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Fala-se muito em “religião organizada” quando se apontam os males causados pelo pensamento religioso. É como se todos fossem inocentes isoladamente, mas a nova entidade formada pelos indivíduos herdasse um pouco do mal inerente de cada um e se transformasse em um novo ser, dotado da capacidade de cometer as maiores atrocidades imagináveis em nome da fé.

Apesar da popularidade, algumas perguntas restam inevitavelmente sem resposta. O que se poderia chamar de “religião organizada” hoje? Pensamos na Igreja Católica e nas grandes protestantes; mas e as igrejas que surgem diariamente – aproveitando-se de nossa legislação flexível e da isenção de contribuições – se encaixam? Os cultos domésticos, que não precisam de um eclesiástico ordenado, se encaixam? Os rituais de despacho de algumas religiões afrobrasileiras se encaixam?

Creio que a resposta para cada questão variará de acordo com o gosto de quem as responde. Assim, o termo “religião organizada” padece de terrível atecnia e de plurissignificação. Quem usa do termo procura somente algum espantalho vagamente definido para atacar. Não foram poucas as vezes em que ouvi cristãos vangloriando-se por seguirem somente a Jesus, e não a igrejas; ou ateus dizendo que respeitam o comportamento individual, mas são contra a tal “religião organizada”.

“As igrejas são feitas por homens”, dizem. “Sigo algo muito maior”, batem no peito e bradam orgulho. Mas podem mesmo se valer do espantalho como bode expiatório? Pelo que vemos acontecer, não. Em primeiro lugar, porque podem ser tão fanáticos quanto qualquer beato de igreja. Em segundo, porque, mesmo moderados, não aceitam deixar de lado a denominação cristã. Se eufemismos valem como conforto emocional, vale dizer que não têm muito valor numa discussão sobre as consequências das ações.

Crenças em seres sobrenaturais organizadas em culto crescem como mato nas sociedades, mesmo nas atuais. E um local apropriado serve não só como centro de oração, mas principalmente como ponto de socialização. Os rituais induzem estados vendidos que supostamente só podem ser comprados ali e é por isso que a maioria, mesmo postulando deuses pessoalmente montados, ainda segue casas oficiais de culto, mesmo sem fidelidade a quaisquer delas.

Dessa forma, a famosa “religião organizada” não é bem assim tão culpada por seus atos se o fiel continua seguindo os seus preceitos, dentro ou fora das paredes. De certa forma, serão tão culpados pelo que as “religiões organizadas” fazem quanto o somos pelas ações dos nossos políticos eleitos. Mesmo que não os tenhamos colocado diretamente no poder, é nosso dever fiscalizá-los na sua gestão de nossa boa-fé.

Fingimos aceitar que o mal do país é gerado pela má atuação dos governantes simplesmente para nos sentirmos aliviados de culpa. Se realmente acreditássemos que eles são os responsáveis, dificilmente ficariam no poder por tanto tempo. Sairiam por revolta – expressa ou tácita, nas próximas eleições. Da mesma forma, não acreditamos que o papa ou outro grande líder religioso seja responsável pelas atrocidades que os fieis deixam acontecer.

Quisessem, poderiam bradar suas verdades reveladas a quem os escutasse. Aqueles que o fazem em pequenas praças públicas são vistos apenas como excêntricos e ignorados pela maior parte da população. É o mesmo com quem não segue uma grande denominação religiosa: vemos somente um velho de cabelos brancos, envolto por um vestido longo e cheio de adornos, pendurado em uma janela bem arquitetada, falando besteiras com um sorriso amarelo em sua face.

É o que aquelas pessoas comovidas que o escutam na praça abaixo fazem que importa. São elas que dão suporte ao velho retrógrado. Somos nós que damos audiência às suas palavras caducas. Que levamos a sério sua retórica de púlpito. Que nos fazemos cordeiros em seu rebanho. Queremos que acabe? Comecemos por não expiarmos a culpa em um bode, pois é uma tradição cristã que há muito deixamos racionalmente de seguir: não há uma “religião organizada” a quem combater, mas uma mea culpa, pessoal e intransferível, que deve ser retratada.

Don Pedro de Barberana y Aparregui, Cavaleiro de Calatrava, por Diego Velázquez.

