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“Por que tantos tementes a deus?” Essa é uma pergunta muito boa. Nós, ateus, gostamos de debater sobre o assunto e expor nossas conclusões. Debatemos usando argumentos contra a existência de deus(es) e, principalmente, por que não é racionalmente aceitável acreditar em algum. Mas existe um fato que aparentemente derruba todas as nossas tentativas: existe uma boa quantidade de tementes a deus, deuses ou demais entidades sobrenaturais. Diante do fato de que a vasta maioria da humanidade acredita em deus ou deuses, nosso arsenal de argumentos parece quixotesco.

A resposta padrão de muitos ateus a essa questão é: os motivos racionais são poucos ou nenhum, mas os emocionais são muitos e são fortes. Eu me uso dessa resposta, pois realmente acho, depois de anos debatendo com teístas, que os motivos que levam à crença no sobrenatural são majoritariamente de caráter emocional. Uma boa porção deles insiste em dizer que não, possuem argumentos na ponta da língua, mas estão apenas querendo se enganar e, cedo ou tarde, acabam expressando que são, de fato, levados pela emoção.

Novamente, meu intuito não é rebater esses argumentos. Se algum teísta considerar que estou errado, sinta-se à vontade para postar seus argumentos nos comentários de nossos textos. Quero discutir o que seria essa tão falada motivação emocional. Ir além de simplesmente taxar a crença alheia como mera emoção e dar nome aos bois.

Bom, comecemos por um conceito muito desejado por nós: justiça. Queremos que os usurpadores paguem pelos seus atos e que os altruístas sejam recompensados. Tentamos fazer isso dentro de nossa sociedade com nossas próprias mãos, criando prisões e castigos para os primeiros, assim como honras e presentes para os últimos. Porém, reconhecemos nossas limitações e ansiamos por uma força promotora de justiça mais plena. Essa justiça tem que vir de algo maior que nós, mais poderoso e incorruptível. Esse “algo” normalmente é chamado de “Deus”.

Depois temos a curiosidade. A ambição citada no parágrafo anterior reflete uma característica marcante de nossa espécie, que é a vida em sociedade. O desejo de adquirir conhecimento amplo e seguro advém de outro aspecto nosso, que é a vontade de aprender. Dentro de uma sociedade majoritariamente cristã, é comum ouvir de muitos cristãos que o conteúdo da bíblia é uma verdade absoluta e que é tudo o que precisamos conhecer, que a sabedoria ali ensinada é mais profunda do que a mais brilhante eureca de um simples humano. Comicamente ouvimos muito frases do tipo: “no fim todos nós saberemos quem está certo”. É a crença de que, depois da morte, além da justiça feita teremos todas as respostas. Já falei um pouco sobre essa crença aqui (Porque não Acreditar, 5º parágrafo).

O terceiro desejo é a vontade de nunca deixar de existir. Em bom português: “o medo da morte”. Não me adentrarei nele, pois já dediquei três textos ao assunto (este, este e este). Só adianto que considero esse o desejo mais íntimo e o maior responsável pela crença no sobrenatural. Os três grandes desejos aqui comentados não são exclusividade de teístas. Ateus também os possuem. O que muda é que um deles aceita suas limitações e o outro abafa o fato com crenças sobrenaturais.

Portanto, como já devem ter percebido, podemos resumir esses três motivos como um desejo muito íntimo presente em todos nós. Uma fome muito grande por coisas que não vêm na quantidade que gostaríamos. Essa fome imensa que é a mãe de todas as fés. A justiça é rara, o conhecimento é pouco e a vida é curta. Essa fome se sacia acreditando que a justiça será feita, que todos os mistérios do mundo (ou ao menos os poucos que realmente interessam) podem ser desvendados e que a nossa existência não se finda com nossa morte. Essa crença poderia vir da maneira padronizada, através da lógica e da observação. O problema é que “lógica” e “observação” definitivamente não nos levam a concluir o que gostaríamos, então a nossa crença tem que vir do nada, é preciso ter fé. Tornamos uma dada limitação, que é a incapacidade de possuir um entendimento pleno sobre todas as coisas a nosso favor e colocamos os nossos anseios neste mar de ignorância que reconhecemos possuir. Nós, ateus, chamamos esse deus, que mora no incompreendido, de “deus-das-lacunas”. O que escapa nossa razão agora é algo sobrenatural e sacia a nossa fome. Ou pelo menos vai saciar, um dia quem sabe, basta ter fé e paciência…

Localizada entre o rio Danúbio e as geladas montanhas de Cárpatos, ergue-se a fria e solitária região de Wallachia. Aparentemente esquecida pelo tempo, a região localizada ao sul da Romênia foi testemunha de determinantes conflitos históricos que livraram o leste europeu de um possível domínio Turco.

Entretanto, não é por estes conflitos que a região é principalmente conhecida, mas pela fama nebulosa que circunda um de seus mais notórios governantes, Vlad III, imortalizado pelo folclore romeno e posteriormente difundido globalmente pelo aclamado romance de Bram Stoker e as suas várias adaptações para o cinema.

Vlad III nasceu na Transilvânia e aos cinco anos de idade foi levado a Nuremberg, onde foi iniciado na Ordem do Dragão. O Voivoda exibia orgulhosamente o título de Draculea, significando“o filho do Dragão”; uma clara referência ao seu pai, Vlad II Dracul, conhecido como O Dragão, membro honorário da Ordem.

Com sua lealdade posta em dúvida entre os membros do Conselho Húngaro, Vlad II Dracul firmou um acordo com sultões turcos, prometendo pagar-lhes tributo e não oferecer resistência à sua expansão. Como garantia, O Dragão enviou seus dois filhos a Edirne, então capital do império Otomano, na condição de reféns.

