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Conseguimos separar com boa precisão as coisas que nos são externas daquelas que botamos no mundo. Mesmo que tudo o que façamos seja apenas transformar a matéria que não pertence diretamente a nosso corpo, sabemos que nossas ideias nem sempre condizem com a realidade.

Todo o nosso maquinário instrumental de pensamento foi construído e moldado para a nossa sobrevivência e reprodução. A verdade, então, passa a ser secundária. Não são poucos os exemplos em que contar uma mentira – ou uma inverdade, caso prefiram eufemismos – não só é aceitável, como também é desejável ou recomendável.

Assim, é certo afirmar que todos temos uma noção individual das coisas e que partilhamos aquilo que é comumente aceito onde vivemos. No entanto, no trato com outras pessoas, tendemos a externalizar nossas opiniões como se fossem verdades para todos. É por isso que gastamos tanto tempo e energia em debates, em disputas erísticas, em discussões de botequins, entre várias outras ocasiões.

Apesar da prática, é uma das tarefas mais árduas que podemos empreender. Ao enunciar uma verdade “humana”, por assim dizer, precisamos ter cuidado para não incorrermos em falácias, bem como precisamos dar coerência interna às ideias para que sejam sustentadas quando atacadas – e, certamente, o serão. Em última instância, devemos também cuidar para que não sejam construídas de forma tal que não encontrem respaldo no mundo.

Teoricamente, é tudo muito belo. Chegar a uma verdade por esses meios é o ápice do raciocínio de nossa espécie. Tão elevada é a conclusão que poucas são as coisas que podemos dizer terem sido concebidas pelo método. O problema é que, em nossas vidas, não podemos dispor somente de coisas tão seguras. Então partimos para o terreno do convencimento puro e simples.

E é exatamente nesse terreno que encontramos as verdades pretensas. Elas simplesmente se recobrem de um manto aparente de realidade, mas não resistem a uma análise mais profunda. Se ainda existem em nosso meio, é porque analisar a quantidade de informações que recebemos de forma isenta e honesta demanda mais tempo do que temos à disposição.

Há, contudo, formas mais úteis de filtrar os erros honestos e práticos daqueles escandalosos e inescrupulosos. A principal delas é fugir dos apelos emocionais. O arauto dessas verdades quer tocar o interlocutor no seu sistema mais primitivo de escolha: o do parecer estar certo.

Para tal empresa, não medirá esforços em usar do pathos para realizar seus objetivos. Está ele errado por isso? Obviamente não. Existisse algum reajuste cósmico que punisse coisas desse tipo, suas bocas seriam grampeadas e seus dedos seriam amputados ao nascerem. Mesmo sabendo do embuste, não podemos proibir – ou mesmo coibir – esse tipo de persuasão porque seria proibir a própria atividade humana de comunicação.

Se nos irritamos e nos revoltamos, é muito provavelmente porque não estamos ganhando coisa alguma com isso ou, muito pior!, talvez sejamos prejudicados pelas ações que nos atingem. Caso tenha retorcido o estômago e já esteja pronto para dizer que estou mentindo, lembre-se de como é fácil concordar com algo que nos agrada e de como é difícil pesar os argumentos contrários à nossa vontade.

É assim que funciona o jogo político e também o viés da propaganda. Cabe a nós identificarmos os mecanismos de dominação e escaparmos do controle mais danoso. Assim como cabe também a nós entendermos que consumimos produtos e votamos em políticos não por sua utilidade, mas por razões alheias à pretensa verdade que eles carregam em si.

Dentre as inúmeras características que possui a deidade cristã, três se destacam: a onipresença, a onisciência e a onipotência. Em todos os casos, o radical “oni” deriva do latim omni, que significa literalmente “todos”, tornando-se dispensável explicar o seu significado. O que chama atenção é o poder que este prefixo romano atribui às palavras, dando-lhes propriedades que vão muito além da nossa imaginação.

Mas, então, de onde surgiram tais ideias? E para que servem?

Por volta de 1780, o jurista e filósofo inglês Jeremy Bentham elaborou uma teoria que, a priori, seria aplicada no sistema prisional, a qual deu a alcunha de panóptico (neologismo que deriva das palavras gregas pan, significando “todos” ou “por todos os lados”, e opticon, que significa “vigiado”, “observado”). Para o pensador, a sensação de estar sendo constantemente observado geraria um controle inigualável sobre o comportamento dos apenados. É importante frisar que os presos não necessariamente estariam sendo observados constantemente, mas era preciso suplantar em seus corações tal receio.

