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Há uma crescente leva de publicações de cunho ateu nas mais diversas mídias. O que antes estava reduzido a filósofos esporádicos e era encarado como motivo de vergonha ou receio, agora parece estar na boca de qualquer um disposto a falar. Por mais que alguns reclamem falta de legitimidade para o ato, não deve ser o caso. A hipótese deus(es) diz respeito a todos nós, direta ou indiretamente.

Como tal, foi tratada pelos mais diversos campos do conhecimento. Como fundamento metafísico, sob a filosofia e a teologia; sob o fundamento social, temos a sociologia e a antropologia. De certa forma, não importa a abordagem, pois sempre partimos da análise da justificativa da crença do homem, caso a hipótese da existência seja verdadeira ou falsa; ou da análise de seu comportamento, caso creia ou não na hipótese.

Colocando a questão dessa forma, a factualidade de deus(es) fica em plano secundário e passamos a estudar tópicos que dizem ou podem dizer respeito às nossas vidas práticas. É assim que a interferência religiosa nas mais diversas áreas legitima qualquer um de nós, especialistas ou leigos, a manifestar suas opiniões. Nesse sentido, alegar insuficiência acadêmica ou intelectual para que se critique a hipótese divina é apenas uma forma de calar bocas.

Mas deveríamos mesmo nos calar? Talvez. Mas se – e somente se – houvesse tratamento mútuo por parte dos religiosos. Ora, se não temos o direito de falar contra algo para o qual não vemos evidências, também não deveria haver o direito de professá-lo. Hegemonia e números absolutos não servem como pretexto para calar as minorias e todo o nosso ordenamento jurídico caminha na proteção formal dos hipossuficientes substanciais.

Uma coisa é certa: se o problema é realmente a falta de escrutínio por parte das críticas ateias, que sejam mostrados exatamente os pontos falhos da argumentação. Era de se esperar que quem estivesse certo não se furtasse a oportunidade de mostrar conclusivamente o equívoco da tese contrária, mas o que vemos é simplesmente uma reação emocional, comparável a quem teve a honra ofendida – não a intelectualidade e a racionalidade.

Ainda mais interessante: a maior parte das críticas ateias diz respeito a duas características principais – a falta de evidências para a hipótese divina e a deturpação e a exploração da fé alheia em troca de benefícios político-financeiros para as instituições religiosas. São os dois pilares que sustentam, entre outras coisas, a dominação e o sequestro da moral e dos comportamentos individuais e sociais, o acobertamento a crimes cometidos por eclesiásticos e associados, o enriquecimento ilícito e a isenção de impostos que o propicia, a mutilação genital e a punição severa e desproporcional a delitos de menor importância, como o adultério e a apostasia.

Diante da exposição de tantos fatos, é possível reconhecer algumas reações arquetípicas, mas a principal delas é o ataque gratuito às fontes de críticas. É uma forma de autodefesa através do recrudescimento contra aqueles que simplesmente fizeram circular a informação. Fosse falsa ou difamatória, as vias judiciais seriam muito mais adequadas para resolver o litígio, mas raramente o fazem, em uma declaração tácita de veracidade do que é levantado.

Sem entrar no mérito da justiça ou da eficácia das normas, a verdade é que temos direitos inalienáveis dos quais não deveríamos abrir mão. Um deles é a liberdade de expressão, garantida constitucionalmente contra qualquer ato de uma maioria ensandecida e ditatorial, que busca calar opiniões em contrário. Dessarte, não será uma pessoa ou um grupo delas que farão com que escrevamos ou deixemos de escrever sobre o que nos agrada ou incomoda.

Em momento algum se questiona o direito de se crer no que quiser, mas sim a razoabilidade e a justificação das crenças. A discussão aberta deveria ser encorajada e não cerceada. Devíamos expor os diferentes lados e deixar que a escolha fosse feita por seus méritos e não por sua imposição. Devíamos entender, finalmente, que o direito de crer não é a obrigação de crer e que há, em contrapartida, o direito de não crer e de explicar-se por quê.

