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Don Pedro de Barberana y Aparregui, Cavaleiro de Calatrava, por Diego Velázquez.

Don Pedro de Barberana y Aparregui, Cavaleiro de Calatrava, por Diego Velázquez.

Fundada no reino de Castilha, região que hoje é território espanhol, a Ordem de Calatrava foi a segunda Ordem de Cavaleiros a receber apoio papal. O papa Alexandre III reconheceu sua legitimidade em 1164, com o objetivo principal de melhor organizar a ofensiva da Batalha da Reconquista, na qual portugueses e espanhóis pretendiam expulsar todos os muçulmanos da península Ibérica.

Os cavaleiros da Ordem lutaram e combateram os muçulmanos que ocupavam a região andaluz. Mas não foi até 1409 que a Ordem, que tinha por símbolo a cruz da Igreja Católica Ortodoxa Grega entrelaçado pela flor-de-lis, símbolos da cristandade, ganhou poder político, quando o papa Inocêncio VII, convencido do sucesso da campanha da Ordem do Dragão, patrocinou política e financeiramente a Ordem de Calatrava para investir contra o império Otomano.

Calatrava, Wallachia e Constantinopla são apenas alguns dos vários sítios históricos que testemunharam o derramamento de sangue por motivos religiosos. Não sejamos simplistas a ponto de achar que tais fatos ocorreram apenas pela fé. Nenhum rei, nem mesmo o Papa gastaria tanto dinheiro e patrocinaria tantas mortes se não houvesse real interesse econômico e político no domínio cristão na Europa.

As igrejas sempre foram grandes máquinas de coletar dinheiro (muitas vezes às custas das ilusões daqueles que não têm mais ao que se apegar), e perder a galinha dos ovos de ouro seria um preço muito caro. Foi preciso, nestes dois últimos séculos, fechar os olhos para o sexto mandamento de Moisés.

Mas os livros de história estão sempre empoeirados nas prateleiras daqueles que querem dedicar a vida à religião. Quinhentos anos parece algo tão distante e surreal que é fácil negar ou ignorar o cheiro de carcaça que ainda brota de um passado nem tão distante.

A verdade é que não precisamos ir tão longe. Para manter as chamas da ignorância acesas, atropelam-se deliberadamente os fatos que, se não fossem patrocinados por uma poderosa entidade religiosa, jamais passariam desapercebidos. Quem seria capaz de ignorar o legado de crueldade deixado pelo nazista? Qual empresa se safaria de tantas acusações de pedofilia por parte dos seus representantes?

Enquanto existir o controle das massas por essas megaempresas multinacionais que,explorando a fraqueza emocional e a necessidade de consolo espiritual, enriquecem os salões do Vaticano e os bolsos dos pastores evangélicos, continuaremos jogando a sujeira para debaixo do tapete e fechando os olhos para as atrocidades cometidas sob a proteção da batina e do crucifixo.

Localizada entre o rio Danúbio e as geladas montanhas de Cárpatos, ergue-se a fria e solitária região de Wallachia. Aparentemente esquecida pelo tempo, a região localizada ao sul da Romênia foi testemunha de determinantes conflitos históricos que livraram o leste europeu de um possível domínio Turco.

Entretanto, não é por estes conflitos que a região é principalmente conhecida, mas pela fama nebulosa que circunda um de seus mais notórios governantes, Vlad III, imortalizado pelo folclore romeno e posteriormente difundido globalmente pelo aclamado romance de Bram Stoker e as suas várias adaptações para o cinema.

Vlad III nasceu na Transilvânia e aos cinco anos de idade foi levado a Nuremberg, onde foi iniciado na Ordem do Dragão. O Voivoda exibia orgulhosamente o título de Draculea, significando“o filho do Dragão”; uma clara referência ao seu pai, Vlad II Dracul, conhecido como O Dragão, membro honorário da Ordem.

Com sua lealdade posta em dúvida entre os membros do Conselho Húngaro, Vlad II Dracul firmou um acordo com sultões turcos, prometendo pagar-lhes tributo e não oferecer resistência à sua expansão. Como garantia, O Dragão enviou seus dois filhos a Edirne, então capital do império Otomano, na condição de reféns.

