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Don Pedro de Barberana y Aparregui, Cavaleiro de Calatrava, por Diego Velázquez.

Don Pedro de Barberana y Aparregui, Cavaleiro de Calatrava, por Diego Velázquez.

Fundada no reino de Castilha, região que hoje é território espanhol, a Ordem de Calatrava foi a segunda Ordem de Cavaleiros a receber apoio papal. O papa Alexandre III reconheceu sua legitimidade em 1164, com o objetivo principal de melhor organizar a ofensiva da Batalha da Reconquista, na qual portugueses e espanhóis pretendiam expulsar todos os muçulmanos da península Ibérica.

Os cavaleiros da Ordem lutaram e combateram os muçulmanos que ocupavam a região andaluz. Mas não foi até 1409 que a Ordem, que tinha por símbolo a cruz da Igreja Católica Ortodoxa Grega entrelaçado pela flor-de-lis, símbolos da cristandade, ganhou poder político, quando o papa Inocêncio VII, convencido do sucesso da campanha da Ordem do Dragão, patrocinou política e financeiramente a Ordem de Calatrava para investir contra o império Otomano.

Calatrava, Wallachia e Constantinopla são apenas alguns dos vários sítios históricos que testemunharam o derramamento de sangue por motivos religiosos. Não sejamos simplistas a ponto de achar que tais fatos ocorreram apenas pela fé. Nenhum rei, nem mesmo o Papa gastaria tanto dinheiro e patrocinaria tantas mortes se não houvesse real interesse econômico e político no domínio cristão na Europa.

As igrejas sempre foram grandes máquinas de coletar dinheiro (muitas vezes às custas das ilusões daqueles que não têm mais ao que se apegar), e perder a galinha dos ovos de ouro seria um preço muito caro. Foi preciso, nestes dois últimos séculos, fechar os olhos para o sexto mandamento de Moisés.

Mas os livros de história estão sempre empoeirados nas prateleiras daqueles que querem dedicar a vida à religião. Quinhentos anos parece algo tão distante e surreal que é fácil negar ou ignorar o cheiro de carcaça que ainda brota de um passado nem tão distante.

A verdade é que não precisamos ir tão longe. Para manter as chamas da ignorância acesas, atropelam-se deliberadamente os fatos que, se não fossem patrocinados por uma poderosa entidade religiosa, jamais passariam desapercebidos. Quem seria capaz de ignorar o legado de crueldade deixado pelo nazista? Qual empresa se safaria de tantas acusações de pedofilia por parte dos seus representantes?

Enquanto existir o controle das massas por essas megaempresas multinacionais que,explorando a fraqueza emocional e a necessidade de consolo espiritual, enriquecem os salões do Vaticano e os bolsos dos pastores evangélicos, continuaremos jogando a sujeira para debaixo do tapete e fechando os olhos para as atrocidades cometidas sob a proteção da batina e do crucifixo.

Localizada entre o rio Danúbio e as geladas montanhas de Cárpatos, ergue-se a fria e solitária região de Wallachia. Aparentemente esquecida pelo tempo, a região localizada ao sul da Romênia foi testemunha de determinantes conflitos históricos que livraram o leste europeu de um possível domínio Turco.

Entretanto, não é por estes conflitos que a região é principalmente conhecida, mas pela fama nebulosa que circunda um de seus mais notórios governantes, Vlad III, imortalizado pelo folclore romeno e posteriormente difundido globalmente pelo aclamado romance de Bram Stoker e as suas várias adaptações para o cinema.

Vlad III nasceu na Transilvânia e aos cinco anos de idade foi levado a Nuremberg, onde foi iniciado na Ordem do Dragão. O Voivoda exibia orgulhosamente o título de Draculea, significando“o filho do Dragão”; uma clara referência ao seu pai, Vlad II Dracul, conhecido como O Dragão, membro honorário da Ordem.

