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Quando revelamos sermos ateus para alguém de fé, é comum que questionem com expressões de indignação: “como assim, você não acredita em nada?!”. De fato, me falta a fé no sobrenatural e no inexplicável, e para a maioria de nós, é preferível a dúvida do que uma certeza fabricada e sem fundamento. Mas será mesmo que podemos dizer que não acreditamos em nada?

Para isso, me permiti pegar de empréstimo o título outrora utilizado por Bertrand Russell, que sabiamente dizia:

“Eu acredito que quando morrer, irei apodrecer e nada do meu ego sobreviverá. Mas me recuso a tremer de terror diante da minha aniquilação. A felicidade não é menos felicidade porque deve chegar a um fim, nem o pensamento e o amor perdem seu valor porque não são eternos. (…) Se não temessemos a morte, creio que a ideia de imortalidade jamais houvesse surgido. O medo é a base do dogma religioso, assim como de muitas outras coisas na vida humana.”¹

A existência, por si só, traz consigo uma carga de improbabilidade que a torna quase sagrada, sem que seja preciso criarmos fantasias acerca de seres sobrenaturais e universos fantástico post mortem. Como questionava Douglas Adams, “não é o bastante ver que um jardim é bonito sem ter que acreditar também que há fadas escondidas nele?”

Entretanto, a ausência de crença em deus não nos torna diferentes enquanto espécie humana. Nossos erros e acertos são similares. É bem verdade que temos uma postura diferente quanto à busca pelo conhecimento, em contraste com a entrega devota a respostas incoerentes, mas via de regra só se reconhece um ateu quando este expõe a sua descrença. Respiramos, comemos, amamos, desejamos… tudo na mesma intensidade.

Acredita-se que o ateu está condenado à punição de deus (seja ele qual for), por não acreditar. Me parece ser característica elementar dos deuses o egocentrismo ranzinza. Pouco importa se você foi um bom sujeito. Não acredita em deus? Está condenado!

Recentemente meu Estado, Pernambuco, foi atingido por uma terrível enchente que destruiu boa parte dos municípios interioranos. O Brasil inteiro se envolveu em uma bonita campanha para arrecadar doações para as vítimas. Os moradores do meu prédio também ajudaram a arrecadar tais mantimentos, e para sensibilizar ainda mais os seus vizinhos, criaram o slogan “aquele que oferece de bom coração, recebe em dobro de Deus”.

É ai que eu acho que reside a maior diferença entre ateus e religiosos. É preciso que seja ofertada uma recompensa divina para convencer uns aos outros a ajudar seus irmãos necessitados? É nisso que eu acredito. Acredito na ética como forma de estabelecer equilíbrio na sociedade; acredito que um ajudando o outro, estabelece-se uma harmonia e, quando você precisar, saberá que terá com quem contar.

Por fim, terminarei este meu texto com uma citação. Não de um grande filósofo ou cientista, mas de poetas e músicos canadenses da banda Rush, que resumem o meu pensamento:

Eu não tenho fé na fé
Eu não acredito na crença
Você pode me chamar de infiel.
Mas ainda me agarro à esperança
E acredito no amor
Isso é fé suficiente para mim.²

1. RUSSELL, Bertrand. No que acredito. LP&M. São Paulo, 2008.

2. I don’t have faith in faith/I don’t believe in belief/You can call me faithless/I still cling to hope/And I believe in love/And that’s faith enough for me.


Quem é ateu já deve ter ouvido essa pergunta mais de uma vez quando em uma discussão com um crente. Essa frase é derivada do romance Os irmãos Karamazov, uma das obras mais famosas de Fiódor Dostoiévski, e reflete bem o que crentes pensam sobre ateus.

Ateus não creem em Deus, e, se todas as proibições são provenientes deste, não há motivos para não fazermos o que quisermos, incluindo-se aí matar pessoas e, como é citado no livro de Dostoiévski, o canibalismo. Isso poderia até ser verdade em teoria, mas não é na prática.

