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“Por que tantos tementes a deus?” Essa é uma pergunta muito boa. Nós, ateus, gostamos de debater sobre o assunto e expor nossas conclusões. Debatemos usando argumentos contra a existência de deus(es) e, principalmente, por que não é racionalmente aceitável acreditar em algum. Mas existe um fato que aparentemente derruba todas as nossas tentativas: existe uma boa quantidade de tementes a deus, deuses ou demais entidades sobrenaturais. Diante do fato de que a vasta maioria da humanidade acredita em deus ou deuses, nosso arsenal de argumentos parece quixotesco.

A resposta padrão de muitos ateus a essa questão é: os motivos racionais são poucos ou nenhum, mas os emocionais são muitos e são fortes. Eu me uso dessa resposta, pois realmente acho, depois de anos debatendo com teístas, que os motivos que levam à crença no sobrenatural são majoritariamente de caráter emocional. Uma boa porção deles insiste em dizer que não, possuem argumentos na ponta da língua, mas estão apenas querendo se enganar e, cedo ou tarde, acabam expressando que são, de fato, levados pela emoção.

Novamente, meu intuito não é rebater esses argumentos. Se algum teísta considerar que estou errado, sinta-se à vontade para postar seus argumentos nos comentários de nossos textos. Quero discutir o que seria essa tão falada motivação emocional. Ir além de simplesmente taxar a crença alheia como mera emoção e dar nome aos bois.

Bom, comecemos por um conceito muito desejado por nós: justiça. Queremos que os usurpadores paguem pelos seus atos e que os altruístas sejam recompensados. Tentamos fazer isso dentro de nossa sociedade com nossas próprias mãos, criando prisões e castigos para os primeiros, assim como honras e presentes para os últimos. Porém, reconhecemos nossas limitações e ansiamos por uma força promotora de justiça mais plena. Essa justiça tem que vir de algo maior que nós, mais poderoso e incorruptível. Esse “algo” normalmente é chamado de “Deus”.

Depois temos a curiosidade. A ambição citada no parágrafo anterior reflete uma característica marcante de nossa espécie, que é a vida em sociedade. O desejo de adquirir conhecimento amplo e seguro advém de outro aspecto nosso, que é a vontade de aprender. Dentro de uma sociedade majoritariamente cristã, é comum ouvir de muitos cristãos que o conteúdo da bíblia é uma verdade absoluta e que é tudo o que precisamos conhecer, que a sabedoria ali ensinada é mais profunda do que a mais brilhante eureca de um simples humano. Comicamente ouvimos muito frases do tipo: “no fim todos nós saberemos quem está certo”. É a crença de que, depois da morte, além da justiça feita teremos todas as respostas. Já falei um pouco sobre essa crença aqui (Porque não Acreditar, 5º parágrafo).

O terceiro desejo é a vontade de nunca deixar de existir. Em bom português: “o medo da morte”. Não me adentrarei nele, pois já dediquei três textos ao assunto (este, este e este). Só adianto que considero esse o desejo mais íntimo e o maior responsável pela crença no sobrenatural. Os três grandes desejos aqui comentados não são exclusividade de teístas. Ateus também os possuem. O que muda é que um deles aceita suas limitações e o outro abafa o fato com crenças sobrenaturais.

Portanto, como já devem ter percebido, podemos resumir esses três motivos como um desejo muito íntimo presente em todos nós. Uma fome muito grande por coisas que não vêm na quantidade que gostaríamos. Essa fome imensa que é a mãe de todas as fés. A justiça é rara, o conhecimento é pouco e a vida é curta. Essa fome se sacia acreditando que a justiça será feita, que todos os mistérios do mundo (ou ao menos os poucos que realmente interessam) podem ser desvendados e que a nossa existência não se finda com nossa morte. Essa crença poderia vir da maneira padronizada, através da lógica e da observação. O problema é que “lógica” e “observação” definitivamente não nos levam a concluir o que gostaríamos, então a nossa crença tem que vir do nada, é preciso ter fé. Tornamos uma dada limitação, que é a incapacidade de possuir um entendimento pleno sobre todas as coisas a nosso favor e colocamos os nossos anseios neste mar de ignorância que reconhecemos possuir. Nós, ateus, chamamos esse deus, que mora no incompreendido, de “deus-das-lacunas”. O que escapa nossa razão agora é algo sobrenatural e sacia a nossa fome. Ou pelo menos vai saciar, um dia quem sabe, basta ter fé e paciência…

Não acreditamos em deus pois não existe evidência alguma de que esse mesmo exista.

