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E se eu dissesse que, dentro de uma semana, uns primos seus do interior te visitarão em casa. Sete dias depois aparecem uns chimpanzés. Qual a sua reação? Vai recebê-los com comes e bebes ou vai mandá-los para um zoológico? Pense bem, pois os seus primos vieram diretamente do interior da África só para restabelecer laços familiares enfraquecidos há mais de 4 milhões de anos¹. Você e os seus primos, unidos por um casal de antropoides, que recordações vocês teriam dessa época de vacas magras? Um ramo da família ficou pelas florestas da África e o outro pretende conquistar o mundo.

Bom, se você é um teísta bitolado, deve ter odiado essa minha situação hipotética. Meu texto é endereçado a esse público, teístas e criacionistas reacionários que rolam de rir com a idéia de um suposto parentesco entre nós, humanos, e o resto dos primatas. Uma coisa que você, criacionista, não percebe é que a sua casa está cheia de primos. Até mesmo o seu intestino está cheio deles. No seu almoço você deve ter devorados alguns.

Não, não existem chimpanzés morando no seu intestino ou no seu prato (assim eu espero). Falo de primos ainda mais antigos. Se o seu almoço foi um bife, saiba que você divergiu da sua comida cerca de 85 milhões de anos atrás¹. Mas, se você é um vegan, então você e seu almoço estão separados por muito mais tempo. A data é imprecisa, mas é superior a um bilhão de anos. Tudo família.

Eu falei tudo isso para deixar clara uma coisa. A teoria da evolução não é sobre humanos evoluindo de macacos é algo muito mais amplo. Ela é ainda mais incorreta ser for interpretada como os humanos descendendo de macacos atuais (e não de primatas extintos, que seriam os ancestrais comuns a humanos e chimpanzés, por exemplo). Mas os macacos, os humanos, ou mesmo todos os primatas são meramente uma pequena parte do objeto de estudo que seria toda a biosfera, seus componentes vivos e seus ancestrais (compondo o que chamamos de “Árvore da Vida”).

Clássica caricatura de Darwin

É aí que entra a falácia do texto. Fazendo um retrospecto, no meu primeiro texto eu falei da falácia da abiogênese, um erro advindo da falta de clareza com que a biologia é ensinada nas escolas. Depois eu fui para a falácia da convergência de características, provinda de uma idéia errada na qual a evolução é essencialmente aleatória e de que essas características são praticamente iguais. A terceira falácia citada é a mais suja e polêmica de todas e diz que evolucionismo e nazismo andam de mãos dadas. Na quarta eu lidei com a evolução apresentada na mídia em massa e como isso reflete a visão das pessoas sobre a teoria. Nesta última, a falácia mais clássica de todas é a do homem surgindo do macaco. Traduzindo essa última falácia em apenas uma pergunta, muito difundida e freqüente: “Você acredita que viemos dos macacos?”.

Provavelmente você, criacionista ao qual me dirijo, já deve ter perguntado isso a muitas pessoas. Outra frase muito recorrente é: “Eu não acredito na evolução, pois não acho que o homem tenha se originado de macacos.” O que eu posso dizer é que essa afirmação está completamente equivocada em diversos graus.

O primeiro erro eu já deixei bem claro. Evolução não se trata apenas da origem do homem, portanto, não serei repetitivo. O segundo erro, como eu já disse no quarto parágrafo, depende do que você entende por “macaco”. Se a sua idéia é um macaco que você viu no zoológico ou na televisão, então devo dizer que está enganado. Os macacos atuais são tão ancestrais seus como você é ancestral do seu priminho de dois anos. Ou seja, vocês são parentes, unidos por um ancestral comum que, no caso do primo de dois anos são o vovô e a vovó; no caso dos macacos são vovôs e vovós de espécies extintas há milhões de anos, mas um não é o ancestral do outro.

É muito interessante notar o quão difundida é essa falácia. O motivo principal eu falei logo no meu primeiro texto deste sítio. Dizer que somos parentes de macacos ofende. Algumas pessoas ainda deliram sonhando que viemos de anjos ou de partes da anatomia de deuses poderosos. É meio frustrante para essa legião de iludidos admitir que seus avós não faziam parte de guerras celestiais ou participaram da criação do mundo. Frustrante porque ainda não foram capazes de contemplar a realidade em toda a sua grandiosidade, então preferem o devaneio místico a que estão habituados. Essa falácia é a mais importante, embora não seja a mais suja ou perigosa, porque traduz claramente a maior barreira para a compreensão da teoria evolutiva: o orgulho.


