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Fala-se muito em “religião organizada” quando se apontam os males causados pelo pensamento religioso. É como se todos fossem inocentes isoladamente, mas a nova entidade formada pelos indivíduos herdasse um pouco do mal inerente de cada um e se transformasse em um novo ser, dotado da capacidade de cometer as maiores atrocidades imagináveis em nome da fé.

Apesar da popularidade, algumas perguntas restam inevitavelmente sem resposta. O que se poderia chamar de “religião organizada” hoje? Pensamos na Igreja Católica e nas grandes protestantes; mas e as igrejas que surgem diariamente – aproveitando-se de nossa legislação flexível e da isenção de contribuições – se encaixam? Os cultos domésticos, que não precisam de um eclesiástico ordenado, se encaixam? Os rituais de despacho de algumas religiões afrobrasileiras se encaixam?

Creio que a resposta para cada questão variará de acordo com o gosto de quem as responde. Assim, o termo “religião organizada” padece de terrível atecnia e de plurissignificação. Quem usa do termo procura somente algum espantalho vagamente definido para atacar. Não foram poucas as vezes em que ouvi cristãos vangloriando-se por seguirem somente a Jesus, e não a igrejas; ou ateus dizendo que respeitam o comportamento individual, mas são contra a tal “religião organizada”.

“As igrejas são feitas por homens”, dizem. “Sigo algo muito maior”, batem no peito e bradam orgulho. Mas podem mesmo se valer do espantalho como bode expiatório? Pelo que vemos acontecer, não. Em primeiro lugar, porque podem ser tão fanáticos quanto qualquer beato de igreja. Em segundo, porque, mesmo moderados, não aceitam deixar de lado a denominação cristã. Se eufemismos valem como conforto emocional, vale dizer que não têm muito valor numa discussão sobre as consequências das ações.

Crenças em seres sobrenaturais organizadas em culto crescem como mato nas sociedades, mesmo nas atuais. E um local apropriado serve não só como centro de oração, mas principalmente como ponto de socialização. Os rituais induzem estados vendidos que supostamente só podem ser comprados ali e é por isso que a maioria, mesmo postulando deuses pessoalmente montados, ainda segue casas oficiais de culto, mesmo sem fidelidade a quaisquer delas.

Dessa forma, a famosa “religião organizada” não é bem assim tão culpada por seus atos se o fiel continua seguindo os seus preceitos, dentro ou fora das paredes. De certa forma, serão tão culpados pelo que as “religiões organizadas” fazem quanto o somos pelas ações dos nossos políticos eleitos. Mesmo que não os tenhamos colocado diretamente no poder, é nosso dever fiscalizá-los na sua gestão de nossa boa-fé.

Fingimos aceitar que o mal do país é gerado pela má atuação dos governantes simplesmente para nos sentirmos aliviados de culpa. Se realmente acreditássemos que eles são os responsáveis, dificilmente ficariam no poder por tanto tempo. Sairiam por revolta – expressa ou tácita, nas próximas eleições. Da mesma forma, não acreditamos que o papa ou outro grande líder religioso seja responsável pelas atrocidades que os fieis deixam acontecer.

Quisessem, poderiam bradar suas verdades reveladas a quem os escutasse. Aqueles que o fazem em pequenas praças públicas são vistos apenas como excêntricos e ignorados pela maior parte da população. É o mesmo com quem não segue uma grande denominação religiosa: vemos somente um velho de cabelos brancos, envolto por um vestido longo e cheio de adornos, pendurado em uma janela bem arquitetada, falando besteiras com um sorriso amarelo em sua face.

É o que aquelas pessoas comovidas que o escutam na praça abaixo fazem que importa. São elas que dão suporte ao velho retrógrado. Somos nós que damos audiência às suas palavras caducas. Que levamos a sério sua retórica de púlpito. Que nos fazemos cordeiros em seu rebanho. Queremos que acabe? Comecemos por não expiarmos a culpa em um bode, pois é uma tradição cristã que há muito deixamos racionalmente de seguir: não há uma “religião organizada” a quem combater, mas uma mea culpa, pessoal e intransferível, que deve ser retratada.

