Tag Archives: fé

Já foi dito aqui, muitas vezes, que um ateu não crê que deus não existe. Ou ao menos não que isso seja necessário para caracterizá-lo como ateu. Muitos não-ateus gostam de lembrar que os ateus também creem em alguma coisa, como se crer fosse uma atividade proibida ao grupo. Obviamente, nada impede um ateu de crer em algo que não seja um deus. Não falo aqui das crenças mais ordinárias, como acreditar que tem que estar no trabalho daqui a meia hora ou acreditar que o Brasil é banhado pelo oceano Atlântico. Darei um exemplo de uma crença muito comum entre nós, ateus, seguindo a definição mais restrita de “crença” com a qual denotamos a crença dos, vejam só, crentes.

A crença no livre-arbítrio. A crença no livre-arbítrio talvez não esteja no mesmo patamar da crença de que Jesus nasceu de uma virgem, mas está lado-a-lado com a crença na vida eterna. Não é uma crença tão ingênua quanto a virgindade de uma mãe; no entanto, com certeza é muito esperançosa. Eu acredito, ou tento acreditar, mas o meu lado cético – que está preocupado em acreditar no que é real – briga com o meu lado esperançoso – que procura acreditar no que agrada – e minha crença não fica muito definida. Óbvio que, quando me refiro a ateus, é apenas uma parcela que acredita em livre-arbítrio.

Fala-se de maneira muito leviana no livre-arbítrio, de maneira ainda mais leviana sobre “liberdade” (eu gostaria muito que os norte-americanos me explicassem que “liberdade” é aquela pela qual eles lutam; nunca entendi direito). Adianto que é um assunto “levemente pesado”, se me permitem a contradição. Já falei sobre morte, defendi que deuses não existem (ou que não é lógico acreditar neles, vale esclarecer), mas falar sobre liberdade é mais pesado. Esclarecendo, falo de “liberdade” nesse texto como sinônimo de livre-arbítrio, até porque, se o livre-arbítrio não existe, então não existe qualquer forma de liberdade. Pensar que não somos livres para escolher, para desejar, é mais incômodo do que pensar que deixaremos de existir ou que não há deus. Na verdade, perto do livre-arbítrio, questões como “deus” e “morte” parecem até brincadeira de criança.  Provavelmente não existe deus algum nos protegedo nem garantia de vida após a morte, mas  o que importa é que vivemos e que, acredita-se, ajudamos a construir um mundo melhor. Desacreditar no livre-arbítrio implica acreditar em uma existência pela qual somos meros espectadores, passivamente gostando ou odiando os eventos que se sucedem.

Pegarei um exemplo banal para ilustrar o problema. Imaginemos que você vai a uma loja e deve escolher uma entre duas camisetas. Uma delas é amarela e a outra é azul. Você escolhe a azul. Ponto. Então você sai pela rua com uma camiseta azul, satisfeito com ela, imaginando que sua escolha foi boa. Tudo muito tranquilo até agora. Então você se lembra que, dias atrás, alguém te disse que a cor azul estava na moda. Veja como isso desvaloriza a sua decisão! No fim, o que te levou a escolher a camiseta azul foi apenas uma sugestão fútil sobre tendências da moda. Você imediatamente se sente uma ovelha em seu rebanho, uma ovelha vestindo uma camiseta azul. Talvez quem te disse sobre a moda da cor azul estava se beneficiando com o estouro de vendas de camisetas azuis. Então, só para se rebelar, você decide que talvez seja melhor comprar uma camiseta amarela e dar um “não” às tendências da moda e um “sim” à livre-escolha. Mas daí você se lembra que existe algo chamado “psicologia reversa” e que talvez a intenção era justamente a de fazer você comprar uma camiseta amarela. Como um pato, você caiu e começa a pensar se um pato de camiseta amarela é tão melhor assim que uma ovelha de azul. De um modo ou de outro, a sua escolha foi determinada pela alegação de que a cor azul está na moda.

Podemos supor que ninguém nunca te sugeriu nada e você comprou uma camiseta azul por achá-la mais bonita. Mas e por que você a acha mais bonita? Por que o azul te lembra a paz? Vai ver ele te lembra a paz pois é a cor de um céu limpo, ou porque lembra o mar, praia, férias. Nesse caso, a sua escolha não foi determinada por um interesseiro; foi determinada pela lembrança do mar e do céu que algum dia lhe represetaram paz. Fato é que ela não foi determinada por você e sim pelo que aconteceu em seu passado. Nossas escolhas não nascem espontaneamente no momento em que a realizamos; elas são consequências da carga de experiências que tivemos desde que nascemos.

