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Pense em um genocídio, um grande crime. Qual o primeiro evento que lhe veio à mente? Holocausto. A Alemanha nazista, o terceiro Reich, é um exemplo clássico de crime hediondo contra a humanidade. É muito difícil encontrar alguém hoje em dia que não veja o holocausto como uma afronta às mais básicas noções de ética. Baseados nesse julgamento, acabamos taxando por tabela todas as coisas associadas a esse crime como igualmente ruins. E uma delas é o darwinismo social, erroneamente associado, devo dizer, à teoria evolutiva propriamente dita.

O cerne do darwinismo social é/era cruel, porém cientificamente embasador em algo conhecido como eugenia: um método que consiste em selecionar indivíduos de interesse dentro de uma população e fazer com que eles se reproduzam, gerando uma prole mais útil. Mas antes que me atirem pedras, saibam que eu defendo a lógica por trás da metodologia, apenas. Animais domésticos, cereais e culturas de bactérias são exemplos vivos de sua eficácia. O problema do darwinismo social foi aplicar este método para uma população na qual ele não seria útil, no caso, populações humanas. Matar seres-humanos em massa é o total desprezo por um dos maiores trunfos da humanidade: uma adaptação maior do que qualquer outra que poderia ser produzida através da eugenia, que é a sociabilidade. A força do Homo sapiens reside na sua sofisticada capacidade de se comunicar e de sociabilizar, habilidades completamente desprezadas quando um crime dessa magnitude acontece.

Pois eis aí o maior de todos os espantalhos criacionistas: a suposta “Lei do mais forte”. O mais imundo e apaixonadamente defendido de todos os espantalhos. Quando uma crítica à teoria da evolução apela para temas como o darwinismo social, ela deixa de ser apenas desinformada e começa a ser suja. Dizer que devemos aplicar o princípio da eugenia em populações humanas é um exemplo clássico de falácia naturalista, na qual confundimos postura ética com fenômenos observados no comportamento de outros seres vivos. Resumindo o mais imundo dos argumentos criacionistas: a teoria da evolução é falsa, pois apoia crimes como o holocausto, através da “lei do mais forte”. Sujo, não?

Mas, se a teoria da evolução não diz que o mais forte deve prevalecer, então o que ela diz? Bom, aqui convém eu expor a minha própria visão sobre o que essa teoria diz. Antes devo lembrar que, como todas as teorias dentro das ciências empíricas, a teoria evolutiva é uma maneira de explicar um conjunto de fatos observáveis através de sentenças puramente racionais. Ela não é uma ideologia que deva ser seguida com paixão por uma multidão de fanáticos.

Quanto ao que a teoria diz, é comum lermos que se trata da “sobrevivência do mais forte”. Mais uma vez a ideia equivocada de que o indivíduo forte deve sempre sobrepujar os mais fracos. Antes de ser uma luta pela sobrevivência a vida é uma luta pelo legado. O legado de nosso material genético e, em níveis mais sofisticados, o legado de nossas ideias (memes). Como fazer para perpetuar os genes não interessa, desde que funcione. Se para tal propósito seja necessário ou conveniente desmerecer os fracos e favorecer os fortes, assim será. Mas se for mais interessante que os indivíduos de uma determinada população formem uma sociedade na qual um lava a mão do outro, então está feito. O que realmente importa é crescer e se reproduzir, produzindo uma prole que seja capaz de fazer o mesmo por si só. Para tal vale tudo: existem seres vivos que voam, outros que nadam, alguns que fazemc fotossíntese. Talvez a mãe se sacrifique para que a prole tenha segurança e alimento, ou a única célula de um protozoário se preocupe apenas em se dividir em mais duas células. O objetivo é sempre o mesmo, porém o ambiente está em constante mudança. O que é adaptativo pode deixar de ser depois de alguns milhões ou milhares de anos e os caminhos para atingir esse mesmo objetivo são inúmeros.

Acontece que esse é um espantalho com mais de um erro. A falácia inicial é dizer que a evolução se baseia na lei do indivíduo mais forte, a já extensivamente comentada falácia do espantalho. Uma segunda falácia é bem mais sutil, mas um bocado irrelevante quando posta lado a lado com os outros erros desta afirmação. O fato de uma teoria supostamente trazer tristeza não invalida o seu caráter de verdade. Bom, essa falácia é irrelevante porque ela se baseia no maior equívoco presente na ideia de “lei do mais forte”, que é confundir teoria empírica com ideologia, coisa que eu já discuti anteriormente. Portanto, não se trata de uma teoria trazer felicidade ou tristeza, pois isso não está no seu escopo.