1. DAWKINS, Richard. A Grande História da Evolução: Na trilha de nossos ancestrais. Tradução de Laura Teixeira Motta – São Paulo: Companhia Das Letras, 2009.

Umas semanas atrás eu estava conversando sobre evolução com um criacionista. Em um momento do debate, ele alegou que a única evolução que ele considerava verdadeira era a dos pokémons. Claro que ele estava tentando ser irônico, mas como o resto da argumentação dele não estava grandes coisas eu resolvi desistir. Daí então me ocorreu a seguinte pergunta: até que ponto a cultura pop reflete o conhecimento de evolução da população geral?

Xmen, Spore, e Pokémon são exemplos de como a evolução aparece na cultura pop. Obviamente, nenhum desses três exemplos tem a pretensão de ensinar preceitos básicos de biologia a quem quer que seja.

A "verdadeira evolução", segundo alguns criacionistas.

Seria de se esperar que as pessoas enxergassem a evolução de uma maneira muito diferente do que a apresentada pela televisão ou por jogos eletrônicos. O que acontece é que ela não é tão diferente assim. A “evolução” que presenciamos na cultura pop é um reflexo de como ela é vista pela grande massa de leigos não-curiosos. Isso é algo meio preocupante; percebo nas perguntas que me fazem a respeito da teoria neodarwinista e vejo algumas ideias obsoletas encravadas nelas, ideias que podemos encontrar nos Xmen e no Pokémon, por exemplo. Vou falar sobre esses dois mais tarde. Deixarei Spore de fora, pois é um jogo para computador relativamente recente que, ao que parece, aborda a evolução de maneira um pouco mais fiel do que os outros dois exemplos.

Pokémon. Para todos os que nasceram nos anos 90 ou segunda metade dos 80 esses monstrinhos nipônicos certamente são bem familiares. Aos que ainda não conhecem, Pokémon é uma série de jogos que se expandiu para a TV, mangás e virou filmes. Trata de bichos encontrados na natureza que podem ser confinados em pequenas bolas – as pokébolas – que cabem na palma da mão. Esses mesmos bichos estão condenados a serem usados em batalhas que envolvem outros seres de semelhante natureza e situação. Resumindo, a série é uma briga de galo ao melhor estilo otaku. Isso é apresentado para crianças e, posso confirmar, na minha época de pirralho eu achava tudo isso muito divertido. A parte interessante é que esses mesmos bichos evoluem. Depois de muito tempo lutando, um determinado pokémon pode se transformar noutro, maior e mais forte.

Evidentemente que a “evolução” desses monstrinhos serve tão somente para dar uma apimentada no gameplay. Uma “evolução” tão caricata e despretensiosa não tem – ou ao menos não teria – como ser interpretada de outra maneira. O que me espanta é o número de vezes em que eu encontro perguntas semelhantes a esta: “se a evolução existe, como é que eu nunca vi um peixe se transformando em um anfíbio?”. Devo dizer que já fiquei muito tempo imaginando de onde diabos o sujeito tirou que um peixe deveria se transformar em um anfíbio. A única resposta que me veio em mente foi Pokémon. Fora as variantes dessa pergunta, como sapos se transformando em passarinhos, macacos em humanos e demais metamorfoses impossíveis. Não existe absolutamente nada dentro da teoria evolucionista dizendo que um indivíduo de certa espécie deveria se transformar noutra. Outro conceito presente dentro dos pokémons é que uma evolução sempre é melhor que a sua antecessora. Ao passo que imaginar a evolução como uma metamorfose de uma espécie em outra é um erro tacanho cometido apenas por uma “elite” de alienados, supor que ela é uma força geradora de seres progressivamente mais complexos é um erro comum. Essa ideia de evolução e progresso é quase onipresente na cultura pop não sendo exclusiva dos pokémons.