Panóptico

Esta mesma ideia foi, mais tarde, explorada por dois notórios escritores: Aldous Huxley, em seu romance Admirável mundo novo, e George Orwell em 1984. Em ambos os livros, de formas diferentes, o controle excessivo provocado pela vigilância estatal provoca a submissão desmedida e acaba por tornar-se mecanismo de padronização, anulando as individualidades. Para ser justo, é preciso dizer que ambos os livros vão além, como a exploração do controle através da sexualidade, o proposital empobrecimento vernacular e controle mediocrático, como forma de alienação em massa. Todos esses elementos combinados criaria uma sociedade de marionetes biológicas.

Em todos esses exemplos observamos uma similaridade sem precedentes com a ideia civilizatória cristã, apregoada pelo constante medo de estar sendo observado pelo big brother celestial, que nos julgará por cada pequena ação. Através da constante tensão ocasionada pela vigília desta deidade, as autoridades religiosas acabam por assumir uma papel paternalista, de guia espiritual capaz de redimir os pecados espiados por deus.

Há de se convir que tal forma de controle é extremamente eficiente, e o medo da observância é suficiente para que os fiéis se deixem controlar pela ideia panóptica de Bentham. Huxley e Orwell apenas reproduziram em suas obras modelos que já vem sendo explorados há milênios, e com grande sucesso. O Estado (aqui representado pela igreja) controla cada pensamento, dita as verdades e planta medo na população.

E assim como no livro 1984 o personagem O’Brien, representante do Partido, tenta fazer com que Winston afirme, através de torturas, ver quatro dedos onde na verdade existem cinco, os fieis são constantemente atormentados com o medo do inferno, e com o julgamento de suas ações pelo Rex Tremendae [1], tornando-se incapaz de discernir ficção de realidade.

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  1. Referência ao trecho do Requiem católico, no qual constantemente deus é posto como um rei absoluto, que julgará todas as coisas:

Quantus tremor est futurus/Quando judex est venturus/Cuncta stricte discussurus. – Quanto temor haverá então/quando o juiz vier/E julgar rigorosamente todas as coisas.

Lacrimosa dies illa/Qua resurget ex favilla/Judicandus homo reus. – Dia de lágima será aquele/No qual surgidos das cinzas/Os homens serão julgados como réus.

Que o leitor não se assuste com o título deste texto. Eis o que de imediato podemos dizer para quem pense em desistir de lê-lo. Além disso, poderíamos dizer que o intuito destas linhas não é outro senão explic(it)ar o significado de seu título — que ao final terá, como esperamos, sua parcela de sentido.

Comecemos pelo capital: διεντέρευμα, palavra oriunda do grego clássico, foi um neologismo criado pelo escritor grego Aristófanes em uma de suas mais importantes peças teatrais, a saber, As nuvens. Vejamos, antes de prosseguir com nossas considerações, o excerto no qual o termo aparece:

Strepsíades — E o que disse Sócrates sobre os mosquitos?

Discípulo — Ele afirmava que os mosquitos tinham o intestino estreito; ora, o canal sendo assim delgado, o ar passa com força até o rabo; depois, saindo pelo reto apertado, faz o ânus ressoar pela violência do sopro.

Strepsíades — Então o ânus dos mosquitos é uma trombeta! Três vezes feliz é o autor dessa intesti…gação.[1]

Como se nota, o comediógrafo jogou com as palavras para criar o termo “intestigação” partindo-se da reunião de “investigação” (διερευναν) e “intestino” (ἔντερον). Leve-se em consideração o humor presente na passagem acima, posto que o neologismo reflete, simultaneamente, uma alusão à investigação feita a partir do intestino dos mosquitos e, sobretudo, o caráter próprio da conclusão exposta por Strepsíades, qual seja, uma falácia — ou, para sermos poéticos e entrarmos na dança das palavras, uma espécie de flatulência do discurso, um tipo (típico) de fezes ilógicas.