Vlad III em seu famoso desjejum entre as vítimas de empalamento. Ilustração do século XV: “O bosque dos empalados”. Autor desconhecido.

Vlad III em seu famoso desjejum entre as vítimas de empalamento. Ilustração do século XV: “O bosque dos empalados”. Autor desconhecido.

O que os jovens da Transilvânia não sabiam era que seu genitor tinha planos de sacrificá-los como parte de uma manobra protelatória política, obtendo assim os favores dos demais nobres húngaros. Vlad III e seu irmão Radu, o Belo, ficaram sob a custódia de Mehmed II, que, ao invés ordenar a morte dos dois jovens, como esperado, tinha planos de doutriná-los de acordo com os costumes islâmicos e mais tarde reinseri-los no poder, constituindo então um reino muçulmano no coração de Wallachia.

Os irmãos testemunharam a rigidez com que o sultão controlava seu povo. Relatos históricos nos mostram que Radu não demorou a converter-se ao islamismo, porém Vlad era constantemente punido pela sua insolência e recusa a abandonar o cristianismo. Ambos receberam treinamento em táticas de guerra, aprenderam a língua turca e estudaram profundamente o corão. O empalamento era algo praticado em larga escala na Turquia.

Descontentes com a posição que Vlad II Dracul assumira com relação aos Otomanos, Hunyadi liderou ataque ao principado de Wallachia, assassinando o então governante da região juntamente com seus filhos mais velhos. Esta ação fez com que os otomanos atacassem o sul da Romênia, com o objetivo principal de tornar líder Vlad III. Este governo, entretanto, não durou muito e logo João Hunyadi investiu novamente contra a região, depondo Vlad Ţepeş e substituindo-o por Vladislav II.

Acreditando ter dado o trono para um simpatizante do islamismo, os turcos prepararam-se para uma nova investida, marchando contra Constantinopla, hoje Istambul, com a intenção de eliminar a última resistência cristã no mediterrâneo.

Referência cristã no emblema da Ordem do Dragão. Inscrição: O Draconistarum ordeurs, Justus et Paciens. Representa a vitória de São Jorge sobre o Dragão, da cristandade sobre Satanás.

Referência cristã no emblema da Ordem. Traz a inscrição "O Quam Misericors est Deus, Justus et Paciens". (Ó quão misericordioso é Deus, justo e paciente).

Vlad fugiu para Moldavia, onde tinha a proteção do seu tio Bogdan II. Ali, Vlad Ţepeş teve a oportunidade de se encontrar com Hunyadi, um homem extremamente religioso e preocupado com a situação do país, e conseguiu convencê-lo de que não apenas conhecia profundamente os costumes e hábitos turcos, mas que sobretudo não havia se convertido ao islamismo, a exemplo do seu irmão. Hunyadi nomeou Vlad III seu conselheiro de guerra.

Em 1451, Constantinopla caiu nas mãos do império Otomano, que marcharam novamente, desta vez para Belgrado, com fins de dominar toda a região da Romênia. Com o apoio de Hunyadi, Vlad III liderou um pequeno exército contra Wallachia, assassinando Vladislav II e retomando o poder. Enquanto isso, Hunyadi liderava os seus homens para a Sérvia com a intenção de montar uma resistência.

Vlad III governou Wallachia com punhos de ferro. As punições eram exemplares; para todo tipo de delito havia penas severas, e a mais comum delas era o empalamento. Foi por causa desse modus operandi que ganhou o apelido de Vlad Ţepeş, ou Vlad, o Empalador.

Até os seus últimos dias de vida, Vlad lutou para manter Wallachia um reino cristão, e para isso matou não apenas os seus inimigos, mas também os seus conterrâneos subordinados. O medo presente na população da região era tamanho que diz-se ter existido um cálice de ouro no centro de sua capital sem que ninguém ousasse subtraí-lo. Era uma demonstração clara do seu poder de controle. Vlad provocou os otomanos, não pagando seus tributos e empalando qualquer muçulmano que se aproximasse do seu país. Mehmed então invandiu a Wallachia com aproximadamente 80 mil homens de armas.

Vlad não possuia mais do que 40 mil homens, mas organizou uma resistência psicológica. Atacava constantemente os otomanos enquanto dormiam, tornando-se famoso o episódio “Ataque Noturno“, onde pelo menos 15 mil otomanos foram mortos. Tudo o que os turcos encontraram ao invadir a Romênia foi uma floresta de corpos empalados e um trono vazio. Sem dinheiro para continuar a sua resistência, Vlad III foi unir-se ao seu aliado Matthias Corvinus, na esperança de conseguir convencê-lo a defender o seu principado. Matthias, entretanto, ordenou a prisão de Vlad.

Após ter se tornado cativo na Húngria, foi libertado a pedido do próprio Papa, para que voltasse à Wallachia, onde asseguraria que o cristianismo predominasse sobre o islamismo. Temendo a volta ao poder pelo seu carrasco líder, populares atacaram e mataram Vlad Ţepeş, expondo sua cabeça em uma alta estaca.

Pio II. O Papa que ajudou a criar e patrocinou a Ordem do Dragão.

Pio II. O Papa que ajudou a criar e patrocinou a Ordem do Dragão.

Os casos bárbaros e as lendas que circundam a figura do Empalador são muitas; seria preciso escrever um livro completo para detalhar suas façanhas cruéis. Não vou me ocupar desta tarefa. Na verdade, tenho a impressão que este texto está se tornando longo e enfadonho. Por isso termino este capítulo da Ordem do Dragão, que narra a história de um de seus mais emblemáticos líderes, com uma simples reflexão.

