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Já foi dito aqui, muitas vezes, que um ateu não crê que deus não existe. Ou ao menos não que isso seja necessário para caracterizá-lo como ateu. Muitos não-ateus gostam de lembrar que os ateus também creem em alguma coisa, como se crer fosse uma atividade proibida ao grupo. Obviamente, nada impede um ateu de crer em algo que não seja um deus. Não falo aqui das crenças mais ordinárias, como acreditar que tem que estar no trabalho daqui a meia hora ou acreditar que o Brasil é banhado pelo oceano Atlântico. Darei um exemplo de uma crença muito comum entre nós, ateus, seguindo a definição mais restrita de “crença” com a qual denotamos a crença dos, vejam só, crentes.

A crença no livre-arbítrio. A crença no livre-arbítrio talvez não esteja no mesmo patamar da crença de que Jesus nasceu de uma virgem, mas está lado-a-lado com a crença na vida eterna. Não é uma crença tão ingênua quanto a virgindade de uma mãe; no entanto, com certeza é muito esperançosa. Eu acredito, ou tento acreditar, mas o meu lado cético – que está preocupado em acreditar no que é real – briga com o meu lado esperançoso – que procura acreditar no que agrada – e minha crença não fica muito definida. Óbvio que, quando me refiro a ateus, é apenas uma parcela que acredita em livre-arbítrio.

Fala-se de maneira muito leviana no livre-arbítrio, de maneira ainda mais leviana sobre “liberdade” (eu gostaria muito que os norte-americanos me explicassem que “liberdade” é aquela pela qual eles lutam; nunca entendi direito). Adianto que é um assunto “levemente pesado”, se me permitem a contradição. Já falei sobre morte, defendi que deuses não existem (ou que não é lógico acreditar neles, vale esclarecer), mas falar sobre liberdade é mais pesado. Esclarecendo, falo de “liberdade” nesse texto como sinônimo de livre-arbítrio, até porque, se o livre-arbítrio não existe, então não existe qualquer forma de liberdade. Pensar que não somos livres para escolher, para desejar, é mais incômodo do que pensar que deixaremos de existir ou que não há deus. Na verdade, perto do livre-arbítrio, questões como “deus” e “morte” parecem até brincadeira de criança.  Provavelmente não existe deus algum nos protegedo nem garantia de vida após a morte, mas  o que importa é que vivemos e que, acredita-se, ajudamos a construir um mundo melhor. Desacreditar no livre-arbítrio implica acreditar em uma existência pela qual somos meros espectadores, passivamente gostando ou odiando os eventos que se sucedem.

Pegarei um exemplo banal para ilustrar o problema. Imaginemos que você vai a uma loja e deve escolher uma entre duas camisetas. Uma delas é amarela e a outra é azul. Você escolhe a azul. Ponto. Então você sai pela rua com uma camiseta azul, satisfeito com ela, imaginando que sua escolha foi boa. Tudo muito tranquilo até agora. Então você se lembra que, dias atrás, alguém te disse que a cor azul estava na moda. Veja como isso desvaloriza a sua decisão! No fim, o que te levou a escolher a camiseta azul foi apenas uma sugestão fútil sobre tendências da moda. Você imediatamente se sente uma ovelha em seu rebanho, uma ovelha vestindo uma camiseta azul. Talvez quem te disse sobre a moda da cor azul estava se beneficiando com o estouro de vendas de camisetas azuis. Então, só para se rebelar, você decide que talvez seja melhor comprar uma camiseta amarela e dar um “não” às tendências da moda e um “sim” à livre-escolha. Mas daí você se lembra que existe algo chamado “psicologia reversa” e que talvez a intenção era justamente a de fazer você comprar uma camiseta amarela. Como um pato, você caiu e começa a pensar se um pato de camiseta amarela é tão melhor assim que uma ovelha de azul. De um modo ou de outro, a sua escolha foi determinada pela alegação de que a cor azul está na moda.

Podemos supor que ninguém nunca te sugeriu nada e você comprou uma camiseta azul por achá-la mais bonita. Mas e por que você a acha mais bonita? Por que o azul te lembra a paz? Vai ver ele te lembra a paz pois é a cor de um céu limpo, ou porque lembra o mar, praia, férias. Nesse caso, a sua escolha não foi determinada por um interesseiro; foi determinada pela lembrança do mar e do céu que algum dia lhe represetaram paz. Fato é que ela não foi determinada por você e sim pelo que aconteceu em seu passado. Nossas escolhas não nascem espontaneamente no momento em que a realizamos; elas são consequências da carga de experiências que tivemos desde que nascemos.