Não é de se admirar que conflitos são inevitáveis quando existe algum tipo de escassez, seja ela de recursos naturais, de recursos humanos ou a falta de pura e simples sensatez (o que evidencia um atributo preocupante da atualidade: tudo pode ser pretexto para se iniciar um achaque — incluindo-se, aqui, as desculpas mais simplórias —). É o caso dos conflitos atuais que, por todo o mundo, fazem com que inocentes sejam alvos de insurreições que não se permitem mitigar. São verdadeiras disputas religiosas (que se iniciam como batalhas intestinas — e intestinais —) como as insurgências islâmicas no Magrebe, na Nigéria, nas Filipinas, no Oriente Médio, como a violência declarada entre xiitas e sunitas no Paquistão, como as agitações muçulmanas no sul da Tailândia1; 2.

A primeira impressão que nos surge é a de que, das três etapas de desenvolvimento de uma sociedade (selvageria, barbárie e civilização), a última dificilmente é alcançada; e quando a ela se chega, nela não se permanece. Não é de se espantar que “o homem está sempre em estado selvagem. O que são os perigos da floresta e da pradaria comparados aos choques e conflitos diários do mundo civilizado? Enlace sua vítima no bulevar ou trespasse sua presa em florestas desconhecidas, não é ele o mais perfeito predador?”3. E, para nosso caso, tal predação resume-se a uma desculpa tão anêmica quanto as ideias que a fundamentam: aos islâmicos, se o todo-poderoso Alá está em todos os lugares e é o alicerce de tudo, a nós, contudo, tal ubiquidade não é um de Seus atributos: é, sobretudo, uma característica da ignorância de seus seguidores. Mas muitos conflitos deflagrados por muçulmanos radicais não ocorrem por acaso; tenhamos, de antemão, o fato de que uma das mais importantes fontes de conflito é a religião4, sendo a violência uma de suas partes integrantes5; por conseguinte, corrobora-se a ideia de que “todas as religiões são, em seu mais profundo nível, sistemas de crueldades”6.

Crueldades, atrocidades, truculências apontadas nos bastidores das guerras religiosas que, por sua persistência, trazem a impressão de que não são travadas para serem ganhas, mas para serem conservadas — como se o sangue inimigo, sempre a escorrer, fortificasse a idolatria e dela retirasse alento. Para sermos estatísticos notemos que, “segundo estimativas de um acadêmico, em todos os momentos do período de 1950–96, os conflitos religiosos constituíram 33–47% de todos os conflitos”7. Ainda que tais subversões preencham várias linhas dos anais da História, tais conflitos não estão tão distantes de nosso tempo e de nosso espaço; se tomarmos por base o século XXI, observaremos que “o conflito no Afeganistão, na Caxemira, no Sri Lanka e em um número de Estados do Oriente Médio, ligado com o aumento do extremismo religioso, reforçou a visão de que há uma estreita e forte ligação entre a religião e o conflito. O conflito religioso não é, naturalmente, exclusivo à atualidade, mas existiu em várias formas na maior parte da História conhecida”8.