Vlad III em seu famoso desjejum entre as vítimas de empalamento. Ilustração do século XV: “O bosque dos empalados”. Autor desconhecido.

Vlad III em seu famoso desjejum entre as vítimas de empalamento. Ilustração do século XV: “O bosque dos empalados”. Autor desconhecido.

O que os jovens da Transilvânia não sabiam era que seu genitor tinha planos de sacrificá-los como parte de uma manobra protelatória política, obtendo assim os favores dos demais nobres húngaros. Vlad III e seu irmão Radu, o Belo, ficaram sob a custódia de Mehmed II, que, ao invés ordenar a morte dos dois jovens, como esperado, tinha planos de doutriná-los de acordo com os costumes islâmicos e mais tarde reinseri-los no poder, constituindo então um reino muçulmano no coração de Wallachia.

Os irmãos testemunharam a rigidez com que o sultão controlava seu povo. Relatos históricos nos mostram que Radu não demorou a converter-se ao islamismo, porém Vlad era constantemente punido pela sua insolência e recusa a abandonar o cristianismo. Ambos receberam treinamento em táticas de guerra, aprenderam a língua turca e estudaram profundamente o corão. O empalamento era algo praticado em larga escala na Turquia.

Descontentes com a posição que Vlad II Dracul assumira com relação aos Otomanos, Hunyadi liderou ataque ao principado de Wallachia, assassinando o então governante da região juntamente com seus filhos mais velhos. Esta ação fez com que os otomanos atacassem o sul da Romênia, com o objetivo principal de tornar líder Vlad III. Este governo, entretanto, não durou muito e logo João Hunyadi investiu novamente contra a região, depondo Vlad Ţepeş e substituindo-o por Vladislav II.

Acreditando ter dado o trono para um simpatizante do islamismo, os turcos prepararam-se para uma nova investida, marchando contra Constantinopla, hoje Istambul, com a intenção de eliminar a última resistência cristã no mediterrâneo.

Referência cristã no emblema da Ordem do Dragão. Inscrição: O Draconistarum ordeurs, Justus et Paciens. Representa a vitória de São Jorge sobre o Dragão, da cristandade sobre Satanás.

Referência cristã no emblema da Ordem. Traz a inscrição "O Quam Misericors est Deus, Justus et Paciens". (Ó quão misericordioso é Deus, justo e paciente).

Vlad fugiu para Moldavia, onde tinha a proteção do seu tio Bogdan II. Ali, Vlad Ţepeş teve a oportunidade de se encontrar com Hunyadi, um homem extremamente religioso e preocupado com a situação do país, e conseguiu convencê-lo de que não apenas conhecia profundamente os costumes e hábitos turcos, mas que sobretudo não havia se convertido ao islamismo, a exemplo do seu irmão. Hunyadi nomeou Vlad III seu conselheiro de guerra.

Em 1451, Constantinopla caiu nas mãos do império Otomano, que marcharam novamente, desta vez para Belgrado, com fins de dominar toda a região da Romênia. Com o apoio de Hunyadi, Vlad III liderou um pequeno exército contra Wallachia, assassinando Vladislav II e retomando o poder. Enquanto isso, Hunyadi liderava os seus homens para a Sérvia com a intenção de montar uma resistência.

Vlad III governou Wallachia com punhos de ferro. As punições eram exemplares; para todo tipo de delito havia penas severas, e a mais comum delas era o empalamento. Foi por causa desse modus operandi que ganhou o apelido de Vlad Ţepeş, ou Vlad, o Empalador.

Até os seus últimos dias de vida, Vlad lutou para manter Wallachia um reino cristão, e para isso matou não apenas os seus inimigos, mas também os seus conterrâneos subordinados. O medo presente na população da região era tamanho que diz-se ter existido um cálice de ouro no centro de sua capital sem que ninguém ousasse subtraí-lo. Era uma demonstração clara do seu poder de controle. Vlad provocou os otomanos, não pagando seus tributos e empalando qualquer muçulmano que se aproximasse do seu país. Mehmed então invandiu a Wallachia com aproximadamente 80 mil homens de armas.