Tudo fica muito mais leve quando falamos de camisetas e cores. Mas é claro que a questão se estende bem além disso. Aprendemos a ter orgulho de nossas escolhas, como a escolha da faculdade certa ou da esposa certa (ou do marido certo). Fazemos escolhas que consideramos erradas e ficamos imaginando como seríamos mais felizes se tivéssemos seguido um caminho diferente. Sem o livre-arbítrio, esses orgulhos e divagações são infundados. Como folhas boiando em um rio, onde nós somos as folhas e o rio é o meio em que vivemos, podemos ir parar em um lago limpo ou em um esgoto, mas não faz sentido se orgulhar por um ou se lamentar pelo outro. Uma existência sem deus ou sem vida eterna ainda é recheada de méritos, de glórias. Sem livre-arbítrio essas coisas se perdem. Termino o meu segundo texto sobre “morte” falando sobre a importância de deixar um bom legado. Digo naquele parágrafo que o legado é a eternidade concretizada pelos atos. Mas que coisa vazia seria se os seus atos não fossem escolhas suas e sim meras consequências inevitáveis. Darwin termina sua obra-prima dizendo “Há grandeza nessa visão da vida”, se referindo à crença de que todas as formas de vida surgiram de apenas uma, muito mais simples. E ele estava certo: há muita grandeza mesmo nessa visão da vida. Há grandeza na visão de um ateu também, não tenham dúvida, de uma vida sem deuses, uma vida que é bonita por si só. Existe igual grandeza em uma vida que tem um início e um fim, que deve ser aproveitada. Mas não, não há grandeza alguma sem livre-arbítrio.

Imaginem que hoje à noite uma pessoa vai bater na sua casa e lhe trazer uma notícia. Essa pessoa veio do futuro e viu tudo. Veio lhe dizer que a sua vida será medíocre e que você não chegou nem perto de realizar algum sonho seu. Pois bem, como não existe livre-arbítrio, a sua vida realmente será medíocre; quando confrontado com a opção de seguir uma via mais laboriosa e arriscada, você inevitavelmente negará em prol de uma mais confortável. Mas, se o livre-arbítrio existe, a mensagem dessa pessoa (muito importuna, por sinal) será apenas um incentivo para você ser um grande homem ou uma grande mulher. Isso demonstra de maneira mais clara o quão a descrença no livre-arbítrio é pior do que a descrença em deus ou na vida eterna. Tão pior que, pela primeira vez, eu espero sinceramente que alguém refute o meu texto com muita categoria, para que eu possa dormir tranquilo acreditando mais convictamente na liberdade de escolher.

Bom, para terminar, sem livre-arbítrio a vida é comparável a uma montanha russa. Na montanha russa, estamos presos em carrinhos que percorrem subidas e decidas. Como na nossa vida sem liberdade, as subidas e decidas não dependem de nossas escolhas e nossas emoções são determinadas em uma interação passiva na qual você apenas sente as consequências. Bom, termina o percurso da montanha russa, cheia de subidas, descidas, loopings e parafusos – todos eles lhe causaram uma gama de emoções diferentes. Medo, felicidade, alívio ou até mesmo enjoo. Não faria mesmo sentido se te descem parabéns por ter estado no ponto mais alto da montanha russa ou te consolassem por ter passado pelo mais baixo. Ninguém te perguntaria como você fez para dar todos aqueles loopings e ninguém dedicaria uma página na Wikipédia sobre “o parafuso que você deu naquela montanha russa”. Fazemos coisas semelhantes na vida real, como parabenizar e consolar, considerando os sucessos assim como os fracassos, e a analogia com a montanha russa mostra que essas atitudes não fazem tanto sentido assim. Mas talvez uma, e apenas uma pergunta seria relevante, tanto na vida como na montanha russa:

“O passeio estava bom?”

“Por que tantos tementes a deus?” Essa é uma pergunta muito boa. Nós, ateus, gostamos de debater sobre o assunto e expor nossas conclusões. Debatemos usando argumentos contra a existência de deus(es) e, principalmente, por que não é racionalmente aceitável acreditar em algum. Mas existe um fato que aparentemente derruba todas as nossas tentativas: existe uma boa quantidade de tementes a deus, deuses ou demais entidades sobrenaturais. Diante do fato de que a vasta maioria da humanidade acredita em deus ou deuses, nosso arsenal de argumentos parece quixotesco.

A resposta padrão de muitos ateus a essa questão é: os motivos racionais são poucos ou nenhum, mas os emocionais são muitos e são fortes. Eu me uso dessa resposta, pois realmente acho, depois de anos debatendo com teístas, que os motivos que levam à crença no sobrenatural são majoritariamente de caráter emocional. Uma boa porção deles insiste em dizer que não, possuem argumentos na ponta da língua, mas estão apenas querendo se enganar e, cedo ou tarde, acabam expressando que são, de fato, levados pela emoção.

