Tag Archives: insatisfação

É uma época do ano em que a religião está em mais alta evidência. Por consequência, é também a época do ano em que os fieis entram em maior questionamento sobre sua crença. Alguns saem com a fé abalada; outros, fortalecida; outros tantos, sequer pensam a fundo sobre o assunto.

Para o cristianismo, é a época de celebrar o nascimento de Cristo, figura emblemática que até hoje divide opiniões sobre sua historicidade. Sabemos, no entanto, que a data não é mencionada algures nem alhures e que foi incorporada na tradição cristã através dos ritos pagãos de celebração solar, no hemisfério norte.

De uma forma ou de outra, tudo isso é irrelevante. Os maiores questionamentos pouco têm a ver com os dogmas específicos de tal ou qual religião. Principalmente porque eles, com o avanço científico, se tornaram mais simbólicos e mitológicos do que a maior parte dos religiosos se permite admitir.

Os maiores questionamentos ainda dizem respeito às nossas origens e ao nosso destino, depois da nossa passagem de tempo neste mundo que conhecemos. O fato de persistirem já seria suficiente para derrubar qualquer alegação de que a religião nos dá respostas satisfatórias para nossas preocupações existenciais.

A verdade é que temos uma resposta muito bem evidenciada: chegamos até aqui por meio da seleção natural e partilhamos com os outros seres-vivos toda a nossa história biológico-evolutiva. Depois que morrermos, também teremos o mesmo fim que terão nossos soci malorum: a inevitável decomposição e a reincorporação no ciclo do carbono.

Por que, então, protelamos as questões? Em parte, porque as respostas científicas massageiam pouco ou quase nada nosso senso de importância cósmica. Ou seria simples coincidência que tenhamos um paraíso à espera e o resto dos seres não? Aos advogados de nosso mérito, resta-lhes escolher características como consciência, raciocínio ou reflexão para justificar nossa posição central em um plano superior.

Não sei quanto às outras pessoas, mas suspeito que sejamos nós a escolher quais características devem contar para a seleção divina de seres; e suspeito mais ainda que as características eleitas para o concurso sejam exatamente aquelas que apresentamos com maior proeminência. E não me digam que a escolha veio de uma força maior, a menos que me apresentem o que vos legitima a falar em nome de deus(es) mudos e incomunicáveis.

No fundo, somos produtos em ambas as visões de mundo – não importa se científica ou religiosa. Se preferimos ser uma criação divina, isso diz mais sobre nossa vontade de valorização do que sobre nossa vontade de entender.

Scientia [1] é um termo latino – similar ao grego γνώση (gnóse) [2] – que, em sentido amplo, significa simplesmente conhecimento ou saber. Do modo como a conhecemos, pode ser dividida em Scientiae empiricae rerum naturalium (e suas disciplinas como física, biologia, química, entre outras), Scientiae axiomaticae (grupo representado pela lógica e pela matemática), Scientiae rerum humanarum (sociologia, história, linguística, filosofia e várias outras) e Scientia mysteriorum (ou místicas, como astrologia e teologia).

Como todas se propõem a estudar uma determinada área do saber, não há que se falar em hierarquia entre si. No entanto, podemos falar sobre a diferença entre o modus operandi de cada uma delas. As ciências naturais são as que gozam de maior confiabilidade na reprodução de seus dados e são conhecidas strictu sensu somente por ciência, por representarem fidedignamente o que se entende por método científico.

Não cabe aqui estabelecer por quais motivos, mas a sociedade em geral é analfabeta em termos científicos, sabendo vagamente somente do prestígio de que uma pesquisa científica goza. Daí ouvirmos frequentemente que algo foi “comprovado cientificamente” como um argumento fortíssimo de autoridade. Afinal, se aqueles malucos de jaleco provaram, é porque deve ser verdade. O nosso acesso à ciência é restrito ao que já foi mastigado pela imprensa não especializada e ao senso comum.

O método científico possui quatro elementos essenciais [3], quais sejam: caracterizações, hipóteses, previsões e experimentos. Cada fase é rigorosamente controlada e geralmente revisada por pares: cientistas da área que tratam de analisar os procedimentos da pesquisa.

Depois de definida a questão a ser estudada, o próximo passo é reunir informações relevantes e recursos de observação. A fase de elaborar hipóteses vem depois da primeira rodada de observações e é a partir dos seus desdobramentos teóricos que poderemos testar a sua veracidade. Eis o processo de coleta de dados, quando os verdadeiros experimentos acontecem: só serão válidos aqueles que forem controlados em todas as variáveis determinantes. Coletados os dados, parte-se, então, para a sua análise. Postas em xeque, as hipóteses iniciais são interpretadas e determina-se, assim, a sua relevância. Vemos durante o processo que o mais importante não é confirmá-las, mas entender o fenômeno. Logo, mesmo descartadas, as hipóteses anteriores servirão como conhecimento acumulado para novas pesquisas.