Vlad não possuia mais do que 40 mil homens, mas organizou uma resistência psicológica. Atacava constantemente os otomanos enquanto dormiam, tornando-se famoso o episódio “Ataque Noturno“, onde pelo menos 15 mil otomanos foram mortos. Tudo o que os turcos encontraram ao invadir a Romênia foi uma floresta de corpos empalados e um trono vazio. Sem dinheiro para continuar a sua resistência, Vlad III foi unir-se ao seu aliado Matthias Corvinus, na esperança de conseguir convencê-lo a defender o seu principado. Matthias, entretanto, ordenou a prisão de Vlad.

Após ter se tornado cativo na Húngria, foi libertado a pedido do próprio Papa, para que voltasse à Wallachia, onde asseguraria que o cristianismo predominasse sobre o islamismo. Temendo a volta ao poder pelo seu carrasco líder, populares atacaram e mataram Vlad Ţepeş, expondo sua cabeça em uma alta estaca.

Pio II. O Papa que ajudou a criar e patrocinou a Ordem do Dragão.

Pio II. O Papa que ajudou a criar e patrocinou a Ordem do Dragão.

Os casos bárbaros e as lendas que circundam a figura do Empalador são muitas; seria preciso escrever um livro completo para detalhar suas façanhas cruéis. Não vou me ocupar desta tarefa. Na verdade, tenho a impressão que este texto está se tornando longo e enfadonho. Por isso termino este capítulo da Ordem do Dragão, que narra a história de um de seus mais emblemáticos líderes, com uma simples reflexão.

O papa Pio II, então governante na época, não apenas acobertou as crueldades ocorridas no Cárpatos, mas deu efetivo apoio, chegando a patrocinar financeira e ideologicamente a criação e o combate armado por parte da grande Ordem. Não apenas aprovou, mas viu estes esforços como um exemplo a ser seguido, o que mais tarde influenciaria a criação de uma nova ordem na Espanha. Mas este é assunto para o nosso próximo texto.

É assim que se expressava o amor cristão durante a Idade Média: Através de inquisições e empalamentos. É este o papel do Vaticano, e de seu Praetorium Excelsior, enquanto portadores do legado histórico conferido pela religião abraâmica? Talvez ainda exista um pouco da Idade das Trevas, em forma tênue, vagando entre os palácios do Vaticano.

      Para saber mais:

      • FLORESCU, Radu. Drácula: Uma biografia de Vlad, o Empalador, 1431-1476. Nova York: Hawthorn Books, 1973.
      • _________. Drácula: As várias facetas do Príncipe; Sua vida e sua Época. Boston: Brown and Company, 1989.
      • STOICESCU, Nicolae. Vlad, O Empalador. Bucareste: Universidade da Romênia, 1978.
      • TREPTOW, Kurt W., ed. Dracula: Artigo sobre a vida nos tempos de Vlad Tepes In Monografias do Leste Europeu. no. 323, Nova York: Editora da Universidade de Columbia, 1991.

      Apesar das evidências que dão suporte às ideias de Darwin, uma porção considerável dos cristãos insiste em defender com unhas e dentes as fábulas do gênesis bíblico. Isso não é nenhuma novidade, e essa resistência aos fatos ― notória principalmente entre os protestantes, no universo cristãos ― tornou-se tabu. “Ensine a controvérsia”, eles dizem. É como defender o ensino oficial de que o holocausto pode mesmo não ter existido, ou que o mundo é plano e encontra suporte no casco de tartarugas gigantes ou ainda que as pirâmides do Egito foram construídas por seres alienígenas.

      Design de camisetas que satirizam o movimento Teach The controversy.

      Design de camisetas que satirizam o movimento Teach The controversy.

      Mas não é exatamente sobre criacionismo que quero tratar hoje, mas sim sobre a implicância de determinada ignorância no mundo prático. Que mal pode ter? Deixe que os cristãos tenham suas fantasias sobre homens vindo do barro. O que não se percebe é a carga de dano potencial de que tais ideologias estão carregadas. Nos Estados Unidos ― um dos países mais poluidores do mundo ― há várias correntes religiosas que negam a existência do Aquecimento Global, e professa que mesmo que o planeta esteja se degradando, pouco importa pois Jesus voltará a tempo para julgar a humanidade e restabelecer a ordem. Mas nem todas as denominações protestantes americanas negam a existência do Aquecimento Global, algumas acreditam que Deus é o responsável pela mudança climática como forma de nos alertar e alterar o nosso comportamento.