O papa Pio II, então governante na época, não apenas acobertou as crueldades ocorridas no Cárpatos, mas deu efetivo apoio, chegando a patrocinar financeira e ideologicamente a criação e o combate armado por parte da grande Ordem. Não apenas aprovou, mas viu estes esforços como um exemplo a ser seguido, o que mais tarde influenciaria a criação de uma nova ordem na Espanha. Mas este é assunto para o nosso próximo texto.

É assim que se expressava o amor cristão durante a Idade Média: Através de inquisições e empalamentos. É este o papel do Vaticano, e de seu Praetorium Excelsior, enquanto portadores do legado histórico conferido pela religião abraâmica? Talvez ainda exista um pouco da Idade das Trevas, em forma tênue, vagando entre os palácios do Vaticano.

      Para saber mais:

      • FLORESCU, Radu. Drácula: Uma biografia de Vlad, o Empalador, 1431-1476. Nova York: Hawthorn Books, 1973.
      • _________. Drácula: As várias facetas do Príncipe; Sua vida e sua Época. Boston: Brown and Company, 1989.
      • STOICESCU, Nicolae. Vlad, O Empalador. Bucareste: Universidade da Romênia, 1978.
      • TREPTOW, Kurt W., ed. Dracula: Artigo sobre a vida nos tempos de Vlad Tepes In Monografias do Leste Europeu. no. 323, Nova York: Editora da Universidade de Columbia, 1991.

      Este é o meu terceiro texto sobre o assunto “morte”. Pode até parecer que estou batendo na mesma tecla, mas é que o tema é complicado.
      Complicado, porém não complexo. Temos dificuldade em aceitar a morte, pois ela parece fria demais. Mas compreender é fácil. Aliás, morte é um fenômeno desconcertantemente simples.

      Nos textos anteriores, falei de como a ilusão da vida eterna era tentadora e da visão de um ateu sobre a eternidade. Mas não cheguei a falar da morte em si. Sempre quis falar da morte, pois existe uma ideia muito triste e negativa dela. Morte, no conceito popular, atrai ideias como:

      Tudo o que está sobre este prato foi vivo algum dia. Essa é apenas uma maneira apetitosa de se enxergar a morte.

      defunto, velório, caixão, escuridão, frieza, tristeza, perda, algodãozinho nas narinas, túmulo, despedida, enterro, herança (se for rico), saudade e mais tristeza. Muita tristeza, pois morte seria algo triste. Esse texto é um esforço meu para mostrar um lado mais amplo do conceito “morte” que, antes de ser triste, é bem irônico e simples.

      Simples, pois entendemos “morte” como o término da vida. Esta última sim, é complexa. A vida é o inexplicável fenômeno da ordem surgindo e se sustentando em meio ao caos, é a reprodução e perpetuação, é a transformação rápida e explosiva, é o casulo da consciência. É o aglomerado de moléculas ricas em carbono, hidrogênio e oxigênio, entre outros. Moléculas essas muitíssimo mais complexas do que qualquer outra já encontrada. E a morte é o fim de tudo isso. Banalmente simples.

      Sob o ponto de vista de um indivíduo que ama a própria vida, a morte parece inconcebível. Mas se formos imaginar uma entidade capaz de analisar o mundo tal como é e filosofar sobre ele, a vida certamente a assustaria muito mais. Os olhos da suposta entidade correriam pelo universo avistando estrelas, planetas, cometas, buracos negros, tudo isso intermediado por longos períodos de um vazio imenso. Depois de milhões de anos essa entidade pensadora certamente estaria muito entediada. Mas, se por alguma improbabilidade histórica, ela viesse a repousar seus olhos sobre a Terra e ver o que paira sobre sua superfície, tenho certeza de que ficaria chocada. Suas minúcias, seus milagres, sua rapidez a deixariam perguntando “o que diabos é isso que está na superfície, afinal?”. Sequer repararia que essas criaturas morrem algum dia. Coisa prosaica é estar morto, sem consciência, sem graça, sem ação. Certamente seriam necessários outros milhões de anos para digerir a ideia de que existe vida. Coisa que não seria necessário para entender a morte; afinal, aquela coisa inexplicável se tornou mais parecida com tudo o que ele tinha visto durante milhões de anos.

      Edelgard, antes e depois do falecimento. Fotografia de Walter Schel.

      Mas tem algo de irônico na morte. Entendendo a morte como a perda da vida, fica a impressão de que uma é o oposto da outra. Uma ideia mais engraçada do que parece, à primeira vista. Schopenhauer, em uma observação muito perspicaz, certa vez assim disse: “(…) Após a morte você será o que era antes de nascer.”*. A menos que você tenha péssimas lembranças de sua época “pré-vida”, a morte não parece ser algo tão ruim assim. Enquanto a vida é um espectro que abrange desde o sofrimento angustiante ao prazer intenso, a morte é tranquila, neutra. Nem mais, nem menos. Sem felicidade, sem tristeza, sem prazer, sem dor, sem glória, sem fracasso, sem amor nem ódio, ganhos ou perdas. Estar morto é, antes de tudo, atingir a paz. “Paz” é a palavra que se associa a “morte” de maneira mais adequada. Muito mais adequada do que “defunto” e “tristeza”, por exemplo. Até porque a tristeza fica por parte dos entes queridos que se mantiveram vivos, o morto não sente nada.

