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I

A maioria de nós pensa na religião como uma infantilidade, porém sem entender como se pode chegar a essa conclusão legitimamente. Em geral, apenas ouvimos tal afirmação da boca de algum pensador célebre e nos limitamos a repeti-la como papagaios. Deixando de lado o quanto isso é lamentável, e na suposição de que fazer nosso dever de casa é uma boa coisa, tentemos entender esse raciocínio desde o início.

Como religião é um assunto viciado, sobre o qual pensar com independência tornou-se praticamente impossível, comecemos com um paralelo que exemplifica o que é acreditar em algo que não possui realidade por detrás. Por exemplo, imaginemos que acreditássemos haver algum tipo de vínculo místico entre comida e sexo; e que um dia, quando encontrássemos a comida certa, teríamos orgasmos. Fazer sexo quando se quer ter orgasmos é coisa de indivíduos materialistas. O caminho dos puros é a alimentação. Qual seria o resultado dessa crença? Passaríamos a vida toda frustrados, esperando encontrar algo que não existe. É mais ou menos assim com todas as nossas ilusões, e dentro disso as religiosas são apenas um detalhe. Acreditamos em certas coisas para as quais a realidade não nos dá evidência alguma, e ficamos esperando que a própria realidade mude para satisfazer as ideias erradas que adquirimos na infância. Por que isso ocorre?

Porque o homem é um animal que aprende. Aprende verdades e mentiras também. Devido ao modo como nosso cérebro se forma, aquilo que se aprende na infância jamais nos abandona, esteja certo ou não. Isso significa que estamos condenados à educação que recebemos na infância; ela faz quem somos. Então, depois de educados — coisa que normalmente significa ser treinados a crer nisto e zombar daquilo —, as cartas estão dadas, e só nos cabe jogar; nunca mais mudaremos em qualquer sentido significante. Teremos esse x cravado em nós, e seremos para sempre algo que tem esse x como centro. Como se diz, as pessoas não mudam, e esse é em grande parte o porquê. Se tentarmos mudar, passaremos no máximo a ser um x um pouco diferente — como um que esconde uma de suas pernas para se parecer com um y. Desse modo, estamos livres para abraçar ou combater essas ideias que recebemos na infância, para tentar adaptá-las ou sofisticá-las, mas elas nunca nos abandonarão. Nunca. Elas se arraigam tão profundamente em nossas vidas que se confundem com instintos.

Isso nos permite perceber como é crucial a qualidade da informação que se recebe nessa fase da vida — na qual, diga-se, nada do que aprendemos é nossa escolha. Nosso cérebro está mais preparado para aprender exatamente na fase em que estamos menos preparados para pensar. Um fato bastante preocupante. Isso seria o equivalente a nascer sexualmente ativo e sem a possibilidade de dizer não — a diferença é que estupramos o cérebro das crianças com nossos preconceitos, os quais marcarão para sempre suas personalidades adultas. Em geral, vendo cérebros ávidos à sua disposição, adultos preferem usá-los para perpetuar seus preconceitos inúteis em vez de ensiná-los um pouco sobre a vida que lhes deram ou sobre a realidade na qual os colocaram. Pois bem, qual é o resultado de educar crianças com opiniões falsas sobre o mundo numa época em que jamais conseguirão se livrar daquilo que colocarmos em suas mentes? O mesmo que misturar água e óleo, e aquecê-lo — para sempre. Uma vida para sempre dividida entre a realidade que vemos e as mentiras que amamos.

Educados desse modo, atravessamos a existência imersos em conflitos e confusão, sem perceber que todos os problemas estão dentro de nós mesmos, os quais nascem de nossa maneira incorrigivelmente distorcida de enxergar os fatos, e o mais doloroso é perceber que isso nos foi inculcado por aqueles que mais amamos, com a melhor das intenções. Claro que não cabe a nós decidir como devem ser educadas as crianças de outrem; contudo, abarrotar mentes infantis de ideias estúpidas não significa educá-las, mas apenas traumatizá-las. Não há como desculpar esse tipo de negligência com lero-leros sobre amor paterno. Aprender erros nessa fase da vida significa que, pelo resto de seus dias, seu raciocínio pisará em falso. Foi educada com ideias que não correspondem a nada — como alguém que se apaixona por uma pessoa que nunca existiu. Nessa situação, ela não consegue encontrar essa pessoa, sabe inclusive que ela não existe, mas mesmo assim continua amando-a e buscando-a, e sofrendo por nunca encontrá-la. Fazer isso com crianças seria simplesmente maldade, não fosse o fato de que os pais não têm a menor consciência disso; são vítimas de si mesmos, assim como seus filhos, levando a ignorância adiante.