      Trata-se de uma tentativa de denegrir o conhecimento científico em detrimento da incapacidade dogmática religiosa. Como afirma Lawrence Krauss, físico e diretor da Origins Initiative, da Universidade Estadual do Arizona:

      “Onde houver uma batalha sobre a evolução hoje, há uma batalha secundária para suavizar outros assuntos quentes, como o Big Bang, e, cada vez mais, a mudança climática. Trata-se de lançar dúvidas sobre a veracidade da ciência – dizer que essa é apenas mais uma visão do mundo, mais uma história, nem melhor nem mais válida que o fundamentalismo.”

      Por ser um país religioso em sua essência, inúmeros projetos de leis ― alguns chegam mesmo a ser aprovados ― combatem o ensino das teorias científicas em escolas públicas. A assembleia legislativa de Kentucky não é exceção, e um exemplo disso é o projeto apresentado pelo deputado estadual Tim Moore, que pretende negar o efeito estufa e a ação do homem como capaz de alterar o ecossistema. “Nossos filhos estão sendo apresentados a teorias como se elas fossem fatos”, afirma o deputado, “especialmente no caso do aquecimento global, tem havido um ponto de vista politicamente correto na elite educacional que é muito diferente da ciência sólida”.

      Nenhum ritual religioso foi capaz de salvar o povo Azteca do seu destino.
      Nenhum ritual religioso foi capaz de salvar o povo Azteca do seu ocaso.

      A ignorância e a relutância para aceitar fatos solidamente comprovados nem sempre podem ser encarados com inocência e complacência. Ao revés, há uma necessidade latente para que se combata esse tipo de ideologia danosa, muitas vezes hipócrita, que ainda hoje tenta impedir o avanço científico. Não precisamos mais da vigilância religiosa para nos dizer que a terra é o centro do universo, que a terra é plana ou que através de indulgências era possível comprar um terreno nos céus. Tais absurdos pertencem aos museus e livros de história, já não há mais espaço para essas puerilidades em nosso mundo hodierno. Justificar o aquecimento global como a vontade de deus, e acreditar ser possível reverter a situação através de oração e obediência religiosa é equivalente a sacrificar homens em pirâmides e esperar saciar a sede de sangue dos deuses. Todos nós sabemos como essa história termina.

      Em se tratando de plurais, os agnósticos formam um grupo bastante heterogêneo. No mínimo tão heterogêneo quanto nós, ateus. Antes que o meu texto seja mal interpretado, não chamo os agnósticos, todos eles, de “sem opinião”. O time dos “sem opinião” se refere a um grupo dentro do grupo. Um tipo particular de agnóstico muito comum e muito irritante.

      Antes de falar deste grupo, vou falar dos agnósticos no geral. Agnóstico é aquele que admite não possuir conhecimento o suficiente para ter convicção de que deus existe, ou de que ele não existe. Agora, se você é um leitor esperto, deve ter percebido que “ateísmo” e “agnosticismo” não são posicionamentos excludentes dentro de uma mesma mente pensante. Não acreditar em algo não significa ter convicção de que este algo não exista. Eu mesmo sou um ateu, e posso ainda ser definido como agnóstico. Mas vá explicar isso para o pessoal “sem opinião”…

      Mas quem são esses gajos, afinal? Bom, para começar, todos se definem como agnósticos. Eles o fazem de tal modo que fica fácil criar uma aversão (injusta) aos agnósticos em geral, mesmo que esse grupo possua pessoas muito mais lúcidas que a média da população. O diferencial do time dos “sem opinião” está, obviamente, no esforço destes em não tomar partido algum na questão da existência de deus(es).
      Esses agnósticos se baseiam em certas premissas, todas equivocadas.

      A primeira delas. “Descrer na existência de deus é crer convictamente que este não existe”.  Falso. Existe a crença e a descrença. Assim como existe a convicção. Crer em alguma coisa é agir sob o pressuposto de que esta coisa exista. Descrer é o oposto. Crer convictamente é ignorar qualquer evidência que derrube a sua crença.