Com sua lealdade posta em dúvida entre os membros do Conselho Húngaro, Vlad II Dracul firmou um acordo com sultões turcos, prometendo pagar-lhes tributo e não oferecer resistência à sua expansão. Como garantia, O Dragão enviou seus dois filhos a Edirne, então capital do império Otomano, na condição de reféns.

Vlad III em seu famoso desjejum entre as vítimas de empalamento. Ilustração do século XV: “O bosque dos empalados”. Autor desconhecido.

Vlad III em seu famoso desjejum entre as vítimas de empalamento. Ilustração do século XV: “O bosque dos empalados”. Autor desconhecido.

O que os jovens da Transilvânia não sabiam era que seu genitor tinha planos de sacrificá-los como parte de uma manobra protelatória política, obtendo assim os favores dos demais nobres húngaros. Vlad III e seu irmão Radu, o Belo, ficaram sob a custódia de Mehmed II, que, ao invés ordenar a morte dos dois jovens, como esperado, tinha planos de doutriná-los de acordo com os costumes islâmicos e mais tarde reinseri-los no poder, constituindo então um reino muçulmano no coração de Wallachia.

Os irmãos testemunharam a rigidez com que o sultão controlava seu povo. Relatos históricos nos mostram que Radu não demorou a converter-se ao islamismo, porém Vlad era constantemente punido pela sua insolência e recusa a abandonar o cristianismo. Ambos receberam treinamento em táticas de guerra, aprenderam a língua turca e estudaram profundamente o corão. O empalamento era algo praticado em larga escala na Turquia.

Descontentes com a posição que Vlad II Dracul assumira com relação aos Otomanos, Hunyadi liderou ataque ao principado de Wallachia, assassinando o então governante da região juntamente com seus filhos mais velhos. Esta ação fez com que os otomanos atacassem o sul da Romênia, com o objetivo principal de tornar líder Vlad III. Este governo, entretanto, não durou muito e logo João Hunyadi investiu novamente contra a região, depondo Vlad Ţepeş e substituindo-o por Vladislav II.

Acreditando ter dado o trono para um simpatizante do islamismo, os turcos prepararam-se para uma nova investida, marchando contra Constantinopla, hoje Istambul, com a intenção de eliminar a última resistência cristã no mediterrâneo.

Referência cristã no emblema da Ordem do Dragão. Inscrição: O Draconistarum ordeurs, Justus et Paciens. Representa a vitória de São Jorge sobre o Dragão, da cristandade sobre Satanás.

Referência cristã no emblema da Ordem. Traz a inscrição "O Quam Misericors est Deus, Justus et Paciens". (Ó quão misericordioso é Deus, justo e paciente).

Vlad fugiu para Moldavia, onde tinha a proteção do seu tio Bogdan II. Ali, Vlad Ţepeş teve a oportunidade de se encontrar com Hunyadi, um homem extremamente religioso e preocupado com a situação do país, e conseguiu convencê-lo de que não apenas conhecia profundamente os costumes e hábitos turcos, mas que sobretudo não havia se convertido ao islamismo, a exemplo do seu irmão. Hunyadi nomeou Vlad III seu conselheiro de guerra.

Em 1451, Constantinopla caiu nas mãos do império Otomano, que marcharam novamente, desta vez para Belgrado, com fins de dominar toda a região da Romênia. Com o apoio de Hunyadi, Vlad III liderou um pequeno exército contra Wallachia, assassinando Vladislav II e retomando o poder. Enquanto isso, Hunyadi liderava os seus homens para a Sérvia com a intenção de montar uma resistência.

Vlad III governou Wallachia com punhos de ferro. As punições eram exemplares; para todo tipo de delito havia penas severas, e a mais comum delas era o empalamento. Foi por causa desse modus operandi que ganhou o apelido de Vlad Ţepeş, ou Vlad, o Empalador.

