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Scientia [1] é um termo latino – similar ao grego γνώση (gnóse) [2] – que, em sentido amplo, significa simplesmente conhecimento ou saber. Do modo como a conhecemos, pode ser dividida em Scientiae empiricae rerum naturalium (e suas disciplinas como física, biologia, química, entre outras), Scientiae axiomaticae (grupo representado pela lógica e pela matemática), Scientiae rerum humanarum (sociologia, história, linguística, filosofia e várias outras) e Scientia mysteriorum (ou místicas, como astrologia e teologia).

Como todas se propõem a estudar uma determinada área do saber, não há que se falar em hierarquia entre si. No entanto, podemos falar sobre a diferença entre o modus operandi de cada uma delas. As ciências naturais são as que gozam de maior confiabilidade na reprodução de seus dados e são conhecidas strictu sensu somente por ciência, por representarem fidedignamente o que se entende por método científico.

Não cabe aqui estabelecer por quais motivos, mas a sociedade em geral é analfabeta em termos científicos, sabendo vagamente somente do prestígio de que uma pesquisa científica goza. Daí ouvirmos frequentemente que algo foi “comprovado cientificamente” como um argumento fortíssimo de autoridade. Afinal, se aqueles malucos de jaleco provaram, é porque deve ser verdade. O nosso acesso à ciência é restrito ao que já foi mastigado pela imprensa não especializada e ao senso comum.

O método científico possui quatro elementos essenciais [3], quais sejam: caracterizações, hipóteses, previsões e experimentos. Cada fase é rigorosamente controlada e geralmente revisada por pares: cientistas da área que tratam de analisar os procedimentos da pesquisa.

Depois de definida a questão a ser estudada, o próximo passo é reunir informações relevantes e recursos de observação. A fase de elaborar hipóteses vem depois da primeira rodada de observações e é a partir dos seus desdobramentos teóricos que poderemos testar a sua veracidade. Eis o processo de coleta de dados, quando os verdadeiros experimentos acontecem: só serão válidos aqueles que forem controlados em todas as variáveis determinantes. Coletados os dados, parte-se, então, para a sua análise. Postas em xeque, as hipóteses iniciais são interpretadas e determina-se, assim, a sua relevância. Vemos durante o processo que o mais importante não é confirmá-las, mas entender o fenômeno. Logo, mesmo descartadas, as hipóteses anteriores servirão como conhecimento acumulado para novas pesquisas.

Os cientistas, então, enviam seus trabalhos para revistas de divulgação científica, como a Science ou a Nature, ou para os jornais especializados de suas áreas. Por serem periódicos de revisão de pares e de submissão anônima, o verdadeiro mérito da pesquisa não está no nome do cientista, mas na reprodutibilidade dos achados por outros pesquisadores nas mesmas condições.

Mesmo com todo o longo caminho até aqui, o mais comum é que se teste tudo outra vez. Por não haver certezas absolutas em ciência, quanto mais testes forem aplicados a determinada hipótese, mais forte ela será, caso passe em todos eles. Se não for forte o suficiente, não serve como ciência e os cientistas ficarão mais do que felizes em saber que têm em mãos um poderoso método autocorretivo. É assim que a comunidade científica descobre as suas fraudes: por mais que não seja imune a pesquisadores de má índole, tem as ferramentas para desmascará-los.

Desnecessário dizer que todos esses passos são repetidos ad infinitum. Alegar cienticificidade a qualquer coisa não é jogar-lhe um nome bonito e qualificar-lhe de forma impenetrável. Muito pelo contrário, é expor ao máximo aquela alegação de verdade, que somente se sustentará caso realmente seja condizente com a realidade.

Infelizmente para muitos, a ciência só trata das coisas observáveis e, portanto, inegavelmente reais. Para estas pessoas, esse escrutínio pode ser substituído por alegações vagas, que pouco ou nada demonstram para comprovar sua validade. De fato, falham de forma embaraçosa em apontar o próprio fato que serviria de ponto de partida para suas pesquisas. Travestir esse tipo de informação de ciência strictu sensu é um insulto a todos aqueles que seguem à risca a cartilha do estudo sério e relevante.

Eis todo o nosso conhecimento científico sobre todas as questões ditas fundamentais sobre nossa existência. Independemente de serem consideradas perguntas válidas ou não, todas foram satisfatoriamente respondidas. Infelizmente, não parece ser o bastante. Mesmo depois de tanta informação, o crente continua com a mesma posição que tinha antes de todas essas respostas: “não é o bastante”. É esse tipo de insatisfação que rege a nossa tragédia. Contra ela, não importa o quão boas sejam as respostas: ignorá-las faz parte da crença. Tudo isso para que, depois de todas as perguntas incrível e desnecessariamente céticas, a resposta seja um insosso e desejoso “foi deus”.


Notas:

[1] http://la.wikipedia.org/wiki/Scientia [em latim]

[2] http://el.wikipedia.org/wiki/Γνώση [em grego]

[3] http://en.wikipedia.org/wiki/Scientific_method#Elements_of_scientific_method [em inglês]


Da insatisfação I: Como surgiu o universo?

Da insatisfação II: Como surgiu a vida na Terra?

Da insatisfação III: O que é a consciência?

Imaginemos um biólogo dedicando-se a um projeto de classificação de cisnes. Ao observar o primeiro cisne, a característica mais marcante é o fato de ser uma ave branca. Ele observa o segundo, também branco. Observa um milhão de cisnes, todos brancos. Quantos cisnes precisariam ser observados para que, enfim, possamos induzir que todos os cisnes são brancos?