Não é por acaso que o Islamismo — e, ouse-se dizer, o Cristianismo, o Judaísmo e outras sandices similares — configura-se como obstáculo para o crescimento individual, social, científico e cultural dos povos, eternizando modelos enlatados de compreensão da realidade, perpetuando conveniências atrasadas, frases feitas, respostas prontas e idiotias doentias; isso tudo, saliente-se, a partir de uma distorção emocional conhecida como “fé”, sentimento de rebanhos alucinados que se submetem, com genuflexão mas sem reflexão, a um cão pastor que os controle — e dele imitando o rosnar. Tanto assim que não se pode deixar de confirmar que, merecedoramente, os seguidores das principais religiões monoteístas do mundo foram (e ainda são) ligados à violência radical9. O Islã, mais precisamente, “aceita o uso da violência para defender a fé em uma doutrina de guerras justas, a última etapa do jihad (que deve ser traduzida como esforço da fé, não como guerra sagrada)”10. Um esforço ameaçador, diga-se, que faz dos infiéis vítimas de homens-bomba, esta espécie de possíveis impassíveis que dificilmente bradarão, a plenos pulmões, Debelatum est! — não enquanto a religião islâmica entender a intolerância como um modo de suprir sua fraqueza teórica; nesse caso, o único grito que será ouvido será um estrondoso Allah Akbar! Mas talvez seja possível entender (sarcasticamente) essa problemática ao notar que, em linhas gerais, para um católico o Paraíso é um encontro de parentes em um clube de campo, mas para um islâmico é uma despedida de solteiro em um bordel repleto de virgens. E, como se nota pelos jornais, a tentação é grande.

Seja como for, tal esforço da fé significa, nas palavras de um islâmico, “opor-se à [sic] tudo quanto desagrada a Allah; e sob ponto [sic] de vista exógeno, ele (Jihad) significa combater o kurf – a incredubilidade[sic]/descrença com as palavras [com base no conhecimento da religião Islâmica] e acções”11. “Combater”, palavra da qual nem os próprios islâmicos estão protegidos, haja vista “o primeiro significado de jihad: a batalha não deve ser travada apenas contra os incrédulos, mas também contra os próprios muçulmanos, para anunciar ao mundo o selo da profecia e alcançar o Estado islâmico mundial”12. Visto isso, temos um cenário lamentável em que, quanto mais a humanidade progride, mais “a repressão cala fundo na alma dos que experimentam a secularização como agressiva e distorce sua visão religiosa, fazendo-a violenta e intolerante”13. Podemos, destarte, salientar o que se segue: “O que assistimos hoje? A um fundamentalismo sem fundamento. O que torna isso perigoso? Ninguém mostrar nada de fundamental”14.

Do que vimos até aqui, em um apanhado de estudos e dados preocupantes, podemos compreender a gravidade da situação. Um panorama que — se mudar — não mudará tão cedo; um quadro social em que a religião islâmica torna-se a cada dia uma desculpa mais forte e menos coerente para o assassínio de cidadãos inocentes, porque “infiéis”. Nesse ínterim, o que podemos aceitar a princípio é que “uma religião que coage a consciência não tem direito a ser tolerada”15. (Mas não deve haver preocupação quanto a isso: mesmo contrários que somos e contrariados que estamos, não nos explodiremos em lugares públicos para reafirmarmos nossas ideias.)

Por fim, e por esses — e outros — motivos, seria de bom-tom que os sectários de Alá pensassem duas vezes antes de iniciarem seus pronunciamentos com o célebre “Em Nome de Allah, Clemente e Misericordioso” (grifos nossos). Haveria algo de sarcasmo nessa epígrafe? Os fatos16 e as estatísticas dizem que sim.