A parte mais interessante desse assunto é que poucas pessoas conhecem uma das mais interessantes conclusões tiradas da teoria neodarwinista: é bom ser bom. Ser altruísta pode ser adaptativo. Claro que isso vai depender muito do contexto. O altruísmo é interessante quando consiste em um indivíduo realizando um sacrifício que é compensado pelo benefício gerado ao grupo. Podemos concluir que, em um caso isolado, o indivíduo ainda assim é prejudicado. Mas se formos considerar vários casos ao decorrer do tempo nos quais existe um altruísta e um grupo sendo beneficiado, então esse indivíduo estará sendo beneficiado indiretamente, mesmo que eventualmente ele tenha que se sacrificar. Evidentemente, o altruísmo só se mostra útil dentro de grupos, desde bandos a sociedades com milhões de indivíduos. Mas esse é um assunto extenso demais que precisaria de outro texto. Quanto à suposta “lei do mais forte”, só posso dizer que é uma ideia ultrapassada, que não condiz com todos os casos presentes na natureza e utilizá-la como desculpa para menosprezar seres-humanos é um erro grosseiro.

III

É normal uma pessoa religiosa estufar o peito para falar sobre a crença dos grandes gênios da humanidade. Alguns nomes logo vêm à mente. Isaac Newton é o primeiro. Físico, pai do cálculo e teólogo, para orgulho dos teístas. Galileu, um dos homens que desafiou a igreja, também acreditava em deuses. Einstein, muito citado em fontes não confiáveis pela internet como sendo autor de diversas frases, boa parte delas com alto teor religioso, também acreditava em algum deus (embora muito diferente do que a versão da grande maioria dos teístas). Da Vinci, Blaise Pascal e Kepler são outros nomes de grandes gênios crentes em deus.

Segundo o meu último texto, esse fato não interessa. Não entendam isso como uma tentativa de desvio ao fato de que muitos cientistas brilhantes acreditavam em deus. Na verdade, muitos outros cientistas brilhantes não acreditavam em nenhum e isso também não faz diferença alguma. Esse meu texto não vai atacar a validez da defesa apologética na qual os grandes gênios aparecem como evidência de que deus existe. Essa defesa já começa inválida por se tratar de simples falácia do apelo à autoridade. Quero falar sobre a relação entre a crença e suas experiências, uma ideia fundamental que parece ser sistematicamente ignorada por muitos teístas. Para tal eu focarei em Newton, visto que ele é o mais óbvio expoente de cientista crente em deus.

Newton acreditava – muito – em deus. Não resta a menor dúvida quanto a isso. De fato, ele era um teólogo. A faceta de Newton que não nos ensinam na escola inclui teologia e alquimia dentro das atividades deste cientista britânico. Essa mesma faceta é muito lembrada com orgulho pelos defensores da “ciência amiga de deus” de que eu falei no meu último texto. Como a relação deus e ciência é tão repleta de ironias, é óbvio que existe mais uma por trás da teologia de Newton. Não sei se os apologistas nunca pararam para pensar sobre isso por preguiça ou conveniência, mas o fato é que existem ótimos motivos pelos quais Newton não é conhecido por sua teologia e alquimia. Ao contrário do Newton físico, matemático e filósofo natural, a sua contraparte teológica e alquimista não colaborou muito (ou nada) para a humanidade. O cálculo de Newton e suas leis fundamentais revolucionaram a física, mas a alquimia e teologia foram irrelevantes. Seria interessante se Newton não tivesse desperdiçado tanto tempo na busca de uma pedra filosofal ou de um deus bondoso, talvez saísse mais um ou dois postulados.

Mas o ponto mais importante não é esse. Não faz muito sentido divagar sobre o que Newton teria descoberto caso investisse mais tempo em seus estudos sobre a natureza. Newton, como cada ser humano, era uma criatura cujos conhecimentos dependiam intimamente de sua experiência. Antes de ser um filósofo/físico/teólogo de grande calibre ele era um filósofo/físico/teólogo do século XVII – XVIII. Não há como dissociar Newton de seu tempo da mesma maneira que não há como dissociar uma ideia de sua época, visto que a primeira é um reflexo da última.

Um exemplo de como muitos apologistas falham miseravelmente ao dissociar um pensamento de sua experiência está no criacionismo. É comum ver criacionistas defendendo que os principais gênios, como os que eu citei no primeiro parágrafo, eram todos criacionistas. Mais uma vez vamos um pouco além, ignorando o fato de que o argumento é apenas uma falácia, para analisar a sua validade.