Até os seus últimos dias de vida, Vlad lutou para manter Wallachia um reino cristão, e para isso matou não apenas os seus inimigos, mas também os seus conterrâneos subordinados. O medo presente na população da região era tamanho que diz-se ter existido um cálice de ouro no centro de sua capital sem que ninguém ousasse subtraí-lo. Era uma demonstração clara do seu poder de controle. Vlad provocou os otomanos, não pagando seus tributos e empalando qualquer muçulmano que se aproximasse do seu país. Mehmed então invandiu a Wallachia com aproximadamente 80 mil homens de armas.

Vlad não possuia mais do que 40 mil homens, mas organizou uma resistência psicológica. Atacava constantemente os otomanos enquanto dormiam, tornando-se famoso o episódio “Ataque Noturno“, onde pelo menos 15 mil otomanos foram mortos. Tudo o que os turcos encontraram ao invadir a Romênia foi uma floresta de corpos empalados e um trono vazio. Sem dinheiro para continuar a sua resistência, Vlad III foi unir-se ao seu aliado Matthias Corvinus, na esperança de conseguir convencê-lo a defender o seu principado. Matthias, entretanto, ordenou a prisão de Vlad.

Após ter se tornado cativo na Húngria, foi libertado a pedido do próprio Papa, para que voltasse à Wallachia, onde asseguraria que o cristianismo predominasse sobre o islamismo. Temendo a volta ao poder pelo seu carrasco líder, populares atacaram e mataram Vlad Ţepeş, expondo sua cabeça em uma alta estaca.

Pio II. O Papa que ajudou a criar e patrocinou a Ordem do Dragão.

Pio II. O Papa que ajudou a criar e patrocinou a Ordem do Dragão.

Os casos bárbaros e as lendas que circundam a figura do Empalador são muitas; seria preciso escrever um livro completo para detalhar suas façanhas cruéis. Não vou me ocupar desta tarefa. Na verdade, tenho a impressão que este texto está se tornando longo e enfadonho. Por isso termino este capítulo da Ordem do Dragão, que narra a história de um de seus mais emblemáticos líderes, com uma simples reflexão.

O papa Pio II, então governante na época, não apenas acobertou as crueldades ocorridas no Cárpatos, mas deu efetivo apoio, chegando a patrocinar financeira e ideologicamente a criação e o combate armado por parte da grande Ordem. Não apenas aprovou, mas viu estes esforços como um exemplo a ser seguido, o que mais tarde influenciaria a criação de uma nova ordem na Espanha. Mas este é assunto para o nosso próximo texto.

É assim que se expressava o amor cristão durante a Idade Média: Através de inquisições e empalamentos. É este o papel do Vaticano, e de seu Praetorium Excelsior, enquanto portadores do legado histórico conferido pela religião abraâmica? Talvez ainda exista um pouco da Idade das Trevas, em forma tênue, vagando entre os palácios do Vaticano.

      Para saber mais:

      • FLORESCU, Radu. Drácula: Uma biografia de Vlad, o Empalador, 1431-1476. Nova York: Hawthorn Books, 1973.
      • _________. Drácula: As várias facetas do Príncipe; Sua vida e sua Época. Boston: Brown and Company, 1989.
      • STOICESCU, Nicolae. Vlad, O Empalador. Bucareste: Universidade da Romênia, 1978.
      • TREPTOW, Kurt W., ed. Dracula: Artigo sobre a vida nos tempos de Vlad Tepes In Monografias do Leste Europeu. no. 323, Nova York: Editora da Universidade de Columbia, 1991.

      Recentemente o mundo tomou ciência, através de uma matéria apresentada pelo jornal Inglês The Guardian, de um brutal Cerimonial de apedrejamento no Irã.assassinato ocorrido na Turquia. O resumo da ópera: uma jovem de dezesseis anos foi enterrada viva pela própria família, por ter sido flagrada constantemente conversando com garotos. É isso mesmo, você leu corretamente. Ela foi enterrada viva por manter diálogos cotidianas com garotos.