      Aliás, a paz me lembra outro ponto irônico relacionado à morte. Havia lido em algum lugar que “neste milênio a humanidade atingirá a paz eterna”. Sim, era alguma bobagem esotérica. Mas a relação morte-paz me fez pensar mais fundo sobre essa mensagem. De repente, ela não me pareceu tão inatingível assim. Não consigo pensar em outro tipo de paz plena para humanidade que não consista em um extermínio em massa.

      Falei algumas ironias sobre a morte e tentei enfatizar que ela é mais banal do que triste. Em resumo, tudo o que eu fiz até agora foi menosprezá-la. Mas estaria sendo injusto. A grande ironia da morte também é o seu aspecto mais importante. Como eu disse, a vida vista como um bem pessoal parece ser o extremo oposto da morte. Mas a morte tem um papel diferente para a vida de uma maneira geral, a vida como o fenômeno global que consiste em plantas, animais, fungos e certos microorganismos se reproduzindo constantemente. Ecologicamente falando, a morte não é o oposto, mas sim parte constituinte e fundamental da vida. Morrer é abrir espaço, transferir energia, servir de comida, ferramenta ou até mesmo lar. É dar a oportunidade a outros. Não reclame da morte, se não fosse por ela, você sequer teria nascido. Não haveria recursos, espaço para que alguém como você surgisse e se prosperasse. Em outras palavras, morrer é bem importante… Para a vida, é claro.

      Esquema representando uma carcaça de baleia. Uma morte representando vida em exuberância.

      *SCHOPENHAUER, Arthur. “On the indestructibility of our essential being by death“, 2. In: ______. Essays and aphorisms. Trad. de R. J. Hollingdale. Londres: Penguin Books, 1970, p. 67.

      Morte:

      1. Uma terrível verdade exige uma grande ilusão
      2. O breve e o eterno
      3. A simplicidade inconcebível

      Um ateu, ao declarar sua descrença, ouve muitas perguntas. Algumas são tendenciosas, do tipo “Então nada te impede de sair matando e roubando?”. Outras começam levemente erradas, como “Mas, você não acredita em nada?” (em um exemplo típico da leviandade com que muitos falam sobre o “nada”, já citado no texto do Ricardo). Tem ainda as que começam cabalmente erradas, como a “Suponho então que você acredite na ‘deusa Ciência’”. Mas existe uma pergunta em especial que é pertinente, muito pertinente. Muitos teístas se sentem muito curiosos quanto a isso, mas parecem temer uma resposta fria e demasiadamente racional.

      “Quando você morre, tudo termina?”

      O fato desta pergunta ser tão boa já denota o quão íntima é a relação religiosidade-medo de morrer (crentes, se vocês não torceram o nariz no primeiro texto, sintam-se livres para torcê-lo agora). Obviamente, essa pergunta possui muitas variantes, como “Quando morremos, deixamos de existir?”. Falarei de todas essas perguntas como se fossem uma só, pois elas realmente nos remetem a mesma dúvida. E a pergunta já começa partindo de uma idéia errada.

      Errada. Pois estamos falando do que, afinal? Estamos falando apenas de nossa consciência ou de todas as coisas que nos representam?

      Se o indagador está se referindo à consciência, sim, imagino que ela termine ali. E é apenas nesse ponto que nossas opiniões divergem. Existem certas hipóteses afirmando que a consciência pode residir fora do cérebro. Hipóteses tão populares que uma delas apareceu logo “de cara” em um dos comentários do meu primeiro texto sobre o tema. Mas são populares tão somente por satisfazerem o nosso desejo desesperado pela vida eterna. Fora os críticos da idéia de que a consciência reside apenas no cérebro, pois alegam que é um fanatismo, devido à ausência de prova de que ela não existe em outro lugar também. Pessoalmente, acho essa opinião muito descabida. Equivale a dizer que não podemos afirmar com certeza que o olho é o órgão sensorial responsável pela visão porque ainda não averiguamos o mesmo potencial sensorial de todos os outros órgãos.

      Bom. Na primeira possibilidade, falei sobre a consciência. Ressalto que ela é a única dúvida razoavelmente aceitável. Isso porque ninguém são realmente acredita que “tudo termina” depois da morte. Vamos lá, nem precisa pensar muito. Todos os dias uma boa parcela da população (na casa dos milhões) morre. O mundo obviamente não cessa sua existência por causa de milhões, e certamente não o fará depois de qualquer morte em particular. O que eu acabei de falar é óbvio, admito. Mas esconde um significado muito mais sutil. Desde que a vida surgiu, seja lá qual for a sua concepção de vida, ela nunca deixou de existir desde então. Pessoas, peixes, formigas, lesmas, macieiras, musgos e bactérias morrem aos bilhões a cada momento. Mas nascem outros bilhões no seu lugar, usando matéria e energia muitas vezes proveniente, direta ou indiretamente, de antigos cadáveres. Morremos e nascemos, mas a vida continua na sua marcha incansável.

      Existe outro ponto fundamental que devemos considerar. Nós alteramos o nosso meio enquanto existimos, o tempo todo. Imagine um indivíduo que está comendo uma banana. Vamos chamá-lo de Zé Exemplo. Logo após isso ele sofre um infarto fulminante e morre. Talvez esse indivíduo, o Zé Exemplo, não tenha sido um grande gênio da humanidade, ele nunca escreveu um bom romance e gerações posteriores sequer notarão que ele existiu algum dia. Mas fato inegável é que, graças ao Zé Exemplo, o mundo ficou com uma banana a menos. Junto ao resto de seus atos realizados dentro sua vida sem glamour ou emoções fortes, Zé Exemplo deixou como herança a ausência de 1 (uma) unidade de banana! Esta banana que foi transformada em mais matéria e energia para Zé Exemplo, assim como mais um bolinho de matéria fecal (também conhecido como “merda”).

