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Durante todo o dia, bilhões acordam, trabalham, almoçam, se entretêm e dormem. Desses bilhões, alguns milhões morrem e outros nascem. Mas sempre temos uma quantidade enorme de gente, muitas delas estão confinadas em áreas relativamente pequenas as quais denominamos “cidades”. Acontecem crimes, crueldades, mortes estúpidas, mas o grreosso da população sobrevive ilesa a mais um dia e continua vivendo normalmente. Tudo parece funcionar em sintonia. Poderia ser diferente. Durante o dia, esses bilhões poderiam acordar, matar seus semelhantes, roubar o que desejassem e ir dormir. O número de mortos seria muito maior, com certeza, e a qualidade de vida de todos decresceria abruptamente.

Existe uma harmonia tênue, que permite o bem estar e a sobrevivência da maioria. A hipótese mais aceita, pelo menos aqui no Brasil, é a de que existe um “coordenador”. Algo além das pessoas monitora suas atividades e faz com que elas não se destruam em uma massa caótica. Outros diriam que não existe um “coordenador”, mas sim um “criador” que já nos fez dessa maneira, com um senso de moral embutido capaz de minimizar a desordem e maximizar o bem estar. Para estas pessoas, algo externo a humanidade tem que existir caso contrário a moralidade, que seria algo maior e que transcenderia as aspirações egoístas de cada um, não existiria. Da mesma maneira que um rebanho não se conduz ordenadamente sem um devido pastor.

A ideia é: sem esse “coordenador/criador”, sem esse “pastor”, a ordem dá lugar ao caos. Todo o ateu que já conversou abertamente sobre sua descrença ouviu certas perguntas. Uma particularmente muito idiota é: “se não existe deus, o que te impede de sair matando por aí?”. Alguém que faz essa pergunta só pode estar em duas categorias possíveis. Ou é um psicótico, cujo único motivo para não iniciar uma chacina é o seu medo por uma entidade sobrenatural. Ou, como imagino eu ser o caso da grande maioria, a pessoa em questão simplesmente não parou para pensar no problema devidamente. Alguns religiosos perceberam a ingenuidade e, conhecendo o comportamento não-genocida de algum ateu, alegam que a descrença em deus não impede a ação deste sobre nosso senso de moral. Realmente, se existe um deus e ele é o responsável pela nossa moral, a crença ou descrença faria pouca ou nenhuma diferença.

A hipótese de um agente coordenador se baseia em certas premissas. Uma delas é a de que a natureza não construiria por si só um comportamento no qual alguns se sacrificariam pelo bem alheio. Outra premissa é a de que motivações egoístas não podem dar origem ao altruísmo. Partindo dessas premissas conclui-se que a moral vem de fora e não de raízes naturais, como através da evolução, por exemplo.

Vamos analisar primeiramente a segunda premissa. Segundo certos teístas, nada impede um ateu de dar início a uma matança. Bom, esse seria o exemplo extremo de desvio moral. Comecemos com a pergunta: O que eu ganho matando pessoas? Sim, porque deve existir alguma recompensa muito boa reservada para os assassinos em séries, visto que é preciso um castigo eterno para impedir que isso aconteça. Eu desconheço tal recompensa. Por outro lado, o que eu perco matando pessoas? Bom, comecemos pela prisão, que não deve ser nenhum resort, principalmente se você for um genocida. Mas ignoremos a ação da polícia, suponhamos que não há polícia alguma e que você more em um vilarejo isolado. Mais uma vez, você despertará a ira dos habitantes que irão se vingar de ti. Agora imaginemos que você tenha aniquilado todos do vilarejo, neste caso, que bela babaquice o senhor fez. Para que serve um vilarejo deserto, sem ninguém para trabalhar, sem ninguém para você conviver? Convenhamos, os casos em que a matança traria benefícios mesmo para o mais egoísta dos psicopatas são, no máximo, muito raros.