Antes de nos perguntarmos por que Newton, Galileu e Pascal eram criacionistas, devemos nos perguntar como eles se tornariam evolucionistas. Sabemos como Darwin se tornou um. Entre os principais fatores está nada menos do que uma viagem ao redor do mundo com frequentes paradas, incluindo na América do Sul, onde Darwin servia primariamente como geólogo mas também coletava espécimes diversos. Wallace, o co-autor da teoria darwinista estava na Malásia quando chegou, de maneira independente, à mesma ideia central que Darwin. Antes de ir para a Malásia Wallace estudou e coletou durante anos na bacia Amazônica, um lugar que muitos brasileiros sequer conhecem. E fez isso em pleno século XIX. Há de se considerar a experiência destes dois naturalistas. Como que Newton chegaria à mesma conclusão que Darwin e Wallace? Estudando prismas? Observando uma maçã cair? Ou então Galileu deveria ter descoberto algo sobre a evolução das espécies olhando as estrelas através de seu telescópio.

Nem Newton, nem Galileu, nem Darwin ou mesmo eu e você tiramos nossas conclusões do nada. O que chamamos de grandes gênios são pessoas que sugam lições de suas experiências com a voracidade que um tolo não conseguiria. Mas a informação chega para todos com a mesma intensidade, a única diferença está em quem a acolhe. Uma maçã caindo foi o suficiente para inspirar Newton a postular algo sobre a gravidade, mas nem mesmo todas as maçãs do mundo caindo simultaneamente fariam com que um homem, preguiçoso ou temeroso em pensar, concluísse qualquer coisa.

Deus e a Ciência:

1. A mitificação da ciência salvadora

2. No quê os cientistas acreditam

3. A crença dos grandes gênios

4. Sobre os magistérios não-interferentes

Falei sobre um tipo específico de agnóstico em meu último texto. Agora falarei do agnosticismo como um todo, pois parece que eu fiquei devendo uma discussão mais ampla sobre o tema. Para início de conversa, já vou adiantando que existe um pouco de dificuldade em elaborar em grupo de agnósticos. Ao passo que o time dos “sem opinião”, que constitui agnósticos radicais e incômodos, formavam um plural bem definido, “agnóstico” é um termo que define muito pouco. Até mesmo “ateu”, um epíteto que pode ser concedido a praticamente qualquer tipo de pessoa, ao menos é objetiva quanto ao seu significado. “Ateu” é o descrente em deus, é claro. Mas e o “agnóstico”?

Não é à toa que, em meu último texto, eu defini “agnóstico” como aquele que admite não possuir conhecimento. “Admitir” é a palavra que faz toda a diferença nesse caso. Não se trata apenas de uma visão do mundo, mas do reconhecimento do óbvio. Somente alguém muito simplório acreditaria que possui conhecimento pleno sobre determinado assunto. Ou total conhecimento para defender racionalmente uma posição convicta e que dispensa qualquer debate acerca da existência de deus. Ou seja, a definição mais ampla de “agnóstico” inclui um número consideravelmente grande de pessoas. E poderíamos dividir as pessoas em agnósticas e fanáticas. Lembrando que essa divisão consideraria apenas se o indivíduo admitiria ou não a sua inerente falta de conhecimento, e não a falta de conhecimento em si.

Isso já é um problema. Se o agnóstico é apenas alguém não fanático, então é um termo um tanto quanto inútil. Eu seria um agnóstico. Seria um descrente em deus disposto a debater o assunto. Mas não vamos nos limitar à etimologia da palavra. É evidente que as palavras carregam o significado que os seus falantes dão a elas. Mesmo que “agnosticismo” seja a derivação do grego “a” (ausência) e “gnosis” (conhecimento) é um tanto óbvio que a palavra carrega um significado além destes. Existe outra definição, na qual “agnosticismo” consiste em crer que a razão jamais pode ou poderá ser usada para compreender assuntos de cunho sobrenatural. Muito sensato, na verdade. Algo muito parecido com a ideia de “magistérios não sobrepostos de Gould”, segundo a qual seria inviável se utilizar de métodos científicos e racionais para compreender questões de natureza teológica.

Essa definição também me incluiria como um agnóstico. Na verdade, muitas pessoas acham que eu deveria me autointitular “agnóstico”. Mas eu me pergunto se é porque o epíteto faz mais jus às minhas ideias, ou se é a ideia de “ateu” que as incomoda muito. O que me leva a pensar que o termo nasce da aversão que a sociedade tem ao ateu. Muito mais do que simplesmente admitir a dúvida ou acreditar que um debate racional sobre a existência deus é infrutífero, o termo “agnóstico” aparece para se diferenciar da idéia estigmatizada de “ateu” que muitos (infelizmente) têm até hoje. Pois não seria a dúvida uma forma de descrença? Não vou repetir aqui a analogia da porta e do leão que usei no meu texto anterior, pois lá ela aparece exaustivamente. Mas ela não é necessária. Fica apenas essa reflexão para os que acham que “dúvida” é algo a meio caminha da “crença” e da “descrença”.