Pela lógica, nunca poderemos fazer essa afirmação com absoluta certeza, pelo menos não enquanto todos os cisnes do universo ainda não tiverem sido observados; o que, obviamente, é impossível. Temos então um problema: as leis de Newton, por exemplo, tratam justamente de uma generalização para repetidas observações; assim, como poderíamos confiar nessas leis se não as testamos infinitas vezes com infinitas variáveis?

Cisnes Negros

Cisne Negro Australiano, a hipótese do nosso biólogo foi falseada.

Este problema, inicialmente observado por David Hume no século XVIII, foi uma pedra no sapato dos cientistas. Todos tinham plena confiança de que, não importando quantas vezes se repetissem os testes, os resultados seriam sempre previstos pelas leis de Newton. A prática contrariava a lógica e isso era inaceitável para os filósofos da ciência.

A solução para este problema foi desenvolvida pelo filósofo Karl Popper, que observou que todas as nossas generalizações, que podemos chamar agora de teorias, estão sempre sujeitas aos fatos. Por mais abrangente e precisa que seja, sempre haverá a possibilidade de um novo fato vir à tona e contrariar a teoria. A isso dá-se o nome de falseabilidade.

Uma vez que todo o conhecimento científico é composto por teorias variadas, para definirmos se uma hipótese é científica, basta observarmos se esta hipótese é falseável. Porém, antes de procurarmos exemplos práticos, vale notarmos a diferença entre hipóteses e teorias num enfoque científico.

Teorias e hipóteses são, popularmente, consideradas como palavras sinônimas. Porém, para os cientistas, uma hipótese é um conceito muito inferior a uma teoria na hierarquia das ideias. Quando estamos diante de um fato não explicado, podemos considerar inúmeras hipóteses para explicá-lo; as hipóteses servem-nos para direcionar os esforços à próxima etapa, a experimentação. Quando uma hipótese resiste à experimentação ela pode, então, ser considerada como uma teoria. Assim como os cisnes brancos, para uma teoria ser considerada absolutamente correta precisaríamos testá-la infinitamente, o que é impossível. Mas basta apenas uma falha, uma única falha, e a teoria se torna inválida. A experimentação, portanto, não busca provar que a teoria está correta, pelo contrário, busca comprová-la como falsa.

Podemos ver que o avanço da ciência depende muito pouco dos experimentos que confirmam as teorias. Poderíamos passar séculos confirmando as Leis de Newton que não traríamos nenhum avanço significativo para a ciência. Muito mais faria pela ciência aquele que demonstrasse uma falha nas leis de Newton. E isso, de fato, foi feito por um físico chamado Albert Einstein.

Albert Einstein

Observemos, então, a falseabilidade de algumas teorias científicas famosas.

Teoria da Evolução: É a teoria que explica a diversidade das espécies por meio de mutações e seleção natural. Para falseá-la, basta encontrarmos uma espécie que não tenha qualquer relação com nenhuma outra espécie. Por exemplo, se encontrarmos um cavalo com asas, um Pegasus, a Teoria da Evolução não tem como explicar tal criatura, afinal, uma asa não pode aparecer em um cavalo sem uma série de registros fósseis de espécies intermediárias. Caso encontremos algo parecido, a Teoria da Evolução será falsa.

Teoria do Big Bang: É a teoria que explica o surgimento do universo por meio da explosão de uma partícula infinitamente densa e quente. Caso observemos, com um telescópio bem potente, um ser barbudo criando o universo, a teoria do Big Bang seria derrubada.

OK, imagino que o leitor não tenha ficado satisfeito com o último exemplo. Pode ser um exemplo idiota, mas derrubaria a Teoria do Big Bang caso fosse observado, nisso creio que todos podemos concordar. Uma teoria é falseável mesmo que possa ser falseável por um exemplo imaginário, idiota e impraticável; mesmo assim, uma teoria é falseável.

Voltemos agora à coluna da semana passada, na qual afirmei que o conceito da falseabilidade pode dar o golpe de misericórdia em qualquer hipótese não científica.

Não há nenhuma maneira de comprovarmos que o criacionismo não existe. Mesmo que, com uma máquina do tempo, observemos as pequenas mutações e variações da primeira bactéria até o homem, não é possível excluir que uma “inteligência superior” tenha determinado tais mutações.

Mesmo que tentemos praticar o suicídio com uma fórmula homeopática do veneno mais potente e não tivermos sucesso, não conseguiremos derrubar a possibilidade de que a homeopatia funciona, mas não para matar. Esse teste, aliás, foi feito na Bélgica.

Como comprovar então que o espiritismo é falso? Nem mesmo desmascarando todos os médiuns. Nem mesmo morrendo e voltando à vida sem ter visto nenhum espírito. Nada disso seria capaz de abalar a crença de qualquer kardecista.

Fica aqui o desafio aos leitores: um teste, por mais bizarro que seja, que consiga provar definitivamente e sem sombra de dúvida que espíritos não se comunicam conosco. Mandem seus testes pelos comentários. Aquele que, em um mês, chegar mais perto ganhará um exemplar do livro O mundo assombrado pelos demônios, de Carl Sagan.

Aparição

Chico Xavier com a materialização da Irmã Josefa. Uberaba 1965