Tag Archives: descrença

Pesquisadores da Universidade de Waterloo, no Canadá, disponibilizaram recentemente resultados preliminares de um estudo no qual 2563 ateus, agnósticos, humanistas, livre-pensadores e céticos responderam a um questionário pela internet.

Uma das primeiras informações interessantes é que apenas 25% dos não-crentes se autointitulam como ateus. Talvez essa tendência ocorra pelo fato de que a palavra “ateu” remeta a um sentimento de preconceito largamente arraigado na sociedade. Algo como: “tudo bem não acreditar em Deus, mas ser ateu é demais”.

Aproximadamente 30% dos respondentes teve consolidado o pensamento não-crente entre 16 e 20 anos.

O estudo também verificou que ateus são fortemente antiteístas e antirreligiosos, reportando, inclusive, atitudes hostis para com a religião e espiritualidade. Por exemplo, mais de 90% dos ateus entrevistados concordam que a religião se opõe ao progresso e às mudanças sociais. Agnósticos, por outro lado, tendem a ser menos hostis, possuindo uma tendência maior a serem indiferentes e, em alguns casos, até simpáticos com a religiosidade.

Os pesquisadores separaram as questões morais em dois tipos: Valores Individualizantes (igualdade, justiça, bondade e autonomia pessoal) e Valores de Ligação e Pureza (lealdade, pureza e respeito pela autoridade e tradição). Os ateus possuem forte tendência a respeitar os valores individualizantes, porém uma forte tendência a rejeitar os valores de ligação e pureza.

Obviamente, houve uma forte correlação negativa entre o ateísmo e a crença em vida após a morte. Entretanto, o que surpreende neste estudo é o fato de que 1,4% dos ateus afirmaram possuir alguma crença em vida após a morte e em espíritos; mas ainda mais surpreendente é o fato de esse número chegar a 29,2% para os outros não-crentes.

Este estudo demonstra uma forte diferença no modo de pensar entre ateus, agnósticos e outros descrentes. Fica bastante evidente que os ateus são mais confiantes e sentem ter tido algum benefício com sua descrença. Segundo os autores, essa confiança e sentimento de ganho foram especialmente fortes entre ateus e podem refletir a aceitação de uma visão coerente de mundo, possivelmente uma com base científica.

Ao final, o estudo separa aqueles que se autodenominaram ateus, agnósticos e ateus-agnósticos, para descobrir que as atitudes dos ateus-agnósticos são intermediárias aos outros dois. Quando falamos de Atitudes Antirreligiosas e espiritualidade, os ateus-agnósticos situam-se mais próximos dos ateus. No quesito confiança em seu sistema de crença, os ateus-agnósticos ficam exatamente entre os que se declaram somente ateus ou somente agnósticos.

O estudo completo está disponível aqui.

Não acreditamos em deus pois não existe evidência alguma de que esse mesmo exista.

Essa posição parece ser muito radical para muitas pessoas que não perceberam o cerne da questão pois, como dita a velha frase: “a ausência de evidência não é evidência da ausência”. O tal “cerne” da questão eu discutirei no texto, assim como porque não acreditar em deuses é a coisa mais sensata a se fazer enquanto não existe uma evidência sequer mostrando o contrário. Lembrando que eu não abordarei as supostas “evidências” a respeito do assunto porque é assunto demais para um texto só, fora que estou familiarizado o suficiente com uma boa quantidade dessas “evidências” e precisaria ler/ouvir algo muito diferente para ficar realmente surpreso. Para entender essa questão, irei começar pela rota menos óbvia: supor que deus exista. Claro, vamos ter que pegar um deus em específico, pegarei o abraâmico por estar mais familiarizado com este.

