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Observando os seres vivos em nosso planeta, pode-se concluir muita coisa. Uma das mais óbvias é a de que eles demonstram uma variedade absurda de formas. Isso é um fato escancarado. Sabemos que existem cachorros, baratas, lambaris, caramujos, macieiras e repolhos. Conseguimos identificar cada um desses sem a menor dificuldade. Na verdade, a nossa capacidade de identificação vai ainda mais longe. Não apenas podemos diferenciar uma cobra de um tatu, como sabemos existir diferentes tipos de cobras, agrupamos cobras e tatus em classes distintas e chegamos a agrupar diferentes famílias e gêneros de cobras.

Outra coisa que podemos concluir ao observar os seres vivos envolve o seu material genético e, ao passo que para observar a biodiversidade precisamos apenas de um par de olhos, para se observar o material genético é necessária uma enorme carga de conhecimento em diversas áreas. Povos indígenas possuem um vocabulário extenso referente às várias espécies de animais de sua região, mas certamente não sabem nada sobre o material genético deles. Falo sobre as moléculas responsáveis por armazenamento de informação presentes em nossas células. A mais importante delas seria o ácido desoxirribonucléico, mais conhecido por sua sigla em inglês: DNA. Pois um fato muito intrigante relacionado a essa mesma molécula é a de que ela está presente em praticamente todos os seres vivos. E quando eu falo “praticamente todos” eu estou excluindo certos vírus, apenas (lembrando que sequer há consenso quanto à inclusão dos vírus entre os seres vivos). Ou seja, todo o resto possui DNA. Nós (seres humanos), leões, lampreias, formigas, lesmas, vermes, esponjas do mar, pés de alface, musgos, jacarandás, cogumelos, bolores, amebas, algas e bactérias, só para citar alguns. E esse DNA possui uma estrutura bem definida, a diferença entre o DNA de um jacarandá, de um verme e de uma bactéria se resume ao arranjo das bases nucleotídicas e de como essa molécula está disposta na célula. Em nós, por exemplo, o DNA está arranjado em grupos menores, repletos de proteínas, principalmente histona, conhecidos como cromossomos. Mas em certas bactérias, como a Escherichia coli, esta molécula encontra-se arranjada em um formato circular.

Pois é a união desses dois fatos, um mais evidente, o outro bem mais escondido, que são o assunto de meu texto. A interpretação desses dois fatos representa o choque da intuição com a descoberta. Em seu último texto, o Bruno falou sobre o mito do elo perdido. Pois esse mito é fruto de uma idéia errada, rígida demais que tínhamos de “espécies”. Para exemplificar, pense no que certos criacionistas dizem:

“Porque lagarto é lagarto, gaivota é gaivota e humano é humano. Você não vê um lagarto evoluindo para uma gaivota.” (frase minha, ilustrando o que eu realmente leio e escuto de muitos criacionistas)

Essa frase demonstra claramente a ignorância dessas pessoas no que se refere ao ambiente natural. Na verdade, ela demonstra a ignorância em dois pontos. No primeiro dele, a idéia que uma espécie não tem nada a ver com a outra. A primeira vista, parece ser uma constatação óbvia, mas não é sequer verdadeira. Sabemos diferenciar um lambari de um atum, mas somente um sistemata experiente diferencia certos lambaris um do outro. Imaginamos que as espécies possuem um lugar fixo, separadas uma das outras, só que essa idéia desmorona quando paramos para analisar cada espécie dentro de um mesmo grupo. Esse equívoco, essa falta de conhecimento sobre o que estão falando, também permite que os mesmos criacionistas soltem frases semelhantes como: “Eu reconheço a microevolução, mas acho a macroevolução um absurdo”. A crença é a de que existe uma diferença qualitativa entre as duas, sendo a “microevolução” a variação genética dentro de uma espécie e a “macroevolução” a especiação propriamente dita. No texto do Bruno ele mostra um caso de “espécies em anel”, que seria o das gaivotas do ártico. Tem ainda outro, tão didático quanto, que seria o das salamandras californianas Ensatina (imagem). Esses exemplos demonstram cabalmente que essa distinção entre “micro” e “macroevolução” só existe na cabeça de alguns desinformados.

O outro equívoco criacionista não é menos grosseiro. “Você não vê um lagarto evoluindo para uma gaivota”. E não vê mesmo. Até porque, isso supostamente não deveria ocorrer. Peguemos uma única espécie de lagarto e uma de gaivota, digamos, uma iguana verde (Iguana iguana) e a gaivota prateada que já estamos familiarizados (Larus argentatus). Pois bem, a primeira vista podemos dizer que elas são muito diferentes. Mas essas diferenças não se comparam às semelhanças, ainda mais patente aos olhos entre essas duas espécies. Ambos possuem pulmões, um par de olhos, fêmur, crânio diápsido, fígados e cérebro, por exemplo. Na realidade, eu poderia usar páginas e mais páginas para ilustrar as semelhanças entre os dois, seja ela de natureza morfológica, metabólica ou mesmo comportamental. Não precisaria de tantas páginas assim para falar das diferenças, que seriam relativamente escassas. Acontece que essas duas espécies são exemplares atuais de uma história muito mais antiga. A gaivota prateada e a iguana verde representam, cada uma, populações de indivíduos muito assemelhados entre si, localizados em clados separados. Esses clados, também conhecidos como ramos, lembram o gráfico de um pedigree, só que em escala muito maior. Um clado pode representar um agrupamento a nível de gênero, como Larus, por exemplo, no qual estariam inseridas a maioria das gaivotas. Mas também pode representar uma classe, como a das aves. Assim como existe um clado que agrupa a gaivota e todas as suas parentes aves com os lagartos e cobras, conhecido como Sauropsida, hoje dividido entre os Lepidosauria (lagartos, cobras e tuataras) e os Archosauria (crocodilos, aves e os extintos dinossauros).

Acontece que o conceito de espécie é nebuloso. Seria um arranjo de indivíduos semelhantes e nada mais do que isso. Caso nenhuma espécie tivesse se extinguido, seria inviável agrupar os seres vivos em “espécies”. Durante milênios tratamos esses indivíduos como representantes de grupos fixos e bem caracterizados, sem relação histórica um com o outro. Hoje temos o DNA, presente em quase tudo o que entendemos por vida, todos com uma estrutura bem definida. Sabemos que as espécies não são muito mais do que nuances entre o genoma de uma população e de outra. O quadro inverte, o que antes era a obviedade da diferença, hoje é a obviedade da origem comum.