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Umas semanas atrás eu estava conversando sobre evolução com um criacionista. Em um momento do debate, ele alegou que a única evolução que ele considerava verdadeira era a dos pokémons. Claro que ele estava tentando ser irônico, mas como o resto da argumentação dele não estava grandes coisas eu resolvi desistir. Daí então me ocorreu a seguinte pergunta: até que ponto a cultura pop reflete o conhecimento de evolução da população geral?

Xmen, Spore, e Pokémon são exemplos de como a evolução aparece na cultura pop. Obviamente, nenhum desses três exemplos tem a pretensão de ensinar preceitos básicos de biologia a quem quer que seja.

A "verdadeira evolução", segundo alguns criacionistas.

Seria de se esperar que as pessoas enxergassem a evolução de uma maneira muito diferente do que a apresentada pela televisão ou por jogos eletrônicos. O que acontece é que ela não é tão diferente assim. A “evolução” que presenciamos na cultura pop é um reflexo de como ela é vista pela grande massa de leigos não-curiosos. Isso é algo meio preocupante; percebo nas perguntas que me fazem a respeito da teoria neodarwinista e vejo algumas ideias obsoletas encravadas nelas, ideias que podemos encontrar nos Xmen e no Pokémon, por exemplo. Vou falar sobre esses dois mais tarde. Deixarei Spore de fora, pois é um jogo para computador relativamente recente que, ao que parece, aborda a evolução de maneira um pouco mais fiel do que os outros dois exemplos.

Pokémon. Para todos os que nasceram nos anos 90 ou segunda metade dos 80 esses monstrinhos nipônicos certamente são bem familiares. Aos que ainda não conhecem, Pokémon é uma série de jogos que se expandiu para a TV, mangás e virou filmes. Trata de bichos encontrados na natureza que podem ser confinados em pequenas bolas – as pokébolas – que cabem na palma da mão. Esses mesmos bichos estão condenados a serem usados em batalhas que envolvem outros seres de semelhante natureza e situação. Resumindo, a série é uma briga de galo ao melhor estilo otaku. Isso é apresentado para crianças e, posso confirmar, na minha época de pirralho eu achava tudo isso muito divertido. A parte interessante é que esses mesmos bichos evoluem. Depois de muito tempo lutando, um determinado pokémon pode se transformar noutro, maior e mais forte.

Evidentemente que a “evolução” desses monstrinhos serve tão somente para dar uma apimentada no gameplay. Uma “evolução” tão caricata e despretensiosa não tem – ou ao menos não teria – como ser interpretada de outra maneira. O que me espanta é o número de vezes em que eu encontro perguntas semelhantes a esta: “se a evolução existe, como é que eu nunca vi um peixe se transformando em um anfíbio?”. Devo dizer que já fiquei muito tempo imaginando de onde diabos o sujeito tirou que um peixe deveria se transformar em um anfíbio. A única resposta que me veio em mente foi Pokémon. Fora as variantes dessa pergunta, como sapos se transformando em passarinhos, macacos em humanos e demais metamorfoses impossíveis. Não existe absolutamente nada dentro da teoria evolucionista dizendo que um indivíduo de certa espécie deveria se transformar noutra. Outro conceito presente dentro dos pokémons é que uma evolução sempre é melhor que a sua antecessora. Ao passo que imaginar a evolução como uma metamorfose de uma espécie em outra é um erro tacanho cometido apenas por uma “elite” de alienados, supor que ela é uma força geradora de seres progressivamente mais complexos é um erro comum. Essa ideia de evolução e progresso é quase onipresente na cultura pop não sendo exclusiva dos pokémons.

E então temos os Xmen. Um número bem maior de gerações está familiarizado com esses senhores. Além da ideia, muito comum, de que evolução traz sempre alguma melhoria, os Xmen trabalham com o mito da evolução do homem (e da mulher também). A humanidade ficou muito tempo sendo apenas humana e, segundo os quadrinhos, chegou a hora de evoluir. E que evolução! Uns evoluem para seres com poderes psíquicos, outros controlam o ferro e temos ainda os que emitem raios pelos olhos. E todas essas mutações maravilhosas acontecem no mesmo bendito gene, o tal do “gene x”. Pois bem, isso são apenas detalhes. Da mesma maneira que os pokémons evoluem da maneira deles, os Xmen assim o fazem apenas para servir de entretenimento e não devem ser levados a sério. Bom, mas assim como o exemplo anterior, aqui reflete a maneira que o grande público vê a evolução. Nesse caso, mais especificamente, a evolução humana. “Quando vamos evoluir?”, já li perguntarem. Ou então: “Se nós somos seres-humanos, por que os macacos já não evoluíram para humanos também?”. Essas são perguntas que eu realmente leio na internet. Algumas vezes, os autores dessas perguntas acham que encontraram uma falha grotesca na teoria, quando deveriam supor falta de estudo (o que é o caso). Acontece que evolução não é uma obrigação mas sim uma consequência. São linhagens de indivíduos, populações, que se dividem em mais linhagens. Cada conjunto de indivíduos vai sofrer pressões seletivas diferentes se adaptando de acordo com elas, e então temos a evolução. Ela não vai bater na porta de sua casa e dizer: “Chegou a hora de evoluir”.