Essa posição parece ser muito radical para muitas pessoas que não perceberam o cerne da questão pois, como dita a velha frase: “a ausência de evidência não é evidência da ausência”. O tal “cerne” da questão eu discutirei no texto, assim como porque não acreditar em deuses é a coisa mais sensata a se fazer enquanto não existe uma evidência sequer mostrando o contrário. Lembrando que eu não abordarei as supostas “evidências” a respeito do assunto porque é assunto demais para um texto só, fora que estou familiarizado o suficiente com uma boa quantidade dessas “evidências” e precisaria ler/ouvir algo muito diferente para ficar realmente surpreso. Para entender essa questão, irei começar pela rota menos óbvia: supor que deus exista. Claro, vamos ter que pegar um deus em específico, pegarei o abraâmico por estar mais familiarizado com este.

Deus existe, ele realmente criou a terra como está descrito no Gênesis, veio a Terra como Jesus e fez um monte de coisas. Façamos esse exercício mental. O que impede que ele exista? Bom, se foi ele quem criou homens e mulheres (do barro e de uma costela, respectivamente), então pode muito facilmente ter determinado suas limitações. Limitações como não ter a capacidade lógica o suficiente para entender as Suas motivações. Da mesma maneira que uma formiga não tem capacidade lógica para entender sobre buracos-negros, por exemplo. Então, esses humanos poderiam ter evoluído tecnologicamente, ter avançado na filosofia e na cultura, mas mesmo assim ainda seriam limitados. Todas as evidências empíricas possíveis e a mais brilhante lógica do mundo não seria o suficiente para revelar a verdade, que seria a de que Deus existe e foi ele quem os criou. Deus veria todos ali, pessoas crendo nele, outras crendo noutros deuses, e ainda umas que seriam atéias. Somente aquelas pessoas seletas, cristãs, estariam corretas. Não pela lógica ou pela observação, mas puramente porque resolveram acreditar em algo. Resolveram acreditar em Cristo, que por acaso foi uma vez que Deus veio dar uma banda no seu planeta favorito para consertar as próprias mancadas.

Conseguiram ver o erro? Para muitos teístas, o que eu escrevi agora expressa direitinho a lógica por trás de suas crenças. Na verdade, boa parte deles, partindo da premissa de que a minha suposição é muito mais do que suposição, acaba vendo os ateus como “tolos”. Afinal, Deus existe e todos aqueles ateus, escarafunchados na “lógica” e no “empirismo”, são incapazes de acertar a verdadeira resposta. Existe um problema muito grande nessa questão.

O problema é, em um palavra: critério. Crença é uma questão de critério. Não se trata apenas de estar certo em um determinado assunto e ignorar qual foi o meio pelo qual se obteve a respectiva conclusão. Eu dei o exemplo do deus abraâmico e, para muitas pessoas, isso parece corresponder com a realidade. Mas reparem que, se eu substituir a palavra “Deus” por um outra qualquer, digamos, “Sauron”, a suposta “lógica” do parágrafo não decresce nenhum pouco. Alguns poderiam dizer que eles não sentem por Sauron o que sentem por Deus, mas e porque o próprio criador do universo deveria se importar com isso? Se a própria lógica foi abandonada pelo deus da bíblia, o que impede Sauron de abandonar as emoções? E se não fosse Sauron, se fosse uma mega corporação de gnomos invisíveis eu sigo dizendo que a “lógica” não diminuiria nem um pouquinho.