A primeira evidência deste fato é a proporção de ateus em prisões comparada à população em geral. Em um estudo não oficial, ateus, que nos EUA são entre 8 e 16% da população, nas prisões são apenas 0,21%. Este estudo é controverso pelo fato de a única fonte destes dados ser esta página. Já nesta pesquisa feita em prisões da Inglaterra, a proporção de ateus e agnósticos era de 1% enquanto os ateus são entre 35 e 50% da população. Ainda que a fonte da primeira pesquisa não seja tão confiável, os dados são aparentemente condizentes com o que ocorre na Inglaterra.

Existem várias possibilidades para explicar os números acima, mas, em minha opinião, a mais realista é a de que ateus cometem menos crimes que os religiosos. A pergunta que nos vem é: se tudo é permitido, por que o ateísmo parece inibir a criminalidade?

Primeiro vale observar: tudo é, de fato, permitido? Penso que não. A liberdade de matar pessoas acaba no direito que estas têm em continuar vivas. Numa perspectiva egoísta isso pode parecer não fazer sentido, mas basta pensarmos em uma perspectiva mais ampla: se todos matassem à vontade, as chances de sermos mortos aumentariam. Em última instância, não matar é a melhor maneira de não sermos mortos.

Além disso, e isso pode soar como novidade para alguns crentes, ateus também têm sentimentos. Não somos máquinas de racionalização ambulantes, possuímos família, amores, desilusões, nada diferente de qualquer outra pessoa. A única diferença é que não creditamos nossas felicidades e decepções para o papaizão celestial.

As nossas limitações morais são reflexos da sociedade em que vivemos; para os religiosos, a única fonte de moralidade vem de suas religiões, mas ignoram que, mesmo antes de suas religiões, certos dogmas morais já faziam parte das sociedades antigas e, talvez, essa moralidade seja apenas um reflexo dos nossos instintos de animais sociais.

Já vimos que, mesmo sem deus, nem tudo é permitido. Falta-nos agora entender por que o ateísmo parece inibir a criminalidade.

Parece-me, neste caso, que há uma confusão de causa com consequência. O ateísmo não é causa da queda da criminalidade, afinal, a falta de deus seria um motivo a menos a ser considerado diante da possibilidade em se cometer um crime. É mais plausível que haja uma causa comum para o aumento do ateísmo e a queda na criminalidade.

Mais uma vez, a educação se mostra como a melhor explicação para ambos os casos.

A educação permite que tenhamos contato com melhores explicações para diversas questões que a religião não responde satisfatoriamente. Ao mesmo tempo que nos permite encontrar maneiras menos violentas de resolver conflitos que poderiam terminar criminosamente.

Termino o artigo com uma frase bastante famosa atribuída a Einstein:

“Se as pessoas são boas só por temerem o castigo e almejarem uma recompensa, então realmente somos um grupo muito desprezível.”

Sugestão de leitura: Os irmãos Karamazov – Capítulo: O Grande Inquisidor

III

Há alguma diferença entre um homem ateu e outro religioso? Sim, a diferença é que um deles está certo; o outro só acredita nisso. Isso o torna superior ao religioso? Do ponto de vista do conhecimento, sim. Mas, do ponto de vista da realidade, não. Isso porque estar certo nem sempre é o mais importante em nossas vidas, pois nós nos guiamos por regras que dizem respeito a coisas como leis, interesses e genes, não à realidade em si mesma. Ser ateu pode ser importante do ponto de vista do conhecimento, mas, do ponto de vista da condição humana, estar certo é frequentemente irrelevante. Manter nossas barrigas cheias e nossos corpos aquecidos é sempre mais urgente que estar certo. Portanto, se adotarmos uma perspectiva ampla o bastante, perceberemos que o valor do conhecimento teórico está subordinado à performance prática, significando que a teoria ocupa uma posição relativamente marginal em nossas vidas.

Com exceção de alguns poucos afortunados, praticamente ninguém recebe uma educação realista. Em regra, chegamos da infância equivocados sobre quase tudo, alicerçados em fantasias e preconceitos, tentando aplicar à realidade conceitos que não correspondem a nada, e o resultado disso é sofrimento; sofremos como ignorantes, e isso não é nada mais que isto: sofrimento de ignorantes. Nessa situação, ou aceitamos que estamos errados, e tomamos a iniciativa de nos educarmos para a realidade, ou passamos o resto da vida sonhando, como praticamente todos fazem. Evidentemente, só conseguimos perceber o valor da educação quando estar certo torna-se um interesse pessoal — e, sim, é disso que nasce o ateísmo. Logicamente não podemos esperar que um indivíduo incapaz de perceber o valor da educação seja capaz de reconhecer o valor do ateísmo. Mesmo porque, em circunstâncias normais, o ateísmo surge não como um elemento central, não como uma ideologia, não como algo que se defende, mas como um efeito colateral, como um detalhe dentro de um grande projeto de reeducação que empreendemos para melhorar a qualidade de nossas vidas pessoais por meio do conhecimento.