      Usando um exemplo menos insignificante, peguemos algo que Zé Exemplo não foi. Um grande romancista. Aí fica ainda mais óbvia a eternidade do sujeito. Basta pensar em uma aula de literatura, falando tão somente das obras do Zé Romancista. Apesar de pessoas como o Zé Romancista serem mais claramente eternas do que o Zé Exemplo, isso não as tornam qualitativamente mais “eternas” em muitos aspectos. O único aspecto “mais eterno” que poderíamos identificar seria o de que essas pessoas encontram-se consideravelmente mais presentes em nossa memória e cultura. Como os “imortais” membros da Academia Brasileira de Letras. Boto em aspas, pois é ridículo imaginar que os membros da ABL sejam mais “imortais” do que muitos outros nomes, a menos que você realmente ache, por exemplo, que José Sarney (cadeira 38) foi mais importante para a literatura nacional do que Érico Veríssimo.

      Voltando ao cerne, à pergunta. A resposta é “não”.

      Quando você morre, você não termina. A única coisa que a morte determina é que todo o seu potencial de mudança cessou e nada mais. Basta pensar. Olhe tudo ao seu redor. Para começar, imagino eu que você esteja lendo este texto pela tela de seu computador, que tem boas chances de estar apoiado em uma mesa. É bem possível que tenha uma luz acesa no recinto em que você está nesse momento, ou qualquer objeto que esteja usando energia elétrica. Bom, certamente você não imagina que tudo isso surgiu da noite para o dia. Tudo o que existe ao seu redor é fruto de uma longa história de descobertas, de produção, transporte e, de uma maneira mais indireta, guerras, revoluções, sexo, mais mortes e outros detalhes. Em resumo, o presente é resultado do passado. Toda a sua vida depende integralmente de eventos que já decorreram, e isso inclui as ideias e ações de pessoas que já morreram. Ou seja, de uma maneira ou de outra, elas existem. Mais uma vez eu destaco algo óbvio, para demonstrar um fato mais sutil e que muitas vezes passa despercebido. Alguém não precisa estar ciente de sua existência para existir de fato (uma inversão da afirmativa “Penso, logo existo” seria, portanto, inválida).

      Por mais contraditório que pareça, é por isso que a maior prova de nossa eternidade não está em algo memorável e inalterado durante as injúrias do tempo. A prova mais cabal de que toda e qualquer criatura, ato, evento, fenômeno são eternos está justamente no fato de que o mundo muda o tempo todo (esse é um ponto interessante, prometo me aprofundar sobre isso em outro texto, pois este já está ficando longo).

      Essa minha visão é bem menos acolhedora do que a clássica visão do paraíso eterno. Ou mesmo a visão mais moderna, espírita, de uma vida pululando entre vários mundos e várias dimensões. Mas a minha visão, que não é exclusivamente minha, tem uma vantagem. Ao passo que a visão de existência pós-morte retratada pelas religiões exige uma força oculta, muitas vezes em “dimensões diferentes” ou “sobrenaturais”, inexplicáveis para um “simples humano”, a minha é prosaica. Tudo o que eu disse sobre eternidade é apenas uma observação honesta dos fatos. Se nós alteramos o mundo em nossa volta, então automaticamente estendemos a nossa existência aos nossos atos. Você não precisa ter superpoderes, fé ou fazer parte de um povo escolhido para usufruir desta “imortalidade”.

      Concluindo. Pense no seu legado. Seus atos não são meramente parte de um teste para averiguar se você merece ou não uma vida eterna agradável. Seus atos são a própria vida eterna. E ela não será agradável ou desagradável para você, pois já estará morto. Ela o será para as gerações futuras. O mundo será pior ou melhor por sua causa, cabe a você tomar as suas escolhas.

      Morte:

      1. Uma terrível verdade exige uma grande ilusão
      2. O breve e o eterno
      3. A simplicidade inconcebível

      Há tempos eu observava a pequena “matilha” de cães da raça fila brasileiro que mantinha em minha própria residência, e a postura do macho líder, sempre mostrando com veemência que a desobediência custaria “caro” para algum canino teimoso infiél, me chamou a atenção para um detalhe: a natural imposição da autoridade (em alguns casos uma pseudoautoridade) através do medo e da ameaça. Conosco, Homens (maravilhosos seres humanos superdotados de excepcional razão e profundo discernimento entre asneiras e coerência  — explico para o possível leitor desatento que existe óbvia ironia neste comentário — ), também prevalece tal imposição, mesmo que algumas vezes travestida em “roupas de gala”. Pensando dessa forma, não simplesmente pela ótica animal, e considerando que há um enorme espaço antropocêntrico dentro de cada um de nós, não parece tão surpreendente; mas ao analisarmos com bastante calma e total isenção como funciona o mecanismo autoritário incrustrado no convívio social humano (família, trabalho, lazer, esporte…), começamos a compreender melhor como funciona a eficiente “rédea” religiosa. Em destaque significativo, aqui no Ocidente, as seitas neopentecostais.