Os cientistas, então, enviam seus trabalhos para revistas de divulgação científica, como a Science ou a Nature, ou para os jornais especializados de suas áreas. Por serem periódicos de revisão de pares e de submissão anônima, o verdadeiro mérito da pesquisa não está no nome do cientista, mas na reprodutibilidade dos achados por outros pesquisadores nas mesmas condições.

Mesmo com todo o longo caminho até aqui, o mais comum é que se teste tudo outra vez. Por não haver certezas absolutas em ciência, quanto mais testes forem aplicados a determinada hipótese, mais forte ela será, caso passe em todos eles. Se não for forte o suficiente, não serve como ciência e os cientistas ficarão mais do que felizes em saber que têm em mãos um poderoso método autocorretivo. É assim que a comunidade científica descobre as suas fraudes: por mais que não seja imune a pesquisadores de má índole, tem as ferramentas para desmascará-los.

Desnecessário dizer que todos esses passos são repetidos ad infinitum. Alegar cienticificidade a qualquer coisa não é jogar-lhe um nome bonito e qualificar-lhe de forma impenetrável. Muito pelo contrário, é expor ao máximo aquela alegação de verdade, que somente se sustentará caso realmente seja condizente com a realidade.

Infelizmente para muitos, a ciência só trata das coisas observáveis e, portanto, inegavelmente reais. Para estas pessoas, esse escrutínio pode ser substituído por alegações vagas, que pouco ou nada demonstram para comprovar sua validade. De fato, falham de forma embaraçosa em apontar o próprio fato que serviria de ponto de partida para suas pesquisas. Travestir esse tipo de informação de ciência strictu sensu é um insulto a todos aqueles que seguem à risca a cartilha do estudo sério e relevante.

Eis todo o nosso conhecimento científico sobre todas as questões ditas fundamentais sobre nossa existência. Independemente de serem consideradas perguntas válidas ou não, todas foram satisfatoriamente respondidas. Infelizmente, não parece ser o bastante. Mesmo depois de tanta informação, o crente continua com a mesma posição que tinha antes de todas essas respostas: “não é o bastante”. É esse tipo de insatisfação que rege a nossa tragédia. Contra ela, não importa o quão boas sejam as respostas: ignorá-las faz parte da crença. Tudo isso para que, depois de todas as perguntas incrível e desnecessariamente céticas, a resposta seja um insosso e desejoso “foi deus”.


Notas:

[1] http://la.wikipedia.org/wiki/Scientia [em latim]

[2] http://el.wikipedia.org/wiki/Γνώση [em grego]

[3] http://en.wikipedia.org/wiki/Scientific_method#Elements_of_scientific_method [em inglês]


Da insatisfação I: Como surgiu o universo?

Da insatisfação II: Como surgiu a vida na Terra?

Da insatisfação III: O que é a consciência?

II

Receber uma boa educação é uma bênção. Mesmo assim, não devemos entender a educação como capaz de mudar o mundo, mas apenas como necessária para conseguirmos lidar com a realidade de forma eficiente. Uma boa educação pode diminuir o sofrimento causado pela ignorância, mas evidentemente não mudará nossa condição básica de existência, que é ser humanos — e tudo o que isso implica, algo que a educação, por si só, jamais mudará. Tentemos exemplificar o que queremos dizer. Em geral, intelectuais pensam que o problema do mundo é a falta de reflexão; pobres pensam que é a falta de dinheiro; ricos pensam que é o excesso de pobres; religiosos que é a falta de fé; ateus que é o excesso de fé. Que padrão podemos encontrar nisso? Seus umbigos. Todos querem que o mundo os reflita, e é evidente que isso não vai melhorar nada. São apenas sonhos narcisistas que cultivamos por razões míopes. No fundo, nós os cultivamos por sabermos que eles nunca vão se realizar e, mesmo se se realizassem, também não há quaisquer motivos concretos para acreditar que os resultados seriam os que esperamos. Sonhar pode ser agradável, mas não podemos realmente acreditar que a humanidade toda se comportaria segundo nossas crenças pessoais idealizadas e intangíveis apenas por ter recebido uma boa educação; isso é tolice. Ora, quem consegue acreditar que, apenas porque foram bem educados, os homens deixariam de matar, roubar e mentir? Se até indivíduos educados fazem tais coisas, por que deveríamos propor a educação como uma forma de resolvê-las? Isso não faz sentido. Depois de educados, os homens se tornarão educados; mais nada.