Desse modo, ser ateu não é apenas uma questão de intelectualidade, mas também reflexo de maturidade emocional — noutras palavras, reflexo de termos nos tornado adultos, tomando a vida em nossas próprias mãos, não mais dependendo de um líder protetor para nos dizer o que a realidade é ou para nos confortar diante dos perigos da vida. Tornar-se adulto envolve a capacidade de reconhecer o valor da educação por si só, a capacidade de tornar-se um autodidata num mundo no qual não há professores, e isso só pode significar que a religiosidade, por contraste, envolve uma espécie de infantilidade emocional, na qual ainda tentamos nos relacionar com a ideia abstrata de um pai da realidade — e tenhamos o cuidado de observar que isso não deve ser entendido como um insulto, mas como uma descrição bastante apropriada do comportamento religioso. Na verdade, do ponto de vista emocional, a maioria dos homens jamais supera seus primeiros anos de adolescência — ficamos parados no tempo. Em geral passamos à vida adulta — isto é, independente — apenas do ponto de vista financeiro, mas, emocionalmente, permanecemos dependentes e infantis, coisa que se manifesta como religiosidade, revelando uma profunda carência afetiva. Podemos então dizer, e com toda a justiça, que a religiosidade reflete uma mentalidade infantil, mas não necessariamente uma inteligência infantil — por isso é tão comum que, numa só cabeça, ao lado de uma elevada inteligência, haja também uma lamentável infantilidade emocional. Ser ateu, portanto, é um sinal de maturidade, não de superioridade. Mesmo assim, há uma clara relação entre ateísmo e educação. Isso porque, se não tivermos recebido uma educação realista, será bastante difícil dar esse passo à vida adulta. Despreparados, o mundo nos assusta, pois não se comporta como nos foi ensinado, sendo nossa reação mais natural negá-lo e permanecer abraçados aos nossos preconceitos. Desnecessário dizer que indivíduos incapazes de dar esse passo constituem o público-alvo da religião, que lhes oferece o abrigo que não conseguem dar a si próprios.

Assim, excetuando-se o lamentável fato de nos julgarmos dignos de inveja por sabermos mais do mundo que crianças, o fato é que estamos virtualmente certos naquilo que pensamos. Somos ateus porque deus não existe. Sabemos que estamos certos. Temos provas. Mas e daí? Isso só importa para nós. Para crianças, brincar é mais importante que saber — e não podemos esperar que reconheçam o valor da maturidade; mas, por outro lado, está dentro de nossas capacidades reconhecer a diversão da brincadeira deles, ainda que não gostemos de brincá-la. Não há nada de errado em estar errado quando o objetivo é divertir-se; as regras da brincadeira são diferentes das do conhecimento, feitas para maximizar a diversão. Ser maduros é um favor que fazemos a nós mesmos, e isso é algo que não se pode compartilhar com crianças — fato este que só compreenderemos desde o início se tivermos nos tornado ateus pelos motivos certos, e não por mera revolta. Nesse sentindo, a militância ateia envolvida em tornar toda a sociedade descrente — como se isso fosse nos trazer qualquer benefício — revela uma visão bastante tacanha, incapaz de reconhecer que, muito antes de tornar-se ateia, uma pessoa já deveria ter se tornado adulta, ou a coisa toda não passará de lavagem cerebral às avessas. Para nossos fins, isso encerra a discussão. Se ser criança é melhor que ser adulto, isso já é outra questão — e não cabe a nós avaliar a vida dos pequeninos sob o nosso ponto de vista. Brincadeiras são insípidas para adultos; maturidade não vale nada para crianças. Alguns homens nunca crescem; tudo bem. Não vamos culpá-los por isso, mas também não vamos considerá-los.