Precisamos de critério pois existe um fato muito indignante: Nunca seremos capazes de contemplar a realidade em toda a sua plenitude. Tudo o que sentimos é um interpretação da realidade e, como tal, sujeita a defeitos. Como o nosso acesso à realidade é apenas parcial, resta sermos criteriosos. Engraçado como muitos crentes costumam dizer “no final, veremos quem está certo”, na crença de que algum dia a “Verdade” será revelada. Essa crença decerto lhes dá mais tranqüilidade para fazerem suas apostas de fé. Mas é claro, não existe absolutamente nada que garanta ou mesmo indique que qualquer verdade será revelada só para saciar a nossa curiosidade.

Em uma última analogia, imaginem europeus em pleno século XIII. Suponhamos que, um cidadão português tenha concluído, acertadamente que existe todo um continente para o oeste e que devem ser realizadas expedições para lá. A nobreza portuguesa, interessada na conclusão do informante, resolve perguntar como ele chegou a ela. Perguntam se ele realizou expedições para aqueles mares, se ele viu embarcações surgirem de lá. Eis que ele diz ter descoberto o suposto continente por ter fé em sua existência. Apresentado desta maneira, alguém pode achar que seria sábio por parte da nobreza seguir o palpite louco do cidadão e ter gasto fortunas com expedições. Acontece que eu estou usando um exemplo muito específico. Aqueles mares eram desconhecidos e fora do alcance lógico dos portugueses. Seria, no fim das contas, insensato mandar naus para lá mesmo que esse caso em particular alavancasse o progresso de Portugal. Isso porque, da mesma maneira que seguiram um palpite certeiro, poderiam seguir uma miríade de palpites muito mais desastrosos e, portanto, colapsariam.

E é por isso que a questão não gira em torno do “porque deus não existe” mas sim “porque não deve se acreditar nele”. E não se deve acreditar por simples honestidade intelectual. É você sendo verdadeiro com os seus conhecimentos, sem dar chutes afobados na pretensão de estar certo.

Conseguimos separar com boa precisão as coisas que nos são externas daquelas que botamos no mundo. Mesmo que tudo o que façamos seja apenas transformar a matéria que não pertence diretamente a nosso corpo, sabemos que nossas ideias nem sempre condizem com a realidade.

Todo o nosso maquinário instrumental de pensamento foi construído e moldado para a nossa sobrevivência e reprodução. A verdade, então, passa a ser secundária. Não são poucos os exemplos em que contar uma mentira – ou uma inverdade, caso prefiram eufemismos – não só é aceitável, como também é desejável ou recomendável.

Assim, é certo afirmar que todos temos uma noção individual das coisas e que partilhamos aquilo que é comumente aceito onde vivemos. No entanto, no trato com outras pessoas, tendemos a externalizar nossas opiniões como se fossem verdades para todos. É por isso que gastamos tanto tempo e energia em debates, em disputas erísticas, em discussões de botequins, entre várias outras ocasiões.

Apesar da prática, é uma das tarefas mais árduas que podemos empreender. Ao enunciar uma verdade “humana”, por assim dizer, precisamos ter cuidado para não incorrermos em falácias, bem como precisamos dar coerência interna às ideias para que sejam sustentadas quando atacadas – e, certamente, o serão. Em última instância, devemos também cuidar para que não sejam construídas de forma tal que não encontrem respaldo no mundo.

Teoricamente, é tudo muito belo. Chegar a uma verdade por esses meios é o ápice do raciocínio de nossa espécie. Tão elevada é a conclusão que poucas são as coisas que podemos dizer terem sido concebidas pelo método. O problema é que, em nossas vidas, não podemos dispor somente de coisas tão seguras. Então partimos para o terreno do convencimento puro e simples.

E é exatamente nesse terreno que encontramos as verdades pretensas. Elas simplesmente se recobrem de um manto aparente de realidade, mas não resistem a uma análise mais profunda. Se ainda existem em nosso meio, é porque analisar a quantidade de informações que recebemos de forma isenta e honesta demanda mais tempo do que temos à disposição.