Também não confundamos educação com doutrinação. Tornar-se cristão não é educação; gostar de futebol não é educação. Educação envolve apenas aprender, não tomar partido. O papel da educação é apenas nos familiarizar com o mundo, não corrigir aquilo que consideramos gafes morais de nossa natureza. Utilizemos a injustiça para exemplificar uma dessas gafes. Faz sentido educar um indivíduo na suposição de que isso o tornará mais justo? Não. Educá-lo o tornará mais instruído, não mais justo. Se a instrução o permite entender as sutis razões pelas quais deve ser justo, tudo bem, mas isso não é uma consequência necessária, pois ele poderia muito bem, a partir dessa mesma educação, concluir que é melhor ser injusto, e levar isso adiante. Se não gostamos dessa ideia, é simplesmente porque ela nos assusta. Diante disso, para satisfazer nossa necessidade de segurança, fazemos o possível para manter essa liberdade educacional pelo menos um pouco circunscrita por preconceitos morais. Assim, em vez de valorizarmos a educação diretamente, passamos a valorizar as virtudes às quais ela supostamente conduz, ignorando o fato de que essas virtudes nada mais são que ideais morais insípidos nascidos de perfeccionismos metafísicos de teólogos desocupados — ideais que nunca vimos ser levados à prática perfeita que acalentam em nenhum tempo, em nenhum lugar. Paremos de sonhar. A educação só é valorizada porque a utilizamos indiretamente para nos proporcionar segurança. A função original desses ideais aos quais ela se subordina é apenas justificar a lavagem cerebral que aplicamos em todos os que nascem ao nosso redor. Conseguimos, agora, perceber que esses ideais não apontam para nada tangível. O verdadeiro ser humano é aquilo que vemos no nosso dia a dia, aquilo que acompanhamos ao longo da história, não aquilo que, em nossos sonhos otimistas, fantasiamos que seremos num inespecífico futuro tornado próspero por alguma graça misteriosa da educação.

Mesmo assim, indivíduos esclarecidos são constantes vítimas da ilusão de que, se todos fossem educados, o mundo seria melhor, mas não seria, assim como não seria melhor se todos fossem ricos. Por que não? Porque, se todos fossem ricos, nossos problemas seriam outros — e seriam igualmente aflitivos. Se duvidamos, imaginemos que a humanidade inteira, num passe de mágica, se tornou dez vezes mais rica que o homem mais rico da atualidade, seja ele quem for — uma riqueza incluindo não apenas dinheiro, mas também condições de vida, status social etc. Isso nos daria a sensação de que vivemos num mundo melhor? Apenas por contraste; em si mesmo, não. Para ver a prova disso, basta nos perguntarmos: temos a sensação de que vivemos num mundo melhor porque sabemos controlar o fogo? Não. Talvez os homens da idade da pedra tenham sonhado com o dia em que todos conseguiriam controlar o fogo quando bem entendessem, na suposição de que, quando conseguissem, todos passariam a ser irmãos. Mas tais coisas nunca acontecem, e com o exemplo acima fica mais fácil entender o porquê. A irmandade não se segue do fogo, assim como a justiça não se segue da instrução.

Então, mesmo que alcançássemos um ponto x qualquer estabelecido arbitrariamente como o objetivo de nossas investidas educacionais, isso não nos daria a satisfação que esperamos, pois nossa insatisfação é adaptativa. Significando que, seja qual for nossa condição, ela nos parecerá insatisfatória, e lutar para melhorá-la apenas nos dará uma satisfação temporária, a qual logo será suplantada pela insatisfação diante de outra insignificância qualquer. Isso não é uma escolha, não é algo que a educação, ou que a religiosidade, ou a falta dela, vai mudar; isso é nossa natureza. Tais fatos talvez contrariem nossas crenças pessoais, mas tenhamos o cuidado de observar quão bem eles descrevem nossas vidas práticas. A insatisfação é nossa condição básica de existência; é o que nos move, mesmo que em círculos. Desse modo, se todos fossem educados, se todos fossem ateus, se todos fossem ricos, se todos fossem religiosos, se todos fossem socialistas, para nossos fins, daria no mesmo. Continuaríamos tão insatisfeitos quanto estamos agora, mesmo que nossa situação fosse mil vezes melhor. Considerando que, ao lado de homens da Idade da Pedra, somos praticamente bilionários obesos e metidos a besta, já deveríamos ter parado de lamuriar há pelo menos um século. Mas não vamos parar de reclamar. Nunca. Por mais que tudo melhore, sempre nos acompanhará o sentimento de que deveria ser melhor.

Como se percebe, a educação não é um substituto para o caos e para a brutalidade que move a vida; é apenas um refinamento dessa mesma brutalidade — na forma de um pacote de informações por meio do qual podemos nos tornar mais competitivos por entendermos o mundo em que estamos. Evidentemente, entender o comportamento do ambiente não mudará as regras do jogo, só nos dará melhores chances de vencê-lo. Por isso, se todos fossem educados, parece que a única consequência razoavelmente previsível seria o mundo tornar-se ainda mais competitivo. Similarmente, se fôssemos todos ateus, em vez de deus, apenas usaríamos outro pretexto qualquer para justificar nossas demências.