Tudo fica muito mais leve quando falamos de camisetas e cores. Mas é claro que a questão se estende bem além disso. Aprendemos a ter orgulho de nossas escolhas, como a escolha da faculdade certa ou da esposa certa (ou do marido certo). Fazemos escolhas que consideramos erradas e ficamos imaginando como seríamos mais felizes se tivéssemos seguido um caminho diferente. Sem o livre-arbítrio, esses orgulhos e divagações são infundados. Como folhas boiando em um rio, onde nós somos as folhas e o rio é o meio em que vivemos, podemos ir parar em um lago limpo ou em um esgoto, mas não faz sentido se orgulhar por um ou se lamentar pelo outro. Uma existência sem deus ou sem vida eterna ainda é recheada de méritos, de glórias. Sem livre-arbítrio essas coisas se perdem. Termino o meu segundo texto sobre “morte” falando sobre a importância de deixar um bom legado. Digo naquele parágrafo que o legado é a eternidade concretizada pelos atos. Mas que coisa vazia seria se os seus atos não fossem escolhas suas e sim meras consequências inevitáveis. Darwin termina sua obra-prima dizendo “Há grandeza nessa visão da vida”, se referindo à crença de que todas as formas de vida surgiram de apenas uma, muito mais simples. E ele estava certo: há muita grandeza mesmo nessa visão da vida. Há grandeza na visão de um ateu também, não tenham dúvida, de uma vida sem deuses, uma vida que é bonita por si só. Existe igual grandeza em uma vida que tem um início e um fim, que deve ser aproveitada. Mas não, não há grandeza alguma sem livre-arbítrio.

Imaginem que hoje à noite uma pessoa vai bater na sua casa e lhe trazer uma notícia. Essa pessoa veio do futuro e viu tudo. Veio lhe dizer que a sua vida será medíocre e que você não chegou nem perto de realizar algum sonho seu. Pois bem, como não existe livre-arbítrio, a sua vida realmente será medíocre; quando confrontado com a opção de seguir uma via mais laboriosa e arriscada, você inevitavelmente negará em prol de uma mais confortável. Mas, se o livre-arbítrio existe, a mensagem dessa pessoa (muito importuna, por sinal) será apenas um incentivo para você ser um grande homem ou uma grande mulher. Isso demonstra de maneira mais clara o quão a descrença no livre-arbítrio é pior do que a descrença em deus ou na vida eterna. Tão pior que, pela primeira vez, eu espero sinceramente que alguém refute o meu texto com muita categoria, para que eu possa dormir tranquilo acreditando mais convictamente na liberdade de escolher.

Bom, para terminar, sem livre-arbítrio a vida é comparável a uma montanha russa. Na montanha russa, estamos presos em carrinhos que percorrem subidas e decidas. Como na nossa vida sem liberdade, as subidas e decidas não dependem de nossas escolhas e nossas emoções são determinadas em uma interação passiva na qual você apenas sente as consequências. Bom, termina o percurso da montanha russa, cheia de subidas, descidas, loopings e parafusos – todos eles lhe causaram uma gama de emoções diferentes. Medo, felicidade, alívio ou até mesmo enjoo. Não faria mesmo sentido se te descem parabéns por ter estado no ponto mais alto da montanha russa ou te consolassem por ter passado pelo mais baixo. Ninguém te perguntaria como você fez para dar todos aqueles loopings e ninguém dedicaria uma página na Wikipédia sobre “o parafuso que você deu naquela montanha russa”. Fazemos coisas semelhantes na vida real, como parabenizar e consolar, considerando os sucessos assim como os fracassos, e a analogia com a montanha russa mostra que essas atitudes não fazem tanto sentido assim. Mas talvez uma, e apenas uma pergunta seria relevante, tanto na vida como na montanha russa:

“O passeio estava bom?”

Há basicamente três correntes do ceticismo – a saber, o religioso, o filosófico e o científico. Dentre as três, o ceticismo científico é o sinônimo mais comum para aqueles que autodefinem “céticos”. Diz-se da pessoa que questiona as suas crenças com base no entendimento científico. Assim, as alegações passam a ser analisadas e consideradas verdadeiras se puderem passar por testes empíricos.