No vocábulo popular, é claro, agnóstico é aquele que não defende nem a existência de deus, nem o contrário. Neste momento, eu deixo de ser agnóstico, pois acho que a questão está um pouco mais resolvida do que parece. O agnóstico acaba sendo visto como alguém que não ataca nenhuma das ideias, mas é morno demais. Não chove nem molha. Exceto é claro, o timinho dos “sem opinião”, que fazem questão de incomodar todo mundo com suas ideias irrelevantes. Eu sou daqueles que vê a maioria dos agnósticos como pessoas em estado de eminente ateísmo. “Agnosticismo”, visto de maneira prática, pode ser interpretado como estado de transição. Mas não da transição entre a crença e a descrença. Trata-se do desenvolvimento do ateísmo ou teísmo dentro de uma mente indecisa.

Em se tratando de plurais, os agnósticos formam um grupo bastante heterogêneo. No mínimo tão heterogêneo quanto nós, ateus. Antes que o meu texto seja mal interpretado, não chamo os agnósticos, todos eles, de “sem opinião”. O time dos “sem opinião” se refere a um grupo dentro do grupo. Um tipo particular de agnóstico muito comum e muito irritante.

Antes de falar deste grupo, vou falar dos agnósticos no geral. Agnóstico é aquele que admite não possuir conhecimento o suficiente para ter convicção de que deus existe, ou de que ele não existe. Agora, se você é um leitor esperto, deve ter percebido que “ateísmo” e “agnosticismo” não são posicionamentos excludentes dentro de uma mesma mente pensante. Não acreditar em algo não significa ter convicção de que este algo não exista. Eu mesmo sou um ateu, e posso ainda ser definido como agnóstico. Mas vá explicar isso para o pessoal “sem opinião”…

Mas quem são esses gajos, afinal? Bom, para começar, todos se definem como agnósticos. Eles o fazem de tal modo que fica fácil criar uma aversão (injusta) aos agnósticos em geral, mesmo que esse grupo possua pessoas muito mais lúcidas que a média da população. O diferencial do time dos “sem opinião” está, obviamente, no esforço destes em não tomar partido algum na questão da existência de deus(es).
Esses agnósticos se baseiam em certas premissas, todas equivocadas.

A primeira delas. “Descrer na existência de deus é crer convictamente que este não existe”.  Falso. Existe a crença e a descrença. Assim como existe a convicção. Crer em alguma coisa é agir sob o pressuposto de que esta coisa exista. Descrer é o oposto. Crer convictamente é ignorar qualquer evidência que derrube a sua crença.

Para ilustrar esse exemplo, imagine uma porta. Agora eu lhe digo que, atrás desta porta, existe um leão faminto que não vai pensar duas vezes antes de devorá-lo. A questão é que você quer abrir essa porta. Existem duas escolhas. Você crê no que eu digo, ou descrê. Logicamente.
A crença de que o leão existe vai se refletir nos seus atos. É muito improvável que você vá incauto em direção à porta, sendo que você acredita na existência do leão espreitador. Certamente você sequer se aproximará da porta, ou caso vá em direção a ela, o fará com muita cautela. Isso é a crença, no seu modelo de mundo, o leão está lá, e é sensato tomar bastante cuidado.

Você pode descrer. Neste caso você abrirá a porta sem o menor receio. Ou talvez com um pouco de receio, é verdade, mas ainda assim abrirá. Você pode discutir comigo, tentar ser razoável. Um leão atrás da porta emitiria algum barulho, ou mesmo calor. Ou poderia me perguntar, e seria uma pergunta muito pertinente: “o que um leão estaria fazendo atrás daquela porta, afinal?”. Eu poderia inventar qualquer coisa. Poderia até mesmo dizer que um simples humano como você não seria capaz de compreender as minúcias da fome do leão.

Uma crença convicta no leão seria se, mesmo sem qualquer evidência a favor do bicho, você ainda ficasse com medo. Impediria qualquer um de se aproximar da porta e gritaria aos quatro cantos que “ali tem um leão!” e que “todos deveriam se manter afastados da porta o máximo possível!”. Poderia também crer convictamente que o leão não está ali, o que é diferente de simplesmente descrer. Porque você ignoraria a priori qualquer evidência corroborando o leão faminto.

