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Don Pedro de Barberana y Aparregui, Cavaleiro de Calatrava, por Diego Velázquez.

Don Pedro de Barberana y Aparregui, Cavaleiro de Calatrava, por Diego Velázquez.

Fundada no reino de Castilha, região que hoje é território espanhol, a Ordem de Calatrava foi a segunda Ordem de Cavaleiros a receber apoio papal. O papa Alexandre III reconheceu sua legitimidade em 1164, com o objetivo principal de melhor organizar a ofensiva da Batalha da Reconquista, na qual portugueses e espanhóis pretendiam expulsar todos os muçulmanos da península Ibérica.

Os cavaleiros da Ordem lutaram e combateram os muçulmanos que ocupavam a região andaluz. Mas não foi até 1409 que a Ordem, que tinha por símbolo a cruz da Igreja Católica Ortodoxa Grega entrelaçado pela flor-de-lis, símbolos da cristandade, ganhou poder político, quando o papa Inocêncio VII, convencido do sucesso da campanha da Ordem do Dragão, patrocinou política e financeiramente a Ordem de Calatrava para investir contra o império Otomano.

Calatrava, Wallachia e Constantinopla são apenas alguns dos vários sítios históricos que testemunharam o derramamento de sangue por motivos religiosos. Não sejamos simplistas a ponto de achar que tais fatos ocorreram apenas pela fé. Nenhum rei, nem mesmo o Papa gastaria tanto dinheiro e patrocinaria tantas mortes se não houvesse real interesse econômico e político no domínio cristão na Europa.

As igrejas sempre foram grandes máquinas de coletar dinheiro (muitas vezes às custas das ilusões daqueles que não têm mais ao que se apegar), e perder a galinha dos ovos de ouro seria um preço muito caro. Foi preciso, nestes dois últimos séculos, fechar os olhos para o sexto mandamento de Moisés.

Mas os livros de história estão sempre empoeirados nas prateleiras daqueles que querem dedicar a vida à religião. Quinhentos anos parece algo tão distante e surreal que é fácil negar ou ignorar o cheiro de carcaça que ainda brota de um passado nem tão distante.

A verdade é que não precisamos ir tão longe. Para manter as chamas da ignorância acesas, atropelam-se deliberadamente os fatos que, se não fossem patrocinados por uma poderosa entidade religiosa, jamais passariam desapercebidos. Quem seria capaz de ignorar o legado de crueldade deixado pelo nazista? Qual empresa se safaria de tantas acusações de pedofilia por parte dos seus representantes?

Enquanto existir o controle das massas por essas megaempresas multinacionais que,explorando a fraqueza emocional e a necessidade de consolo espiritual, enriquecem os salões do Vaticano e os bolsos dos pastores evangélicos, continuaremos jogando a sujeira para debaixo do tapete e fechando os olhos para as atrocidades cometidas sob a proteção da batina e do crucifixo.

Localizada entre o rio Danúbio e as geladas montanhas de Cárpatos, ergue-se a fria e solitária região de Wallachia. Aparentemente esquecida pelo tempo, a região localizada ao sul da Romênia foi testemunha de determinantes conflitos históricos que livraram o leste europeu de um possível domínio Turco.

Entretanto, não é por estes conflitos que a região é principalmente conhecida, mas pela fama nebulosa que circunda um de seus mais notórios governantes, Vlad III, imortalizado pelo folclore romeno e posteriormente difundido globalmente pelo aclamado romance de Bram Stoker e as suas várias adaptações para o cinema.

Vlad III nasceu na Transilvânia e aos cinco anos de idade foi levado a Nuremberg, onde foi iniciado na Ordem do Dragão. O Voivoda exibia orgulhosamente o título de Draculea, significando“o filho do Dragão”; uma clara referência ao seu pai, Vlad II Dracul, conhecido como O Dragão, membro honorário da Ordem.

Com sua lealdade posta em dúvida entre os membros do Conselho Húngaro, Vlad II Dracul firmou um acordo com sultões turcos, prometendo pagar-lhes tributo e não oferecer resistência à sua expansão. Como garantia, O Dragão enviou seus dois filhos a Edirne, então capital do império Otomano, na condição de reféns.

Vlad III em seu famoso desjejum entre as vítimas de empalamento. Ilustração do século XV: “O bosque dos empalados”. Autor desconhecido.

Vlad III em seu famoso desjejum entre as vítimas de empalamento. Ilustração do século XV: “O bosque dos empalados”. Autor desconhecido.

O que os jovens da Transilvânia não sabiam era que seu genitor tinha planos de sacrificá-los como parte de uma manobra protelatória política, obtendo assim os favores dos demais nobres húngaros. Vlad III e seu irmão Radu, o Belo, ficaram sob a custódia de Mehmed II, que, ao invés ordenar a morte dos dois jovens, como esperado, tinha planos de doutriná-los de acordo com os costumes islâmicos e mais tarde reinseri-los no poder, constituindo então um reino muçulmano no coração de Wallachia.

Os irmãos testemunharam a rigidez com que o sultão controlava seu povo. Relatos históricos nos mostram que Radu não demorou a converter-se ao islamismo, porém Vlad era constantemente punido pela sua insolência e recusa a abandonar o cristianismo. Ambos receberam treinamento em táticas de guerra, aprenderam a língua turca e estudaram profundamente o corão. O empalamento era algo praticado em larga escala na Turquia.