Resumindo assim, é impossível ser completamente cético. Há uma série de alegações que não podemos testar empiricamente e que, mesmo assim, tomamos por verdadeiras. E não falo aqui de testarmos nós mesmos todas as alegações possíveis, pois seria inviável tornar-se sapiente o bastante para empreender testes em determinadas áreas que exigem um aprofundamento que leva um bom tempo de nossas vidas.

Para as alegações do grupo testável e que não podemos testar nós mesmos, confiamos nos profissionais em suas respectivas áreas e nos fiscais de seus trabalhos. É aqui que entra um novo significado de ceticismo mais condizente com uma sociedade baseada na informação: devemos ser cautelosos e prudentes na escolha das fontes que nos informam. Não há ideia extravagante que não encontre excêntricos dispostos a defendê-la.

Enquanto a ciência simplesmente ignora alegações sobrenaturais ou paranormais, o manto de arrogância lhe é inevitavelmente associado pelos defensores de tais práticas. Não entendem eles que suas alegações escapam ao escopo empírico e que provas anedóticas não satisfazem o desejo legítimo de conhecer. Nem percebem a faceta tendenciosa de suas publicações autoafirmativas.

São – na falta de melhores palavras – pessoas desinformadamente informadas, que buscam somente as fontes que corroboram suas crenças íntimas e que as acham por um preço módico, mas nem sempre. Esconder ou ignorar as teses contrárias é um claro sinal de como as nossas crenças podem nos tornar os canalhas que não somos em outras tantas ocasiões. Que não entendam com isso, todavia, uma equivalência entre fontes científicas e folhetins apologéticos.

Não se trata de um simples apelo à autoridade, mas da aplicação do que se entende por ceticismo em nossos tempos com uma abordagem prática às fontes nas quais buscamos conhecimento. Uma verdadeira fonte científica dá detalhes sobre a metodologia, apresenta as teses concorrentes, bem como descreve os procedimentos, e qualquer um pode repetir os passos e comprovar o resultado por si. Em contrapartida, as “alternativas” à ciência comumente se baseiam em reduzi-la à ignorância e a argumentação não passa de autovitimização.

Ao invés de comprovarem que suas práticas funcionam através de procedimentos, limitam-se a repetir lamentos sobre como são ignorados pela ciência, comumente taxada de “preconceituosa” e “limitada”. Fazem crer que há uma conspiração mundial entre os cientistas para que pesquisas não sejam realizadas e, quando feitas, que os resultados sejam abafados. No entanto, quando há as pesquisas e os resultados são divulgados, resta-lhes ainda explicar por que a conclusão não lhes é favorável, geralmente alegando um interesse escuso que não sabem dizer exatamente qual.

“Por que tantos tementes a deus?” Essa é uma pergunta muito boa. Nós, ateus, gostamos de debater sobre o assunto e expor nossas conclusões. Debatemos usando argumentos contra a existência de deus(es) e, principalmente, por que não é racionalmente aceitável acreditar em algum. Mas existe um fato que aparentemente derruba todas as nossas tentativas: existe uma boa quantidade de tementes a deus, deuses ou demais entidades sobrenaturais. Diante do fato de que a vasta maioria da humanidade acredita em deus ou deuses, nosso arsenal de argumentos parece quixotesco.

A resposta padrão de muitos ateus a essa questão é: os motivos racionais são poucos ou nenhum, mas os emocionais são muitos e são fortes. Eu me uso dessa resposta, pois realmente acho, depois de anos debatendo com teístas, que os motivos que levam à crença no sobrenatural são majoritariamente de caráter emocional. Uma boa porção deles insiste em dizer que não, possuem argumentos na ponta da língua, mas estão apenas querendo se enganar e, cedo ou tarde, acabam expressando que são, de fato, levados pela emoção.

Novamente, meu intuito não é rebater esses argumentos. Se algum teísta considerar que estou errado, sinta-se à vontade para postar seus argumentos nos comentários de nossos textos. Quero discutir o que seria essa tão falada motivação emocional. Ir além de simplesmente taxar a crença alheia como mera emoção e dar nome aos bois.

