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Já foi dito aqui, muitas vezes, que um ateu não crê que deus não existe. Ou ao menos não que isso seja necessário para caracterizá-lo como ateu. Muitos não-ateus gostam de lembrar que os ateus também creem em alguma coisa, como se crer fosse uma atividade proibida ao grupo. Obviamente, nada impede um ateu de crer em algo que não seja um deus. Não falo aqui das crenças mais ordinárias, como acreditar que tem que estar no trabalho daqui a meia hora ou acreditar que o Brasil é banhado pelo oceano Atlântico. Darei um exemplo de uma crença muito comum entre nós, ateus, seguindo a definição mais restrita de “crença” com a qual denotamos a crença dos, vejam só, crentes.

A crença no livre-arbítrio. A crença no livre-arbítrio talvez não esteja no mesmo patamar da crença de que Jesus nasceu de uma virgem, mas está lado-a-lado com a crença na vida eterna. Não é uma crença tão ingênua quanto a virgindade de uma mãe; no entanto, com certeza é muito esperançosa. Eu acredito, ou tento acreditar, mas o meu lado cético – que está preocupado em acreditar no que é real – briga com o meu lado esperançoso – que procura acreditar no que agrada – e minha crença não fica muito definida. Óbvio que, quando me refiro a ateus, é apenas uma parcela que acredita em livre-arbítrio.

Fala-se de maneira muito leviana no livre-arbítrio, de maneira ainda mais leviana sobre “liberdade” (eu gostaria muito que os norte-americanos me explicassem que “liberdade” é aquela pela qual eles lutam; nunca entendi direito). Adianto que é um assunto “levemente pesado”, se me permitem a contradição. Já falei sobre morte, defendi que deuses não existem (ou que não é lógico acreditar neles, vale esclarecer), mas falar sobre liberdade é mais pesado. Esclarecendo, falo de “liberdade” nesse texto como sinônimo de livre-arbítrio, até porque, se o livre-arbítrio não existe, então não existe qualquer forma de liberdade. Pensar que não somos livres para escolher, para desejar, é mais incômodo do que pensar que deixaremos de existir ou que não há deus. Na verdade, perto do livre-arbítrio, questões como “deus” e “morte” parecem até brincadeira de criança.  Provavelmente não existe deus algum nos protegedo nem garantia de vida após a morte, mas  o que importa é que vivemos e que, acredita-se, ajudamos a construir um mundo melhor. Desacreditar no livre-arbítrio implica acreditar em uma existência pela qual somos meros espectadores, passivamente gostando ou odiando os eventos que se sucedem.

Pegarei um exemplo banal para ilustrar o problema. Imaginemos que você vai a uma loja e deve escolher uma entre duas camisetas. Uma delas é amarela e a outra é azul. Você escolhe a azul. Ponto. Então você sai pela rua com uma camiseta azul, satisfeito com ela, imaginando que sua escolha foi boa. Tudo muito tranquilo até agora. Então você se lembra que, dias atrás, alguém te disse que a cor azul estava na moda. Veja como isso desvaloriza a sua decisão! No fim, o que te levou a escolher a camiseta azul foi apenas uma sugestão fútil sobre tendências da moda. Você imediatamente se sente uma ovelha em seu rebanho, uma ovelha vestindo uma camiseta azul. Talvez quem te disse sobre a moda da cor azul estava se beneficiando com o estouro de vendas de camisetas azuis. Então, só para se rebelar, você decide que talvez seja melhor comprar uma camiseta amarela e dar um “não” às tendências da moda e um “sim” à livre-escolha. Mas daí você se lembra que existe algo chamado “psicologia reversa” e que talvez a intenção era justamente a de fazer você comprar uma camiseta amarela. Como um pato, você caiu e começa a pensar se um pato de camiseta amarela é tão melhor assim que uma ovelha de azul. De um modo ou de outro, a sua escolha foi determinada pela alegação de que a cor azul está na moda.

Podemos supor que ninguém nunca te sugeriu nada e você comprou uma camiseta azul por achá-la mais bonita. Mas e por que você a acha mais bonita? Por que o azul te lembra a paz? Vai ver ele te lembra a paz pois é a cor de um céu limpo, ou porque lembra o mar, praia, férias. Nesse caso, a sua escolha não foi determinada por um interesseiro; foi determinada pela lembrança do mar e do céu que algum dia lhe represetaram paz. Fato é que ela não foi determinada por você e sim pelo que aconteceu em seu passado. Nossas escolhas não nascem espontaneamente no momento em que a realizamos; elas são consequências da carga de experiências que tivemos desde que nascemos.

Tudo fica muito mais leve quando falamos de camisetas e cores. Mas é claro que a questão se estende bem além disso. Aprendemos a ter orgulho de nossas escolhas, como a escolha da faculdade certa ou da esposa certa (ou do marido certo). Fazemos escolhas que consideramos erradas e ficamos imaginando como seríamos mais felizes se tivéssemos seguido um caminho diferente. Sem o livre-arbítrio, esses orgulhos e divagações são infundados. Como folhas boiando em um rio, onde nós somos as folhas e o rio é o meio em que vivemos, podemos ir parar em um lago limpo ou em um esgoto, mas não faz sentido se orgulhar por um ou se lamentar pelo outro. Uma existência sem deus ou sem vida eterna ainda é recheada de méritos, de glórias. Sem livre-arbítrio essas coisas se perdem. Termino o meu segundo texto sobre “morte” falando sobre a importância de deixar um bom legado. Digo naquele parágrafo que o legado é a eternidade concretizada pelos atos. Mas que coisa vazia seria se os seus atos não fossem escolhas suas e sim meras consequências inevitáveis. Darwin termina sua obra-prima dizendo “Há grandeza nessa visão da vida”, se referindo à crença de que todas as formas de vida surgiram de apenas uma, muito mais simples. E ele estava certo: há muita grandeza mesmo nessa visão da vida. Há grandeza na visão de um ateu também, não tenham dúvida, de uma vida sem deuses, uma vida que é bonita por si só. Existe igual grandeza em uma vida que tem um início e um fim, que deve ser aproveitada. Mas não, não há grandeza alguma sem livre-arbítrio.