Há, contudo, formas mais úteis de filtrar os erros honestos e práticos daqueles escandalosos e inescrupulosos. A principal delas é fugir dos apelos emocionais. O arauto dessas verdades quer tocar o interlocutor no seu sistema mais primitivo de escolha: o do parecer estar certo.

Para tal empresa, não medirá esforços em usar do pathos para realizar seus objetivos. Está ele errado por isso? Obviamente não. Existisse algum reajuste cósmico que punisse coisas desse tipo, suas bocas seriam grampeadas e seus dedos seriam amputados ao nascerem. Mesmo sabendo do embuste, não podemos proibir – ou mesmo coibir – esse tipo de persuasão porque seria proibir a própria atividade humana de comunicação.

Se nos irritamos e nos revoltamos, é muito provavelmente porque não estamos ganhando coisa alguma com isso ou, muito pior!, talvez sejamos prejudicados pelas ações que nos atingem. Caso tenha retorcido o estômago e já esteja pronto para dizer que estou mentindo, lembre-se de como é fácil concordar com algo que nos agrada e de como é difícil pesar os argumentos contrários à nossa vontade.

É assim que funciona o jogo político e também o viés da propaganda. Cabe a nós identificarmos os mecanismos de dominação e escaparmos do controle mais danoso. Assim como cabe também a nós entendermos que consumimos produtos e votamos em políticos não por sua utilidade, mas por razões alheias à pretensa verdade que eles carregam em si.

Quando revelamos sermos ateus para alguém de fé, é comum que questionem com expressões de indignação: “como assim, você não acredita em nada?!”. De fato, me falta a fé no sobrenatural e no inexplicável, e para a maioria de nós, é preferível a dúvida do que uma certeza fabricada e sem fundamento. Mas será mesmo que podemos dizer que não acreditamos em nada?

Para isso, me permiti pegar de empréstimo o título outrora utilizado por Bertrand Russell, que sabiamente dizia:

“Eu acredito que quando morrer, irei apodrecer e nada do meu ego sobreviverá. Mas me recuso a tremer de terror diante da minha aniquilação. A felicidade não é menos felicidade porque deve chegar a um fim, nem o pensamento e o amor perdem seu valor porque não são eternos. (…) Se não temessemos a morte, creio que a ideia de imortalidade jamais houvesse surgido. O medo é a base do dogma religioso, assim como de muitas outras coisas na vida humana.”¹

A existência, por si só, traz consigo uma carga de improbabilidade que a torna quase sagrada, sem que seja preciso criarmos fantasias acerca de seres sobrenaturais e universos fantástico post mortem. Como questionava Douglas Adams, “não é o bastante ver que um jardim é bonito sem ter que acreditar também que há fadas escondidas nele?”

Entretanto, a ausência de crença em deus não nos torna diferentes enquanto espécie humana. Nossos erros e acertos são similares. É bem verdade que temos uma postura diferente quanto à busca pelo conhecimento, em contraste com a entrega devota a respostas incoerentes, mas via de regra só se reconhece um ateu quando este expõe a sua descrença. Respiramos, comemos, amamos, desejamos… tudo na mesma intensidade.

Acredita-se que o ateu está condenado à punição de deus (seja ele qual for), por não acreditar. Me parece ser característica elementar dos deuses o egocentrismo ranzinza. Pouco importa se você foi um bom sujeito. Não acredita em deus? Está condenado!

Recentemente meu Estado, Pernambuco, foi atingido por uma terrível enchente que destruiu boa parte dos municípios interioranos. O Brasil inteiro se envolveu em uma bonita campanha para arrecadar doações para as vítimas. Os moradores do meu prédio também ajudaram a arrecadar tais mantimentos, e para sensibilizar ainda mais os seus vizinhos, criaram o slogan “aquele que oferece de bom coração, recebe em dobro de Deus”.