Descontentes com a posição que Vlad II Dracul assumira com relação aos Otomanos, Hunyadi liderou ataque ao principado de Wallachia, assassinando o então governante da região juntamente com seus filhos mais velhos. Esta ação fez com que os otomanos atacassem o sul da Romênia, com o objetivo principal de tornar líder Vlad III. Este governo, entretanto, não durou muito e logo João Hunyadi investiu novamente contra a região, depondo Vlad Ţepeş e substituindo-o por Vladislav II.

Acreditando ter dado o trono para um simpatizante do islamismo, os turcos prepararam-se para uma nova investida, marchando contra Constantinopla, hoje Istambul, com a intenção de eliminar a última resistência cristã no mediterrâneo.

Referência cristã no emblema da Ordem do Dragão. Inscrição: O Draconistarum ordeurs, Justus et Paciens. Representa a vitória de São Jorge sobre o Dragão, da cristandade sobre Satanás.

Referência cristã no emblema da Ordem. Traz a inscrição "O Quam Misericors est Deus, Justus et Paciens". (Ó quão misericordioso é Deus, justo e paciente).

Vlad fugiu para Moldavia, onde tinha a proteção do seu tio Bogdan II. Ali, Vlad Ţepeş teve a oportunidade de se encontrar com Hunyadi, um homem extremamente religioso e preocupado com a situação do país, e conseguiu convencê-lo de que não apenas conhecia profundamente os costumes e hábitos turcos, mas que sobretudo não havia se convertido ao islamismo, a exemplo do seu irmão. Hunyadi nomeou Vlad III seu conselheiro de guerra.

Em 1451, Constantinopla caiu nas mãos do império Otomano, que marcharam novamente, desta vez para Belgrado, com fins de dominar toda a região da Romênia. Com o apoio de Hunyadi, Vlad III liderou um pequeno exército contra Wallachia, assassinando Vladislav II e retomando o poder. Enquanto isso, Hunyadi liderava os seus homens para a Sérvia com a intenção de montar uma resistência.

Vlad III governou Wallachia com punhos de ferro. As punições eram exemplares; para todo tipo de delito havia penas severas, e a mais comum delas era o empalamento. Foi por causa desse modus operandi que ganhou o apelido de Vlad Ţepeş, ou Vlad, o Empalador.

Até os seus últimos dias de vida, Vlad lutou para manter Wallachia um reino cristão, e para isso matou não apenas os seus inimigos, mas também os seus conterrâneos subordinados. O medo presente na população da região era tamanho que diz-se ter existido um cálice de ouro no centro de sua capital sem que ninguém ousasse subtraí-lo. Era uma demonstração clara do seu poder de controle. Vlad provocou os otomanos, não pagando seus tributos e empalando qualquer muçulmano que se aproximasse do seu país. Mehmed então invandiu a Wallachia com aproximadamente 80 mil homens de armas.

Vlad não possuia mais do que 40 mil homens, mas organizou uma resistência psicológica. Atacava constantemente os otomanos enquanto dormiam, tornando-se famoso o episódio “Ataque Noturno“, onde pelo menos 15 mil otomanos foram mortos. Tudo o que os turcos encontraram ao invadir a Romênia foi uma floresta de corpos empalados e um trono vazio. Sem dinheiro para continuar a sua resistência, Vlad III foi unir-se ao seu aliado Matthias Corvinus, na esperança de conseguir convencê-lo a defender o seu principado. Matthias, entretanto, ordenou a prisão de Vlad.

Após ter se tornado cativo na Húngria, foi libertado a pedido do próprio Papa, para que voltasse à Wallachia, onde asseguraria que o cristianismo predominasse sobre o islamismo. Temendo a volta ao poder pelo seu carrasco líder, populares atacaram e mataram Vlad Ţepeş, expondo sua cabeça em uma alta estaca.

Pio II. O Papa que ajudou a criar e patrocinou a Ordem do Dragão.

Pio II. O Papa que ajudou a criar e patrocinou a Ordem do Dragão.

Os casos bárbaros e as lendas que circundam a figura do Empalador são muitas; seria preciso escrever um livro completo para detalhar suas façanhas cruéis. Não vou me ocupar desta tarefa. Na verdade, tenho a impressão que este texto está se tornando longo e enfadonho. Por isso termino este capítulo da Ordem do Dragão, que narra a história de um de seus mais emblemáticos líderes, com uma simples reflexão.

O papa Pio II, então governante na época, não apenas acobertou as crueldades ocorridas no Cárpatos, mas deu efetivo apoio, chegando a patrocinar financeira e ideologicamente a criação e o combate armado por parte da grande Ordem. Não apenas aprovou, mas viu estes esforços como um exemplo a ser seguido, o que mais tarde influenciaria a criação de uma nova ordem na Espanha. Mas este é assunto para o nosso próximo texto.

É assim que se expressava o amor cristão durante a Idade Média: Através de inquisições e empalamentos. É este o papel do Vaticano, e de seu Praetorium Excelsior, enquanto portadores do legado histórico conferido pela religião abraâmica? Talvez ainda exista um pouco da Idade das Trevas, em forma tênue, vagando entre os palácios do Vaticano.