Don Pedro de Barberana y Aparregui, Cavaleiro de Calatrava, por Diego Velázquez.

Fundada no reino de Castilha, região que hoje é território espanhol, a Ordem de Calatrava foi a segunda Ordem de Cavaleiros a receber apoio papal. O papa Alexandre III reconheceu sua legitimidade em 1164, com o objetivo principal de melhor organizar a ofensiva da Batalha da Reconquista, na qual portugueses e espanhóis pretendiam expulsar todos os muçulmanos da península Ibérica.

Os cavaleiros da Ordem lutaram e combateram os muçulmanos que ocupavam a região andaluz. Mas não foi até 1409 que a Ordem, que tinha por símbolo a cruz da Igreja Católica Ortodoxa Grega entrelaçado pela flor-de-lis, símbolos da cristandade, ganhou poder político, quando o papa Inocêncio VII, convencido do sucesso da campanha da Ordem do Dragão, patrocinou política e financeiramente a Ordem de Calatrava para investir contra o império Otomano.

Calatrava, Wallachia e Constantinopla são apenas alguns dos vários sítios históricos que testemunharam o derramamento de sangue por motivos religiosos. Não sejamos simplistas a ponto de achar que tais fatos ocorreram apenas pela fé. Nenhum rei, nem mesmo o Papa gastaria tanto dinheiro e patrocinaria tantas mortes se não houvesse real interesse econômico e político no domínio cristão na Europa.

As igrejas sempre foram grandes máquinas de coletar dinheiro (muitas vezes às custas das ilusões daqueles que não têm mais ao que se apegar), e perder a galinha dos ovos de ouro seria um preço muito caro. Foi preciso, nestes dois últimos séculos, fechar os olhos para o sexto mandamento de Moisés.

Mas os livros de história estão sempre empoeirados nas prateleiras daqueles que querem dedicar a vida à religião. Quinhentos anos parece algo tão distante e surreal que é fácil negar ou ignorar o cheiro de carcaça que ainda brota de um passado nem tão distante.

A verdade é que não precisamos ir tão longe. Para manter as chamas da ignorância acesas, atropelam-se deliberadamente os fatos que, se não fossem patrocinados por uma poderosa entidade religiosa, jamais passariam desapercebidos. Quem seria capaz de ignorar o legado de crueldade deixado pelo nazista? Qual empresa se safaria de tantas acusações de pedofilia por parte dos seus representantes?

Enquanto existir o controle das massas por essas megaempresas multinacionais que,explorando a fraqueza emocional e a necessidade de consolo espiritual, enriquecem os salões do Vaticano e os bolsos dos pastores evangélicos, continuaremos jogando a sujeira para debaixo do tapete e fechando os olhos para as atrocidades cometidas sob a proteção da batina e do crucifixo.

Localizada entre o rio Danúbio e as geladas montanhas de Cárpatos, ergue-se a fria e solitária região de Wallachia. Aparentemente esquecida pelo tempo, a região localizada ao sul da Romênia foi testemunha de determinantes conflitos históricos que livraram o leste europeu de um possível domínio Turco.

Entretanto, não é por estes conflitos que a região é principalmente conhecida, mas pela fama nebulosa que circunda um de seus mais notórios governantes, Vlad III, imortalizado pelo folclore romeno e posteriormente difundido globalmente pelo aclamado romance de Bram Stoker e as suas várias adaptações para o cinema.

Vlad III nasceu na Transilvânia e aos cinco anos de idade foi levado a Nuremberg, onde foi iniciado na Ordem do Dragão. O Voivoda exibia orgulhosamente o título de Draculea, significando“o filho do Dragão”; uma clara referência ao seu pai, Vlad II Dracul, conhecido como O Dragão, membro honorário da Ordem.

Com sua lealdade posta em dúvida entre os membros do Conselho Húngaro, Vlad II Dracul firmou um acordo com sultões turcos, prometendo pagar-lhes tributo e não oferecer resistência à sua expansão. Como garantia, O Dragão enviou seus dois filhos a Edirne, então capital do império Otomano, na condição de reféns.

Vlad III em seu famoso desjejum entre as vítimas de empalamento. Ilustração do século XV: “O bosque dos empalados”. Autor desconhecido.