      A patologia desse caso não seria digna de análise se não fosse o preocupante fato de que, apenas na Turquia, homicídios com motivações similares ocorrem uma vez a cada dois dias, em média. Os chamados “assassinatos por honra”, em que se derrama sangue inocente para preencher lacunas de discernimento moral, são mais comuns no mundo islâmico do que se imagina. Segundo a CIA, 99,8% dos turcos se consideram muçulmanos. O país é também membro-fundador da Organisation of the Islamic Conference (OIC), bem como é palco principal para uma série de outras organizações muçulmanas, localizadas principalmente em Istambul [1].

      É interessante perceber que não se trata de um problema geográfico, mas cultural e religioso. Essas atitudes não estão somente enraizadas nos países islâmicos, mas chegam de navio e avião, trazidas nas bagagens dos imigrantes muçulmanos. Em 2005, o jornal alemão Spiegel noticiou a morte de seis mulheres de descendência muçulmana, por tentarem se enquadrar nos padrões de vida do seu país hospedeiro. Segundo a organizações de proteção das mulheres mulçumanas na Alemanhã e Austria, Papatya, outros 40 episódios similares ocorreram entre 1996 e 2005.

      Cerimonial de apedrejamento no Irã

      De acordo com o diretor executivo da UNICEF, mais de dois terços dos homicídios ocorridos na Palestina entre 1999 e 2003 se enquadram na nomenclatura “assassinatos por honra”. O que me parece mais preocupante é que, além dos agentes responsáveis pela matança serem membros diretos da família da vítima, estes acabam por serem vistos como heróis em suas comunidades, como aqueles responsáveis por manter a honra e os costumes das famílias tradicionais.

      Estas jovens moças me chamam a atenção pela sua coragem. Desafiam a morte em nome de uma resistência libertária, por não se submeterem às ridículas e anacrônicas exigências familiares. As filhas da intolerância não irão ganhar esta guerra sozinhas, mas, através da sua resistência no melhor estilo Gandhi, estas moças clamam silenciosamente pela nossa atenção. Enquanto a intolerância e a ignorância persistirem nos países seguidores da doutrina de Maomé e o mundo insistir em fechar os olhos em detrimento de uma suposta liberdade religiosa, mais jovens turcas terão seus pulmões preenchidos com terra enquanto tentam respirar em ambiente tão hostil.

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      1. The Islamic Conference Youth Forum for Dialogue and Cooperation (ICYF-DC) em Istanbul

      “Nada” é uma palavra criada por nós, seres humanos. Obviamente fomos nós quem criamos todas as outras que existem no vocabulário para designar e dar significado contextual às coisas, mas a palavra “nada” me chama especial atenção. A abrangência dela é enorme e normalmente a usamos tão corriqueiramente que nem percebemos o que de fato ela pode esconder, ou não esconder, e é aí que reside minha perplexidade em relação a ela. Quando alguém nos pergunta o que estamos sentindo e respondemos “não estou sentindo nada”, fica claro que este nada é bastante superficial e se refere a um estado qualquer em que a pessoa se encontra (dor, tristeza, angústia, paixão, depressão, solidão, alegria etc.). Mas, se analisarmos a mesma resposta “não estou sentindo nada” de forma absoluta, perceberemos quão esta palavra só possui valor factual subjetivo, pois não há meios de uma pessoa (viva e consciente) não estar sentindo absolutamente nada. E nesses termos chego ao ponto que desejo abordar.