E então temos os Xmen. Um número bem maior de gerações está familiarizado com esses senhores. Além da ideia, muito comum, de que evolução traz sempre alguma melhoria, os Xmen trabalham com o mito da evolução do homem (e da mulher também). A humanidade ficou muito tempo sendo apenas humana e, segundo os quadrinhos, chegou a hora de evoluir. E que evolução! Uns evoluem para seres com poderes psíquicos, outros controlam o ferro e temos ainda os que emitem raios pelos olhos. E todas essas mutações maravilhosas acontecem no mesmo bendito gene, o tal do “gene x”. Pois bem, isso são apenas detalhes. Da mesma maneira que os pokémons evoluem da maneira deles, os Xmen assim o fazem apenas para servir de entretenimento e não devem ser levados a sério. Bom, mas assim como o exemplo anterior, aqui reflete a maneira que o grande público vê a evolução. Nesse caso, mais especificamente, a evolução humana. “Quando vamos evoluir?”, já li perguntarem. Ou então: “Se nós somos seres-humanos, por que os macacos já não evoluíram para humanos também?”. Essas são perguntas que eu realmente leio na internet. Algumas vezes, os autores dessas perguntas acham que encontraram uma falha grotesca na teoria, quando deveriam supor falta de estudo (o que é o caso). Acontece que evolução não é uma obrigação mas sim uma consequência. São linhagens de indivíduos, populações, que se dividem em mais linhagens. Cada conjunto de indivíduos vai sofrer pressões seletivas diferentes se adaptando de acordo com elas, e então temos a evolução. Ela não vai bater na porta de sua casa e dizer: “Chegou a hora de evoluir”.

É muito estranho, mas parece que um europeu em pleno século XIX teria mais facilidade de compreender a teoria do que um leigo alienado de nossa época. Vimos como a evolução aparece na cultura pop. Vimos também como muitas perguntas a respeito da teoria evolutiva feitas pelo público leigo se assemelham muito mais à “evolução” encontrada em desenhos, filmes e jogos do que com a teoria propriamente dita. Hoje nós vivemos em uma época na qual a aquisição de informação é fácil (chega a ser conhecida como a “era da comunicação”). Mas então, como tantas pessoas estão tão desinformadas quanto a certas teorias? Bom, para começar, a informação está em todo o lugar, mas só quem quer encontrá-la usufruirá dela. A grande maioria das pessoas não possui tanto interesse assim no que a teoria evolutiva diz ou deixa de dizer, o que já é um problema, principalmente para a miríade de críticos que certamente não leram nenhuma obra cientifica relacionada ao tema.

Na época de Darwin, praticamente toda a população estava envolvida com algum tipo de criação, desde cereais até pombos (animais que Darwin utilizou para embasar a seleção natural, na Origem das Espécies). Todo mundo tinha muito mais contato com a natureza e não era difícil perceber como a seleção artificial afetava intensamente a constituição dos seres vivos trabalhados. Darwin expandiu a ideia bem fundamentada de seleção artificial para a natureza sem influência antrópica e por isso foi tão eloquente. Hoje muitas pessoas compram um frango no supermercado sem ter a menor ideia de todo o processo de criação que levou uma ave silvestre a se tornar um animal doméstico com o passar das gerações. Comemos milho sem conhecer a sua longa história como cereal que tem o seu início com os Maias e Astecas. Vivemos na ilusão de que somos melhor informados a respeito do mundo graças aos avanços da comunicação, mas o que vejo é uma multidão indo em direção contrária.

Pense em um genocídio, um grande crime. Qual o primeiro evento que lhe veio à mente? Holocausto. A Alemanha nazista, o terceiro Reich, é um exemplo clássico de crime hediondo contra a humanidade. É muito difícil encontrar alguém hoje em dia que não veja o holocausto como uma afronta às mais básicas noções de ética. Baseados nesse julgamento, acabamos taxando por tabela todas as coisas associadas a esse crime como igualmente ruins. E uma delas é o darwinismo social, erroneamente associado, devo dizer, à teoria evolutiva propriamente dita.

O cerne do darwinismo social é/era cruel, porém cientificamente embasador em algo conhecido como eugenia: um método que consiste em selecionar indivíduos de interesse dentro de uma população e fazer com que eles se reproduzam, gerando uma prole mais útil. Mas antes que me atirem pedras, saibam que eu defendo a lógica por trás da metodologia, apenas. Animais domésticos, cereais e culturas de bactérias são exemplos vivos de sua eficácia. O problema do darwinismo social foi aplicar este método para uma população na qual ele não seria útil, no caso, populações humanas. Matar seres-humanos em massa é o total desprezo por um dos maiores trunfos da humanidade: uma adaptação maior do que qualquer outra que poderia ser produzida através da eugenia, que é a sociabilidade. A força do Homo sapiens reside na sua sofisticada capacidade de se comunicar e de sociabilizar, habilidades completamente desprezadas quando um crime dessa magnitude acontece.

