É fato inegável que há várias áreas de conhecimento. O que se considera ciência em sentido estrito são todas aquelas disciplinas que aplicam o método científico na sua empresa. Temos, portanto, a biologia estudando os seres vivos; a química estudando a constituição dos elementos na natureza; a física estudando a parte mecânica do universo. A lista é imensa e suas divisões podem ser citadas ad infinitum.
Mesmo fora do escopo da ciência em sentido estrito, há disciplinas que nos dão bons questionamentos que dificilmente seriam alvo de uma análise laboratorial: são as ciências humanas, dentre elas boa parte da psicologia e a filosofia, de modo geral; além das ciências sociais, como a própria sociologia ou o direito. São disciplinas especulativas, que, mesmo sem a relativa certeza do método científico, têm uma boa forma de controle sobre as variáveis que procuram analisar.
É de senso comum que, dentro de uma determinada área de conhecimento, os que trabalham nela são mais autorizados a falar dos elementos incluídos. Não chega a ser um apelo à autoridade, mas é o reconhecimento pelo fato de que não podemos abarcar toda a gama de novas pesquisas em todas as áreas que julgamos interessantes. Somos forçados a escolher uma área de trabalho e a acompanhar remotamente todas as outras nas quais não temos tempo para nos aprofundarmos.
No entanto, não devemos dar total confiança a alguém só porque está no escopo de sua área de conhecimento. Não são raros os casos em que um entusiasta apresenta maior destreza no que deveria ser de domínio do profissional. Uma ideia faz sentido por si só ou não faz de forma alguma. Quem a teve é irrelevante, desde que se consiga usar de métodos confiáveis de análise e reprodução.
Com essa separação didática entre as disciplinas, fica fácil identificar qual delas é mais apta a nos dar respostas para determinado fato. Tirando as obscuras áreas interdisciplinares (físico-química, bioquímica etc.), sabemos muito bem a quem nos reportar. E raramente precisamos mais do que daquela área para saciar nossa curiosidade.
É com esse tipo de discurso que alguns religiosos tentam justificar suas crenças. Para este tipo de pessoas, a ciência não entra em terreno da religião e a religião não procura ser científica. Mas é realmente uma alegação legítima?
Não. Em primeiro lugar, à parte das religiões “ateístas” orientais, toda e qualquer religião postula a existência de um ou mais deuses. A existência objetiva de algo é uma alegação completamente passível de estudos científicos. Em segundo lugar, todos os fieis que louvam suas divindades esperam algum tipo de resposta ou intervenção para os seus pedidos. Caso tivessem respostas objetivas, a interação seria facilmente identificada.
É fato que a maioria dos mitos de criação das religiões atuais só passaram a ser vistos como tal depois de um conhecimento razoavelmente bom sobre as origens de nosso universo. Até então, o que estava em livros sagrados era tido como a verdade revelada, seja sobre elefantes montados em tartarugas ou sobre escultores de argila.
Já que a religião não pode, em tese, fazer alegações científicas sobre o mundo, pois esta não é sua função – ou seu magistério, como diria Gould[1] –, o que resta para ela? Que área de conhecimento ou atuação lhe é exclusiva? Para aqueles que alegam a área de conforto contra os fatos negativos da vida (i.e. morte, dor, perda), será que não podemos ter isso por meios puramente seculares? Aos que alegam obras e instituições de caridade, não temos tantas outras de igual ou maior valor que são, no entanto, laicas?
A resposta parece ser óbvia: não há mais lugar para a religião em nosso mundo e o preço que temos que pagar por seus benefícios há muito já ultrapassaram a nossa quota de tolerância. O prejuízo é evidente e só não enxerga quem não quer sair do barco que naufraga lentamente.
[1] GOULD, Stephen Jay. Nonoverlapping magisteria. Artigo disponível em <http://www.stephenja…gould_noma.html> Acesso em 26 fev. 2010.