      Crédulos e incrédulos muitas vezes se “golpeiam” verbalmente na tentativa de cada um dar uma explicação melhor e mais plausível para a origem do universo conhecido ou até mesmo do infinito cosmos (apesar do nosso universo possuir o cognome de “infinito”, ele pode sim ter suas longínquas fronteiras, já o cosmos, não), porém, é muito comum ambos ignorarem que o nada não existe e nunca existiu, e se perderem em pensamentos que jamais os levarão a lugar algum. Esta dificuldade de assimilação é perfeitamente aceitável por termos uma visão padrão de começo, meio e fim e por existirmos. Temos uma visão subjetiva do nada e ao pensarmos no cosmos muitas vezes não conseguimos apartar essa subjetividade de nossas mentes e acabamos pensando equivocadamente que um dia “ele” foi um nada. As estórias religiosas para explicar a origem das “coisas” são de longe as mais irracionais e muitas vezes cômicas, mas isso não significa que não exista uma singela parte de céticos e ateus que insistem em pensar no cosmos como tendo uma “origem” a partir de um nada. Com certeza é nesses moldes que a confusão e as questões naturalmente instigantes se elevam ainda mais. Nem poderia ser diferente. O erro se inicia a partir do momento em que o pensador (crédulo ou incrédulo) tenta desenvolver em sua mente a ideia do nada absoluto. Primeiramente teríamos que compreender o que é o nada, mas visto que ele nunca existiu, caso contrário nada existiria (nada = nada), não temos então que nos esforçar para compreendê-lo. É um pensamento sem lógica e não nos ajuda a entender as coisas. Ao contrário, pois somente nos faz alimentar a absurda ideia da “causa primeira”. Absurda pois com deuses ou sem deuses o nada jamais poderia gerar algo. Seja qual algo for.

      Curiosamente o equivocado nada absoluto assusta as pessoas por elas terem em mente justamente o seu nada subjetivo: o começo, meio e fim da existência orgânica que somos, conscientes ainda por cima. A humanidade, debruçada em centenas de crenças variadas, inventou a “vida eterna”, os “espíritos”, as “almas”, para poder de uma certa maneira conviver bem com a noção da própria morte, esta última representante máxima da ideia distorcida do nada e de toda a aflição humana que isto envolve. Mas esta mesma aflição, considerando-a somente em relação ao nada, curiosamente não tem impacto algum quando pensamos em “quem” não existe ou em “quem” ainda não nasceu (ou nem foi concebido). Um casal que planeja ter um filho em cinco anos, sequer para pra pensar sobre o “nada” em que se “encontra” hoje seu futuro primogênito(a). A não existência pós vida incomoda muito, enquanto a não existência pré vida nada significa aos humanos. Mas por que, se ambas as situações para o efeito da aflitiva não existência são rigorosamente a mesma coisa? No meu entender a resposta que parece ser a mais coerente, além da nossa imensa bagagem emocional, é essa equivocada ideia a respeito do nada. Tanto quando se trata da “origem” do cosmos quanto qualquer outra questão que envolva a tentativa de se “idealizar” o nada absoluto, como a morte tanto nos aparenta ser.

      Alguns filósofos e grandes pensadores já “flertaram” inutilmente com o nada, tentando preencher de maneira até mesmo metafísica o que simplesmente não pode ser preenchido de modo algum, e assim muitos foram à loucura. E pode ser aí, em nossa equivocada ideia sobre o nada, que reside o início da solução de muitos mistérios ainda não descobertos pela ciência. Pode ser na inexistência do nada, na ausência da origem cósmica tão discutida, que se encontre respostas mais esclarecedoras. Talvez esteja na hora de esquecermos a ideia do nada absoluto e voltarmos nossa atenção para algo novo.

      Todos nós já ouvimos muito falar do poder da fé. A sublime e virtuosa fé, movendo montanhas e promovendo a justiça. Não apenas isso, mas também ouvimos histórias ou, mais provavelmente, estórias (também conhecidas como “causos”) sobre incontestes milagres decorrentes de quantidades colossais de fé. Coisas como sobreviventes de uma tragédia, fervorosos em momento de dificuldade e devidamente salvos pela mão divina. São histórias bonitas, com desfechos legais e dramáticos. Mas importante, elas alimentam a nossa ilusão de que não somos impotentes para muitos casos.

      Um cético pensaria: “Bem que eu gostaria de ver um vídeo sobre isso”.

      Existe um vídeo, sobre uma nobre demonstração de fé. Aconteceu em um zoológico em Taipei, capital de Taiwan, no dia 3 de novembro de 2004 [1,2].

