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Quando Jesus Cristo voltar, todos aqueles que o aceitaram como seu salvador vão ressuscitar para viver junto de seus entes queridos em eterna felicidade.

O trecho acima descreve, com precisão variando de seita para seita, a crença da maioria dos cristãos. A bíblia não é nada clara quando fala no que exatamente podemos encontrar depois de morrermos. Em Lucas 16: 19-31, existe uma das estórias que, apesar de bastante infantil, dá mais detalhes de como seria o pós-morte. Conta sobre um homem rico e o mendigo Lázaro, que têm suas posições trocadas após morrerem; o mendigo aproveitava a eternidade nos seios de Deus, enquanto o homem rico passava sede no inferno.

Não há dicas na bíblia de como seria a rotina do dia-a-dia celestial. Precisamos comer depois de mortos? Podemos fazer sexo no céu? Mulheres mortas engravidam? Nada sobre isso é abordado na bíblia. Assim, os líderes religiosos, que não são nada bobos, podem dar suas impressões pessoais que, vez por outra, envolvem algum investimento em vida. Exemplos: compra de lotes no céu, depósitos no Banco de Deus, compra de indultos etc.

A eternidade é algo que, de certa forma, é inconcebível para nós. É difícil imaginar algo interessante o suficiente para se fazer continuamente por um ano, imagine então por cinquenta anos, um milhão de anos. Tentar imaginar a vida eterna é, pra dizer o mínimo, muita pretensão.

Penso que poucos crentes tenham parado para pensar seriamente em como seria viver para sempre em uma vida de perfeição estática. Não seria a perfeição, aliás, mais um termo inconcebível? Existe algo que possa escapar ao tédio? Temos necessidades dinâmicas, ou seja, sempre que saciamos uma delas, novas necessidades surgem. Se perfeição significa a total ausência de necessidades, haveria aí um paradoxo com a nossa própria natureza.

Saciar as nossas incessantes necessidades é um tremendo desafio. Fazê-lo por toda a eternidade é um desafio digno da onipotência divina, outra coisa que é fácil dizer mas impossível conceber.

Um ateu, ao declarar sua descrença, ouve muitas perguntas. Algumas são tendenciosas, do tipo “Então nada te impede de sair matando e roubando?”. Outras começam levemente erradas, como “Mas, você não acredita em nada?” (em um exemplo típico da leviandade com que muitos falam sobre o “nada”, já citado no texto do Ricardo). Tem ainda as que começam cabalmente erradas, como a “Suponho então que você acredite na ‘deusa Ciência’”. Mas existe uma pergunta em especial que é pertinente, muito pertinente. Muitos teístas se sentem muito curiosos quanto a isso, mas parecem temer uma resposta fria e demasiadamente racional.

“Quando você morre, tudo termina?”

O fato desta pergunta ser tão boa já denota o quão íntima é a relação religiosidade-medo de morrer (crentes, se vocês não torceram o nariz no primeiro texto, sintam-se livres para torcê-lo agora). Obviamente, essa pergunta possui muitas variantes, como “Quando morremos, deixamos de existir?”. Falarei de todas essas perguntas como se fossem uma só, pois elas realmente nos remetem a mesma dúvida. E a pergunta já começa partindo de uma idéia errada.

Errada. Pois estamos falando do que, afinal? Estamos falando apenas de nossa consciência ou de todas as coisas que nos representam?

Se o indagador está se referindo à consciência, sim, imagino que ela termine ali. E é apenas nesse ponto que nossas opiniões divergem. Existem certas hipóteses afirmando que a consciência pode residir fora do cérebro. Hipóteses tão populares que uma delas apareceu logo “de cara” em um dos comentários do meu primeiro texto sobre o tema. Mas são populares tão somente por satisfazerem o nosso desejo desesperado pela vida eterna. Fora os críticos da idéia de que a consciência reside apenas no cérebro, pois alegam que é um fanatismo, devido à ausência de prova de que ela não existe em outro lugar também. Pessoalmente, acho essa opinião muito descabida. Equivale a dizer que não podemos afirmar com certeza que o olho é o órgão sensorial responsável pela visão porque ainda não averiguamos o mesmo potencial sensorial de todos os outros órgãos.

Bom. Na primeira possibilidade, falei sobre a consciência. Ressalto que ela é a única dúvida razoavelmente aceitável. Isso porque ninguém são realmente acredita que “tudo termina” depois da morte. Vamos lá, nem precisa pensar muito. Todos os dias uma boa parcela da população (na casa dos milhões) morre. O mundo obviamente não cessa sua existência por causa de milhões, e certamente não o fará depois de qualquer morte em particular. O que eu acabei de falar é óbvio, admito. Mas esconde um significado muito mais sutil. Desde que a vida surgiu, seja lá qual for a sua concepção de vida, ela nunca deixou de existir desde então. Pessoas, peixes, formigas, lesmas, macieiras, musgos e bactérias morrem aos bilhões a cada momento. Mas nascem outros bilhões no seu lugar, usando matéria e energia muitas vezes proveniente, direta ou indiretamente, de antigos cadáveres. Morremos e nascemos, mas a vida continua na sua marcha incansável.