      Para ilustrar esse exemplo, imagine uma porta. Agora eu lhe digo que, atrás desta porta, existe um leão faminto que não vai pensar duas vezes antes de devorá-lo. A questão é que você quer abrir essa porta. Existem duas escolhas. Você crê no que eu digo, ou descrê. Logicamente.
      A crença de que o leão existe vai se refletir nos seus atos. É muito improvável que você vá incauto em direção à porta, sendo que você acredita na existência do leão espreitador. Certamente você sequer se aproximará da porta, ou caso vá em direção a ela, o fará com muita cautela. Isso é a crença, no seu modelo de mundo, o leão está lá, e é sensato tomar bastante cuidado.

      Você pode descrer. Neste caso você abrirá a porta sem o menor receio. Ou talvez com um pouco de receio, é verdade, mas ainda assim abrirá. Você pode discutir comigo, tentar ser razoável. Um leão atrás da porta emitiria algum barulho, ou mesmo calor. Ou poderia me perguntar, e seria uma pergunta muito pertinente: “o que um leão estaria fazendo atrás daquela porta, afinal?”. Eu poderia inventar qualquer coisa. Poderia até mesmo dizer que um simples humano como você não seria capaz de compreender as minúcias da fome do leão.

      Uma crença convicta no leão seria se, mesmo sem qualquer evidência a favor do bicho, você ainda ficasse com medo. Impediria qualquer um de se aproximar da porta e gritaria aos quatro cantos que “ali tem um leão!” e que “todos deveriam se manter afastados da porta o máximo possível!”. Poderia também crer convictamente que o leão não está ali, o que é diferente de simplesmente descrer. Porque você ignoraria a priori qualquer evidência corroborando o leão faminto.

      Esse equívoco manifesta-se de maneira mais óbvia na seguinte afirmação, muito comumente pronunciada por este subgrupo peculiar de agnósticos:
      “Eu não acredito, mas eu também não desacredito.”
      Uma pérola, em minha opinião. Assemelha-se a dizer “Eu não conheço, mas eu também não desconheço.” ou “Eu não confio, mas também não desconfio.”! No entanto, é muito normal ler ou ouvir essa frase em discussões por aí afora. De maneira geral, eu tomo essa frase como um diagnóstico de que o sujeito em questão faz parte mesmo do timinho dos “sem opinião”.

      A outra premissa é a de que crer e descrer em deus(es) são posições de mesmo mérito intelectual. Discordo totalmente.
      Peguemos o exemplo do leão atrás da porta. Qual a chance de ter um leão atrás da porta, sendo que você está em um recinto fechado, dentro de uma zona altamente urbanizada, com um oceano atlântico te separando da savana africana? Cinqüenta por cento? Certamente que não. Fica óbvio que a crença e a descrença, neste caso, não fazem parte de extremos opostos de igual plausibilidade. Pois bem, o mesmo acontece com deus. Quais são as evidências de que existe algum deus? Eu desconheço. E isso que eu já li muita coisa, das mais absurdas às mais sofisticadas defesas da existência do “papaizão”.

      O religioso fanático tem uma visão romantizada das coisas. Visão essa na qual o mundo é um palco e o seu teste de fé é negar a realidade, sonhar com o além-vida e converter os infieis para a sua crença. O ateu fanático também vê as coisas de maneira exagerada. Sendo ele o paladino defensor da razão, a única virtude que um ser humano pode ter. Assim como esses dois, o agnóstico também pode ser fanático. Evidentemente, é esse o caso dos “sem opinião”. Eles também têm uma visão romântica do mundo, em que este está em uma guerra ideológica entre teístas e ateus e eles, os agnósticos, são os únicos seres sábios e iluminados que se distanciaram desse conflito para pensar livremente a respeito do mundo. Todos os três exemplos de fanáticos se mostram como pessoas simplórias. Estão sempre na constante tentativa de se destacar dos demais, colocando todos no mesmo saco e eles, como seres acima de qualquer debate.

      Mas tem algo pior no time dos “sem opinião”. Uma desvantagem adicional. Ao passo que ateus e teístas, mesmo os fanáticos, têm ao menos sobre o que se posicionar, os “sem opinião” sequer têm isso. Como eu disse anteriormente, é um esforço constante em não tomar partido. São pessoas inteligentes o suficiente para admitir que religiosidade e racionalidade não conseguem conviver juntas. Percebem que deus é algo que foge à lógica e à razão. Mas têm medo de admitir que não acreditam em deus. Claro, pois, se algum deus existir, eles estarão seriamente lascados.

