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Há basicamente três correntes do ceticismo – a saber, o religioso, o filosófico e o científico. Dentre as três, o ceticismo científico é o sinônimo mais comum para aqueles que autodefinem “céticos”. Diz-se da pessoa que questiona as suas crenças com base no entendimento científico. Assim, as alegações passam a ser analisadas e consideradas verdadeiras se puderem passar por testes empíricos.

Resumindo assim, é impossível ser completamente cético. Há uma série de alegações que não podemos testar empiricamente e que, mesmo assim, tomamos por verdadeiras. E não falo aqui de testarmos nós mesmos todas as alegações possíveis, pois seria inviável tornar-se sapiente o bastante para empreender testes em determinadas áreas que exigem um aprofundamento que leva um bom tempo de nossas vidas.

Para as alegações do grupo testável e que não podemos testar nós mesmos, confiamos nos profissionais em suas respectivas áreas e nos fiscais de seus trabalhos. É aqui que entra um novo significado de ceticismo mais condizente com uma sociedade baseada na informação: devemos ser cautelosos e prudentes na escolha das fontes que nos informam. Não há ideia extravagante que não encontre excêntricos dispostos a defendê-la.

Enquanto a ciência simplesmente ignora alegações sobrenaturais ou paranormais, o manto de arrogância lhe é inevitavelmente associado pelos defensores de tais práticas. Não entendem eles que suas alegações escapam ao escopo empírico e que provas anedóticas não satisfazem o desejo legítimo de conhecer. Nem percebem a faceta tendenciosa de suas publicações autoafirmativas.

São – na falta de melhores palavras – pessoas desinformadamente informadas, que buscam somente as fontes que corroboram suas crenças íntimas e que as acham por um preço módico, mas nem sempre. Esconder ou ignorar as teses contrárias é um claro sinal de como as nossas crenças podem nos tornar os canalhas que não somos em outras tantas ocasiões. Que não entendam com isso, todavia, uma equivalência entre fontes científicas e folhetins apologéticos.

Não se trata de um simples apelo à autoridade, mas da aplicação do que se entende por ceticismo em nossos tempos com uma abordagem prática às fontes nas quais buscamos conhecimento. Uma verdadeira fonte científica dá detalhes sobre a metodologia, apresenta as teses concorrentes, bem como descreve os procedimentos, e qualquer um pode repetir os passos e comprovar o resultado por si. Em contrapartida, as “alternativas” à ciência comumente se baseiam em reduzi-la à ignorância e a argumentação não passa de autovitimização.

Ao invés de comprovarem que suas práticas funcionam através de procedimentos, limitam-se a repetir lamentos sobre como são ignorados pela ciência, comumente taxada de “preconceituosa” e “limitada”. Fazem crer que há uma conspiração mundial entre os cientistas para que pesquisas não sejam realizadas e, quando feitas, que os resultados sejam abafados. No entanto, quando há as pesquisas e os resultados são divulgados, resta-lhes ainda explicar por que a conclusão não lhes é favorável, geralmente alegando um interesse escuso que não sabem dizer exatamente qual.

Uma das doutrinas mais interessantes do budismo é a ideia do desapego material. Nesta, observa-se que tudo na vida é transitório e, por isso, apegarmo-nos às pessoas e bens causa-nos mais tristeza que felicidade.

De modo semelhante, esse raciocínio poderia ser aplicado às nossas ideias e opiniões.

Pelo fato de não termos acesso absoluto às verdades do universo, todos os nossos pontos de vista são limitados e, portanto, potencialmente errados. Não sendo perfeitas, nossas opiniões constantemente sofrem ataques do mundo real.

A reação natural de qualquer pessoa, quando seus pontos de vista são questionados, é a tentativa de protegê-lo. Deveríamos analisar os argumentos e evidências favoráveis e desfavoráveis às nossas opiniões e concluir, com imparcialidade, se elas são válidas ou não.

O que acontece na realidade para a quase totalidade das pessoas é bem diferente disso: Não avaliamos de maneira livre de preconceitos os argumentos contrários àquilo que acreditamos. Estes argumentos são recebidos por nós como errados à priori e, mesmo que estejam corretos, não competem de maneira igual contra os nossos argumentos preferidos.