Esse equívoco manifesta-se de maneira mais óbvia na seguinte afirmação, muito comumente pronunciada por este subgrupo peculiar de agnósticos:
“Eu não acredito, mas eu também não desacredito.”
Uma pérola, em minha opinião. Assemelha-se a dizer “Eu não conheço, mas eu também não desconheço.” ou “Eu não confio, mas também não desconfio.”! No entanto, é muito normal ler ou ouvir essa frase em discussões por aí afora. De maneira geral, eu tomo essa frase como um diagnóstico de que o sujeito em questão faz parte mesmo do timinho dos “sem opinião”.

A outra premissa é a de que crer e descrer em deus(es) são posições de mesmo mérito intelectual. Discordo totalmente.
Peguemos o exemplo do leão atrás da porta. Qual a chance de ter um leão atrás da porta, sendo que você está em um recinto fechado, dentro de uma zona altamente urbanizada, com um oceano atlântico te separando da savana africana? Cinqüenta por cento? Certamente que não. Fica óbvio que a crença e a descrença, neste caso, não fazem parte de extremos opostos de igual plausibilidade. Pois bem, o mesmo acontece com deus. Quais são as evidências de que existe algum deus? Eu desconheço. E isso que eu já li muita coisa, das mais absurdas às mais sofisticadas defesas da existência do “papaizão”.

O religioso fanático tem uma visão romantizada das coisas. Visão essa na qual o mundo é um palco e o seu teste de fé é negar a realidade, sonhar com o além-vida e converter os infieis para a sua crença. O ateu fanático também vê as coisas de maneira exagerada. Sendo ele o paladino defensor da razão, a única virtude que um ser humano pode ter. Assim como esses dois, o agnóstico também pode ser fanático. Evidentemente, é esse o caso dos “sem opinião”. Eles também têm uma visão romântica do mundo, em que este está em uma guerra ideológica entre teístas e ateus e eles, os agnósticos, são os únicos seres sábios e iluminados que se distanciaram desse conflito para pensar livremente a respeito do mundo. Todos os três exemplos de fanáticos se mostram como pessoas simplórias. Estão sempre na constante tentativa de se destacar dos demais, colocando todos no mesmo saco e eles, como seres acima de qualquer debate.

Mas tem algo pior no time dos “sem opinião”. Uma desvantagem adicional. Ao passo que ateus e teístas, mesmo os fanáticos, têm ao menos sobre o que se posicionar, os “sem opinião” sequer têm isso. Como eu disse anteriormente, é um esforço constante em não tomar partido. São pessoas inteligentes o suficiente para admitir que religiosidade e racionalidade não conseguem conviver juntas. Percebem que deus é algo que foge à lógica e à razão. Mas têm medo de admitir que não acreditam em deus. Claro, pois, se algum deus existir, eles estarão seriamente lascados.

Não ter opinião é algo perdoável somente sob o estado da ignorância. Mas à medida que nos informamos mais sobre um assunto, é recomendável nos posicionarmos. Ter opinião não é sinal de fanatismo, mas sim de sinceridade frente aos seus conhecimentos. De que adianta termos conhecimento, se não colaboramos para melhorá-lo?

O Nobel de literatura irlandês George Bernard Shaw uma vez comparou, com sua forma peculiarmente bem humorada, a felicidade de um homem religioso à doce ilusão de um homem embriagado. Dizia ele que o fato de um homem religioso ser mais feliz do que um cético é equivalente ao fato de um homem bêbado ser mais feliz do que um homem sóbrio. E complementou: a felicidade advinda da credulidade é uma qualidade perigosa e barata.

Estas palavras não são postas sem propósito, pois os fiéis que bebem do sangue de Cristo parecem mesmo acometidos de certa embriagues. A etimologia da palavra “religião” é fruto de controvérsias, mas há quem defenda que ela advenha do termo latino religare (religio, na vulgata), que significa “religar”. Entretanto, o preço pago por essa conexão com um suposto ser superior nos é cara. Acreditar no sobrenatural necessariamente implica desconectar-se da realidade e ignorar todo o conhecimento científico sério.

Ébrias, as pessoas religiosas tendem a ser seletivas quanto ao conhecimento que entendem por válido. A sistemática é simples: tudo o que vai de encontro à ideia de deus deve ser descartado. Assim, com toda a paixão etílica que demonstram por suas próprias fantasias, continuam a se intoxicar de ilusões pueris, vivendo em uma realidade que lhes é particular.

Não é de se estranhar a paixão que demonstram ao entonar os hinos nas igrejas e templos, nas suas convulsões e exorcismos. George Shaw parece mesmo estar certo em sua analogia, a felicidade advinda da embriaguez da fé é perigosa e barata, aliena e demove dos fiéis qualquer senso de realidade. Não há como negar que até mesmo as crianças que esperam por Papai Noel a cada natal são mais felizes que aquelas que desafiam a sua existência.