      Para saber mais:

      • FLORESCU, Radu. Drácula: Uma biografia de Vlad, o Empalador, 1431-1476. Nova York: Hawthorn Books, 1973.
      • _________. Drácula: As várias facetas do Príncipe; Sua vida e sua Época. Boston: Brown and Company, 1989.
      • STOICESCU, Nicolae. Vlad, O Empalador. Bucareste: Universidade da Romênia, 1978.
      • TREPTOW, Kurt W., ed. Dracula: Artigo sobre a vida nos tempos de Vlad Tepes In Monografias do Leste Europeu. no. 323, Nova York: Editora da Universidade de Columbia, 1991.
      Segismundo da Hungria, Sagrado Imperador Romano e fundador da   Ordem do Dragão.
      Segismundo da Hungria, Sagrado Imperador Romano e fundador da Ordem do Dragão.

      O ano é 1408. Preocupados com a expansão dos turcos, o papa reúne-se com nobres de toda a Europa para discutir estratégias de contenção do expansionismo islâmico. Dessa congregação e fruto do gênio do rei Segismundo da Hungria, é fundada a Societas Draconistrarum. Composta inicialmente por 21 nobres, a ordem tinha representantes das mais notórias famílias húngaras, com destaque para os Bathory, dos quais fazia parte Elizabeth Bathory, conhecida por banhar-se em sangue de mulheres jovens e belas, na tentativa de restaurar a sua própria beleza e juventude, e a família Bethlen, representada por Gabriel Bethlen, que provocou guerras calcadas em motivos religiosos.

      A verdade é que a ordem lutou contra os turcos e caiu nas graças do Vaticano, sendo conferido ao rei Segismundo o título canônico de Sagrado Imperador Romano. Em 1410 Segismundo uniu forças com outra ordem beligerante católica, a Ordem Germânica dos Cavaleiros Teutônicos, ou Ordo domus Sanctæ Mariæ Theutonicorum Hierosolymitanorum, contra o rei Władysław II Jagiełło, que resultou na batalha de Grunwald, considerada por muitos historiadores como uma das maiores batalhas envolvendo Cavaleiros Católicos da Idade Média.

      Para nós que crescemos aprendendo sobre a história das inquisições e das cruzadas, o banho de sangue proporcionado pelo expansionismo cristão, especificamente da Igreja Católica Romana, não mais impressiona. Os mesmos senhores que por vários anos estiveram à frente da única fonte de referência aos textos cristãos provocaram inúmeras guerras e matanças, tudo em nome de deus e em nome da fé na doutrina de Saulo de Tarso. Mas hoje pretende-se acreditar que a história do cristianismo nada tem a ver com as instituições modernas, e o passado parece tão distante e nebuloso que ignoramos conscientemente os massacres em nome de uma ignorância confortante.

      Ademais, comete falta grave aos olhos dos cordeiros católicos abordar a história de sangue e mentiras que tornou possível a construção deste grandioso e secular instituto religioso, ignorando-se os séculos de matanças e perseguições, de doutrinações e punições, de pederastia e ignorância, de controle e resistência à ciência, provocados por esta grandiosa máquina de fazer dinheiro e gerar ilusões. Custo a acreditar que existam fieis que ainda levem a sério uma instituição predatorial como esta, que alimenta a segregação religiosa e incentiva a ignorância, através de atitudes homofóbicas, e anti-progressistas, com  o exemplos bizarro da proibição moral do uso da camisinha, com direito a palestras no continente africano, infestado pelo vírus da AIDS.

      Emblema da Ordem do Dragão, baseado no mito do ouroboros.
      Emblema da Ordem do Dragão, baseado no mito do ouroboros.

      Aparentemente a Igreja ainda não se libertou de seus laços históricos, nem tampouco aprendeu com seus erros. Ainda há demonstrações explícitas do seu anti-semitismo latente, enquanto escondem crianças vítimas de abusos sexuais embaixo de suas batinas. Os fantasmas da Ordem do Dragão ainda circulam pelos corredores do vaticano, nos lembrando da sede de sangue que banhou os mármores das suas igrejas históricas.

      Afirma-se que o ocidente é cristão por vontade de uma força divina, manifestada por revelações. A verdade é que foi a espada quem assegurou que os reis europeus mantivessem suas coroas e sua principal arma de controle das massas: o cristianismo. Não que estes líderes estivessem livres das garras alienantes desta religião oriunda do deserto. De fato a maioria deles era profundamente religiosa. Nos meus próximos dois textos tratarei de algumas dessas importantes figuras históricas, e tentarei abordar, ainda que de forma simplista, algumas das estratégias e métodos mais grotestos e menos divulgados dentre os utilizados pela cristandade durante a Idade das Trevas.

          I

          Ateus são figuras estereotipadas. Um exemplo é a imagem do ateu cientificista. Claro, como todos os outros estereótipos atribuídos a nós, ateus, este não passa de mais uma bobagem. Ateus não [necessariamente] creem que a ciência possui resposta para todas as questões. Falando por mim, vejo o método científico como uma poderosa ferramenta para se compreender fenômenos naturais, mas termina aí. Não existe nenhum motivo muito evidente para que eu baseie minhas concepções de moral e visão de mundo inteiramente na ciência. Não trato as descobertas científicas com a mesma fé ardorosa que um cientificista o faria ou como um crente devoto trataria seu livro sagrado.