Pois eis aí o maior de todos os espantalhos criacionistas: a suposta “Lei do mais forte”. O mais imundo e apaixonadamente defendido de todos os espantalhos. Quando uma crítica à teoria da evolução apela para temas como o darwinismo social, ela deixa de ser apenas desinformada e começa a ser suja. Dizer que devemos aplicar o princípio da eugenia em populações humanas é um exemplo clássico de falácia naturalista, na qual confundimos postura ética com fenômenos observados no comportamento de outros seres vivos. Resumindo o mais imundo dos argumentos criacionistas: a teoria da evolução é falsa, pois apoia crimes como o holocausto, através da “lei do mais forte”. Sujo, não?

Mas, se a teoria da evolução não diz que o mais forte deve prevalecer, então o que ela diz? Bom, aqui convém eu expor a minha própria visão sobre o que essa teoria diz. Antes devo lembrar que, como todas as teorias dentro das ciências empíricas, a teoria evolutiva é uma maneira de explicar um conjunto de fatos observáveis através de sentenças puramente racionais. Ela não é uma ideologia que deva ser seguida com paixão por uma multidão de fanáticos.

Quanto ao que a teoria diz, é comum lermos que se trata da “sobrevivência do mais forte”. Mais uma vez a ideia equivocada de que o indivíduo forte deve sempre sobrepujar os mais fracos. Antes de ser uma luta pela sobrevivência a vida é uma luta pelo legado. O legado de nosso material genético e, em níveis mais sofisticados, o legado de nossas ideias (memes). Como fazer para perpetuar os genes não interessa, desde que funcione. Se para tal propósito seja necessário ou conveniente desmerecer os fracos e favorecer os fortes, assim será. Mas se for mais interessante que os indivíduos de uma determinada população formem uma sociedade na qual um lava a mão do outro, então está feito. O que realmente importa é crescer e se reproduzir, produzindo uma prole que seja capaz de fazer o mesmo por si só. Para tal vale tudo: existem seres vivos que voam, outros que nadam, alguns que fazemc fotossíntese. Talvez a mãe se sacrifique para que a prole tenha segurança e alimento, ou a única célula de um protozoário se preocupe apenas em se dividir em mais duas células. O objetivo é sempre o mesmo, porém o ambiente está em constante mudança. O que é adaptativo pode deixar de ser depois de alguns milhões ou milhares de anos e os caminhos para atingir esse mesmo objetivo são inúmeros.

Acontece que esse é um espantalho com mais de um erro. A falácia inicial é dizer que a evolução se baseia na lei do indivíduo mais forte, a já extensivamente comentada falácia do espantalho. Uma segunda falácia é bem mais sutil, mas um bocado irrelevante quando posta lado a lado com os outros erros desta afirmação. O fato de uma teoria supostamente trazer tristeza não invalida o seu caráter de verdade. Bom, essa falácia é irrelevante porque ela se baseia no maior equívoco presente na ideia de “lei do mais forte”, que é confundir teoria empírica com ideologia, coisa que eu já discuti anteriormente. Portanto, não se trata de uma teoria trazer felicidade ou tristeza, pois isso não está no seu escopo.

A parte mais interessante desse assunto é que poucas pessoas conhecem uma das mais interessantes conclusões tiradas da teoria neodarwinista: é bom ser bom. Ser altruísta pode ser adaptativo. Claro que isso vai depender muito do contexto. O altruísmo é interessante quando consiste em um indivíduo realizando um sacrifício que é compensado pelo benefício gerado ao grupo. Podemos concluir que, em um caso isolado, o indivíduo ainda assim é prejudicado. Mas se formos considerar vários casos ao decorrer do tempo nos quais existe um altruísta e um grupo sendo beneficiado, então esse indivíduo estará sendo beneficiado indiretamente, mesmo que eventualmente ele tenha que se sacrificar. Evidentemente, o altruísmo só se mostra útil dentro de grupos, desde bandos a sociedades com milhões de indivíduos. Mas esse é um assunto extenso demais que precisaria de outro texto. Quanto à suposta “lei do mais forte”, só posso dizer que é uma ideia ultrapassada, que não condiz com todos os casos presentes na natureza e utilizá-la como desculpa para menosprezar seres-humanos é um erro grosseiro.