Imaginem que hoje à noite uma pessoa vai bater na sua casa e lhe trazer uma notícia. Essa pessoa veio do futuro e viu tudo. Veio lhe dizer que a sua vida será medíocre e que você não chegou nem perto de realizar algum sonho seu. Pois bem, como não existe livre-arbítrio, a sua vida realmente será medíocre; quando confrontado com a opção de seguir uma via mais laboriosa e arriscada, você inevitavelmente negará em prol de uma mais confortável. Mas, se o livre-arbítrio existe, a mensagem dessa pessoa (muito importuna, por sinal) será apenas um incentivo para você ser um grande homem ou uma grande mulher. Isso demonstra de maneira mais clara o quão a descrença no livre-arbítrio é pior do que a descrença em deus ou na vida eterna. Tão pior que, pela primeira vez, eu espero sinceramente que alguém refute o meu texto com muita categoria, para que eu possa dormir tranquilo acreditando mais convictamente na liberdade de escolher.

Bom, para terminar, sem livre-arbítrio a vida é comparável a uma montanha russa. Na montanha russa, estamos presos em carrinhos que percorrem subidas e decidas. Como na nossa vida sem liberdade, as subidas e decidas não dependem de nossas escolhas e nossas emoções são determinadas em uma interação passiva na qual você apenas sente as consequências. Bom, termina o percurso da montanha russa, cheia de subidas, descidas, loopings e parafusos – todos eles lhe causaram uma gama de emoções diferentes. Medo, felicidade, alívio ou até mesmo enjoo. Não faria mesmo sentido se te descem parabéns por ter estado no ponto mais alto da montanha russa ou te consolassem por ter passado pelo mais baixo. Ninguém te perguntaria como você fez para dar todos aqueles loopings e ninguém dedicaria uma página na Wikipédia sobre “o parafuso que você deu naquela montanha russa”. Fazemos coisas semelhantes na vida real, como parabenizar e consolar, considerando os sucessos assim como os fracassos, e a analogia com a montanha russa mostra que essas atitudes não fazem tanto sentido assim. Mas talvez uma, e apenas uma pergunta seria relevante, tanto na vida como na montanha russa:

“O passeio estava bom?”

“Por que tantos tementes a deus?” Essa é uma pergunta muito boa. Nós, ateus, gostamos de debater sobre o assunto e expor nossas conclusões. Debatemos usando argumentos contra a existência de deus(es) e, principalmente, por que não é racionalmente aceitável acreditar em algum. Mas existe um fato que aparentemente derruba todas as nossas tentativas: existe uma boa quantidade de tementes a deus, deuses ou demais entidades sobrenaturais. Diante do fato de que a vasta maioria da humanidade acredita em deus ou deuses, nosso arsenal de argumentos parece quixotesco.

A resposta padrão de muitos ateus a essa questão é: os motivos racionais são poucos ou nenhum, mas os emocionais são muitos e são fortes. Eu me uso dessa resposta, pois realmente acho, depois de anos debatendo com teístas, que os motivos que levam à crença no sobrenatural são majoritariamente de caráter emocional. Uma boa porção deles insiste em dizer que não, possuem argumentos na ponta da língua, mas estão apenas querendo se enganar e, cedo ou tarde, acabam expressando que são, de fato, levados pela emoção.

Novamente, meu intuito não é rebater esses argumentos. Se algum teísta considerar que estou errado, sinta-se à vontade para postar seus argumentos nos comentários de nossos textos. Quero discutir o que seria essa tão falada motivação emocional. Ir além de simplesmente taxar a crença alheia como mera emoção e dar nome aos bois.

Bom, comecemos por um conceito muito desejado por nós: justiça. Queremos que os usurpadores paguem pelos seus atos e que os altruístas sejam recompensados. Tentamos fazer isso dentro de nossa sociedade com nossas próprias mãos, criando prisões e castigos para os primeiros, assim como honras e presentes para os últimos. Porém, reconhecemos nossas limitações e ansiamos por uma força promotora de justiça mais plena. Essa justiça tem que vir de algo maior que nós, mais poderoso e incorruptível. Esse “algo” normalmente é chamado de “Deus”.

Depois temos a curiosidade. A ambição citada no parágrafo anterior reflete uma característica marcante de nossa espécie, que é a vida em sociedade. O desejo de adquirir conhecimento amplo e seguro advém de outro aspecto nosso, que é a vontade de aprender. Dentro de uma sociedade majoritariamente cristã, é comum ouvir de muitos cristãos que o conteúdo da bíblia é uma verdade absoluta e que é tudo o que precisamos conhecer, que a sabedoria ali ensinada é mais profunda do que a mais brilhante eureca de um simples humano. Comicamente ouvimos muito frases do tipo: “no fim todos nós saberemos quem está certo”. É a crença de que, depois da morte, além da justiça feita teremos todas as respostas. Já falei um pouco sobre essa crença aqui (Porque não Acreditar, 5º parágrafo).

O terceiro desejo é a vontade de nunca deixar de existir. Em bom português: “o medo da morte”. Não me adentrarei nele, pois já dediquei três textos ao assunto (este, este e este). Só adianto que considero esse o desejo mais íntimo e o maior responsável pela crença no sobrenatural. Os três grandes desejos aqui comentados não são exclusividade de teístas. Ateus também os possuem. O que muda é que um deles aceita suas limitações e o outro abafa o fato com crenças sobrenaturais.