      Num mundo onde a natureza é absolutamente indiferente a tudo e a sobrevivência extremamente dificil, os crentes ainda necessitam se curvar a um Deus bastante ameaçador. Temê-lo, respeitá-lo e, acima de tudo, adorá-lo. A ausência de “adoração” pode custar muito caro a eles (em suas mentes). A própria defesa da razão é ameaçada com punição no fogo eterno, caso ela vá de encontro à fé cristã. Contudo, é fenomenal a maneira como a aderência por parte dos crentes em relação às coisas originadas e mantidas a partir da ciência são significativas em suas vidas. Para isso, com exceção dos Testemunhas de Jeová, não há punição. Aliás, os Testemunhas de Jeová compõe um caso para ser analisado em outra ocasião específica, tamanha a aberração de seus atos no sentido de irem contra o próprio instinto de sobrevivência em detrimento a um ser que sequer existe. Essa classe de crentes, juntamente com os alucinados homens suicidas muçulmanos, provavelmente são os verdadeiros crentes, os que realmente acreditam “naquilo”, ao contrário da maioria que simplesmente “teme” por alguma vingança divina caso não creia em Deus ou pelo menos ventile a possibilidade de sua inexistência. É o medo da morte, sempre, e o medo de uma punição absurdamente sofrível: o inferno.

      Muitas vezes me pergunto se as religiões teriam chegado tão longe caso não houvesse o lado punitivo, do inferno, do sofrimento eterno. Sem as punições e as terríveis ameaças e medos, como a razão seria estirpada tão facilmente das pessoas? Se não existisse na humanidade o medo de pensar livremente e de blasfemar, como bilhões de pessoas estariam ainda hoje lotando igrejas e mais igrejas, tomando hóstias e confessando suas intimidades para estranhos homens de batina? Muitos crentes certamente usariam uma retórica já bastante conhecida para invalidar a questão das ameaças e do medo, oferecendo uma enorme “lista” de bons motivos para se seguir um religião, principalmente os cristãos. Mas eles próprios seriam o manequim da contradição, de pé atrás de uma vitrine que vende “falsas verdades” às custas de muito medo e danação. Um leão forasteiro solitário jamais obedeceria a ordem do macho líder de um bando qualquer, para se afastar das fêmeas ou da zebra morta caída ao chão, se não fosse por conta de uma enorme ameaça de força e/ou brutalidade (que pode ser levada às últimas consequências). Como somos animais também, a ameaça e o medo instintivo ainda compõem as melhores táticas para a manipulação dos “bandos” de humanos. Mas somos civilizados e emocionais, o que faz com que essas ameaças sejam mais sofisticadas em relação ao enorme rugido de um leão.

      Estudando um pouco as maiores religiões monoteístas da história, percebemos que, na propaganda geral elas falam de paz, harmonia e congregação (fachada), mas as “rédeas” são na verdade guiadas e mantidas por terríveis ameaças e punições (interior) dignas de super produções cinematográficas. Ou pensam que um filme B qualquer conseguiria reproduzir um inferno eterno e ardente?

      Por acaso imaginaste
      Que eu iria execrar esta vida,
      Fugir para o ermo
      Por alguns dos meus sonhos
      Se haverem frustrado?

      Aqui me tens, e homens farei
      Segundo minha imagem,
      Uma raça de, a mim, iguais
      A padecer, a chorar,
      A gozar, a sofrer
      E nunca a ti se render
      Como eu![1]


      Dentre deuses, heróis, erínias, gigantes e outros, Hesíodo, em sua Teogonia[2], relata o nascimento e a vida de Prometeu, um titã que roubara o fogo do Olimpo a fim de presentear os homens. Castigado por Zeus, foi acorrentado a um penedo para que um abutre bicasse continuamente o seu fígado. Esse mito poderia servir para alertar os beberrões sobre as consequências do álcool, mas sua motivação é outra: mostrar os efeitos advindos da subversão por não reverenciar os deuses. Fato é — ou melhor, mito — que Prometeu dispôs-se a fazer homens segundo sua própria imagem, de maneira que não precisassem, como ele, idolatrar os habitantes do Olimpo. A captura do fogo seria, pode-se dizer, algo como a busca do conhecimento.

      BABUREN, Dirck van. Prometeu sendo acorrentado por Vulcano. Óleo sobre tela, 202×184 cm. Amsterdam: Rijksmuseum, 1623.

      Não somos os primeiros, contudo, a resgatar a alegoria: como Goethe (que em 1774 escreveu um poema do qual os versos finais nos servem de epígrafe), outros autores escreveram a respeito da figura que representa, grosso modo, a ambição humana por conhecimento. Evidencia-se, pois, a problemática da rebeldia contra os deuses, tema que se interpõe até hoje no seio da humanidade — desde que civilizada. Vale dizer que Francis Bacon, já no fim do século XIV, afirmara que tudo o que podia ser feito pela elevação do espírito já tinha sido consumado pelos gregos e romanos; pouco (ou quase nada) restaria às gerações posteriores a não ser dedicar-se ao aprofundamento das obras já escritas. E aqui estamos nós, mito de Prometeu em mãos e alguma dose de atualidade.

      Mas o que seria, nesse ínterim, a “vergonha prometeica”? Seria, em resumo, um sentimento que se apropria do ser humano quando este se defronta com a humilhante qualidade das coisas que ele mesmo concebeu — máquinas, instrumentos variados, computadores, novas tecnologias em geral. Tal comiseração, apontada por Günther Anders [3], surge de uma “[…] assincronia diariamente crescente do ser humano com o mundo de seus produtos”[4], de um desnível que resulta em uma perspectiva a partir da qual os homens se veem insignificantes diante de suas próprias criações. Obviamente Anders referia-se aos produtos tecnológicos concebidos pela civilização; mas não poderíamos nós, diante de tal conceito, apontar a ideia de deus como também um produto criado pelos homens e, do mesmo modo, capaz de nos fazer menores, bagatelas ontológicas, insignificâncias bípedes?