II

Certamente, todos nós concordamos que a teoria da evolução ainda encontra alguns problemas. É uma teoria forte, porém incompleta. Ainda não se sabe explicar a origem da reprodução sexuada ou da célula eucariótica. A explosão do cambriano e como a vida se originou são lacunas que perduram até hoje. O que alguns não sabem é que essa mesma teoria não está em conflito com a maioria das coisas que acreditam estar. Isso é algo engraçado. Vejo pessoas dizendo que a evolução contradiz a biogênese, a entropia, a estatística, o bom-senso, mas raramente vejo essas pessoas atacarem onde a teoria realmente ainda não explica. Um exemplo disso está em processos de convergência presentes na natureza que, segundo alguns, contradizem a aleatoriedade da evolução.

Pois bem, segundo essas pessoas, uma mesma característica não poderia surgir independentemente em duas populações diferentes pois seria improvável demais. Para um fenômeno que ocorre essencialmente ao acaso, não seria possível uma estrutura, como a asa, por exemplo, surgir mais de uma vez em táxons distintos. Essa alegação se baseia na estatística. Para os seus defensores, dizer que a asa surgiu em vários grupos diferentes equivale a defender que um mesmo apostador ganhou na mega sena mais de uma vez. O melhor adjetivo para descrever esse comportamento tipicamente criacionista é “afobado”. Nomeamos uma estrutura considerando uma ou mais características que supostamente a designam. No caso das asas, seriam estruturas que permitem um vôo ativo e independente. Isso significa que qualquer estrutura que obedeça a essas definições pode e deve ser chamada de “asa”, independente do modo pelo qual ela alcança essas propriedades. Só que isso não implica que essas estruturas devam ser idênticas.

As asas são um exemplo didático, e até bonito, de como a crença na evolução como fundamentalmente aleatória é falsa. Na natureza existem leis bem estritas: qualquer coisa que não funcione muito bem estará apenas consumindo energia e a seleção natural ceifará tudo o que não for útil o suficiente. O que não significa que ela não premie, e muito bem, os improvisos. Dentre todas as estruturas possíveis de existir, pouquíssimas permitem o vôo, mas os caminhos para chegar a essas estruturas são bem mais diversos do que imaginamos à primeira vista.

Desenho das asas de aves e insetos. Notem que as diferenças são muitas.

Para começar, vamos analisar os grupos vivos que possuem asa, que seriam as aves, os morcegos e os insetos (Os pterossauros assim como algum possível grupo portador de asa desconhecido e extinto ficam de fora). Quanto às asas, todas são estruturas chatas e alongadas, quase ovais, que possuem flutuabilidade, força propulsora e arrasto. Sob o ponto de vista funcional, elas podem ser bem parecidas, mas anatomicamente as diferenças são muito maiores. As das aves podem ser entendida como um braço de um dedo só (na verdade, ainda tem o polegar, formando a álula) e com penas. Os morcegos possuem membranas interdigitais enormes, sendo as asas as suas mãos estendidas, por isso o nome “quiróptero” (asa nas mãos). E temos as asas dos insetos, que são bem diferentes das anteriores. São membranas finas e vascularizadas e, ao contrário dos vertebrados, nos insetos os músculos estão inseridos apenas no tórax.