Bom, comecemos por um conceito muito desejado por nós: justiça. Queremos que os usurpadores paguem pelos seus atos e que os altruístas sejam recompensados. Tentamos fazer isso dentro de nossa sociedade com nossas próprias mãos, criando prisões e castigos para os primeiros, assim como honras e presentes para os últimos. Porém, reconhecemos nossas limitações e ansiamos por uma força promotora de justiça mais plena. Essa justiça tem que vir de algo maior que nós, mais poderoso e incorruptível. Esse “algo” normalmente é chamado de “Deus”.

Depois temos a curiosidade. A ambição citada no parágrafo anterior reflete uma característica marcante de nossa espécie, que é a vida em sociedade. O desejo de adquirir conhecimento amplo e seguro advém de outro aspecto nosso, que é a vontade de aprender. Dentro de uma sociedade majoritariamente cristã, é comum ouvir de muitos cristãos que o conteúdo da bíblia é uma verdade absoluta e que é tudo o que precisamos conhecer, que a sabedoria ali ensinada é mais profunda do que a mais brilhante eureca de um simples humano. Comicamente ouvimos muito frases do tipo: “no fim todos nós saberemos quem está certo”. É a crença de que, depois da morte, além da justiça feita teremos todas as respostas. Já falei um pouco sobre essa crença aqui (Porque não Acreditar, 5º parágrafo).

O terceiro desejo é a vontade de nunca deixar de existir. Em bom português: “o medo da morte”. Não me adentrarei nele, pois já dediquei três textos ao assunto (este, este e este). Só adianto que considero esse o desejo mais íntimo e o maior responsável pela crença no sobrenatural. Os três grandes desejos aqui comentados não são exclusividade de teístas. Ateus também os possuem. O que muda é que um deles aceita suas limitações e o outro abafa o fato com crenças sobrenaturais.

Portanto, como já devem ter percebido, podemos resumir esses três motivos como um desejo muito íntimo presente em todos nós. Uma fome muito grande por coisas que não vêm na quantidade que gostaríamos. Essa fome imensa que é a mãe de todas as fés. A justiça é rara, o conhecimento é pouco e a vida é curta. Essa fome se sacia acreditando que a justiça será feita, que todos os mistérios do mundo (ou ao menos os poucos que realmente interessam) podem ser desvendados e que a nossa existência não se finda com nossa morte. Essa crença poderia vir da maneira padronizada, através da lógica e da observação. O problema é que “lógica” e “observação” definitivamente não nos levam a concluir o que gostaríamos, então a nossa crença tem que vir do nada, é preciso ter fé. Tornamos uma dada limitação, que é a incapacidade de possuir um entendimento pleno sobre todas as coisas a nosso favor e colocamos os nossos anseios neste mar de ignorância que reconhecemos possuir. Nós, ateus, chamamos esse deus, que mora no incompreendido, de “deus-das-lacunas”. O que escapa nossa razão agora é algo sobrenatural e sacia a nossa fome. Ou pelo menos vai saciar, um dia quem sabe, basta ter fé e paciência…

Não acreditamos em deus pois não existe evidência alguma de que esse mesmo exista.

Essa posição parece ser muito radical para muitas pessoas que não perceberam o cerne da questão pois, como dita a velha frase: “a ausência de evidência não é evidência da ausência”. O tal “cerne” da questão eu discutirei no texto, assim como porque não acreditar em deuses é a coisa mais sensata a se fazer enquanto não existe uma evidência sequer mostrando o contrário. Lembrando que eu não abordarei as supostas “evidências” a respeito do assunto porque é assunto demais para um texto só, fora que estou familiarizado o suficiente com uma boa quantidade dessas “evidências” e precisaria ler/ouvir algo muito diferente para ficar realmente surpreso. Para entender essa questão, irei começar pela rota menos óbvia: supor que deus exista. Claro, vamos ter que pegar um deus em específico, pegarei o abraâmico por estar mais familiarizado com este.