*   *   *

Notas

  1. The decade in international conflict. Global security. Stockholm International Peace Research Institute, Ploughshar, US State department. 2009.
  2. JONGMAN, A. J. World conflict and human rights map. PIOOM – Interdisciplinary Research Programme on Causes of Human Rights Violations. 2001/2002.
  3. BAUDELAIRE, Charles. Fusées – Mon coeur mis à nu. Paris: Gallimard, 1986. Apud BENJAMIN, Walter. Charles Baudelaire – um lírico no auge do capitalismo. Trad. de Hemerson Alves Baptista e Jose Carlos Martins Barbosa. São Paulo: Brasiliense, 2004. p. 220.
  4. One of the most important sources of conflict has been identified as violence carried out on the basis of culture, ethnicity and religion […].” [NEIL J. “Islam, conflict and terrorism”. In: Sipri yearbook. 2006. Disponível na Internet via WWW. URL: <http://www.sipri.org/yearbook/2006/02/02C>. Acesso em 06 de fevereiro de 2010.
  5. “[…] violence is an integral part of religion”. JUERGENSMEYER, M. “Sacrifice and cosmic war”. Terrorism and political violence. Vol. 3. Número 3. 1991. Apud NEIL J. “Islam, conflict and terrorism”. In: Sipri yearbook. 2006. p. 124-125. Disponível na Internet via WWW. URL: <http://www.sipri.org/yearbook/2006/02/02C>. Acesso em 06 de fevereiro de 2010.
  6. “[…] alle Religionen sind auf dem untersten Grunde Systeme von Grausamkeiten […]”. NIETZSCHE, F. W. Zur Genealogie der Moral. In: ______. Sämtliche Werke – Kritische Studienausgabe. Vol. 5. Giorgio Colli e Mazzino Montinari (orgs.). Berlim: De Gruyter, 1988.
  7. According to one scholar’s estimates, throughout the 46-year period 1950–96 religious conflicts constituted 33–47 per cent of all conflicts”. NEIL J. “Islam, conflict and terrorism”. In: Sipri yearbook. 2006. Disponível na Internet via WWW. URL: <http://www.sipri.org/yearbook/2006/02/02C>. Acesso em 06 de fevereiro de 2010.
  8. Conflict in Afghanistan, Kashmir, Sri Lanka and a number of states in the Middle East, coupled with the rise of religious extremism, has reinforced the view that there is a close and strengthening linkage between religion and conflict. Religious conflict is not, of course, exclusive to the present day but has existed in various forms for much of known history”. NEIL J. “Islam, conflict and terrorism”. In: Sipri yearbook. 2006. Disponível na Internet via WWW. URL: <http://www.sipri.org/yearbook/2006/02/02C>. Acesso em 06 de fevereiro de 2010.
  9. “[…] adherents of all the world’s major religions — Buddhism, Christianity, Hinduism, Islam, Judaism and Sikhism — have been linked to extremist violence”. NEIL J. “Islam, conflict and terrorism”. In: Sipri yearbook. 2006. Disponível na Internet via WWW. URL: <http://www.sipri.org/yearbook/2006/02/02C>. Acesso em 06 de fevereiro de 2010.
  10. “[…] accepts use of violence to defend the faith in a doctrine of just wars, the ultimate stage of jihad (which should be translated as exertion for the faith, not as holy war)”. GALTUNG, Johan. Religions, hard and soft. Disponível na Internet via WWW. URL: <http://www.aril.org/galtung.htm>. Acesso em 06 de fevereiro de 2010.
  11. WAHHAB, Mohammad Ben Abdul. Os três princípios básicos do Islão e suas evidências. Trad. De Mohammad Mbiavanga Fernando. 2003. Disponível na Internet (para download) via WWW. URL: <http://www.islamismo.org/tresprincipiosbasicos.doc>. Acesso em 06 de fevereiro de 2010.
  12. “[…] el primer sentido del yihad: el combate no se debe librar simplemente contra los infieles sino también contra los propios musulmanes, para anunciar al mundo entero el sello de la profecía y realizar el Estado islámico mundial”. ÉTIENNE, Bruno. El islamismo radical. Madrid: Siglo veintiuno de España Editores, 1996, p. 173. Disponível (parcialmente) na Internet via WWW. URL: <http://books.google.com.br/books?hl=pt-BR&lr=&id=eUUSkG7gU08C&oi=fnd&pg=PA1&dq=islamismo&ots=Y2FAUdRVNh&sig=kbdicUK2ShM0jLZJ5uy21-HvDDc#v=onepage&q=&f=false>. Acesso em 06 de fevereiro de 2010.
  13. ARMSTRONG, Karen. Em nome de Deus – o fundamentalismo no Judaísmo, no Cristianismo e no Islamismo. Trad. de Hildegard Feist. São Paulo: Cia. das Letras, 2008, p. 406. Disponível (parcialmente) na Internet via WWW. URL: <http://books.google.com.br/books?hl=pt-BR&lr=&id=DwDosH8b0xwC&oi=fnd&pg=PA9&dq=islamismo&ots=N001fJdr_w&sig=ek8rJf4FsHtT8i-b5azkfSuiZZQ#v=onepage&q=islamismo&f=false>. Acesso em 06 de fevereiro de 2010.
  14. ABRAHÃO, T. H. Litterae Bellerophontis. São José do Rio Preto, 2008, p. 169.
  15. BAYLE, Pierre. Philosophical commentary on these words of Jesus Christ, Compel Them to Come in. Trad. de A. Godman Tannenbaum. Nova York: Peter Lang, 1987, p. 147. Apud FORST, Rainer. “Os limites da tolerância”. In: Novos Estudos – CEBRAP. Número 84, pp. 15–29. Julho de 2009. Trad. de Mauro Victoria Soares. Disponível na Internet via WWW. URL: <http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0101-33002009000200002&script=sci_arttext&tlng=in>. Acesso em 06 de fevereiro de 2010.
  16. Religious conflicts – A collection of news and information related to Religious Conflicts published by Tribune Company sources. Disponível na Internet via WWW. URL: <http://www.chicagotribune.com/topic/unrest-conflicts-war/civil-unrest/religious-conflicts/16003004.topic>.