Fóssil de Archaeopteryx

Mas como essas asas vieram a surgir é que é a parte interessante. São caminhos muito diferentes levando para o mesmo modo de locomoção. A origem das asas nas aves remonta à sua ancestralidade com os dinossauros, mais especificamente os terápodos (o grupo do velociraptor e do tiranossauro), chegando à espécie considerada como a ave mais antiga, que seria o Archaeopteryx. Seriam terápodos pequenos, leves, as penas seriam escamas modificadas. Essas penas estariam presentes não só no Archaeopteryx, como também em alguns de seus ancestrais terrestres. A função das penas em um dinossauro que não voava, ainda que pequeno, é uma incógnita. Mas devemos lembrar que nem tudo possui uma função em termos de sobrevivência, podendo as penas servir como display, seja para assustar predadores ou atrair fêmeas. O que muitos não sabem é que existiu uma porção de dinossauros com penas. Alguns deles possuíam muitas penas nas pernas traseiras e certamente muitas dessas linhagens de répteis penados foi extinta. Voltando aos Archaeopteryx, eles eram dinossauros muito pequenos, do tamanho aproximado de um pé humano, e não se sabe ainda se eles voavam ou apenas planavam. A hipótese atual para o comportamento desse bicho é que ele realizava vôos baixos e curtos, certamente para capturar animais voadores como libélulas. É a conhecida hipótese terrícola. Além de ser uma hipótese mais plausível, eu particularmente gosto muito dela, graças a um detalhe: ela lembra muito o começo do vôo dentro de nossa própria civilização. Como os primeiros aviões, o Archaeopteryx também não realizava vôos elaborados e extensos. O 14-bis voou apenas alguns metros, somente depois surgiriam aviões capazes de voar durante horas, percorrer continentes ou atingir velocidades supersônicas. Com as aves essa história é semelhante. Hoje existem aves que atravessam o planeta, pairam no ar e realizam rasantes em altíssimas velocidades. Um começo humilde, pouca coisa mais do que um mero salto, para enfim o vôo e todas as suas possibilidades.

Dumbo: inspirado pela história de sucesso dos insetos?

Para os insetos, a origem das asas é completamente diferente. As membranas que hoje são usadas para o vôo, antes eram usadas como termorreguladoras. Esse mecanismo não é novo. Para resfriar a linfa, o inseto a espalhava por uma membrana fina e a sacudia velozmente aumentando a troca de calor entra a linfa e o meio. Elefantes fazem algo análogo, irrigando as orelhas com sangue e abanando-as. O que os elefantes não conseguem é utilizar essas orelhas para voar (ao menos os elefantes reais, desconsiderando, neste caso, o Dumbo). É uma pena que não possamos conhecer a compreensão de mundo de um inseto, pois seria engraçado imaginar o quão perplexo ficou o primeiro inseto encalorado em seu primeiro vôo. E algo tão versátil, útil e poderoso quanto as asas, nascendo de um mecanismo prosaico de termorregulação. É como se os helicópteros tivessem sido inventados por um fabricante de ventiladores. Você pode imaginar a cena.

O que há de mais moderno em termos de "asas".

O ponto é: muitas pessoas veem na funcionalidade e na beleza da natureza um projetista infinitamente sábio e onisciente por trás. Tanta convergência, tanta eficiência só pode ser interpretada como obra de um designer inteligente. Bobagem. Não interessa o quão perplexos fiquemos com a complexidade de nosso mundo, sempre existe uma ótima explicação. Uma explicação mais completa, plausível e elegante, que só pode ser obtida através de muito estudo e muita perspicácia (sempre com uma pitada de  criatividade). Poderíamos encerrar a questão das asas como prova cabal de que existe um deus por trás das espécies e que ele sabe o que está fazendo, mas morreríamos sem conhecer as suas histórias evolutivas, interessantes e belas por si mesmas, como as próprias asas que deram origem.

Existem várias maneiras desonestas de se atacar um argumento. Essas maneiras são conhecidas como falácias e os criacionistas abusaram delas para atacar a teoria da evolução durante uns bons séculos. Talvez, mais corretamente, eu deva dizer que existem maneiras desonestas de não se atacar um argumento, visto que uma falácia consiste em desviar do argumento principal para tratar de um assunto inválido e/ou irrelevante para o debate. Falarei de uma falácia em especial, perniciosa e muito eficiente quando apresentada a um público leigo. É a famigerada falácia do espantalho.

“Argumento” de um criacionista. Eles tentaram...

“Falácia” é o tipo de coisa que, depois que conhecemos, começamos a encontrá-las por todos os lugares. Pois bem, quanto à falácia do espantalho, ela tem um certo grau de imundície, visto que ela consiste em criar uma versão deturpada do argumento e atacar a versão falsa, não o argumento em si. O que eu vejo como “certa imundície” reside justamente na deturpação e posterior atribuição de ideia tão ridicularizada ao debatedor. Imagino que essa deturpação venha principalmente da própria ignorância e não de uma tentativa deliberada (e propriamente suja) de ridicularizar.

Como a “versão espantalho” criacionista da evolução é imensa, vou abordá-la ponto a ponto. Falarei aqui sobre a ideia de que a teoria da evolução é incompatível com a teoria da biogênese. Começarei por ela por se tratar de um equívoco comum, principalmente quando levamos em conta como a evolução e a origem da vida são explicadas na escola.