 

FREUD, Sigmund. O futuro de uma ilusão. Rio de Janeiro: Imago, 1974.

SCHOPENHAUER, Arthur. Parerga and Paralipomena. Vol. 2. Oxford: Clarendon, 1974.

 

II

Receber uma boa educação é uma bênção. Mesmo assim, não devemos entender a educação como capaz de mudar o mundo, mas apenas como necessária para conseguirmos lidar com a realidade de forma eficiente. Uma boa educação pode diminuir o sofrimento causado pela ignorância, mas evidentemente não mudará nossa condição básica de existência, que é ser humanos — e tudo o que isso implica, algo que a educação, por si só, jamais mudará. Tentemos exemplificar o que queremos dizer. Em geral, intelectuais pensam que o problema do mundo é a falta de reflexão; pobres pensam que é a falta de dinheiro; ricos pensam que é o excesso de pobres; religiosos que é a falta de fé; ateus que é o excesso de fé. Que padrão podemos encontrar nisso? Seus umbigos. Todos querem que o mundo os reflita, e é evidente que isso não vai melhorar nada. São apenas sonhos narcisistas que cultivamos por razões míopes. No fundo, nós os cultivamos por sabermos que eles nunca vão se realizar e, mesmo se se realizassem, também não há quaisquer motivos concretos para acreditar que os resultados seriam os que esperamos. Sonhar pode ser agradável, mas não podemos realmente acreditar que a humanidade toda se comportaria segundo nossas crenças pessoais idealizadas e intangíveis apenas por ter recebido uma boa educação; isso é tolice. Ora, quem consegue acreditar que, apenas porque foram bem educados, os homens deixariam de matar, roubar e mentir? Se até indivíduos educados fazem tais coisas, por que deveríamos propor a educação como uma forma de resolvê-las? Isso não faz sentido. Depois de educados, os homens se tornarão educados; mais nada.

Também não confundamos educação com doutrinação. Tornar-se cristão não é educação; gostar de futebol não é educação. Educação envolve apenas aprender, não tomar partido. O papel da educação é apenas nos familiarizar com o mundo, não corrigir aquilo que consideramos gafes morais de nossa natureza. Utilizemos a injustiça para exemplificar uma dessas gafes. Faz sentido educar um indivíduo na suposição de que isso o tornará mais justo? Não. Educá-lo o tornará mais instruído, não mais justo. Se a instrução o permite entender as sutis razões pelas quais deve ser justo, tudo bem, mas isso não é uma consequência necessária, pois ele poderia muito bem, a partir dessa mesma educação, concluir que é melhor ser injusto, e levar isso adiante. Se não gostamos dessa ideia, é simplesmente porque ela nos assusta. Diante disso, para satisfazer nossa necessidade de segurança, fazemos o possível para manter essa liberdade educacional pelo menos um pouco circunscrita por preconceitos morais. Assim, em vez de valorizarmos a educação diretamente, passamos a valorizar as virtudes às quais ela supostamente conduz, ignorando o fato de que essas virtudes nada mais são que ideais morais insípidos nascidos de perfeccionismos metafísicos de teólogos desocupados — ideais que nunca vimos ser levados à prática perfeita que acalentam em nenhum tempo, em nenhum lugar. Paremos de sonhar. A educação só é valorizada porque a utilizamos indiretamente para nos proporcionar segurança. A função original desses ideais aos quais ela se subordina é apenas justificar a lavagem cerebral que aplicamos em todos os que nascem ao nosso redor. Conseguimos, agora, perceber que esses ideais não apontam para nada tangível. O verdadeiro ser humano é aquilo que vemos no nosso dia a dia, aquilo que acompanhamos ao longo da história, não aquilo que, em nossos sonhos otimistas, fantasiamos que seremos num inespecífico futuro tornado próspero por alguma graça misteriosa da educação.

