Tag Archives: fanatismo

Um indivíduo que abraça todas as oportunidades de defender seu ponto de vista, que tenta explicá-lo a todos os que se dispuserem a ouvir, sempre encontrando um meio de relacionar qualquer assunto à sua ótica particular, é um fanático. Ele está apaixonado. Não consegue mudar de assunto. Todos sabemos o que é uma paixão, e é indiferente se ela se direciona a uma pessoa ou a uma ideia, tampouco se essa ideia é verdadeira ou não. Inspirado pelo sentimento místico de iluminação interior, o indivíduo se sente inclinado a mudar o mundo sem jamais mudar a si próprio, mas aqueles que o cercam só veem alguém que nunca muda o assunto.

Agora imaginemos a seguinte situação: somos apresentados a um vídeo no qual vemos alguém numa praça pública defendendo seu ponto de vista ardorosamente, interrompendo todos os que se encontram no caminho para propagandear suas convicções. Logo percebemos que se trata de um fanático. Porém, eis o detalhe: o vídeo em questão não tinha áudio, com imagens de pouca definição. Inferimos que se tratava de um fanático pela forma como se comportava em relação às suas ideias, pelo modo agressivo como tentava impô-las, não pelo seu conteúdo propriamente dito. O indivíduo poderia muito bem ser um ateu falando de evolucionismo; não faz diferença. O fanatismo independe do conteúdo da crença — e até a postura mais racional pode ser defendida fanaticamente. Por isso mesmo, o fanatismo também não indica se um ponto de vista está certo ou não. A verdade depende dos fatos, não da convicção.

O exemplo acima nos permite distinguir entre a forma de uma ideia e o conteúdo dessa mesma ideia. Assim, por motivos diferentes, um indivíduo torce por um time, outro torce por um time diverso, mas a forma de ambos é a mesma: eles torcem. Muda apenas o conteúdo, a explicação que dão para justificar seus atos, ainda que isso não justifique nada.

Pois bem, suponhamos agora que o indivíduo realmente fosse um ateu. Naquela situação, ele estava defendendo a ciência com o mesmo ardor com que um beato se curva à cruz. Poderíamos recorrer à explicação segundo a qual não é possível que um ateu seja fanático, pois o ateísmo não é uma crença, e sim uma descrença, mas isso é meramente um rodeio vocabular. Nenhuma argumentação muda o fato de que ele se comportava exatamente como um igrejeiro.

A conclusão é que para um indivíduo ser fanático basta que se comporte como um. Não importa se suas convicções têm fundamento ou não. Por isso, na medida em que se torna prescritivo — seja por si próprio, seja na forma de antimovimento —, o ateísmo — ou qualquer outro ponto de vista — também não se distingue de uma religião.

A história da fé, das religiões, da metafísica, quase poderia ser resumida aos métodos que inventamos ao longo do tempo para nos doparmos naturalmente. Se a fé consola, se a meditação acalma, isso ocorre pura e simplesmente porque rezar e meditar são meios de induzir estados mentais que consideramos agradáveis, arrancando recompensas específicas de nossos cérebros. Dentro disso, Deus nunca passou de um grandioso pretexto, pois o fato é que verdades reveladas não nos revelam nada. Invejamos nas catarses místicas dos santos o mesmo que invejamos em junkies com agulhas espetadas nas veias, e quando viciados superam sua dependência por meio da fé, não se trata de milagre algum: apenas mudaram de traficante.

Isso pode parecer uma argumentação delirante. Porém, se o objetivo da religião não fosse dopar os indivíduos, alucinações e experiências místicas, paz na alma, sucesso e felicidade pessoal não seriam vistos como argumentos em favor da veracidade da religião. Ninguém, ao buscar religiões, está em busca da verdade, e sim da felicidade, e isso deixa perfeitamente claro que ter fé se trata de maximizar as possibilidades de sucesso no emprego do efeito placebo. Como a eficiência do placebo está intrinsecamente ligada à nossa capacidade de acreditar, não de saber, a veracidade da crença religiosa torna-se absolutamente irrelevante nesse particular. O conteúdo da crença é simplesmente gratuito, pois não passa de uma metáfora, de uma imagem à qual a convicção pode fixar-se para alcançar o resultado que deseja, coisa que será um benefício prático qualquer, pois é óbvio que, se almejassem conhecimento, se dedicariam ao estudo.

Muitos criticam, não sem razão, a cegueira causada pela fé. Contudo, tendo em vista que a eficiência do efeito placebo depende exatamente da firmeza da convicção, faz perfeito sentido que a fé não dê importância aos fatos, pois sua função não é conhecer, mas exercer controle sobre nosso universo mental. Apenas por isso na religião a dúvida é um pecado, e também por isso se prega desprendimento em relação ao mundo material e submissão à autoridade. Quem acredita quer resultados, não explicações. Basta ter fé: compreende-se agora o que isso significa? Deus existe para tornar a fé possível, e não o contrário. Milagres são os casos em que o efeito placebo deu resultados, e isso é prova suficiente da existência de Deus. Chorem os ateus, mas a crença funciona, do contrário não haveria tantos viciados em fé. Observemos apenas que, assim como usuários pesados de LSD, aqueles que utilizam muita fé dificilmente retornam à realidade. Incapazes de administrar seu vício, a depender de seu caráter, tornam-se santos ou fanáticos.