Deus existe, ele realmente criou a terra como está descrito no Gênesis, veio a Terra como Jesus e fez um monte de coisas. Façamos esse exercício mental. O que impede que ele exista? Bom, se foi ele quem criou homens e mulheres (do barro e de uma costela, respectivamente), então pode muito facilmente ter determinado suas limitações. Limitações como não ter a capacidade lógica o suficiente para entender as Suas motivações. Da mesma maneira que uma formiga não tem capacidade lógica para entender sobre buracos-negros, por exemplo. Então, esses humanos poderiam ter evoluído tecnologicamente, ter avançado na filosofia e na cultura, mas mesmo assim ainda seriam limitados. Todas as evidências empíricas possíveis e a mais brilhante lógica do mundo não seria o suficiente para revelar a verdade, que seria a de que Deus existe e foi ele quem os criou. Deus veria todos ali, pessoas crendo nele, outras crendo noutros deuses, e ainda umas que seriam atéias. Somente aquelas pessoas seletas, cristãs, estariam corretas. Não pela lógica ou pela observação, mas puramente porque resolveram acreditar em algo. Resolveram acreditar em Cristo, que por acaso foi uma vez que Deus veio dar uma banda no seu planeta favorito para consertar as próprias mancadas.

Conseguiram ver o erro? Para muitos teístas, o que eu escrevi agora expressa direitinho a lógica por trás de suas crenças. Na verdade, boa parte deles, partindo da premissa de que a minha suposição é muito mais do que suposição, acaba vendo os ateus como “tolos”. Afinal, Deus existe e todos aqueles ateus, escarafunchados na “lógica” e no “empirismo”, são incapazes de acertar a verdadeira resposta. Existe um problema muito grande nessa questão.

O problema é, em um palavra: critério. Crença é uma questão de critério. Não se trata apenas de estar certo em um determinado assunto e ignorar qual foi o meio pelo qual se obteve a respectiva conclusão. Eu dei o exemplo do deus abraâmico e, para muitas pessoas, isso parece corresponder com a realidade. Mas reparem que, se eu substituir a palavra “Deus” por um outra qualquer, digamos, “Sauron”, a suposta “lógica” do parágrafo não decresce nenhum pouco. Alguns poderiam dizer que eles não sentem por Sauron o que sentem por Deus, mas e porque o próprio criador do universo deveria se importar com isso? Se a própria lógica foi abandonada pelo deus da bíblia, o que impede Sauron de abandonar as emoções? E se não fosse Sauron, se fosse uma mega corporação de gnomos invisíveis eu sigo dizendo que a “lógica” não diminuiria nem um pouquinho.

Precisamos de critério pois existe um fato muito indignante: Nunca seremos capazes de contemplar a realidade em toda a sua plenitude. Tudo o que sentimos é um interpretação da realidade e, como tal, sujeita a defeitos. Como o nosso acesso à realidade é apenas parcial, resta sermos criteriosos. Engraçado como muitos crentes costumam dizer “no final, veremos quem está certo”, na crença de que algum dia a “Verdade” será revelada. Essa crença decerto lhes dá mais tranqüilidade para fazerem suas apostas de fé. Mas é claro, não existe absolutamente nada que garanta ou mesmo indique que qualquer verdade será revelada só para saciar a nossa curiosidade.

Em uma última analogia, imaginem europeus em pleno século XIII. Suponhamos que, um cidadão português tenha concluído, acertadamente que existe todo um continente para o oeste e que devem ser realizadas expedições para lá. A nobreza portuguesa, interessada na conclusão do informante, resolve perguntar como ele chegou a ela. Perguntam se ele realizou expedições para aqueles mares, se ele viu embarcações surgirem de lá. Eis que ele diz ter descoberto o suposto continente por ter fé em sua existência. Apresentado desta maneira, alguém pode achar que seria sábio por parte da nobreza seguir o palpite louco do cidadão e ter gasto fortunas com expedições. Acontece que eu estou usando um exemplo muito específico. Aqueles mares eram desconhecidos e fora do alcance lógico dos portugueses. Seria, no fim das contas, insensato mandar naus para lá mesmo que esse caso em particular alavancasse o progresso de Portugal. Isso porque, da mesma maneira que seguiram um palpite certeiro, poderiam seguir uma miríade de palpites muito mais desastrosos e, portanto, colapsariam.

E é por isso que a questão não gira em torno do “porque deus não existe” mas sim “porque não deve se acreditar nele”. E não se deve acreditar por simples honestidade intelectual. É você sendo verdadeiro com os seus conhecimentos, sem dar chutes afobados na pretensão de estar certo.