      Não ter opinião é algo perdoável somente sob o estado da ignorância. Mas à medida que nos informamos mais sobre um assunto, é recomendável nos posicionarmos. Ter opinião não é sinal de fanatismo, mas sim de sinceridade frente aos seus conhecimentos. De que adianta termos conhecimento, se não colaboramos para melhorá-lo?

      Recentemente o mundo tomou ciência, através de uma matéria apresentada pelo jornal Inglês The Guardian, de um brutal Cerimonial de apedrejamento no Irã.assassinato ocorrido na Turquia. O resumo da ópera: uma jovem de dezesseis anos foi enterrada viva pela própria família, por ter sido flagrada constantemente conversando com garotos. É isso mesmo, você leu corretamente. Ela foi enterrada viva por manter diálogos cotidianas com garotos.

      A patologia desse caso não seria digna de análise se não fosse o preocupante fato de que, apenas na Turquia, homicídios com motivações similares ocorrem uma vez a cada dois dias, em média. Os chamados “assassinatos por honra”, em que se derrama sangue inocente para preencher lacunas de discernimento moral, são mais comuns no mundo islâmico do que se imagina. Segundo a CIA, 99,8% dos turcos se consideram muçulmanos. O país é também membro-fundador da Organisation of the Islamic Conference (OIC), bem como é palco principal para uma série de outras organizações muçulmanas, localizadas principalmente em Istambul [1].

      É interessante perceber que não se trata de um problema geográfico, mas cultural e religioso. Essas atitudes não estão somente enraizadas nos países islâmicos, mas chegam de navio e avião, trazidas nas bagagens dos imigrantes muçulmanos. Em 2005, o jornal alemão Spiegel noticiou a morte de seis mulheres de descendência muçulmana, por tentarem se enquadrar nos padrões de vida do seu país hospedeiro. Segundo a organizações de proteção das mulheres mulçumanas na Alemanhã e Austria, Papatya, outros 40 episódios similares ocorreram entre 1996 e 2005.

      Cerimonial de apedrejamento no Irã

      De acordo com o diretor executivo da UNICEF, mais de dois terços dos homicídios ocorridos na Palestina entre 1999 e 2003 se enquadram na nomenclatura “assassinatos por honra”. O que me parece mais preocupante é que, além dos agentes responsáveis pela matança serem membros diretos da família da vítima, estes acabam por serem vistos como heróis em suas comunidades, como aqueles responsáveis por manter a honra e os costumes das famílias tradicionais.

      Estas jovens moças me chamam a atenção pela sua coragem. Desafiam a morte em nome de uma resistência libertária, por não se submeterem às ridículas e anacrônicas exigências familiares. As filhas da intolerância não irão ganhar esta guerra sozinhas, mas, através da sua resistência no melhor estilo Gandhi, estas moças clamam silenciosamente pela nossa atenção. Enquanto a intolerância e a ignorância persistirem nos países seguidores da doutrina de Maomé e o mundo insistir em fechar os olhos em detrimento de uma suposta liberdade religiosa, mais jovens turcas terão seus pulmões preenchidos com terra enquanto tentam respirar em ambiente tão hostil.

      —————– 

      1. The Islamic Conference Youth Forum for Dialogue and Cooperation (ICYF-DC) em Istanbul

      Não é novidade que a indústria da religião movimenta uma soma incomensurável todos os dias. Todos conhecem também alguém que lucra indiretamente com a religiosidade alheia, seja por meio da comercialização de produtos cristãos, de souvenir como a venda de produtos milagrosos e indulgências modernas. Mas há novas oportunidades de mercado surgindo, com seus métodos para lá de heterodoxos na conquista de novos adeptos e melhor arrecadação financeira.