      Ao que parece a humanidade gosta, por natureza, de se humilhar. E para tal cria meios pelos quais permite-se constantemente se deparar com o abatimento; diante dos frutos de sua obstinação, sejam eles ábacos, catedrais, debulhadoras, foguetes espaciais, supercomputadores ou mesmo deuses, tudo é espelho para que os homens se reflitam desprezíveis. Afinal, nossos fracos braços não são tecnologia capaz de colher, em um dia, vastos hectares de soja; nossas pernas não são tecnologia adequada para alcançarmos grandes velocidades; nosso cérebro não é tecnologia de ponta capaz de realizar, como os supercomputadores, trilhões de operações de ponto flutuante por segundo — ou, como o deus cristão, capaz de nos fazer ubíquos, oniscientes e onipoderosos. Ademais, como declarou Michael Löwy, “Deus está inextricavelmente associado ao processo de culpabilização universal”[5].

      Dessa feita, infelizmente se descobre (muito tarde, vale dizer) que ideias metafisicamente excêntricas não nos podem curar os medos, as culpas e os males que a todo custo tencionamos ignorar — pelo contrário, os agravam. Um exemplo é o temor da morte (que nada mais é do que sequela do temor que se tem da própria vida), posto que “[…] os deuses não podem libertar os homens do medo, pois são as vozes petrificadas do medo que eles trazem como nome”[6]. Daí o embaraço em ser homem: suposto soberano em seu trono (no máximo, de porcelana), limitado à sua restrita realidade, atado a seus sonhos de grandeza e a tremer com os medos que o fustigam.

      Novas e velhas técnicas, tecnologias, paradigmas, ideias; limitação humana; vergonha prometeica. O que poderíamos disso concluir? Dentre outras coisas (que ficam a critério do leitor), o que se segue: ironias à parte, a ideia de deus nunca poderá operar com a mesma excelência de uma cafeteira elétrica.

      *   *   *

      Notas

      1. GOETHE, Johann Wolfgang von. “Prometheus”. Goethe’s Werke: Vollständige Ausgabe letzter Hand. II. J. G. Cotta’sche Buchhandlung: Stuttgart/Tübingen, 1827, p. 7778.
      2. HESÍODO. Teogonia. 700 a.e.c. (o texto, no original, pode ser encontrado no site do Perseus Digital Library.)
      3. ANDERS, Günther. Die Antiquiertheit des Menschen. Band I: Über die Seele im Zeitalter der zweiten industriellen Revolution. München: C. H. Beck, 1956.
      4. MARCONDES FILHO, Ciro. O espelho e a máscara. São Paulo: Discurso Editorial, 2002, p. 133.
      5. LÖWY, Michael. “O capitalismo como religião”. In: Folha de São Paulo, Caderno Mais!, domingo, 18 de setembro de 2005. Disponível na Internet via WWW. URL: <http://antivalor2.vilabol.uol.com.br/textos/frankfurt/lowy05.html>. Acesso em 04 de fevereiro de 2010.
      6. ADORNO, Theodor; HORKHEIMER, Max. Dialektik der Aufklärung: Filosophische Fragmente. Gesammelte Schriften Adorno 3. Frankfurt am main: Suhrkamp, 1997.

      Existem bons motivos para alguém não se tornar um ateu, eu reconheço. Ninguém quer, por exemplo, abandonar a crença em uma entidade sobrenatural promotora de uma justiça divina e inescapável. É o conhecido deus protetor. Queremos que os pilantras paguem pelo que fizeram, e que as pessoas de boa índole sejam recompensadas. É muito tentador crer em algo que faça tudo isso acontecer. Mas ainda tem outro, o deus das lacunas. Crê-se que o universo é obra de deus, a origem da vida, igualmente. Ponha qualquer pergunta pertinente da qual ainda não se conhece a resposta e insira o deus das lacunas. Traduzindo de uma maneira mais sucinta, as origens são facilmente explicadas pelo sobrenatural (embora não satisfatoriamente). Agora deus, além de protetor, ganha o atributo de criador.

      No último texto eu falei sobre o rótulo de fundamentalismo dado aos ateus. Isso pode ser interpretado como ainda outro motivo, que seria a nossa imagem frente à sociedade. Em uma sociedade de tementes a deus é natural não querer ser a exceção, o descrente. Assim como em um mundo onde a informação e a troca de idéias são fáceis e importantes, não queremos ser rotulados de fundamentalistas (mesmo que isso não se aplique ao ateísmo em si, mas apenas ao estereótipo).

      Até agora eu mostrei três bons motivos. Crença na justiça divina, preocupação com a própria imagem perante a sociedade e a crença de que deus é a resposta para tudo. Mas nenhum desses três se compara ao quarto motivo, o maior dos medos e a pérola da ilusão reconfortante que é o medo de morrer e a crença em vida eterna, respectivamente.

      Sim. Muitos crentes vão torcer (ou estão torcendo) o nariz, mas não existe razão mais importante. O maior motivo para se acreditar em deus é o medo de morrer. Mais precisamente, na verdade é a ilusão de que a morte nunca chegará. Visto que tanto ateus quanto crentes têm medo da morte, mas apenas crentes acreditam em vida eterna.

      Pergunte a alguém se ele ou ela tem medo de morrer. Se a resposta for não, existem duas possibilidades. Ou esta pessoa é deficiente mental, ou está mentindo. É muito mais provável que esteja mentindo. Muitas pessoas dizem não ter medo de morrer, mas isso é uma mentira deslavada. Na verdade, a maior preocupação dessas pessoas não é enganar você, que está fazendo a pergunta, mas enganar a si mesmas, obviamente.