E se eu dissesse que, dentro de uma semana, uns primos seus do interior te visitarão em casa. Sete dias depois aparecem uns chimpanzés. Qual a sua reação? Vai recebê-los com comes e bebes ou vai mandá-los para um zoológico? Pense bem, pois os seus primos vieram diretamente do interior da África só para restabelecer laços familiares enfraquecidos há mais de 4 milhões de anos¹. Você e os seus primos, unidos por um casal de antropoides, que recordações vocês teriam dessa época de vacas magras? Um ramo da família ficou pelas florestas da África e o outro pretende conquistar o mundo.

Bom, se você é um teísta bitolado, deve ter odiado essa minha situação hipotética. Meu texto é endereçado a esse público, teístas e criacionistas reacionários que rolam de rir com a idéia de um suposto parentesco entre nós, humanos, e o resto dos primatas. Uma coisa que você, criacionista, não percebe é que a sua casa está cheia de primos. Até mesmo o seu intestino está cheio deles. No seu almoço você deve ter devorados alguns.

Não, não existem chimpanzés morando no seu intestino ou no seu prato (assim eu espero). Falo de primos ainda mais antigos. Se o seu almoço foi um bife, saiba que você divergiu da sua comida cerca de 85 milhões de anos atrás¹. Mas, se você é um vegan, então você e seu almoço estão separados por muito mais tempo. A data é imprecisa, mas é superior a um bilhão de anos. Tudo família.

Eu falei tudo isso para deixar clara uma coisa. A teoria da evolução não é sobre humanos evoluindo de macacos é algo muito mais amplo. Ela é ainda mais incorreta ser for interpretada como os humanos descendendo de macacos atuais (e não de primatas extintos, que seriam os ancestrais comuns a humanos e chimpanzés, por exemplo). Mas os macacos, os humanos, ou mesmo todos os primatas são meramente uma pequena parte do objeto de estudo que seria toda a biosfera, seus componentes vivos e seus ancestrais (compondo o que chamamos de “Árvore da Vida”).

Clássica caricatura de Darwin

É aí que entra a falácia do texto. Fazendo um retrospecto, no meu primeiro texto eu falei da falácia da abiogênese, um erro advindo da falta de clareza com que a biologia é ensinada nas escolas. Depois eu fui para a falácia da convergência de características, provinda de uma idéia errada na qual a evolução é essencialmente aleatória e de que essas características são praticamente iguais. A terceira falácia citada é a mais suja e polêmica de todas e diz que evolucionismo e nazismo andam de mãos dadas. Na quarta eu lidei com a evolução apresentada na mídia em massa e como isso reflete a visão das pessoas sobre a teoria. Nesta última, a falácia mais clássica de todas é a do homem surgindo do macaco. Traduzindo essa última falácia em apenas uma pergunta, muito difundida e freqüente: “Você acredita que viemos dos macacos?”.

Provavelmente você, criacionista ao qual me dirijo, já deve ter perguntado isso a muitas pessoas. Outra frase muito recorrente é: “Eu não acredito na evolução, pois não acho que o homem tenha se originado de macacos.” O que eu posso dizer é que essa afirmação está completamente equivocada em diversos graus.

O primeiro erro eu já deixei bem claro. Evolução não se trata apenas da origem do homem, portanto, não serei repetitivo. O segundo erro, como eu já disse no quarto parágrafo, depende do que você entende por “macaco”. Se a sua idéia é um macaco que você viu no zoológico ou na televisão, então devo dizer que está enganado. Os macacos atuais são tão ancestrais seus como você é ancestral do seu priminho de dois anos. Ou seja, vocês são parentes, unidos por um ancestral comum que, no caso do primo de dois anos são o vovô e a vovó; no caso dos macacos são vovôs e vovós de espécies extintas há milhões de anos, mas um não é o ancestral do outro.

É muito interessante notar o quão difundida é essa falácia. O motivo principal eu falei logo no meu primeiro texto deste sítio. Dizer que somos parentes de macacos ofende. Algumas pessoas ainda deliram sonhando que viemos de anjos ou de partes da anatomia de deuses poderosos. É meio frustrante para essa legião de iludidos admitir que seus avós não faziam parte de guerras celestiais ou participaram da criação do mundo. Frustrante porque ainda não foram capazes de contemplar a realidade em toda a sua grandiosidade, então preferem o devaneio místico a que estão habituados. Essa falácia é a mais importante, embora não seja a mais suja ou perigosa, porque traduz claramente a maior barreira para a compreensão da teoria evolutiva: o orgulho.