Novamente, meu intuito não é rebater esses argumentos. Se algum teísta considerar que estou errado, sinta-se à vontade para postar seus argumentos nos comentários de nossos textos. Quero discutir o que seria essa tão falada motivação emocional. Ir além de simplesmente taxar a crença alheia como mera emoção e dar nome aos bois.

Bom, comecemos por um conceito muito desejado por nós: justiça. Queremos que os usurpadores paguem pelos seus atos e que os altruístas sejam recompensados. Tentamos fazer isso dentro de nossa sociedade com nossas próprias mãos, criando prisões e castigos para os primeiros, assim como honras e presentes para os últimos. Porém, reconhecemos nossas limitações e ansiamos por uma força promotora de justiça mais plena. Essa justiça tem que vir de algo maior que nós, mais poderoso e incorruptível. Esse “algo” normalmente é chamado de “Deus”.

Depois temos a curiosidade. A ambição citada no parágrafo anterior reflete uma característica marcante de nossa espécie, que é a vida em sociedade. O desejo de adquirir conhecimento amplo e seguro advém de outro aspecto nosso, que é a vontade de aprender. Dentro de uma sociedade majoritariamente cristã, é comum ouvir de muitos cristãos que o conteúdo da bíblia é uma verdade absoluta e que é tudo o que precisamos conhecer, que a sabedoria ali ensinada é mais profunda do que a mais brilhante eureca de um simples humano. Comicamente ouvimos muito frases do tipo: “no fim todos nós saberemos quem está certo”. É a crença de que, depois da morte, além da justiça feita teremos todas as respostas. Já falei um pouco sobre essa crença aqui (Porque não Acreditar, 5º parágrafo).

O terceiro desejo é a vontade de nunca deixar de existir. Em bom português: “o medo da morte”. Não me adentrarei nele, pois já dediquei três textos ao assunto (este, este e este). Só adianto que considero esse o desejo mais íntimo e o maior responsável pela crença no sobrenatural. Os três grandes desejos aqui comentados não são exclusividade de teístas. Ateus também os possuem. O que muda é que um deles aceita suas limitações e o outro abafa o fato com crenças sobrenaturais.

Portanto, como já devem ter percebido, podemos resumir esses três motivos como um desejo muito íntimo presente em todos nós. Uma fome muito grande por coisas que não vêm na quantidade que gostaríamos. Essa fome imensa que é a mãe de todas as fés. A justiça é rara, o conhecimento é pouco e a vida é curta. Essa fome se sacia acreditando que a justiça será feita, que todos os mistérios do mundo (ou ao menos os poucos que realmente interessam) podem ser desvendados e que a nossa existência não se finda com nossa morte. Essa crença poderia vir da maneira padronizada, através da lógica e da observação. O problema é que “lógica” e “observação” definitivamente não nos levam a concluir o que gostaríamos, então a nossa crença tem que vir do nada, é preciso ter fé. Tornamos uma dada limitação, que é a incapacidade de possuir um entendimento pleno sobre todas as coisas a nosso favor e colocamos os nossos anseios neste mar de ignorância que reconhecemos possuir. Nós, ateus, chamamos esse deus, que mora no incompreendido, de “deus-das-lacunas”. O que escapa nossa razão agora é algo sobrenatural e sacia a nossa fome. Ou pelo menos vai saciar, um dia quem sabe, basta ter fé e paciência…

Tenho uma caixa de ferramentas. Dentro dela: alicates, chaves-de-fenda, porcas, parafusos e um canivete. Sim, tenho mesmo poucas ferramentas, apesar de possuir diversos tipos da mesma ferramenta.

Na condição de ser-humano, posso dizer que criei essas ferramentas. Elas ampliam meu poder de corte, furo, pressão e precisão. É para isso que existem as ferramentas: para ampliar nossas capacidades.

Todas as minhas ferramentas exigem manuseio. Sem mim, elas não são nada; sem elas, eu sou incapaz de muitas coisas. Mas elas não possuem direito de escolha. Outro dia utilizei meu alicate como martelo, e ele não reclamou.

Posso não ter domínio total sobre o uso dos meus instrumentos de trabalho (na verdade, o uso é esporádico). Porém, eles nunca fugiram de controle. Ficam lá, inertes, até que eu decida usá-los.

Assim, sei de tudo o que se passa com as ferramentas: onde estão, com quem estão (às vezes empresto), de onde vêm e para onde vão. Onipresença, onisciência… onipotência? Não. Talvez, sem elas, eu seja apenas mais uma espécie de macaco.

Ouvi falar que somos ferramentas de Deus. Concordo. Acho que, no final das contas, Deus é homem, o homem é macaco, e o macaco é Deus.