Portanto, como já devem ter percebido, podemos resumir esses três motivos como um desejo muito íntimo presente em todos nós. Uma fome muito grande por coisas que não vêm na quantidade que gostaríamos. Essa fome imensa que é a mãe de todas as fés. A justiça é rara, o conhecimento é pouco e a vida é curta. Essa fome se sacia acreditando que a justiça será feita, que todos os mistérios do mundo (ou ao menos os poucos que realmente interessam) podem ser desvendados e que a nossa existência não se finda com nossa morte. Essa crença poderia vir da maneira padronizada, através da lógica e da observação. O problema é que “lógica” e “observação” definitivamente não nos levam a concluir o que gostaríamos, então a nossa crença tem que vir do nada, é preciso ter fé. Tornamos uma dada limitação, que é a incapacidade de possuir um entendimento pleno sobre todas as coisas a nosso favor e colocamos os nossos anseios neste mar de ignorância que reconhecemos possuir. Nós, ateus, chamamos esse deus, que mora no incompreendido, de “deus-das-lacunas”. O que escapa nossa razão agora é algo sobrenatural e sacia a nossa fome. Ou pelo menos vai saciar, um dia quem sabe, basta ter fé e paciência…

Se você é ou já foi uma pessoa religiosa, certamente lhe é familiar o sentimento de pertencer a um seleto grupo detentor da verdadeira palavra de deus. O grupo escolhido para transportar, multiplicar e perpetuar os ensinamentos da única verdadeira religião: a sua. Entretanto, basta olhar em volta e perceber que, ironicamente, esse é um sentimento genérico e pertence a todas as denominações religiosas. Poderiam todas estar certas? Se todos são escolhidos, não faz muito sentido se gabar a esse respeito.

Em verdade, tal sentimento existe em toda sociedade na qual prevalece a emoção em detrimento da razão. Como exemplo, podemos citar um grupo de torcedores de um dado time, que independentemente do balanço de vitórias e derrotas, vai sempre defender que seu time é melhor que todos os outros. Esse cabo-de-guerra emocional parece ser uma espécie de efeito colateral de um outro sentimento sempre presente nas sociedades de pessoas: a necessidade de pertencer a algo coletivo. O torcedor ama, vibra, delira e veste a camisa do seu time, o defende com unhas e dentes, independentemente da sua satisfação pessoal. Podem até existir críticas entre os torcedores daquela dada equipe, mas tais críticas são consideravelmente atenuadas em frente aos afiliados de outras agregações.

Os religiosos não são diferentes: amam, veneram e são fiéis a sua congregação, mesmo quando não concorda inteiramente com seus ensinamentos, ações e decisões. Defendem-na frente às críticas, e em seus ciclos limitados até se permite um certo grau de discordância, mas para por aí. Sua religião é a verdadeira, seja ela qual for e isso basta. Não adianta tentar explicar a paixão pelo futebol através da razão por se tratar de algo essencialmente emocional. Com as instituições religiosas não é diferente.

Na véspera da Copa do Mundo de Futebol, proponho uma reflexão desportiva comparativa, pois os elementos presentes no sentimento patriótico ou no amor pelo time de futebol local estão também presentes nas religiões. Talvez essa crescente divergência entre as diversas religiões e congregação, e o aumento da informação dos fiéis, seja o calcanhar-de-Aquiles da fé, que em muito colabora para a popularização das igrejas ecumênicas, grandes atrativos para aqueles que percebem a irracionalidade dessa disputa religiosa pela detenção de uma “verdade” imaginária, mas que não se sentem confortáveis para abandonar de vez a fé.


Um ateu, ao declarar sua descrença, ouve muitas perguntas. Algumas são tendenciosas, do tipo “Então nada te impede de sair matando e roubando?”. Outras começam levemente erradas, como “Mas, você não acredita em nada?” (em um exemplo típico da leviandade com que muitos falam sobre o “nada”, já citado no texto do Ricardo). Tem ainda as que começam cabalmente erradas, como a “Suponho então que você acredite na ‘deusa Ciência’”. Mas existe uma pergunta em especial que é pertinente, muito pertinente. Muitos teístas se sentem muito curiosos quanto a isso, mas parecem temer uma resposta fria e demasiadamente racional.

“Quando você morre, tudo termina?”

O fato desta pergunta ser tão boa já denota o quão íntima é a relação religiosidade-medo de morrer (crentes, se vocês não torceram o nariz no primeiro texto, sintam-se livres para torcê-lo agora). Obviamente, essa pergunta possui muitas variantes, como “Quando morremos, deixamos de existir?”. Falarei de todas essas perguntas como se fossem uma só, pois elas realmente nos remetem a mesma dúvida. E a pergunta já começa partindo de uma idéia errada.

Errada. Pois estamos falando do que, afinal? Estamos falando apenas de nossa consciência ou de todas as coisas que nos representam?

Se o indagador está se referindo à consciência, sim, imagino que ela termine ali. E é apenas nesse ponto que nossas opiniões divergem. Existem certas hipóteses afirmando que a consciência pode residir fora do cérebro. Hipóteses tão populares que uma delas apareceu logo “de cara” em um dos comentários do meu primeiro texto sobre o tema. Mas são populares tão somente por satisfazerem o nosso desejo desesperado pela vida eterna. Fora os críticos da idéia de que a consciência reside apenas no cérebro, pois alegam que é um fanatismo, devido à ausência de prova de que ela não existe em outro lugar também. Pessoalmente, acho essa opinião muito descabida. Equivale a dizer que não podemos afirmar com certeza que o olho é o órgão sensorial responsável pela visão porque ainda não averiguamos o mesmo potencial sensorial de todos os outros órgãos.