Leituras recomendadas



Materiais multimídia disponíveis na Web

O Brasil é um país em crise de identidade religiosa. Desde 1890, com o Decreto 119-A, adotou-se a separação entre Igreja e Estado; entretanto, ambos os séquitos sempre andaram de mãos dadas, numa íntima relação. O Brasil ostenta o título de Estado laico[1], todavia assinou no ano de 2008 uma polêmica concordata, que trata da adoção da doutrina religiosa católica nas escolas públicas nacionais (em comum acordo com o ditame do art. 210 CF/88).

Quando falo de concordatas, não me refiro ao instituto do Direito Falimentar, mas ao nome que é dado ao acordo internacional celebrado entre um Estado Nacional e o Vaticano, representante máximo da igreja católica. O privilégio à igreja católica não é novidade. Um exemplo clássico é a instituição do Laudêmio — cobrança arcaica e anacrônica devida à Marinha, à Igreja ou à Família real, presente até hoje em algumas capitais — a qual carece de razão de ser.

Órgãos públicos estão infestados de símbolos e dizeres cristãos. Lembro-me bem de quando pisei pela primeira vez na Justiça Federal e me deparei com o modelo de capa de processo adotado até meados do ano de 2002, que dizia “No corrente ano de ___ após o nascimento do nosso Senhor Jesus Cristo, na comarca de…”. Então o Brasil não é um país laico, religiosamente independente e desvinculado de todo clero? Apenas nas nossas aspirações e nos discursos demagógicos.

Ilude-se quem imagina haver um favorecimento exclusivo à Igreja Católica. Paira sobre o país um evidente receio de penetrar o cerne religioso. Não se questiona, não se debate; se impõe! O artigo 150, III, b da Carta Magna estabelece expressa proibição de tributação de templos de qualquer entidade religiosa. Isso significa que o considerável montante gerado pelos dízimos — muitas vezes retirado de pessoas que mal tem condições de arcar com as próprias despesas — não é tributado, mas incorporado em sua totalidade, seu valor bruto, ao patrimônio da igreja, sinagoga, mesquita, terreiro, etc.

Não observamos, entretanto, isenção de impostos a instituições de ensino de modo geral – estas sim apresentam relevância social — grupos de incentivo à educação e ao aprendizado científico. A carga de impostos que repousa sobre escolas de ensino médio, por exemplo, muitas vezes impossibilitam o seu exercício. Qualquer um que declarasse abertamente – verbi gratia – que o Holocausto não ocorreu, seria imediatamente rechaçado e inquirido por provas. Por que a repulsa, quase natural, presente em toda declaração infundada e absurda como esta não se estende à religião?