Não acreditamos em deus pois não existe evidência alguma de que esse mesmo exista.

Essa posição parece ser muito radical para muitas pessoas que não perceberam o cerne da questão pois, como dita a velha frase: “a ausência de evidência não é evidência da ausência”. O tal “cerne” da questão eu discutirei no texto, assim como porque não acreditar em deuses é a coisa mais sensata a se fazer enquanto não existe uma evidência sequer mostrando o contrário. Lembrando que eu não abordarei as supostas “evidências” a respeito do assunto porque é assunto demais para um texto só, fora que estou familiarizado o suficiente com uma boa quantidade dessas “evidências” e precisaria ler/ouvir algo muito diferente para ficar realmente surpreso. Para entender essa questão, irei começar pela rota menos óbvia: supor que deus exista. Claro, vamos ter que pegar um deus em específico, pegarei o abraâmico por estar mais familiarizado com este.

Deus existe, ele realmente criou a terra como está descrito no Gênesis, veio a Terra como Jesus e fez um monte de coisas. Façamos esse exercício mental. O que impede que ele exista? Bom, se foi ele quem criou homens e mulheres (do barro e de uma costela, respectivamente), então pode muito facilmente ter determinado suas limitações. Limitações como não ter a capacidade lógica o suficiente para entender as Suas motivações. Da mesma maneira que uma formiga não tem capacidade lógica para entender sobre buracos-negros, por exemplo. Então, esses humanos poderiam ter evoluído tecnologicamente, ter avançado na filosofia e na cultura, mas mesmo assim ainda seriam limitados. Todas as evidências empíricas possíveis e a mais brilhante lógica do mundo não seria o suficiente para revelar a verdade, que seria a de que Deus existe e foi ele quem os criou. Deus veria todos ali, pessoas crendo nele, outras crendo noutros deuses, e ainda umas que seriam atéias. Somente aquelas pessoas seletas, cristãs, estariam corretas. Não pela lógica ou pela observação, mas puramente porque resolveram acreditar em algo. Resolveram acreditar em Cristo, que por acaso foi uma vez que Deus veio dar uma banda no seu planeta favorito para consertar as próprias mancadas.

Conseguiram ver o erro? Para muitos teístas, o que eu escrevi agora expressa direitinho a lógica por trás de suas crenças. Na verdade, boa parte deles, partindo da premissa de que a minha suposição é muito mais do que suposição, acaba vendo os ateus como “tolos”. Afinal, Deus existe e todos aqueles ateus, escarafunchados na “lógica” e no “empirismo”, são incapazes de acertar a verdadeira resposta. Existe um problema muito grande nessa questão.

O problema é, em um palavra: critério. Crença é uma questão de critério. Não se trata apenas de estar certo em um determinado assunto e ignorar qual foi o meio pelo qual se obteve a respectiva conclusão. Eu dei o exemplo do deus abraâmico e, para muitas pessoas, isso parece corresponder com a realidade. Mas reparem que, se eu substituir a palavra “Deus” por um outra qualquer, digamos, “Sauron”, a suposta “lógica” do parágrafo não decresce nenhum pouco. Alguns poderiam dizer que eles não sentem por Sauron o que sentem por Deus, mas e porque o próprio criador do universo deveria se importar com isso? Se a própria lógica foi abandonada pelo deus da bíblia, o que impede Sauron de abandonar as emoções? E se não fosse Sauron, se fosse uma mega corporação de gnomos invisíveis eu sigo dizendo que a “lógica” não diminuiria nem um pouquinho.

Precisamos de critério pois existe um fato muito indignante: Nunca seremos capazes de contemplar a realidade em toda a sua plenitude. Tudo o que sentimos é um interpretação da realidade e, como tal, sujeita a defeitos. Como o nosso acesso à realidade é apenas parcial, resta sermos criteriosos. Engraçado como muitos crentes costumam dizer “no final, veremos quem está certo”, na crença de que algum dia a “Verdade” será revelada. Essa crença decerto lhes dá mais tranqüilidade para fazerem suas apostas de fé. Mas é claro, não existe absolutamente nada que garanta ou mesmo indique que qualquer verdade será revelada só para saciar a nossa curiosidade.

Em uma última analogia, imaginem europeus em pleno século XIII. Suponhamos que, um cidadão português tenha concluído, acertadamente que existe todo um continente para o oeste e que devem ser realizadas expedições para lá. A nobreza portuguesa, interessada na conclusão do informante, resolve perguntar como ele chegou a ela. Perguntam se ele realizou expedições para aqueles mares, se ele viu embarcações surgirem de lá. Eis que ele diz ter descoberto o suposto continente por ter fé em sua existência. Apresentado desta maneira, alguém pode achar que seria sábio por parte da nobreza seguir o palpite louco do cidadão e ter gasto fortunas com expedições. Acontece que eu estou usando um exemplo muito específico. Aqueles mares eram desconhecidos e fora do alcance lógico dos portugueses. Seria, no fim das contas, insensato mandar naus para lá mesmo que esse caso em particular alavancasse o progresso de Portugal. Isso porque, da mesma maneira que seguiram um palpite certeiro, poderiam seguir uma miríade de palpites muito mais desastrosos e, portanto, colapsariam.