      Para um medo tão grande, corresponde uma ilusão demasiadamente doce. Eu não consigo pensar em uma ilusão mais apelativa do que a vida eterna. Muitos irão contra-argumentar que eu não posso provar o que estou dizendo. Não posso demonstrar por “A mais B” que a crença na vida eterna é uma ilusão. E estarão certos. Mas fato é que não existe uma evidência sequer corroborando a “vida após a morte”. E o meu ceticismo não me deixa acreditar em algo bom demais e sólido de menos.

      Mas é óbvio que eu, como todo ser humano, tenho um meio de encarar a morte mais amigavelmente. Já adianto que é uma tarefa dificílima encarar essa verdade indigesta com realismo e tentar ficar de bem com isso para o resto da vida. Falarei sobre o além-vida no meu próximo texto sobre o tema.

      Morte:

      1. Uma terrível verdade exige uma grande ilusão
      2. O breve e o eterno
      3. A simplicidade inconcebível

      “Nada” é uma palavra criada por nós, seres humanos. Obviamente fomos nós quem criamos todas as outras que existem no vocabulário para designar e dar significado contextual às coisas, mas a palavra “nada” me chama especial atenção. A abrangência dela é enorme e normalmente a usamos tão corriqueiramente que nem percebemos o que de fato ela pode esconder, ou não esconder, e é aí que reside minha perplexidade em relação a ela. Quando alguém nos pergunta o que estamos sentindo e respondemos “não estou sentindo nada”, fica claro que este nada é bastante superficial e se refere a um estado qualquer em que a pessoa se encontra (dor, tristeza, angústia, paixão, depressão, solidão, alegria etc.). Mas, se analisarmos a mesma resposta “não estou sentindo nada” de forma absoluta, perceberemos quão esta palavra só possui valor factual subjetivo, pois não há meios de uma pessoa (viva e consciente) não estar sentindo absolutamente nada. E nesses termos chego ao ponto que desejo abordar.

      Crédulos e incrédulos muitas vezes se “golpeiam” verbalmente na tentativa de cada um dar uma explicação melhor e mais plausível para a origem do universo conhecido ou até mesmo do infinito cosmos (apesar do nosso universo possuir o cognome de “infinito”, ele pode sim ter suas longínquas fronteiras, já o cosmos, não), porém, é muito comum ambos ignorarem que o nada não existe e nunca existiu, e se perderem em pensamentos que jamais os levarão a lugar algum. Esta dificuldade de assimilação é perfeitamente aceitável por termos uma visão padrão de começo, meio e fim e por existirmos. Temos uma visão subjetiva do nada e ao pensarmos no cosmos muitas vezes não conseguimos apartar essa subjetividade de nossas mentes e acabamos pensando equivocadamente que um dia “ele” foi um nada. As estórias religiosas para explicar a origem das “coisas” são de longe as mais irracionais e muitas vezes cômicas, mas isso não significa que não exista uma singela parte de céticos e ateus que insistem em pensar no cosmos como tendo uma “origem” a partir de um nada. Com certeza é nesses moldes que a confusão e as questões naturalmente instigantes se elevam ainda mais. Nem poderia ser diferente. O erro se inicia a partir do momento em que o pensador (crédulo ou incrédulo) tenta desenvolver em sua mente a ideia do nada absoluto. Primeiramente teríamos que compreender o que é o nada, mas visto que ele nunca existiu, caso contrário nada existiria (nada = nada), não temos então que nos esforçar para compreendê-lo. É um pensamento sem lógica e não nos ajuda a entender as coisas. Ao contrário, pois somente nos faz alimentar a absurda ideia da “causa primeira”. Absurda pois com deuses ou sem deuses o nada jamais poderia gerar algo. Seja qual algo for.

      Curiosamente o equivocado nada absoluto assusta as pessoas por elas terem em mente justamente o seu nada subjetivo: o começo, meio e fim da existência orgânica que somos, conscientes ainda por cima. A humanidade, debruçada em centenas de crenças variadas, inventou a “vida eterna”, os “espíritos”, as “almas”, para poder de uma certa maneira conviver bem com a noção da própria morte, esta última representante máxima da ideia distorcida do nada e de toda a aflição humana que isto envolve. Mas esta mesma aflição, considerando-a somente em relação ao nada, curiosamente não tem impacto algum quando pensamos em “quem” não existe ou em “quem” ainda não nasceu (ou nem foi concebido). Um casal que planeja ter um filho em cinco anos, sequer para pra pensar sobre o “nada” em que se “encontra” hoje seu futuro primogênito(a). A não existência pós vida incomoda muito, enquanto a não existência pré vida nada significa aos humanos. Mas por que, se ambas as situações para o efeito da aflitiva não existência são rigorosamente a mesma coisa? No meu entender a resposta que parece ser a mais coerente, além da nossa imensa bagagem emocional, é essa equivocada ideia a respeito do nada. Tanto quando se trata da “origem” do cosmos quanto qualquer outra questão que envolva a tentativa de se “idealizar” o nada absoluto, como a morte tanto nos aparenta ser.

      Alguns filósofos e grandes pensadores já “flertaram” inutilmente com o nada, tentando preencher de maneira até mesmo metafísica o que simplesmente não pode ser preenchido de modo algum, e assim muitos foram à loucura. E pode ser aí, em nossa equivocada ideia sobre o nada, que reside o início da solução de muitos mistérios ainda não descobertos pela ciência. Pode ser na inexistência do nada, na ausência da origem cósmica tão discutida, que se encontre respostas mais esclarecedoras. Talvez esteja na hora de esquecermos a ideia do nada absoluto e voltarmos nossa atenção para algo novo.