Em um caso menos extremo, pensemos em um aleijado que derrubou a sua muleta debaixo do banco de uma praça. O que você ganha ajudando-o? Em termos estritamente egoístas, nada. Só que, não sei quanto a vocês, mas eu não acho uma boa visão a de um aleijado se entortando todo para tentar pegar sua própria muleta. É por isso que a maioria aqui, caso visse alguém nesta situação, pegaria a muleta para o aleijado. Sob outro ponto de vista, o que você perde ajudando-o? Quase nada, um pouquinho de tempo e um pouquinho de energia, quantidades irrisórias. Isso explica porque a maioria de nós se sente mais compelido a ajudar um aleijado do que sair matando por aí.

Podemos concluir que existe sempre um motivo egoísta por trás do altruísmo. Uma mente simplória pode interpretar isso de uma forma bem mais asquerosa do que deveria ser. Quando falo em motivos egoístas por trás de atitudes nobres eu não falo de segundas intenções, chantagens ou exploração. Falo da própria satisfação pessoal. Nem que essa satisfação consista em não ver um aleijado apanhando para pegar a sua muleta debaixo do banco. Mas a questão continua em aberto: porque nos sentimos satisfeitos com isso, mesmo que minimamente? Resposta evolucionista padrão: porque é adaptativo.


Imagem de Messier 92, um aglomerado globular. - por Achut Reddy/Flynn Haase/NOAO/AURA/NSF


Sobre os benefícios adaptativos no altruísmo, existe uma discussão muito grande sobre o assunto. Eu mesmo falo um pouco sobre isso neste texto. Existe um padrão observável de organização na natureza. A tendência é que os corpos mais caóticos se aniquilem, e os menos se perpetuem. Isso vai muito além da sociedade humana. Um exemplo são os aglomerados estelares. Nestes aglomerados podem existir até um milhão de estrelas. Acontece que essas estrelas não são estáticas, elas possuem órbitas, muitas vezes fortemente elípticas, e nenhuma delas se choca com a outra. A situação é análoga, poderíamos sugerir algo externo ao aglomerado que projetou as órbitas com tanta precisão que o choque entre elas é raro ou inexistente. Deve-se salientar que o que enxergamos nem sempre foi assim. Esses aglomerados normalmente são muito antigos – principalmente os globulares – e muitas das estrelas que lá estavam originalmente foram destruídas através do choque, sobrando apenas aquelas cuja órbita não interrompia a órbita alheia. O que fica após alguns milhões de anos de choques e explosões é um sistema harmônico que dá a ilusão de ter sido projetado.

Mas porque prefiro a abordagem naturalista perante a sobrenatural? Existem alguns pontos incoerentes na crença de um coordenador/criador. A primeira está na imperfeição do mecanismo, que ainda assim permite sofrimento e exploração. Isso é um problema apenas se o coordenador/criador em questão é considerado perfeito. É o deus normalmente presente nas grandes religiões abraâmicas. Nem vale a pena se ater nesse ponto, pois Epicuro já fez isso muito antes e muito melhor do que eu poderia fazer. Mas o maior problema é o mesmíssimo problema que a hipótese teísta encontra em diversas áreas: “explica-se” um mistério apelando para um mistério maior ainda. Poderíamos explicar a moral através de um suposto criador, mas como explicaríamos o criador? A curiosidade teísta para quando deus entra. Novamente, o que temos não é uma “explicação”, mas sim uma lacuna na qual deus coube com conforto.

Não há nada que possamos construir que dure para sempre. Uma máxima rasteira, é claro, mas não menos real por isso. O fato de termos um cérebro e um sistema cognitivo de raciocínio é só uma maneira de nos relacionarmos com o mundo, interpretando os dados sensoriais obtidos para maximizar as funções de sobrevivência individual. Podemos nos enganar facilmente, desde que isso signifique vantagem na luta pela vida.

Um bom exemplo é o de uma pintura. Peguemos uma obra extremamente perfeccionista em seus detalhes e analisemos o que ela nos mostra. De longe, vemos todas as pessoas, as paisagens, os objetos e tudo o mais bem definidos. Ao nos aproximarmos, ao invés de observarmos nuanças mais específicas, vemos tão-somente a textura da tela e da tinta, no que parecem ser pequenos borrões sem sentido.