E é por isso que a questão não gira em torno do “porque deus não existe” mas sim “porque não deve se acreditar nele”. E não se deve acreditar por simples honestidade intelectual. É você sendo verdadeiro com os seus conhecimentos, sem dar chutes afobados na pretensão de estar certo.

Observe com atenção a figura abaixo:

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Estão representados nessa gravura alguns gestos manuais do nosso cotidiano. Você provavelmente conseguiu identificar o significado de muitos deles, talvez de todos.

Esses são sinais conhecidos em todo o mundo. Aonde quer que você vá, é possível entender e se fazer entender utilizando qualquer um desses exemplos, apesar de alguns sofrem variações em seu significado.

Apontar para algo ou alguém não gera dúvidas quanto ao que se quer dizer; porém, pode ser que, numa excursão por uma tribo apache, você peça, com um gesto, para o índio parar, mas este, entendendo como apenas um cumprimento, responda: “Haw!” e continue seu caminho; ou que, num passeio pela Austrália, entre num bar e, percebendo algum clima não muito amistoso, cumprimente alguém utilizando-se do gesto que representa “paz e amor”. Fazendo-o, num descuido, com as costas da mão voltadas para o sujeito em questão, que não aceitará o insulto envolvendo sua progenitora. Pode-se perceber então que, apesar de determinados gestos serem universais, estão sujeitos a diferentes significados, gerando desentendimentos ignoráveis ou não.

Gestos também têm o poder de motivar ou enfurecer. Quando você faz um trabalho cuja qualidade se considera particularmente boa, a aprovação, mesmo que dita apenas com as mãos, traz certa satisfação pessoal, reforçando a continuidade de tal padrão de trabalho. No trânsito, um gesto obsceno pode ser o gatilho para uma briga séria. Ninguém precisa te explicar o significado, pois você já sabe, assim como ninguém te pergunta por que você sabe, pois parece claro que isso foi aprendido pelo contato com o meio, que tradicionalmente já utilizava esses gestos.

Algo intrigante em relação aos gestos representados na gravura é que, pelo menos em sua maioria, não se sabe dizer quando e onde eles foram criados, se são manifestações intrínsecas do ser-humano ou mero aprendizado e, se assim o são, por que são utilizados, mesmo que de diferentes formas, em povos isolados?

Com certeza não fazem parte de um plano maior, nem nada de sobrenatural. Na verdade não aparenta ser algo que necessite atenção. Não mudaria em nada o modo como os gestos são utilizados, ou o poder que exercem sobre o movimento e a psique humana. Seria uma grande perda de tempo, cujos anos de pesquisa estariam propícios a resultarem em contradições, devido à variedade de abordagens, muitas delas divergentes entre si, porém com os mesmos princípios lógicos e/ou filosóficos.

E se os gestos se chamassem Deus?

IV

No meu quarto e último texto sobre a relação deus/ciência, falarei sobre uma ideia interessante. A ideia dos magistérios não-interferentes, defendida pelo falecido Stephen Jay Gould, também conhecida como NOMA (do inglês Non-Overlapping MAgisteria). Uma ideia que, a meu ver, coloca ambas, ciência e religião, em seus respectivos lugares. Mas já adianto que é uma ideia polêmica, mesmo entre os ateus. Aproveito essa polêmica aqui para salientar que opiniões expressadas por cada um de nós, autores do “Um deus em minha Garagem”, são pessoais e não necessariamente refletem as opiniões de todos os ateus.

Mas no que consiste essa ideia? Bom, antes acho que cabe esclarecer o que seriam “magistérios”. “Magistério” foi um termo que S. J. Gould buscou de um conceito da igreja católica, o magisterium, que seria a “autoridade do ensinamento católico” [1]. Ao defender o NOMA, Gould usa o conceito de “magistério” como um suporte apropriado que permite ensinar e discutir questões pertinentes ao seu próprio escopo. Ou seja, que a ciência se limite a explicar fenômenos naturais sem se intrometer em questões morais, e que a religião sirva de guia para a moralidade sem pretender explicar o mundo natural. Cada qual na sua área. Perceba, no entanto, que isso não significa uma separação total entre ciência e religião, mas apenas uma divisão de tarefas.