Vlad III em seu famoso desjejum entre as vítimas de empalamento. Ilustração do século XV: “O bosque dos empalados”. Autor desconhecido.

O que os jovens da Transilvânia não sabiam era que seu genitor tinha planos de sacrificá-los como parte de uma manobra protelatória política, obtendo assim os favores dos demais nobres húngaros. Vlad III e seu irmão Radu, o Belo, ficaram sob a custódia de Mehmed II, que, ao invés ordenar a morte dos dois jovens, como esperado, tinha planos de doutriná-los de acordo com os costumes islâmicos e mais tarde reinseri-los no poder, constituindo então um reino muçulmano no coração de Wallachia.

Os irmãos testemunharam a rigidez com que o sultão controlava seu povo. Relatos históricos nos mostram que Radu não demorou a converter-se ao islamismo, porém Vlad era constantemente punido pela sua insolência e recusa a abandonar o cristianismo. Ambos receberam treinamento em táticas de guerra, aprenderam a língua turca e estudaram profundamente o corão. O empalamento era algo praticado em larga escala na Turquia.

Descontentes com a posição que Vlad II Dracul assumira com relação aos Otomanos, Hunyadi liderou ataque ao principado de Wallachia, assassinando o então governante da região juntamente com seus filhos mais velhos. Esta ação fez com que os otomanos atacassem o sul da Romênia, com o objetivo principal de tornar líder Vlad III. Este governo, entretanto, não durou muito e logo João Hunyadi investiu novamente contra a região, depondo Vlad Ţepeş e substituindo-o por Vladislav II.

Acreditando ter dado o trono para um simpatizante do islamismo, os turcos prepararam-se para uma nova investida, marchando contra Constantinopla, hoje Istambul, com a intenção de eliminar a última resistência cristã no mediterrâneo.

Referência cristã no emblema da Ordem do Dragão. Inscrição: O Draconistarum ordeurs, Justus et Paciens. Representa a vitória de São Jorge sobre o Dragão, da cristandade sobre Satanás.

Referência cristã no emblema da Ordem. Traz a inscrição "O Quam Misericors est Deus, Justus et Paciens". (Ó quão misericordioso é Deus, justo e paciente).

Vlad fugiu para Moldavia, onde tinha a proteção do seu tio Bogdan II. Ali, Vlad Ţepeş teve a oportunidade de se encontrar com Hunyadi, um homem extremamente religioso e preocupado com a situação do país, e conseguiu convencê-lo de que não apenas conhecia profundamente os costumes e hábitos turcos, mas que sobretudo não havia se convertido ao islamismo, a exemplo do seu irmão. Hunyadi nomeou Vlad III seu conselheiro de guerra.

Em 1451, Constantinopla caiu nas mãos do império Otomano, que marcharam novamente, desta vez para Belgrado, com fins de dominar toda a região da Romênia. Com o apoio de Hunyadi, Vlad III liderou um pequeno exército contra Wallachia, assassinando Vladislav II e retomando o poder. Enquanto isso, Hunyadi liderava os seus homens para a Sérvia com a intenção de montar uma resistência.

Vlad III governou Wallachia com punhos de ferro. As punições eram exemplares; para todo tipo de delito havia penas severas, e a mais comum delas era o empalamento. Foi por causa desse modus operandi que ganhou o apelido de Vlad Ţepeş, ou Vlad, o Empalador.

Até os seus últimos dias de vida, Vlad lutou para manter Wallachia um reino cristão, e para isso matou não apenas os seus inimigos, mas também os seus conterrâneos subordinados. O medo presente na população da região era tamanho que diz-se ter existido um cálice de ouro no centro de sua capital sem que ninguém ousasse subtraí-lo. Era uma demonstração clara do seu poder de controle. Vlad provocou os otomanos, não pagando seus tributos e empalando qualquer muçulmano que se aproximasse do seu país. Mehmed então invandiu a Wallachia com aproximadamente 80 mil homens de armas.

Vlad não possuia mais do que 40 mil homens, mas organizou uma resistência psicológica. Atacava constantemente os otomanos enquanto dormiam, tornando-se famoso o episódio “Ataque Noturno“, onde pelo menos 15 mil otomanos foram mortos. Tudo o que os turcos encontraram ao invadir a Romênia foi uma floresta de corpos empalados e um trono vazio. Sem dinheiro para continuar a sua resistência, Vlad III foi unir-se ao seu aliado Matthias Corvinus, na esperança de conseguir convencê-lo a defender o seu principado. Matthias, entretanto, ordenou a prisão de Vlad.