É ai que eu acho que reside a maior diferença entre ateus e religiosos. É preciso que seja ofertada uma recompensa divina para convencer uns aos outros a ajudar seus irmãos necessitados? É nisso que eu acredito. Acredito na ética como forma de estabelecer equilíbrio na sociedade; acredito que um ajudando o outro, estabelece-se uma harmonia e, quando você precisar, saberá que terá com quem contar.

Por fim, terminarei este meu texto com uma citação. Não de um grande filósofo ou cientista, mas de poetas e músicos canadenses da banda Rush, que resumem o meu pensamento:

Eu não tenho fé na fé
Eu não acredito na crença
Você pode me chamar de infiel.
Mas ainda me agarro à esperança
E acredito no amor
Isso é fé suficiente para mim.²

1. RUSSELL, Bertrand. No que acredito. LP&M. São Paulo, 2008.

2. I don’t have faith in faith/I don’t believe in belief/You can call me faithless/I still cling to hope/And I believe in love/And that’s faith enough for me.


Pense em um genocídio, um grande crime. Qual o primeiro evento que lhe veio à mente? Holocausto. A Alemanha nazista, o terceiro Reich, é um exemplo clássico de crime hediondo contra a humanidade. É muito difícil encontrar alguém hoje em dia que não veja o holocausto como uma afronta às mais básicas noções de ética. Baseados nesse julgamento, acabamos taxando por tabela todas as coisas associadas a esse crime como igualmente ruins. E uma delas é o darwinismo social, erroneamente associado, devo dizer, à teoria evolutiva propriamente dita.

O cerne do darwinismo social é/era cruel, porém cientificamente embasador em algo conhecido como eugenia: um método que consiste em selecionar indivíduos de interesse dentro de uma população e fazer com que eles se reproduzam, gerando uma prole mais útil. Mas antes que me atirem pedras, saibam que eu defendo a lógica por trás da metodologia, apenas. Animais domésticos, cereais e culturas de bactérias são exemplos vivos de sua eficácia. O problema do darwinismo social foi aplicar este método para uma população na qual ele não seria útil, no caso, populações humanas. Matar seres-humanos em massa é o total desprezo por um dos maiores trunfos da humanidade: uma adaptação maior do que qualquer outra que poderia ser produzida através da eugenia, que é a sociabilidade. A força do Homo sapiens reside na sua sofisticada capacidade de se comunicar e de sociabilizar, habilidades completamente desprezadas quando um crime dessa magnitude acontece.

Pois eis aí o maior de todos os espantalhos criacionistas: a suposta “Lei do mais forte”. O mais imundo e apaixonadamente defendido de todos os espantalhos. Quando uma crítica à teoria da evolução apela para temas como o darwinismo social, ela deixa de ser apenas desinformada e começa a ser suja. Dizer que devemos aplicar o princípio da eugenia em populações humanas é um exemplo clássico de falácia naturalista, na qual confundimos postura ética com fenômenos observados no comportamento de outros seres vivos. Resumindo o mais imundo dos argumentos criacionistas: a teoria da evolução é falsa, pois apoia crimes como o holocausto, através da “lei do mais forte”. Sujo, não?

Mas, se a teoria da evolução não diz que o mais forte deve prevalecer, então o que ela diz? Bom, aqui convém eu expor a minha própria visão sobre o que essa teoria diz. Antes devo lembrar que, como todas as teorias dentro das ciências empíricas, a teoria evolutiva é uma maneira de explicar um conjunto de fatos observáveis através de sentenças puramente racionais. Ela não é uma ideologia que deva ser seguida com paixão por uma multidão de fanáticos.