Considerando as necessidades do intelecto humano, a ideia dos magistérios não-interferentes parece promissora. Queremos entender o mundo assim como ter uma boa orientação moral. Quanto à orientação moral, a ciência não tem muito a oferecer. Mas – e é aí que eu começo a achar a ideia do NOMA frágil demais – a religião nos oferece menos ainda. Seja lá de onde vem o nosso senso de moral, certamente não é da religião.

Eu concordo sim, que cada uma deve ficar em seu devido lugar. Essa ideia fica mais clara quando pensamos no absurdo que é a tentativa de se incluir criacionismo no ensino das escolas. Pois isso é justamente um magistério interferindo noutro. Outro exemplo do magistério da religião metendo o bedelho onde não é chamado é a polêmica que surgiu sobre pesquisa com células embrionárias. Só que esse exemplo é capcioso, pelo menos para o NOMA que Gould defendia. Ao mesmo tempo em que essa polêmica demonstrou claramente o erro que é misturar ciência com religião, ela demonstrou que isso era inevitável. As ideias de moral obtidas através da religião só serviram para atrapalhar o progresso do saber e do bem-estar. De onde essas ideias de “certo ou errado” foram tiradas é um assunto que não pode ser ignorado. Como e por que certos religiosos concluíram que uma “alma” entra em cena no momento da fecundação é um mistério, e é um absurdo essa ideia ser admitida alegando que devemos respeitar o posicionamento moral-espiritual de seus defensores.

Óbvio que o oposto também acontece. Como o que conhecemos por “falácia naturalista”. Um exemplo simples dessa falácia seria: “O chimpanzé macho bate na fêmea, logo, eu tenho o direito de bater em mulheres, visto que somos todos primatas”. É um caso típico de non sequitur. Mas tenho dificuldades em dizer se é o magistério da ciência que está afetando o da religiosidade ou se estamos falando de mero cientificismo. Alguns poderiam dizer que o exemplo mais dramático de quando um povo depositou sua base moral na ciência (e errou) é o nazismo. Na verdade, estaríamos falando mais especificamente da eugenia, um princípio calcado na genética, segundo o qual devemos eliminar os indivíduos mais fracos dentro de uma população para favorecê-la como um todo. A questão é: que ciência é essa? Se a humanidade se desenvolveu e floresceu principalmente devido à espetacular habilidade social encontrada nos humanos, por que seria cientificamente plausível jogar toda essa habilidade fora para nos auto-controlarmos como cães de corrida? Não é de ciência que estamos falando aqui, mas sim de algo totalmente deturpado, tendencioso e, em última análise, incoerente.

Agora, se eu concordo ou discordo com o NOMA, minha resposta é a seguinte: em parte. Vejo que a ciência fica muito melhor quando se limita a investigar os mecanismos da natureza. O meu problema reside no papel da religião. Ao passo que a ciência fez um trabalho excepcional dentro de seu escopo, mesmo considerando seus deslizes, a religião deixou e ainda deixa muito a desejar.

Deus e a Ciência:

1. A mitificação da ciência salvadora

2. No quê os cientistas acreditam

3. A crença dos grandes gênios

4. Sobre os magistérios não-interferentes

III

É normal uma pessoa religiosa estufar o peito para falar sobre a crença dos grandes gênios da humanidade. Alguns nomes logo vêm à mente. Isaac Newton é o primeiro. Físico, pai do cálculo e teólogo, para orgulho dos teístas. Galileu, um dos homens que desafiou a igreja, também acreditava em deuses. Einstein, muito citado em fontes não confiáveis pela internet como sendo autor de diversas frases, boa parte delas com alto teor religioso, também acreditava em algum deus (embora muito diferente do que a versão da grande maioria dos teístas). Da Vinci, Blaise Pascal e Kepler são outros nomes de grandes gênios crentes em deus.

Segundo o meu último texto, esse fato não interessa. Não entendam isso como uma tentativa de desvio ao fato de que muitos cientistas brilhantes acreditavam em deus. Na verdade, muitos outros cientistas brilhantes não acreditavam em nenhum e isso também não faz diferença alguma. Esse meu texto não vai atacar a validez da defesa apologética na qual os grandes gênios aparecem como evidência de que deus existe. Essa defesa já começa inválida por se tratar de simples falácia do apelo à autoridade. Quero falar sobre a relação entre a crença e suas experiências, uma ideia fundamental que parece ser sistematicamente ignorada por muitos teístas. Para tal eu focarei em Newton, visto que ele é o mais óbvio expoente de cientista crente em deus.