Estamos dispostos a pagar o preço de tal ilusão? Não ponho em dúvida o caráter ou a inteligência daqueles que possuem fé em deus, mas até que ponto estamos dispostos a incentivar e ser governados por pessoas com a mente entorpecida por dogmas canônicos? Eleger um político religioso, para mim parece similar a eleger um político assumidamente alcoólatra. Uma atitude no mínimo temerária. Não é apenas a felicidade de quem tem fé que se equipara à embriaguez, mas também a sua capacidade de discernimento. É preciso tratar esse vício hereditário.

Você trocaria a realidade pela fantasia? Trocaria o amor, a amizade, o carinho de uma pessoa real pelo “afago” psicológico de um ser que não existe de fato? Ainda que você acredite em “algo”, provavelmente não. Mas essas perguntas, que a princípio soam sem sentido, constituem um sério problema que está começando a se tornar comum nas sociedades. A fé, a crença, não estão mais presentes somente naqueles inocentes encontros dominicais em que o fiel cumpria suas obrigações para com Deus e pecava à vontade na semana que se seguia. Hoje temos um reflexo, um efeito colateral social maior, interferindo diretamente nas vidas das pessoas. Sem querer ignorar toda a história religiosa do mundo e as mazelas proporcionadas pelas religiões nos tantos séculos passados, incluindo-se aí o uso da força, o fato é que o fanatismo psicológico religioso contemporâneo começa a mostrar a que veio e como veio, e o mundo racional moderno falhou e não conseguiu colocar as religiões e as estúpidas crenças medievais em seu devido lugar. A força, a brutalidade, o inquisicionismo foram postos de lado, substituídos sabiamente por uma “arma” muito mais eficaz: a lavagem cerebral. A manutenção das crenças até os tempos atuais, mesmo considerando a maneira como a ciência já demonstrou o quanto elas são ideias infantis e sem lógica, serve de forma falaciosa aos argumentos dos crentes (“se existe até hoje é porque é verdade”). Muitas vezes a escolha por uma doutrina religiosa intelectualmente castradora retira da pessoa alguns pontos importantes para o correto discernimento no procedimento de escolhas coerentes e para a tomada de decisões. E tomar decisões corretas, ou pelo menos próximas disso, nos dias de hoje é extremamente importante. Em alguns casos chega a ser vital.

Entre vários exemplos que podemos citar, um é o crescente número de cônjuges com problemas dessa natureza. Não se trata da “fé” pessoal exclusivamente, carregada e guardada intimamente no “coração” do crédulo, mas do modus operandi na aplicação trivial da postura prática e da rotina social (educação dos filhos, organização financeira, fantasias exarcebadas, fanatismo etc). O número de pessoas que se convertem a essas novas formas de religião (as chamadas neos) dirigidas e professadas por grandes empresários da fé, cresce assustadoramente. As pessoas são expostas a uma incrível e eficiente lavagem cerebral e passam a agir, mesmo sem se darem conta, de modo diferente na sua rotina conjugal, pessoal, financeira, racional, enfim, comportamental. Obviamente que seria uma afronta de minha parte censurar a questão íntima crédula das pessoas, mas o ponto que evidencio envolve a extrapolação disso. Resultados catastróficos provenientes de ações medíocres acabam atingindo terceiros (filhos, maridos, irmãos, netos, amigos) que em hipótese alguma “comungam” com tais devaneios. A liberdade religiosa exige respeito, mas não é uma via de mão dupla, uma vez que ela própria invade as vidas dos incrédulos pensadores que agem pela razão. No caso dos cônjuges chegou-se à absurda situação em que, o crente ao se ver “encurralado” e obrigado a tomar um partido, uma decisão, fazer a escolha, acaba surpreendentemente optando pela fantasia, pelo irreal. Abre mão do(a) companheiro(a) de carne e osso e segue “feliz” de mãos dadas com o amigo imaginário. Difícil escolher e classificar tal situação entre “triste” ou “cômica”. Talvez o termo mais correto seja “patético”.

Há casos mais severos em que a troca da realidade pela fantasia chega a ser chocante. Deveria inclusive ser tratada como doença, embora o teor da crença não seja nem mais nem menos insano do que qualquer outra. Porém, o grave problema reside nas ações. As atitudes surpreendem. É o caso da ala radical islâmica, à qual a citada troca acima significa abrir mão da própria vida, seja em atentados suicidas, carrengando com eles a vida de milhares de pessoas inocentes e mentalmente sãs, ou simplesmente em suicídio ordinário. Os crentes muçulmanos radicais orgulhosamente chamam isso de “sacrifício” por Alá (Deus), mas sabemos que na verdade são vítimas também de intensa e eficiente lavagem cerebral iniciada ainda em berço, tal qual ocorre com os cristãos, destacando-se entre estes os lunáticos neos cristãos. E não há argumentos racionais que façam uma lavagem cerebral bem instalada ser alvo de autocrítica pelo seu detentor, salvo raríssimas exceções.