“Por que tantos tementes a deus?” Essa é uma pergunta muito boa. Nós, ateus, gostamos de debater sobre o assunto e expor nossas conclusões. Debatemos usando argumentos contra a existência de deus(es) e, principalmente, por que não é racionalmente aceitável acreditar em algum. Mas existe um fato que aparentemente derruba todas as nossas tentativas: existe uma boa quantidade de tementes a deus, deuses ou demais entidades sobrenaturais. Diante do fato de que a vasta maioria da humanidade acredita em deus ou deuses, nosso arsenal de argumentos parece quixotesco.

A resposta padrão de muitos ateus a essa questão é: os motivos racionais são poucos ou nenhum, mas os emocionais são muitos e são fortes. Eu me uso dessa resposta, pois realmente acho, depois de anos debatendo com teístas, que os motivos que levam à crença no sobrenatural são majoritariamente de caráter emocional. Uma boa porção deles insiste em dizer que não, possuem argumentos na ponta da língua, mas estão apenas querendo se enganar e, cedo ou tarde, acabam expressando que são, de fato, levados pela emoção.

Novamente, meu intuito não é rebater esses argumentos. Se algum teísta considerar que estou errado, sinta-se à vontade para postar seus argumentos nos comentários de nossos textos. Quero discutir o que seria essa tão falada motivação emocional. Ir além de simplesmente taxar a crença alheia como mera emoção e dar nome aos bois.

Bom, comecemos por um conceito muito desejado por nós: justiça. Queremos que os usurpadores paguem pelos seus atos e que os altruístas sejam recompensados. Tentamos fazer isso dentro de nossa sociedade com nossas próprias mãos, criando prisões e castigos para os primeiros, assim como honras e presentes para os últimos. Porém, reconhecemos nossas limitações e ansiamos por uma força promotora de justiça mais plena. Essa justiça tem que vir de algo maior que nós, mais poderoso e incorruptível. Esse “algo” normalmente é chamado de “Deus”.

Depois temos a curiosidade. A ambição citada no parágrafo anterior reflete uma característica marcante de nossa espécie, que é a vida em sociedade. O desejo de adquirir conhecimento amplo e seguro advém de outro aspecto nosso, que é a vontade de aprender. Dentro de uma sociedade majoritariamente cristã, é comum ouvir de muitos cristãos que o conteúdo da bíblia é uma verdade absoluta e que é tudo o que precisamos conhecer, que a sabedoria ali ensinada é mais profunda do que a mais brilhante eureca de um simples humano. Comicamente ouvimos muito frases do tipo: “no fim todos nós saberemos quem está certo”. É a crença de que, depois da morte, além da justiça feita teremos todas as respostas. Já falei um pouco sobre essa crença aqui (Porque não Acreditar, 5º parágrafo).

O terceiro desejo é a vontade de nunca deixar de existir. Em bom português: “o medo da morte”. Não me adentrarei nele, pois já dediquei três textos ao assunto (este, este e este). Só adianto que considero esse o desejo mais íntimo e o maior responsável pela crença no sobrenatural. Os três grandes desejos aqui comentados não são exclusividade de teístas. Ateus também os possuem. O que muda é que um deles aceita suas limitações e o outro abafa o fato com crenças sobrenaturais.

Portanto, como já devem ter percebido, podemos resumir esses três motivos como um desejo muito íntimo presente em todos nós. Uma fome muito grande por coisas que não vêm na quantidade que gostaríamos. Essa fome imensa que é a mãe de todas as fés. A justiça é rara, o conhecimento é pouco e a vida é curta. Essa fome se sacia acreditando que a justiça será feita, que todos os mistérios do mundo (ou ao menos os poucos que realmente interessam) podem ser desvendados e que a nossa existência não se finda com nossa morte. Essa crença poderia vir da maneira padronizada, através da lógica e da observação. O problema é que “lógica” e “observação” definitivamente não nos levam a concluir o que gostaríamos, então a nossa crença tem que vir do nada, é preciso ter fé. Tornamos uma dada limitação, que é a incapacidade de possuir um entendimento pleno sobre todas as coisas a nosso favor e colocamos os nossos anseios neste mar de ignorância que reconhecemos possuir. Nós, ateus, chamamos esse deus, que mora no incompreendido, de “deus-das-lacunas”. O que escapa nossa razão agora é algo sobrenatural e sacia a nossa fome. Ou pelo menos vai saciar, um dia quem sabe, basta ter fé e paciência…