      Um exemplo incomum desta empreitada é a empresa Inspired Media Entertainment[1], antigamente conhecida por Left Behind Games: Bible and Christian Games. Baseado no best-seller apocalíptico “Deixado para Trás”, que conta com títulos como Eternal Forces. Neste bizarro enredo, o jogador se encontra no meio de uma Nova York pós-apocalíptica, que muito nos faz lembrar do atentado de 11 de setembro. No jogo, uma ordem de cristãos fundamentalistas recebe a missão de converter ateus, mulçumanos, judeus e basicamente todos os demais residentes a uma espécie de cristianismo fundamentalista.

      Aqueles que resistirem devem ser mortos.

      O jogo conta também com uma expansão: Tribulation Forces. A descrição do jogo compreende mensagens como: “combata ferozmente as forças do àanticristo, nesta guerra física e espiritual. Utilize o poder da oração para resistir à influência espiritual e defenda-se de tais ataques.” Ao navegar pelo site da empresa, você é obrigado a ouvir uma descrição em áudio de cada jogo, que afirma ser “um exemplo de ensinamento moral e de valores cristãos para as crianças e jovens, de uma forma divertida e realista”.

      Vale dizer que a empresa conta com o patrocínio do governo americano, que em 2007 encomendou centenas desses jogos para serem enviados ao Iraque, onde os soldados americanos poderiam aproveitar o seu tempo livre aniquilando infiéis virtualmente[2]. Não é à toa que o jogo, apesar de relativamente desconhecido, contou com a participação de grandes nomes, como o compositor Chance Thomas (King Kong, X-men e Senhor dos Anéis).

      Esta tentativa de atrair o público adolescente para a igreja, por meio de jogos surreais e violentos é apenas um exemplo do que está chegando ao mercado nesta última década. É obvio que o grande público não é atingido por esse tipo de jogo patético, que expressa orgulho em ser “o primeiro jogo em que orações e devoções são mais poderosas do que armas”.

      A criatividade comercial não enfrenta limitações. Eras pós-apocalípticas, cristãos fundamentalistas armados, super-heróis que têm poderes provenientes da sua fé (blibleman)[3], etc.; são exemplos absurdos, mas cada vez mais comuns e lucrativos[4] no mercado da fé. Resultado de uma profunda alienação, atua como mantenedora de tal estado, utilizando-se de perigosas técnicas de incentivo à intolerância contra aqueles que não compartilham da mesma fé. Jogar vídeo-game nunca foi tão perigoso.

      ———

      Notas

      1. LeftBehind Games
      2. Kill or Convert
      3. Bibleman
      4. Apenas em 2006 o jogo Eternal Forces gerou um lucro de dois milhões de dollares


      Algumas opiniões (em inglês) sobre os produtos da empresa IME

      • Dallas Anderson of the Billy Graham Center says, “one of the geniuses of these games is that they give gamers a chance to see the consequences of poor decisions …we’re pretty excited to see that these games were designed to provide positive moral input to a youthful generation which would otherwise not hear it.”
      • Focus on the Family (Breakaway Magazine) says, “Overall, this is a positive faith building game worth your time and money.”
      • LEFT BEHIND author Tim LaHaye says, ” … for those who are into video games, Left Behind games are the #1 most powerful vehicle for their hearts and minds that’s been invented in our lifetime.”
      • Founder of Concerned Women for America, Beverly LaHaye says, “Here is a game we heartily recommend.”
      • More than 1,000 people have recommitted their lives or come to faith as a result of our games and evangelistic website.

      Entre ateus, um dos debates mais recorrentes gira em torno dos obstáculos psicológicos que atrapalham a transição da crença para a descrença.

      É unânime que o maior motivo é o medo da morte. Mas eu falarei sobre este obstáculo em particular em outros textos, pois exige uma discussão maior. Neste texto falarei sobre a descabida fama de fundamentalismo atribuída aos ateus em geral.

      Eu entendo as pessoas que não se consideram ateias justamente por este motivo. Muitas se dizem “agnósticas”, outras dizem “não acreditar em nada”. No imaginário popular “ateísmo” está associado com “negação” e não com “dúvida” ou “ceticismo”. Chego até a ouvir coisas como: “Não gosto que me chamem de ateu. Eu simplesmente não acredito em deuses.”

      Pois ateísmo é justamente isso, é a descrença em deuses. O problema já começa no sufixo. “Ismo”, uma ideologia, um grupo, um plural. Mas é difícil definir ateísmo como uma ideologia. Da mesma maneira que não nos sentiríamos muito tentados em definir alguém como um militante do “aunicornioísmo” simplesmente por não acreditar em unicórnios.