1. DAWKINS, Richard. A Grande História da Evolução: Na trilha de nossos ancestrais. Tradução de Laura Teixeira Motta – São Paulo: Companhia Das Letras, 2009.

Pense em um genocídio, um grande crime. Qual o primeiro evento que lhe veio à mente? Holocausto. A Alemanha nazista, o terceiro Reich, é um exemplo clássico de crime hediondo contra a humanidade. É muito difícil encontrar alguém hoje em dia que não veja o holocausto como uma afronta às mais básicas noções de ética. Baseados nesse julgamento, acabamos taxando por tabela todas as coisas associadas a esse crime como igualmente ruins. E uma delas é o darwinismo social, erroneamente associado, devo dizer, à teoria evolutiva propriamente dita.

O cerne do darwinismo social é/era cruel, porém cientificamente embasador em algo conhecido como eugenia: um método que consiste em selecionar indivíduos de interesse dentro de uma população e fazer com que eles se reproduzam, gerando uma prole mais útil. Mas antes que me atirem pedras, saibam que eu defendo a lógica por trás da metodologia, apenas. Animais domésticos, cereais e culturas de bactérias são exemplos vivos de sua eficácia. O problema do darwinismo social foi aplicar este método para uma população na qual ele não seria útil, no caso, populações humanas. Matar seres-humanos em massa é o total desprezo por um dos maiores trunfos da humanidade: uma adaptação maior do que qualquer outra que poderia ser produzida através da eugenia, que é a sociabilidade. A força do Homo sapiens reside na sua sofisticada capacidade de se comunicar e de sociabilizar, habilidades completamente desprezadas quando um crime dessa magnitude acontece.

Pois eis aí o maior de todos os espantalhos criacionistas: a suposta “Lei do mais forte”. O mais imundo e apaixonadamente defendido de todos os espantalhos. Quando uma crítica à teoria da evolução apela para temas como o darwinismo social, ela deixa de ser apenas desinformada e começa a ser suja. Dizer que devemos aplicar o princípio da eugenia em populações humanas é um exemplo clássico de falácia naturalista, na qual confundimos postura ética com fenômenos observados no comportamento de outros seres vivos. Resumindo o mais imundo dos argumentos criacionistas: a teoria da evolução é falsa, pois apoia crimes como o holocausto, através da “lei do mais forte”. Sujo, não?

Mas, se a teoria da evolução não diz que o mais forte deve prevalecer, então o que ela diz? Bom, aqui convém eu expor a minha própria visão sobre o que essa teoria diz. Antes devo lembrar que, como todas as teorias dentro das ciências empíricas, a teoria evolutiva é uma maneira de explicar um conjunto de fatos observáveis através de sentenças puramente racionais. Ela não é uma ideologia que deva ser seguida com paixão por uma multidão de fanáticos.

Quanto ao que a teoria diz, é comum lermos que se trata da “sobrevivência do mais forte”. Mais uma vez a ideia equivocada de que o indivíduo forte deve sempre sobrepujar os mais fracos. Antes de ser uma luta pela sobrevivência a vida é uma luta pelo legado. O legado de nosso material genético e, em níveis mais sofisticados, o legado de nossas ideias (memes). Como fazer para perpetuar os genes não interessa, desde que funcione. Se para tal propósito seja necessário ou conveniente desmerecer os fracos e favorecer os fortes, assim será. Mas se for mais interessante que os indivíduos de uma determinada população formem uma sociedade na qual um lava a mão do outro, então está feito. O que realmente importa é crescer e se reproduzir, produzindo uma prole que seja capaz de fazer o mesmo por si só. Para tal vale tudo: existem seres vivos que voam, outros que nadam, alguns que fazemc fotossíntese. Talvez a mãe se sacrifique para que a prole tenha segurança e alimento, ou a única célula de um protozoário se preocupe apenas em se dividir em mais duas células. O objetivo é sempre o mesmo, porém o ambiente está em constante mudança. O que é adaptativo pode deixar de ser depois de alguns milhões ou milhares de anos e os caminhos para atingir esse mesmo objetivo são inúmeros.