Quanto ao que a teoria diz, é comum lermos que se trata da “sobrevivência do mais forte”. Mais uma vez a ideia equivocada de que o indivíduo forte deve sempre sobrepujar os mais fracos. Antes de ser uma luta pela sobrevivência a vida é uma luta pelo legado. O legado de nosso material genético e, em níveis mais sofisticados, o legado de nossas ideias (memes). Como fazer para perpetuar os genes não interessa, desde que funcione. Se para tal propósito seja necessário ou conveniente desmerecer os fracos e favorecer os fortes, assim será. Mas se for mais interessante que os indivíduos de uma determinada população formem uma sociedade na qual um lava a mão do outro, então está feito. O que realmente importa é crescer e se reproduzir, produzindo uma prole que seja capaz de fazer o mesmo por si só. Para tal vale tudo: existem seres vivos que voam, outros que nadam, alguns que fazemc fotossíntese. Talvez a mãe se sacrifique para que a prole tenha segurança e alimento, ou a única célula de um protozoário se preocupe apenas em se dividir em mais duas células. O objetivo é sempre o mesmo, porém o ambiente está em constante mudança. O que é adaptativo pode deixar de ser depois de alguns milhões ou milhares de anos e os caminhos para atingir esse mesmo objetivo são inúmeros.

Acontece que esse é um espantalho com mais de um erro. A falácia inicial é dizer que a evolução se baseia na lei do indivíduo mais forte, a já extensivamente comentada falácia do espantalho. Uma segunda falácia é bem mais sutil, mas um bocado irrelevante quando posta lado a lado com os outros erros desta afirmação. O fato de uma teoria supostamente trazer tristeza não invalida o seu caráter de verdade. Bom, essa falácia é irrelevante porque ela se baseia no maior equívoco presente na ideia de “lei do mais forte”, que é confundir teoria empírica com ideologia, coisa que eu já discuti anteriormente. Portanto, não se trata de uma teoria trazer felicidade ou tristeza, pois isso não está no seu escopo.

A parte mais interessante desse assunto é que poucas pessoas conhecem uma das mais interessantes conclusões tiradas da teoria neodarwinista: é bom ser bom. Ser altruísta pode ser adaptativo. Claro que isso vai depender muito do contexto. O altruísmo é interessante quando consiste em um indivíduo realizando um sacrifício que é compensado pelo benefício gerado ao grupo. Podemos concluir que, em um caso isolado, o indivíduo ainda assim é prejudicado. Mas se formos considerar vários casos ao decorrer do tempo nos quais existe um altruísta e um grupo sendo beneficiado, então esse indivíduo estará sendo beneficiado indiretamente, mesmo que eventualmente ele tenha que se sacrificar. Evidentemente, o altruísmo só se mostra útil dentro de grupos, desde bandos a sociedades com milhões de indivíduos. Mas esse é um assunto extenso demais que precisaria de outro texto. Quanto à suposta “lei do mais forte”, só posso dizer que é uma ideia ultrapassada, que não condiz com todos os casos presentes na natureza e utilizá-la como desculpa para menosprezar seres-humanos é um erro grosseiro.

Indivíduos inteligentes e racionais nunca escolheram ser incapazes de se dopar com ilusões infantis, bem como religiosos nunca escolheram ter fé. Nenhum dos dois tem a liberdade de mudar voluntariamente o modo como seu cérebro desde sempre se habitou a funcionar. Porém, como precisamos de ilusões para viver, cada qual, de acordo com sua inteligência, se vê obrigado a empregar métodos diferentes para suportar a existência.

É inútil insistir: não conseguimos ter fé. Nossa única alternativa passa a ser buscar consolo no esclarecimento, mas como? Só causa miséria a lucidez diante de um mundo miserável. Então, se não conseguimos contornar esse problema nos envolvendo com ilusões absurdas, passamos então a nos envolver com ilusões sensatas, que satisfazem nossa inteligência. Mentiras simplesmente não nos cativam, nos enojam. Assim, como não conseguimos nos iludir com falsidades, iludimo-nos com o seu oposto: a verdade. Encontramos no conhecimento o que os tolos encontram na fé, buscamos na honestidade o mesmo que os demais no engano, entendemos de olhos abertos como se consolam os vendados. Aprendemos a suportar a vida à nossa maneira. Se hoje temos uma consciência tranquila diante do fato de não precisarmos ter fé, isso ocorre porque nos bastam farmácias e bibliotecas. Nossos milagres estão em blisters. Concluímos em vez de acreditar, refletimos em vez de suplicar.