      Um sujeito taiwanês, conhecido apenas pelo seu sobrenome Chen, que na época tinha 46 anos, estava inconformado com um fato meio irritante. O cristianismo era uma dádiva boa demais para estar restrita aos seres humanos. Deus criou todas as criaturas que caminham, nadam, voam e rastejam, então nada mais justo do que espalhar o amor desta entidade para todos os seres.

      A escolha de Chen talvez não tenha sido a mais sábia, pois a jornada de conversões ao cristianismo por todo o reino animal começaria com leões. Mas isso tudo era apenas mais uma evidência cabal de que Chen tinha fé de que daria certo.

      Então, em uma atitude verdadeiramente cristã, o taiwanês pulou no fosso onde se encontravam os animais e gritou “Jesus vos salvará!”. Convicto do sucesso, ele se aproximou ainda mais dos leões e, bom, vejam o vídeo (não há sangue nem mortes):

      httpv://www.youtube.com/watch?v=3XtJ-GSn0rg

      O que aconteceu neste vídeo?

      Bom, para um cristão, esse vídeo pode significar muita coisa. Muitos cristãos dirão que não é assim que funciona ou que o taiwanês não era um verdadeiro cristão (coisa que eu discordo veementemente). Poderão dizer que um Deus havia reservado esse destino para Chen, ou que o cristianismo não significa sair por aí, pulando em jaulas e convertendo animais selvagens. Mas é inegável que esse vídeo o quão impotente é a fé. Sim, talvez o pobre Chen não fosse um verdadeiro cristão, ou Deus estava a fim de ver um taiwanês apanhar de um leão e assim selou o destino dos envolvidos. Mas Chen tinha fé. Seria muita desonestidade dizer que ele estava fingindo. Ele pulou em um fosso cheio de leões, temos que reconhecer a coragem e convicção do rapaz.

      Para um não cristão, isso não significa tanta coisa assim. Fora o fato de Chen ter agido como um maluco, tudo ocorreu como o esperado. A atitude do leão foi uma ótima demonstração de seu comportamento em casos de ameaça a sua família e, enquanto o leão ficou muito atrás do taiwanês em termos de estupidez, a nobreza do ato de ambos é equiparável.

      Ponha-se no lugar do animal. Imagine-se em casa, com sua família. De repente surge um leão no seu quintal. Você, com um rifle carregado em mãos, o que faria?

      Vamos lá, talvez as intenções do leão não sejam as piores. Vai ver que o felino está tentando te converter para a religião dele. Mas o mais provável é que ele invadiu o seu quintal porque estava com fome. Em todo caso, o melhor é não arriscar.

      Nem precisa matar o leão. Basta uns tiros para cima, para afugentá-lo. O leão do vídeo poderia ter matado o intrépido taiwanês com relativa facilidade, mas duvido que suas intenções fossem essas. Tudo o que o leão queria é ver a ameaça longe de sua família. Reparem como o macho se coloca entre a fêmea e o cristão. Uma manobra típica de um cavalheiro.

      Em momentos como este, podemos ver onde Deus realmente está. Está na cabeça de Chen, um senhor de 46 anos. O leão estava pouco se importando para as crenças e convicções de qualquer um por ali. Nem mesmo a equipe do zoológico pensou em apelar para Deus em um momento como esse. Se prontificaram jogando água e disparando tranquilizantes. Esse episódio mostra que, quando queremos colocar em prática as nossas crenças infundadas, elas simplesmente não funcionam.

      Referências

      BreakingNews.ie – Lion attacks man in Taiwan cage

      Orlando News – Man Survives Jump Into Lion’s Den

      Um mentiroso criou um belo vestido, um vestido que seria invisível aos olhos dos tolos, e a este deu o nome de fé. Anunciara, por (pre)caução: “O tolo diz em seu coração: o vestido não existe” [2]. O clericato desfilou por séculos, orgulhosamente trajando suas roupas ocultas, e aqueles insensatos que ousavam ver além das vestes eram severamente punidos, sob os rigores da chibata canônica. Herdamos orgulhosamente eras inquisitoriais, cruzadas, guerras santas, IRAs, jihads etc… tudo isso por que cada um queria descrever os trajes ao seu gosto. E não faltaram novos alfaiates, cada qual dando uma roupagem nova ao que já existia.