          Como esses dois conceitos, ateísmo e ciência, vieram a ficar tão interligados é o cerne deste texto. Imagino que a responsável por essa associação no imaginário popular não seja o ateísmo em si, mas sim a mitificação da ciência. Falarei brevemente não da história da ciência, mas da história de como o grande público leigo viu a ciência moderna durante todos esses anos.

          Fazendo um resumo porco desta história, a ciência começou sendo vista como um incômodo curioso e rebelde, desafiando dogmas centrais na sociedade ocidental. Isso já começa a conferir à “ciência” uma aversão à idéia de “fé”. Galileu é uma das figuras mais importantes desta época. Depois de incomodar, a ciência cresceu e começou a surpreender. Nos fins do século XVII e durante boa parte dos séculos XVIII e principalmente XIX tivemos grandes gênios. Newton, Lavoisier, Darwin, Tesla e Faraday, para citar alguns. Descobertas que alavancaram a tecnologia, a economia e até mesmo a própria maneira de interpretar o mundo, radicalmente. Até a primeira metade do século XX surgiam eventuais gênios, como Einstein, Watson e Crick. Parecia mesmo que tudo podia ser respondido de maneira lógica e sem apelo ao sobrenatural através do método científico. Depois disso ela cresceu exponencialmente tanto em termos de cientistas quanto de publicações. A quantidade de informação nova publicada anualmente ficou colossal. Porém, isso não refletiu em reviravoltas impactantes como as de épocas anteriores. Muito pelo contrário. A ciência decepcionou. Esperávamos cura para o câncer, colonizações no espaço, maior longevidade, carros voadores. Mas, no fim, parece que os avanços se limitaram ao meio virtual.

          Jetsons - Versão cartunesca de como algumas pessoas imaginavam o final do século XX

          A razão pela qual se associa normalmente ateísmo com ciência é porque esta começou a ser vista exatamente como ela não é, ou seja, detentora de todas as verdades. É de se convir que um método baseado essencialmente na dúvida, no ceticismo e no debate não pode se dar ao luxo de ser visto como infalível e absoluto. Este é um bom exemplo de como o público acaba por ver as coisas de maneira diametralmente oposta ao que realmente são.

          Não só a ciência começou a ser vista como deidade, mas também foi vista como uma deidade que fazia acontecer, ao contrário dos muitos outros deuses que eram misteriosos demais e eficientes de menos. Também era natural que as pessoas começassem a perceber o quanto essa “ferramenta milagreira” que era o método científico dispensava deuses e orações. Surgia uma nova fé: a fé nos milagres da ciência, a fé cientificista. Uma deidade a qual valia a pena acreditar. Como o cientificismo consiste em acreditar que tudo pode ser explicado através de teorias naturais, o número de ateus consequentemente aumentou. Muitos chegaram a pensar que a fé em deuses teria um fim próximo. Ledo engano. As pessoas se desiludiram com a ciência tão violentamente que, além da fé no sobrenatural ter aumentado, criou-se uma aversão descabida à ciência. Leigos passaram a ver muitos dos cientistas como arrogantes, partindo do pressuposto que estes pretendiam se aproximar a(os) deus(es). Arrogantes, é claro, pois os cientistas eram pobres seres incapazes que ainda não se deram conta disso. É por isso que existe hoje uma confusão entre “curiosidade” e “presunção”, “humilde” e “ignorante”, e “douto” e “arrogante”. Na minha opinião, essa é uma situação um pouco triste. O ser humano é uma criatura naturalmente curiosa e não existe nada de condenável em querer entender o mundo ao seu redor, nada de presunçoso em conhecê-lo.

          Essa decepção quanto aos milagres da ciência acabou por criar muitos dualismos em nossa cultura, alguns deles falsos. Temos “fé” de um lado e “razão” de outro. Um dualismo que impede muitos fervorosos de ponderar sobre suas crenças e muitos racionais de possuir segurança em suas convicções. Tudo bem que “fé” e “razão” são conceitos diferentes, mas também não são excludentes. Fé é uma forte crença e razão é a dedução lógica de certas premissas. Apesar de as duas não serem “grandes amigas”, elas não se tratam de ideias opostas uma à outra. Além desse dualismo tem-se “crentes” e “cientistas/ateus”, o que é patético. Eu como ateu ouço com relativa frequência perguntas do tipo “Ué, mas você não é ateu? Não é um cientista?”.

          Mas muito pior do que o simples equívoco de associar ateísmo com cientificismo é a condenação do livre pensar. Existe hoje um abismo entre as descobertas científicas e a carga de conhecimento da população, mesmo a da elite intelectual. Falo isso baseado na rejeição que a teoria neodarwinista da evolução biológica encontra em muitos círculos. Essa rejeição é fruto da criação desse dualismo entre fé e razão. Muitos querem enxergar uma guerrinha entre sua fé e as novas descobertas da ciência, como se a última estivesse tão somente preocupada em ocupar o lugar de seu deus ou deuses. Pessoas mais elucidadas sabem que a ciência é apenas um método (poderoso) de entender o mundo natural e que a crença no sobrenatural não deve fugir do escopo pessoal. Deus e ciência não são dois generais se enfrentando em um campo de batalha. São apenas duas coisas que não interagem entre si, ou que ao menos não deveriam interagir. Mas falarei desse aspecto noutro texto.