Bom. Na primeira possibilidade, falei sobre a consciência. Ressalto que ela é a única dúvida razoavelmente aceitável. Isso porque ninguém são realmente acredita que “tudo termina” depois da morte. Vamos lá, nem precisa pensar muito. Todos os dias uma boa parcela da população (na casa dos milhões) morre. O mundo obviamente não cessa sua existência por causa de milhões, e certamente não o fará depois de qualquer morte em particular. O que eu acabei de falar é óbvio, admito. Mas esconde um significado muito mais sutil. Desde que a vida surgiu, seja lá qual for a sua concepção de vida, ela nunca deixou de existir desde então. Pessoas, peixes, formigas, lesmas, macieiras, musgos e bactérias morrem aos bilhões a cada momento. Mas nascem outros bilhões no seu lugar, usando matéria e energia muitas vezes proveniente, direta ou indiretamente, de antigos cadáveres. Morremos e nascemos, mas a vida continua na sua marcha incansável.

Existe outro ponto fundamental que devemos considerar. Nós alteramos o nosso meio enquanto existimos, o tempo todo. Imagine um indivíduo que está comendo uma banana. Vamos chamá-lo de Zé Exemplo. Logo após isso ele sofre um infarto fulminante e morre. Talvez esse indivíduo, o Zé Exemplo, não tenha sido um grande gênio da humanidade, ele nunca escreveu um bom romance e gerações posteriores sequer notarão que ele existiu algum dia. Mas fato inegável é que, graças ao Zé Exemplo, o mundo ficou com uma banana a menos. Junto ao resto de seus atos realizados dentro sua vida sem glamour ou emoções fortes, Zé Exemplo deixou como herança a ausência de 1 (uma) unidade de banana! Esta banana que foi transformada em mais matéria e energia para Zé Exemplo, assim como mais um bolinho de matéria fecal (também conhecido como “merda”).

Usando um exemplo menos insignificante, peguemos algo que Zé Exemplo não foi. Um grande romancista. Aí fica ainda mais óbvia a eternidade do sujeito. Basta pensar em uma aula de literatura, falando tão somente das obras do Zé Romancista. Apesar de pessoas como o Zé Romancista serem mais claramente eternas do que o Zé Exemplo, isso não as tornam qualitativamente mais “eternas” em muitos aspectos. O único aspecto “mais eterno” que poderíamos identificar seria o de que essas pessoas encontram-se consideravelmente mais presentes em nossa memória e cultura. Como os “imortais” membros da Academia Brasileira de Letras. Boto em aspas, pois é ridículo imaginar que os membros da ABL sejam mais “imortais” do que muitos outros nomes, a menos que você realmente ache, por exemplo, que José Sarney (cadeira 38) foi mais importante para a literatura nacional do que Érico Veríssimo.

Voltando ao cerne, à pergunta. A resposta é “não”.

Quando você morre, você não termina. A única coisa que a morte determina é que todo o seu potencial de mudança cessou e nada mais. Basta pensar. Olhe tudo ao seu redor. Para começar, imagino eu que você esteja lendo este texto pela tela de seu computador, que tem boas chances de estar apoiado em uma mesa. É bem possível que tenha uma luz acesa no recinto em que você está nesse momento, ou qualquer objeto que esteja usando energia elétrica. Bom, certamente você não imagina que tudo isso surgiu da noite para o dia. Tudo o que existe ao seu redor é fruto de uma longa história de descobertas, de produção, transporte e, de uma maneira mais indireta, guerras, revoluções, sexo, mais mortes e outros detalhes. Em resumo, o presente é resultado do passado. Toda a sua vida depende integralmente de eventos que já decorreram, e isso inclui as ideias e ações de pessoas que já morreram. Ou seja, de uma maneira ou de outra, elas existem. Mais uma vez eu destaco algo óbvio, para demonstrar um fato mais sutil e que muitas vezes passa despercebido. Alguém não precisa estar ciente de sua existência para existir de fato (uma inversão da afirmativa “Penso, logo existo” seria, portanto, inválida).

Por mais contraditório que pareça, é por isso que a maior prova de nossa eternidade não está em algo memorável e inalterado durante as injúrias do tempo. A prova mais cabal de que toda e qualquer criatura, ato, evento, fenômeno são eternos está justamente no fato de que o mundo muda o tempo todo (esse é um ponto interessante, prometo me aprofundar sobre isso em outro texto, pois este já está ficando longo).

Essa minha visão é bem menos acolhedora do que a clássica visão do paraíso eterno. Ou mesmo a visão mais moderna, espírita, de uma vida pululando entre vários mundos e várias dimensões. Mas a minha visão, que não é exclusivamente minha, tem uma vantagem. Ao passo que a visão de existência pós-morte retratada pelas religiões exige uma força oculta, muitas vezes em “dimensões diferentes” ou “sobrenaturais”, inexplicáveis para um “simples humano”, a minha é prosaica. Tudo o que eu disse sobre eternidade é apenas uma observação honesta dos fatos. Se nós alteramos o mundo em nossa volta, então automaticamente estendemos a nossa existência aos nossos atos. Você não precisa ter superpoderes, fé ou fazer parte de um povo escolhido para usufruir desta “imortalidade”.

Concluindo. Pense no seu legado. Seus atos não são meramente parte de um teste para averiguar se você merece ou não uma vida eterna agradável. Seus atos são a própria vida eterna. E ela não será agradável ou desagradável para você, pois já estará morto. Ela o será para as gerações futuras. O mundo será pior ou melhor por sua causa, cabe a você tomar as suas escolhas.