Após ter se tornado cativo na Húngria, foi libertado a pedido do próprio Papa, para que voltasse à Wallachia, onde asseguraria que o cristianismo predominasse sobre o islamismo. Temendo a volta ao poder pelo seu carrasco líder, populares atacaram e mataram Vlad Ţepeş, expondo sua cabeça em uma alta estaca.

Pio II. O Papa que ajudou a criar e patrocinou a Ordem do Dragão.

Pio II. O Papa que ajudou a criar e patrocinou a Ordem do Dragão.

Os casos bárbaros e as lendas que circundam a figura do Empalador são muitas; seria preciso escrever um livro completo para detalhar suas façanhas cruéis. Não vou me ocupar desta tarefa. Na verdade, tenho a impressão que este texto está se tornando longo e enfadonho. Por isso termino este capítulo da Ordem do Dragão, que narra a história de um de seus mais emblemáticos líderes, com uma simples reflexão.

O papa Pio II, então governante na época, não apenas acobertou as crueldades ocorridas no Cárpatos, mas deu efetivo apoio, chegando a patrocinar financeira e ideologicamente a criação e o combate armado por parte da grande Ordem. Não apenas aprovou, mas viu estes esforços como um exemplo a ser seguido, o que mais tarde influenciaria a criação de uma nova ordem na Espanha. Mas este é assunto para o nosso próximo texto.

É assim que se expressava o amor cristão durante a Idade Média: Através de inquisições e empalamentos. É este o papel do Vaticano, e de seu Praetorium Excelsior, enquanto portadores do legado histórico conferido pela religião abraâmica? Talvez ainda exista um pouco da Idade das Trevas, em forma tênue, vagando entre os palácios do Vaticano.

      Para saber mais:

      • FLORESCU, Radu. Drácula: Uma biografia de Vlad, o Empalador, 1431-1476. Nova York: Hawthorn Books, 1973.
      • _________. Drácula: As várias facetas do Príncipe; Sua vida e sua Época. Boston: Brown and Company, 1989.
      • STOICESCU, Nicolae. Vlad, O Empalador. Bucareste: Universidade da Romênia, 1978.
      • TREPTOW, Kurt W., ed. Dracula: Artigo sobre a vida nos tempos de Vlad Tepes In Monografias do Leste Europeu. no. 323, Nova York: Editora da Universidade de Columbia, 1991.

      A igreja, de um modo geral, sempre prosperou quanto mais poder social exerceu. Foi controlando a vida das pessoas, suas ações e pensamentos, que foram capazes de moldar a sociedade a seu gosto (duvidoso). Nas pequenas aldeias e vilas, era um trabalho razoavelmente fácil e foi uma das funções mais proeminentes da confissão individual. Até hoje, em cidades do interior de nosso país, não é difícil ver como tudo gira em torno daquela igreja e daquela pracinha.

      No entanto, é muito mais difícil controlar a vida de pessoas em uma grande cidade, principalmente com a rotatividade de fieis: não dá simplesmente para decorar todos os nomes de pessoas que frequentam sua igreja, nem lembrar de seus pecados. É aqui que entram as pequenas dissidências eclesiásticas: as igrejas evangélicas e pentecostais acabam por assumir o papel outrora dominante da Igreja Católica. Elas dispõem, geralmente, de uma congregação menor, mais intimista, onde todos se conhecem e sabem da vida de todos.

      É por conta desse atual cenário que, por vezes, parece haver uma discriminação maior nas igrejas protestantes. É por isso que vemos discursos mais inflamados de pastores contra homossexuais e é por isso que tantos prometem curas milagrosas para este comportamento. Não importa se a Organização Mundial de Saúde retirou a homossexualidade do seu rol de doenças[1]; para os crentes, é um desvio da obra de Deus e deve ser “curada”.

      Diante de toda a opressão que o cristianismo ainda exerce sobre os homossexuais, há duas saídas principais: eles podem abandonar a igreja ou combater a própria sexualidade. Há, obviamente, diversos outros caminhos não tão radicais: desde buscar igrejas mais lenientes até fundar igrejas somente para homossexuais [2].