Uma outra troca boçal e inadmissível da realidade pela fantasia, e esta me choca consideravelmente por eu ter presenciado pessoalmente o sofrimento de uma jovem vida inocente que sequer podia escolher, é a psicose que reina entre os Testemunhas de Jeová. Antes que algum leitor crente lance petardos enfurecidos sobre mim, me amaldiçoando ao fogo eterno por desrespeito a crença alheia, antecipo que não há nada, absolutamente nada, crença alguma, convicção alguma, maldição alguma que justifique a privação de uma inocente criança a um tratamento simples e suficientemente eficaz para salvar a sua vida, seja uma transfusão de sangue ou um transplante de órgão. A liberdade de crença deve ser respeitada, mas o limite da insanidade envolvendo a vida de terceiros deveria ser rigorosamente vigiado e controlado, não importando e nem cabendo nessas situações apelos religiosos ou credulismos insanos. Porém, ainda que esse controle seja feito, ou não, é muito assustador pensar que existem pais que trocam a real vida do filho, a real presença dele ao seu lado, vê-lo crescer, se formar, lhe dar netos e muita alegria, por uma crença qualquer. É a loucura religiosa se sobrepondo aos mais básicos instintos naturais humanos.

Como afirmei acima e repito agora, seria uma afronta de minha parte censurar a questão íntima crédula das pessoas, mas quando isso extrapola a individualidade, o lado pessoal introspectivo, e retorna à sociedade em forma de normas medíocres, regulamentações impróprias para o avanço da civilização, dogmas sem sentido, atitudes fundamentalistas, interferindo na educação laica das crianças, na formação de leis de uma nação e até mesmo na censura comportamental de um indivíduo incrédulo, a questão torna-se extremamente grave. Trocar a verdade pela fantasia, por mais lamentável que seja, é um direito de todos. Desde que não interfira absolutamente na vida de quem optou pela realidade.

“A mentira tem perna curta”. Quem nunca ouviu essa frase? Imagino que todos nós, desde muito novos, ouvimos que a verdade prevalecerá e que o mentiroso será desmascarado. “Não importa o quão bem elaborada seja uma mentira, esta cairá por terra, cedo ou tarde”.

Agora, pergunte a si mesmo. Será?
Mergulhando na metáfora da famosa frase, vamos imaginar uma perseguição, só para ilustrar a complexidade desta questão tão comumente ignorada.

Suponha que vários porcos fugiram, e que estão agora dentro de um túnel, correndo apenas em um sentido. Você está caçando os porcos fujões, correndo o máximo que sua compleição física permite. Aos poucos, vários porcos são capturados, até que, depois de um número significativamente alto, você julga que seu serviço está feito, e se considera pronto para entregar os porcos ao seu devido dono.

Daí você pensa, “foi fácil, esses porcos de pernas curtas fatalmente iriam ser capturados”. E você até que tem uma boa base para pensar assim, afinal, todos os porcos que você pegou tinham pernas curtas.

Mas e os de pernas longas? Você sequer sabe que existem.

Ao entregar os porcos capturados ao dono, ele poderia simplesmente dizer “existem porcos faltando aqui”. E ele poderia estar dizendo tanto a verdade quanto a mentira, desde que ressaltasse que esses porcos perdidos são rápidos e têm fôlego o suficiente para fugir de qualquer ser humano.

O que eu quis ilustrar com esse exemplo esdrúxulo foi o seguinte: Nós só podemos julgar o que conhecemos. Nem sempre é razoável extrapolar para o todo, o que entendemos baseado meramente em uma fração deste. Podemos extrapolar, sim, quando o todo segue o mesmo padrão da amostra (ao menos no que se refere ao que pretendemos afirmar). Mas as mentiras de pernas curtas diferenciam-se, qualitativamente, por serem verificáveis, enquanto as longas não o são. E é aí que reside toda a diferença. Por isso que eu digo que sim, existem mentiras de pernas longas. Nós não as conhecemos, porque não somos capazes de alcançá-las por definitivo.

Se eu te digo que, enquanto você lê este texto, existe um duende verde e estrábico do seu lado, basta virar a cabeça e verificar (dos dois lados, visto que eu não especifiquei qual lado era). Se você não encontrou duende nenhum, pronto, a minha mentira foi escancarada, pernas curtas, papo findo. Se você viu algum, por favor, tire uma foto, publique e ignore a mensagem anterior.