Entre ateus, um dos debates mais recorrentes gira em torno dos obstáculos psicológicos que atrapalham a transição da crença para a descrença.

É unânime que o maior motivo é o medo da morte. Mas eu falarei sobre este obstáculo em particular em outros textos, pois exige uma discussão maior. Neste texto falarei sobre a descabida fama de fundamentalismo atribuída aos ateus em geral.

Eu entendo as pessoas que não se consideram ateias justamente por este motivo. Muitas se dizem “agnósticas”, outras dizem “não acreditar em nada”. No imaginário popular “ateísmo” está associado com “negação” e não com “dúvida” ou “ceticismo”. Chego até a ouvir coisas como: “Não gosto que me chamem de ateu. Eu simplesmente não acredito em deuses.”

Pois ateísmo é justamente isso, é a descrença em deuses. O problema já começa no sufixo. “Ismo”, uma ideologia, um grupo, um plural. Mas é difícil definir ateísmo como uma ideologia. Da mesma maneira que não nos sentiríamos muito tentados em definir alguém como um militante do “aunicornioísmo” simplesmente por não acreditar em unicórnios.

Claro que eu seria muito ingênuo em comparar, no seco, deus com unicórnios. Existem muitas semelhanças, mas, como toda a analogia, têm suas diferenças. A principal diferença é que a crença em deus se tornou tão ampla que a tratamos como o default. O que entendemos por “normal” se baseia na maioria. Se 90% da população humana fosse perneta, os portadores de um par de pernas seriam “aberrações”. No mundo real, dizemos que as pessoas com apenas uma perna são “pernetas”, mas não precisamos de um termo para as que possuem duas, pois elas são o nosso “normal”. E a situação não é diferente para a descrença em deus, muitas vezes tratada como algo excêntrico, um desvio, uma anormalidade (e de fato é, sob o ponto de vista estatístico).

Outro problema seria a associação histórica entre ateísmo e negação. Em séculos anteriores, um ateu normalmente era alguém teimoso. Não existia toda essa quantidade de informação facilmente disponível. Outros ainda defendem que o prefixo “a” de “ateu” pode e deve ser interpretado como negação. Mas duvido que defenderiam o mesmo para “agnóstico”. Eles seriam o que, afinal? Seriam “negadores do conhecimento”?

Mas a atual associação feita entre ateísmo e fundamentalismo deve muito à deturpação causada por certos crentes, estes verdadeiramente fanáticos. Nomes como Dawkins, Hitchens, Harris, Dennet e até mesmo Sagan aparentemente despertam mais ódio do que Lúcifer e Judas. Esses dias, em um debate no Fórum Ateus.net, apareceu essa charge aqui:

Imagem

Isso resume perfeitamente a versão cômica e degenerada que muitos teístas fanáticos pintam dos ateus. O ateu da esquerda comete terrorismo intelectual dizendo que “não há como fugir do universo” (sabe-se lá o que o autor quis dizer com isso). O ateu do meio preenche o estereótipo mais popular no imaginário crente, o arrogante detentor da verdade absoluta. Um terceiro ateu se limita a pregar o amor de Darwin em mais uma caricatura descabida.

Agora eu pergunto: Você já viu algum ateu fazer qualquer uma das coisas retratadas na charge?

Certamente não. Eu pelo menos nunca vi algo assim. Mas vi algo parecido, feito não por ateus, mas sim por crentes. E é aí que está a grande ironia.

A sátira feita sobre os ateus usa elementos típicos de um… Crente fanático!

O ateu da esquerda fala sobre o universo exatamente da mesma maneira que um crente fundamentalista fala de seu deus vingador. O segundo ateu cita um interessante fato sobre a cosmologia justamente como um cristão ou muçulmano fanático citaria um versículo de seu livro sagrado. E o terceiro espalha o “amor de Darwin” da mesma maneira que um cristão o faz com Jesus.

A charge se transforma em um reconhecimento do ridículo. Assim como boa parte da argumentação teísta encontrada pela internet, carente de conteúdo e lotada de falácias. Convenhamos, é muito intrigante que alguém critique um grupo retratando-o com atributos característicos do seu próprio. Imagine um macumbeiro que, na tentativa de sacanear os católicos, faça uma charge na qual um padre está prestes a despachar uma galinha preta.

O que poucos percebem é que o ateísmo cético é uma posição bastante neutra. Aliás, irritantemente neutra para muitos. Tão neutra quanto a descrença em fadas. Um ateu crê no ateísmo no mesmo grau que um banguela escova os seus dentes. É algo tão neutro que “simplesmente não há”.

Eu queria encerrar esse texto com uma questão deveras relevante para quem quer que acredite em fundamentalismo ateu.

Existe uma boa razão para um ateu ser fundamentalista?

Bom, muitos sequer conseguirão imaginar uma boa razão para ser ateu, que dirá um fundamentalista, mas pensem. Um teísta temente a um deus pai vaidoso e vingador tem uma boa razão para ser fundamentalista. Basta piscar torto e terá um castigo eterno e sofrido para amargar. Mas o que puniria um ateu? O que ele ganharia sendo fundamentalista?