      Aqueles que buscam respaldo na Bíblia para criticar os homossexuais encontrarão três principais passagens [3]:

      “Com homem não te deitarás, como se fosse mulher; abominação é” (Levítico 18:22);

      “Quando também um homem se deitar com outro homem, como com mulher, ambos fizeram abominação; certamente morrerão; o seu sangue será sobre eles” (Levítico 20:13);

      “Por isso Deus os abandonou às paixões infames. Porque até as suas mulheres mudaram o uso natural, no contrário à natureza. E, semelhantemente, também os homens, deixando o uso natural da mulher, se inflamaram em sua sensualidade uns para com os outros, homens com homens, cometendo torpeza e recebendo em si mesmos a recompensa que convinha ao seu erro” (Romanos 1:26-27).

      Apesar da ilusão de que católicos têm uma posição mais branda sobre a homossexualidade, o atual papa Bento XVI já deu diversas declarações que mostram exatamente o contrário: “Salvar gays é tão importante quanto salvar florestas” [4]; ou ainda “Papa critica projeto de lei britânico contra a discriminação de homossexuais” [5].

      É difícil traçar um paralelo entre ateísmo e homossexualidade, mas, indubitavelmente, boa parte dos indivíduos que não busca igrejas que os aceitem como são acaba por se tornar ateia ou professar algum tipo de crença que não seja baseada no deus judaico-cristão. De qualquer forma, não é difícil perceber como o rígido controle social, em uma sociedade na qual a apostasia não é punível com morte ou segregação, pode prejudicar o número de fieis de determinada congregação.

      Por mais que a religião cristã paute seus ensinamentos no sofrimento, muitos já perceberam que ele não é realmente necessário e simplesmente vivem suas vidas sem a preocupação masoquista de agradar a deus(es) preocupado(s) demais com o que se faz na vida privada.

      Notas:
      [1] World Health Organization. ICD-10. Disponível inglês em <http://www.who.int/c…en/bluebook.pdf> Acesso em 28. fev 2010.

      [2] Igreja da Comunidade Metropolitana

      [3] Bíblia. Tradução de João Ferreira de Almeida. Disponível em <http://ateus.net/art…rituras/biblia/> Acesso em 28 fev. 2010.

      [4] Salvar gays é tão importante quanto salvar florestas, diz Bento 16

      [5] Papa critica projeto de lei britânico contra a discriminação de homossexuais

      Recentemente foi revelado ao mundo um dos casos mais estarrecedores de pedofilia entre padres. Desta vez foi na Alemanha onde, até agora, 115 ex-alunos de colégios católicos resolveram romper o véu do silêncio e denunciar suas experiências acadêmicas desagradáveis.

      Ainda mais revoltante é a Igreja Católica, que parece estar muito mais preocupada em manter a sua boa imagem do que em prezar pelo bem estar das crianças que frequentam seus cultos. Segundo a Ministra da Justiça alemã, o Vaticano criou um “muro de silêncio” para tratar deste caso, afirmando que a Igreja orienta seus membros a não divulgar tais assuntos fora da instituição, dificultando, desta forma, a ação da justiça dos homens.

      A conclusão da ministra é corroborada por uma carta do falecido João Paulo II que, em 1999, aconselhava Robert Burns, um padre com histórico de abusos, a mudar de área ou continuar na mesma área desde que sua permanência não acarretasse novos escândalos.

      Aqui no Brasil também há alguns casos semelhantes. O do padre Ângelo Schiarelli, por exemplo, pego pela polícia em flagrante no quarto com uma menina de 13 anos. O padre, de 64 anos, havia sido transferido de São Lourenço do Oeste onde já havia suspeitas de abusos contra menores.

      Existem muitos outros casos descobertos e, provavelmente, muitos outros mantidos em segredo com sucesso.

      Segundo a doutrina católica, a castidade não é um sacrifício, mas um fruto do Espírito Santo, que ajudando os homens a controlar suas mentes, aproxima-os de Deus.

      Evidentemente, não podemos cobrar sucesso do Espírito Santo nessa missão. Afinal, além de não haver qualquer sinal deste, somos seres sexuados e, por isso, o sexo possui uma relevância psicológica bastante grande em todos nós. Essa relevância é muito mais prevalente nos homens, que, por razões evolutivas, possuem uma libido bastante maior do que a média das mulheres.