          Deus e a Ciência:

          1. A mitificação da ciência salvadora

          2. No quê os cientistas acreditam

          3. A crença dos grandes gênios

          4. Sobre os magistérios não-interferentes

          Se um professor de história, em uma aula sobre a Grécia de antes do século VIII a.C., começar a falar sobre Aquiles, Odisseu ou Heracles como quem fala de Alexandre, de Carlos Martel ou do Marechal Deodoro, ou seja, como quem fala de pessoas de carne e osso, será visto, no mínimo, com estranheza. Muitos de seus colegas historiadores pensarão que este professor está ficando doido, como se estivesse tratando Asterix e Obelix como homens tão reais quanto Júlio César. Após as famosas descobertas arqueológicas de Heinrich Schliemann no século XIX, sabe-se que existiu uma cidade grandiosa onde hoje é a Turquia que, provavelmente, identifica-se com a Troia dos poemas homéricos. Mas dizer que tais descobertas confirmam a historicidade de heróis como Aquiles ou Odisseu equivale a dizer que os personagens gauleses de Uderzo e Goscinny existiram porque os romanos realmente conquistaram a Gália.

          Contudo, se este mesmo professor de história, seguindo rigorosamente o texto de alguns livros didáticos de ensino fundamental e médio publicados no Brasil, disser que há três mil e duzentos anos um homem chamado Moisés libertou o povo hebreu escravizado no Egito e conduziu este povo durante vários anos por regiões desérticas como a Península do Sinai, e se disser que este povo, após tal andança, sob o comando de um chefe militar chamado Josué, conquistou a região hoje chamada de Palestina, poucas pessoas, inclusive seus colegas historiadores, acharão tal aula absurda. Por quê?

          No Ocidente, sob o peso de séculos de hegemonia cultural cristã, as pessoas acham normal pensar que os relatos da Bíblia são históricos e não míticos. Mesmo entre pessoas não religiosas, é comum pensar que a narrativa bíblica, despojada de seus elementos miraculosos, como a passagem pelo Mar Vermelho ou a interrupção do movimento aparente do Sol através do céu, reflete acontecimentos históricos, e que os personagens mencionados em tais narrativas existiram, ao contrário do que se pensa sobre os semideuses gregos. Afinal, por muitos séculos a cristandade acostumou-se a pensar em Moisés, Josué ou Sansão como figuras históricas, e em seus feitos milagrosos e fantásticos como eventos reais que expressavam a intervenção divina na história.

          Entre os séculos IV e III a.C., um grego chamado Euêmeros tornou-se célebre por sua interpretação racional dos antigos mitos de seu povo. Em sua obra Hierà Anagraphé, que chegou à nossa época apenas em alguns fragmentos, Euêmeros propõe explicar a origem dos mitos à luz da razão, lançando a hipótese de que deuses e heróis nada mais eram do homens que se destacaram por seus feitos no passado. Com o passar do tempo, a admiração das pessoas pelas obras destas figuras ilustres, e o culto à memória deles, fez com que fossem gradativamente divinizados.

          A proposta de Euêmeros é um notável passo em direção a uma visão racional e dessacralizada do mundo, dos mitos e da História. Esta forma de encarar figuras míticas tornou-se inclusive conhecida como “evemerismo”. Assim, uma análise “evemerística” de uma personagem mitológica, a “evemerização” dela, é o ato de propor uma visão racional da figura em estudo, deixando de lado os elementos sobrenaturais que acompanham o herói, semideus ou deus em questão. Contudo, tal atitude pode se revelar um obstáculo a uma análise objetiva da origem do mito, pois a propositura de uma explicação evemerística para a personagem mitológica ou religiosa pode ser apenas um desejo de se preservar algo de uma tradição religiosa cujas origens possuem poucas fontes históricas disponíveis. Basta pensarmos na seguinte situação: nós não vemos hoje a menor necessidade de postular ou de investigar um “Odisseu histórico”, ou um “Perseu histórico”. Mas, para os antigos gregos, cuja civilização passou por um processo de racionalização desde os tempos de Homero (outra figura possivelmente lendária) aos tempos de Euêmeros, optar por dizer que seus heróis um dia existiram, mesmo que como homens comuns, seria melhor do que admitir que tais figuras não possuíam qualquer historicidade.