      Que lindas vestes!“, exclamavam. E o orgulho era visível em seus semblantes. As técnicas da costura invisível foram sendo aperfeiçoadas ao longo dos anos, partes desnecessárias eram descartadas, outras implementadas, de forma que hoje temos modelos bem diferentes daqueles primitivos. Os designers destes inúmeros vestuários passaram a competir entre si, cada um proclamava possuir o vestido mais belo, e guerras de todos os tipos foram instauradas. As pessoas, carentes de coisas (extra)ordinárias e cheias de dúvidas, fizeram da apreciação destes vestidos o seu objetivo de vida. Regras foram impostas, não se podia fazer isto ou aquilo, pois ia contra as regras daquele mágico coser. Esqueceu-se do principal: a roupa não existe.

      O imaginário religioso, que cria deuses, santos, pecados e existências além-mundo não seriam danosas, se não fossem alienantes. Como a roupa invisível do imperador, a ilusão da religião nos torna cegos para a realidade, deixamo-nos enganar e substituímos a razão por uma esquizofrênica negligência intelectual. Surge o tempo em que esta imposição se enfraquece, os estudos e a facilidade de informações tornam tais vestimenta descartáveis. É chegada a época em que se faz mister que sejamos todos crianças a sentenciar: Deus está nu!

      Referências

      1. Referência ao conto de Hans-Christian Andersen: A nova roupa do imperador.
      2. Salmos 14:1.

      Que o leitor não se assuste com o título deste texto. Eis o que de imediato podemos dizer para quem pense em desistir de lê-lo. Além disso, poderíamos dizer que o intuito destas linhas não é outro senão explic(it)ar o significado de seu título — que ao final terá, como esperamos, sua parcela de sentido.

      Comecemos pelo capital: διεντέρευμα, palavra oriunda do grego clássico, foi um neologismo criado pelo escritor grego Aristófanes em uma de suas mais importantes peças teatrais, a saber, As nuvens. Vejamos, antes de prosseguir com nossas considerações, o excerto no qual o termo aparece:

      Strepsíades — E o que disse Sócrates sobre os mosquitos?

      Discípulo — Ele afirmava que os mosquitos tinham o intestino estreito; ora, o canal sendo assim delgado, o ar passa com força até o rabo; depois, saindo pelo reto apertado, faz o ânus ressoar pela violência do sopro.

      Strepsíades — Então o ânus dos mosquitos é uma trombeta! Três vezes feliz é o autor dessa intesti…gação.[1]

      Como se nota, o comediógrafo jogou com as palavras para criar o termo “intestigação” partindo-se da reunião de “investigação” (διερευναν) e “intestino” (ἔντερον). Leve-se em consideração o humor presente na passagem acima, posto que o neologismo reflete, simultaneamente, uma alusão à investigação feita a partir do intestino dos mosquitos e, sobretudo, o caráter próprio da conclusão exposta por Strepsíades, qual seja, uma falácia — ou, para sermos poéticos e entrarmos na dança das palavras, uma espécie de flatulência do discurso, um tipo (típico) de fezes ilógicas.