E não poderia ser diferente. Não temos a capacidade de emular todos os detalhes da natureza. Só em nosso corpo são trilhões de células que deveríamos refazer, uma a uma, em uma simples fotografia. Convenhamos: todo esse trabalho resultaria em nada além de um prazer indelével por parte do artista, mas com pouca ou nenhuma aplicação prática.

Assim são as nossas teorias do comportamento humano. Fortes à distância, mas fracas nos detalhes. Elas servem bem no que tange o mundo prático, mas falham inevitavelmente nos detalhes. E só precisamos que alguém as olhe mais de perto para perceber a falta de coesão entre as partes. São esses os destruidores, os filósofos da destruição.

Eis o bônus do ceticismo em sua maior glória. Eis a razão de um ateu destruir qualquer argumento religioso em favor de deus(es). Ora, são simples ideias jogadas no mundo; não retiradas dele. Assim, não importa quantos detalhes se criem para uma determinada divindade, é um trabalho extremamente fácil desmontá-la e percebê-la como uma criação humana.

Na filosofia, nomes como Schopenhauer, Nietzsche, Sartre e Cioran foram grandes destruidores de mitos criados por nós e espalhados como verdades. A moral, os deuses, a essência humana… todos foram sistematicamente destruídos. Mas por que nos agarramos tanto a esses conceitos, como se fossem verdade? Simplesmente porque precisamos justificar nossas ações racionalmente.

Dessa feita, esperar-se-ia que uma justificação racional antecedesse a ação, mas, no entanto, ela sempre a segue. São sempre explicações ad hoc para comportamentos pré-programados. Como só buscamos uma desculpa para continuarmos fazendo o que fazemos, adoramos os construtores e não atentamos para as falhas em seus edifícios, só porque queremos viver neles. E, então, passamos a odiar os destruidores porque nos tiram das ilusões de nossas casas e nos mostram que sempre vivemos na rua.

Em geral, pensamos na religião como a verdadeira guardiã da moralidade humana, sem a qual a sociedade se desintegraria. Acredita-se que, sem Deus, tudo é permitido. Por que pensamos dessa forma? Porque é mais fácil decorar chavões que pensar no assunto. Assim, tentemos entender por que a religião, em termos morais, é algo virtualmente inútil, possuindo, na prática, apenas um valor marginal. De início, percebamos que os valores morais defendidos por esta ou aquela religião fazem sentido. O fato, entretanto, é que, ao levá-los adiante, nunca conseguimos alcançar os resultados que prometem. Por quê? Porque partem de pressupostos falsos. Por idealizar o homem, os princípios morais que a religião elabora são algo impossível de ser posto em prática, pois dizem respeito a algo que não existe. Não há como esperar que valores feitos para espíritos funcionem para primatas. O que sinceramente poderíamos esperar da moralidade um macaco que se acredita dotado de uma alma eterna a ser julgada por um superchimpanzé imortal que mora na estratosfera?

Ademais, na elaboração de tais princípios de sublime irrelevância, ela não apenas erra o alvo sistematicamente, como também nunca demonstra uma abordagem positiva. A religião não busca solucionar os problemas, mas evitar que surjam por meio da negação de nossa natureza. Busca nos acovardar perante o mundo e perante nós mesmos, desviando nossos olhares do presente e encorajando uma miopia passiva que nos será recompensada no além. Para ilustrar, vejamos a questão do seguinte modo: a função da moral é administrar os problemas sociais decorrentes do fato de sermos humanos. Qual é a solução religiosa? Desumanizar o ser humano, isto é, negá-lo, castrá-lo, torná-lo doente, i.e. espiritualizá-lo. Seu valor, portanto, é meramente negativo. Seus princípios não são respeitados por seres úteis ou racionais, mas por terem respaldo do criador dos céus e da terra, proporcionando algum sentimento de segurança àqueles que os seguem. Essa é a única utilidade da religião no âmbito moral. Trata-se de uma contribuição indireta, de um pretexto para agirmos moralmente, ainda assim, não como homens, mas como serviçais de fantasmas.