Morte:

  1. Uma terrível verdade exige uma grande ilusão
  2. O breve e o eterno
  3. A simplicidade inconcebível

Há tempos eu observava a pequena “matilha” de cães da raça fila brasileiro que mantinha em minha própria residência, e a postura do macho líder, sempre mostrando com veemência que a desobediência custaria “caro” para algum canino teimoso infiél, me chamou a atenção para um detalhe: a natural imposição da autoridade (em alguns casos uma pseudoautoridade) através do medo e da ameaça. Conosco, Homens (maravilhosos seres humanos superdotados de excepcional razão e profundo discernimento entre asneiras e coerência  — explico para o possível leitor desatento que existe óbvia ironia neste comentário — ), também prevalece tal imposição, mesmo que algumas vezes travestida em “roupas de gala”. Pensando dessa forma, não simplesmente pela ótica animal, e considerando que há um enorme espaço antropocêntrico dentro de cada um de nós, não parece tão surpreendente; mas ao analisarmos com bastante calma e total isenção como funciona o mecanismo autoritário incrustrado no convívio social humano (família, trabalho, lazer, esporte…), começamos a compreender melhor como funciona a eficiente “rédea” religiosa. Em destaque significativo, aqui no Ocidente, as seitas neopentecostais.

Num mundo onde a natureza é absolutamente indiferente a tudo e a sobrevivência extremamente dificil, os crentes ainda necessitam se curvar a um Deus bastante ameaçador. Temê-lo, respeitá-lo e, acima de tudo, adorá-lo. A ausência de “adoração” pode custar muito caro a eles (em suas mentes). A própria defesa da razão é ameaçada com punição no fogo eterno, caso ela vá de encontro à fé cristã. Contudo, é fenomenal a maneira como a aderência por parte dos crentes em relação às coisas originadas e mantidas a partir da ciência são significativas em suas vidas. Para isso, com exceção dos Testemunhas de Jeová, não há punição. Aliás, os Testemunhas de Jeová compõe um caso para ser analisado em outra ocasião específica, tamanha a aberração de seus atos no sentido de irem contra o próprio instinto de sobrevivência em detrimento a um ser que sequer existe. Essa classe de crentes, juntamente com os alucinados homens suicidas muçulmanos, provavelmente são os verdadeiros crentes, os que realmente acreditam “naquilo”, ao contrário da maioria que simplesmente “teme” por alguma vingança divina caso não creia em Deus ou pelo menos ventile a possibilidade de sua inexistência. É o medo da morte, sempre, e o medo de uma punição absurdamente sofrível: o inferno.

Muitas vezes me pergunto se as religiões teriam chegado tão longe caso não houvesse o lado punitivo, do inferno, do sofrimento eterno. Sem as punições e as terríveis ameaças e medos, como a razão seria estirpada tão facilmente das pessoas? Se não existisse na humanidade o medo de pensar livremente e de blasfemar, como bilhões de pessoas estariam ainda hoje lotando igrejas e mais igrejas, tomando hóstias e confessando suas intimidades para estranhos homens de batina? Muitos crentes certamente usariam uma retórica já bastante conhecida para invalidar a questão das ameaças e do medo, oferecendo uma enorme “lista” de bons motivos para se seguir um religião, principalmente os cristãos. Mas eles próprios seriam o manequim da contradição, de pé atrás de uma vitrine que vende “falsas verdades” às custas de muito medo e danação. Um leão forasteiro solitário jamais obedeceria a ordem do macho líder de um bando qualquer, para se afastar das fêmeas ou da zebra morta caída ao chão, se não fosse por conta de uma enorme ameaça de força e/ou brutalidade (que pode ser levada às últimas consequências). Como somos animais também, a ameaça e o medo instintivo ainda compõem as melhores táticas para a manipulação dos “bandos” de humanos. Mas somos civilizados e emocionais, o que faz com que essas ameaças sejam mais sofisticadas em relação ao enorme rugido de um leão.

Estudando um pouco as maiores religiões monoteístas da história, percebemos que, na propaganda geral elas falam de paz, harmonia e congregação (fachada), mas as “rédeas” são na verdade guiadas e mantidas por terríveis ameaças e punições (interior) dignas de super produções cinematográficas. Ou pensam que um filme B qualquer conseguiria reproduzir um inferno eterno e ardente?

É notório e indiscutível (embora qualquer crente irá afirmar o contrário) que os humanos possuem suas crenças e religiões basicamente por medo da morte e pela busca de um sentido “maior”. E também, nos casos dos crédulos pensadores, para tapar as instigantes lacunas, por mais contraditório que isso possa parecer. O pensador crente usa em última análise a figura de um deus para cessar em sua cabeça as perturbadoras questões sem resposta, e curiosamente parece não perceber que abre uma lacuna muito maior. Na verdade ele abre uma fantasia absurda e simplesmente se contenta com ela. Neste último caso fica claramente demonstrada a relevância do fator emocional. Mas não é esse o cerne da questão que desejo abordar. Por ora, neste texto, deixaremos o medo da morte (que de uma maneira ou de outra, é natural sentirmos) e as lacunas de lado. O alvo da nossa reflexão profunda é o tal sentido “maior”. O que significa isso afinal?

É bastante comum ouvirmos de pessoas crédulas que os ateus carecem de um sentido para suas vidas e para o além-morte. Que não possuem um sentido “maior”, que vivem por viver. É evidente que há um equívoco nisso o qual não pretendo alimentar, que é a presunção do crente (uma certeza) em afirmar naturalmente que há vida após a morte. Mas para seguir adiante com a proposta do raciocínio requerido por mim, necessito hipotetizar que o crente esteja correto. Vou descer do meu arrogante pedestal de cético teimoso e dar asas à fantasia, imaginando assim todos os seres humanos morrendo e, sabe-se lá de qual forma, continuando suas vidas em outro “local” para todo o sempre. Na eternidade. Seja em um inferno, num céu, num paraíso, numa colina linda e exuberante, ou nos braços de sedutoras virgens ninfetas. Não me importam esses detalhes. O que está em voga é: o que isto traria de sentido “maior” para alguém? Tudo indica que os crédulos nunca pararam para analisar profundamente esta questão. Sequer devem ter ideia do siginificado da palavra eternidade, quando a usam. Dentro de um “universo” de fantasias e possibilidades de pseudo-situações pós-morte, ainda assim seriamos obrigados a nos perguntar: qual o sentido “maior” disso ou daquilo? Recentemente, li em um adesivo fixado no terminal de passageiros do aeroporto de congonhas-SP a seguinte inscrição que questionava os transeuntes: “Onde pretende passar a eternidade?”. Ora, não sei quanto ao leitor, mas por falar em sentido, aí está uma pergunta um tanto quanto sem sentido. Mas, dando sequência a essa hipotetização, a princípio, num surto de sinceridade e pensando em minha plena satisfação, eu responderia que desejaria passar a eternidade num lindo campo verde cercado das pessoas que amei durante minha vida; ou que desejaria passar a eternidade assistindo ao sitcom “Seinfeld”; ou que desejaria passar a eternidade ouvindo minhas bandas preferidas… Bem, são tantas as possibilidades que tornam a escolha difícil. Mas muito mais difícil de se compreender é que, seja lá qual for a escolha do crente em resposta ao adesivo religioso que indaga “onde” ele gostaria de passar a eternidade, qual seria o sentido “maior” dessa escolha principalmente se tratarmos com rigor o significado da palavra eterno?

