditar que nossos entes queridos são vertebrados imortais. Como continuar a acreditar quando a realidade toda demonstra que estamos completamente errados? Nossa única alternativa viável seria não pensar muito no assunto — e é exatamente o que se faz. Isso porque, para qualquer indivíduo educado, deve ser extremamente perturbador ter de acreditar nessas asneiras. Então supomos que, se acredita em algo tão desvairado, deve ter bons motivos para isso — e como esses motivos são invariavelmente vergonhosos, temos a boa educação de deixá-los em paz com suas demências. O fato é que ninguém precisa de Deus porque ele não existe, mas da crença em Deus muitos precisam, e esse é o único motivo pelo qual respeitamos tais crenças. Claro que, pessoalmente, não temos dúvida alguma de que se trata de uma idiotice sem tamanho.

IV

No meu quarto e último texto sobre a relação deus/ciência, falarei sobre uma ideia interessante. A ideia dos magistérios não-interferentes, defendida pelo falecido Stephen Jay Gould, também conhecida como NOMA (do inglês Non-Overlapping MAgisteria). Uma ideia que, a meu ver, coloca ambas, ciência e religião, em seus respectivos lugares. Mas já adianto que é uma ideia polêmica, mesmo entre os ateus. Aproveito essa polêmica aqui para salientar que opiniões expressadas por cada um de nós, autores do “Um deus em minha Garagem”, são pessoais e não necessariamente refletem as opiniões de todos os ateus.

Mas no que consiste essa ideia? Bom, antes acho que cabe esclarecer o que seriam “magistérios”. “Magistério” foi um termo que S. J. Gould buscou de um conceito da igreja católica, o magisterium, que seria a “autoridade do ensinamento católico” [1]. Ao defender o NOMA, Gould usa o conceito de “magistério” como um suporte apropriado que permite ensinar e discutir questões pertinentes ao seu próprio escopo. Ou seja, que a ciência se limite a explicar fenômenos naturais sem se intrometer em questões morais, e que a religião sirva de guia para a moralidade sem pretender explicar o mundo natural. Cada qual na sua área. Perceba, no entanto, que isso não significa uma separação total entre ciência e religião, mas apenas uma divisão de tarefas.

Considerando as necessidades do intelecto humano, a ideia dos magistérios não-interferentes parece promissora. Queremos entender o mundo assim como ter uma boa orientação moral. Quanto à orientação moral, a ciência não tem muito a oferecer. Mas – e é aí que eu começo a achar a ideia do NOMA frágil demais – a religião nos oferece menos ainda. Seja lá de onde vem o nosso senso de moral, certamente não é da religião.

Eu concordo sim, que cada uma deve ficar em seu devido lugar. Essa ideia fica mais clara quando pensamos no absurdo que é a tentativa de se incluir criacionismo no ensino das escolas. Pois isso é justamente um magistério interferindo noutro. Outro exemplo do magistério da religião metendo o bedelho onde não é chamado é a polêmica que surgiu sobre pesquisa com células embrionárias. Só que esse exemplo é capcioso, pelo menos para o NOMA que Gould defendia. Ao mesmo tempo em que essa polêmica demonstrou claramente o erro que é misturar ciência com religião, ela demonstrou que isso era inevitável. As ideias de moral obtidas através da religião só serviram para atrapalhar o progresso do saber e do bem-estar. De onde essas ideias de “certo ou errado” foram tiradas é um assunto que não pode ser ignorado. Como e por que certos religiosos concluíram que uma “alma” entra em cena no momento da fecundação é um mistério, e é um absurdo essa ideia ser admitida alegando que devemos respeitar o posicionamento moral-espiritual de seus defensores.

Óbvio que o oposto também acontece. Como o que conhecemos por “falácia naturalista”. Um exemplo simples dessa falácia seria: “O chimpanzé macho bate na fêmea, logo, eu tenho o direito de bater em mulheres, visto que somos todos primatas”. É um caso típico de non sequitur. Mas tenho dificuldades em dizer se é o magistério da ciência que está afetando o da religiosidade ou se estamos falando de mero cientificismo. Alguns poderiam dizer que o exemplo mais dramático de quando um povo depositou sua base moral na ciência (e errou) é o nazismo. Na verdade, estaríamos falando mais especificamente da eugenia, um princípio calcado na genética, segundo o qual devemos eliminar os indivíduos mais fracos dentro de uma população para favorecê-la como um todo. A questão é: que ciência é essa? Se a humanidade se desenvolveu e floresceu principalmente devido à espetacular habilidade social encontrada nos humanos, por que seria cientificamente plausível jogar toda essa habilidade fora para nos auto-controlarmos como cães de corrida? Não é de ciência que estamos falando aqui, mas sim de algo totalmente deturpado, tendencioso e, em última análise, incoerente.

Agora, se eu concordo ou discordo com o NOMA, minha resposta é a seguinte: em parte. Vejo que a ciência fica muito melhor quando se limita a investigar os mecanismos da natureza. O meu problema reside no papel da religião. Ao passo que a ciência fez um trabalho excepcional dentro de seu escopo, mesmo considerando seus deslizes, a religião deixou e ainda deixa muito a desejar.

Deus e a Ciência:

1. A mitificação da ciência salvadora

2. No quê os cientistas acreditam

3. A crença dos grandes gênios

4. Sobre os magistérios não-interferentes