Mesmo assim, indivíduos esclarecidos são constantes vítimas da ilusão de que, se todos fossem educados, o mundo seria melhor, mas não seria, assim como não seria melhor se todos fossem ricos. Por que não? Porque, se todos fossem ricos, nossos problemas seriam outros — e seriam igualmente aflitivos. Se duvidamos, imaginemos que a humanidade inteira, num passe de mágica, se tornou dez vezes mais rica que o homem mais rico da atualidade, seja ele quem for — uma riqueza incluindo não apenas dinheiro, mas também condições de vida, status social etc. Isso nos daria a sensação de que vivemos num mundo melhor? Apenas por contraste; em si mesmo, não. Para ver a prova disso, basta nos perguntarmos: temos a sensação de que vivemos num mundo melhor porque sabemos controlar o fogo? Não. Talvez os homens da idade da pedra tenham sonhado com o dia em que todos conseguiriam controlar o fogo quando bem entendessem, na suposição de que, quando conseguissem, todos passariam a ser irmãos. Mas tais coisas nunca acontecem, e com o exemplo acima fica mais fácil entender o porquê. A irmandade não se segue do fogo, assim como a justiça não se segue da instrução.

Então, mesmo que alcançássemos um ponto x qualquer estabelecido arbitrariamente como o objetivo de nossas investidas educacionais, isso não nos daria a satisfação que esperamos, pois nossa insatisfação é adaptativa. Significando que, seja qual for nossa condição, ela nos parecerá insatisfatória, e lutar para melhorá-la apenas nos dará uma satisfação temporária, a qual logo será suplantada pela insatisfação diante de outra insignificância qualquer. Isso não é uma escolha, não é algo que a educação, ou que a religiosidade, ou a falta dela, vai mudar; isso é nossa natureza. Tais fatos talvez contrariem nossas crenças pessoais, mas tenhamos o cuidado de observar quão bem eles descrevem nossas vidas práticas. A insatisfação é nossa condição básica de existência; é o que nos move, mesmo que em círculos. Desse modo, se todos fossem educados, se todos fossem ateus, se todos fossem ricos, se todos fossem religiosos, se todos fossem socialistas, para nossos fins, daria no mesmo. Continuaríamos tão insatisfeitos quanto estamos agora, mesmo que nossa situação fosse mil vezes melhor. Considerando que, ao lado de homens da Idade da Pedra, somos praticamente bilionários obesos e metidos a besta, já deveríamos ter parado de lamuriar há pelo menos um século. Mas não vamos parar de reclamar. Nunca. Por mais que tudo melhore, sempre nos acompanhará o sentimento de que deveria ser melhor.

Como se percebe, a educação não é um substituto para o caos e para a brutalidade que move a vida; é apenas um refinamento dessa mesma brutalidade — na forma de um pacote de informações por meio do qual podemos nos tornar mais competitivos por entendermos o mundo em que estamos. Evidentemente, entender o comportamento do ambiente não mudará as regras do jogo, só nos dará melhores chances de vencê-lo. Por isso, se todos fossem educados, parece que a única consequência razoavelmente previsível seria o mundo tornar-se ainda mais competitivo. Similarmente, se fôssemos todos ateus, em vez de deus, apenas usaríamos outro pretexto qualquer para justificar nossas demências.

 

I

A maioria de nós pensa na religião como uma infantilidade, porém sem entender como se pode chegar a essa conclusão legitimamente. Em geral, apenas ouvimos tal afirmação da boca de algum pensador célebre e nos limitamos a repeti-la como papagaios. Deixando de lado o quanto isso é lamentável, e na suposição de que fazer nosso dever de casa é uma boa coisa, tentemos entender esse raciocínio desde o início.

Como religião é um assunto viciado, sobre o qual pensar com independência tornou-se praticamente impossível, comecemos com um paralelo que exemplifica o que é acreditar em algo que não possui realidade por detrás. Por exemplo, imaginemos que acreditássemos haver algum tipo de vínculo místico entre comida e sexo; e que um dia, quando encontrássemos a comida certa, teríamos orgasmos. Fazer sexo quando se quer ter orgasmos é coisa de indivíduos materialistas. O caminho dos puros é a alimentação. Qual seria o resultado dessa crença? Passaríamos a vida toda frustrados, esperando encontrar algo que não existe. É mais ou menos assim com todas as nossas ilusões, e dentro disso as religiosas são apenas um detalhe. Acreditamos em certas coisas para as quais a realidade não nos dá evidência alguma, e ficamos esperando que a própria realidade mude para satisfazer as ideias erradas que adquirimos na infância. Por que isso ocorre?