Devemos procurar estar conscientes da qualidade real dos nossos argumentos. Quanto de nossos argumentos só se sustenta por estarmos apaixonados pela conclusão que eles conduzem?

Assim como um rapaz com sua namorada, não vemos defeitos em nosso objeto de paixão. Isso ocorre porque deliberadamente desligamos nosso raciocínio crítico quando estamos apaixonados. Assim, as imperfeições passam totalmente despercebidas.

O desapego absoluto às ideias não é algo que possamos atingir, afinal somos humanos. O melhor que podemos fazer é nos perguntar toda vez que nos observarmos lutando contra as evidências: Quem está mais errado, eu ou as evidências?

Segundo a etimologia da palavra, respectus, em latim, quer dizer “consideração”, “atenção”[1]. É a origem de nossa palavra em português para “respeito”. Antes de dar uma definição do verbete, acho necessário dizer o que não é respeito.

Em primeiro lugar, quem ou o quê deve ser respeitado? Juridicamente[2], as pessoas têm liberdade constitucional à manifestação do pensamento (Constituição Federal, art. 5º, IV), à inviolabilidade de consciência e de crença (CF, art. 5º, VI) e à livre expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença (CF, art. 5º, IX). É uma pequena amostra do extenso rol de direitos e garantias fundamentais elencados em nossa Carta Magna.

No caput do famigerado artigo 5º, é possível perceber que todos esses direitos são destinados aos indivíduos. Eles têm plena capacidade de exercê-los até onde a lei os restringe, como com a vedação ao anonimato do inciso IV e o direito de resposta, redação do inciso V. Em poucas palavras, os indivíduos têm todo o respeito estatal às suas convicções, mas toda e qualquer palavra ou opinião que seja externada é passível de crítica e sanções, caso haja abuso.

Mas o que isso realmente nos diz? Diz-nos que eu, enquanto indivíduo destinatário de direitos e garantias fundamentais, posso muito bem pensar que sou Napoleão Bonaparte. Diz-nos também que, caso eu externe esse pensamento e seja uma ameaça à vida e à ordem social, posso sofrer intervenção psiquiátrica. Grosso modo, equivale a dizer que eu sou respeitado; minhas ideias absurdas não. Elas precisam de respaldo e autossustentação para que sejam consideradas.

Analisemos, então, o que quer dizer um cristão, por exemplo, respeitar algum membro de outra religião ou de nenhuma: “respeito solenemente a sua vontade de passar a eternidade no inferno por não professar a religião verdadeira que garante uma passagem direta para o céu”. Agora vejamos como um ateu respeita um religioso: “respeito carinhosamente a sua infantilidade religiosa que tanto me faz rir, com todas as suas atitudes ridículas e suas bajulações a um ser imaginário com quem todos dizem se comunicar e de quem todos dizem obter respostas, em casos que poderiam muito bem ser clínicos, caso não fossem culturais”. Tudo isso dito com um sorriso amarelo de quem não sabe ao certo o que realmente quer dizer “respeito”.

O verdadeiro respeito pode e deve passar pela integridade intelectual. Pensemos: o que é uma reunião ecumênica? O fato de líderes religiosos de diferentes crenças se reunirem só demonstra a praticidade política de sua representatividade. A mensagem passada é a de que não queremos que nossos fieis se degladiem entre si, pois um banho de sangue é desnecessário, vez por outra. No entanto, em suas ideologias dissonantes e contraditórias, todos buscam abocanhar o maior número de pessoas para sua causa — que, diga-se de passagem, é a única certa e verdadeira. A imagem mais nítida de uma reunião assim é a de pessoas que, com uma mão, dão efusivas saudações e juram fidelidade e fraternidade, mas que seguram uma arma carregada e pronta para atirar, na mão que ficou escondida atrás de seu corpo.

As pessoas merecem, sim, todo o respeito que podemos conceder; e criticar suas ideias, por mais que o equívoco geral diga o contrário, é a forma mais honesta e sincera que temos para tal.

Notas:

[1] Dicionário eletrônico Houaiss da língua portuguesa 3.0

[2] Constituição Federal. Disponível em <http://www.planalto….tui%C3%A7ao.htm> Acesso em 06 de março de 2010.