Voltando ao mundo dos verdadeiros mortais, como podem perceber o sentido real de nossas vidas é absolutamente subjetivo e somos nós mesmos que o fazemos. Qualquer sentido “maior” que o crente reclame ou exija é um engodo idiota, infantil, fantasioso e, ironicamente ao contrário do que prega, verdadeiramente sem sentido. Se você for crente, pense nisso, porque como diz aquela antiga propaganda de cartão de crédito: “A vida é agora”

O mundo que conhecemos hoje nem sempre foi assim. Uma frase um tanto quanto óbvia não é mesmo? Mas para muitas pessoas, e por incrível que pareça, isso não é levado em consideração quando se aprofundam em pensamentos, considerando as que se permitem aprofundar. Fazer um retrocesso histórico/temporal honesto e confiável, até onde se é capaz, para muitos significa ir de encontro às suas convicções religiosas. Convicções essas que independente de quão bizarras sejam, estão cravadas na cabeça de uma pessoa crente. Basta dizer que nos dias de hoje, mesmo com o acúmulo de informações, com todo nosso conhecimento a respeito da evolução das espécies e precisas datações históricas, ainda há quem pense que o planeta Terra possui seis mil anos apenas. Isso não seria surpreendente caso eu estivesse me referindo a pessoas sem instrução e sem conhecimentos. Há casos em que o crente cristão letrado e suficientemente culto simplesmente ignora algumas passagens de seu livro sagrado (no livro “Deus, Um Delírio” o biólogo Richard Dawkins narra uma situação bastante curiosa sobre isto) para continuar fiel àquela doutrina religiosa. E existem casos mais severos em que tal convicção se transforma num muro intransponível ao seu detentor, como ocorreu com um professor de biologia de uma renomada escola de São Paulo, que preferiu parar de lecionar a referida matéria científica, pois seu conteúdo “feria” suas convicções cristãs. Imaginem um homem que passou anos estudando em excelentes colégios, posteriormente se formou em biologia, consagrou-se mestre nesta matéria e abandona tudo em nome de uma convicção que não possui palpabilidade alguma.

Voltemos agora ao inicio deste texto. Se o mundo, desde os idos tempos medievais, para não irmos tão longe na história, tivesse seguido a risca a cabeça dos orgulhosos homens convictos (acho interessante como uma pessoa se auto-vangloria exageradamente quando se declara convicta em algo), será que nós teríamos estes computadores à nossa disposição? E quanto a medicina? Quantas e quantas vezes a humildade em reconhecer erros, refazer pensamentos, inverter ideias, desistir de ideias, criar novas ideias, dar o braço a torcer para a opinião de outrem, foram necessárias para chegarmos onde estamos? Há pesquisadores convictos? Certamente que sim, mas nenhum pesquisador convicto (aquele determinado a provar sua teoria, porém suficientemente maduro e honesto para admitir o oposto caso as evidências assim o forcem) sério e interessado realmente no resultado verídico final de seu estudo, iria contra a realidade somente para sustentar uma convicção que ficou sem embasamento. E nesse momento chegamos a uma conclusão: existem as convicções necessárias e as desnecessárias. Antes que leitores afoitos, principalmente os com tendências a qualquer tipo de credulidade no sobrenatural, acessem o “santo” google tentando achar referências oficiais sobre essas expressões e solicitar fontes sobre o enunciado, me adianto informando que são apenas termos criados por mim neste texto com o único objetivo de efetuar a devida separação. Separação esta de profunda importância para a história e para a vida no planeta.

As convicções necessárias a que me refiro (que até poderíamos substituir por um termo similar ao significado de busca consciente de algo), são aquelas que sustentamos por causa de motivos e evidências favoráveis que justamente nos fazem tê-las, e consequentemente defendê-las enquanto a razão assim nos permitir. Esse tipo de convicção é um alimento (um fomento extra) que nos da energia para continuar seguindo as “pistas” de nosso objeto de pesquisa/estudo e alcançar o sucesso (seja a criação de uma vacina, o projeto de um novo perfil de asa em um túnel de vento, a criação de um novo pesticida, enfim, o descobrimento de algo novo, seja em qual área for). Essas convicções são facilmente abandonadas quando se conclui que as evidências estavam equivocadas ou mau interpretadas. Você pode até pensar: “então não eram convicções”. Ledo engano. Eram sim, porém abertas a realidade, e não ao misticismo esdrúxulo. Um engenheiro aeronáutico que passou meses ou até anos convicto que o projeto de seu novo perfil aerodinâmico iria funcionar bem e inovar o mercado da aviação, abandona imediatamente tal convicção ao se deparar com a inviabilidade técnica da ideia quando demonstrado o fiasco no resultado final. Não há orgulho ferido e nem vergonha nessa atitude, apenas profissionalismo e maturidade humana para colher bons frutos da aprendizagem do antigo projeto e partir para um próximo. É muitíssimo provável, para não dizer certo, que a humanidade vive confortavelmente nos moldes de hoje devido a atitudes deste tipo.