Analisemos um pouco mais a questão. Sabemos que uma parcela considerável da população mundial é religiosa e acredita em divindades moralistas. Não parece estranho, entretanto, que vejamos como extremistas os que efetivamente seguem os princípios de sua religião? Na prática, os que governam suas vidas em função de tais princípios são considerados fanáticos alienados, doentes mentais. Porém, se a religião fosse algo realmente verdadeiro, não é exatamente isso o que deveríamos fazer? Mas não fazemos. Religiosos ou não, somos humanos, e nossa intuição prática nos diz que há algo de muito errado nos valores morais religiosos. Muito poucos, na vida real, levam tais princípios a sério. Como isso se explica? Vejamos: por que julgamos inadmissível que se coloque Deus acima da lei? Exatamente porque não tratamos Deus como algo real — não ao pé da letra —, e sim como algo que se escolhe, semelhante a um time de futebol ou a um partido político, ou seja, como um assunto pessoal e privado. Então, no fim das contas, tratamos Deus como aquilo que é: uma crença. Pois bem, isso significa que, em regra, não se acredita literalmente em Deus, acredita-se na crença em Deus. Afirmam acreditar em Deus, mas agem como se ele não existisse. Usemos o mito da criação para exemplificá-lo. Alguém realmente acredita que o mundo foi criado em seis dias? Sabemos que se trata de uma mentira óbvia; não apenas algo improvável, mas absolutamente ridículo, tanto que nem mesmo os fiéis da inerrância bíblica conseguem acreditar nisso literalmente, vendo-se forçados a elaborar sofisticadas interpretações simbólicas para justificar essa paspalhice que algum lunático tirou da cartola. Então por que respeitamos tais crenças? Por questão de boas maneiras. Pelo mesmo motivo que não dizemos às pessoas obesas que são obesas, aos paraplégicos que são paraplégicos, e assim por diante. Sabemos da verdade, mas não a dizemos simplesmente para não magoá-las, para não ferir seus sentimentos, pois viver já é duro o bastante, e não precisamos jogar à cara dos indivíduos suas limitações, defeitos e inépcias simplesmente porque isso é verdade. Não julgamos que estar certo é uma justificativa boa o suficiente para ser rude e grosseiro.

Como qualquer dependente, aquele que precisa de crenças religiosas estapafúrdias para conseguir ser moral provavelmente tem problemas em lidar com a realidade. Não zombamos de suas crenças não porque elas nos inspirem qualquer respeito, mas simplesmente para poupá-los, para não tornar sua vida ainda mais difícil. Basta que imaginemos como seria nossa vida se dependêssemos de mentiras para viver em paz, se tivéssemos de defendê-las como se fossem verdades, mesmo sabendo perfeitamente bem que são mentiras, e isso nos dará uma ideia de como acreditar em besteiras deve ser difícil. Por exemplo, caso precisássemos acreditar que no céu vive um holograma suicida três-em-um; caso precisássemos acreditar que nossos entes queridos são vertebrados imortais. Como continuar a acreditar quando a realidade toda demonstra que estamos completamente errados? Nossa única alternativa viável seria não pensar muito no assunto — e é exatamente o que se faz. Isso porque, para qualquer indivíduo educado, deve ser extremamente perturbador ter de acreditar nessas asneiras. Então supomos que, se acredita em algo tão desvairado, deve ter bons motivos para isso — e como esses motivos são invariavelmente vergonhosos, temos a boa educação de deixá-los em paz com suas demências. O fato é que ninguém precisa de Deus porque ele não existe, mas da crença em Deus muitos precisam, e esse é o único motivo pelo qual respeitamos tais crenças. Claro que, pessoalmente, não temos dúvida alguma de que se trata de uma idiotice sem tamanho.