      Com padres, obviamente isso não poderia ser diferente. A tentativa de coibir a natureza humana com dogmas religiosos é uma tentativa fadada ao insucesso, o problema assume maior proporção quando essas falhas envolvem crianças, alvos fáceis para padres predadores.

      Dentre as inúmeras características que possui a deidade cristã, três se destacam: a onipresença, a onisciência e a onipotência. Em todos os casos, o radical “oni” deriva do latim omni, que significa literalmente “todos”, tornando-se dispensável explicar o seu significado. O que chama atenção é o poder que este prefixo romano atribui às palavras, dando-lhes propriedades que vão muito além da nossa imaginação.

      Mas, então, de onde surgiram tais ideias? E para que servem?

      Por volta de 1780, o jurista e filósofo inglês Jeremy Bentham elaborou uma teoria que, a priori, seria aplicada no sistema prisional, a qual deu a alcunha de panóptico (neologismo que deriva das palavras gregas pan, significando “todos” ou “por todos os lados”, e opticon, que significa “vigiado”, “observado”). Para o pensador, a sensação de estar sendo constantemente observado geraria um controle inigualável sobre o comportamento dos apenados. É importante frisar que os presos não necessariamente estariam sendo observados constantemente, mas era preciso suplantar em seus corações tal receio.

      Panóptico

      Esta mesma ideia foi, mais tarde, explorada por dois notórios escritores: Aldous Huxley, em seu romance Admirável mundo novo, e George Orwell em 1984. Em ambos os livros, de formas diferentes, o controle excessivo provocado pela vigilância estatal provoca a submissão desmedida e acaba por tornar-se mecanismo de padronização, anulando as individualidades. Para ser justo, é preciso dizer que ambos os livros vão além, como a exploração do controle através da sexualidade, o proposital empobrecimento vernacular e controle mediocrático, como forma de alienação em massa. Todos esses elementos combinados criaria uma sociedade de marionetes biológicas.

      Em todos esses exemplos observamos uma similaridade sem precedentes com a ideia civilizatória cristã, apregoada pelo constante medo de estar sendo observado pelo big brother celestial, que nos julgará por cada pequena ação. Através da constante tensão ocasionada pela vigília desta deidade, as autoridades religiosas acabam por assumir uma papel paternalista, de guia espiritual capaz de redimir os pecados espiados por deus.

      Há de se convir que tal forma de controle é extremamente eficiente, e o medo da observância é suficiente para que os fiéis se deixem controlar pela ideia panóptica de Bentham. Huxley e Orwell apenas reproduziram em suas obras modelos que já vem sendo explorados há milênios, e com grande sucesso. O Estado (aqui representado pela igreja) controla cada pensamento, dita as verdades e planta medo na população.

      E assim como no livro 1984 o personagem O’Brien, representante do Partido, tenta fazer com que Winston afirme, através de torturas, ver quatro dedos onde na verdade existem cinco, os fieis são constantemente atormentados com o medo do inferno, e com o julgamento de suas ações pelo Rex Tremendae [1], tornando-se incapaz de discernir ficção de realidade.

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      1. Referência ao trecho do Requiem católico, no qual constantemente deus é posto como um rei absoluto, que julgará todas as coisas:

      Quantus tremor est futurus/Quando judex est venturus/Cuncta stricte discussurus. – Quanto temor haverá então/quando o juiz vier/E julgar rigorosamente todas as coisas.

      Lacrimosa dies illa/Qua resurget ex favilla/Judicandus homo reus. – Dia de lágima será aquele/No qual surgidos das cinzas/Os homens serão julgados como réus.

      Não é novidade que a indústria da religião movimenta uma soma incomensurável todos os dias. Todos conhecem também alguém que lucra indiretamente com a religiosidade alheia, seja por meio da comercialização de produtos cristãos, de souvenir como a venda de produtos milagrosos e indulgências modernas. Mas há novas oportunidades de mercado surgindo, com seus métodos para lá de heterodoxos na conquista de novos adeptos e melhor arrecadação financeira.