As convicções desnecessárias (que até poderíamos substituir por um termo similar ao significado de falta de aprofundamento na questão), são por vezes nocivas, uma vez que, se sustentadas por um grupo social grande o suficiente para fazer “peso” de ordem, podem atrapalhar, prejudicar e atrasar diversas áreas de interesse comum ao restante da sociedade que não possui tais convicções. Isso foi e ainda é um problema sério até mesmo para a elaboração de leis (aborto, pena de morte, prisão perpétua…). Mas você pode estar se perguntando: com que autoridade ou base fundada este que escreve está afirmando sobre a nocividade das convicções desnecessárias? A resposta é bem simples. Se o objeto alvo da convicção desnecessária ultrapassar a fronteira do íntimo, do pessoal, ela passa a ser nociva, arrogante e prejudicial, seja em curto, médio ou longo prazo. Nenhuma convicção sem embasamento lógico e evidenciável, que formam as desnecessárias, deveria romper os limites do indivíduo que a possui. Mas infelizmente a realidade é outra. E isso nos leva diretamente às religiões, que são produtos de devaneios, fantasias e convicções coletivas que adentram no sistema de vida de toda sociedade, pois é notória a dificuldade de uma nação ser, de fato, laica. O laicismo total e verdadeiro seria um enorme passo para que as convicções desnecessárias fossem irrelevantes aos restantes cidadãos da sociedade, mas iremos tratar o laicismo em outra ocasião, não neste texto. Se levarmos em conta o mundo globalizado de hoje, podemos dizer sem exageros que as convicções desnecessárias de alguns, do outro lado do planeta, interfere diretamente na vida de quem vive do lado oposto do globo (11/09 WTC é um ótimo exemplo). Sempre lembrando que o termo “desnecessário” utilizado aqui diz respeito tão somente a ser desnecessário para a coletividade, e não individualmente (a análise de quanto uma convicção idiota e desnecessária faria mal unicamente ao seu portador não vem ao caso).

No geral, para pessoas que não são detentoras da verdade e reconhecem isso, as convicções podem de certa maneira fomentar projetos e até mesmo sonhos, concretizando coisas maravilhosas que um dia foram apenas impulsos elétricos dentro de um cérebro vivo freneticamente pensante. Porém, sem se aprofundar imparcialmente nas gigantescas “fossas” dos questionamentos e sem respeitar o bom senso e a razão, tudo o que se terá serão apenas convicções idiotas e sem fundamento, e a história real do mundo nos mostra dolorosamente o quanto elas são DESNECESSÁRIAS para as sociedades.

Nota de esclarecimento ao leitor – O conceito sobre o termo convicção abordado neste texto, não segue com rigor o significado desta palavra, mas tão somente a maneira vulgar como ela tramita rotineiramente no dia-à-dia das pessoas.

Certas pessoas são religiosas, outras não. Porém, quem não acredita em deuses geralmente se espanta que tantos sejam capazes de crer tão firmemente em algo para o qual não há evidência alguma. No geral, acreditar em mentiras não é uma boa ideia — e.g. sair de viagem com base na mera crença de que há gasolina bastante no tanque —; fazemos todo o possível para estar certos, mas nem sempre podemos escolher. Às vezes fechamos os olhos, mas às vezes nossos olhos se fecham. Nisso está a chave questão. Observemos melhor esse mecanismo.

Teístas estão errados; sabemos disso. Mas por que não conseguimos convencê-los disso por meio da razão? Pelo mesmo motivo que não conseguimos, por meio da razão, convencer um homem a fazer sexo com sua irmã. Mesmo que demonstrássemos cientificamente que não haveria problema algum nisso, tais provas seriam simplesmente ignoradas; ou seja, em certos assuntos, não estamos dispostos a ser racionais; não conseguimos. O paralelo nos permite compreender que discutir religião é exatamente como argumentar contra tabus sexuais. Esse tipo de opinião não pode ser escolhido — é o que se denomina crença, convicção ou .

Pois bem, como não podem ser escolhidas livremente, crenças também não podem ser adquiridas, abandonadas ou corrigidas por meio da razão. Então, em si mesmo, o conteúdo da crença é irrelevante. Seu valor intelectual é nulo. A única coisa realmente importante em nossas crenças está no fato de que somos seus donos. Naturalmente, como não podemos controlá-las, elas nos controlam, nos obrigam a agir como seus porta-vozes; vemo-nos emocionalmente coagidos a abraçá-las, significando que toda fé envolve algum nível de escravização do pensamento. Desse modo, não importa se temos fé em deus ou em tabus sexuais: continuaremos tendo essa fé, provavelmente para sempre; e não apenas isso: continuaremos tendo essa fé, mesmo que a ciência prove que estamos errados. Essa é a razão pela qual discussões envolvendo tais assuntos são inúteis, já que estaríamos a discutir racionalmente sobre uma opinião que não conseguiríamos abandonar, mesmo se fôssemos refutados.