Porque o homem é um animal que aprende. Aprende verdades e mentiras também. Devido ao modo como nosso cérebro se forma, aquilo que se aprende na infância jamais nos abandona, esteja certo ou não. Isso significa que estamos condenados à educação que recebemos na infância; ela faz quem somos. Então, depois de educados — coisa que normalmente significa ser treinados a crer nisto e zombar daquilo —, as cartas estão dadas, e só nos cabe jogar; nunca mais mudaremos em qualquer sentido significante. Teremos esse x cravado em nós, e seremos para sempre algo que tem esse x como centro. Como se diz, as pessoas não mudam, e esse é em grande parte o porquê. Se tentarmos mudar, passaremos no máximo a ser um x um pouco diferente — como um que esconde uma de suas pernas para se parecer com um y. Desse modo, estamos livres para abraçar ou combater essas ideias que recebemos na infância, para tentar adaptá-las ou sofisticá-las, mas elas nunca nos abandonarão. Nunca. Elas se arraigam tão profundamente em nossas vidas que se confundem com instintos.

Isso nos permite perceber como é crucial a qualidade da informação que se recebe nessa fase da vida — na qual, diga-se, nada do que aprendemos é nossa escolha. Nosso cérebro está mais preparado para aprender exatamente na fase em que estamos menos preparados para pensar. Um fato bastante preocupante. Isso seria o equivalente a nascer sexualmente ativo e sem a possibilidade de dizer não — a diferença é que estupramos o cérebro das crianças com nossos preconceitos, os quais marcarão para sempre suas personalidades adultas. Em geral, vendo cérebros ávidos à sua disposição, adultos preferem usá-los para perpetuar seus preconceitos inúteis em vez de ensiná-los um pouco sobre a vida que lhes deram ou sobre a realidade na qual os colocaram. Pois bem, qual é o resultado de educar crianças com opiniões falsas sobre o mundo numa época em que jamais conseguirão se livrar daquilo que colocarmos em suas mentes? O mesmo que misturar água e óleo, e aquecê-lo — para sempre. Uma vida para sempre dividida entre a realidade que vemos e as mentiras que amamos.

Educados desse modo, atravessamos a existência imersos em conflitos e confusão, sem perceber que todos os problemas estão dentro de nós mesmos, os quais nascem de nossa maneira incorrigivelmente distorcida de enxergar os fatos, e o mais doloroso é perceber que isso nos foi inculcado por aqueles que mais amamos, com a melhor das intenções. Claro que não cabe a nós decidir como devem ser educadas as crianças de outrem; contudo, abarrotar mentes infantis de ideias estúpidas não significa educá-las, mas apenas traumatizá-las. Não há como desculpar esse tipo de negligência com lero-leros sobre amor paterno. Aprender erros nessa fase da vida significa que, pelo resto de seus dias, seu raciocínio pisará em falso. Foi educada com ideias que não correspondem a nada — como alguém que se apaixona por uma pessoa que nunca existiu. Nessa situação, ela não consegue encontrar essa pessoa, sabe inclusive que ela não existe, mas mesmo assim continua amando-a e buscando-a, e sofrendo por nunca encontrá-la. Fazer isso com crianças seria simplesmente maldade, não fosse o fato de que os pais não têm a menor consciência disso; são vítimas de si mesmos, assim como seus filhos, levando a ignorância adiante.

 

O Brasil é um país em crise de identidade religiosa. Desde 1890, com o Decreto 119-A, adotou-se a separação entre Igreja e Estado; entretanto, ambos os séquitos sempre andaram de mãos dadas, numa íntima relação. O Brasil ostenta o título de Estado laico[1], todavia assinou no ano de 2008 uma polêmica concordata, que trata da adoção da doutrina religiosa católica nas escolas públicas nacionais (em comum acordo com o ditame do art. 210 CF/88).

Quando falo de concordatas, não me refiro ao instituto do Direito Falimentar, mas ao nome que é dado ao acordo internacional celebrado entre um Estado Nacional e o Vaticano, representante máximo da igreja católica. O privilégio à igreja católica não é novidade. Um exemplo clássico é a instituição do Laudêmio — cobrança arcaica e anacrônica devida à Marinha, à Igreja ou à Família real, presente até hoje em algumas capitais — a qual carece de razão de ser.