É muito estranho, mas parece que um europeu em pleno século XIX teria mais facilidade de compreender a teoria do que um leigo alienado de nossa época. Vimos como a evolução aparece na cultura pop. Vimos também como muitas perguntas a respeito da teoria evolutiva feitas pelo público leigo se assemelham muito mais à “evolução” encontrada em desenhos, filmes e jogos do que com a teoria propriamente dita. Hoje nós vivemos em uma época na qual a aquisição de informação é fácil (chega a ser conhecida como a “era da comunicação”). Mas então, como tantas pessoas estão tão desinformadas quanto a certas teorias? Bom, para começar, a informação está em todo o lugar, mas só quem quer encontrá-la usufruirá dela. A grande maioria das pessoas não possui tanto interesse assim no que a teoria evolutiva diz ou deixa de dizer, o que já é um problema, principalmente para a miríade de críticos que certamente não leram nenhuma obra cientifica relacionada ao tema.

Na época de Darwin, praticamente toda a população estava envolvida com algum tipo de criação, desde cereais até pombos (animais que Darwin utilizou para embasar a seleção natural, na Origem das Espécies). Todo mundo tinha muito mais contato com a natureza e não era difícil perceber como a seleção artificial afetava intensamente a constituição dos seres vivos trabalhados. Darwin expandiu a ideia bem fundamentada de seleção artificial para a natureza sem influência antrópica e por isso foi tão eloquente. Hoje muitas pessoas compram um frango no supermercado sem ter a menor ideia de todo o processo de criação que levou uma ave silvestre a se tornar um animal doméstico com o passar das gerações. Comemos milho sem conhecer a sua longa história como cereal que tem o seu início com os Maias e Astecas. Vivemos na ilusão de que somos melhor informados a respeito do mundo graças aos avanços da comunicação, mas o que vejo é uma multidão indo em direção contrária.

Observe com atenção a figura abaixo:

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Estão representados nessa gravura alguns gestos manuais do nosso cotidiano. Você provavelmente conseguiu identificar o significado de muitos deles, talvez de todos.

Esses são sinais conhecidos em todo o mundo. Aonde quer que você vá, é possível entender e se fazer entender utilizando qualquer um desses exemplos, apesar de alguns sofrem variações em seu significado.

Apontar para algo ou alguém não gera dúvidas quanto ao que se quer dizer; porém, pode ser que, numa excursão por uma tribo apache, você peça, com um gesto, para o índio parar, mas este, entendendo como apenas um cumprimento, responda: “Haw!” e continue seu caminho; ou que, num passeio pela Austrália, entre num bar e, percebendo algum clima não muito amistoso, cumprimente alguém utilizando-se do gesto que representa “paz e amor”. Fazendo-o, num descuido, com as costas da mão voltadas para o sujeito em questão, que não aceitará o insulto envolvendo sua progenitora. Pode-se perceber então que, apesar de determinados gestos serem universais, estão sujeitos a diferentes significados, gerando desentendimentos ignoráveis ou não.

Gestos também têm o poder de motivar ou enfurecer. Quando você faz um trabalho cuja qualidade se considera particularmente boa, a aprovação, mesmo que dita apenas com as mãos, traz certa satisfação pessoal, reforçando a continuidade de tal padrão de trabalho. No trânsito, um gesto obsceno pode ser o gatilho para uma briga séria. Ninguém precisa te explicar o significado, pois você já sabe, assim como ninguém te pergunta por que você sabe, pois parece claro que isso foi aprendido pelo contato com o meio, que tradicionalmente já utilizava esses gestos.

Algo intrigante em relação aos gestos representados na gravura é que, pelo menos em sua maioria, não se sabe dizer quando e onde eles foram criados, se são manifestações intrínsecas do ser-humano ou mero aprendizado e, se assim o são, por que são utilizados, mesmo que de diferentes formas, em povos isolados?

Com certeza não fazem parte de um plano maior, nem nada de sobrenatural. Na verdade não aparenta ser algo que necessite atenção. Não mudaria em nada o modo como os gestos são utilizados, ou o poder que exercem sobre o movimento e a psique humana. Seria uma grande perda de tempo, cujos anos de pesquisa estariam propícios a resultarem em contradições, devido à variedade de abordagens, muitas delas divergentes entre si, porém com os mesmos princípios lógicos e/ou filosóficos.

E se os gestos se chamassem Deus?