Em primeiro lugar, a alegada incompatibilidade é incorreta. A teoria evolutiva não busca explicar a origem da vida, mas sim como as populações variam conforme o passar do tempo. Contudo, é inegável que essa mesma teoria acaba levantando a questão da origem. Certo, derrubamos a crença de que as espécies foram criadas tais como são hoje de maneira sobrenatural. Mas, então, como surgiram?

Eu estava ajudando a minha irmã a estudar para a prova de biologia do colégio. Comecei a discutir sobre a teoria da abiogênese, que foi cabalmente derrubada por Pasteur, sendo imposta a teoria biogenética no lugar. Só que a teoria da biogênese carregava uma ideia um tanto quanto ilógica: “A vida surge apenas de vida”. Então a minha irmã veio com uma pergunta, muito pertinente por sinal: “Mas, afinal, se vida surge apenas de vida, como surgiu a primeira?”

Perguntinha cabeluda. Não vou adentrar nas respostas por dois motivos. O primeiro é que não existe uma teoria sólida, apenas um conjunto de hipóteses. Segundo que, mesmo que eu abordasse apenas as hipóteses, acabaria tornando o texto demasiadamente extenso. O ponto é que a afirmação citada há pouco é falsa. A vida não pode surgir apenas de vida. Aliás, essa sequer é a conclusão do próprio Pasteur. O que ele atacou não foi toda a ideia de abiogênese, mas, especificamente, a da geração espontânea, como seres vivos complexos surgindo de matéria inorgânica.

Louis Pasteur derrubando a hipótese de geração espontânea.

O espantalho de toda essa história é o seguinte. A teoria evolutiva é falsa, pois supostamente estaria dependendo da teoria abiogenética, cabalmente derrubada por Pasteur. Devo dizer que este é o espantalho criacionista mais feliz de todos, visto que ele consegue pegar uma ideia simples ensinada na escola e colocá-la deturpadamente para falsear outra ideia, bem menos ensinada, que seria a evolutiva. Quando a questão é colocada desta maneira, com a evolução entrando em discórdia com a biogênese, realmente parece que o neodarwinismo é um devaneio patético.

Pois o que eu posso dizer sobre tudo isso? Conclui-se que Pasteur derrubou, entre outras coisas, que carne podre não era capaz de gerar moscas espontaneamente. Mas ele certamente não derrubou a teoria de que essas moscas surgiram a partir de insetos dípteros ancestrais e se diversificaram através de mutações e seleção natural. Uma coisa definitivamente não tem nada a ver com a outra.

Percebe-se uma tentativa desesperada de encontrar incongruências no neodarwinismo. Falarei sobre outro exemplo, no meu próximo texto, que falará sobre… asas!

II

Existe um recurso muito comum utilizado pelos crentes que é a falácia da autoridade. Ela funciona da seguinte maneira: argumenta-se que a afirmação é correta, pois ela supostamente foi defendida por uma pessoa ilustre. Um exemplo: “Fulano disse que é assim, e como ele tem PhD em tal área (não interessa qual) então deve estar certo”.

Mas é aí que vem a parte engraçada. No último texto falei de como a “ciência” caiu no imaginário popular como inimiga da “fé” ou mesmo de “deus”. Muitas vezes a ciência e a tecnologia eram retratadas como algo contrário aos bons tempos em que as crianças jogavam peão e não video games, e se andava de carroça ao invés de carro. Ou então os cientistas eram os arrogantes sabichões contradizendo antigas culturas e tradições de pessoas humildes. Mas bastava um cientista defender a ideia de que a ciência corroborava a fé para que este se tornasse uma autoridade de confiança instantaneamente. E então vem a falácia de autoridade mais irônica que eu conheço. Muitos textos apologéticos são recheados de citações de bioquímicos, físicos, matemáticos e geólogos, como se as palavras destes possuíssem maior peso do que a de qualquer outra pessoa. Não é a eloquência de seus argumentos ou o quão suas ideias refletem o mundo natural mas meramente o fato de serem cientistas e dizerem que deus existe.