Órgãos públicos estão infestados de símbolos e dizeres cristãos. Lembro-me bem de quando pisei pela primeira vez na Justiça Federal e me deparei com o modelo de capa de processo adotado até meados do ano de 2002, que dizia “No corrente ano de ___ após o nascimento do nosso Senhor Jesus Cristo, na comarca de…”. Então o Brasil não é um país laico, religiosamente independente e desvinculado de todo clero? Apenas nas nossas aspirações e nos discursos demagógicos.

Ilude-se quem imagina haver um favorecimento exclusivo à Igreja Católica. Paira sobre o país um evidente receio de penetrar o cerne religioso. Não se questiona, não se debate; se impõe! O artigo 150, III, b da Carta Magna estabelece expressa proibição de tributação de templos de qualquer entidade religiosa. Isso significa que o considerável montante gerado pelos dízimos — muitas vezes retirado de pessoas que mal tem condições de arcar com as próprias despesas — não é tributado, mas incorporado em sua totalidade, seu valor bruto, ao patrimônio da igreja, sinagoga, mesquita, terreiro, etc.

Não observamos, entretanto, isenção de impostos a instituições de ensino de modo geral – estas sim apresentam relevância social — grupos de incentivo à educação e ao aprendizado científico. A carga de impostos que repousa sobre escolas de ensino médio, por exemplo, muitas vezes impossibilitam o seu exercício. Qualquer um que declarasse abertamente – verbi gratia – que o Holocausto não ocorreu, seria imediatamente rechaçado e inquirido por provas. Por que a repulsa, quase natural, presente em toda declaração infundada e absurda como esta não se estende à religião?

Por que ainda achamos normal pessoas afirmarem que a Teoria da Evolução – em detrimento dos inúmeros suportes científicos existentes — não ocorreu, mas sim um deus onipotente criou tudo o que existe em sete dias, ao invés de contraditar tais argumentações, como faríamos normalmente no primeiro exemplo?

Observa-se em nosso país determinações judiciais esdrúxulas, como a ordem de alteração da data do Exame Nacional de Ensino Médio (ENEM) previsto para o dia 5 e 6 de dezembro, pois tal data compreenderia um sábado (shabat, dia sagrado para o judaísmo, no qual entregam-se à orações e ao ócio). Os mesmos judeus que — com apoio do Estado — a fim de minimizar a sensibilidade peniana, circuncidam seus neonatos para atender a preceitos morais retrógrados, que não podem mais ser suportados pelo Estado.

Até quando incentivaremos a apologia aberta e a utilização indiscriminada de substâncias alucinógenas em nome da liberdade religiosa, como ocorre com o “Santo Daime” — ou União do Vegetal, como também é conhecida — ou permitir a recusa de Testemunhas de Jeová a receber transfusão de sangue, fruto de uma imatura interpretação exegética da bíblia, ou até mesmo a vexatória discriminação de homossexuais pelas seitas protestantes?

Advogo em favor da liberdade de consciência e da manifestação religiosa, mas dar suporte à ignorância é algo temerário. Sou forçado a questionar se existe equidade no tratamento dado aos religiosos e não religiosos. Até quando vamos patrocinar a institucionalização de uma estupidez secular, que nada acrescenta à vida moderna? Aqueles que não se afiliam a qualquer doutrina religiosa, sejam deístas, agnósticos ou ateus, recebem por parte do Estado o mesmo tratamento dado aos não religiosos?

A ciência não é a única forma de se ver o mundo. A importância da diversidade e das relações de alteridade em cada sociedade são fontes de enriquecimento cultural e garante a pluralidade de visões. Não defendo a antirreligiosidade, mas a igualdade de tratamento, inclusive para a visão de mundo não ausente de doutrinação religiosa. A abusiva imposição paternal de memes religiosos implica grave tolhimento da liberdade de escolha religiosa, que abrange inclusive a irreligiosidade.

O ateu sempre foi obrigado a respeitar e a acolher o pensamento cristão, pois conhece a fragilidade humana e a sua necessidade por buscas de respostas para o inexplicável, mesmo que isso consista em ilusões fantásticas. Não observamos, todavia, este mesmo respeito para com o ateísmo, e o imaginário religioso não hesita em nos condenar às chamas do inferno.