      Aristófanes trouxe à baila uma interessante e bem humorada crítica aos sofistas, tendo em Sócrates seu maior expoente. (Vale dizer, para efeito de justiça, que o pai da Filosofia não era, de fato, um sofista; tal interpretação aristofânica teve como ensejo tão somente a necessidade de pilheriar.) O que nos interessa é, no caso, a crítica proveitosa contra tais mestres das distorções retóricas. Mais do que isso: a ameaça desses pseudo-pensadores que não se importam em alcançar a verdade, mas sim em garantir, num debate, a persuasão — geralmente para fins desonestos. Para ser mais claro: “No caso específico de As nuvens, o que fica patente na crítica aos sofistas são os efeitos inesperados decorrentes do reino da palavra, o qual se pretende controlar: tão plástico e escorregadio, quanto traidor e incontrolável. Tudo isso, à revelia das boas intenções dadas por princípio.”[2]

      Eis que se percebe o contratempo caso transferirmos, para o mundo atual, o excerto dAs nuvens e a crítica que há na peça como um todo. Passados mais de dois mil anos desde a primeira encenação da comédia aristofânica, o que notamos é um cenário no qual a maioria não sabe nada, mas sabe de tudo — menos, explicite-se, de sua estreiteza intelectual —; a lógica devem saber que a infringem, mas se esqueceram de que o sabem. Apesar dos riscos de generalizações apressadas, de modo geral os religiosos optam por argumentações que parecem assegurar tão somente a inutilidade de uma discussão: para eles, um debate torna-se proveitoso apenas se for possível dissimular, nos argumentos, a deficiência de seus equívocos. Em outras palavras, suas investigações intelectuais não passam de intestigações. E sabemos bem a consequência pragmática disso…

      Pode soar estranho comparar o argumento “o ânus dos mosquitos é uma trombeta porque o canal delgado do intestino faz com que o ar ressoe ao sair” com um argumento contemporâneo (por exemplo, “Deus está além de nosso conhecimento” ou “a evidência de que Deus existe provém do que confirmam meus sentimentos”); mas, ao analisarmos mais a fundo, apontaremos com facilidade alguns princípios que ainda constituem o grosso das discussões atuais — ausência de evidência objetiva, falta de consistência lógica e presença de conclusões equivocadas, para citar apenas três.

      Não é por acaso que, no século XXI — que nada mais é do que um século ainda VI a.e.c. com, claro, algumas dissimulações e equívocos a mais e melhor tecnologia —, Deus torna-se, a cada dia, uma palavra cada vez mais obscena.

      Montagem a partir de RODIN, Auguste. Le penseur. Paris: Musée Rodin, 1902.

      Montagem a partir de RODIN, Auguste. Le penseur. Paris: Musée Rodin, 1902.

      Talvez a questão ainda persista porque o homem, como o conhecemos em suas circunvoluções, não mudou o bastante; e ainda, diga-se, tem a ilusão babuína de achar que terá sucesso em tapar com esparadrapo um corte extenso na jugular da razão. Lembremo-nos, por fim, da ideia trazida a lume por Michel Foucault, a respeito da loucura na idade clássica — mas que, como se poderá notar, tem sua validade ainda hoje —: “o louco também é detentor da sua verdade, mas essa verdade está oculta e, como ele não consegue alcançá-la, nem decifrá-la, então ele clama desesperadamente para que ela seja, enfim, revelada.”[3]

      Sejamos loucos, mas não abusemos.

      *   *   *

      Notas

      1. ARISTÓFANES. As nuvens. Trad. Mário da Gama Cury. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1995. l. 167. (o texto, no original, pode ser encontrado no site do Perseus Digital Library.)
      2. RUBIÃO, Laura Lustosa. “A comédia e a ruptura dos semblantes: notas sobre ‘As nuvens’, em Lituraterra”. In: Ágora: Estudos em Teoria Psicanalítica, Vol. 9, Número 2, pp. 261-262. Julho-Dezembro de 2006. Disponível na Internet via WWW. URL: <http://www.scielo.br/pdf/agora/v9n2/a07v9n2.pdf>. Acesso em 12 de dezembro de 2009.
      3. VIEIRA, Priscila Piazentini. “Reflexões sobre A história da loucura, de Michel Foucault”. In: Revista Aulas, Número 3, p. 20. Dezembro/2006-Março/2007. Disponível na Internet via WWW. URL: <http://www.scribd.com/doc/16660368/Foucault-Historia-da-loucura-Artigo>. Acesso em 12 de dezembro de 2009.