Acontece que esse é um espantalho com mais de um erro. A falácia inicial é dizer que a evolução se baseia na lei do indivíduo mais forte, a já extensivamente comentada falácia do espantalho. Uma segunda falácia é bem mais sutil, mas um bocado irrelevante quando posta lado a lado com os outros erros desta afirmação. O fato de uma teoria supostamente trazer tristeza não invalida o seu caráter de verdade. Bom, essa falácia é irrelevante porque ela se baseia no maior equívoco presente na ideia de “lei do mais forte”, que é confundir teoria empírica com ideologia, coisa que eu já discuti anteriormente. Portanto, não se trata de uma teoria trazer felicidade ou tristeza, pois isso não está no seu escopo.

A parte mais interessante desse assunto é que poucas pessoas conhecem uma das mais interessantes conclusões tiradas da teoria neodarwinista: é bom ser bom. Ser altruísta pode ser adaptativo. Claro que isso vai depender muito do contexto. O altruísmo é interessante quando consiste em um indivíduo realizando um sacrifício que é compensado pelo benefício gerado ao grupo. Podemos concluir que, em um caso isolado, o indivíduo ainda assim é prejudicado. Mas se formos considerar vários casos ao decorrer do tempo nos quais existe um altruísta e um grupo sendo beneficiado, então esse indivíduo estará sendo beneficiado indiretamente, mesmo que eventualmente ele tenha que se sacrificar. Evidentemente, o altruísmo só se mostra útil dentro de grupos, desde bandos a sociedades com milhões de indivíduos. Mas esse é um assunto extenso demais que precisaria de outro texto. Quanto à suposta “lei do mais forte”, só posso dizer que é uma ideia ultrapassada, que não condiz com todos os casos presentes na natureza e utilizá-la como desculpa para menosprezar seres-humanos é um erro grosseiro.

A história da fé, das religiões, da metafísica, quase poderia ser resumida aos métodos que inventamos ao longo do tempo para nos doparmos naturalmente. Se a fé consola, se a meditação acalma, isso ocorre pura e simplesmente porque rezar e meditar são meios de induzir estados mentais que consideramos agradáveis, arrancando recompensas específicas de nossos cérebros. Dentro disso, Deus nunca passou de um grandioso pretexto, pois o fato é que verdades reveladas não nos revelam nada. Invejamos nas catarses místicas dos santos o mesmo que invejamos em junkies com agulhas espetadas nas veias, e quando viciados superam sua dependência por meio da fé, não se trata de milagre algum: apenas mudaram de traficante.

Isso pode parecer uma argumentação delirante. Porém, se o objetivo da religião não fosse dopar os indivíduos, alucinações e experiências místicas, paz na alma, sucesso e felicidade pessoal não seriam vistos como argumentos em favor da veracidade da religião. Ninguém, ao buscar religiões, está em busca da verdade, e sim da felicidade, e isso deixa perfeitamente claro que ter fé se trata de maximizar as possibilidades de sucesso no emprego do efeito placebo. Como a eficiência do placebo está intrinsecamente ligada à nossa capacidade de acreditar, não de saber, a veracidade da crença religiosa torna-se absolutamente irrelevante nesse particular. O conteúdo da crença é simplesmente gratuito, pois não passa de uma metáfora, de uma imagem à qual a convicção pode fixar-se para alcançar o resultado que deseja, coisa que será um benefício prático qualquer, pois é óbvio que, se almejassem conhecimento, se dedicariam ao estudo.

Muitos criticam, não sem razão, a cegueira causada pela fé. Contudo, tendo em vista que a eficiência do efeito placebo depende exatamente da firmeza da convicção, faz perfeito sentido que a fé não dê importância aos fatos, pois sua função não é conhecer, mas exercer controle sobre nosso universo mental. Apenas por isso na religião a dúvida é um pecado, e também por isso se prega desprendimento em relação ao mundo material e submissão à autoridade. Quem acredita quer resultados, não explicações. Basta ter fé: compreende-se agora o que isso significa? Deus existe para tornar a fé possível, e não o contrário. Milagres são os casos em que o efeito placebo deu resultados, e isso é prova suficiente da existência de Deus. Chorem os ateus, mas a crença funciona, do contrário não haveria tantos viciados em fé. Observemos apenas que, assim como usuários pesados de LSD, aqueles que utilizam muita fé dificilmente retornam à realidade. Incapazes de administrar seu vício, a depender de seu caráter, tornam-se santos ou fanáticos.