      Um exemplo incomum desta empreitada é a empresa Inspired Media Entertainment[1], antigamente conhecida por Left Behind Games: Bible and Christian Games. Baseado no best-seller apocalíptico “Deixado para Trás”, que conta com títulos como Eternal Forces. Neste bizarro enredo, o jogador se encontra no meio de uma Nova York pós-apocalíptica, que muito nos faz lembrar do atentado de 11 de setembro. No jogo, uma ordem de cristãos fundamentalistas recebe a missão de converter ateus, mulçumanos, judeus e basicamente todos os demais residentes a uma espécie de cristianismo fundamentalista.

      Aqueles que resistirem devem ser mortos.

      O jogo conta também com uma expansão: Tribulation Forces. A descrição do jogo compreende mensagens como: “combata ferozmente as forças do àanticristo, nesta guerra física e espiritual. Utilize o poder da oração para resistir à influência espiritual e defenda-se de tais ataques.” Ao navegar pelo site da empresa, você é obrigado a ouvir uma descrição em áudio de cada jogo, que afirma ser “um exemplo de ensinamento moral e de valores cristãos para as crianças e jovens, de uma forma divertida e realista”.

      Vale dizer que a empresa conta com o patrocínio do governo americano, que em 2007 encomendou centenas desses jogos para serem enviados ao Iraque, onde os soldados americanos poderiam aproveitar o seu tempo livre aniquilando infiéis virtualmente[2]. Não é à toa que o jogo, apesar de relativamente desconhecido, contou com a participação de grandes nomes, como o compositor Chance Thomas (King Kong, X-men e Senhor dos Anéis).

      Esta tentativa de atrair o público adolescente para a igreja, por meio de jogos surreais e violentos é apenas um exemplo do que está chegando ao mercado nesta última década. É obvio que o grande público não é atingido por esse tipo de jogo patético, que expressa orgulho em ser “o primeiro jogo em que orações e devoções são mais poderosas do que armas”.

      A criatividade comercial não enfrenta limitações. Eras pós-apocalípticas, cristãos fundamentalistas armados, super-heróis que têm poderes provenientes da sua fé (blibleman)[3], etc.; são exemplos absurdos, mas cada vez mais comuns e lucrativos[4] no mercado da fé. Resultado de uma profunda alienação, atua como mantenedora de tal estado, utilizando-se de perigosas técnicas de incentivo à intolerância contra aqueles que não compartilham da mesma fé. Jogar vídeo-game nunca foi tão perigoso.

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      Notas

      1. LeftBehind Games
      2. Kill or Convert
      3. Bibleman
      4. Apenas em 2006 o jogo Eternal Forces gerou um lucro de dois milhões de dollares


      Algumas opiniões (em inglês) sobre os produtos da empresa IME

      • Dallas Anderson of the Billy Graham Center says, “one of the geniuses of these games is that they give gamers a chance to see the consequences of poor decisions …we’re pretty excited to see that these games were designed to provide positive moral input to a youthful generation which would otherwise not hear it.”
      • Focus on the Family (Breakaway Magazine) says, “Overall, this is a positive faith building game worth your time and money.”
      • LEFT BEHIND author Tim LaHaye says, ” … for those who are into video games, Left Behind games are the #1 most powerful vehicle for their hearts and minds that’s been invented in our lifetime.”
      • Founder of Concerned Women for America, Beverly LaHaye says, “Here is a game we heartily recommend.”
      • More than 1,000 people have recommitted their lives or come to faith as a result of our games and evangelistic website.
      Os cristãos, segundo sua própria tradição, foram alvo de extensa e sistemática perseguição por parte do Império Romano. Esta perseguição se dava por absoluta intolerância ao simples fato de serem cristãos.

      Salomé com a cabeça de João Batista - Caravaggio

      Sob uma ótica crítica, algo soa muito estranho. O Império Romano era um império multicultural, composto por diversas nações, cada uma com seus deuses. Existiam em Roma sinagogas judaicas, templos para Ísis, Mitra e deuses sírios. Até mesmo aqueles que professavam publicamente sobre a inexistência de deuses eram tolerados. Juvenal disse: “Nec pueri credunt” (Nem sequer os meninos acreditam nisso). Na Trôade de Sêneca, cantou-se: “Post mortem nihil est, ipsaque mors nihil” (Nada existe após a morte e a própria morte não é nada). O senado romano possuía uma máxima jurídica que dizia: “deorum offensae diis curae” (ofensas a deuses só dizem respeito aos deuses), portanto, parece muito inverossímil que apenas os cristãos tenham sido perseguidos em uma terra onde a tolerância religiosa parecia falar mais alto.