Aristófanes trouxe à baila uma interessante e bem humorada crítica aos sofistas, tendo em Sócrates seu maior expoente. (Vale dizer, para efeito de justiça, que o pai da Filosofia não era, de fato, um sofista; tal interpretação aristofânica teve como ensejo tão somente a necessidade de pilheriar.) O que nos interessa é, no caso, a crítica proveitosa contra tais mestres das distorções retóricas. Mais do que isso: a ameaça desses pseudo-pensadores que não se importam em alcançar a verdade, mas sim em garantir, num debate, a persuasão — geralmente para fins desonestos. Para ser mais claro: “No caso específico de As nuvens, o que fica patente na crítica aos sofistas são os efeitos inesperados decorrentes do reino da palavra, o qual se pretende controlar: tão plástico e escorregadio, quanto traidor e incontrolável. Tudo isso, à revelia das boas intenções dadas por princípio.”[2]

Eis que se percebe o contratempo caso transferirmos, para o mundo atual, o excerto dAs nuvens e a crítica que há na peça como um todo. Passados mais de dois mil anos desde a primeira encenação da comédia aristofânica, o que notamos é um cenário no qual a maioria não sabe nada, mas sabe de tudo — menos, explicite-se, de sua estreiteza intelectual —; a lógica devem saber que a infringem, mas se esqueceram de que o sabem. Apesar dos riscos de generalizações apressadas, de modo geral os religiosos optam por argumentações que parecem assegurar tão somente a inutilidade de uma discussão: para eles, um debate torna-se proveitoso apenas se for possível dissimular, nos argumentos, a deficiência de seus equívocos. Em outras palavras, suas investigações intelectuais não passam de intestigações. E sabemos bem a consequência pragmática disso…

Pode soar estranho comparar o argumento “o ânus dos mosquitos é uma trombeta porque o canal delgado do intestino faz com que o ar ressoe ao sair” com um argumento contemporâneo (por exemplo, “Deus está além de nosso conhecimento” ou “a evidência de que Deus existe provém do que confirmam meus sentimentos”); mas, ao analisarmos mais a fundo, apontaremos com facilidade alguns princípios que ainda constituem o grosso das discussões atuais — ausência de evidência objetiva, falta de consistência lógica e presença de conclusões equivocadas, para citar apenas três.

Não é por acaso que, no século XXI — que nada mais é do que um século ainda VI a.e.c. com, claro, algumas dissimulações e equívocos a mais e melhor tecnologia —, Deus torna-se, a cada dia, uma palavra cada vez mais obscena.

Montagem a partir de RODIN, Auguste. Le penseur. Paris: Musée Rodin, 1902.

Montagem a partir de RODIN, Auguste. Le penseur. Paris: Musée Rodin, 1902.

Talvez a questão ainda persista porque o homem, como o conhecemos em suas circunvoluções, não mudou o bastante; e ainda, diga-se, tem a ilusão babuína de achar que terá sucesso em tapar com esparadrapo um corte extenso na jugular da razão. Lembremo-nos, por fim, da ideia trazida a lume por Michel Foucault, a respeito da loucura na idade clássica — mas que, como se poderá notar, tem sua validade ainda hoje —: “o louco também é detentor da sua verdade, mas essa verdade está oculta e, como ele não consegue alcançá-la, nem decifrá-la, então ele clama desesperadamente para que ela seja, enfim, revelada.”[3]

Sejamos loucos, mas não abusemos.

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Notas

  1. ARISTÓFANES. As nuvens. Trad. Mário da Gama Cury. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1995. l. 167. (o texto, no original, pode ser encontrado no site do Perseus Digital Library.)
  2. RUBIÃO, Laura Lustosa. “A comédia e a ruptura dos semblantes: notas sobre ‘As nuvens’, em Lituraterra”. In: Ágora: Estudos em Teoria Psicanalítica, Vol. 9, Número 2, pp. 261-262. Julho-Dezembro de 2006. Disponível na Internet via WWW. URL: <http://www.scielo.br/pdf/agora/v9n2/a07v9n2.pdf>. Acesso em 12 de dezembro de 2009.
  3. VIEIRA, Priscila Piazentini. “Reflexões sobre A história da loucura, de Michel Foucault”. In: Revista Aulas, Número 3, p. 20. Dezembro/2006-Março/2007. Disponível na Internet via WWW. URL: <http://www.scribd.com/doc/16660368/Foucault-Historia-da-loucura-Artigo>. Acesso em 12 de dezembro de 2009.