Mas, agora, se eu lhe digo que este é um duende invisível, etéreo, sobrenatural. Que ultrapassa qualquer barreira física e escapa de qualquer tentativa de verificação. Eu lhe pergunto:

“Pode provar que estou mentindo?”

Pois bem. Este caso, novamente esdrúxulo, explicita a diferença entre as duas formas de mentira.

Pois a inverificabilidade de uma crença não a torna mais plausível.

E isto é uma obviedade dentro do meio acadêmico e científico. Pessoas céticas pensam exatamente assim. Qualquer afirmação irrefutável é ignorada, pois é infrutífero elucubrar sobre algo que não é alcançável intelectualmente, da mesma maneira que é insensato tomar como verdade algo que não se pode averiguar.

Portanto, eu peço ao leitor que pense seriamente, sobre essas mentiras que conseguem fugir de todos nós e que, por causa disso, muitos as tomem como verdades.

E, antes que eu me esqueça. Tenham todos um feliz 2010!

Você pode ser uma pessoa religiosa ou simplesmente ter a sua fé particular, mas se for honesto e justo consigo mesmo certamente deve ter milhões de questionamentos na cabeça. Se for honesto mesmo, de verdade, deve admitir sem necessidade de autodefesa (pelo menos deveria), que reside em seu interior uma boa dose de preguiça intelectual, ou simplesmente muito medo. Um medo aterrorizante. A sua aceitação incondicional em relação as absurdas contradições, que são visíveis nas crenças destituídas de razão, demonstram claramente isso. Por que não questionar? Qual o problema em duvidar? Como pode acreditar em algo (insano, lunático e descabido) por pura osmose, sendo que esse algo foge a tudo que se conhece na natureza demonstrada? Você crê em lobisomem? Em fadas? Você, que se diz crente e cristão, crê também nas virgens paradisíacas (muçulmanas) que aguardam os homens-bombas no céu? Você crê no Inri Cristo? Perguntas idiotas para situações mais idiotas ainda. Não há nada mais irônico e contraditório do que tratar assuntos lunáticos com discursos sérios e racionais. No entanto é isso que geralmente nós, incrédulos, tentamos fazer. Portanto, os céticos possuem uma parte de culpa no fomento dessa idiotice toda, pois há séculos vocês, crentes, deveriam ser devidamente desprezados pelos que se dão ao trabalho de pensar. Pensar e encarar a realidade é difícil, mas é necessário. Vocês não pensam.

Continuemos. Quando você está numa roda de amigos e aquele colega repleto de estórias e contos lhe propõe uma fantasia absurda e sem sentido natural, totalmente irracional e amplamente desprovida de bom senso, apesar de você se deleitar temporariamente com ela (o lazer fantasioso, um ótimo entretenimento, seja em forma de conto verbal, literário, cinematográfico, teatral etc.), não encontra dificuldade alguma para descartá-la assim que a conversa termina. Convenhamos: você não vai para sua residência achando ou pelo menos ventilando a hipótese de que as insanas palavras do seu amigo devaneador são “sagradas” ou “divinas”. Este exemplo, que a princípio é tosco aos olhos dos que creem em deuses celestiais e sequer param para pensar na equivalencia entre as tosquices (o meu deus é o verdadeiro, a bíblia é a prova disso!!), na verdade revela que a crença em algo destituído de razão é absolutamente prepotente e sem lógica racional. Uma simples análise imparcial comparativa e profundamente honesta comprova isso. Honesta a ponto de vencer a covardia interna e os próprios medos.

Se você é um crente, mas pelo menos com um pouco de esforço consegue entender essas palavras acima, lembre-se da próxima vez quando for censurar, debochar ou insinuar que a crença de outrem é esquisita, irreal ou maluca, que a sua própria crença não tem valor algum para a realidade. Não se esconda atrás da palavra para justificar as contradições da sua religião ou do seu credo em detrimento de outras, por mais que você as considere insanas. De fato elas são, não iria discordar de você em relação a isso, mas não são mais nem menos do que a sua. Na hipótese de você não aceitar essas palavras devido à cega paixão pela sua própria crença, pense consigo mesmo porque as outras seitas, religiões, lendas, estórias e folclores são irreais e a sua não. O que, além do que você chama de fé, torna sua crença especial e lógica em relação as outras? Faça a simples inversão da “fé”. Ponha-se no lugar de um muçulmano, por exemplo, que tem na mesma proporção as “certezas” na crença dele que você tem na sua. Se você compreender o que a palavra certeza de fato significa, e isso não fizer você pelo menos pensar e entender que existe algo estranho e bizarro nisso tudo, seu poder de discernimento e, consequentemente, sua lucidez sobre a realidade não existem mais. Ou seja, você é um crente.