Estamos longe de honrar com os deveres de um Estado laico, e enquanto houver acordos diretos entre o Estado maior e o Vaticano, de cunho estritamente religioso e impositivo, de forma explicitamente arbitrária e antidemocrática, se mostra ofensivo nos considerarmos um país leigo. Ainda não nos libertamos das amarras da igreja católica, e a população parece temer nova inquisição.

Bem sei que não podemos dar passos maiores que as pernas, e tampouco é possível correr, se ainda nem aprendemos a andar. Mas é preciso abandonar a desídia intelectual, os preconceitos medíocres e o comodismo moral. Faz-se mister nos livrarmos das respostas extraordinárias e axiomáticas, e da injustificada subordinação a instituições que, por força da Carta Magna do país, não deveriam exercer qualquer forma de poder dentro do Estado.

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[1] Houaiss 2009:
adjetivo e substantivo masculino
1 que ou aquele que não pertence ao clero nem a uma ordem religiosa; leigo
2 que ou aquele que é hostil à influência, ao controle da Igreja e do clero sobre a vida intelectual e moral, sobre as instituições e os serviços públicos
adjetivo
3 que é independente em face do clero e da Igreja, e, em sentido mais amplo, de toda confissão religiosa

É muito comum ouvirmos a frase “A ciência é a religião dos ateus” quando em uma discussão com religiosos. Menos comum é ouvir algo parecido de ateus, ateus mal-informados, é verdade, mas ainda assim ateus.

Muitas vezes me pergunto se essa é uma injustiça maior com as religiões ou com a ciência, não que eu tenha algum respeito especial pelas religiões, porém, as ciências são sustentadas por um estado constante de dúvida, o que é o extremo oposto do que pregam as religiões e a certeza da fé que professam.

Os ateus não são homogêneos, é muito difícil imputar-lhes características baseando-se apenas no fato de serem ateus. Ateus não são necessariamente céticos, mas seriam os céticos necessariamente ateus?

Um cético, só poderia ser teísta caso houvesse evidências de que algum deus existe. Como é altamente improvável que existam tais evidências, um cético só poderia ser ateu. Existem, porém, aquelas pessoas que afirmam que o mundo é a maior evidência da existência de deus, e o mundo com sua complexidade e fascinante beleza seria prova suficiente para convencer qualquer cético. Segundo a Navalha de Ockham, a explicação mais simples para um dado evento tende a ser a correta e, de fato, deus parece ser de longe a explicação mais simples, pelo menos em uma perspectiva antropocêntrica e superficial. É neste ponto que entra a Ciência.

A ciência, através da observação, indução e experimentação, foi capaz de dar-nos uma explicação muito mais eficiente, abrangente e elegante para a complexidade do mundo. Já sabemos como se formou o universo, as estrelas, o planeta Terra e a vida; sabemos de onde vêm as chuvas, raios, bebês e presentes de natal. Uma vez que deuses sempre foram utilizados para explicar aquilo que não compreendíamos, a necessidade e importância deles para explicar cada um desses esses eventos diminuiu até se tornar insignificante.

Quando carecíamos de boas respostas para estas perguntas, mesmo a mais cética das pessoas não tinha dificuldades em assumir um criador para respondê-las, isso talvez explique o porquê das mais brilhantes mentes do passado como Newton, Descartes e Copérnico terem sido crentes tão devotos; porém hoje, mais de 90% dos membros da Academia de Ciências dos EUA não creem em deus [1].

A ciência mostra-se, portanto, como um componente chave para entendermos o mundo sem necessariamente dependermos de um criador.

A questão que permanece é: Por que, em um mundo tão tecnologicamente avançado como o nosso, ainda existem pessoas que acreditam que o mundo foi criado em sete dias?

O Brasil, segundo avaliação da OCDE, figura entre os países com pior desempenho no ensino de Ciências. Na avaliação com 57 países, o Brasil ficou em 52o lugar. Em primeiro lugar ficou a Finlândia, que, talvez não por coincidência, figura entre os primeiros no ranking de países com o maior número de ateus. Será que isso responde à pergunta?

Referências:

  1. Nature, Vol. 394, No. 6691, p. 313 (1998) © Macmillan Publishers Ltd.