          Voltemos à figura de Moisés. A Bíblia, no livro de Êxodo, pelo menos nas traduções mais populares na nossa língua, afirma claramente que Deus concedeu poderes a Moisés. Poderes. Algo que o diferencia dos demais mortais e o aproxima de figuras como os semideuses gregos. Com tais poderes, segundo a Bíblia, Moisés derrotou uma das maiores potências militares e políticas do século XIII a.C., o Egito. É um relato cujos elementos miraculosos equivalem a qualquer mito que narra intervenções divinas na História, como os deuses tomando partido por um ou outro lado na guerra de Troia. No entanto, como seria possível “evemerizar” tal narração? Retirando-se os elementos miraculosos do Êxodo, resta a difícil tarefa de explicar como um povo desarmado e escravizado, sem recorrer à sublevação violenta, de repente deu as costas aos seus antigos senhores e fugiu do Egito. Sigmund Freud, em sua obra Moisés e o Monoteísmo, tenta dar uma explicação “evemerística” para o Êxodo. Para Freud, resumindo superficialmente, Moisés era um egípcio importante, provavelmente de origem nobre, partidário do faraó Amenófis IV, que mudou seu nome para Akenaton e estabeleceu a mais radical reforma religiosa da história do Egito antigo, instituindo o monoteísmo, em clara afronta ao poder dos sacerdotes de Amon. A reforma de Akenaton não sobreviveu ao faraó. Freud propõe então que Moisés tenha sido um dos seguidores do monoteísmo de Akenaton que, aproveitando-se do breve período de caos político surgido logo após a morte do faraó, liderou um povo de escravos semitas que vivia no Egito e impôs a ele sua religião.

          Sem querer criticar as hipóteses psicanalíticas que Freud expõe na referida obra, na qual ele tenta mostrar como certas ideias aplicáveis a indivíduos se adequam a grupos humanos, o livro Moisés e o Monoteísmo é um bom exemplo de evemerização. Freud parece querer salvar a hipótese da existência histórica de uma figura muito importante para o judaísmo e o cristianismo. Entretanto, muitos dos argumentos utilizados por Freud para sustentar a existência histórica de Moisés estão francamente ultrapassados e, naturalmente, pelos avanços da arqueologia e da história, hoje sabemos muito mais sobre as origens do judaísmo do que em 1938, data da publicação do livro. Sabe-se hoje que, nos períodos e lugares usualmente propostos para a permanência dos hebreus no deserto, não há qualquer sinal da estada de um povo. Nada foi encontrado na Península do Sinai que pudesse indicar uma jornada de quarenta anos de milhares de pessoas rumo à Palestina. Não há também qualquer indício da presença de um povo culturalmente homogêneo, como os hebreus, como escravos no Egito, apesar das evidências de intenso tráfego de pessoas de diversas origens, principalmente semitas, que habitavam sazonalmente o Egito em tempos de escassez em suas terras.

          Tudo isto indica que tentativas de se buscar o “Moisés histórico” parecem ser tão promissoras quanto uma busca por um “Aquiles histórico”, ou um “Heracles histórico”. Moisés parece ser uma figura de historicidade tão plausível quanto os mencionados semideuses helenos. Mesmo assim, folheando vários livros didáticos brasileiros, de ensino fundamental e médio, encontraremos lá Abraão, Jacó, Moisés ou Josué, todos devidamente “evemerizados”. Tão inverossímeis quanto seus correspondentes gregos.

          Referências:

          Sobre Euêmeros e evemerismo:

          ELIADE, Mircea. Mito e realidade. 6ª ed. São Paulo: Perspectiva, 2007.

          KURY, Mário da Gama. Dicionário de mitologia grega e romana. 6ª ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.

          A obra de Freud mencionada:

          FREUD, Sigmund. Moisés e o monoteísmo. Rio de Janeiro: Imago, 1975.

          Sobre as pesquisas arqueológicas e históricas mais recentes:

          FINKELSTEIN, Israel e SILBERMAN, Neil Asher. A Bíblia não tinha razão. São Paulo: A Girafa, 2003

          Dentre as inúmeras características que possui a deidade cristã, três se destacam: a onipresença, a onisciência e a onipotência. Em todos os casos, o radical “oni” deriva do latim omni, que significa literalmente “todos”, tornando-se dispensável explicar o seu significado. O que chama atenção é o poder que este prefixo romano atribui às palavras, dando-lhes propriedades que vão muito além da nossa imaginação.

          Mas, então, de onde surgiram tais ideias? E para que servem?

          Por volta de 1780, o jurista e filósofo inglês Jeremy Bentham elaborou uma teoria que, a priori, seria aplicada no sistema prisional, a qual deu a alcunha de panóptico (neologismo que deriva das palavras gregas pan, significando “todos” ou “por todos os lados”, e opticon, que significa “vigiado”, “observado”). Para o pensador, a sensação de estar sendo constantemente observado geraria um controle inigualável sobre o comportamento dos apenados. É importante frisar que os presos não necessariamente estariam sendo observados constantemente, mas era preciso suplantar em seus corações tal receio.

          Panóptico

          Esta mesma ideia foi, mais tarde, explorada por dois notórios escritores: Aldous Huxley, em seu romance Admirável mundo novo, e George Orwell em 1984. Em ambos os livros, de formas diferentes, o controle excessivo provocado pela vigilância estatal provoca a submissão desmedida e acaba por tornar-se mecanismo de padronização, anulando as individualidades. Para ser justo, é preciso dizer que ambos os livros vão além, como a exploração do controle através da sexualidade, o proposital empobrecimento vernacular e controle mediocrático, como forma de alienação em massa. Todos esses elementos combinados criaria uma sociedade de marionetes biológicas.

          Em todos esses exemplos observamos uma similaridade sem precedentes com a ideia civilizatória cristã, apregoada pelo constante medo de estar sendo observado pelo big brother celestial, que nos julgará por cada pequena ação. Através da constante tensão ocasionada pela vigília desta deidade, as autoridades religiosas acabam por assumir uma papel paternalista, de guia espiritual capaz de redimir os pecados espiados por deus.