Deus existe, ele realmente criou a terra como está descrito no Gênesis, veio a Terra como Jesus e fez um monte de coisas. Façamos esse exercício mental. O que impede que ele exista? Bom, se foi ele quem criou homens e mulheres (do barro e de uma costela, respectivamente), então pode muito facilmente ter determinado suas limitações. Limitações como não ter a capacidade lógica o suficiente para entender as Suas motivações. Da mesma maneira que uma formiga não tem capacidade lógica para entender sobre buracos-negros, por exemplo. Então, esses humanos poderiam ter evoluído tecnologicamente, ter avançado na filosofia e na cultura, mas mesmo assim ainda seriam limitados. Todas as evidências empíricas possíveis e a mais brilhante lógica do mundo não seria o suficiente para revelar a verdade, que seria a de que Deus existe e foi ele quem os criou. Deus veria todos ali, pessoas crendo nele, outras crendo noutros deuses, e ainda umas que seriam atéias. Somente aquelas pessoas seletas, cristãs, estariam corretas. Não pela lógica ou pela observação, mas puramente porque resolveram acreditar em algo. Resolveram acreditar em Cristo, que por acaso foi uma vez que Deus veio dar uma banda no seu planeta favorito para consertar as próprias mancadas.

Conseguiram ver o erro? Para muitos teístas, o que eu escrevi agora expressa direitinho a lógica por trás de suas crenças. Na verdade, boa parte deles, partindo da premissa de que a minha suposição é muito mais do que suposição, acaba vendo os ateus como “tolos”. Afinal, Deus existe e todos aqueles ateus, escarafunchados na “lógica” e no “empirismo”, são incapazes de acertar a verdadeira resposta. Existe um problema muito grande nessa questão.

O problema é, em um palavra: critério. Crença é uma questão de critério. Não se trata apenas de estar certo em um determinado assunto e ignorar qual foi o meio pelo qual se obteve a respectiva conclusão. Eu dei o exemplo do deus abraâmico e, para muitas pessoas, isso parece corresponder com a realidade. Mas reparem que, se eu substituir a palavra “Deus” por um outra qualquer, digamos, “Sauron”, a suposta “lógica” do parágrafo não decresce nenhum pouco. Alguns poderiam dizer que eles não sentem por Sauron o que sentem por Deus, mas e porque o próprio criador do universo deveria se importar com isso? Se a própria lógica foi abandonada pelo deus da bíblia, o que impede Sauron de abandonar as emoções? E se não fosse Sauron, se fosse uma mega corporação de gnomos invisíveis eu sigo dizendo que a “lógica” não diminuiria nem um pouquinho.

Precisamos de critério pois existe um fato muito indignante: Nunca seremos capazes de contemplar a realidade em toda a sua plenitude. Tudo o que sentimos é um interpretação da realidade e, como tal, sujeita a defeitos. Como o nosso acesso à realidade é apenas parcial, resta sermos criteriosos. Engraçado como muitos crentes costumam dizer “no final, veremos quem está certo”, na crença de que algum dia a “Verdade” será revelada. Essa crença decerto lhes dá mais tranqüilidade para fazerem suas apostas de fé. Mas é claro, não existe absolutamente nada que garanta ou mesmo indique que qualquer verdade será revelada só para saciar a nossa curiosidade.

Em uma última analogia, imaginem europeus em pleno século XIII. Suponhamos que, um cidadão português tenha concluído, acertadamente que existe todo um continente para o oeste e que devem ser realizadas expedições para lá. A nobreza portuguesa, interessada na conclusão do informante, resolve perguntar como ele chegou a ela. Perguntam se ele realizou expedições para aqueles mares, se ele viu embarcações surgirem de lá. Eis que ele diz ter descoberto o suposto continente por ter fé em sua existência. Apresentado desta maneira, alguém pode achar que seria sábio por parte da nobreza seguir o palpite louco do cidadão e ter gasto fortunas com expedições. Acontece que eu estou usando um exemplo muito específico. Aqueles mares eram desconhecidos e fora do alcance lógico dos portugueses. Seria, no fim das contas, insensato mandar naus para lá mesmo que esse caso em particular alavancasse o progresso de Portugal. Isso porque, da mesma maneira que seguiram um palpite certeiro, poderiam seguir uma miríade de palpites muito mais desastrosos e, portanto, colapsariam.

E é por isso que a questão não gira em torno do “porque deus não existe” mas sim “porque não deve se acreditar nele”. E não se deve acreditar por simples honestidade intelectual. É você sendo verdadeiro com os seus conhecimentos, sem dar chutes afobados na pretensão de estar certo.