Newton acreditava – muito – em deus. Não resta a menor dúvida quanto a isso. De fato, ele era um teólogo. A faceta de Newton que não nos ensinam na escola inclui teologia e alquimia dentro das atividades deste cientista britânico. Essa mesma faceta é muito lembrada com orgulho pelos defensores da “ciência amiga de deus” de que eu falei no meu último texto. Como a relação deus e ciência é tão repleta de ironias, é óbvio que existe mais uma por trás da teologia de Newton. Não sei se os apologistas nunca pararam para pensar sobre isso por preguiça ou conveniência, mas o fato é que existem ótimos motivos pelos quais Newton não é conhecido por sua teologia e alquimia. Ao contrário do Newton físico, matemático e filósofo natural, a sua contraparte teológica e alquimista não colaborou muito (ou nada) para a humanidade. O cálculo de Newton e suas leis fundamentais revolucionaram a física, mas a alquimia e teologia foram irrelevantes. Seria interessante se Newton não tivesse desperdiçado tanto tempo na busca de uma pedra filosofal ou de um deus bondoso, talvez saísse mais um ou dois postulados.

Mas o ponto mais importante não é esse. Não faz muito sentido divagar sobre o que Newton teria descoberto caso investisse mais tempo em seus estudos sobre a natureza. Newton, como cada ser humano, era uma criatura cujos conhecimentos dependiam intimamente de sua experiência. Antes de ser um filósofo/físico/teólogo de grande calibre ele era um filósofo/físico/teólogo do século XVII – XVIII. Não há como dissociar Newton de seu tempo da mesma maneira que não há como dissociar uma ideia de sua época, visto que a primeira é um reflexo da última.

Um exemplo de como muitos apologistas falham miseravelmente ao dissociar um pensamento de sua experiência está no criacionismo. É comum ver criacionistas defendendo que os principais gênios, como os que eu citei no primeiro parágrafo, eram todos criacionistas. Mais uma vez vamos um pouco além, ignorando o fato de que o argumento é apenas uma falácia, para analisar a sua validade.

Antes de nos perguntarmos por que Newton, Galileu e Pascal eram criacionistas, devemos nos perguntar como eles se tornariam evolucionistas. Sabemos como Darwin se tornou um. Entre os principais fatores está nada menos do que uma viagem ao redor do mundo com frequentes paradas, incluindo na América do Sul, onde Darwin servia primariamente como geólogo mas também coletava espécimes diversos. Wallace, o co-autor da teoria darwinista estava na Malásia quando chegou, de maneira independente, à mesma ideia central que Darwin. Antes de ir para a Malásia Wallace estudou e coletou durante anos na bacia Amazônica, um lugar que muitos brasileiros sequer conhecem. E fez isso em pleno século XIX. Há de se considerar a experiência destes dois naturalistas. Como que Newton chegaria à mesma conclusão que Darwin e Wallace? Estudando prismas? Observando uma maçã cair? Ou então Galileu deveria ter descoberto algo sobre a evolução das espécies olhando as estrelas através de seu telescópio.

Nem Newton, nem Galileu, nem Darwin ou mesmo eu e você tiramos nossas conclusões do nada. O que chamamos de grandes gênios são pessoas que sugam lições de suas experiências com a voracidade que um tolo não conseguiria. Mas a informação chega para todos com a mesma intensidade, a única diferença está em quem a acolhe. Uma maçã caindo foi o suficiente para inspirar Newton a postular algo sobre a gravidade, mas nem mesmo todas as maçãs do mundo caindo simultaneamente fariam com que um homem, preguiçoso ou temeroso em pensar, concluísse qualquer coisa.

Deus e a Ciência:

1. A mitificação da ciência salvadora

2. No quê os cientistas acreditam

3. A crença dos grandes gênios

4. Sobre os magistérios não-interferentes

II

Existe um recurso muito comum utilizado pelos crentes que é a falácia da autoridade. Ela funciona da seguinte maneira: argumenta-se que a afirmação é correta, pois ela supostamente foi defendida por uma pessoa ilustre. Um exemplo: “Fulano disse que é assim, e como ele tem PhD em tal área (não interessa qual) então deve estar certo”.

Mas é aí que vem a parte engraçada. No último texto falei de como a “ciência” caiu no imaginário popular como inimiga da “fé” ou mesmo de “deus”. Muitas vezes a ciência e a tecnologia eram retratadas como algo contrário aos bons tempos em que as crianças jogavam peão e não video games, e se andava de carroça ao invés de carro. Ou então os cientistas eram os arrogantes sabichões contradizendo antigas culturas e tradições de pessoas humildes. Mas bastava um cientista defender a ideia de que a ciência corroborava a fé para que este se tornasse uma autoridade de confiança instantaneamente. E então vem a falácia de autoridade mais irônica que eu conheço. Muitos textos apologéticos são recheados de citações de bioquímicos, físicos, matemáticos e geólogos, como se as palavras destes possuíssem maior peso do que a de qualquer outra pessoa. Não é a eloquência de seus argumentos ou o quão suas ideias refletem o mundo natural mas meramente o fato de serem cientistas e dizerem que deus existe.