          Há de se convir que tal forma de controle é extremamente eficiente, e o medo da observância é suficiente para que os fiéis se deixem controlar pela ideia panóptica de Bentham. Huxley e Orwell apenas reproduziram em suas obras modelos que já vem sendo explorados há milênios, e com grande sucesso. O Estado (aqui representado pela igreja) controla cada pensamento, dita as verdades e planta medo na população.

          E assim como no livro 1984 o personagem O’Brien, representante do Partido, tenta fazer com que Winston afirme, através de torturas, ver quatro dedos onde na verdade existem cinco, os fieis são constantemente atormentados com o medo do inferno, e com o julgamento de suas ações pelo Rex Tremendae [1], tornando-se incapaz de discernir ficção de realidade.

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          1. Referência ao trecho do Requiem católico, no qual constantemente deus é posto como um rei absoluto, que julgará todas as coisas:

          Quantus tremor est futurus/Quando judex est venturus/Cuncta stricte discussurus. – Quanto temor haverá então/quando o juiz vier/E julgar rigorosamente todas as coisas.

          Lacrimosa dies illa/Qua resurget ex favilla/Judicandus homo reus. – Dia de lágima será aquele/No qual surgidos das cinzas/Os homens serão julgados como réus.

          Ainda que sejamos apenas mais um em um mar de bilhões de pessoas, todos nós gostamos de nos sentir especiais. Sentimo-nos especiais quando estamos apaixonados, quando lembram do nosso aniversário, quando pensamos ser mais inteligentes e críticos do que os crentes etc. Mas nada disso é comparável, em termos de egocentrismo, do que o ato de orar pedindo algo.

          Crentes creem que deus é um ser onisciente; logo, os planos para todas as coisas já deveriam estar devidamente traçados. Um crente quando ora, porém, pede a deus que mude os planos supremos do universo a seu favor, sentindo-se, talvez, o ser mais especial de toda a criação.

          Vejo a religião, de modo geral, como um reflexo desta necessidade que as pessoas têm em se sentirem especiais. Isso fica evidenciado, por exemplo, na lenda da criação dos judeus e cristãos, na qual Deus cria a humanidade à sua imagem e semelhança, para que domine todas as outras espécies no ar, na terra e no mar.

          O primeiro tapa no antropocentrismo foi dado por Nicolau Copérnico que, em 1543, publicou o seu livro Commentariolus, com o qual demonstrou que a Terra gira em torno do Sol. Ora, segundo a “Genesis”, Deus criou o Sol apenas no terceiro dia, ao redor de que a Terra teria girado antes disso? Pela primeira vez, uma descoberta científica contrariava um importante dogma bíblico, rebaixando o planeta Terra a uma posição subalterna ao Sol; por este motivo, o livro Commentariolus foi banido pela Igreja até 1835.

          O segundo e definitivo tapa no antropocentrismo foi dado por Charles Darwin, que, com a Teoria da Evolução, demonstrou que a humanidade possui uma linha de ancestralidade ligada aos outros primatas e animais não tidos como tão gloriosos pela Igreja da época. Desta vez, descobrimos que a humanidade era apenas mais uma espécie da fauna da Terra, e não mais podíamos nos considerar a imagem do criador supremo do universo, apenas macacos pelados que, por um acidente de percurso, se tornou o que somos.

          Por fim, não poderíamos deixar de lembrar a fantástica foto idealizada por Carl Sagan e fotografada pela Voyager em 1990, nos limites do sistema solar. Um símbolo da insignificância da humanidade.

          PaleBlueDot

          Este pequeno ponto no meio da foto é o Planeta Terra, que antes fora considerado o centro do universo. Hoje não é mais do que um pálido ponto azul.

          Há em nossa época milhões de ateus no mundo. Mesmo que eles sejam ainda uma minoria diante de bilhões de seres humanos que se declaram ligados a alguma religião ou crença, o número de ateus provavelmente cresce a cada dia desde o final do século XVII e início do século XIX. Mas, e antes daquela época?

          Voltaire, em seu famoso “Dicionário Filosófico”, dá uma resposta breve e clara a esta questão: “Antigamente (…) todo filósofo que se desgarrasse da gíria da escola era criminado de ateísmo pelos fanáticos e espertalhões, e condenado pelos cretinos”. Ao longo dos quase mil e quinhentos anos em que o cristianismo exerceu inquestionável poder sobre o mundo ocidental, milhares de pessoas foram chamadas de ateus, bem como de hereges, bruxos ou ímpios, dentre outros epítetos que traziam, para os infelizes que assim eram nominados, as mesmas consequências: exclusão social, acusações, processos, e penas diversas, como confisco de bens, prisões, tortura e morte.

          Mas eram realmente ateias tais pessoas? É possível afirmar, com segurança, que a grande maioria não era, pelo menos da maneira como hoje se conceitua ateu e ateísmo. Mantendo o foco na cristandade dos séculos entre o fim da antiguidade e o início da idade contemporânea, seria muito difícil para alguém, imerso na cultura cristã hegemônica desse período, pensar na inexistência de um deus como uma hipótese plausível. A vida de todos era governada, do berço ao túmulo, pela religião. O argumento do desígnio, ou seja, da necessária existência de um projetista do universo, parecia insuperável diante de um mundo complexo, e era defendido até por pensadores brilhantes, como Newton e o próprio Voltaire, célebre inimigo da religião organizada, mas que não negava a existência de um deus.