Por que ainda achamos normal pessoas afirmarem que a Teoria da Evolução – em detrimento dos inúmeros suportes científicos existentes — não ocorreu, mas sim um deus onipotente criou tudo o que existe em sete dias, ao invés de contraditar tais argumentações, como faríamos normalmente no primeiro exemplo?

Observa-se em nosso país determinações judiciais esdrúxulas, como a ordem de alteração da data do Exame Nacional de Ensino Médio (ENEM) previsto para o dia 5 e 6 de dezembro, pois tal data compreenderia um sábado (shabat, dia sagrado para o judaísmo, no qual entregam-se à orações e ao ócio). Os mesmos judeus que — com apoio do Estado — a fim de minimizar a sensibilidade peniana, circuncidam seus neonatos para atender a preceitos morais retrógrados, que não podem mais ser suportados pelo Estado.

Até quando incentivaremos a apologia aberta e a utilização indiscriminada de substâncias alucinógenas em nome da liberdade religiosa, como ocorre com o “Santo Daime” — ou União do Vegetal, como também é conhecida — ou permitir a recusa de Testemunhas de Jeová a receber transfusão de sangue, fruto de uma imatura interpretação exegética da bíblia, ou até mesmo a vexatória discriminação de homossexuais pelas seitas protestantes?

Advogo em favor da liberdade de consciência e da manifestação religiosa, mas dar suporte à ignorância é algo temerário. Sou forçado a questionar se existe equidade no tratamento dado aos religiosos e não religiosos. Até quando vamos patrocinar a institucionalização de uma estupidez secular, que nada acrescenta à vida moderna? Aqueles que não se afiliam a qualquer doutrina religiosa, sejam deístas, agnósticos ou ateus, recebem por parte do Estado o mesmo tratamento dado aos não religiosos?

A ciência não é a única forma de se ver o mundo. A importância da diversidade e das relações de alteridade em cada sociedade são fontes de enriquecimento cultural e garante a pluralidade de visões. Não defendo a antirreligiosidade, mas a igualdade de tratamento, inclusive para a visão de mundo não ausente de doutrinação religiosa. A abusiva imposição paternal de memes religiosos implica grave tolhimento da liberdade de escolha religiosa, que abrange inclusive a irreligiosidade.

O ateu sempre foi obrigado a respeitar e a acolher o pensamento cristão, pois conhece a fragilidade humana e a sua necessidade por buscas de respostas para o inexplicável, mesmo que isso consista em ilusões fantásticas. Não observamos, todavia, este mesmo respeito para com o ateísmo, e o imaginário religioso não hesita em nos condenar às chamas do inferno.

Estamos longe de honrar com os deveres de um Estado laico, e enquanto houver acordos diretos entre o Estado maior e o Vaticano, de cunho estritamente religioso e impositivo, de forma explicitamente arbitrária e antidemocrática, se mostra ofensivo nos considerarmos um país leigo. Ainda não nos libertamos das amarras da igreja católica, e a população parece temer nova inquisição.

Bem sei que não podemos dar passos maiores que as pernas, e tampouco é possível correr, se ainda nem aprendemos a andar. Mas é preciso abandonar a desídia intelectual, os preconceitos medíocres e o comodismo moral. Faz-se mister nos livrarmos das respostas extraordinárias e axiomáticas, e da injustificada subordinação a instituições que, por força da Carta Magna do país, não deveriam exercer qualquer forma de poder dentro do Estado.

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[1] Houaiss 2009:
adjetivo e substantivo masculino
1 que ou aquele que não pertence ao clero nem a uma ordem religiosa; leigo
2 que ou aquele que é hostil à influência, ao controle da Igreja e do clero sobre a vida intelectual e moral, sobre as instituições e os serviços públicos
adjetivo
3 que é independente em face do clero e da Igreja, e, em sentido mais amplo, de toda confissão religiosa