O fato é que nunca teríamos aceitado tão tranquilamente a morte de Deus se não dispuséssemos de meios seguros de substituí-lo. No lugar do jardim do Éden, colocamos o jardim da filosofia, e tanto um como o outro servem apenas para nos distrair, para esconder o desfiladeiro niilista. Sabemos que, em nossas vidas, a filosofia, a reflexão abstrata, cumpre o mesmo papel que a religião, e ambas as coisas não passam de meios de fugir da realidade. Reconhecemos que nem a filosofia nem a religião nos levarão a lugar algum, apenas nos distrairão do tédio. Parece pouco, mas basta. Somos humanos, e uma existência decente é tudo o que esperamos. Como temos farmácias, o autoengano tornou-se dispensável. Como temos inteligência, encontramos consolo na reflexão, e sentimo-nos plenos por podermos levar adiante nossa natural inclinação à honestidade.

II

Um exemplo que ilustra muito bem os verdadeiros interesses por detrás do discurso relativista são os criminosos que, por meio de artifícios legais quaisquer, buscam se inocentar de crimes dos quais sabem ser culpados: um comportamento relativista bastante típico. Claro que, se fossem inocentes, não teriam nada a perder com a verdade; pelo contrário, ajudariam a buscá-la por interesse próprio. Porém, como são culpados, dizer a verdade não convém: se quiserem permanecer livres, sua única chance está em confundir tudo o que se entende por verdade, ao menos no que diz respeito às evidências que os incriminam. Por isso nunca exibem qualquer interesse sincero em averiguar os fatos, sempre se limitando ao mínimo necessário para que saiam impunes. Assim, em vez de adotarem uma postura aberta, enfatizando uma irrestrita busca por evidências, simplesmente olham ao lado na esperança de que ninguém se dê ao trabalho de investigar mais a fundo — pois seria apenas questão de tempo até encontrarem indícios que os incriminam. Essa é a razão pela qual todos os culpados são estranhamente isentos de curiosidade: sabem muito bem o que será encontrado por detrás das aparências. Precisam, portanto, relativizar as evidências que apontam para sua culpa e também desestimular investigações posteriores a fim de evitar que sejam encontrados novos indícios, pois poderiam facilmente fragilizar, ou mesmo tornar indefensável, sua versão alternativa dos fatos segundo a qual são inocentes.

Suponhamos que nos acusem de um crime qualquer. Por mais hediondo que seja esse crime, se não o cometemos, a realidade estará em nosso favor. Assim, se confrontados a esse respeito, em vez de nos defendermos com discursos delirantes, relativizando toda a realidade, atacando ferozmente nossos acusadores, plantando dúvidas traiçoeiras em cada argumento que nos dirigem, seremos, pelo contrário, os maiores interessados cooperar com qualquer investigação que se proponha, para que se chegue à verdade o mais rapidamente possível, e assim os indícios demonstrem nossa inocência. Então, se somos inocentes, nosso maior interesse estará em ser honestos, pois, por mais que se descubra a nosso respeito, isso apenas confirmará nossa versão dos fatos. Por isso o sinal distintivo da honestidade é a consciência tranquila. Esse interesse sincero na busca pela verdade é a exata postura de qualquer cientista: ele tem consciência de que ser honesto é um interesse pessoal porque seu objetivo é alcançar a verdade — e qualquer outro interesse que se insira nessa equação só poderá prejudicá-lo, razão pela qual todo indivíduo que não tenha nada a esconder com sua interpretação pessoal dos fatos sempre verá o relativismo como um inimigo, nunca como um aliado. Portanto, se a realidade está ao nosso lado, nada temos a esconder. Não importa que surjam novas pistas a serem investigadas, não importa que todos os cientistas do mundo investiguem a questão por décadas e décadas com as mais avançadas ferramentas tecnológicas — quanto mais se investigar, mais ficará comprovada nossa inocência.