Existe outro ponto fundamental que devemos considerar. Nós alteramos o nosso meio enquanto existimos, o tempo todo. Imagine um indivíduo que está comendo uma banana. Vamos chamá-lo de Zé Exemplo. Logo após isso ele sofre um infarto fulminante e morre. Talvez esse indivíduo, o Zé Exemplo, não tenha sido um grande gênio da humanidade, ele nunca escreveu um bom romance e gerações posteriores sequer notarão que ele existiu algum dia. Mas fato inegável é que, graças ao Zé Exemplo, o mundo ficou com uma banana a menos. Junto ao resto de seus atos realizados dentro sua vida sem glamour ou emoções fortes, Zé Exemplo deixou como herança a ausência de 1 (uma) unidade de banana! Esta banana que foi transformada em mais matéria e energia para Zé Exemplo, assim como mais um bolinho de matéria fecal (também conhecido como “merda”).

Usando um exemplo menos insignificante, peguemos algo que Zé Exemplo não foi. Um grande romancista. Aí fica ainda mais óbvia a eternidade do sujeito. Basta pensar em uma aula de literatura, falando tão somente das obras do Zé Romancista. Apesar de pessoas como o Zé Romancista serem mais claramente eternas do que o Zé Exemplo, isso não as tornam qualitativamente mais “eternas” em muitos aspectos. O único aspecto “mais eterno” que poderíamos identificar seria o de que essas pessoas encontram-se consideravelmente mais presentes em nossa memória e cultura. Como os “imortais” membros da Academia Brasileira de Letras. Boto em aspas, pois é ridículo imaginar que os membros da ABL sejam mais “imortais” do que muitos outros nomes, a menos que você realmente ache, por exemplo, que José Sarney (cadeira 38) foi mais importante para a literatura nacional do que Érico Veríssimo.

Voltando ao cerne, à pergunta. A resposta é “não”.

Quando você morre, você não termina. A única coisa que a morte determina é que todo o seu potencial de mudança cessou e nada mais. Basta pensar. Olhe tudo ao seu redor. Para começar, imagino eu que você esteja lendo este texto pela tela de seu computador, que tem boas chances de estar apoiado em uma mesa. É bem possível que tenha uma luz acesa no recinto em que você está nesse momento, ou qualquer objeto que esteja usando energia elétrica. Bom, certamente você não imagina que tudo isso surgiu da noite para o dia. Tudo o que existe ao seu redor é fruto de uma longa história de descobertas, de produção, transporte e, de uma maneira mais indireta, guerras, revoluções, sexo, mais mortes e outros detalhes. Em resumo, o presente é resultado do passado. Toda a sua vida depende integralmente de eventos que já decorreram, e isso inclui as ideias e ações de pessoas que já morreram. Ou seja, de uma maneira ou de outra, elas existem. Mais uma vez eu destaco algo óbvio, para demonstrar um fato mais sutil e que muitas vezes passa despercebido. Alguém não precisa estar ciente de sua existência para existir de fato (uma inversão da afirmativa “Penso, logo existo” seria, portanto, inválida).

Por mais contraditório que pareça, é por isso que a maior prova de nossa eternidade não está em algo memorável e inalterado durante as injúrias do tempo. A prova mais cabal de que toda e qualquer criatura, ato, evento, fenômeno são eternos está justamente no fato de que o mundo muda o tempo todo (esse é um ponto interessante, prometo me aprofundar sobre isso em outro texto, pois este já está ficando longo).

Essa minha visão é bem menos acolhedora do que a clássica visão do paraíso eterno. Ou mesmo a visão mais moderna, espírita, de uma vida pululando entre vários mundos e várias dimensões. Mas a minha visão, que não é exclusivamente minha, tem uma vantagem. Ao passo que a visão de existência pós-morte retratada pelas religiões exige uma força oculta, muitas vezes em “dimensões diferentes” ou “sobrenaturais”, inexplicáveis para um “simples humano”, a minha é prosaica. Tudo o que eu disse sobre eternidade é apenas uma observação honesta dos fatos. Se nós alteramos o mundo em nossa volta, então automaticamente estendemos a nossa existência aos nossos atos. Você não precisa ter superpoderes, fé ou fazer parte de um povo escolhido para usufruir desta “imortalidade”.

Concluindo. Pense no seu legado. Seus atos não são meramente parte de um teste para averiguar se você merece ou não uma vida eterna agradável. Seus atos são a própria vida eterna. E ela não será agradável ou desagradável para você, pois já estará morto. Ela o será para as gerações futuras. O mundo será pior ou melhor por sua causa, cabe a você tomar as suas escolhas.

Morte:

  1. Uma terrível verdade exige uma grande ilusão
  2. O breve e o eterno
  3. A simplicidade inconcebível