      Claro que eu seria muito ingênuo em comparar, no seco, deus com unicórnios. Existem muitas semelhanças, mas, como toda a analogia, têm suas diferenças. A principal diferença é que a crença em deus se tornou tão ampla que a tratamos como o default. O que entendemos por “normal” se baseia na maioria. Se 90% da população humana fosse perneta, os portadores de um par de pernas seriam “aberrações”. No mundo real, dizemos que as pessoas com apenas uma perna são “pernetas”, mas não precisamos de um termo para as que possuem duas, pois elas são o nosso “normal”. E a situação não é diferente para a descrença em deus, muitas vezes tratada como algo excêntrico, um desvio, uma anormalidade (e de fato é, sob o ponto de vista estatístico).

      Outro problema seria a associação histórica entre ateísmo e negação. Em séculos anteriores, um ateu normalmente era alguém teimoso. Não existia toda essa quantidade de informação facilmente disponível. Outros ainda defendem que o prefixo “a” de “ateu” pode e deve ser interpretado como negação. Mas duvido que defenderiam o mesmo para “agnóstico”. Eles seriam o que, afinal? Seriam “negadores do conhecimento”?

      Mas a atual associação feita entre ateísmo e fundamentalismo deve muito à deturpação causada por certos crentes, estes verdadeiramente fanáticos. Nomes como Dawkins, Hitchens, Harris, Dennet e até mesmo Sagan aparentemente despertam mais ódio do que Lúcifer e Judas. Esses dias, em um debate no Fórum Ateus.net, apareceu essa charge aqui:

      Imagem

      Isso resume perfeitamente a versão cômica e degenerada que muitos teístas fanáticos pintam dos ateus. O ateu da esquerda comete terrorismo intelectual dizendo que “não há como fugir do universo” (sabe-se lá o que o autor quis dizer com isso). O ateu do meio preenche o estereótipo mais popular no imaginário crente, o arrogante detentor da verdade absoluta. Um terceiro ateu se limita a pregar o amor de Darwin em mais uma caricatura descabida.

      Agora eu pergunto: Você já viu algum ateu fazer qualquer uma das coisas retratadas na charge?

      Certamente não. Eu pelo menos nunca vi algo assim. Mas vi algo parecido, feito não por ateus, mas sim por crentes. E é aí que está a grande ironia.

      A sátira feita sobre os ateus usa elementos típicos de um… Crente fanático!

      O ateu da esquerda fala sobre o universo exatamente da mesma maneira que um crente fundamentalista fala de seu deus vingador. O segundo ateu cita um interessante fato sobre a cosmologia justamente como um cristão ou muçulmano fanático citaria um versículo de seu livro sagrado. E o terceiro espalha o “amor de Darwin” da mesma maneira que um cristão o faz com Jesus.

      A charge se transforma em um reconhecimento do ridículo. Assim como boa parte da argumentação teísta encontrada pela internet, carente de conteúdo e lotada de falácias. Convenhamos, é muito intrigante que alguém critique um grupo retratando-o com atributos característicos do seu próprio. Imagine um macumbeiro que, na tentativa de sacanear os católicos, faça uma charge na qual um padre está prestes a despachar uma galinha preta.

      O que poucos percebem é que o ateísmo cético é uma posição bastante neutra. Aliás, irritantemente neutra para muitos. Tão neutra quanto a descrença em fadas. Um ateu crê no ateísmo no mesmo grau que um banguela escova os seus dentes. É algo tão neutro que “simplesmente não há”.

      Eu queria encerrar esse texto com uma questão deveras relevante para quem quer que acredite em fundamentalismo ateu.

      Existe uma boa razão para um ateu ser fundamentalista?

      Bom, muitos sequer conseguirão imaginar uma boa razão para ser ateu, que dirá um fundamentalista, mas pensem. Um teísta temente a um deus pai vaidoso e vingador tem uma boa razão para ser fundamentalista. Basta piscar torto e terá um castigo eterno e sofrido para amargar. Mas o que puniria um ateu? O que ele ganharia sendo fundamentalista?