Se algum dia encontrarem um texto avulso, como os manuscritos do mar morto, revelando em alguns de seus versículos que as espécies derivadas evoluem de suas ancestrais, a teoria neodarwinista será alavancada de “inimiga da fé” para “evidência de que deus existe”. O número de criacionistas iria cair e, quem sabe, Darwin seria canonizado! Brincadeiras a parte, a verdade é que a ciência é menosprezada ou mitificada quando convém. Mas, afinal, a ciência apóia ou derruba deus? Para mim, a resposta é fácil. Nem um nem outro, a ciência não trabalha com deus. Mas para os que creem não só em deus como na ciência como sua aliada/inimiga, essa pergunta é muito pertinente.

Para resolver esse dilema, muitos apologistas apelaram para a ideia de “cientistas verdadeiros”. Conceito nebuloso esse, o de “cientista verdadeiro”. Nada menos do que outra falácia, apelidada de “Falácia do escocês de verdade”. Para exemplificar, suponhamos que eu diga o seguinte: escoceses não bebem vinho. Então ao entrar em um pub qualquer você encontra um escocês bebendo vinho, para o meu desagrado. Esse testemunho eu posso desmerecer afirmando que “Um escocês de verdade não bebe vinho”. E ficaria eu sem definir o que diabos seria um escocês de verdade. Vai ver que o sujeito que você encontrou no bar simplesmente nasceu na Escócia, mas não possuía todos os atributos de um “bom escocês”. Falácia; meu argumento foi derrubado no momento em que você avistou o escocês “no ato”.

Linus Pauling - O que falta para ele ser considerado um cientista de verdade?

Aqueles que não se encaixam no perfil carente de definições de um “cientista de verdade” decerto são pseudocientistas. Exemplos desses “pseudocientistas”? Bom, temos Francis Crick; Paul Dirac; Alan Turing; S. Weinberg; James Watson; Steven Pinker; Linus Pauling; Susan Greenfield; Ernst Mayr; John M. Smith; Sir Julian Huxley e, enfim, a lista é enorme. Vale lembrar duas coisas. Primeiro, a lista de cientistas que acreditam em deus também não é pequena. Segundo, muitos dos cientistas considerados como “não verdadeiros” ou “materialistas” se autodefinem como agnósticos e não como ateus, apesar de que F. Crick, por exemplo, se definir como “um agnóstico com forte inclinação para o ateísmo”. De onde a ideia de “cientistas verdadeiros” surgiu é assunto para o meu próximo texto. É um assunto grande, pois muitos dos maiores cientistas da história acreditavam em deus(es), o que é motivo para grande orgulho de muitos religiosos desinformados. Só que a crença desses grandes gênios é algo peculiar quanto à sua natureza, assim como a época na qual esses cientistas viveram deve ser analisada cuidadosamente.

Os nomes que eu citei anteriormente são de pessoas muito importantes para a humanidade, vale lembrar. Dizer que Watson e Crick, os descobridores da estrutura do DNA, não são “cientistas de verdade” é atestado de ignorância. Temos ainda Linus Pauling, ganhador do Nobel de química e também da Paz (deve ser muito chato para um fanático saber que um ateu ganhou o Nobel da paz). Fora outros, mais claramente ateístas, como Stephen Jay Gould, Richard Dawkins e Carl Sagan. Não sei o que falta para esses senhores e senhoras serem considerados cientistas de verdade. Mas os apologistas certamente sabem. Se ao menos eles demonstrassem qualquer sinal de crença, seriam eles considerados geniais.

Quanto à porcentagem de ateus, tem esse estudo de Edward J. Larson e Larry Witham [1] feito dentro da NAS (National Academy of Sciences). A grande maioria é ateia, com um número menor de agnósticos e um número menor ainda de tementes a deus. Não sei como essa porcentagem se representa em outros lugares, mas certamente é um dado interessante.

O ponto é que isso é irrelevante. O estudo de Larson e Witham não prova que “verdadeiros cientistas” são ateus. Mas certamente é um soco no estômago para aqueles que acreditam em uma “ciência verdadeira” na qual deus é constantemente demonstrado. Qualquer posicionamento em um debate deve ser avaliado pelo peso de seus argumentos, nunca por falácias como a da autoridade, onde algo proferido por um doutor deveria valer mais do que por um leigo.

Notas:

[1]Nature, Vol. 394, No. 6691, p. 313 (1998) © Macmillan Publishers Ltd.

Deus e a Ciência:

1. A mitificação da ciência salvadora

2. No quê os cientistas acreditam

3. A crença dos grandes gênios

4. Sobre os magistérios não-interferentes