          Ateus como existem hoje, e o ateísmo como conceituado em nossa época, só começaram a surgir mais comumente, e ainda assim em grande minoria, ao longo do século das luzes, e no início do século XIX, período que, significativamente, abrange aquilo que o historiador inglês Eric Hobsbawn chamou de Era das Revoluções, e que marca o declínio do poder político da religião organizada no Ocidente.

          Mas, antes dessa época, ateísmo era quase sempre uma acusação que se fazia a um desafeto. Voltaire, em sua obra mencionada acima, dá um exemplo típico da acusação de ateísmo lançada sobre alguém, ao falar do caso do religioso napolitano Vanini, que, por divergências em questões teológicas, foi acusado de ateísmo por seus opositores. Em sua defesa, segundo o relato de Voltaire, Vanini catou uma palha no chão e declarou que aquilo bastaria para provar a existência de um criador. Mesmo assim foi condenado. Qualquer discordância quanto à ortodoxia vigente no momento trazia o risco de acusações de ateísmo, ou de heresia, ou de bruxaria.

          É importante ressaltar que tal atitude não é invenção cristã. Na Grécia antiga, o “atheos” designava o ímpio, alguém que ignorava a moral ou o direito, pois tal pessoa seria alguém abandonado pelos deuses, ou contrário às leis divinas. Voltaire menciona a acusação de Ateísmo feita contra Sócrates por Aristófanes. Este dramaturgo retrata o famoso filósofo em sua peça teatral “As Nuvens” como alguém que descrê em Zeus. Entretanto, tal acusação não se confunde com as sérias acusações que levaram o filósofo a julgamento, e que de certa forma incluía o ateísmo como desrespeito aos deuses da cidade. A peça de Aristófanes foi na verdade apenas uma pilhéria, uma forma de ridicularizar Sócrates através do humor, e ninguém a levou a sério. Mas acusar alguém seriamente de ateísmo significava que o acusado havia desrespeitado as leis de sua pólis, o que equivaleria a um crime político.

          No Império Romano, antes de Constantino, e durante as perseguições, os cristãos e judeus foram chamados de ateus, e isto não seria algo espantoso para a mentalidade daquela época. A Roma antiga era célebre pela tolerância religiosa. Pode parecer irônico afirmar tal coisa, diante das perseguições aos cristãos, dos martírios, das pessoas atiradas às feras nos espetáculos do Coliseu, mas há uma razão para isto. Os romanos tinham por hábito não somente tolerar as práticas religiosas dos povos conquistados, mas, em muitos casos, também incorporavam aos seus próprios cultos divindades estrangeiras, que eram incluídas no panteão de Roma. Os povos submetidos, por sua vez, em geral não viam problema em aceitar aspectos da religião romana, como a divindade do imperador. Porém, quando os romanos se depararam com religiões como o cristianismo e o judaísmo, que, na época do Império, rejeitavam a crença em outros deuses, não seria estranho que os chamassem de ateus, ainda mais levando-se em conta a íntima conexão entre os ritos religiosos e os assuntos de Estado na história de Roma.

          Porém, em nosso tempo, ninguém pensaria em chamar alguém de ateu por causa de mero comportamento imoral ou maldoso, certo? Errado. Em 29 de junho de 2009, o Papa Bento XVI publicou uma encíclica com o título “Caritas in Veritate” (A Caridade na Verdade). Nesta encíclica, o sumo pontífice da Igreja de Roma ataca a suposta promoção do “ateísmo prático” por parte dos Estados laicos existentes na atualidade. Este “ateísmo prático” a que se refere o Papa é uma ideia exposta já no século XX pelo filósofo católico Jacques Maritain, e parece retomar a noção de ateísmo como impiedade, ou imoralidade. Para Maritain, o “ateísmo prático” se revela no comportamento de quem declara acreditar em deus, mas nega este deus ao comportar-se de forma reprovável, desonesta, imoral.

          Será que, hoje, falar em ateísmo como algo diverso da não aceitação da ideia de divindade faz algum sentido? No mundo antigo, é algo lógico. No mundo medieval, é compreensível. Mas hoje, pelo menos no Ocidente, onde a liberdade religiosa é tido como um dos fundamentos da democracia, a ideia de “ateísmo prático”, endossada pelo Papa, é anacrônica, e revela apenas a permanência de uma hostilidade que boa parte da religião organizada tem para com os que pensam livremente.

          Referências

          1. ARMSTRONG, Karen. Uma História de Deus. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
          2. BENTO XVI. Caritas in Veritate. Disponível em: <http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/encyclicals/documents/hf_ben-xvi_enc_20090629_caritas-in-veritate_po.html>. Acesso em: 01 nov. 2009.
          3. STONE, I. F. O Julgamento de Sócrates. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.
          4. VOLTAIRE. Dicionário Filosófico. Disponível em: <http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2253>. Acesso em: 01 nov. 2009.