Todos temos preconceitos sem sentido, todos cremos em coisas que sabemos ser racionalmente injustificáveis; isso é inevitável; faz parte de nossa natureza. Porém, quando não temos consciência disso como um fenômeno exclusivamente pessoal, estamos a um passo do idealismo — e a outro da intolerância. Para sabermos se somos dogmáticos num assunto qualquer, basta imaginarmos em que situações nos sentiríamos inclinados a repensar as opiniões que temos a respeito; nesse sentido, um claro sinal de dogmatismo é não conseguirmos conceber uma situação na qual abandonaríamos tais opiniões. Comecemos com algo simples: não queremos comer porque não há a comida de que gostamos. Então, se houvesse, comeríamos? Se a resposta for sim, tudo bem; o argumento era legítimo. Porém, se for não, problemas à vista. Para entendermos que problemas são esses, basta substituir essa frase emocionalmente neutra por algo que envolva nossos tabus, e veremos que muitas vezes não conseguiríamos mudar de opinião, por mais que nos fosse demonstrado o contrário. Por exemplo, por que não matamos? Digamos que a resposta fosse: porque matar causa sofrimento. Tudo bem, mas e se não causasse? A resposta poderia ser: porque seremos presos. Uma ideia razoável, mas e se não fôssemos? Talvez se respondesse: porque ninguém quer morrer. Mas essa pessoa quer. Acabaríamos dizendo alguma banalidade como: porque faria sujeira. Porém, se não fizesse, mataríamos aquela pessoa a sangue frio? Também não; e assim por diante, indefinidamente. Nesses assuntos, a razão nunca nos parece um argumento muito convincente; não a levamos a sério.

Agora façamos mentalmente o exercício de colocarmos a nós próprios esse tipo de questionamento quase impertinente, porém envolvendo os seguintes assuntos: canibalismo, religião, incesto, pedofilia, zoofilia, homossexualidade, tortura, guerra, escravidão, drogas, orgias, violência, assassinato, aborto, roubo, suicídio, traição, mentira. Ao menos em alguns deles, a ideia de reconsiderarmos nossas opiniões pessoais jamais será admitida, mesmo que todas as nossas razões sejam refutadas uma a uma pelo processo exemplificado acima. Desse modo, se, mesmo com ótimos motivos para tanto, ainda assim nos sentirmos contrariados ante a ideia de mudarmos nossas opiniões, isso indica uma clara incapacidade de ser puramente racionais no assunto. Isso é acreditar em algo. Há sempre esse clima metafísico em nossas crenças. Pode-se dizer que, do ponto de vista da inteligência, o sinal típico de que estamos sob o controle das emoções é a clara impressão de que há um algo mais inexplicável envolvendo o assunto, algo inacessível à razão — como se, depois de remover toda a realidade física, fosse ainda restar esse algo mais. Essa é a origem de nossos delírios metafísicos. Nessa ótica, a metafísica se situa numa espécie de intersecção entre um ponto-cego da inteligência e nossos preconceitos emocionais; por isso ela é tão problemática, pois é uma porta aberta para que nossas fantasias antropocêntricas se infiltrem em nosso conhecimento sem passar por qualquer análise crítica. Para ilustrar, pensemos numa pessoa à qual estejamos ou tenhamos sido apaixonados: ela nunca nos parece uma pessoa qualquer; o mesmo para nossas famílias, amigos etc. — temos a impressão de que há um quê a mais envolvido. Esse quê são nossas ilusões. Entes queridos não nos parecem apenas matéria, assim como dinheiro não nos parece apenas papel, mas sabemos que são. O fato é que as emoções sempre colorem e controlam nossos pensamentos, muitas vezes sem que percebamos, mas todas as vezes sem que tenhamos escolha.

Isso significa que as nossas mais amadas opiniões, exatamente porque as amamos, não são racionais — são crenças, preconceitos emocionais. Verdades que só nós defendemos não são verdades. O mundo todo não está conspirando para ocultar as realidades que só nós vemos. Nós realmente estamos errados em todas as opiniões que só valem para nós, e sentir que estamos certos não muda nada. Contudo, só é livre para corrigir-se quem não ama suas próprias opiniões, do contrário elas nos controlarão; por isso ser racional é ser frio. Diga-se de passagem, talvez por isso a ideia de que ateus “não acreditam em nada” seja tão assustadora a religiosos, pois a impressão que se tem é que, se não acreditam em deus, também não admitiriam nada que se justificasse pelo mesmo processo — isto é, a moral. Na verdade, não importa se deus existe; discussões científicas são outra coisa; estamos tratando de crenças. O fato é que quem tem coragem para afrontar um tabu envolvendo deus, poderia tranquilamente afrontar outro, envolvendo assassinato; por que não? Quem tem frieza para matar poderia tranquilamente ter frieza para roubar. A conexão faz sentido; o raciocínio não é de todo ruim, apenas não condiz com os fatos. Ateus acreditam em muitas coisas sem sentido, deus só não é uma delas. Mesmo assim, ao não crer em deus, estamos dizendo algo que, emocionalmente, equivale a dizer não acredito nas leislogo, mataria para comprar cigarros. Acreditar que matar é errado e acreditar em deus são coisas profundamente aparentadas, basta pensar no assunto com alguma atenção. Se entendermos por que matar é errado, entenderemos também por que se acredita em deus, pois o processo pelo qual somos levados a crer em ambas as coisas é o mesmo, condicionamento emocional. Então, como se nota, crenças são para nos controlar, não para fazer sentido; crer nos torna emocionalmente submissos. Por isso, na prática, ao nos declararmos ateus, passamos a ser vistos como alguém que não respeita a moral, exatamente como um incestuoso ou um pedófilo. Naturalmente, isso não faz sentido, mas é assim que nosso cérebro emocional vê o assunto; não há muito a se fazer quanto a isso.

Podemos concluir que, na medida em que são imparciais, a tendência é que os homens concordem entre si — e a ciência é um ótimo exemplo disso. Porém, nesses assuntos emocionais, somos guiados por preconceitos pessoais que nos controlam. Assim, em vez de raciocinar, de avaliar os fatos, ficamos à cata de pretextos para justificar nossas miopias, que nunca são realmente questionadas. Lutar pelo que se acredita é armar-se de uma interminável série de pretextos para continuar acreditando — seja a crença em deus, seja a crença na moral, seja o que for; não importa. Os homens diferenciam-se pelos erros em que acreditam.