Enganar-se é aceitável? Ampliemos um pouco nosso contexto: dizer a verdade é aceitável? Ser sempre indiscriminadamente honesto não chegaria a ser imoral? Até mesmo estúpido? Por exemplo, imaginemos que estejamos diante de um paciente terminal. Ele nos pergunta se vai morrer; respondemos que sim, e não tardará muito; ele nos pergunta se alguém chorará por sua morte; pensamos em dizer algo confortante, mas lembramos nosso compromisso com a verdade, sendo forçados a confessar que não, ninguém o amava; morrerá como viveu, sozinho, e depois será esquecido. Nesse caso, que benefícios há na verdade? Ao que parece, nenhum; há apenas um sentimento de honra, semelhante ao de um guerreiro que morre com as armas em punho e os dentes cerrados. A diferença é que não há guerra alguma acontecendo.

Claro que a verdade pode ser muito útil. Por exemplo, para alguém que depende da lucidez para ser mais competitivo no mundo, a razão pode se justificar como uma ferramenta de sobrevivência. Nunca estar errado é um ótimo meio de assegurar que venceremos todas as disputas possíveis. Aqui, por mais que a verdade pareça desagradável, ela cumpre um fim; sentimo-la como uma feroz aliada, e torna-se temível um homem que jamais se engana. Contudo, todo pacto com um demônio tem seu preço. E o preço de uma temível honestidade é não termos controle sobre ela. Seremos honestos, doa a quem doer, como bestas selvagens da racionalidade. Isso não parece um compromisso exagerado? Porque, para além do exemplo acima, a verdade tem pouca utilidade; mais ainda, quando voltada ao nosso íntimo, ela parece um fardo, mostrando-nos uma realidade que nunca conseguiremos aceitar plenamente. Então por que permanecemos de olhos abertos diante de uma vista que nos horroriza? Não seria possível a perturbadora ideia de termos nascido sem pálpebras? Pois não sabemos dizer por que somos assim; até onde podemos perceber, não parece ter sido uma escolha.

É comum pensarmos que, se alguém atravessa a vida manifestando essa honestidade quase heroica perante o mundo, deve haver nisso algum motivo, já que, se não houvesse benefício algum, seria mais fácil simplesmente inventar qualquer teoria espúria para o mundo e dormir dentro dela. Mas, para nós, realmente seria mais fácil? Aqueles que se sentem irresistivelmente atraídos pela verdade podem escolher enganar-se? Não é essa integridade uma espécie de vício que, por acaso, tem o rótulo de virtude? Por isso mesmo, tal inépcia não deveria ser vista como um tipo de fraqueza, como uma incapacidade de mentir suficientemente bem? Enfim, uma sobriedade nascida não da coragem, mas da incompetência. Gostaríamos de ter medalhas por permanecermos acordados, mas tudo o que temos é insônia.

Se fôssemos livres, se pudéssemos escolher, qual seria a situação mais desejável? Idealmente, pensando na diminuição da dor e no aumento do sucesso, a lucidez deveria ser total para o lado de fora — para o mundo social competitivo — e mínima para o interior, para nossas vidas pessoais. O problema é que não conseguimos fechar os olhos quando, ao fim do dia, voltamos para casa; somos vítimas disso que podemos descrever como um desassossego intelectual. Desnecessário dizer que essa lucidez que não consegue controlar-se causa uma grande quantidade de sofrimento, que seria facilmente evitável se conseguíssemos escolher quando abrir ou fechar os olhos. Mas não conseguimos, e talvez apenas por isso sejamos honestos. Permanecemos absolutamente sinceros, mas não entendemos muito bem o porquê. Não se trata de virtude; seríamos os últimos a negá-lo. Parece uma lealdade verdadeiramente cega ao Inútil.

CIORAN, Emile. Breviário de decomposição. Trad. José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 1989.
NIETZSCHE, Friedrich. Humano, demasiado humano. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
PESSOA, Fernando. O livro do desassossego. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.