Se algum dia encontrarem um texto avulso, como os manuscritos do mar morto, revelando em alguns de seus versículos que as espécies derivadas evoluem de suas ancestrais, a teoria neodarwinista será alavancada de “inimiga da fé” para “evidência de que deus existe”. O número de criacionistas iria cair e, quem sabe, Darwin seria canonizado! Brincadeiras a parte, a verdade é que a ciência é menosprezada ou mitificada quando convém. Mas, afinal, a ciência apóia ou derruba deus? Para mim, a resposta é fácil. Nem um nem outro, a ciência não trabalha com deus. Mas para os que creem não só em deus como na ciência como sua aliada/inimiga, essa pergunta é muito pertinente.

Para resolver esse dilema, muitos apologistas apelaram para a ideia de “cientistas verdadeiros”. Conceito nebuloso esse, o de “cientista verdadeiro”. Nada menos do que outra falácia, apelidada de “Falácia do escocês de verdade”. Para exemplificar, suponhamos que eu diga o seguinte: escoceses não bebem vinho. Então ao entrar em um pub qualquer você encontra um escocês bebendo vinho, para o meu desagrado. Esse testemunho eu posso desmerecer afirmando que “Um escocês de verdade não bebe vinho”. E ficaria eu sem definir o que diabos seria um escocês de verdade. Vai ver que o sujeito que você encontrou no bar simplesmente nasceu na Escócia, mas não possuía todos os atributos de um “bom escocês”. Falácia; meu argumento foi derrubado no momento em que você avistou o escocês “no ato”.

Linus Pauling - O que falta para ele ser considerado um cientista de verdade?

Aqueles que não se encaixam no perfil carente de definições de um “cientista de verdade” decerto são pseudocientistas. Exemplos desses “pseudocientistas”? Bom, temos Francis Crick; Paul Dirac; Alan Turing; S. Weinberg; James Watson; Steven Pinker; Linus Pauling; Susan Greenfield; Ernst Mayr; John M. Smith; Sir Julian Huxley e, enfim, a lista é enorme. Vale lembrar duas coisas. Primeiro, a lista de cientistas que acreditam em deus também não é pequena. Segundo, muitos dos cientistas considerados como “não verdadeiros” ou “materialistas” se autodefinem como agnósticos e não como ateus, apesar de que F. Crick, por exemplo, se definir como “um agnóstico com forte inclinação para o ateísmo”. De onde a ideia de “cientistas verdadeiros” surgiu é assunto para o meu próximo texto. É um assunto grande, pois muitos dos maiores cientistas da história acreditavam em deus(es), o que é motivo para grande orgulho de muitos religiosos desinformados. Só que a crença desses grandes gênios é algo peculiar quanto à sua natureza, assim como a época na qual esses cientistas viveram deve ser analisada cuidadosamente.

Os nomes que eu citei anteriormente são de pessoas muito importantes para a humanidade, vale lembrar. Dizer que Watson e Crick, os descobridores da estrutura do DNA, não são “cientistas de verdade” é atestado de ignorância. Temos ainda Linus Pauling, ganhador do Nobel de química e também da Paz (deve ser muito chato para um fanático saber que um ateu ganhou o Nobel da paz). Fora outros, mais claramente ateístas, como Stephen Jay Gould, Richard Dawkins e Carl Sagan. Não sei o que falta para esses senhores e senhoras serem considerados cientistas de verdade. Mas os apologistas certamente sabem. Se ao menos eles demonstrassem qualquer sinal de crença, seriam eles considerados geniais.

Quanto à porcentagem de ateus, tem esse estudo de Edward J. Larson e Larry Witham [1] feito dentro da NAS (National Academy of Sciences). A grande maioria é ateia, com um número menor de agnósticos e um número menor ainda de tementes a deus. Não sei como essa porcentagem se representa em outros lugares, mas certamente é um dado interessante.

O ponto é que isso é irrelevante. O estudo de Larson e Witham não prova que “verdadeiros cientistas” são ateus. Mas certamente é um soco no estômago para aqueles que acreditam em uma “ciência verdadeira” na qual deus é constantemente demonstrado. Qualquer posicionamento em um debate deve ser avaliado pelo peso de seus argumentos, nunca por falácias como a da autoridade, onde algo proferido por um doutor deveria valer mais do que por um leigo.

Notas:

[1]Nature, Vol. 394, No. 6691, p. 313 (1998) © Macmillan Publishers Ltd.

Deus e a Ciência:

1. A mitificação da ciência salvadora

2. No quê os cientistas acreditam

3. A crença dos grandes gênios

4. Sobre os magistérios não-interferentes