      Vale lembrar alguns mártires que supostamente foram mortos por romanos.

      Jesus, que fora crucificado por romanos, não o foi por intolerância religiosa. Parece mais provável que a causa tenha sido a agitação popular e a inimizade crescente que este teve com os poderosos judeus de sua época.

      São Lourenço, assado vivo pelos romanos, não o fora por sua fé suicida em Cristo, e sim porque se recusara a prestar contas do patrimônio da Igreja ao prefeito de Roma Cornelius Secularis.

      Outro caso bastante interessante é o de São Polieucto, condenado à morte após interromper uma celebração pela vitória do imperador Décio. Nesta ocasião, São Polieucto insultou fiéis, derrubou altares, quebrou estátuas etc. Um claro exemplo do que é intolerância religiosa.

      A perseguição aos cristãos, instaurada por Nero entre os anos de 66 e 68, foi motivada pela necessidade que Nero tinha de conseguir culpáveis pelo grande Incêndio que atingiu Roma em 64; afinal, surgiam boatos de que o próprio Nero teria ordenado tal incêndio. Sobre isso, Tácito escreveu: “para se ver livre do boato, Nero prendeu os culpados e infligiu as mais requintadas torturas em uma classe odiada por suas abominações, chamada cristãos pelo populacho”. Entre essas abominações, havia a ideia de que os cristãos praticavam o infanticídio ritual e o incesto; boatos, é provável, mas que deram a Nero motivo suficiente para culpá-los pelo incêndio. Dá-se aí uma perseguição com motivação muito mais política do que religiosa.

      Última prece dos mártires cristãos - Jean-Léon Gérôme

      Posteriormente a esses fatos, os cristãos veem-se com liberdade suficiente para crescer em número de súditos por mais de 200 anos.

       A liberdade dos cristãos só seria novamente interrompida por Diocleciano, um imperador tradicionalista que desejava retomar as antigas tradições religiosas de Roma. Diocleciano proclamou, no ano 303, o primeiro de quatro éditos ordenando perseguição de cristãos e outras seitas menores. Houve porém uma certa resistência por parte de uma população que já era em grande parte cristã. Ainda assim, esta fora a mais longa e violenta perseguição a cristãos no Império Romano, e continuou por 8 anos quando, com a morte de Diocleciano, o cristianismo foi descriminalizado, e em 313 tornado uma das religiões oficiais do império com a ascensão de Constantino I ao poder.

      As duas grandes perseguições contra cristãos, como vimos, tiveram como motivação interesses pessoais dos imperadores. Não havia o interesse público nem o interesse do Estado em eliminar cristãos; prova disso é que, com a morte de Nero e Diocleciano, as perseguições cessaram quase que de imediato.

      Constantino I foi o primeiro imperador romano a se declarar cristão e com o Concílio de Nicéia, em 325, unificou o Cristianismo. Em 380 Teodósio I, proclama o Cristianismo como a religião oficial do Império Romano, e, junto com o imperador Graciano, declaram que todos os súditos deveriam seguir o cristianismo dos bispos de Roma, proibindo, desta forma, o culto aos deuses antigos.

      Outro episódio importante ocorreu em 388 na cidade de Calínico, Mesopotâmia, onde a população cristã local incendiou uma sinagoga. Ao saber disso, Teodósio I ordenou ao bispo local, conforme a tradição romana, que a sinagoga deveria ser reconstruída. Porém, Santo Ambrósio, bispo de Milão, intercedeu dizendo-lhe que queimar sinagogas era agradar a Deus, e um imperador cristão não deveria intervir. Teodósio I não interviu.

      Posteriormente, Santo Ambrósio e outros bispos iriam influenciar o imperador para a aprovação de leis que fariam do antissemitismo uma política de Estado. Iniciava-se, desta forma, uma história de intolerância religiosa na qual judeus e pagãos foram sistematicamente caçados, torturados e mortos por quase 1500 anos. Os caçados viraram caçadores.

      A inquisição católica